A imprensa e a transição para a democracia: uma análise do início da “Nova República”1



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A imprensa e a transição para a democracia: uma análise do início da “Nova República”1
Rafael Fortes (UNESA RJ e UFF)2

“Adoramos as campanhas de mobilização. Basta lembrar as Diretas Já, o Plano Cruzado, o impeachment de Collor, a implantação do novo Código de Trânsito, o próprio racionamento. Tudo que seja intenso e emocionante, mas contanto que seja passageiro. Temos muita paciência e pouquíssima persistência. A nossa dificuldade parece ser transformar indignação em ação. Demora muito.”3 (Zuenir Ventura)


“O intervalo entre a decadência do antigo e a formação e estabelecimento do novo constitui um período de transição, que sempre deve ser necessariamente marcado pela incerteza, pela confusão, pelo erro e pelo fanatismo selvagem e implacável” (John Calhoun, apud Harvey, 1996:115).

Resumo: Este artigo apresenta uma breve discussão histórica sobre o período 1979-86, de forma a fornecer subsídios para a compreensão da cobertura do Plano Cruzado por parte da imprensa, bem como das implicações políticas desta atuação. A ênfase está voltada para as relações entre jornalismo e política configuradas naquele momento histórico particular, com particular destaque para as práticas sociais e as relações com o poder.

Este artigo tem dois objetivos principais. O primeiro deles é apresentar um breve panorama dos acontecimentos políticos e econômicos no Brasil na primeira metade dos anos 1980, de forma a fornecer ao leitor uma idéia, ainda que forçosamente restrita e relativamente apressada, da conjuntura em que se encontrava o Brasil quando foi lançado o Plano Cruzado. Segundo, discutir a situação do jornalismo brasileiro na época, privilegiando a relação com a política, de forma a fornecer subsídios para a compreensão de sua atuação durante o Plano Cruzado.

Para tanto, encontra-se dividido em três partes. Na primeira, percorro o período que vai de 1979 a 1985, que corresponde ao mandato presidencial do general João Figueiredo. Na segunda, trato do primeiro ano de governo de José Sarney. Por último, traço algumas considerações a respeito do jornalismo no período inicial do governo Sarney.

Um breve panorama: o Brasil, 1979-85


O rico e relativamente curto período 1979-1985 inclui numerosos acontecimentos relevantes para o país, entre eles: a concretização da abertura política, a campanha pelas eleições diretas para presidente, a derrota da emenda pelas diretas-já no Colégio Eleitoral, a eleição de Tancredo Neves, o adoecimento do presidente eleito, a posse do vice-presidente José Sarney, a morte de Tancredo e a efetivação do vice no cargo de presidente da República.

A partir dos últimos anos da década de 1970, o Brasil viveu um processo que ficou conhecido como abertura ou distensão. Diferentes projetos de abertura política buscavam hegemonia na sociedade. Estudantes, sindicalistas, entidades de classe e outros grupos organizados criavam novos espaços de participação (Reis Filho, 2002:69).4

Mesmo entre os militares, havia grupos que discordavam da proposta de abertura “lenta, gradual e segura” do general Ernesto Geisel, presidente da República entre 1974 e 1979. Sem querer entrar no acalorado debate historiográfico acerca da abertura, fico com a idéia de que foi um processo estimulado por diferentes grupos (e combatido por outros), tanto na sociedade quanto entre os militares, em que as propostas de grande parte da sociedade civil, ainda que com dificuldades, convergiram com as idéias centrais do grupo que detinha o poder entre os militares.

Segundo o historiador Daniel Aarão Reis Filho (2002:11), há controvérsias também acerca do momento em que teria terminado o regime militar. Para ele, o marco foi o ano de 1979, com a revogação dos atos institucionais e a lei de anistia. “Daí em diante, abriu-se um período de transição, até 1988, quando a aprovação de uma nova Constituição restabeleceu as condições de um pleno estado de direito em nosso país”. Nas palavras do autor, “da ditadura fez-se democracia” no período 1979-1988 (dentro do qual se encontra o ano de vigência do Plano Cruzado, 1986). Não é por acaso, portanto, que conviviam, na época, elementos tão díspares quanto ascensão de movimentos sociais e campanha das diretas, por um lado, e censura prévia e atentados feitos por militares ultradireitistas, por outro. Outros autores, no entanto, apontam 1985 como o fim do regime ditatorial, pois em março daquele ano um general deu lugar a um civil na presidência. Há, ainda, quem considere 1988 (promulgação da Constituição) e mesmo 1989 (realização de eleição direta para presidente) como o início do período democrático.

No plano político, o ano de 1980 foi marcado pela abertura – com destaque para o fim do bipartidarismo e a fundação de diversos partidos, tanto novos, como PT e PDT, como oriundos dos dois partidos do período militar (MDB e ARENA), casos de PMDB e PDS.5 A fundação do PT, por exemplo, trouxe diversas novidades para a política, sendo a principal delas a introdução independente (ou seja, desvinculada do Estado ou do aparelho sindical por ele dominado) do “trabalhador como elemento ativo no processo político nacional” (Neves, 1989:345).

O clima de repressão da ditadura militar tornara o ambiente pouco propício para a existência de movimentos6 sociais (ou “populares”7), que acabariam aflorando no período de abertura, e sobretudo ao longo da década de 1980. Não seria correto dizer que a ditadura os bloqueou, mas que conteve sua emergência, pois, por prudência, atuavam de forma discreta ou mesmo semi-clandestina. Esses movimentos vieram a explodir com força na duas últimas décadas do século XX, com o aumento da participação, inclusive pela extensão dessa participação a novos setores da sociedade. Em outras palavras, o contexto foi marcado pela ascensão, desenvolvimento e afirmação de diversas formas de participação da sociedade civil.8 Um exemplo: data da época (mais precisamente de 1984) a fundação do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra), atualmente o movimento social mais importante do país.

Este período foi marcado, também, por uma crescente participação da sociedade civil na vida política nacional. Não se tratava apenas do envolvimento de um número maior de pessoas. Disseminava-se a idéia de que cabia aos brasileiros participar do processo de decisão política (Neves, 1989). Naquela conjuntura, ser cidadão passara a significar o engajamento na vida política da sociedade.

Neste período marcado pelo aumento da mobilização popular, “o auge [...] foi a campanha pelas eleições diretas [para a presidência], em 1984”9. Para José Murilo de Carvalho, “a campanha pelas diretas foi, sem dúvida, a maior mobilização popular da história do país, se medida pelo número de pessoas que nas capitais e nas maiores cidades saíram às ruas” (2002:188). A campanha pelas diretas-já mobilizou boa parte do país entre o fim de 1983 e o início de 1984.10 Já em 1986, Veja destacava a importância do período: “Com as grandes manifestações da campanha pelas diretas já e o lançamento da candidatura de Tancredo Neves à Presidência da República, o ano de 1984 e o início de 1985 estão destinados a se tornar objetos de estudo privilegiado pelos historiadores”11.

A campanha teve participação e cobertura ambíguas por parte da imprensa. Alguns órgãos, como o jornal Folha de S. Paulo, tiveram “papel importante na divulgação do movimento”12. Outros contribuíram deliberadamente para esvaziá-la, como foi o caso da Rede Globo (que, posteriormente, acabaria aderindo à campanha), que “noticiou como mera ‘comemoração do aniversário da cidade’ [de São Paulo]” o comício que lançou “nacionalmente a campanha das Diretas Já”, realizado na cidade em 25 de janeiro de 1984, com a presença de 300 mil pessoas.13

Derrotada a emenda das diretas (em 25/4/1984), travaram-se grandes disputas em torno da composição das chapas para a eleição indireta para a presidência. Formou-se a Aliança Democrática, composição política feita entre os membros recém-saídos da ARENA (para, logo depois, fundar o Partido da Frente Liberal, PFL) e o PMDB, formando a chapa Tancredo Neves/José Sarney para a disputa das eleições indiretas de 1985 no Colégio Eleitoral. Apesar das muitas divergências e brigas políticas durante o primeiro ano de mandato de Sarney, a Aliança Democrática continuou existindo, inclusive durante a vigência do Plano Cruzado. Do outro lado, Paulo Maluf encabeçou a chapa do PDS, apoiada pelo regime militar.

Na economia, a situação não era boa. Um indicador da situação é a forma como, ao longo de 1986, Istoé e Veja se referem, com certa constância, à primeira metade da década de 1980 como “a época da recessão”. Por exemplo, ao relatar as depredações realizadas imediatamente após o discurso de Sarney instaurando o Plano Cruzado, Veja apontou semelhanças com o “monumental quebra-quebra” realizado por desempregados no bairro paulistano de Santo Amaro, em 1982, explicando que “àquela época havia uma multidão desequilibrada pela recessão”14.

No que diz respeito à cidadania, a fundação de partidos como o PT e o próprio envolvimento de amplos setores da sociedade na luta pela abertura política e pela anistia para os perseguidos pelo regime militar são movimentos iniciais de uma trajetória que se aprofundaria ao longo da década. Apesar de controlada pelo Estado, a transição para a democracia foi acelerada pelos movimentos da sociedade civil. Segundo Carvalho, houve uma “tendência dos anos 80 de abandonar orientações de cúpula e buscar o contato direto com a população”15. Exemplos estavam no “movimento sindical, no PT, nas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e nos chamados movimentos sociais urbanos [como as associações de moradores, tanto de favelas como de classe média, e as associações profissionais]”16. A crescente participação em movimentos organizados leva a historiadora Lucília Neves (1997) a caracterizar o período pós-1985 como de “cidadania em expansão”.

A campanha das diretas fora um momento de reorganização da sociedade e de afirmação de sua própria capacidade de se organizar, mas também se revestira do significado de oposição ao regime militar (Pinto, 1989:69-70). De certa forma, o mesmo já se dera com as greves no ABC paulista nos fim dos anos 1970.17 Só que, no caso das diretas-já, tratou-se de uma mobilização de massa. Neste sentido, a abertura política deu um novo rosto à cidadania, iniciando um modelo de reivindicação política que floresceu na campanha pelas diretas e estancou-se logo depois. A prática cidadã crescera, mas não chegou a enraizar-se no dia-a-dia, ou seja, a se efetivar como prática duradoura.

É impossível, no entanto, compreender a sociedade brasileira sem levar em consideração seus fortes traços autoritários. Grande parte da sociedade apoiou o regime militar e ainda hoje apóia, aberta, velada ou cinicamente, a repressão e a violação de direitos, mesmo os elementares. No entanto, como afirma Reis Filho, de forma pertinente e um tanto irônica, a memória da sociedade tendeu a simplificar de forma extrema o passado recente, enxergando o período militar como de exceção, e tendo, como contrapartida, “a nova república, livre, regida pela Lei, o reino da cidadania, a sociedade reencontrando-se com sua vocação democrática”18. Para Carvalho, com a posse de Sarney, “chegara ao fim o período de governos militares, apesar de permanecerem resíduos do autoritarismo nas leis e nas práticas sociais” (2002:177). Assim, ainda vivendo sob o impacto da ditadura militar, a prática da cidadania mostrava claros avanços, porém enfrentava sérias dificuldades. Tratava-se de uma cidadania profundamente afetada pela recém-terminada ditadura militar. A retórica do interesse nacional, no entanto, permaneceu (e permanece até hoje), freqüentemente sobrepondo-se a leis, direitos e regras instituídos.

A esperança depositada na campanha das diretas foi, de alguma forma, reelaborada e aplicada na candidatura de Tancredo Neves (Pinto, 1989:70). Sua vitória no Colégio Eleitoral foi intensamente celebrada por boa parte da população. Em 14 de março de 1985, véspera da posse, Tancredo foi levado às pressas para um hospital de Brasília. O vice, José Sarney, tomou posse interinamente. Também foram empossados os ministros escolhidos por Tancredo. Ao longo de cinco semanas, o país acompanhou, apreensivo, a agonia de Tancredo.19 Com sua morte, em 21 de abril, Sarney passou a ser efetivamente o presidente da República.

O primeiro ano de Governo Sarney


Ao longo de todo o primeiro ano de mandato – e também quando do lançamento do Plano Cruzado – Sarney carecia de legitimidade política. A morte de Tancredo havia produzido um vácuo de poder que a figura do político maranhense, historicamente ligado à ditadura militar, eleito vice – e de forma indireta –, não conseguira preencher. Na presidência, mas governando um ministério escolhido por Tancredo, Sarney enfrentou duras críticas de diversos setores da sociedade. Muitos, como o governador do Rio de Janeiro, Leonel Brizola, seguiam defendendo a realização imediata de eleições diretas para a presidência da República.

O ministério fora uma fonte particular de problemas para Sarney. Na área econômica, por exemplo, havia a “mistura incompatível entre os desenvolvimentistas do PMDB e os conservadores que vinham da Velha República, tudo formando a Aliança Democrática”20. As divergências chegaram ao ápice em agosto, com o pedido de demissão do ministro da Fazenda, Francisco Dornelles, sobrinho de Tancredo Neves. Para seu lugar, Sarney escolheu Dilson Funaro, empresário paulista que ocupava a presidência do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).21 “A posse de Dilson Funaro no Ministério da Fazenda foi o verdadeiro começo da política econômica da Nova República. Tratava-se do primeiro ministro nomeado por José Sarney, e o presidente fez questão de deixar clara essa circunstância”22.

Ao longo dos meses, cresceram as reclamações do PMDB com relação à “inércia” do governo na economia e em outros setores. É importante lembrar que o PMDB era o partido de Sarney, e a base de sustentação de seu governo no Congresso. Em fevereiro, Sarney realizou uma reforma ministerial, afastando alguns dos ministros que haviam sido escolhidos por Tancredo. A reforma ajudou a dar ao ministério a cara do presidente, mas, como Veja informaria posteriormente, “ao divulgar a composição de seu novo ministério, há três semanas, o presidente José Sarney sofreu um vendaval de críticas, sobretudo das lideranças do PMDB, que se julgavam prejudicadas e ameaçavam romper com o governo”23. Com a posse do novo ministério24 (dia 14) e a inflação acima de 14%, a relação chegou às raias do rompimento – exemplo disso foi a entrevista do senador peemedebista Fernando Henrique Cardoso, publicada pelo Jornal do Brasil no dia 26, criticando duramente o governo.25 Outro problema surgiria no lançamento do Plano Cruzado, pois o deputado Ulysses Guimarães, presidente do PMDB, só fora informado formalmente do pacote na noite de quarta-feira, 26/2, pelo próprio Sarney, (Setti, 1986).26 No café da manhã do dia 28, declararia, em tom de queixa, que o PMDB só estaria tomando conhecimento do decreto naquele momento. Segundo Veja, “às 10 horas da noite da última quinta-feira [dia 27] [...] na casa do deputado Pimenta da Veiga, em Brasília, dez líderes nacionais do PMDB ouviram os economistas Luciano Coutinho e Luiz Gonzaga Belluzzo explicarem detalhes das reformas”27.

Todavia, os problemas não se limitavam à política. Relatórios do Serviço Nacional de Informações (SNI) “comunicavam a cada dia a deterioração do ambiente econômico e político”28. Havia crise também no campo. Esta, aliás, continuou ao longo do ano de 1986, tendo sido a principal questão social em debate na imprensa, com a formação e crescimento vertiginoso da União Democrática Ruralista (UDR), troca de ministros na área, assassinato de líderes dos trabalhadores rurais e padres, e participação ativa e intensa da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), culminando com ida de Sarney ao Vaticano, no meio do ano, para conversar com o Papa João Paulo II a respeito do envolvimento de membros da Igreja com a questão agrária.

Em novembro de 1984, o economista Francisco Lopes apresentara a Tancredo Neves suas idéias a respeito de um caminho heterodoxo29 para conter a inflação. As idéias de Lopes influenciariam o Plano Austral, a ser adotado na Argentina, mas não entusiasmaram o político mineiro.30 No processo de escolha do presidente do Banco Central, o presidente eleito Tancredo Neves descartava os nomes que aparecessem na imprensa defendendo idéias heterodoxas.31

A idéia de um choque heterodoxo fora aprovada por Sarney em abril de 1985, quando, com a morte de Tancredo Neves, assumiu permanentemente a presidência. Mas foi em agosto de 1985, com a saída de Francisco Dornelles – inimigo das idéias heterodoxas – do ministério da Fazenda e sua substituição por Dilson Funaro (que, já na posse, afirmou a disposição de fazer o choque), que Sarney ordenou a João Sayad (ministro do Planejamento) que se iniciasse o planejamento de um plano econômico a ser adotado pelo governo. Formou-se, então, um grupo32 de economistas para discutir as medidas a serem adotadas, baseadas em idéias heterodoxas que alguns deles vinham estudando e defendendo há anos.

A preparação do plano incluiu viagens de membros do grupo a Israel e à Argentina, países que haviam adotado “choques heterodoxos” em 1984-5. Segundo Setti, os erros observados na elaboração e no andamento dos planos nesses países foram fundamentais para as discussões sobre o Plano Cruzado. Essas viagens e a movimentação dos membros do grupo entre Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo eram feitas cuidadosamente, de maneira a não levantar suspeitas de que um plano econômico estava sendo gestado. Sarney acompanhava de perto os preparativos por meio de conversas com Sayad e Funaro, embora tudo fosse mantido em sigilo absoluto – condição imposta a (e adotada por) todos que participavam do planejamento. Além do segredo, uma série de medidas de despiste foram tomadas pelo governo e pela equipe que planejava as medidas econômicas.

Durante a preparação do plano econômico, Sarney não tinha como prever a reação pública às medidas. Mas o assunto estava na pauta das preocupações. Assim, certas medidas de proteção ao trabalhador foram inseridas no pacote33 e elaborou-se uma cartilha a ser distribuída no mesmo dia do lançamento das medidas. Sarney, por sua vez, foi extremamente cuidadoso na redação do discurso que anunciaria o Plano, enfatizando a convocação pessoal do presidente aos cidadãos, uma fórmula que dera certo em Israel e na Argentina. A parte em que apela diretamente ao cidadão foi de autoria do próprio presidente, que inclusive lançou mão de um improviso e uma pausa para marcar aquela que considerava uma parte fundamental do discurso. A preocupação de “preparar o terreno” fizera com que, na mesma quarta-feira em que revelara o Plano a Ulysses Guimarães, Sarney também o fizesse aos donos dos principais jornais, revistas e emissoras do país – com a condição de que não divulgassem a notícia. Como se pode perceber, a preocupação em agradar a opinião pública influenciou tanto o conteúdo das medidas econômicas quanto a forma de sua apresentação (o que incluiu iniciativas para que a recepção em certos setores fosse, senão simpática, no mínimo, não antipática). Tal preocupação com a mídia e a opinião pública está na ordem do dia da política contemporânea, como lembra Serrano (1999). Há que se considerar, ainda, que tudo isso se dá dentro de um governo “democrático”, sujeito à avaliação nas urnas (e, com o correr dos meses, ficaria cada vez mais evidente para o governo a importância eleitoral do Plano Cruzado). Ao contrário dos anos ditatoriais antecedentes, inaugura-se, em 1985, um período em que a conquista de corações e mentes da opinião pública se tornaria essencial para o bom andamento de governos – e, é claro, para a manutenção do poder.34 Há que se considerar ainda que o Plano Cruzado foi anunciado através de um pronunciamento de Sarney em cadeia nacional de rádio e TV.35 Desde a véspera do anúncio corriam notícias acerca de mudanças na economia; o feriado bancário decretado para a sexta-feira contribuiu para acentuar o clima de ansiedade e expectativa. Segundo reportagem de Istoé, o discurso de lançamento do Plano, feito na televisão, “foi visto e ouvido por mais gente do que o público recorde no último capítulo da novela Roque Santeiro – 93% de audiência em São Paulo e 91% no Rio”36.

Entre fins de 1985 e fevereiro de 1986, foram tomadas algumas medidas de ajuste, visando a conter um pouco a inflação e, paulatinamente, preparar o terreno (ou melhor, a economia) para o choque. Assim, em novembro de 1985, um pacote tributário baixado pelo governo foi aprovado no Congresso, aumentando a participação dos impostos no PIB e diminuindo – zerando, segundo alguns cálculos – o déficit público.37 Nos meses seguintes, o governo aumentou as reservas em dólar, permitiu um “aumento mais generoso”38 dos salários dos funcionários das estatais e adotou um novo índice para medir os preços, substituindo o Índice Geral de Preços, da Fundação Getúlio Vargas, pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor, do IBGE.39 No início do crítico mês de fevereiro de 1986, Sarney marcou a data de lançamento do plano: dia 28, sexta-feira. Ainda naquele mês, o governo extinguiu a conta-movimento do Banco do Brasil40 e restringiu o crédito41. Segundo Veja, o primeiro ano de governo Sarney tivera “a maior inflação da História nacional”42. Em janeiro de 1986, atingira 16,2%, “recorde nacional de todos os tempos”43.

Segundo Pinto, “a questão do sujeito enunciador do discurso presidencial brasileiro é particularmente importante por duas características da discursividade da política contemporânea do país: a herança getulista e a inexistência de agremiações político-partidárias fortemente enraizadas na sociedade civil” (1989:83). É neste contexto de partidos fracos, com a conseqüente sobrevalorização do Poder Executivo e, particularmente, do presidente, que foi feito o discurso de lançamento do Plano Cruzado. Segundo a autora, foi o primeiro exemplo, desde 1964, de mobilização popular a favor (e a partir) do Estado, e não contra ele, como haviam sido as passeatas de 1968 e a campanha pelas diretas. O Plano Cruzado introduz o cidadão no discurso político brasileiro.44 Mas é interessante notar as características desse cidadão: ele atua apenas como fiscal; individual45; subordinado diretamente ao presidente; seu espaço não é conquistado, mas investido pelo presidente, que baliza sua atuação (Pinto: 1989:84; 89).

Talvez este seja um bom momento para traçar um panorama da atuação da imprensa brasileira na época.

Considerações sobre o jornalismo brasileiro no início do governo Sarney

Longe de constituir um estudo exaustivo, esta seção busca fornecer algumas informações a respeito do jornalismo brasileiro em meados da década de 1980. Nesta discussão, privilegio a relação entre meios de comunicação e a política.

Alzira Alves de Abreu traz algumas contribuições interessantes para a discussão, ao buscar “entender a transição política brasileira a partir do papel desempenhado pela imprensa escrita nesse processo”46. Para a autora, a repressão e a censura estimularam a escolha da profissão de jornalista por parte de jovens engajados politicamente (2003b:15). Desta forma, o jornalismo acabava sendo não só uma profissão, mas um canal de ação política. Dentro das redações, boa parte destes jovens engajados optou por trabalhar nas editorias de jornalismo econômico, surgidas durante a ditadura militar.47 Afinal, na visão destes militantes de esquerda, influenciados pelo marxismo e pela linha de atuação do PCB, “as explicações econômicas superavam todas as demais” (2003b:23). Para a autora, a atuação destes novos profissionais modificou o jornalismo econômico ao longo do período militar. Mais importante do que isso é notar que “o jornalismo econômico, tal como é hoje praticado, nasceu nos anos 1970” (2003b:16). É bom destacar que, embora não tenha inaugurado o processo, o Plano Cruzado sem dúvida constituiu importante ponto de inflexão e aprofundamento – tendo sido, talvez, seu momento mais importante. Foi “na trajetória das mudanças ocorridas durante o regime militar” que “os economistas passaram a ter o papel e o espaço antes conferidos à política e aos políticos”, alcançando postos na administração estatal (2003b:25). Criava-se, naquele momento, uma “cultura” de valorização da economia e dos economistas48 – incluindo a valorização dos economistas por parte dos jornais, bem como do jornalismo econômico e dos jornalistas de economia. Esta cultura não se alterou com a redemocratização, após a qual “os jornalistas da área econômica continuaram a desfrutar de grande prestígio nas redações e o jornalismo econômico permaneceu ocupando importantes espaços na imprensa, havendo inclusive o aumento do número de páginas dos cadernos dedicados a essa área” (2003b:64), tendo, talvez, atingido o ápice na década de 1990, sob os governos de Fernando Collor, Itamar Franco e, sobretudo, Fernando Henrique Cardoso (1995-2002).

No plano político, os donos de jornal haviam contribuído para o golpe de 1964 e, após sua consumação, apoiaram-no (2003b:23-4). A partir do AI-5 (13/12/1968), “os temas políticos passaram a ser cuidadosamente censurados” (2003b:24). Por um lado, a ditadura militar censurava o jornalismo. Por outro, lhe fornecia aportes financeiros, através de financiamento e publicidade – o que configurava outro mecanismo de controle. Nesta atmosfera de repressão e censura,


o jornalismo econômico foi utilizado como instrumento de divulgação da política econômica do regime militar. Era importante para o regime que a imprensa divulgasse as conquistas e avanços econômicos, já que a economia se tornara a moeda de legitimação política para os militares (2003b:25).
Naquelas condições, as páginas de economia dos jornais constituíam um espaço restrito, em vários aspectos: “se destinavam a um público específico e reduzido, as informações inicialmente versavam sobre o setor público e os dados econômicos eram fornecidos por agências oficiais” (2003b:27). As informações fornecidas pelos economistas comumente eram consideradas pelos jornalistas como intraduzíveis para a linguagem comum dos jornais – não raro sendo incompreensíveis para os próprios jornalistas. Segundo Abreu, “os novos vocábulos, a nova linguagem que passou a integrar o cotidiano do noticiário recebeu a designação de ‘economês’, termo cunhado por Carlos Lacerda”49. Diversos fatores contribuíam para isso, entre eles: o fato de que os economistas não traduziam os termos técnicos em inglês por eles utilizados; despreparo dos jornalistas; uma certa inaptidão, inerente à informação econômica, que dificultava enormemente sua conversão em narrativa jornalística; escassez de fontes de informação (os jornalistas recorriam apenas ao governo e a poucas outras entidades – como CNI e FIESP –, nunca a entidades representativas dos trabalhadores ou a universidades). Tudo isso se dava paralelamente a um processo de profissionalização da atividade de jornalista (2003b:28-31).

A década de 1970 foi economicamente favorável também para alguns órgãos jornalísticos, como Veja, que “completou [em 1978] sua primeira década com sua infra-estrutura implantada e vendendo 260 mil exemplares. Tinha sucursais e correspondentes exclusivos no exterior e contava com um expediente de 100 jornalistas”.50 De um ponto de vista mais amplo, a partir da abertura política (governo Geisel, 1974-79), “a imprensa atuou como mediadora entre grupos representativos da sociedade civil e os militares, em defesa da redemocratização”:


Houve uma relativa unidade na atuação da imprensa, ante a possibilidade de intervenção no processo de abertura. Em muitos momentos desse processo, os jornalistas exerceram uma influência política, expandindo as vozes dissonantes do regime, desempenhando o papel de catalisadores das reivindicações dos diversos setores sociais empenhados na volta à democracia (2003b:16).
Passou a existir a preocupação com a divulgação de estudos econômicos de órgãos e universidades para um público mais amplo. Ainda assim, permanece uma diferença crucial com relação ao posterior período do Plano Cruzado: embora a partir do governo Geisel a preocupação do jornalismo econômico tenha passado a ser falar a públicos cada vez mais amplos, esse público permanecia restrito. Havia novos atores e interlocutores dentro do que se entendia por economia51, mas a linguagem continuava relativamente inacessível e o interesse por parte do grande público permanecia praticamente inexistente (Abreu, 2003b:48). No Plano Cruzado, por sua vez, a preocupação, a tarefa e os objetivos (ambições) do jornalismo econômico eram marcadamente maiores: falar a toda a população. Abreu (2002:22) afirma que, após a redemocratização, o jornalismo econômico seguiu ocupando destaque nas publicações, inclusive com o aumento do “número de páginas dos cadernos dedicados à economia”. Embora não faça menção ao Plano Cruzado, não é exagero supor que a cobertura deste, e o interesse gerado na população, tenham sido importantes fatores neste processo.

Durante esses anos de alta inflacionária [mais precisamente, entre 1985 e 1994], a cada novo plano econômico lançado era introduzida uma nova moeda e se alterava a vida do cidadão, que se via obrigado a entender novas regras de cálculo para o ajuste salarial, o pagamento de aluguéis, prestações etc. Muitas vezes tornava-se difícil compreender a aplicação dessas novas regras, e as informações divulgadas pelo governo não eram assimiladas por todas as camadas da população. Nas redações dos jornais, cabia aos jornalistas da área econômica explicar ao público leitor como agir com relação às conversões exigidas pela nova moeda e como se adaptar às regras que cada plano introduzia. As redações dos jornais tiveram que se organizar para responder aos questionamentos, às dúvidas de seus leitores, e para traduzir uma linguagem muitas vezes hermética dos conceitos econômicos para o leitor não-especializado, mas que era afetados por todas essas decisões (Abreu, 2003b:67).

