A indignaçÃo barra a censura



Baixar 17.02 Kb.
Encontro02.08.2016
Tamanho17.02 Kb.
A INDIGNAÇÃO BARRA A CENSURA
Luis Guilherme Pontes Tavares**
Indignação... quando ela escasseia, a censura avulta.

Faltasse indignação em outubro de 1975, por certo não lembraríamos mais do assassinato de Vladimir Herzog e o cineasta João Batista de Andrade não teria feito em 2005 o comovente documentário Vlado, 30 anos depois. Aquela indignação de 1975 foi melhor expressa pelo bravo dom Paulo Evaristo Cardeal Arns, a quem a Ditadura Militar perseguia não apenas por seu exercício de pastor católico mas, sobretudo, por seu destemor jornalístico como editor do censurado jornal da Cúria paulistana, O São Paulo. Nossa homenagem eterna à coragem e ao amor de dom Paulo por todos nós.

Há dois livros sobre a censura do período da Ditadura Militar que reclamam, de lá do silêncio a que foram condenados, exame e nova edição. Refiro-me aos livros A sangue quente. A morte do jornalista Vladimir Herzog, de Hamilton Almeida Filho (1946-1993), de 1978, que a sua editora Alfa-Omega ora comercializa a versão digital; e A censura política na imprensa brasileira, 1968-1978, de Paolo Marconi (1947), publicado em 1980 pela Global. Marconi, que é conselheiro do Tribunal de Contas dos Municípios, na Bahia, completará 60 anos no próximo ano. Hamilton Almeida Filho faleceu em 1993 e estaria mais ou menos com a mesma idade de Paolo.

Hamilton, a quem os colegas e amigos chamavam de Haf, reescreveu nas 94 páginas do seu livro o número 16 do jornal Ex, que a censura recolheu porque continha uma reportagem de fôlego contando tudo sobre a morte de Herzog. O livro é dividido em seis pequenos capítulos. O penúltimo é o valioso relato da trajetória do Ex e tem o título de “Cartas a um ex-jornal”. Há três passagens do livro que permanecem na minha memória: a denúncia de que foi um colega de profissão, o jornalista Cláudio Marques, então colunista do semanário paulista Shopping News, quem disparou a campanha anticomunista que provocou a morte de Herzog; um colega... Um outro colega, Paulo Patarra, que conheci no final da década de 1980 dirigindo o jornalismo da TV Cultura, foi capaz de trocar a gerência do Centro de Criação da Abril para participar do perigoso desafio de tocar para adiante o Ex, investindo no periódico mensal suas economias de 50 mil cruzeiros; esses colegas... É marcante também a informação de que a Editora Abril estimulava o crescimento da tiragem do Ex, pois distribuía o jornal; acrescente-se que A sangue quente foi impresso no Círculo do Livro SA, uma das empresas do grupo.

Os pesquisadores do jornalismo brasileiro – ou sua viúva, a jornalista e escritora Regina Echeverria, – não fariam nenhum favor em escrever a biografia do jornalista Haf, paulista que nasceu em Taubaté e foi criado no Rio de Janeiro. Ele foi saudado como prodígio quando, aos 15 anos, inaugurou-se como repórter do carioca A Noite. Sua brilhante carreira passa pelo Jornal do Brasil, O Cruzeiro, Última Hora, Jornal da Tarde, Realidade, Veja, Bondinho, Ex, Mais Um, Extra, Jornal da República, Vogue/Senhor e pelo jornalismo popular levado para a televisão brasileira e, diante do que temos agora, desvirtuado depois. Certa vez, preso em São Paulo devido à ação policialesca do CCC (Comando de Caça aos Comunistas), o inquieto Haf criou O Cadeião, mobilizando e transformando detentos em repórteres.

O conheci no início da década de 1970 em Salvador. Procurou alguma segurança ali, talvez por causa da fotógrafa baiana Lúcia Correia Lima, com quem vivia. O casal morou num sótão de velho sobrado da Ladeira do Passo, no Pelourinho, com as portas sempre abertas para os amigos, mesmo quando o temor aflorava devido a alguma matéria sobre a Bahia enviada por ele para alguma publicação de circulação nacional. Haf e Lúcia, nos quase dois anos em que trabalharam na Tribuna da Bahia, então o jornal mais novo e interessante da capital baiana, injetaram ânimo e criatividade e o ápice talvez tenha sido o suplemento audaciosamente colorido que ele concebeu para protestar contra a guerra do Vietnã. Hoje é uma raridade!

Era um homem muito interessante, muito afável, muito sedutor. Seu carisma tanto gerava atração quanto inveja e ciúme. Creio que toda a redação da Tribuna da Bahia, pouco a pouco, se rendeu a ele. Lembro que dedicava especial admiração ao psiquiatra José Gaiarsa, ao compositor e cantor Gilberto Gil e ao bispo do Araguaia, dom Pedro Casaldáglia. Foi de uma coragem invejável, expressa também no depoimento que deu para Paolo Marconi e que se constitui num dos pontos altos do livro A censura política na imprensa brasileira, 1968-1978.

