A importância da “luta de classes” na organizaçÃo da vida social sob o capitalismo: uma proposta de abordagem em sala de aula



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Observação: este é um texto elaborado, inicialmente, como subsídio para uma 'Oficina de ensino de sociologia' realizada com professores da rede básica do Estado do Paraná, com a intenção de mostrar um possível modelo de aula versando a respeito de uma introdução à sociologia de Karl Marx e com destaque no uso de artigos de jornal e de revistas. O texto, na forma de anotações, foi melhorado e ajeitado para divulgação, dentro da participação no GAES (Grupo de Apoio ao Ensino de Sociologia) do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Londrina.


A IMPORTÂNCIA DA “LUTA DE CLASSES” NA ORGANIZAÇÃO DA VIDA SOCIAL SOB O CAPITALISMO: uma proposta de abordagem em sala de aula
(Elsio Lenardão - Depto de C. Sociais/Uel)

1) Sugerimos, inicialmente, uma conversa com os alunos a partir da leitura do seguinte artigo de jornal: ‘Papéis trocados’.



Sexta, 1 de outubro de 1999



PARANÁ

No interior do Paraná os homens se tornam donos de casa
As mulheres trabalham numa indústria de confecção enquanto os maridos assumem as tarefas domésticas e a criação dos filhos
Maria Vitorino
CascaveI - Uma pequena cidade no interior do Paraná está provando que machismo é coisa do passado. Com 15 mil habitantes, conforme o IBGE, Ampére (a 150 quilômetros de Cascavel), no Sudoeste, tem fartura de emprego para as muheres. Ex-donas de casa partiram para o trabalho fixo, enquanto os homens, desempregados ou não, passaram a assumir os serviços domésticos. Assim, eles estão garantindo mais uma fonte de renda para a família, além de eliminar antigos preconceitos.
A situação torna-se ainda mais evidente quando os homens estão desempregados e são as mulheres que pagam as contas básicas da família. Conforme levantamento informal, em Ampére, o número de homens sem vínculo empregatício é maior do que o de mulheres. Para driblar as dificuldades, eles fazem bicos temporários e quando não há serviço, tornam-se donos de casa.
Competição
O motivo para essa mudança de comportamento é a Krindges Industrial Ltda., uma potência no setor de confecções que dá emprego a 1.200 pessoas, das quais 80% são mulheres. Com a fábrica, famílias migram do interior para a cidade. As mulheres abandonaram o posto de donas de casa ou de empregadas domésticas, aprendendo a apostar na capacidade de competição. Com as esposas fora, os homens passaram a participar mais da administração doméstica. Muitos deles assumiram os serviços, até então, tipicamente femininos.
Sem conservadorismos
O padeiro desempregado Paulino Gonçalves de Oliveira, de 33 anos, é um homem de inúmeras qualidades. Além de lidar bem com a argamassa e com o cimento, também sabe cozinhar, lavar e passar. A mulher dele, a costureira Ilza Cândido Tosta, de 28 anos, sustenta as contas básicas da casa, pois é a única a ter rendimento fixo. Mas Paulino não se faz de rogado. Quando a companheira parte cedo para o trabalho, ele arregaça as mangas e inicia uma rotina doméstica, interrompida apenas quando aparece um bico. “Estou desempregado há um ano e dois meses. No início eu resistia em fazer o serviço de casa; agora, até gosto”.
Ilza diz ficar feliz com o auxílio do marido. “Ele me ajuda muito. Aqui é um pelo outro. Nos damos muito bem”, comenta. Quando ela chega para o almoço, a mesa está posta e a casa organizada.
Orgulho
Célia e Ivo Binello comungam da mesma opinião: companheirismo é tudo. Dois anos atrás, eles saíram da área rural para buscar emprego na cidade. Célia teve sorte e logo conseguiu colocação na fábrica de roupas. O mesmo não aconteceu com Ivo, que ainda está desempregado. “Meu maior orgulho foi receber meu primeiro salário. Faço muito com o que ganho e me sinto muito importante”, diz ela.
Neste período, Ivo substituiu a enxada pelo serviço doméstico, enquanto espera por um serviço. “Ele me ajuda em casa. Faz de tudo”, conta a costureira, que garante praticamente sozinha a alimentação da família de cinco pessoas.
O orgulho vence o preconceito
O diretor presidente da Fábrica Krindges, Renato Krindges, conta que , há quatro anos, a fábrica começou a contratar homens. Atualmente, apenas 20% da força de trabalho é masculina. A exemplo da mulheres, eles fazem serviço de costura, lavanderia, tinturaria e expedição da produção. “Contratamos mulheres por causa do jeito de lidar com a máquina, mas há excelentes costureiros entre os homens”. O salário para o trabalho de costura é o mesmo: R$ 205,00, mais produtividade e desempenho. O ex-agricultor Jurandy Unimi, de 44 anos, vendeu a pequena propriedade no campo e comprou uma casa na cidade. Ele e a esposa, Serli Maria, de 44 anos, foram empregados pela indústria. “Aqui eu faço um serviço que não conhecia, mas não tenho nenhum preconceito. Passo a roupa bem e com muita dedicação”.
A pequena Ampére tem qualidade de vida superior a de outras cidades do mesmo porte. Com ruas largas e uma estrutura organizada, ela se sustenta no setor industrial, que gera 2.500 empregos diretos.
Fundada em 1977, a Indústria Krindges, a maior da região, experimentou um crescimento rápido. No início, tinha apenas 23 funcionários. Aos poucos, foi se expandindo pelo interior e hoje atende todo o país. Entre os clientes estão grandes lojas como C&A e Vila Romana.
No balanço do ano passado, a empresa fechou com faturamento de R$ 30 milhões e com lucro. A Krindges produz mensalmente 220 mil peças de roupas, vendidas para todo o país, principalmente São Paulo e, agora, o Mercosul.
E são as mulheres as responsáveis por esse crescimento. Ex-agricultoras, donas de casa, empregadas domésticas, que cortam e costuram roupas masculinas de primeira linha, com empenho e dedicação.
2001 Editora Gazeta do Povo. Todos os direitos reservados.

