A imagem do deslocamento cultural



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YSELF IN ÍNDIA” DE RUTH PRAWER JHABVALA:


A IMAGEM DO DESLOCAMENTO CULTURAL
Kátia C. Cunha

As a woman, I have no country

(Como mulher, não tenho país)

As a woman, I am no country


(Como mulher, não sou país algum)

As a woman, the whole world is my country.

(Como mulher, o mundo inteiro é meu país).
(Virginia Woolf, Three Guineas)

As teorias ou estudos pós-coloniais constituíram uma contundente intervenção no projeto revisionista que marca o mundo acadêmico desde a década de 60 – esse projeto que discute a problemática relação entre pós-modernismo, pós-estruturalismo e pós-colonialismo, ganha outras vozes “ex-cêntricas” ou marginalizadas (HUTCHEON,1988) que receberam reconhecimento acadêmico como os estudos: femininos/feministas, os afro-americanos, os étnicos, os estudos sobre gêneros e mais recentemente os chamados estudos “queer”.

Considerando as teorias ou estudos pós-coloniais como “um termo que representa as estratégias teóricas e críticas usadas para examinar a cultura (literatura, política, história, entre outras) das colônias dos impérios europeus e a sua relação com o resto do mundo” (MAKARYK, 1994), percebe-se, assim, que a crítica pós-colonial estabelece uma narrativa (“counter-narrative”) que pode questionar as tradicionais narrativas imperialistas Européias. Além disso, questões variadas suscitam discussões de acordo com as teorias ou estudos pós-coloniais, tais como: migração, escravidão, resistência, assimilação, alienação, hibridação, representação, diferença, raça, gênero e lugar.

Considera-se que foi a partir dos anos 50 que textos mais teóricos vieram a público tais como: a obra da escritora caribenha Aimé Césaire e o livro Black Skins, White Masks (1952) de Frantz Fanon. Nas décadas de 60 e 70 surgem outros nomes e textos essenciais na formulação do discurso pós-colonial como: The Pleasures of Exile (1960) de George Lammings, The Hatched of the Earth (1961) de Frantz Fanon, “Caliban” essays (1971) de Roberto Fernández Retamar e Orientalism (1978) de Edward Said. Nos anos 80 e 90, a produção de textos pós-coloniais é tão vasta, rica e variada que seria quase impossível listar mesmo os principais autores e títulos. Todavia, nomes como Edward Said, Gayatry Spivak e Homi Bhabha merecem especial destaque entre os críticos e teoristas pós-coloniais na tradição anglo-americana.

A escritora e roteirista anglo-indiana Ruth Prawer Jhabvala torna-se mais uma voz que fomenta discussões e análise pelas teorias e estudos pós-coloniais. Nascida na Alemanha, porém tendo estudado e morado em Londres, Ruth Prawer se casa com o arquiteto indiano CSH Jhabvala e se muda para Índia onde mora por 24 anos. Sua vida em Delhi lhe fornece material para seus romances e contos, os quais muitas vezes expressam relatos satíricos de mulheres indianas de classe média que tentam mediar o choque cultural entre os valores indianos tradicionais e o crescente processo de ocidentalização.

Em seu conto “Myself in India” Jhabvala apresenta uma história com traços autobiográficos: a protagonista discute as dificuldades que uma mulher européia de classe média demonstra ao se mudar para Índia após seu casamento com um indiano. No conto, a narradora expressa seus conflitos e críticas a uma terra estranha que ela não consegue entender e muito menos aceitar. Sua repulsa torna-se evidente pelas frases iniciais do texto onde ela afirma: “Morei na Índia a maior parte de minha vida adulta. Meu marido é indiano e também as são minhas crianças. Eu não sou, e na verdade sou menos (indiana) a cada ano”.(JHABVALA 849)

