A imigração italiana e a vocação religiosa no Vale do Itajaí gt – Migrações Internacionais



Baixar 90.17 Kb.
Encontro25.07.2016
Tamanho90.17 Kb.



XXIV Encontro Anual da ANPOCS




A imigração italiana e a vocação religiosa no Vale do Itajaí

GT – Migrações Internacionais

sessão

Marilda Checcucci Gonçalves da Silva / FURB / UNICAMP



Petrópolis, 23 a 26 de outubro de 2000

A imigração italiana e a vocação religiosa no Vale do Itajaí*

Marilda Checcucci Gonçalves da Silva**

Introdução


Neste artigo apresento resultados de um estudo sobre o processo de construção da vocação religiosa, entre a população camponesa de origem italiana da região do Vale do Itajaí.

O meu interesse por ele surgiu em 1988, quando ao concluir o mestrado e ingressar na FURB – instituição de ensino à qual me encontro vinculada – iniciei um processo de ‘estranhamento’1 do ambiente cultural em que me encontrei. A presença significativa de religiosos entre docentes e discentes chamou-me a atenção. A conversa com alguns destes, aguçou a minha curiosidade, instigando a minha atenção para a problemática que se mostrava.

Recorrendo à história local e regional, através das poucas publicações existentes, comecei a compreender melhor a história e a sociologia da região. Percebi a importância, para os imigrantes e seus descendentes, da figura do padre e o quanto a presença de religiosos tinha marcado sua vida pessoal e familiar. Percebi também, a importância da imigração européia para a Igreja Católica em Santa Catarina e para a religiosidade existente neste Estado, na medida em que a vinda de ordens e congregações religiosas européias (masculinas e femininas), transformou o panorama religioso local com o propósito de prestar assistência aos imigrantes

Nesta região, as vocações religiosas foram e continuam sendo – embora hoje com menor intensidade – uma constante, principalmente a partir da década de 30. Ter um filho padre era, para as famílias dos colonos, sinal de prestígio e status, e a figura do padre e da Igreja Católica teve importância crucial nas comunidades que se formaram. (Berri, 1988).

Percebi então que estava diante de uma problemática rica e interessante, que me parecia de extrema relevância para a compreensão da própria formação sociocultural da região. Buscando uma explicação para tal fenômeno e tendo como foco central do meu trabalho a família camponesa de colonos, procurei nos estudos sobre parentesco, religião e imigração, subsídios para desenvolver a minha pesquisa, já que do meu ponto de vista parecia existir a confluência de três projetos na configuração da trajetória dos religiosos, os quais necessitavam ser explicitados: o projeto da família, o da igreja e o individual.

A metodologia utilizada na pesquisa conjugou dados de observação e de entrevista com resultados de outros materiais obtidos em trabalho de campo, tais como fotografias, registros documentais, produções do próprio grupo pesquisado, o que acaba por resultar numa produção “densa” da realidade estudada. Optei por realizar entrevistas que coletassem histórias de vida e estas abrangeram o universo de ex-seminaristas, ex-noviças, ex-religiosos, bem como de religiosos e religiosas de ambos os sexos e de diferentes gerações, situados na faixa de 30 a 71 anos de idade. Além da realização de entrevistas, procedi de forma mais intensiva à observação de três localidades - situadas na área de colonização em estudo e inseridas nos atuais municípios de Rodeio e Massaranduba - escolhidas por se encontrarem localizadas em municípios que são representativos das respectivas formações históricas e características socioculturais da região de colonização italiana. A população residente nestes municípios, é constituída por grupos com situação social homogênea, com uma maioria pequena proprietária de terra que utiliza o trabalho familiar.



A imigração italiana para Santa Catarina

Para se compreender as características que identificam a população camponesa de origem italiana da região em estudo, é necessário ter claro as diferentes razões que orientaram a colonização com imigrantes europeus em Santa Catarina e na região sul do Brasil daquelas que orientaram a procura de imigrantes europeus para o trabalho assalariado nas fazendas de café paulista.

Diferente da imigração que acontece em São Paulo, onde a houve a importação de mão-de-obra para substituir o braço escravo, a imigração que se destina ao sul do Brasil tomou a forma de colonização através da formação de núcleos de colonização, baseados na pequena propriedade.

As razões que orientaram a colonização com agricultores europeus em Santa Catarina foram, em parte, diversas daquelas que orientaram o Brasil em procurar a imigração européia. Naturalmente não se tratava de fornecer mão-de-obra para fazendas a fim de substituir os escravos, como também não foi tão imperativa a necessidade de ‘branquear’ a população. A razão era simples, não existia na Província de Santa Catarina o latifúndio. Havia grandes propriedades de terra na zona de Lages mas eram utilizadas para a criação de gado e não necessitavam de muita mão-de-obra. Assim a Província de Santa Catarina contou com um percentual de escravos, com relação à população, mais baixa que as outras províncias brasileiras, o maior percentual aconteceu em 1857 com 16,3%. (Cabral apud Grosselli, 1987:279).

Havia uma razão mais importante para concentrar grandes contingentes migratórios. A colonização ocorreu pela necessidade principalmente de valorização de terras desocupadas, cobertas de florestas, bem acidentadas e de abertura de vias de comunicação que ligassem o litoral ao planalto. (Petrone, 1982:32) Nessas condições, torna-se compreensível que as terras que os imigrantes receberam tenham sido, sem exceção, as mais montanhosas, isoladas e de difícil acesso não sendo, de modo algum, cobiçadas pela grande propriedade.

Um outro fator que irá concorrer para o estímulo da ocupação do território com a colonização baseada na pequena propriedade camponesa, está na necessidade de defesa das fronteiras do território. No momento da chegada dos trentinos e italianos, o processo de definição do território de Santa Catarina ainda estava indefinido. (Cabral apud Grosselli, 1978:266) Essa imigração era, na sua maioria, formada por agricultores, que tendo sido deserdados ou perdido suas terras, partiram com suas famílias em busca de uma melhor situação, principalmente atraídos pela possibilidade de aqui se tornarem proprietários de um pedaço de terra. O comportamento dos emigrados para o sul do Brasil, liga-se ao contexto histórico-social de origem e aos fatores que permitiram uma redistribuição do imigrante italiano entre a cidade e o campo. A característica essencial da imigração no sul do Brasil foi seu destino profissional praticamente unívoco: embora não faltassem indivíduos que, não tendo direito à terra, exerciam atividades artesanais, 95% se dedicavam à agricultura (Trento, 1989:97). Estes vinham das regiões do Norte da Itália que não haviam conseguido acompanhar as mudanças exigidas pela introdução de relações de produção capitalistas no campo. A deterioração das condições dos pequenos camponeses da Itália a partir de 1870, torna disponível para a aventura transoceânica um contingente de força de trabalho interna, impossibilitado de manter a posse da terra. (Trento, 1989:79)

