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A história gráfica do telejornal brasileiro: Um introdução à análise dos selos do Jornal Nacional




Doris Kosminsky - doriskos@terra.com.br

Mestranda em Design, PUC-Rio, Editora de Arte – TV Globo

Palavras-chave: televisão, telejornal, selos, história, mídia, imagem gráfica.

Nas suas teses para um conceito de história, Walter Benjamin considera a necessidade de construção uma nova História1. Para Benjamin, essa História não poderia ser apenas a história linear dos grandes feitos, mas uma história que soubesse valorizar as minúcias, as coisas esquecidas e aparentemente secundárias para, a partir delas, possibilitar a condensação de sentido de uma época.

Neste contexto, acreditamos que a formulação de uma história da mídia, e especificamente do telejornalismo, não deve apenas examinar as informações consideradas essenciais, vinculadas à linguagem verbal. Ela pode e deve incluir em seu escopo outras formas, como por exemplo, a expressão gráfica dos telejornais. Ao lado da notícia, a sua representação gráfica, um resumo visual de rápida apreensão.

O presente trabalho propõe um olhar sobre os quase vinte anos de produção dos selos do Jornal Nacional com o objetivo de colaborar na construção de uma história da mídia brasileira. Este texto é parte da dissertação que será defendida neste ano, para obtenção do título de Mestre em Design, pela PUC-Rio. Essa pesquisa compreende um levantamento dos selos exibidos entre os anos de 1983 e 2002, pesquisados no arquivo da TV Globo, de forma a obter um conjunto que exiba um panorama do seu desenvolvimento. Esse estudo parte da premissa de que os selos são signos gráficos que atuam somando informação às notícias apresentadas, reforçando o seu conteúdo temático e fixando a atenção do espectador. Os selos - nome que em telejornalismo se dá à composição de elementos gráficos que fica ao lado do apresentador, caracterizando o conteúdo da matéria – mesmo não sendo o elemento principal de um telejornal, participam na transmissão da notícia, contanto, à seu modo, uma história.

Assim, uma análise temática dos selos do Jornal Nacional ao longo do tempo pode expor fenômenos sociais marcantes de cada época e sua representação nos meios de comunicação de massa. Espera-se que a observação destas interpretações gráficas possam contribuir para uma história do telejornalismo e da própria televisão brasileira.


Está no ar o Jornal Nacional
No dia 1º de setembro de 1969 o Jornal Nacional foi ao ar pela primeira vez. Naquela noite, Hilton Gomes e Cid Moreira informaram ao país que uma junta militar governava o país desde o dia anterior. A junta formada por ministros militares aplicou um golpe dentro do golpe, substituindo o presidente Costa e Silva - incapacitado por problemas de saúde - e impedindo que o seu vice-presidente, um civil, tomasse posse. Começavam no mesmo dia a integração nacional pela notícia e o recrudescimento do governo militar.

O Jornal Nacional estreou tendo em mira o sucesso de audiência do Repórter Esso e a respeitabilidade que um noticiário poderia trazer à TV Globo. Segundo Armando Nogueira, diretor da Central Globo de Jornalismo à época da criação do telejornal, o noticiário foi a pedra de toque de um projeto bastante ambicioso que previa a geração de uma programação uniforme para todo o Brasil2. Neste momento, a Rede Globo estabeleceu a sua primeira grande aliança com a tecnologia, iniciando o emprego dos satélites para a difusão de notícias e também para obter um maior alcance de suas fontes, nacional e internacionalmente. O seu estilo de apresentação também era novo, na postura formal do locutor, no emprego de efeitos visuais e principalmente na sua transmissão ao vivo para seis das principais cidades brasileiras, inicialmente.

As inovações do Jornal Nacional foram tão marcantes que pareciam sugerir que havia sido criada uma nova linguagem, mais apropriada ao veículo. “Claro que não foi a Globo que criou o telejornalismo, mas foi ela que eliminou o improviso, impôs uma duração rígida no noticiário, copidescou não só o texto como a entonação e o visual dos locutores, montou um cenário adequado, deu ritmo à notícia…”3.

Durante o período de censura à imprensa, principalmente a partir de dezembro de 1968, o controle do que era veiculado nos telejornais era tão rígido que se exibia uma situação distorcida da realidade. As imagens mostravam atentados e conflitos em diversas partes do mundo, enquanto no Brasil representava-se uma paz alienante. O país era uma “ilha de tranqüilidade”, cercada de censura por todos os lados. O noticiário internacional passou a ser o segmento mais trabalhado dentro do Jornal Nacional, graças também a agilidade trazida pelo uso regular dos satélites 4.

O Jornal Nacional sempre foi alvo de muitas críticas, principalmente no que se refere ao seu alinhamento junto ao governo militar. A grande questão a ser levantada reside no fato da televisão brasileira ser um veículo de concessão de serviço público a título precário, o que estabelece uma relação de dependência da TV como o poder vigente. Na medida em que, no momento da sua criação, o Jornal Nacional encontrou a existência de um regime de exceção, esta vinculação foi muito exposta. Por outro lado, também o Repórter Esso, que viveu seus últimos momentos neste período, exibia desfiles de modas, concurso de cães e resultados de partidas de futebol enquanto o Jornal de Vanguarda, não conseguindo manter-se como a voz da oposição, optou pelo seu próprio encerramento.

Apesar das restrições impostas neste período, o Jornal Nacional apresentou inovações em relação à técnicas de redação e apresentação de notícias, que acabaram por se tornar paradigmáticas para todo o telejornalismo praticado no país. Assim, instituiu-se que o texto deveria ser redigido em frases curtas e simples, de fácil entendimento. Rezende exemplifica a busca desta simplicidade através da orientação dada pelo jornalista econômico Celso Ming à sua editoria. Segundo o jornalista, quando o repórter escreve, deve ter em mente a sua “tia burra,” uma espécie de leitor padrão5. Se a mensagem é compreendida por ela, certamente será compreendida por qualquer outro telespectador.

O Jornal Nacional foi capaz de estabelecer uma estrutura suficientemente forte para resistir às pressões dos patrocinadores em relação ao que era veiculado. O noticiário anterior de TV Globo, Ultra Notícias, patrocinado pela Ultragás, era obrigado a exibir no cenário réplicas e miniaturas de bujões de gás6. Para não correr um risco semelhante, o JN procurou não incluir a marca do patrocinador no seu nome.
Após o regime militar e durante o abrandamento da censura, a influência da televisão continuou a mostrar sinais de imbricação com o governo vigente. Durante a primeira campanha pelas Diretas Já, em 1984, a TV Globo foi criticada por ter retardado a sua entrada na cobertura do evento. Em 1989, na primeira eleição presidencial pelo voto popular após o regime militar, todo o processo eleitoral - das campanhas e debates até a apuração - foi acompanhado pela audiência passo a passo. No entanto, houve acusação de manipulação na edição do último debate entre os candidatos Fernando Collor de Mello e Luís Inácio Lula da Silva, realizado pela Rede Globo, que passou a ser tachada de “cabo eleitoral” de Fernando Collor7. Parece haver um consenso de que Lula realmente teria perdido o debate, mas segundo Ricardo Kotscho, assessor de Lula à época do debate, em entrevista ao programa 50 Anos de TV, o que teria sido uma difícil partida de futebol, equivalente a um 3 X 1, foi mostrada como um massacre, uma partida de 15 X 08.

Em 1991, Armando Nogueira foi afastado da direção do jornalismo da TV Globo. Mas, foi a partir de 1995 que começaram a ocorrer modificações editoriais no JN. Foi quando Evandro Carlos de Andrade assumiu a Central Globo de Jornalismo. Apesar das pesquisas de opinião indicarem que 88% dos paulistanos eram favoráveis à permanência de Cid Moreira9, este foi substituído, juntamente com Sérgio Chapelin, por William Bonner e Lilian Witte Fibe no dia 29 de março de 1996. Talvez por receio de desvincular-se completamente da imagem que Cid Moreira havia imprimido ao Jornal Nacional, num primeiro momento a emissora optou por mantê-lo na apresentação dos editoriais do JN. Posteriormente, estes editoriais foram incorporados ao texto apresentado pelos próprios apresentadores. A intenção ao colocar jornalistas para apresentar o Jornal Nacional era promover maior credibilidade ao noticiário. Embora permanecesse a idéia de que o JN deveria valer por uma primeira página de jornal, sem deixar de veicular as notícias mais importantes de cada dia, a nova orientação estabelecia a importância do conhecimento dos apresentadores em relação aos textos lidos. Mas, o enfoque nos textos curtos e na agilidade de veiculação foram mantidos.

Ao contrário do que havia acontecido nas eleições anteriores, nas eleições de 2002 os telejornais da TV Globo se abstiveram de exibir trechos dos debates transmitidos ao vivo. As matérias dos telejornais da Rede Globo mostraram detalhes de bastidores e o clima do evento, sem, no entanto, incorrer em erros do passado. Esta nova postura, crescentemente adotada, demonstra uma intenção de maior transparência na transmissão da notícia. Segundo Bucci ”...não se pode afirmar categoricamente que o JN esteja trabalhando para o governo ou contra o governo. Ele tem se mantido relativamente eqüidistante.” Nos dias atuais, não parece haver muito espaço para a manipulação ideológica, num ambiente onde aparenta haver uma uniformização ideológica10. Não que se suponha uma produção cultural desvinculada de uma postura ideológica. Acontece que hoje ela é muito mais sutil na manipulação do desejo e do imaginário do público. Por outro lado, há também a ditadura do público, da maioria que estabelece as suas preferências, retratadas nas pesquisas de opinião pública, fazendo com que a programação procure se adequar aos desejos desta massa.

Em 1980, uma pesquisa realizada pelo Ibope, demonstrou que o telejornalismo é a mais importante e acessível fonte de informação da população. Do público pesquisado, 73% tinham acesso a televisão. Os telejornais foram identificados como o tipo de programa preferido por 87,4% dos homens e o segundo preferido de 71,3% das mulheres. Segundo matéria publicada pela revista Exame, em agosto de 2002, a TV é hoje o único meio de informação e entretenimento para 40% da população11.

Atualmente, o Jornal Nacional é considerado o principal programa jornalístico da televisão brasileira, graças a sua elevada audiência, sem que se possa precisá-la com números exatos. A audiência média medida pelo Ibope é de 40% dos aparelhos ligados. No site do programa, encontra-se o número de 40 milhões de telespectadores, mas em anúncio veiculado no jornal O Globo, relativo à audiência alcançada nos dias que se seguiram ao ataque do World Trade Center em Nova York, destaca-se que o Jornal Nacional é assistido por 35 milhões de brasileiros, “sete em cada dez famílias”12. Independentemente da real medida da audiência, o Jornal Nacional segue sendo a referência nacional de informação para a maioria da população brasileira.

O Jornal Nacional através do seu espelho



A presentação que se fará, da estrutura do Jornal Nacional, tem como objetivo localizar o objeto de estudo deste trabalho, os selos do telejornal, no conjunto do programa. As expressões utilizadas fazem parte do jargão jornalístico e correspondem aos termos utilizados pela equipe que atua no trabalho diário de elaboração do Jornal Nacional. A presente descrição foi organizada a partir da observação dos telejornais veiculados durante o ano de 2002. Embora ao longo do tempo o JN tenha apresentado algumas variações estruturais, como por exemplo leitura de editorial por um apresentador exclusivo para este fim e leitura de matérias esportivas por um apresentador esportivo, a estrutura de exibição do noticiário permaneceu praticamente inalterada. Além do que, a forma como o telejornal é construído não consiste na parte central da nossa pesquisa, sendo considerada aqui apenas para evidenciar o momento de inserção dos selos durante a exibição do telejornal.

O Jornal Nacional começa a ser montado, diariamente, a partir da criação de um espelho. O espelho é uma pauta de intenções do que se pretende levar ao ar no final do dia. É uma listagem em formato resumido das matérias que se tenciona apresentar. O espelho do JN começa a ser delineado dez horas antes de ir ao ar; é natural que ele se altere ao longo do dia, na medida em que surjam outras notícias mais quentes e importantes, os factuais, que caracterizam o estilo editorial hard-news. A elaboração do espelho é de responsabilidade do editor-chefe e deve listar as matérias do dia, seus tempos, a presença de videoteipes, os editores responsáveis, repórteres e a cidade de onde ela se originará.