Sua forte repulsa pela Índia é percebida nos primeiros parágrafos onde ela expressa sua voz e visão européia de colonizadora, como em: “Mas não é fácil ser sensível e receptiva à Índia: chega um momento em que você precisa se fechar para se proteger. O lugar é muito marcante e pode se mostrar muito potente para os nervos europeus” (JHABVALA 849). Além disso, ela até admite haver uma espécie de ciclo emocional, o qual uma pessoa européia ou estrangeira pode enfrentar: na primeira fase, o entusiasmo; na segunda, o desapontamento e na terceira, tudo proveniente da Índia passa ser abominável, sendo que, esse ciclo dependendo de cada pessoa pode se estagnar ou se reiniciar inúmeras vezes. A narradora, por exemplo, afirma se identificar com essa segunda categoria, sentindo-se como em uma “roda gigante que gira sem parar e a deixa por vezes no alto, outras no baixo / em baixa” (JHABVALA 850)

A narradora então afirma que o interesse dela não é mais a Índia, mas “ela própria na Índia”, ou melhor, a sua forma de sobrevivência, segundo ela, em tão frustrante lugar. Percebe-se, assim, uma espécie de negação do espaço físico (no caso a Índia) e uma supervalorização do espaço psicológico, onde a exposição do “eu” da narradora, em contato com tão singular ambiente, passa ser seu objeto de interesse e estudo. Essa idéia pode ser analisada não apenas por seu caráter autobiográfico, mas, sobretudo, por sua metaficcionalidade.

Sendo assim, a narradora busca estabelecer uma ligação emocional consigo mesma, mas não com o espaço no qual se encontra, ou com a comunidade que a cerca. Como argumenta Roland Walter, em relação à narrativa de escritoras de cor:
O meio social e cultural [...] forma uma estrutura multidimensional que se torna o centro ficcional. Neste processo, o cenário – lugar – é pano de fundo e cena principal, tempo e espaço ao mesmo tempo, e o caráter individual e o papel que [a narradora] tem dentro da narrativa são ambos absorvidos e obscurecidos por esse mundo de experiência comunitária no qual tempo se torna espaço e espaço se torna tempo (WALTER, 1995: 251).

Todavia, pode-se notar, no decorrer da narrativa, uma crescente fragilidade na visão “colonizadora” expressa pela narradora, que se sente estrangeira em terras desconhecidas: “Eu sou européia com educação inglesa e uma deplorável tendência a uma constante auto-análise. Sou irritável e tenho nervos fracos” (JHABVALA 850) As agruras de país de terceiro mundo, como a fome, a miséria, a violência, entre outros, chocam a narradora e a afastam ainda mais desse espaço físico.

A diversidade cultural também a intriga, pois é para narradora difícil compreender o caráter resignatário de um povo que tanto sofre e deposita suas esperanças na crença de renascer ou reencarnar em uma vida posterior mais próspera.Ela critica essa convicção principalmente, pois ela gostaria de receber esse consolo espiritual e emocional, contudo, sua mente ocidental rejeita tais noções. E ainda como ela afirma: “mesmo ao chegar a um lugar melhor, uma vez que, muitas vezes, é para onde você deseja fugir, quando se chega lá, será você capaz de esquecer? Quem já esteve na Índia e viu como as pessoas são instruídas a viverem, nenhum lugar do mundo poderá ser tão bom novamente” (JHABVALA 851).

Como a narradora aponta, sua atitude inicial em relação à Índia é de fuga: ela se isola, se tranca em seu quarto, abaixa as cortinas e se refugia em seu cantinho refrigerado por ar-condicionado, onde sua única interação é com os livros. Entretanto, ela diz sentir-se “montada em um grande animal de pobreza e retrocesso” (JHABVALA 851). Ela se sente “só, aprisionada e excluída”. (JHABVALA 851). Ela ainda afirma saber que parte dessa angústia também se deve a sua inabilidade de tentar reverter esse sentimento e relacionar-se, porém mais uma vez, ela faz menção ao fato de sentir o “animal se movendo”, o qual ela decide ignorar. É interessante notar que esse animal pode estar relacionado com a sexualidade latente do lugar, bem como, a uma cobra que possui um sentido místico no imaginário da cultura indiana.

Suas tentativas de interação com as “mulheres indianas ocidentalizadas” fracassam. Quando ela é perguntada sobre a Índia e ela exterioriza suas angústias e frustrações com o lugar, isso acaba por afastá-la de seus novos contatos, trazendo-a de volta ao quarto, aos livros e ao ar-condicionado. Quando este falha, a opressão física é tão insuportável que até o tempo parece cessar. E ela desabafa: “eu sei que isso é uma hipérbole, mas eu necessito de uma hipérbole para expressar meus sentimentos a respeito daquelas inúmeras tardes, que se transformaram em inúmeros anos em um país ao qual não pertenço “(JHABVALA 854)”.