O artigo anterior mostra o impacto que sofre o modo de vida mais geral da população de uma pequena cidade a partir de uma modificação significativa na economia dessa cidade. Fala da influência poderosa da mudança nas formas de trabalho sobre as outras dimensões do cotidiano da população. A matéria do jornal trata do impacto profundo que mudanças no “mundo do trabalho” impõe, por exemplo, nos papéis sociais do homem e da mulher, com alterações na função educativa realizada pelo pai e pela mãe, transformações nas relações afetivas entre homens e mulheres, quer dizer, nas relações de gênero, etc.


2) O fenômeno relatado no artigo ilustra bem a base da tese usada por Karl Marx (1818-1883) na explicação geral que formula sobre a constituição e organização das sociedades humanas. De acordo com ele, as sociedades humanas se constituíram e se organizaram como respostas que os homens deram às suas necessidades básicas de existência. Ou seja, ajuntaram-se para garantir primeiro as necessidades de alimentação, reprodução sexual, segurança e abrigo. Observa-se que dar conta destas necessidades exigia a organização do trabalho coletivo do grupo, principal meio de resolução daquelas demandas.

Levando em conta a primariedade destas necessidades humanas, e das atividades de trabalho requeridas para sua satisfação, Marx observara que essas situações e condições acabariam por constituir-se na base, na infra-estrutura das sociedades humanas.



Dessa maneira, sendo a base, sobre ela se levanta uma superestrutura social coerente com a infra-estrutura econômica. A superestrutura seria composta pelas instâncias jurídica e política, que compreenderiam o Estado (governo), o aparato militar e o direito, e também pela família, pelo aparato educacional e por outras instituições criadas para ajudar a organizar a vida social. A superestrutura comportaria, ainda, a instância ideológica, formada pelo conjunto de idéias, imagens e representações sociais em geral. Portanto, haveria uma relação de determinação entre a maneira que o grupo humano concreto selecionou para organizar suas condições materiais de existência – chamada de modo de produção – e o formato e conteúdo das demais organizações e instituições sociais e das idéias gerais presentes nas relações sociais. Isso porque a função primeira da superestrutura seria a de produzir as condições jurídicas [e] políticas necessárias para a reprodução do respectivo modo de produção (CUEVA, p. 70). É o que parece demonstrar o artigo proposto anteriormente: a relação de forte influência do “mundo do trabalho” (infra-estrutura) sobre as outras dimensões da vida cotidiana.
3) Observe, agora, o artigo A Constituição do Capital (de Herbert de Souza, o Betinho), que revela que a lei maior do Brasil – a Constituição de 1988 – é uma lei/aparato jurídico que garante, principalmente, embora em última instância, que o modo de produção “adotado” no país continue sendo o capitalista, com todas as implicações que isto tem no caso brasileiro, que se diz ser um “capitalismo selvagem”. Os principais Códigos Legais do país estabelecem como fundamento legal três condições econômicas prévias e indispensáveis para a montagem e funcionamento da economia nos moldes de uma economia capitalista: 1º) o direito à propriedade privada; 2º) o direito à livre iniciativa/livre comércio ou mercado e, 3º) a forma do contrato de trabalho como contrato individual e ‘livre’ (CLT - Consolidação das Leis do Trabalho).