Antes de falar do livro do também jornalista Paolo Marconi, devo salientar que a bibliografia sobre censura e liberdade de imprensa no Brasil não é pequena. Refiro-me, por exemplo, ao caçula Mídia controlada, do professor doutor Sérgio Mattos, publicado pela Paulus em 2005. Há outros, muitos outros, tais como O controle da informação no Brasil, do professor Antonio Costela (Coleção Meios de Comunicação Social, v. 2), publicado pela Vozes em 1970; o Liberdade de Imprensa, de Carlos Rizzini, que Costela publicou em sua Editora Mantiqueira em 1998; o Cães de guarda. Jornalistas e censores, do AI 5 à constituição de 1988, de Beatriz Kushnir, publicado pela Boitempo em 2004; o A imprensa confiscada pelo Deops, 1924-1954, do casal de professores Maria Luiza Tucci Carneiro e Boris Kossoy, publicado pela Ateliê e pela Imprensa Oficial de São Paulo em 2003 para a série Labirintos da Memória do Arquivo do Estado; e o clássico Jornalistas e revolucionários nos tempos da imprensa alternativa, do professor Bernardo Kucinski, cuja 2ª edição revista e ampliada foi muito bem publicada em 2003 pela Edusp.

O baiano de origem italiana Paolo Marconi não gostou do tratamento que a editora paulista Global dispensou ao seu livro. Ele é o 14º da Coleção Passado & Presente da editora. O autor conseguiu que a primeira edição fosse recolhida por causa dos muitos problemas de revisão. A segunda edição tampouco saiu do agrado, mas é esta a que restou. Assim como os livros de Antonio Costela e Hamilton Almeida Filho, A censura política na imprensa brasileira, 1968-1978 tem o mérito adicional de ter sido publicado em plena vigência do arbítrio. O livro de Paolo Marconi revela, por exemplo, que os editores censurados consideravam a ação censória exercida pelo Exército menos arbitrária e burra do que aquela praticada pelos agentes da Polícia Federal.

Paolo Marconi relata um constrangimento passado pelo empresário Fernando Gasparian, proprietário do alternativo Opinião, quando foi apreendida a edição 26, numa operação comandada pelo inspetor Costa Sena, da Polícia Federal. O inspetor levou Gasparian preso apesar dos apelos em contrário feitos pelos deputados federais Marcos Freire, Lysâneas Maciel e Francisco Pinto que testemunharam o episódio. No veículo, Gasparian ouviu a ameaça do policial:

O senhor tome jeito, seu Gasparian. O senhor está brincando comigo. Eu quero lhe dizer que não tenho medo do Cardeal, não tenho medo do Le Monde, nem tenho medo de deputado. Se o senhor continuar desse jeito, eu lhe dou um tiro na cara.

O livro de Paolo, datado do período da distensão do general-presidente Ernesto Geisel, encerra-se com uma pergunta: “A censura acabou?” Isto porque o conjunto dos depoimentos obtidos pelo autor e as suas reflexões pessoais o levou a identificar algumas ações censórias que medraram nos meios jornalísticos tais como a censura econômica, a cumplicidade dos proprietários com o poder e a autocensura. São males que perduram, infelizmente. Ouso pensar até que o modelo de ensino de jornalismo brasileiro não tem a liberdade como sua bandeira mais elevada, mas não vamos tratar desta questão agora.

O livro de Paolo Marconi reproduz documentos de censores e censurados e vários depoimentos de jornalistas, dentre os quais Hélio Fernandes (Tribuna da Imprensa), Ruy Mesquita (O Estado de S. Paulo), Cláudio Abramo (Folha de S. Paulo), Alberto Dines (Folha de S. Paulo) e Hamilton Almeida Filho (Ex). Assim como A sangue quente, o livro de Paolo Marconi foi elaborado e publicado no calor dos acontecimentos, algo assim como escrever diante de um horizonte vermelho sangue com sol lançando raios em forma de baionetas.

Indignação... quando ela escasseia, a censura avulta.

Em 2008, quando comemorarmos o bicentenário da instalação da imprensa brasileira, não daremos nenhuma chance a censura. Assim teremos a liberdade de comemorar todas as datas que marcaram os primórdios da história da indústria editorial brasileira: o 13 de maio de 1808, quando foi instalada a Impressão Régia no Rio de Janeiro; o 1º de junho de 1808, quando Hipólito José da Costa estreou seu Correio Braziliense em Londres; e o 10 de setembro de 1808, quando começou a circular o primeiro periódico impresso em terras do Brasil, a Gazeta do Rio de Janeiro.

Sem censura, vamos comemorar tudo, tudo, no bicentenário.




 Pronunciamento no IV Encontro Nacional de História da Mídia, patrocinado pela Rede Alfredo de Carvalho e Associação Maranhense de Imprensa – AMI – em São Luís, de 30 de maio a 02 de junho de 2006.

** Jornalista, produtor editorial e professor. É coordenador do GT 4 – História da Mídia Imprensa – da Rede Alfredo de Carvalho.





©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal