A imagem da mulher no romance contemporâneo: uma leitura de a república dos sonhos, de nélida piñON



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A IMAGEM DA MULHER NO ROMANCE CONTEMPORÂNEO: UMA LEITURA DE A REPÚBLICA DOS SONHOS, DE NÉLIDA PIÑON

Lúcia Osana Zolin

Universidade Estadual de Maringá (UEM)

Nossa leitura do romance A república dos sonhos, publicado em 1984, procura demonstrar que a escritora Nélida Piñon desenha subjacentemente, por entre as teias da ficção, a trajetória da emancipação feminina. Isso implica dizer que a análise do modo como foram construídas as personagens centrais deste importante romance da literatura brasileira contemporânea aponta para a constituição de um painel em que se podem vislumbrar os diversos estágios por que passou a mulher até atingir a emancipação (relativa) de que gozava nos anos 1980, época em que o romance foi escrito.

Ao perscrutarmos, segundo uma ótica que pressupõe os postulados do feminismo, a evolução das trajetórias de Eulália, Esperança e Breta (respectivamente, esposa, filha e neta de Madruga, o protagonista do romance e o patriarca da família), somos levados a reconhecer nela a mesma lógica que marcou a evolução das conquistas sociais da mulher no século XX, viabilizadas pelo movimento feminista. Dito de outra forma, o modo como essas personagens foram construídas nos convida a fazer associações com o percurso histórico da mulher, galgado nos limites do século passado, rumo a sua emancipação, sobretudo se as analisarmos em conjunto e segundo uma ordem cronológica, partindo da esposa, passando pela filha até chegarmos na neta. Vejamos o quadro abaixo:

OPRESSÃO

Emancipação

Ao pensarmos A república dos sonhos como um discurso feminino marcado pela busca da desconstrução de espaços convencionais e negativos em que a mulher foi inserida, faz-se fundamental, de acordo com o que apregoam os postulados das últimas tendências da crítica feminista, remetermo-nos à situação político-cultural do Brasil, como o locus da enunciação desse discurso. Trata-se de um país que encerra em si uma organização política e cultural complexa e plural, resultante do processo de colonização e imigração. Por isso se oferece como um ambiente fértil para suscitar questionamentos sobre diferenças sociais e culturais e sobre construção de identidades.

A literatura é, por excelência, o lugar em que tais questionamentos são articulados e identidades, construídas. De acordo com a análise de Bonnici (2000), a literatura brasileira, examinada à luz do pós-colonialismo, “revela vozes de resistência, modalidades de submissão e posicionamento pós-colonial” (p. 268). Essa é uma tendência que remonta aos primeiros literatos brasileiros (educados em colégios jesuítas ou em escolas portuguesas), que, ao contrário da maioria da população a quem era negada a voz, podia assumir uma postura de resistência, por integrarem uma sociedade intermediária entre os subalternos colonizados e os colonizadores.

Segundo Spivak (1994), no contexto da produção literária colonial não é permitido ao subalterno falar, ou seja, não lhe é dado o direito à voz; muito menos ao subalterno feminino, tomado como sendo duplamente submisso: por ser subalterno em relação à metrópole e por ser subalterno nas relações de gênero.

Outros(as) críticos(as) feministas, menos pessimistas, por assim dizer, trabalham no sentido de identificar, seja em sociedades coloniais, seja nas independentes, a maneira através da qual a mulher, historicamente tomada por subalterna, pode falar de um lugar de alteridade. Um lugar que, ao invés de se caracterizar pela enunciação do silêncio ou do vazio, caracteriza-se pela transgressão de valores arraigados pelo sistema imperial e patriarcal.

Sobre a literatura de autoria feminina, Almeida (1999, p. 699-70), baseada nas reflexões de Showalter, pondera:

A escrita se torna, então, um espaço alternativo através do qual se possa [...] retomar como uma área de questionamento o espaço do outro, as brechas, os silêncios e ausências do discurso e da representação aos quais o discurso feminino tem sido relegado. A escrita se transforma numa possibilidade, num espaço que serve de impulso subversivo para a expressão de uma voz feminina que encontra em sua própria alteridade os meios de evasão. Portanto, para essas escritoras, uma escrita através, sobre e proveniente destes “espaços de alteridade” se desenvolve como uma estratégia altamente transgressiva.