4) Esta teoria geral sobre a sociedade, proposta por karl Marx, é muito eficaz na interpretação: a) da funcionalidade e do sentido das idéias gerais presentes numa coletividade; b) da funcionalidade e sentido do formato e conteúdo das instituições; c) do sentido das ações do Estado e; d) do sentido das leis mais gerais. Por exemplo: a maneira mais geral de pensar de determinada sociedade será coerente com o modo de ela organizar sua economia, de onde decorrem as relações sociais de produção. Isto é, de acordo com as formas dos homens relacionarem-se entre si a partir da economia; o que pode vir a separá-los por classes sociais diferentes. Como no período feudal: o modo de produção feudal, baseado no trabalho servil separa os indivíduos em três grandes classes, a saber, os nobres, o clero e os servos. As duas primeiras classes detêm os privilégios nesse modo de produção, em detrimento, dos servos, que trabalham para aquelas. É notória, neste caso, a relação que há entre as bases das idéias neste período, que é fornecida pela teologia, e as relações de domínio, de mando, que existiam. Tem-se um grande imaginário geral sobre o que é o sentido da vida, sobre os papéis sociais das diferentes classes, sobre o funcionamento da natureza, que, neste caso, reflete o grau de domínio que o homem tem, no momento, sobre a natureza (o desenvolvimento tecnológico) e reflete, justificando, a estrutura de classes presente. Todo o imaginário (de forte viés teológico), amarrado ao poder policial da igreja, cuida de explicar a posição social de cada grupo na estrutura de classes, justificando as posições de privilégio e de mando instaladas. É dessa observação que deriva a conclusão de Marx:
As idéias dominantes de cada época, em cada sociedade, são as idéias das classes dominantes ‘dessas sociedades’. (in: A ideologia Alemã)
Haverá sempre, portanto, uma relação forte entre a forma de organizar o trabalho e a forma do imaginário presente. Exemplos: modo de produção feudal e pensamento teológico; modo de produção capitalista e valores individualistas, consumistas; forte desemprego e xenofobia etc. É possível ilustrar fartamente a tese da relação entre a infra-estrutura e a superestrutura: desde a arquitetura (jeito de morar) dos índios ianomâmis da Amazônia, que dormem em redes, o que corresponderia ao seu modo de vida nômade, até os formatos de família que acompanham cada etapa dos diferentes modos de produção (famílias extensas no modo de produção feudal, famílias nucleares no capitalismo etc).
5
) Examine a charge seguinte, que retrata uma das formas de desigualdade presentes na sociedade brasileira.
(RETRATO DO BRASIL. S/Nº B.H. Ed. Manifesto, 2006.)

Um destaque da explicação marxiana a respeito do funcionamento das sociedades de tipo capitalista se refere à ênfase que coloca no papel das lutas de classes na conformação diária da organização dessas sociedades. Para preparar os alunos para uma explicação sobre a idéia marxista a respeito do que são as classes sociais e a relevância dos seus conflitos na definição de como será organizado o dia-a-dia da vida social numa sociedade desigual, propomos o seguinte exercício: Anotar no quadro negro um painel com o tema “Problema social relevante do país” (por exemplo, desemprego) e, a partir da contribuição dos estudantes, anotar, também, uma lista de propostas de solução para este problema e que aparecem com freqüência na opinião pública. Atentar para separar a lista com base no seguinte critério, não exposto previamente para os estudantes: propostas dos setores empresariais e propostas dos setores ligados aos trabalhadores (conforme ilustrado abaixo). Só depois de anotadas quatro ou cinco propostas de cada lado, revelar o critério usado para a distribuição nas duas colunas. Esse exercício ajuda a mostrar que, em sociedades divididas em classes sociais desiguais, as decisões a respeito de questões sociais relevantes serão expressão e resultado da disputa de interesses entre grandes grupos sociais, conhecidos como classes sociais. E, essa disputa é o que se chama na teoria marxista de “luta de classes”. Noutros termos, é o tipo e a dinâmica dos conflitos sociais que explicam boa parte do funcionamento da vida social, nas sociedades divididas em classes sociais.