É possível pensar que o imigrante italiano que escolheu o sul do Brasil como local de destino, se comportou de acordo com um habitus2 adquirido na região de origem, que irá condicionar a sua inserção nas diversas regiões da sociedade receptora e as atividades que irá desenvolver. Tal habitus reflete a sua situação de inserção social no campo e irá condicionar as próprias estratégias familiares de reprodução social da família camponesa no âmbito do novo contexto de sua inserção na sociedade receptora. A própria lógica interna da pequena propriedade estimula a emigração. Alguns devem sair para que a propriedade e a família que lhe corresponde possam permanecer. É a própria emigração que constitui o futuro possível para quem fica. Ao fechamento no lugar de origem corresponde a abertura de um espaço social em outro lugar, mas esse novo espaço permite como uma “reabertura” temporária do espaço fechado original, crescentemente insuficiente com o passar das gerações, para a produção e para a reprodução social. A tradição emigratória do campesinato se acha embutida, na própria tradição sucessória do campesinato: os que não herdam migram.

O sul do Brasil oferecia, aparentemente, as condições mais vantajosas para esse tipo de imigrante, cuja maior aspiração ainda era representada pela posse da terra. Isso aparece claramente na memória de alguns descendentes de imigrantes, ao relataram como as dúvidas iniciais de seus “nonos” de virem para o Brasil foram contornadas de maneira satisfatória, face à possibilidade que aqui se apresentou de adquirirem terras em melhores condições do que aquelas das regiões de origem. A terra a que tinham acesso lá, é descrita nesses relatos como sendo de tamanho menor e cultivo mais difícil devido a um tipo de relevo irregular e montanhoso. Aparece também a referência aos rigores impostos pelo inverno impossibilitando a sua utilização durante boa parte do ano e impedia a própria pastagem dos animais que tinham que ser mantidos em estábulos, e ali alimentados. Muitos não dispunham de terras suficientes para o cultivo, necessitando para tanto lançar mão do próprio arrendamento. Tais relatos coincidem com aquilo que é descrito por Braudel, mostrando as dificuldades para a agricultura do relevo italiano, ao tornar grande parte das terras impróprias para o seu cultivo.


O Vale do Itajaí e o seu povoamento

A região denominada por Vale do Itajaí, na qual foram assentados como colonos os imigrantes italianos que deram origem à população em estudo, é formada pela bacia deste rio. Ela se encontra localizada a nordeste do Estado, situada entre o litoral e o planalto.

Antes de ser colonizada por imigrantes italianos, a região do Vale do Itajaí havia sido inicialmente povoada por grupos indígenas principalmente por tribos Kaingang, além de se registrar a presença de tribos Xokleng e Guarani. Um segundo momento do povoamento se dá com a presença de caboclos ou sertanejos, que ocuparam a terra. Sobre a presença destes se dispõe de poucos dados, face à inexistência desse tipo de estudo para a região. A referência mais ampla e consistente sobre a presença de caboclos e sertanejos no Vale, no momento da chegada dos imigrantes europeus, é feita por Peluso Jr (1991:165). Esta situação por ele descrita permite visualizar o quanto ela se encaixa nos objetivos estratégicos definidos pelo Estado, que com a imigração e colonização de vastas áreas despovoadas, porém habitadas por índios, desejava torná-las seguras e valorizadas, integrando-as à economia catarinense. (Petrone, 1982: 32).

O assentamento dos italianos em Rodeio, no Médio Vale do Itajaí, se deu com a expulsão dos índios para regiões mais distantes do interior, isto é, os imigrantes ocupavam a área onde se encontravam os caboclos, que avançam nas terras dos índios. É interessante ainda o que sugere Jamundá, chamando atenção para o fato de que nem sempre o caboclo e o índio entraram em atrito, mas que muitas vezes, nos encontros ocorridos entre os dois, cada qual seguia o seu rumo, sem entrar em confronto um com o outro. Talvez este tenha sido também o motivo que levou ao sucesso do processo de ocupação do imigrante.

O terceiro momento de povoamento do Vale do Itajaí, que ocorre por volta de 1850 com a fundação da colônia Blumenau, realizado pelo europeu de origem alemã, antecede o italiano em 25 anos.


A família camponesa e a sua inserção no Vale do Itajaí

Sabe-se que a política de colonização valorizava a concessão de terras a famílias, como forma de garantir a permanência dos imigrantes nas áreas coloniais, supondo que o sucesso dos empreendimentos coloniais seria maior, se fosse limitada a entrada de imigrantes sem família.

A busca de terras para os filhos foi sempre um dos principais objetivos desse campesinato. A tradição recomendava que cada filho casado deveria se estabelecer em uma colônia própria, a exceção do herdeiro da casa. A possibilidade de subdivisão da colônia entre os herdeiros nunca foi inteiramente descartada, embora um dos filhos recebesse uma parcela maior, juntamente com a casa e as benfeitorias. (Seyferth, 1985: 13)

Entre os colonos italianos do Vale prevaleceu, de acordo com os moradores, o sistema de minorato (ou ultimogenitura), onde o herdeiro é o filho mais novo e, mesmo nos casos da partilha da terra, ele recebe a porção maior. Na prática, nem sempre é isto que ocorre, podendo o filho caçula se anteceder aos outros irmãos no aprendizado de um ofício e se engajar em outras atividades, tanto dentro como fora da propriedade ou do meio rural.

Os acertos em torno da herança eram variados. A estratégia mais simples era excluir as mulheres. Era feita uma diferenciação clara entre dote e herança – ambos associados ao casamento. Essa estratégia, considerada mais fácil, era tomada como “costume italiano”, embora também fosse praticada por colonos de origem alemã. A mulher não herdava terras porque, a partir do casamento, faria parte de uma outra família. E, pertencendo a uma outra família, não tinha o direito de ficar com uma parte da terra que deveria pertencer a seus irmãos.

Quando ocorria uma partilha por inventário, a parte correspondente às herdeiras usualmente era passada a um dos irmãos por compra. O dote assumia, então, um caráter compensatório e ressarcia a mulher pela sua exclusão da herança. (Seyferth, 1985: 14-15).