Considerando a trajetória da emancipação feminina retratada em A república dos sonhos, segundo nossa leitura, não podemos nos remeter ao tom do discurso da autora, aí, sem fazer referência à transgressão que o caracteriza.

De acordo com a personagem que focalizarmos, dentre o trio composto por Eulália, Esperança e Breta, constatamos graus diferentes de transgressão permeando-lhes o percurso narrativo. Em um certo sentido, ao retratá-las segundo essa lógica, Nélida Piñon, intencionalmente ou não, resgata as características femininas de cada etapa do caminho percorrido pela narrativa de autoria feminina, de acordo com a classificação de Elaine Showalter (1985): a etapa feminina, a feminista e a fêmea.

Ainda que não encontre sentido no tipo de vida que lhe foi permitido tomar para si, Eulália, ao desempenhar o papel de “rainha do lar”, convencionalmente atribuído a seu sexo, aproxima-se do perfil das heroínas peculiares à primeira etapa das narrativas escritas por mulheres, a feminina, sobretudo no que se refere à reduplicação dos padrões éticos em voga no mundo patriarcal. A transgressão, aqui, fica, apenas, por conta do desfecho de sua trajetória: a opção pela morte.

Nessa ordem de idéias, o modo de construção de Esperança lembra-nos os moldes da fase feminista, essencialmente carregada com as tintas do protesto e da ruptura com a tradição patriarcal, de forma a trazer à baila, por meio de constantes transgressões dos valores patriarcais, prementes discussões acerca das relações de gênero.

E, finalmente, Breta vem para materializar a personagem feminina própria da literatura feita por mulheres deste final de século, momento em que o feminismo é tido “como um fato consolidado, em grande parte do Planeta, precisando-se apenas ‘negociar’ os aspectos que devem ser reforçados no plano prático para obter-se a afirmação de um novo tipo, mais dialógico, de sociedade” (LOBO, 1999, p. 41). Estamos diante da mulher própria da fase fêmea de que fala Showalter cuja origem dos conflitos não gira mais, invariavelmente, em torno das relações de gênero, conforme constatamos acontecer na trajetória de Esperança.

A busca, caracterizadora da fase feminista, da “identidade feminina”, que estaria sendo escamoteada pelas verdades universais masculinas, é, na fase fêmea, substituída pela preocupação da mulher em reconhecer-se como diferente em relação ao homem. Assumir-se como “diferente” implica afastar-se da pecha da falta de “identidade” para afirmar a alteridade da mulher, abrindo espaço para as interrogações sobre si mesma e sobre a ocupação de papéis ativos na “história”. Eis o estatuto da construção de Breta; eis o lugar fundamental do discurso feminino da transgressão em A república dos sonhos.

Essas três personagens que delineiam a linha evolutiva a que nos referimos, subversora dos papéis femininos ditados pela tradição patriarcal, descrevem um movimento ascendente que aponta para a emersão do mundo interior em direção ao exterior. A imagem meio borrada que o leitor abstrai ao perscrutar a trajetória de Eulália, um misto de insatisfação e resignação, vai ganhando contornos mais nítidos em relação à Esperança, que esbraveja, tornando pública sua insatisfação, para atingir a plena nitidez em Breta.

A trajetória desta já se inicia pressupondo que a problemática referente às relações de gênero, tão presente em Esperança, está superada. Ela se abstém dos questionamentos relacionados ao saber quem é, o que quer e o que pode a mulher em face do homem, em favor do reconhecimento de si mesma. Esse reconhecimento de si como mulher e indivíduo a leva a estabelecer um novo tipo de relação com a realidade circundante: ao invés da resignação ou, por outro lado, do constante confronto com os valores patriarcais vislumbrados nas outras duas personagens em questão, o que se observa nela é uma postura de independência.

A trajetória de Breta, portanto, faz emergir uma nova realidade feminina; uma realidade em que a mulher aparece liberta das amarras dos papéis sociais pré-determinados pelo senso-comum da ideologia patriarcal. Os padrões rígidos de comportamento são desprezados ou filtrados pelo seu crivo — o crivo de quem sabe o que é e o que quer.