DESEMPREGO


Redução de impostos

Reforma trabalhista para a redução de “privilégios” (direitos) trabalhistas (13º, férias corridas, licenças) e a flexibilização dos contratos de trabalho.


Criação de subsídios para empregar jovens e treinar trabalhadores.
(propostas dos empresários)

Mais investimento público gerador de novos empregos.
Redução da jornada de trabalho sem redução de salário.

Ampliação da jornada escolar e

de bolsas de apoio a estudantes pobres.
(propostas de setores ligados aos trabalhadores)


6) A teoria marxiana a respeito da organização social é uma teoria que explica muito bem o funcionamento daquelas sociedades que apresentam estrutura social desigual ou, noutros termos, que são socialmente desiguais. Marx demonstrará que as desigualdades sociais, ou seja, as desigualdades nas condições materiais dos indivíduos, só aparecem em determinadas fases históricas do desenvolvimento da produção, quer dizer, são efeitos específicos de determinados modos de produção. (CUEVA, p.71) Mas quais seriam esses modos de produção e em que nível da estrutura econômica se produziriam tais efeitos? Segundo Cueva,
(...) o marxismo tem dado uma resposta muito precisa a este problema: trata-se daqueles modos de produção nos quais existem as propriedades privadas dos meios e/ou agentes de produção (homens, ferramentas, máquinas, etc.), e onde as relações sociais se organizam em torno de um mecanismo fundamental de exploração: relações entre amos e escravos no modo de produção escravista, entre senhores e servos no modo de produção feudal, entre burgueses e proletários no modo produção capitalista. (p.71)

Tais maneiras de organizar a produção distribuem os indivíduos em posições estruturais dentro da economia e por conseqüência definem, objetivamente, suas posições nas demais instâncias de vida social, gerando estruturas sociais nas quais grupos de indivíduos são desiguais entre si. Os indivíduos seriam então distribuídos no quadro social de acordo com as posições que ocupariam no universo da produção. Ocorre que esta distribuição engloba grandes grupos de indivíduos, produzindo semelhanças sociais entre os indivíduos que ocupam posições parecidas na economia e distinguindo estes dos que ocupam posições diferentes. Marx nomeará esses grandes grupos de indivíduos como classes sociais. A partir deste critério pode-se definir assim o que seriam as classes sociais:


As classes são grandes grupos de homens que se diferenciam entre si, pelo lugar que ocupam em um sistema de produção historicamente determinado, pelas relações em que se encontram frente aos meios de produção (relações que as leis fixam e consagram), pelo papel que desempenham na organização social do trabalho e, por conseguinte pelo modo e pela proporção que se apropriam de parte da riqueza social que dispõem. As classes sociais são grupos humanos, um dos quais pode apropriar-se do trabalho do outro por ocupar posições diferentes em um regime determinado de economia social. (Lênin, citado por CUEVA, p.71)
Para entender bem essa última tese, vejamos com mais detalhes como se formam as classes sociais no capitalismo. Retomando a proposição de Lênin, classe social é entendida como agrupamentos de indivíduos que se assemelham ou se diferenciam socialmente a partir da posição que ocupam na produção, quer dizer, na estrutura básica da produção. Nesse sentido, seriam três as posições que definiriam, em termos gerais, como viria a ser a trajetória social das pessoas ou as possibilidades sociais das pessoas:
1ª posição – aquela que se ocupa em relação à propriedade dos principais meios de produção e realização da riqueza naquele momento (fábricas, terra, comércio, bancos). Essa posição vai separar os indivíduos na estrutura social, em proprietários dos meios de produção e dos meios de realização (os empresários, os banqueiros, os fazendeiros, os comerciante) e não-proprietários dos meios de produção, ou, destituídos dos meios de produção (os trabalhadores assalariados e desempregados, os por conta própria, diaristas). No caso destes, a única “propriedade” que eles retém é sua “força de trabalho”;
2ª posição – aquela que se ocupa em relação ao controle e poder sobre os meios de produção. Ou seja, posição em relação à capacidade de tomar decisões sobre a produção: o que produzir, como, em que quantidade, como distribuir, etc. A posição ocupada pelo indivíduo nesse caso também é decisiva para a sua situação social e sua distribuição numa classe social ou em outra. Dá para pensar como ocorre a distribuição das pessoas segundo aquelas capacidades de decisão e controle no universo de uma fábrica, grande loja, grande fazenda ou de uma escola particular. Normalmente, vê-se uma massa de trabalhadores ‘comandados’, sem poder algum de decisão sobre o local de trabalho e a produção, de outro lado, alguns poucos (donos, gerentes, supervisores, chefes, encarregados) com tal poder, o que, certamente os diferencia de inúmeras maneiras, não só no espaço do trabalho como, também, fora dele;
3ª posição – aquela que se ocupa da relação do indivíduo quanto à parte da riqueza produzida da qual se apodera. Como se posiciona quanto à distribuição da riqueza social gerada pelo trabalho sobre os meios de produção. Ou, que parte do “bolo” lhe é destinada. Que parte da renda. A distribuição dos indivíduos a partir dessa posição se manifesta na forma da diferença de rendimento e de posses. Na forma da riqueza e pobreza material.
Pois bem. De acordo com a teoria marxiana, nas sociedades capitalistas, é a partir da distribuição das pessoas nessas posições que a sociedade monta sua estrutura social básica. Quer dizer, distribui as pessoas em grandes grupos sociais, assemelhados pelas posições comuns que ocupam na produção. Seriam essas posições que definiram o contorno básico da vida das pessoas: onde poderão morar, o que poderão comer e vestir, onde poderão estudar e passear etc. Nas sociedades capitalistas, essas posições definirão, com evidência, a existência de, ao menos, duas classes sociais fundamentais a este modo de produção:

Duas classes fundamentais do capitalismo


  1. Os chamados capitalistas ou burguesia

1ª posição: são proprietários
2ª posição: detêm o controle sobre a

Produção
3ª posição: ficam com a maior parte da

Renda


  1. Os trabalhadores

são não-proprietários
possuem nenhum ou reduzidíssimo

controle sobre a produção


Ficam com parte ínfima da renda.

Observe o quadro e as tabelas que seguem. Tratam de apresentar um painel de que como seria a estrutura de classes no Brasil atual. Note-se que os quadros apresentam mais do que só duas classes sociais básicas. Atente, ainda, para o fato de que elas podem ser sobrepostas, já que, por exemplo, não há grande proprietário de meios de produção (quadro 1) que pertença à classe D (3° quadro), morando em favela, almoçando arroz com feijão e ovo. Do mesmo modo que é improvável que haja um trabalhador desprovido do controle da produção (quadro 1) e que receba parte elevada da renda do trabalho (Quadro 3). O quarto quadro propõe um diagrama para se visualizar a estrutura de classes no Brasil.


1º quadro: Distribuição das pessoas pelas posições na produção

(Revista Princípios. São Paulo. Ag./ Set./ Out./ 1995. p. 31)


2º quadro: Estrutura de classes expressa pelo indicador de renda

(universo total de 60 milhões de pessoas ocupadas)

3° quadro: Distribuição das pessoas por renda na cidade de Londrina




4° quadro: Diagrama da estratificação social brasileira


(RIBEIRO, Darcy. Os brasileiros. Petrópolis, Vozes, 1978, p. 92)

Nas sociedades de tipo capitalista, como é a brasileira atual, a relação entre aquelas duas classes sociais básicas (burguesia e trabalhadores) tem particularidades definidas pelo jeito de organizar o trabalho nessas sociedades. Conforme propõe a análise marxiana, o trabalho sob o modo de produção capitalista, em razão, especialmente, da forma da propriedade, é caracterizado pela exploração e pela alienação do trabalhador. Ou seja, a forma de organizar o trabalho (produção de riquezas), na maioria das situações de produção (na fábrica, na fazenda, na escola particular, no comércio, no banco) acontece de uma maneira em que o trabalhador é explorado pelo patrão e é alienado no processo de trabalho. A exploração deriva da forma de produção de parte do lucro do patrão ser baseada na extração de um sobretrabalho do trabalhador, na retenção de um trabalho não pago ao trabalhador. O lucro seria então extraído da “mais-valia”, valor novo criado pelo trabalhador e retido pelo patrão. É por causa dessas características da sociedade capitalista que seria gerada a desigualdade social. (Veja, no final do texto, o anexo O que é mais-valia).

Observe o artigo que segue, do The Wall Street Journal Americas: Regalia para empregados compromete os lucros da Volks na Alemanha, que revela com limpidez a relação antagônica entre capitalista x trabalhador e que aparece na equação: “produzir lucros = diminuir regalias dos operários”. O artigo mostra o dia-a-dia da luta entre as duas classes fundamentais da sociedade capitalista: a classe burguesa (proprietária dos meios de produção) e a classe trabalhadora (aquela cujos membros vivem apenas do próprio trabalho).

(O Estado de S. Paulo. 13/12/2000.)

Resta, ainda, observar que a estrutura real das classes no Brasil, por exemplo, não é composta somente pelas duas classes fundamentais (burguesia e proletariado) e, mesmo essas duas não são homogêneas internamente. Há, só para ilustrar, aqueles setores intermediários entre o capitalista e o trabalhador clássico, como é o caso dos profissionais liberais; há os casos daquelas pessoas que, embora empregados, situam-se nas posições de comando e chefia nos locais de trabalho, o que lhes confere, normalmente, certa distinção e distanciamento em relação ao empregado comum. E a estrutura de classes vai além da divisão capitalista x trabalhador, porque dentro dessas duas classes há graduações que vão das diferenças de porte das propriedades (grande, média, pequena) entre a própria burguesia ou burguesias (industrial, comercial, latifundiária e financeira) até diferenças gritantes de rendimento entre os trabalhadores. O quadro que segue demonstra essa variação entre os trabalhadores brasileiros, por exemplo.


(O Estado de S. Paulo, 16/09/2007, p. H1).

Mas pode-se notar que, apesar das graduações e diferentes expectativas sociais, são os interesses e as posições dos representantes das duas classes fundamentais que balizam as discussões e decisões mais relevantes socialmente. As frações de classe ou grupos sociais intermediários sempre estarão se aproximando do lado das posições e interesses de uma ou de outra das classes fundamentais.

Em síntese, na definição daquelas decisões e medidas que tratam dos grandes problemas sociais e questões de relevância essencial para a sociedade/nação, a forma dessa definição será a disputa, o conflito de opiniões e propostas refletindo aquelas diferenças de posição e interesses. É assim, a partir do confronto de propostas, que se decide sobre medidas econômicas relevantes (juros, por exemplo), medidas de combate ao desemprego, de assistência social, de investimento na educação etc. E é essa disputa em torno da distribuição da riqueza (luta salarial, por exemplo), da definição de políticas públicas e da formulação de leis, que é a denominada “luta de classes”.


7) Quanto à característica da alienação, ela diz respeito à forma concreta com que é organizado o processo de produção sob o capitalismo: a) nele o trabalhador se defronta com formas parcelares de trabalho, nas quais o trabalho é sempre bastante dividido e especializado. Deste modo, normalmente, o trabalhador só realiza e compreende parte ínfima da produção, ignorando o processo inteiro do qual participa. Assim, o trabalhador não encontra na atividade de trabalho uma oportunidade para se realizar como ser criador de algo por inteiro e que consiga expressar suas capacidades intelectuais e físicas. O que ele constrói no e pelo trabalho sob o capitalismo é sempre uma parte de algo, um pedaço de algo que, muitas vezes, ele até ignora o que seja; b) no modo de produção capitalista, o trabalhador, apesar de ser quem trabalha e produz a riqueza social pelo conjunto do trabalho, apropria-se de uma parte muito pequena desta mesma riqueza produzida por suas mãos, de modo que ele é alienado do produto do seu trabalho e; c) no modo de organizar o trabalho na sociedade capitalista, o trabalhador se encontra sujeitado às normas e regras definidas externamente e articuladas conforme a tecnologia, quer dizer, os métodos de trabalho e as máquinas disponíveis. Noutros termos, o trabalhador encontra-se determinado pela máquina e pelo método. No trabalho, é um ser sem autonomia.

Veja o texto “A rotina de pontos em calcinhas”, que mostra a realidade do trabalho alienado, no cotidiano de uma trabalhadora de fábrica, no Brasil.




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