A única exceção era quando não haviam filhos homens. Fora isto, a única forma de acesso à terra pela mulher ocorria através do casamento, quando constituía um outro grupo doméstico em terras do marido, passando a morar na propriedade do sogro. Como falado:

Você entendeu? Então, aí a menina já saía de casa com esse dote e depois começava a construir a vida dela. E os homens ficavam, quem ficava, e depois, quando vinha a divisão das terras, o pai, por exemplo, comprava a parte ou dava um dinheiro ou .... Obviamente que não era uma coisa exorbitante o preço do terreno, para cada irmão meu.” (Padre franciscano, 66 anos, Rodeio)

Nas localidades pesquisadas, encontramos uma variação deste padrão: com a morte do pai, os irmãos, reunidos, “renunciavam” a favor daquele que tinha ficado ou ficaria cuidando da mãe viúva (normalmente o irmão mais novo).

A família camponesa italiana do Vale caracteriza-se por ser fortemente patriarcal sendo a autoridade do pai indiscutível, principalmente no que concerne ao controle da economia doméstica e à herança da terra.

Os filhos são independentes só após o casamento. Mesmo após o casamento, os filhos só se tornam inteiramente independentes quando passam a exercer atividades fora da agricultura, como é o caso dos operários-camponeses e daqueles que, por falta de terras, se proletarizam totalmente, embora continuem morando na comunidade rural

O casamento do primeiro filho é um momento crucial, nele será desencadeado o processo de herança. Essa situação, porém, é idealizada e na prática poucas vezes ocorre porque o tamanho das propriedades raramente permite uma subdivisão racional das terras entre os herdeiros. Para a maior parte dos filhos, a “herança” inclui apenas um pedaço de terra suficiente para construir uma casa. A subdivisão da propriedade de forma supostamente igualitária e dentro dos padrões da herança compartilhada é real apenas no sentido em que todos os filhos recebem uma parcela de terra. Porém, de fato, apenas um deles herda a colônia enquanto unidade de produção e têm possibilidade de manter-se camponês.

A situação fundiária atual do Vale do Itajaí não permite a reprodução social desse campesinato num contexto de maior subdivisão das colônias.

Logo, obter para os filhos uma colocação no mercado de trabalho urbano (como operários nas indústrias têxteis) é uma das estratégias acionadas para se evitar o excessivo parcelamento da colônia. As opções são variadas, dependendo da quantidade de terras herdadas, a proletarização pode ser total ou parcial, mas raramente significa o afastamento da comunidade rural, como já foi mostrado antes.

Outro costume comum entre colonos de origem italiana, examinado mais detalhadamente nesta pesquisa é o estímulo para se enviar filhos ou filhas para a carreira religiosa que, tendo ocorrido com maior intensidade no passado, está presente até os dias atuais. A vocação religiosa é interpretada pelos pais como uma estratégia para reduzir o número de herdeiros. Nesses casos, os filhos renunciam ao que seria a sua indenização pela perda da terra ou do dote (no caso das mulheres), sendo vista como eqüivalendo ao estudo:

Sim, era comum isso, que o irmão que fosse religioso, ele renunciasse. Sim, porque você não... você ia fazer o quê com a terra? Você não precisa da terra! Quem mais precisa são eles. E depois, ele tinha compreensão de ver também que os irmãos que lá ficaram precisaram muito mais da terra do que ele, porque enquanto ele estava fora, estudando, os irmãos estavam lá em casa trabalhando, na roça e tudo, e possibilitaram, através do pagamento das viagens, que ele estudasse, se formasse. Então ele falou: ‘olha, eu não vou precisar da terra; eu vou renunciar para vocês”.

O trabalho familiar

Como é comum nas formações sociais camponesas, também nos núcleos do Sul do Brasil as atividades econômicas são desempenhadas pela família. A divisão do trabalho decorre das diferenças de sexo e idade entre os parentes que habitam um mesmo núcleo familiar, o qual corresponde a uma unidade de produção e consumo. Desde muito cedo (por volta dos seis a sete anos), os indivíduos participam do trabalho. Dentro de uma faixa de idade que variava de oito a doze anos, a menina já trabalhava na roça como a mãe, ao mesmo tempo em que desempenhava inúmeras atividades no âmbito da casa: limpeza, conservação e preparação dos alimentos, além dos cuidados com os irmãos menores. Ao homem colono era reservado o trabalho mais pesado na roça, como segurar o arado e tirar lenha no mato, buscar “trato” (alimentação para o gado) e cortar cana para alimentar os animais. Como expresso adiante:

A gente estudava à tarde ou de manhã, dependendo do horário que a gente tinha escola, mas, por exemplo, chegava em casa, a primeira coisa era tirar a roupa da escola e já fazer todo o serviço da casa: cuidar das galinhas, tirar leite, limpar o chão da casa, varrer o terreiro, como eles dizem lá na região, fazer a comida... tudo eram atribuições da gente. Tanto de manhã quanto à tarde. Se a gente estudava à tarde, de manhã fazia tudo, deixava o almoço pronto, almoçava, deixava as coisas tudo limpo daí pro pai e pra mãe. E se estudava de manhã, aí quando chegava, mudava tudo e depois fazia todas as coisas. E daí, já quando a gente tinha oito, nove anos, a gente ia pra roça juntos, já fazia o que eles faziam mesmo, capinar, colher fumo, amarrar fumo. Quando não dava mais pra enxergar na roça, a gente voltava nesse horário, quando não dava mais pra enxergar. Então era um trabalho assim, era bastante... Hoje eu vejo o quanto que o povo de lá, às vezes nem tem idade, mas são assim já acabados, bastante acabados por esses trabalhos... Porque a vida é muito dura. Muito dura. Lembro tão bem que no frio a gente levantava, ia pra roça, e o pai fazia um foguinho lá na roça pra gente poder se esquentar, pra poder trabalhar. (Religiosa salesiana, 55 anos, Braço Seco)

Observa-se que o trabalho duro e cansativo envolvia toda a família camponesa no labor diário e nas tarefas próprias do meio rural. Ainda hoje, observando-se a família camponesa do Vale, é possível verificar o quanto ela trabalha, embora as tarefas de cada um sejam mais facilitadas, em função da introdução de eletrodomésticos e outras máquinas tanto no trabalho de cortar “trato” (antes feito manualmente), como nas serrarias ou ainda com as “tobattas”, que aram a terra com maior rapidez. Tudo isso só começou a ocorrer há cerca de 30 anos atrás, quando foi introduzida a energia elétrica na maior parte do interior dos municípios, nas áreas dos antigos núcleos coloniais da região. Antes disso, para fazer a farinha no engenho, serrar a lenha – enfim, tudo – usava-se a força manual, o que significava uma sobrecarga de trabalho para toda a família de colonos.

A mulher tinha um cotidiano muito duro, principalmente a partir da segunda geração, quando passou a existir um aumento no número de filhos. Além de todo o trabalho realizado no grupo doméstico, viviam em meio a inúmeras gestações e partos, perdendo muitos filhos devido ao trabalho contínuo na lavoura.

De acordo com Moura (1878: 36), a contradição fundamental encontra-se aí. Por um lado, filhos numerosos são uma exigência na relação conjugal uma vez que se tornam mão-de-obra dentro da propriedade quando atingem a idade de sete ou oito anos. Ao mesmo tempo, ao se aumentar a mão-de-obra familiar, está se ampliando a ameaça de fragmentação excessiva da terra, no momento da partilha. Para reduzir seus efeitos, é preciso poupar ao máximo o fracionamento do patrimônio. Mas como chegar a uma síntese, se tal fato encerra outra contradição, ou seja, a de ceder terra ao maior número possível de filhos? Respondendo a isto, são criadas as regras de herança que desenvolvem soluções para fazer face a esta realidades.


A recriação da cultura camponesa no Vale do Itajaí

Uma vez no Vale, os imigrantes irão recriar o seu mundo cultural de origem, reconstruindo-o com base nos valores da sociedade camponesa do Norte da Itália, que tinha na religião o seu princípio regulador.(Grosselli, 1978:449) A religião é parte do sistema de vida de um povo. “Enquanto cultura, envolve não só as crenças mas também as condutas. Isso porque a noção de cultura diz respeito ao conjunto das práticas sociais, o que inclui o reconhecimento da dimensão simbólica - significativa - das condutas. Cultura é o conjunto de modos de fazer, interagir e representar desenvolvido pelos homens como uma solução ou resposta para as necessidades de sua vida em comum.” ( Macedo, op. cit.: 11)

O abalo sofrido pelos grupos imigrantes em conseqüência da imigração atinge todo o seu mundo cultural. Ora, se para a sociedade camponesa do norte da Itália a religião funcionava como princípio regulador central, seria certamente ela que viria a permitir a garantia da continuidade desse mundo para estes mesmos imigrantes, através da sua vivência e recriação. Será a religião, com seus símbolos, espaços e tempos sagrados, os ritos e rituais cotidianos, que iria lhes permitir a plausibilidade do seu mundo cultural. “Já nos primeiríssimos meses de sua permanência em terra brasileira, seus esforços foram endereçados não somente e não sobretudo para a criação de espaços físicos de vida, para a dominação da floresta virgem: buscaram de imediato recriar, como lhes era possível, comunidades que tivessem na religião um centro regulador, uma ética, uma moral, até uma lei civil. E as capelas, que logo surgiram numerosíssimas ao lado das primeiras choupanas, não eram senão o sinal material deste endereçamento” (Grosselli, 1987: 44)

Mas as capelas que se criaram eram também o centro de convergência da população, a única sede de encontro da comunidade. Na ausência de religiosos surgiu espontaneamente a figura do ‘padre da floresta’, ou ‘capelão’, ou ‘sacristão’, ou ‘ministro’ ou ‘prevoste’ (propósito) (id. ibid.: 452)

Deretti, antigo morador de Primeiro Braço do Norte, faz referência à presença do padre leigo na localidade, por nós pesquisada. De acordo com ele, devido à falta de sacerdotes – que só apareciam de ano em ano – era costume, como em suas comunas na Itália, escolher um homem virtuoso e idôneo para presidir as funções religiosas. Dava avisos importantes e lia o Evangelho do dia em italiano. Nas grandes estiagens, o capelão avisava ao povo para fazer uma procissão, que, a cada dia saia da capela e ia até um dos oratórios construídos pelas famílias da localidade. As cerimônias fúnebres eram igualmente presididas por ele, assim como a administração do batismo. A Semana Santa era comemorada solenemente. Apelavam também para o padre-leigo, a fim de que este lhes abençoasse as plantações, os animais, os lares e os alimentos.(Deretti: mimeo) Em diversos lugares o padre-leigo celebrava também a missa dominical.

Esse tipo de organização religiosa dos imigrantes italianos do sul, “tendeu a repetir-se nas primeiras colônias de parceria do Estado de São Paulo, mas com características distintas: a comunidade, por exemplo, tinha muito menos espaço para iniciativa e para auto-organização, pois a esfera religiosa ficava, como tudo o mais nas fazendas, sob o estrito controle e vigilância do proprietário e do seu administrador.” (Beozzo, 1993: 47-48)

A religiosidade dos imigrantes camponeses, organizou-se em torno de práticas caracterizadas por um tipo de catolicismo popular de cunho agrário. Estas práticas, difundidas pelo Vale, incluíam devoções familiares, rezas de terço diárias, orações em família, promessas, procissões, benzeções, dezenas, trezenas e devoções a santos - através da construção de capelas e capitéis. Estas práticas, freqüentes nos anos iniciais, serão objeto da ação da Igreja, através do processo de romanização que irá se inaugurar com o estabelecimento de congregações européias vindas para prestar assistência religiosa aos colonos.

As capelas precederam os oratórios ou capitéis, que foram erigidos em função de promessas feitas por uma ou mais famílias. Em Primeiro Braço do Norte, uma das localidades estudadas, identificamos os oratórios de São Braz e do Santo Anjo, bem como uma pequena capela dedicada a São Roque. Esta última foi erigida em conseqüência de promessa da população local, no ano de 1914, durante uma epidemia de peste que atacou os animais domésticos, principalmente os bovinos.

Em 1914 deu uma doença aqui nos animais; o meu pai me contava que fizeram uma promessa para São Roque (santo dos animais domésticos), que se melhorasse, se a peste passasse, eles construiriam a capela; ela era de madeira, depois eu comecei a montar uma caixinha e então construímos de tijolo. (...) Aqui todo mundo trazia uma galinha viva para ofertar a São Roque. Depois arrematavam e levavam prá casa – é que o pessoal tinha a crença de que tendo um animal benzido no terreiro dava proteção aos outros. (...) O pessoal vinha da igreja (Santo Antônio) em procissão até a capela cantando ladainhas. Eles vinham todos aqui na casa das sete ou oito famílias que moravam aqui dentro no Bracinho. (...) E como era tudo parente aqui no lugar, a gente acabava oferecendo um banquete, era como uma festa de casamento.”