Isso implica para o universo da grei de Madruga a proposição e, de certa forma, a imposição de um novo modelo de organização social. Nesse modelo, as oposições do tipo homem-dominador/mulher-dominada, tão recorrentes no romance, são eliminadas em favor da conciliação das diferenças e da preservação da identidade de cada um dos sexos.

Breta se materializa como uma personagem psiquicamente resolvida. O seu autoconhecimento a torna capaz de “ler” o mundo circundante, tendo a si própria como referencial e não as normas e os tabus patriarcais. É desse modo que ela, movida pela missão de narrar a saga de seus familiares e agregados, se posiciona frente às vicissitudes dos mesmos — ouve histórias, recolhe depoimentos, vasculha gavetas, lê diários, cartas e bilhetes — sedenta em entender-lhes o mecanismo que move suas ações. É o romance se fazendo; o resultado o leitor bem pode avaliar: uma lúcida reflexão a respeito da história da mulher em meio a muitas outras lúcidas reflexões.

À maneira da mulher da realidade extraliterária, sua contemporânea no momento presente da narrativa, talvez mais (por que não?) à maneira da mulher do limiar do século XXI, a neta de Madruga ocupa o seu espaço no centro das relações sociais (ou quase nele). Sua atuação na narrativa, longe de girar em torno da luta pela desconstrução de oposições binárias como masculino x feminino; dominador x dominada; opressor x oprimida; razão x coração; abstrato x concreto; civilização x natureza etc., toma-as como superadas. O resultado que daí se abstrai é a afirmação dessa superação. Dito de outra forma, a trajetória de Breta, por si, concorre para o desentranhamento de conceitos polarizados na linguagem dominante.

Nélida Piñon, portanto, nesse importante romance dos anos 80, que enfoca não apenas a evolução das conquistas da mulher no século XX, mas diversos aspectos da realidade hispano-americana, constrói as personagens femininas sem perder de vista a dimensão histórica da mulher na realidade extraliterária.

As últimas tendências dos estudos feministas apontam justamente para o fato de não se poder definir a mulher a partir de uma possível essência rígida, e sim de uma abordagem que se espelhe em sua realidade concreta, em sua cultura, no seu modo de estar em sociedade, tudo em constante evolução, tudo muitíssimo diferente do que se verificava há 100, 50, 30 anos.

Tendo em vista o atual status quo feminino, facilmente observável nas mais elementares relações sociais, a maneira acima referida de o topo da crítica feminista contemporânea se posicionar frente à tão discutida condição social da mulher, relega quase à extinção as teses que explicam a discriminação da mulher através de elementos naturais.

Pelas mesmas razões (se é certo que a arte imita a vida), a literatura, sobretudo aquela de autoria feminina, de cunho feminista, tende a retratar, cada vez menos, mulheres enredadas nas relações de gênero. Nélida Piñon parece ter se dado conta de tal fato bem cedo: Breta é a constatação disso.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


ALMEIDA, S. R. G. O lugar do discurso feminino da transgressão. In: SEMINÁRIO NACIONAL MULHER E LITERATURA, 7., 1997, Niterói. Anais... Niterói: EDUFF, 1999. p. 698-704.

BONNICI, T. O pós-colonialismo e a literatura: estratégias de leitura. Maringá: EDUEM, 2000.

­LOBO, L.Literatura de autoria feminina na América Latina. Rev. Mulher e Liter., Rio de Janeiro, 1998. Disponível em: <http://www.openlink.com.br/nielm/revista.htm> Acesso em: 17 jun. 1999.

SHOWALTER, E. A literature of their own. New Jersey: Princeton UP, 1985.



SPIVAK, G. Can the subaltern speak? In: ______. Colonial discourse and post-colonial theory. New York: Harvester-Wheastsheaf, 1994. p. 66-111.

ZOLIN, L.O. Desconstruindo a opressão: a imagem feminina em A república dos sonhos, de Nélida Piñon. Maringá: Eduem, 2003.
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