O Jornal Nacional se inicia com a apresentação da escalada pelos âncoras. A escalada é, necessariamente, o primeiro item do espelho; ela procura informar as notícias que terão destaque no programa daquele dia, com o objetivo de manter o interesse dos telespectadores até o final do noticiário. Os apresentadores se alternam na leitura dos assuntos mais importantes, que estarão no telejornal daquele dia. Isto é feito antes mesmo do “boa-noite”, procurando atrair a atenção dos telespectadores para o conteúdo do telejornal. As imagens dos apresentadores ao vivo alternam-se com a exibição dos teasers, trechos destacados das imagens das matérias. Em seguida é rodada a vinheta de abertura ao som do tema musical do programa. A vinheta gráfica de abertura mostra o logotipo do JN em movimento, descortinando a redação onde o jornal é elaborado. A câmera voa sobre as mesas da redação, pousando suavemente e enquadrando a bancada onde se encontram os apresentadores. Procede-se a um corte de câmera, enquadrando-se apenas um dos apresentadores que, após um curto cumprimento de boa-noite, lê a primeira notícia. O jornal prossegue, então, seguindo o roteiro estruturado no espelho. Este é distribuído em blocos, formados por um grupo de notícias e separados por intervalos publicitários. Cada bloco é encerrado com uma chamada, um resumo dos próximos assuntos, lida com o objetivo de manter a atenção do telespectador. Esta chamada, geralmente, é feita por um dos âncoras que anuncia ao vivo os assuntos em destaque no próximo bloco. Segue-se uma vinheta gráfica e sonora mais curta que a utilizada na abertura, formando uma moldura, dentro da qual se exibem trechos de imagens que serão exibidas no bloco seguinte acompanhadas, ainda, por um breve texto escrito, não lido em voz alta, relacionado ao assunto que será abordado. Na volta do comercial, ouve-se novamente a chamada musical acompanhada por um curto vôo do logotipo.

O Jornal Nacional geralmente é composto por quatro ou cinco blocos que, por sua vez, apresentam uma média de três a sete matérias. Em levantamento realizado ao longo de uma semana, Rezende encontrou uma média de 4,2 matérias distribuídas em blocos de aproximadamente 5’35’’13. As notícias são apresentadas através de diversos formatos jornalísticos, como nota simples ou pelada, nota coberta, reportagem, vivos e entrevistas.

Os diversos formatos de exibição da notícia são utilizados ao longo do programa. Após a última matéria, a câmera enquadra cada um dos apresentadores para que se despeçam do telespectador. Se o noticiário do dia teve uma conotação especialmente triste, a despedida é um simples “até amanhã”. Do contrário, um “boa noite”, acompanhado de um eventual sorriso.

A entrada do selo pode acontecer a qualquer tempo do telejornal, durante a leitura ao vivo pelo apresentador. A única exceção é no formato de entrevista realizada com a presença do entrevistado em estúdio.

A existência do selo de um determinado assunto permite que o editor escolha a forma de divulgação da notícia entre nota coberta e nota simples. Uma notícia de falecimento, por exemplo, pode prescindir de imagens gravadas da pessoa, em função do retrato fixada no selo.

A nota pelada ou nota simples, quando acompanhada por um selo, pode se assumir como um outro formato de notícia, na medida em que é acrescida de uma informação visual. O selo, nesta situação, manifesta função informativa, principalmente quando a nota se refere especificamente a alguma pessoa da qual não se tem imagens ou não se deseja utilizá-las. Em outras palavras, o selo possibilita, muitas vezes, a exibição de uma notícia curta sobre um personagem de quem não se dispõe de imagens.


A telenotícia gráfica
Se a origem da televisão é um enigma cercado de controvérsias e requisições de paternidade por diversas nações, localizar a emissão do primeiro elemento gráfico através do sinal eletrônico de televisão é uma empreitada próxima do impossível. Na medida em que o Jornal Nacional trouxe inovações formais e tecnológicas para o telejornalismo, seria natural que se procurasse identificar neste programa as origens do design gráfico em telejornalismo. No entanto, o rastreamento destas origens encontra duas grandes dificuldades. A primeira se refere a inexistência de estudos e publicações referentes aos primórdios da imagem gráfica em telejornalismo. A segunda dificuldade é a ausência de programas antigos guardados em arquivos. Os primeiros telejornais eram transmitidos ao vivo, numa época anterior à existência do videoteipe. Mesmo posteriormente, quando esta nova tecnologia já havia sido absorvida, não era incomum a reutilização de fitas de programas, sem a preocupação de se criar uma memória dos primeiros tempos dos telejornais. Finalmente, a ocorrência de diversos incêndios ocorridos na TV Globo e em outras emissoras, que destruíram grande parte do acervo, aumentou ainda mais a dificuldade de se localizar estas primeiras referências.

O design gráfico para telejornalismo abrange uma grande gama de expressões. Compreende as cenografias real e virtual (enquadramentos e iluminação), o design gráfico propriamente dito (marcas, logotipos, selos, vinhetas), e também o design informacional (simulações, infográficos, bases para caracteres).

Aparentemente a TV Globo foi a primeira rede a compreender que a valorização do elemento visual seria vital na diferenciação do veículo televisão. Esta opção foi reforçada com a contratação de Hans Donner, designer austríaco que revolucionou o grafismo televisual, sendo hoje reconhecido internacionalmente. Além da sua grande criatividade, o sucesso de Donner também deve ser atribuído à sua abertura para novas tecnologias. Ele foi o primeiro a aplicar técnicas computacionais emergentes nas suas criações, que inclusive durante muitos anos eram finalizadas fora do Brasil. Arlindo Machado reconhece a qualidade do grafismo televisual brasileiro quando afirma que não se precisa “ir ao MoMA de Nova York, ou à Documenta de Kassel, ou ainda à Bienal de Veneza para conhecer algumas da últimas tendências das artes visuais. Uma das mais avançadas galerias de arte do mundo fica bem aí na sua sala de estar. Basta ligar a televisão…”14.

O design gráfico para telejornalismo apresenta características específicas em relação ao grafismo televisual em geral. Alguns fatores são decisivos para esta diferenciação. No trabalho gráfico desenvolvido para o telejornalismo, por exemplo, há um maior compromisso com a veracidade da informação: assim como a notícia que é veiculada, o grafismo deve se basear em uma apuração detalhada, já que esse design muitas vezes dá corpo a uma notícia sem imagens. O cuidado com a precisão da informação deve procurar evitar interpretações dúbias ou comunicações indesejadas, o que faz do designer gráfico um jornalista.




“Selando” a notícia



Em telejornalismo, chama-se selo à composição de elementos gráficos que fica ao fundo ou ao lado do apresentador ou âncora, caracterizando o conteúdo da matéria. O selo é constituído por um conjunto de imagens (fotográficas ou infográficas) com o objetivo de reforçar ou complementar o assunto que está sendo lido pelo apresentador. Considera-se que o selo ajuda a acompanhar a seqüência de um determinado acontecimento ao mesmo tempo em que fixa a identidade visual do telejornal.

Esta avaliação nem sempre encontrou unanimidade na própria redação do noticiário. Paulo Orlando Lafer de Jesus, responsável pela Editoria de Arte da Central Globo de Jornalismo no momento da criação dos primeiros selos para o Jornal Nacional, afirma que encontrou muitos obstáculos “para que aceitassem a idéia de que informação verbal e informação visual eram complementares e não entravam em conflito. Hoje, essa tese está definitivamente aceita”15. Para Souza, os selos têm um papel de coadjuvante da informação, na medida em que ajudam a atrair a atenção do espectador. “Nem sempre essa atenção é despertada pela fala do apresentador. O ‘selo’ é uma informação paralela, um estímulo necessário”16.

Apesar dessas evidências, a ausência de referências à imagem gráfica nos telejornais pode ser sentida mesmo nas publicações mais recentes. Guilherme Jorge de Rezende utiliza apenas um parágrafo para descrever a função do selo no seu livro Telejornalismo no Brasil:

… o selo é uma ilustração criada pela editoria de arte que identifica um assunto ou notícia que é veiculada em sucessivas edições de um telejornal. Algumas vezes, pode representar também uma seção permanente do noticiário, como as informações sobre o movimento do mercado financeiro ou previsões da meteorologia17.

Na nossa análise dos selos do JN, verificamos que a atuação dos selos pode acontecer em diversos momentos do telejornal, com objetivos diferentes. Observamos que este objeto gráfico pode representar uma idéia mais ou menos abstrata, ou seja, um tema genérico (p. ex. economia, remédios, educação) sem necessariamente caracterizar uma qualidade desta representação (p. ex. problemas na educação). Pode também compor o significado de um tema ou evento específico (p. ex. greve de caminhoneiros, remédios falsos). Quando o selo trata de pessoas recebe o nome de QP, abreviatura de quadro parado. Cada trinta quadros, ou frames, equivale a um segundo de imagem em movimento. No QP, um único take de uma seqüência de imagens é escolhido para ser utilizado parado. O QP também pode expressar uma idéia geral ou específica sobre a personagem em questão. Por exemplo, na realização do QP de um músico pode-se acrescentar à sua imagem, uma seqüência de notas musicais ou ainda a imagem do instrumento utilizado. O QP de um jogador de futebol pode valer-se da imagem de uma bola. A utilização dos selos foi observada em diversos formatos da notícia televisiva, sendo considerada especialmente importante na apresentação das notas peladas ou notas simples, que são matérias curtas exibidas sem o apoio de imagens em videoteipe.