A Festa do Oratório de São Roque foi proibida pelo padre Afonso, vigário, na época, da paróquia de Luiz Alves, à qual Primeiro Braço se encontrava subordinada religiosamente. Do mesmo modo que a Festa de São Roque, o costume, também comum, de dar a bênção a pessoas, animais e plantações e que acontecia em Primeiro Braço, passou a ser restringido pela igreja oficial, através da orientação do próprio pároco e da ação do ministro.

Como já foi falado, tudo isto ocorre com a chegada das congregações religiosas no Vale do Itajaí, dando início à estruturação do catolicismo romanizado. Esse tipo de catolicismo emerge da realidade européia do século XIX, marcada pela industrialização, pela expansão neocolonialista, bem como pela restauração monárquica e o nacionalismo. Tal catolicismo teve início “a partir do pontificado de Pio IX (1846-78) quando a Sé Romana fornece um modelo de catolicismo europeizado para todo o mundo.” Dallabrida (1993: 12)

O catolicismo romanizado leva à introdução de novas devoções e à valorização dos sacramentos como meios ideais para a salvação. Neste nível de interpretação, não é incorreto definir a romanização como um processo de transformações religiosas que leva à ascendência do clero sobre as bases do aparelho religioso. Concluído o processo de romanização, o aparelho religioso fica reestruturado a partir do eixo da autoridade (Papa-bispo-leigo), concentrando-se o poder religioso e o poder de decisão no interior do aparelho eclesiástico, enquanto as bases leigas ocupam uma posição passiva, de consumidores da produção religiosa clerical e destituídas do poder religioso.” Por isso a clericalização é uma das características básicas que definem esse processo (Ribeiro, 1985: 326-7).

No Vale do Itajaí, este processo desencadeou várias estratégias. Campanhas intensivas e persistentes supervalorizavam a vocação religiosa e a figura do padre. A vida religiosa era “uma grande graça, a maior de todas, reservada a poucos, muito inteligentes. Era considerada como a antecipação do céu na terra e a garantia de escapar às durezas do trabalho na lavoura...” (Tomelin, 1986: 19).

Outra, era a “pregação das santas missões” nas diversas capelas da paróquia. Paralelamente a esse serviço, realizava-se ainda “um trabalho de conscientização no meio do povo, inculcando nas mentes dos adultos e adolescentes a necessidade de se rezar insistentemente para o surgimento de vocações religiosas.” (Berri, 1988: 113-114) Diante disso, não é de se estranhar que o padre passasse a ter o poder que teve na comunidade e gozasse de tão alto prestígio. Segundo Tomelin (op. cit.: 5),

O padre era o representante de Deus e, consequentemente, a maior autoridade local. Ele sempre falava do púlpito, a respeito de tudo e de todos. Os cristãos só escutavam. Discorria sem contestação sobre os mais variados assuntos: quanto ao número de filhos que o casal podia e devia ter, e como educá-los. Como rapazes e moças deviam namorar. Demarcava os limites até onde os noivos podiam se aventurar. Decretava aos casais como devia ser seu relacionamento íntimo. Ditava regras sobre o vestuário, cabelo, perfume, festas e diversões. Era ele que tomava a dianteira para resolver o problema de uma seca, de pragas na lavoura, de uma peste entre os animais, de um desentendimento entre casais. Enfim, sua competência era universal: cobria o ser humano do nascimento à morte e até no outro mundo.”

Todo esse conjunto de estratégias irá permitir a formação de uma elite de pessoas profundamente religiosas, que primam pela vida de perfeição e apostolado, dando, assim, exemplo de autêntica santidade dentro da comunidade.

Motivo para a entrada nos Seminários e Conventos

A remontagem das trajetória dos informantes, permitem observar o quanto a saída destes da casa paterna para as instituições religiosas, esteve pouco orientada por convicções de ordem religiosa e que a “vocação” vai sendo construída ao longo do processo de formação com a sua entrada nestas instituições.



Então o momento assim decisivo de dizer ‘olha, eu vou ser padre’, é lógico que eu fui pensar isso depois do colegial. Porque quando você tem doze anos é uma coisa; quando você vai com quatorze, dezesseis, dezoito...É, aí você entra com o objetivo de estudar e de descobrir a tua vocação. Porque você não entra no seminário dizendo assim ‘eu vou entrar pra ser padre’. Não é que eu vou entrar pra ser padre. E se você for conversar com o padre Mário Bonatti, ele vai te contar que ele queria fugir do seminário. Ele, com os colegas, programaram tudo, arrumaram as malas, estavam pulando o muro, o padre pegou: ‘não, não, não, pode voltar aqui; nada disso’.” (Padre salesiano, 39 anos, Primeiro Braço do Norte)

Na realidade foi... porque a minha irmã foi pro colégio e aí quando ela voltou da primeira vez eu disse pro pai que eu queria ir também; foi onde o pai me deixou ir. Mas assim, pra ser sincera, eu não tinha claro que eu queria ou não queria ser irmã. Daí fomos todas, fomos acho que umas doze. Nós éramos um grupo grande que saía, mas fomos nos conhecendo no caminho, na realidade no caminho. Mas não pensava. É uma coisa assim que hoje, quando eu penso, às vezes no quê, no sentido, como é que pode, não consigo ter uma resposta do porquê, por exemplo, o fundo disso, por que eu fui. Mas fui porque todo mundo estava indo, acho que foi por causa disso. As regras são diferentes, aquela coisa toda, aí depois que foi surgindo a vocação mesmo.” (Irmã salesiana, 34 anos, Primeiro Braço do Norte)

Tal fato condiz com o depoimento de um dos religiosos entrevistados – um padre salesiano, filho de Primeiro Braço do Norte –, ao sugerir a importância da presença de um número significativo de seminários e instituições religiosas na região, como um fator que explicaria o número elevado de religiosos(as) saídos da localidade. Os padres passavam nas localidades da região para visitar as famílias, facilitando e incentivando as vocações. Não só os religiosos de profissão exerciam esse papel de incentivo e recrutamento. Leigos de ambos os sexos também contribuíam nesse processo.

Normalmente, por ocasião das catequeses, o Sr. Baruffi ministro, professor e catequista em Primeiro Braço do Norte, aproveitava a presença de padres na comunidade (cujas visitas a partir da chegada das congregações européias na região tornaram-se uma constante) e pedia que dirigissem a palavra às crianças. Foi desta maneira que muitos entrevistados, inclusive o próprio informante, ante modelos reforçados positivamente, relataram terem se “decidido” a ir para o seminário.