Estrela Serrano (1999) afirma que o jornalismo político tem como base o processo de negociação estabelecido entre fontes e jornalistas – o que gera alguma confiança, uma vez que as reportagens baseiam-se muito mais em entrevistas e declarações (muitas delas off the record52) que em documentos ou informações de arquivo, como acontece nas coberturas de economia e de justiça. Aqui entra uma peculiaridade do Plano Cruzado. Embora tenha mantido o caráter de ser, em parte, baseada em documentos – o principal deles, o decreto-lei 2.283, que instituiu o pacote econômico –, a cobertura do Plano Cruzado, sobretudo nas primeiras semanas, foi parcialmente tratada como noticiário político. Não só porque políticos opinaram ou foram chamados a opinar, mas também porque muitos economistas ocupavam cargos no governo; porque muitos interlocutores falavam com base em interesses, interpretações e pontos de vista próprios, e não em documentos, dados ou medidas disponíveis para a avaliação de todos; pela própria natureza do plano econômico e da forma como foi gestado, anunciado e conduzido: econômico, mas permeado de discussões e decisões políticas, sobretudo de Sarney. Assim, o primeiro momento de explosão do jornalismo econômico no Brasil se deu através da utilização de alguns parâmetros do jornalismo político.

Neste contexto da década de 1980, Veja se fortaleceu ainda mais:


Ao longo dos anos 1980, à medida que se acelerava o processo de transição democrática no país, Veja ampliou sua liderança no mercado editorial, alcançando uma tiragem de cerca de quinhentos mil exemplares já em 1981, e atingindo edições com mais de um milhão de exemplares nos anos seguintes. Os acontecimentos políticos, como as eleições e as grandes mobilizações populares, e também as reviravoltas da política econômica impulsionaram essa expansão. A cada novo plano econômico, edições especiais explicando as medidas para a opinião pública insegura atingiam tiragens recordes. O crescimento da demanda por informações na vigência do sistema democrático e a tendência monopolística do setor jornalístico no Brasil formaram o pano de fundo desse processo.53
No plano político, a construção da legitimidade do jornalismo para atuar na democracia já se calcara na resistência à ditadura, na participação no processo de abertura e tivera seu marco principal na campanha pelas diretas. O jornalismo teve também influência decisiva na formação da Nova República. Em toda a transição, a mídia jornalística teve papel significativo, não apenas informando, mas mostrando ao público o “caminho correto” a ser seguido. Guimarães e Amaral (1988) mostram como a imprensa – principalmente a Rede Globo – foi fundamental para a vitória de Tancredo Neves. Ao fim do processo que levou Sarney ao Planalto, a imprensa havia se afirmado como peça-chave no processo político e, através de seu apoio, conferido legitimidade à Nova República. A partir de 1985, abria-se a possibilidade de o jornalismo exercer um novo papel, calcado principalmente nos acontecimentos relacionados às campanhas das diretas e de Tancredo Neves.

Outro aspecto a ser salientado na relação entre jornalismo e política no Brasil, e que influiu na cobertura do Plano Cruzado por Istoé e Veja, é a estreita relação entre donos de empresas jornalísticas e políticos (muitas vezes confundindo-se nas mesmas pessoas). Este problema foi explorado em um artigo que constatou e analisou o número recorde de emissoras de rádio e TV distribuídas a congressistas por José Sarney – notadamente no período entre 1o de fevereiro de 1987 e 5 de outubro de 1988 (portanto, posterior ao Plano Cruzado, o que não significa que relações e troca de interesses não existissem antes – muito pelo contrário), durante os trabalhos da Assembléia Nacional Constituinte. Tal medida teve grande influência na votação de determinados assuntos na Constituinte, com destaque para a decisão sobre a duração do mandato presidencial. É notório que, em muitos estados brasileiros, uma ou poucas famílias detém o controle da mídia (impressa, televisiva e radiofônica).54 As medidas do governo Sarney contribuíram decisivamente para agravar este quadro (Motter, 1994).

No Brasil pós-1985, ampliou-se o papel da mídia jornalística, fundamental para a construção da cidadania. Ao mesmo tempo em que debatia e apoiava a construção da cidadania, a imprensa legitimava a si mesma nesse processo. Essa ampliação do papel da imprensa está diretamente ligada ao abrandamento da censura, embora não se explique apenas por essa mudança. Num trabalho cujo recorte temporal é o Brasil no início do século XXI, Venício Lima vê a comunicação como um espaço político que, com freqüência, exerce funções tradicionalmente pertencentes aos partidos. A mídia se constitui em ator político na medida em que as representações por ela produzidas e veiculadas são referenciais fundamentais para a realidade social da população. Entre tais representações incluem-se as de “cidadania” e de o que é ser (e como deve atuar) um “cidadão” (Lima, 2001).

Abreu (2003a), defende a idéia de que desenvolveu-se, no país, o jornalismo cidadão55. Segundo esta perspectiva, a demanda da sociedade por informação, tendo como objetivo a construção da cidadania, permitiu que a imprensa exercesse três funções (e, simultaneamente, se afirmasse como capaz de exercê-las): fornecer informações; dar visibilidade à coisa pública, a demandas do público e a setores da sociedade, servindo como uma espécie de fórum; fiscalizar o poder público. Este papel da mídia cresce na medida em que o poder judiciário é visto como ineficaz e tendencioso pela população, que volta para os meios de comunicação a expectativa e esperança de respostas e soluções para seus problemas.56 Tal percepção não é fruto unicamente das últimas décadas, embora tenha sido acentuada durante os desmandos do período militar.

Após entrevistar dezenas de jornalistas que ocupam importantes cargos na imprensa, a autora agrupou as variadas opiniões em três modos de ver a profissão: a) como “mediadores entre a sociedade global e o indivíduo, ou entre a população e o poder público”; b) “produtores e difusores da informação”, calcados nas idéias de técnica, neutralidade e objetividade; c) como quem deve “vigiar, denunciar e fiscalizar”57. Estes papéis não são opostos entre si, mas complementares. Segundo a autora, o cruzamento destes grupos com a faixa etária dos jornalistas permite afirmar que a perspectiva de defesa dos “mais fracos” na sociedade deu lugar ao já mencionado engajamento revolucionário em voga nos anos 1970. Por outro lado, ao se observar de forma crítica a atuação da imprensa grande, não é difícil perceber que tais visões acerca do ofício de jornalista se encontram mais no plano das intenções (desejos, objetivos, metas) do que das práticas efetivas.