Um pequeno exemplo


Parodiando o provérbio chinês “uma imagem vale mais do que mil palavras”, Armando Nogueira, diretor de jornalismo da TV Globo à frente da criação do Jornal Nacional, afirmou que “uma boa imagem vale mais associada a uma boa palavra”18. Esta observação evidencia não somente a importância da imagem na nossa sociedade, mas, principalmente, a responsabilidade do ‘casamento’ entre imagem e texto jornalístico.






Fig. 1. Selos do Jornal Nacional com o tema “Imposto de Renda”, veiculados respectivamente em 1992 e 2001 (reproduzidos com a permissão da TV Globo).

Consideramos que uma análise dos selos do Jornal Nacional, ao longo do tempo, pode não somente comprovar evoluções gráficas e técnicas, e mudanças nos estilos de exibição telejornalística, como ainda, relembrar fatos de forma rápida e sintética. A apreensão da imagem é gestáltica, em oposição à compreensão de um texto verbal que se desenrola seqüencialmente a partir dos seus fonemas, formando palavras, frases, períodos, etc.. Nesse contexto, pode-se afirmar que a imagem pode “atingir” o telespectador de forma imediata.

A título de ilustração apresentamos aqui dois exemplos de selos do Jornal Nacional, exibidos com um intervalo de quase dez anos (fig. 1). Numa rápida observação, constatamos, em primeiro lugar, que a imagem do ano 2001 é mais complexa e elaborada. A ilustração conta com mais elementos, vê-se ao fundo detalhes do cenário e mesmo a bancada do apresentador. O apresentador, aliás, não é mais apenas alguém que lê as notícias. Ele é um jornalista, e na bancada que pode ser vista na tela do telespectador, também se observa um teclado de computador, onde o apresentador pode editar o texto que será apresentará em alguns segundos.

As duas imagens são representações gráficas do tema “imposto de renda”. Enquanto a imagem de 2001 é composta por diversos elementos, o selo de 1992 exibe um único objeto, um formulário para declaração. Na segunda imagem tem-se um disquete com o logotipo da Receita Federal e algumas cédulas de real. No período de tempo que separa um selo do outro, a informática iniciou o seu avanço por inúmeros campos da nossa sociedade. No início da década de 1990, o imposto de renda era preenchido em um formulário impresso e levado ao banco. Em 2001, este processo já se encontrava informatizado.

Este foi apenas um curto exemplo do que se pode apreender a partir da observação dos selos do JN. A nossa expectativa é que uma análise mais acurada possibilite uma colaboração original para a história da mídia brasileira.



1
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


 BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito de história. Obras Escolhidas: Magia e técnica, arte e

política. Vol. 3. São Paulo: Editora Brasiliense, 1987. 3ª ed. p. 222-232.

2 JÚNIOR, Gonçalo Silva. País da TV: a história da televisão brasileira contada por.... São

Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2001. p.32



3 PIGNATARI, Décio. Signagem na Televisão. 2a ed. São Paulo: Brasiliense, 1984. p. 14.

4 MELLO E SOUZA, Cláudio. JN - 15 anos de história. Rio de Janeiro: Rede Globo de

Televisão, 1984. p.100



5 REZENDE, Guilherme Jorge de. Telejornalismo no Brasil – um perfil editorial. São Paulo:

Summus, 2000. p.75



66 Mello e Souza. op. cit., p.23.

7 BUCCI, Eugênio. O teste do 2º turno. TV Folha. Folha de São Paulo, 2002. p.2

8 50 Anos Tv / 35 Anos Globo. Direção: Alice Maria. Rio de Janeiro: TV Globo,

2000. 3 cassetes (120 min): son.; 12 mm. VHS NTSC



9 Rezende. op. cit., p.171

10 KUCINSKI, Bernardo. Do discurso da ditadura à ditadura do discurso. Cadenos Le Monde

Diplomatique. São Paulo. no. 3, jan. 2002 p.46.

11 GUROVITZ, Helio. O futuro da TV. Exame. São Paulo, Editora Abril. v. 772, ano

36, no. 16, p. 46-58, agosto de 2002.



12 O Globo. Anúncio do Jornal Nacional, Rio de Janeiro: Ed. O Globo, p. 14, 16 set. 2001

13 Rezende. op. cit., p.196

14 MACHADO, Arlindo. A televisão levada a sério. São Paulo: Senac, 2000. p.197

15 Mello e Souza. op. cit., p. 132

16 idem, p.130

17 Rezende. op. cit., p.151

18 idem, p.47-50




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