Além de convidar o palestrante a dirigir a palavra às crianças, o Sr. Baruffi ainda incentivava a ida dos alunos, dando-lhes uma “injeção de ânimo” e anotando o nome daqueles que desejavam ir (cf. Gilson Fonseca, mimeo., p. 106). É interessante acrescentar aqui que dos filhos do Sr. Abraão Baruffi que passaram pelo seminário, três desistiram, enquanto um permaneceu. No momento em que realizamos as entrevistas, ele estava em Roma, exercendo um cargo importante na hierarquia eclesiástica, como presidente do Conselho Geral da Congregação Salesiana à qual pertence. Os outros que se afastaram, ainda segundo o depoimento de um padre salesiano, “saíram já com um cabedal de conhecimentos bem superior a todos. E hoje em dia, dois são advogados”.

Na verdade o Sr. Baruffi, assim como a maioria dos colonos da comunidade, viam no seminário não somente a possibilidade de ter um filho religioso, como também a possibilidade de sua ascensão social através da aquisição de um capital cultural fornecido pelo estudo, pois a única possibilidade de oferecer educação formal para seus filhos poderem continuar os estudos, era dada pelos seminários e instituições religiosas existentes na região, já que os colonos não dispunham de dinheiro para mandá-los estudar em outros lugares tais como Blumenau, Lages e Curitiba.

Para a segunda geração de camponeses imigrantes do Vale, a ida do filho para o seminário representava a possibilidade de ele estudar, mesmo que não viesse a se tornar padre. Conclui-se, portanto, que além do desejo de ter um filho padre – motivo de orgulho e status para a família e comunidade –, o estudo era um bem cultural almejado para os filhos, como ilustra o depoimento de um padre salesiano:

Eu lembro, por exemplo, que depois, eu já ordenado padre, depois, numa passagem lá, conversando com o Abraão, já mais maduro e avançado assim de idade, conversando com ele onde é que estavam os filhos, esse, aquele, ele me dizia: ‘olha, os meus filhos, todos eles vão ter que passar por Ascurra, pelo seminário. Fique ou não fique é problema deles; se ficar, ótimo, se não ficar, não perde nada, só ganha’ – isso eu me lembro de ter escutado do Abraão. E de fato os quatro filhos dele passaram, os quatro filhos homens passaram pelo seminário de Ascurra. Um ficou!” (Padre salesiano, 66 anos, Primeiro Braço do Norte)

Um outro aspecto que também se destaca nos depoimentos dos religiosos é a importância da catequese, realizada pelos professores e catequistas das localidades de origem. As Irmãs Catequistas Franciscanas, ao atuarem simultaneamente como professoras e catequistas a partir de 1913, aparecem como tendo um papel central na estratégia mantida pelos institutos religiosos para recrutar as vocações na região do Vale do Itajaí. Era a Igreja, na pessoa do pároco, que orientava a catequese ministrada pelo professor Baruffi.

As escolas paroquiais foram a menina dos olhos, a grande mola propulsora de toda a pastoral. Vale aqui explicitar que um dos mecanismos privilegiados pela Igreja Católica a partir do seu movimento de reestruturação, de caráter ultramontano, iniciado em 1891 era, a instrução religiosa do povo. Conforme documentos episcopais, tal instrução consistia na dinamização da catequese e de escolas católicas, denominadas Escolas Paroquiais (Heerdt, 1992: 44-69).

Como já vimos, existia toda uma tradição devocional no âmbito da família de imigrantes e na comunidade, inicialmente identificada com uma prática de catolicismo do tipo popular. A partir da chegada das congregações européias, essa tradição passa a ser alterada e modificada, assim como acontece uma mudança em suas representações e visões de mundo, devido à imposição de um novo habitus em que os rituais do catolicismo ultramontano substituíram em parte as práticas do catolicismo de tipo popular, ainda que muitos informantes não tenham conscientemente clara esta dimensão.

Nas localidades estudadas, todas as faixas etárias, incluindo crianças e adultos, velhos e jovens, homens e mulheres, pertenciam a alguma associação religiosa, introduzidas pelos padres franciscanos, tais como: Cruzadinhos, Coroinhas, Marianos, Filhas de Maria, a Ordem Terceira do Apostolado da Oração, Associação do Santo Sepulcro, Associação de São Pedro e São Paulo.

O cotidiano do indivíduo, desde o dia em que nascia até a morte, era marcado pelos rituais que definiam o seu ingresso e participação na comunidade religiosa. O sacramento da Crisma, assim como o da Comunhão, eram importantes rituais comunitário no sentido de confirmação da fé católica. A Primeira Eucaristia, mais que a Crisma, representava um ritual de passagem, ao introduzir o indivíduo verdadeiramente na comunidade cristã através do Sacramento da Confissão3. Além dos sacramentos, que passaram a ser administrados de forma mais sistemática devido à presença das congregações, existiam as atividades ligadas às associações religiosas.

Em Rio dos Cedros, até por volta da década de 60, o coroinha era a pessoa que ajudava nas atividades religiosas vinculadas às missas e procissões. O grupo dos coroinhas era muito grande, ainda que somente alguns auxiliassem o padre durante a missa. Existia um coordenador cujo trabalho, além da atividade litúrgica, consistia em organizar a distribuição de funções, como, por exemplo, quem ia ajudar na missa nos diferentes dias e horários existentes ou em cerimônias, tais como a da Páscoa, quem ia segurar os castiçais ou o incenso. O fato de ser coroinha influenciava na opção religiosa, porque isto conferia um relativo destaque diante dos padres e já indicava também a boa procedência familiar do candidato, elemento fundamental para o recrutamento.

Além dos aspectos apontados e que influenciaram na construção da vocação religiosa dos entrevistados, havia o importante papel exercido pela pregação das Santas Missões, que interrompia a rotina e o cotidiano da comunidade, atuando de forma marcante na vida das pessoas. Conforme uma das entrevistadas:

As Santas Missões eram assim uma forma de aprofundamento da vida religiosa. Então tinha a confissão, muita gente que não se confessava há um ano ou dois, vinha se confessar. Faziam aqueles sermões! Amedrontava muitas pessoas, encenava, sabe, se encenava o dia do juízo final, mostrava as coisas do inferno para quem pecava, se cantava, era uma catarse, então a pessoa saía purificada.” (Ex-religiosa das Irmãs da Divina Providência, 61 anos, Rodeio)

Em Rodeio, elas eram freqüentes. Costumavam durar uma semana e ocorriam uma vez por ano. A abertura era sempre marcada com algum tipo de ritual solene. Em seguida, dava-se início às várias atividades: confissões, comunhões, reuniões, procissões, palestras. As atividades eram organizadas em função das várias faixas etárias e categoria de associados. No final tiravam-se fotografias junto com os religiosos, sendo comum encontrá-las em grande quantidade com as pessoas das localidades pesquisadas. Também era comum que deixassem nas localidades por onde tivessem passado, uma cruz. Provavelmente como uma forma de, através da lembrança que esta impunha, fixar as mensagens veiculadas e propagadas nesta ocasião. O efeito sobre as pessoas era muito forte, conforme se pode inferir a partir dos depoimentos dos informantes.