O jornalismo já exercera papel importante durante a ditadura militar e a abertura política: “ao colaborar para a derrubada do regime autoritário, a imprensa ganhou credibilidade e legitimidade junto ao público leitor”58. Ainda que a participação dos diferentes órgãos jornalísticos na transição política brasileira da ditadura à democracia tenha sido bastante heterogênea, ela conferiu à imprensa um status importante como, simultaneamente, espaço de debates e agente do processo político. Este status estava em vigor e certamente influenciou o lugar de autoridade política assumido pelas revistas semanais na cobertura do Plano Cruzado.

Outro aspecto a ressaltar é que, embora a cobertura do Plano Cruzado tenha sido em parte tomada, como já foi discutido, por aspectos políticos, tratou-se efetivamente do tratamento de notícias econômicas. Nesse sentido, provavelmente aquele terá sido o primeiro momento em que a imprensa encarou o jornalismo econômico como fait divers.

Sem buscar um caráter conclusivo, este buscou procurou, face à escassez bibliográfica, refletir acerca do jornalismo brasileiro à época do Plano Cruzado. Menos do que traçar um panorama extenso ou completo da situação à época, permitiu algumas inferências para pensar o papel da imprensa e sua relação com a política.



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1 Este artigo retoma algumas questões abordadas nos capítulos 1 e 3 de minha dissertação de mestrado, intitulada A torcida “precisa e imparcial”: Istoé, Veja e o Plano Cruzado, defendida em março de 2004 no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal Fluminense (UFF).

2 Doutorando em Comunicação (UFF) e professor da Unesa/RJ.

3 “A reação do silêncio”, O Globo, 02/7/2003, capturado na mesma data em http://www.oglobo.com.br.

4 Além das organizações políticas e das diversas formas de resistência (armada e cultural, entre outras), destacaram-se, como espaços de convergência da sociedade organizada, MDB (Movimento Democrático Brasileiro), Igreja Católica, OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), ABI (Associação Brasileira de Imprensa) e SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), entre outros (Carvalho, 2002:185-6).

5 Respectivamente: Partido dos Trabalhadores; Partido Democrático Trabalhista; Movimento Democrático Brasileiro; Aliança Renovadora Nacional; Partido do Movimento Democrático Brasileiro; Partido Democrático Social.

6 Entre os quais se incluem os do tipo que Jameson (2000:177) chama de micropolíticos: “de vizinhança, de raça, étnicos, de gênero e ecológicos”.

7 O termo “populares”, entre aspas, é encontrado, entre outros, em Neves (1989).

8 Escrevendo em 1989, e referindo-se ao período 1979-89, Lucília Neves afirma que “no contexto atual as associações de bairro proliferam, as comunidades eclesiais de base se estendem pelas periferias das grandes cidades, a pastoral da terra atua com vigor, os sindicatos procuram desenvolver formas de atuação mais autônomas, o movimento negro se organiza, as mulheres atuam em suas entidades próprias, os favelados se organizam, os índios lutam pela preservação de suas reservas e os ecologistas se manifestam” (p. 343).

9 Carvalho, 2002:188.

10 “A campanha das Diretas-Já!” (2003).

11 “Passado recente”, Veja 915, 19/3/1986, p. 132.

12 Abreu, 2002:60.

13 Costa (2004).

14 “O início de um governo”, Veja 913, 5/3/1986, p. 21.

15 2002:184.

16 2002:184. CEBs: Comunidades Eclesiais de Base.

17 ABC – Área industrial da Grande São Paulo; corresponde aos municípios de Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano do Sul.

18 Reis Filho, 2002:8.

19 Para um minucioso (e muitas vezes emocionado) relato do período de agonia de Tancredo Neves, ver Britto e Cunha (1985).

20 Sardenberg, 1987:75.

21 Sardenberg, 1987:120, 126-7.

22 Sardenberg, 1987:130. Para Tavares e Assis (1986:108-9), que estudam a economia no regime militar, “a indicação de Dilson Funaro para o Ministério da Fazenda marcou o início do processo que levaria à ruptura definitiva com a economia política do velho regime [...]”. Segundo Nepomuceno (1990:24), “Funaro ocupava o lugar deixado vago por Francisco Dornelles, um político que fora cuidadosamente escolhido por Tancredo Neves e cujas posições conservadoras se chocavam frontalmente com as defendidas pelos economistas do PMDB, partido maioritário na frágil aliança do governo”.

23 “Uma trégua no PMDB”, Veja 913, 5/3/1986, p. 36.

24 A reforma ministerial desagradou o PMDB, que perdeu espaço: “o novo Ministério era de fato menos PMDB e mais PFL [...]. E, principalmente, o Ministério era mais Sarney – como afinal deveria ser normal que ocorresse num regime presidencialista” (Sardenberg, 1987:204). Não obstante, o partido permanecia força majoritária dentro do governo.

25 Istoé 480, 05/3/1986, p. 24.

26 No entanto, como ressalta Sardenberg (1987) e publicaram Istoé e Veja, após o lançamento do Plano, no dia 28, Ulysses afirmaria que de nada ficara sabendo antecipadamente.

27 “Uma trégua no PMDB”, Veja 913, 5/3/1986, p. 37.

28 Sardenberg, 1987:232.

29 O caminho ortodoxo consistia em corte dos gastos públicos e recessão, além da manutenção da indexação da economia.

30 Nepomuceno, 1990:26.

31 Os parágrafos a seguir baseiam-se, em grande parte (exceto onde indicado), na reportagem “O dia em que Sarney derrubou a inflação”, de Ricardo Setti, publicada na revista Playboy de junho de 1986. A reportagem ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo daquele ano e encontra-se reproduzida no sítio Profissão: Repórter, em http://www.geocities.com/reportagens/cruzado.htm.

32 Participaram constantemente das atividades André Lara Resende (economista, professor da PUC-Rio e empresário; Diretor de Dívida Pública do Banco Central), Pérsio Arida (economista e professor da PUC-Rio; Secretário de Coordenação Econômica e Social da Seplan – Secretaria de Planejamento), Luiz Carlos Mendonça de Barros (engenheiro e empresário; diretor de Mercado de Capitais do Banco Central), João Manuel Cardoso de Mello (assessor especial do Ministério da Fazenda), Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo (secretário especial para assuntos econômicos do Ministério da Fazenda) e Andrea Calabi (professor de economia da USP e secretário-geral da Seplan). Tiveram participação menos assídua, mas não menos relevante, na discussão, planejamento e elaboração do plano econômico: Francisco “Chico” Lopes (economista, professor de economia da PUC-Rio e empresário), Eduardo Modiano (economista, professor da PUC-Rio e sócio de Chico Lopes), Fernão Bracher (advogado, presidente do Banco Central) e Edmar Bacha (economista e presidente do IBGE).

33 Numerosos pontos do plano foram objeto de discussão e divergência – econômica, mas também política, social e até mesmo filosófica – entre os planejadores, ministros e o próprio Sarney, que, em diversos casos, tomou para si a decisão final.

34 Embora houvesse eleições durante a vigência do regime militar, a presidência da República estava assegurada. Além disso, o governo intervinha com freqüência nas esferas federal, estadual e municipal da política (ou seja, nos poderes Executivo e Legislativo – e não menos no Judiciário), sempre de forma a assegurar seus interesses. A realização de eleições sofria uma série de restrições, incluindo desrespeito ao seu resultado.

35 Como lembra Céli Pinto, “um pronunciamento presidencial em cadeia nacional é uma exceção, o presidente da República só faz um pronunciamento desta natureza quando tem uma mensagem especial a transmitir. É um momento simbólico – o governo, na pessoa de seu mais alto funcionário, se apresenta solenemente ao público” (1989:73).

36 Jaime Matos, “Pacote de risco”, Istoé 480, 5/3/1986, p. 19.

37 Istoé 480, 05/3/1986, p. 20.

38 Setti (1986).

39 Sardenberg, 1987:148-9. Segundo Nepomuceno (1990:73), a troca de índices foi realizada em dezembro.

40 “Tratava-se de um mecanismo pelo qual o banco cobria as despesas do Tesouro Nacional no dia-a-dia, houvesse ou não recursos, o que, na prática, significava emitir dinheiro sem controle do Banco Central” (Setti, 1986).

41 As medidas de restrição ao crédito foram amplamente aplaudidas na “Carta ao leitor” de Veja 912, 26/2/1986.

42 “O início de um governo”, Veja 913, 5/3/1986, p. 21.

43 Sardenberg, 1987:184. Segundo o autor, “a Nova República já quebrara, em menos de um ano de vida, dois recordes mensais de inflação, os 14% de agosto de 1985 e, agora, os 16,2%” (Id. ibid., p. 187). Pinto destaca a importância da inflação na cultura política brasileira: “Em síntese, o que é necessário ter presente é a centralidade do problema da inflação no discurso político brasileiro a partir da década de 50 e sua internalização por parte da população do país, o que se constitui em um ponto fundamental para se entender as condições de emergência do discurso do Plano Cruzado e sua conseqüente capacidade de criar uma grande mobilização nacional” (1989:75-6).

44 Para a autora, o primeiro ano de governo Sarney significou um ano de ausência do povo no discurso político (Pinto, 1989:102).

45 Segundo Pinto (1989:108), o fiscal é o indivíduo, investido diretamente pelo presidente.

46 2003b:14. O objeto de estudo da autora são os principais jornais diários de SP e RJ.

47 2003b:17-20. Segundo Abreu, “a escolha do jornalismo econômico como profissão [nos anos 1960] era uma forma de exercer o engajamento político, divulgar uma ideologia e atuar politicamente” (2003b:17).

48 “A partir de 1964, os militares, em nome da eficiência econômica e da competência técnica, deram aos economistas cargos de direção em órgãos públicos, nos quais eles exerceram o poder de definir as políticas públicas e as orientações básicas para o desenvolvimento brasileiro. Os economistas atuaram praticamente como dirigentes políticos, mas sem as obrigações de um representante do povo com mandato eleitoral” (2003a:26).

49 DINES, Alberto. O papel do jornal: uma releitura. São Paulo: Summus, 1986, apud Abreu (2003a:28).

50 DHBB, verbete Veja, p. 6003.

51 É no governo Geisel que empresários começaram a se apresentar para debater economia e modelos de desenvolvimento. Para Abreu, o empresariado nacional, com cada vez menos espaço e voz no governo e nos projetos deste, voltou-se para a imprensa para expor suas posições, tentando conquistá-la como aliada. Além disso, a partir de 1977, empresários aderiram às campanhas pela abertura e anistia (2003b:52-3). As circunstâncias dos anos de 1977-8 (ver item “Um breve panorama: o Brasil, 1979-85”) fizeram com que sindicalistas e acadêmicos também emergissem como interlocutores do debate econômico. Segundo a autora, “Muitos jornalistas se aproximaram de economistas que trabalhavam na universidade ou em instituições de pesquisa para obter dados e informações que lhes permitissem construir seus comentários” (Abreu, 2002:26).

52 Off the record: declaração informal, geralmente dada com a condição (implícita ou explícita) de que a fonte não seja mencionada na reportagem.

53 DHBB, verbete Veja, p. 6003.

54 O fenômeno, conhecido por “coronelismo eletrônico”, e as relações entre concessões e o jogo político são abordados, entre outros, por Lima (2001:201).

55 “O jornalismo cidadão deve ser entendido como um dos meios de o jornalista, na atualidade, preencher um papel de ativista político caracterizado pela defesa de valores como rejeição à corrupção, defesa dos direitos dos cidadãos, igualdade no tratamento e na aplicação das leis etc.” (Abreu, 2003a:38).

56 Abreu, 2003a:25-33.

57 Abreu, 2003a:35-6.

58 Abreu, 2002:53-4.


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