Não obstante, pode-se afirmar que nos parágrafos finais de sua narrativa, ela passa exprimir nuances de admiração por esse lugar por ela tão criticado. Ela relata seu fascínio pela visão de um “céu com proporções colossais – tão maior que a terra em que vivemos, tão inacreditavelmente belas, de um magistral e sublime azul durante o dia, de tão reluzentes estrelas à noite, que é difícil crer que algo de grandioso, além dos limites da compreensão humana, não emane desse lugar” (JHABVALA 855).

Contudo, esse fascínio pelas belezas do lugar não ameniza os conflitos da narradora em relação a traços culturais indianos que ela não consegue assimilar, nem aceitar. Assim, ela expressa a angústia de um ser preso, a dois mundos e a nenhum lugar, ao ironizar:
Como deve ser doce a alma indiana que consegue ver Deus numa vaca! Mas quando eu tento assumir essa docilidade, ela fica ácida (...) Será que alguém deve tentar ser ou se tornar algo diferente do que é? Nem sempre respondo não a essa pergunta. Algumas vezes me parece mais prazeroso dizer que sim, desistir de tudo, vestir um Sari me tornar mansa e submissa, e passar a ver Deus numa vaca. Outras vezes parece valer a pena ser provocadora e Européia. (...) É claro que esse conflito não deve continuar indefinidamente, mas, ao final, sou eu quem mais sairá perdendo – e se minhas cinzas afundarem no Ganges ao som de mantras Védicos, quem poderá dizer que eu não consegui verdadeiramente me fundir à Índia? (JHABVALA 856).
Como Trinh T. Minh-há coloca, no artigo “Not You / Like You”, o deslocamento e o relocamento de uma pessoa fora de seu núcleo geram um binarismo complexo; ao mesmo tempo em que se olha de fora para dentro, se olha também de dentro para fora: “Não a mesma, não outra, ela se encontra naquele lugar não determinado de onde constantemente ela se movimenta para dentro e para fora”. (MINH-HÁ, 1997: 418). Os conflitos da narradora denotam, assim, o surgimento de um ser híbrido (Homi Bhabha), um ser que resulta desse intrépido encontro de duas culturas, uma vez que ao final da história, a narradora declara: “algumas vezes eu até volto para Europa. Mas depois de um tempo fico entediada e anseio por voltar para Índia. Também acho difícil agüentar o clima Europeu. Eu me acostumei ao intenso calor e acredito precisar dele” (JHABVALA 856).

Desse modo, já que se torna tão árduo para narradora o encontro do seu verdadeiro lugar, não é aleatório a escolha do foco em seu “Eu na Índia”, pois é a constante busca pela sua auto-realização através de um espaço físico, que a remete a uma procura por um espaço interno repleto. Porém, seu “eu” se encontra confuso e debilitado, justamente por sua dificuldade de aceitação desse ambiente estranho, onde o “colonizador” é o forasteiro. Seus conflitos dão vazão a um ser híbrido que oscila entre as culturas do colonizador e do colonizado, e que vaga a procurar por seu derradeiro lugar.



BIBLIOGRAFIA

HUTCHEON, L A. Poetics of Postmodernism. History, Theory, Fiction. London: Routledge, 1988

MAKARYK, Irena R., general editor. Encyclopedia of contemporary Literary Theory: Approaches, Scholars, Terms. Toronto: University of Toronto Press, 1994.

MINH-HA, Trinh T. “Not You/Like You: Postcolonial Women and the Interlocking Questions of Identity and Difference. IN: McClintock, Anne et all, eds. Dangerous Liaisons: Gender, Nation, and Postcolonial Perspectives. Minneapolis: University of Minnesotta Press, 1997.



WALTER, Roland. “Narrative, ideology, identity, and utopia in (post)modern African-American women’s fiction”. In: Estudos Anglo-Americanos. São Paulo, Editora Rio-pretense, 1995. p. 235-278.

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