Ah, eram padres especiais, que vinham de fora, nunca eram padres da comunidade, sempre padres que tinham o dom da oratória, o dom de impressionar. E eles impressionavam mesmo, quer dizer, a conversa que se fazia era:’ mas como ele fala bem’. Aquela conversa que se faz em casa, todo mundo admirava.” (Ex-religiosa das Irmãs da Divina Providência, 61 anos, Rodeio)

Nesta época não havia chegado na localidade a energia elétrica e suas novidades: televisão, rádio e aparelhos eletrodomésticos; ônibus não trafegavam por lá. A luz elétrica só chegaria nas áreas rurais do interior na década de 70. Era um tempo em que ainda viviam praticamente isolados, apegados unicamente aos seus valores morais e éticos que constituíam o seu universo camponês, pautado por uma conduta rígida, marcada pela rotina do trabalho duro na roça, pelas rezas diárias no seio da família e a vida sócio-religiosa na comunidade, quebradas com estardalhaço e pompa pelas Santas Missões.


Arregimentação das vocações


Na localidade de Primeiro Braço do Norte, durante muitas décadas e em menor intensidade hoje, as “promoções vocacionais” eram muito freqüentes. Quando não aconteciam as visitas dos promotores vocacionais, que iam ao campo arregimentar noviços ou noviças, eram os próprios parentes religiosos que retornavam à comunidade que se encarregavam de incentivar os familiares na busca da vocação. Um outro aspecto sugerido pelos entrevistados que teria influído na sua decisão de ir para o seminário, tem a ver com a sedução exercida pelos padres recrutadores ou “pescadores de vocações”, ao acenarem com a possibilidade de eles terem acesso, no seminário, a jogos, principalmente o futebol. Este esporte era extremamente valorizado pelos jovens na sua comunidade, ainda que em sua família não tivessem acesso a uma bola de futebol. Esta era feita com serragem enrolada em pano de saco e amarrada com um barbante.

O valor conferido aos esportes e aos jogos fica evidente nas inúmeras falas dos entrevistados, ao descreverem a rotina da vida no seminário, onde estes aparecem como um momento crucial e intensamente apreciado.

As meninas não pareciam tão atraídas pelos jogos quanto os meninos, sendo também diferentes as modalidades apreciadas, que se expressam de acordo com os respectivos papéis de gênero, orientando-se para atividades de cunho mais expressivo.

Até os anos 60, os modelos possíveis de serem aceitos na comunidade para quem quisesse sair do campesinato eram o de padre e professor, para os homens, e o de freira e professora, para as mulheres. Em alguns casos, e aqui também se especificam as definições em termos de relações de gênero, a vocação encobre o próprio desejo de liberdade e estudo via institutos religiosos, para fugir do modelo possível de casamento existente na comunidade4.

Ao analisar a trajetória dos religiosos, também percebemos que ocorria uma cooptação da instituição religiosa, que atuava no sentido de preservar aqueles membros postulantes que mais lhes interessavam. Inúmeros trabalhos que descrevem o processo de construção de vocações religiosas, têm mostrado como as técnicas corporais, ideológicas e de confinamento a que se encontram submetidos os religiosos e religiosas desde o momento em que ingressam num instituto desse tipo5, são responsáveis, em última instância, pela formação de um novo habitus, que o conformará à nova identidade, conforme as regras das instituições na qual os candidatos se inserem. Essa submissão às normas e a incorporação de um novo habitus era facilitada também pela pouca idade com que os candidatos entravam nestas instituições, tendo sido comum a presença de crianças muito novas, na faixa de 11 a 13 anos:

Eu não sei se eu senti tanta mudança, porque quando eu vejo, ainda era tão criança que tudo que diziam pra fazer a gente fazia. Você fazia, reclamava e não dizia nada; você ia fazendo. Tanto é que, pra mim, se me davam um castigo ou não era... você sentia na hora, mas até fazia brincando aí o meu castigo (risos). Mas depois não tinha essa coisa assim de você receber um castigo, uma coisa, e reclamar ou ficar chateada, como hoje fica. Não; você levava tudo na brincadeira e ia, depois já ficava de bem com todo mundo, e assim ia. Tanto é que – é aquilo que eu falei –, por exemplo, eu cheguei no colégio, ainda a gente brincava de boneca. Sábados à tarde a gente ia lá pro Prézinho, tinha umas bonecas lá e a gente brincava de boneca; nós éramos em quatro, pequenas, lá, e dê-lhe: uma era mãe da outra, e uns... brincava de boneca mesmo, como a gente brincava em casa! A gente ia brincar....” (Religiosa salesiana, 55 anos, Braço Seco)

Ao serem perguntados porque permaneceram religiosos depois de terem vivido um processo de crise de vocação, alguns informantes relataram que a instituição procurava impedir a saída do vocacionado escolhido, pressionando aqueles que lhes interessavam a permanência, o que impedia que muitas crises resultassem em desistência.

Um dos motivos freqüentemente alegado para a desistência dos candidatos e candidatas era o regime disciplinar duro dos seminários e instituições religiosas:

Olha, foi muito duro pra mim. (Por quê?) Porque, veja bem, a gente era pequeno, tava a 180 quilômetros longe de casa. Você entra no seminário, hoje você tem uma rotina que nem um quartel. Você tem hora pra levantar, hora pra tomar café, hora pra ir pra escola, hora pra almoçar, hora pra trabalhar, pra jantar. Então era... Você pensa bem, pega uma criança de dez anos que não era acostumada a ter horários preestabelecidos assim. Então foi muito duro pra mim no início. Chorava bastante, queria voltar. Mas depois foi se ajeitando. Os padres eram muito compreensivos, o nosso diretor na época, até que a gente foi entrando no esquema, e foi embora. Os novatos, como a gente chama quando entra, eram os mais sacrificados. (Por quê?) Faz os piores trabalhos, limpa banheiro, faz de tudo. Em qualquer lugar tem isso. Tanto os salesianos como a Consolata era um regime meio duro, hoje tá mais liberal, é claro que 30 anos passados... já hoje mudou muito. Mas um regime um pouco duro e tal, então no fim a gente optou, mas eu continuei fazendo serviço aqui na igreja.” (Ex-seminarista e atual ministro de Primeiro Braço do Norte, 42 anos)

Um aspecto que aparece como recorrente no depoimento dos religiosos e religiosas entrevistados é a saída em grupo dos postulantes. Com as mudanças estimuladas pelo Concílio Vaticano II, na década de 60, passou a ocorrer inclusive o abandono posterior aos votos, o que dificilmente ocorria antes. Tomando por base os dados coletados, pode-se afirmar que sempre houve desistência de candidatos a religiosos na região em número muito expressivo.



As desistências normalmente ocorrem como resultado de uma situação de crise. Esta é resultado do conflito que se estabelece para o candidato entre querer continuar na instituição religiosa, pelas oportunidades oferecidas, sem no entanto, se definir como opção definitiva. Por outro lado, os candidatos a religioso “escolhidos” pela instituição, sofriam uma pressão no sentido de manterem a sua “opção” religiosa, eventualmente gerando uma situação de crise e conflito. Esta situação podia levar, por sua vez, a duas opções por parte dos candidatos. A primeira, delas é a reafirmação da opção pela vida celibatária e casta. Segundo um dos religiosos, responsável pela orientação vocacional de religiosos da sua congregação, essa reafirmação da opção ocorre na proporção de 10%, o que evidencia uma percentagem muito pequena dos candidatos que permanecem. A outra opção é aquela representada por uma situação de ruptura e rebeldia, com a saída e inserção dos ex-pretendentes e ex-religiosos em profissões urbanas, aprendendo a sobreviver fora do mundo camponês e reconstruindo uma identidade não mais religiosa nem camponesa.

Bibliografia

Alvim, Zuleika M. F. – “O Brasil Italiano (1880-1920” in Fausto, Boris (org.) fazer a América – A Imigração em Massa para a América Latina. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo: 1999.

Beozzo, José O. - "Decadência e morte, restauração e multiplicação das Ordens e Congregações Religiosas no Brasil", in Azzi, Riolando (org.) - A vida religiosa no Brasil: Enfoques Históricos - São Paulo, Paulinas: 1983.

Berri, Aléssio - Imigrantes Italianos, Criadores de Riqueza – Blumenau, Fundação Casa Dr. Blumenau: 1993.

Dallabrida, Norberto - A Sombra do Campanário: O catolicismo romanizado na área de colonização italiana do Médio Vale do Itajaí Açu (1892-1918) - Florianópolis, SC, Dissertação apresentada ao Curso de Pós-Graduação em História do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Santa Catarina: 1993.

De Boni, Luís & Costa, Rovílio - Os Italianos no Rio Grande do Sul - Porto Alegre, Escola Superior de Teologia; Caxias do Sul, Correio Riograndense e Universidade de Caxias do Sul: 1984.

Ferreira, Gilson D. - Pioneirismo, Fé e Trabalho: a identidade étnica dos descendentes italianos de Primeiro braço do Norte. (mimeo), Blumenau: 1992

Grosselli, Renzo Maria - Vencer ou Morrer: Camponeses Trentinos (Vênetos e Lombardos) nas Florestas Brasileiras – Florianópolis; Editora da UFSC: 1987.

Heerdt, Moacir – As Escolas Paroquiais em Santa Catarina: 1890-1930 – Florianópolis; Dissertação de Mestrado apresentada no Curso de Pós-Graduação em História, da Universidade Federal de Santa Catarina: 1992

Jamundá, T. C. – Interpretação Regional do Município de Rodeio, Florianópolis; Instituto Histórico e Geográfico de SC: 1948.

Moura, Margarida Maria – Os Herdeiros da Terra: parentesco e herança numa área rural – São Paulo; Hucitec:1978

Peluso Jr., Victor A. - Aspectos Geográficos de Santa Catarina – Florianópolis; Fundação Catarinense de Cultura e Editora da UFSC: 1991.

Pereira, Eloy Locona – O Brasil do imigrante – Caxias do Sul, Tipografia São Paulo: 1974.

Petrone, Maria Thereza Schorer – O imigrante e a pequena propriedade - Coleção tudo é história, no. 38-2a. ed, São Paulo, Brasiliense: 1984.

Pintarelli, Ary E. (Frei) – Menor entre Pequenos: 100 anos de Vida Franciscana em Rodeio – Cúria Provincial Franciscana; São Paulo: 1993.

Seyferth, Giralda - Imigração e Cultura no Brasil – Brasília; Editora da UnB: 1990.

Tomelin, Vitor - Pedagogia do Silêncio: o tamanho do medo - Campinas, SP: Papirus; Blumenau, SC: Fundação Universidade Regional de Blumenau: 1986.

Trento, Angelo - Do Outro lado do Atlântico. Um século de imigração italiana no Brasil - Instituto Italiano de Cultura de São Paulo, Nobel, São Paulo: 1989.



* Este trabalho é uma versão parcial da tese de doutorado em Educação, defendida em 1998, na Faculdade de Educação da UNICAMP (no prelo)

** Professora da FURB, pesquisadora do IPS/FURB e pesquisadora associada do CMU.

1 Acredito que o meu processo de “estranhamento” não ocorreu por puro acaso. Em parte ele se deve ao fato de, como antropóloga, ter sido continuamente treinada a descentrar o olhar.

2 Bourdieu propõe o conceito de habitus como o elemento de intermediação entre a estrutura social e a prática dos agentes. Definido como um sistema socialmente constituído de disposições, tendências e matrizes de percepções, ele é concebido como o produto da interiorização das estruturas objetivas. Ao mesmo tempo, enquanto princípio que produz e confere sentido às práticas características de um grupo de agentes, o habitus tenderá a reproduzir as estruturas externas das quais é, em última instância, o produto. (Cf. Bourdieu, Pierre. Esquisse d’une théorie de la pratique. Genève, Ed. Droz, 1972)

3 Na verdade, através da confissão se exercia e se mantinha um controle muito grande na esfera familiar, objeto da ação romanizadora em curso.

4 Como vimos, a mulher camponesa italiana do Vale não herdava a terra, restando como única forma de sair da casa paterna o casamento. Devido às características patriarcais da família de origem, muitas mulheres casavam-se para sair do jugo paterno, que consideravam muito penoso.

5 Sobre isto consultem-se os trabalhos de Rocha (1991) e Tagliavini (1990).



©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal