A influência dos estilos arquitetônicos franceses nas construções do Rio e São Paulo nos séculos passados Basta caminhar com um olhar atento pelas ruas de São Paulo e do Rio



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A influência dos estilos arquitetônicos franceses nas construções do Rio e São Paulo nos séculos passados

Basta caminhar com um olhar atento pelas ruas de São Paulo e do Rio, para perceber o estilo arquitetônico francês presente em alguns prédios e palacetes das duas cidades. Apesar de perdidos no meio do caos urbano e entregues à ação do tempo, as construções ainda conservam o glamour de um Brasil rico e próspero – cheio de casas amplas e jardins decorativos. A influência francesa na arquitetura brasileira durou aproximadamente de 1816 até a Segunda Guerra Mundial e se manifestou sob a forma de quatro estilos distintos: o neoclássico, o eclético, o Art Déco ou Art Nouveau e o moderno. De acordo com Carlos Lemos, arquiteto e professor titular da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, no Rio de Janeiro, essa influência foi mais forte na época do império e em São Paulo começou a partir do estilo eclético (século XIX),patrocinado principalmente pelos barões do café. Lemos afirma que essa inspiração trouxe para o Brasil muito mais do que uma estética de fachada, mas um modo de morar à francesa, em que, pela primeira vez, as construções eram divididas em alas totalmente independentes – de dormir, de estar e de serviço. "Essa é, com certeza, a maior contribuição da arquitetura francesa ao Brasil. Conceito utilizado até hoje na maioria dos projetos", afirma.

Sede do império – Em 1814, o traço francês invadiu as construções do Rio de Janeiro depois da chegada no Brasil da Missão Francesa. Respondendo ao convite de Dom João VI, Rei de Portugal, vários pintores, escultores e arquitetos formaram a Missão Francesa, liderada por Grandjean de Montigny. Arquiteto de renome na Europa, mudou-se para o Rio em 1816 e assim que chegou recebeu o título de professor de arquitetura – o primeiro oficialmente concedido no país.

Montigny foi responsável pela elaboração de vários projetos oficiais e privados. Ele foi, sem dúvida nenhuma, um dos arquitetos estrangeiros que mais tiveram impacto na reforma da paisagem da cidade. Sua influência permaneceu por muitas décadas e suas lições orientaram vários discípulos, como José Maria Jacinto Rebelo, responsável pelo projeto da fachada do palácio do Itamaraty. A primeira obra de Montigny no Rio de Janeiro foi o pórtico da Academia Imperial de Belas-Artes, na rua Jardim Botânico. No entanto, o projeto mais representativo doneoclassicismo à la française é o da Casa França-Brasil, um dos dois edifícios remanescentes de sua obra no país. O segundo é o Solar da Baronesa, localizado no campus da PUC-RJ, na Rua Marquês de São Vicente. O edifício da Casa França-Brasil foi projetado em 1821. Criado para abrigar a primeira Praça do Comércio (espécie de bolsa de valores) da cidade, virou, em seguida, prédio da Alfândega, Segundo Tribunal do Júri e, enfim, Casa França-Brasil.

O período neoclássico durou quase um século no Brasil. Além de Grandjean de Montigny, outros arquitetos franceses neoclássicos trabalharam na Cidade Maravilhosa, como Pedro José Pézerat, responsável pelo projeto do pavilhão do Palácio Imperial na Quinta da Boa Vista, em 1828, e também Carlos Rivière, que participou do projeto da Igreja Matriz Nossa Senhora da Glória.

O estilo eclético começou a se impor no Rio de Janeiro no final do século XIX. Uma data é importante para explicar o fim do neoclássico no país: em 1889, o Brasil vira República e quer cortar os laços com Portugal. O período eclético corresponde, segundo Hugo Hamann, arquiteto e urbanista, que trabalhou durante cinco anos no Copacabana Palace, ao auge da influência francesa na arquitetura brasileira. A vontade do governo de mostrar para o mundo que o Brasil era agora "um país novo" foi uma das causas das mudanças dos padrões artísticos em vigor. Na opinião de Hamann, são dois edifícios que melhor caracterizam o estilo eclético no Rio de Janeiro: o Teatro Municipal, situado na Praça Floriano, no Centro, e o Copacabana Palace, na Avenida Atlântica.

Em pé de igualdade – Foi durante o auge do estilo eclético no Brasil que a cidade de São Paulo começou a se igualar ao Rio de Janeiro na área arquitetônica. "São Paulo era muito pobre na época do império e só começou a prosperar no século XIX", afirma o arquiteto Carlos Lemos. Segundo ele, com essa prosperidade os grandes fazendeiros e empresários encomendavam aos arquitetos casas que seguissem o estilo europeu, considerado sofisticado na época. Um dos mais importantes desse período foi, sem dúvida, Ramos de Azevedo(1851-1929). Formado na Universidade de Gand, na Bélgica, ele foi responsável pelas mais importantes obras de influência francesa e européia de São Paulo como, por exemplo, o Mercado Municipal, a Pinacoteca do Estado, o Liceu de Artes e Ofícios, entre outras. A contribuição de Azevedo para São Paulo foi enorme. Estima-se que a equipe do escritório do arquiteto projetou e construiu mais de 500 obras, entre prédios públicos, edifícios privados e residências particulares. A casa onde ele morou em São Paulo, no bairro da Liberdade, mostra toda a influência francesa de sua obra.

Para o arquiteto Carlos Lemos, além das construções assinadas por Ramos de Azevedo, outras obras-primas erguidas em São Paulo também levam a marca francesa em suas linhas, como a Estação Júlio Prestes, a Catedral Gótica da Sé, o Palácio Campos Elíseos, a Vila Penteado, a sede do clube São Paulo, o Instituto Biológico e o Viaduto do Chá.

Essa obra, por sinal, foi o primeiro viaduto construído em São Paulo. Idealizado pelo francês Jules Martin e inaugurado em 1892, o viaduto demorou 15 anos para ser concluído. Isso aconteceu porque o arquiteto teve de convencer os paulistanos da necessidade de ligar a rua Direita com o morro do chá – como era conhecida a área onde estava a chácara dos barões de Tatuí, com plantações de chá. O barão de Tatuí estava entre os moradores que seriam desapropriados para construção da obra e ele não pretendia sair de sua casa. Até o dia em que a população favorável à obra armou-se de picaretas e atacou uma das paredes do sobrado. Com argumentos tão "convincentes", o Barão revolveu mudar-se e a obra pôde ser terminada.

Outra obra de inspiração francesa é a Estação Julio Prestes. Toda inspirada no estilo Luis XVI, a estação foi desenhada pelo arquiteto paulista Christiano Stockler das Neves. Inaugurada em 1938, depois de 12 anos de construção, a estação foi concebida para sediar a Estrada de Ferro Sorocabana. O projeto reflete toda a formação conservadora de Stockler e é uma obra inacabada, de acordo com o arquiteto Carlos Lemos. "A inspiração é toda francesa, no entanto a obra é inconclusa pois faltam as placas de ardósia no alto do prédio", explica.

No centro de São Paulo, na rua Rio Branco, uma outra construção destoa dos prédios próximos: o palácio Campos Elíseos. Encomendado pelo exportador de café Elias Antonio Pacheco, o palácio tem arquitetura inspirada em um castelo francês e foi considerado o imóvel mais chique da cidade no início do século XX. A construção é toda ornamentada por figuras trazidas da Europa e, hoje, aguarda um projeto de restauração que traga de volta seus tempos áureos.



Depois do apogeu do estilo eclético, a presença francesa na arquitetura brasileira começou a diminuir no Brasil.Segundo o arquiteto Carlos Lemos, até um pouco antes da Segunda Guerra Mundial, o estilo Art Déco ainda influenciava os arquitetos no país. Depois disso, os Estados Unidos começaram a dominar até mesmo o vocabulário utilizado pelos profissionais da área. "No lugar de vestíbulo, era usada a palavra hall. Toilette foi substituído por WC e assim por diante", explica. Para Lemos, nesse período a França tinha perdido a batalha para os EUA. "A cultura francesa foi deixada de lado."

Entre as obras construídas no estilo Art Déco no Rio de Janeiro, destaque para a igreja da Santíssima Trindade no bairro do Flamengo, além dos edifícios Mesbla e Biarritz. O edifício Mesbla se caracteriza por uma composição tipicamente Art Déco: corpo baixo, marcado por dominantes horizontais (no caso, varandas semi-embutidas). A torre do relógio tinha aproximadamente o dobro da altura do prédio e é o elemento mais destacado da composição, dominando ainda hoje a paisagem ao redor. O edifício Biarritz é um magnífico exemplar da influência francesa, com ênfase especial com o requinte do detalhamento. Em São Paulo, o Instituto Biológico, localizado no bairro do Paraíso, é um dos marcos do Art Déco, construído na década de 30 e tombado pelo Condephaat em 2000.

Montigny e Le Corbusier – O estilo moderno apareceu no Brasil depois do Art Déco e pouco antes da Segunda Guerra Mundial. Não será exagerado afirmar que a maior figura da arquitetura francesa moderna no Rio de Janeiro é Le Corbusier. Aliás, segundo Hugo Hamann, as duas personalidades mais influentes da arquitetura francesa no Brasil foram, incontestavelmente, Grandjean de Montigny e Le Corbusier. Este orientou vários arquitetos brasileiros, como Lúcio Costa, Carlos Leão e Oscar Niemeyer. Deste último, Lúcio Costa dizia: "De todos nós, Niemeyer é o que tinha mais capacidade para entender o gênio" (Le Corbusier). Todos eles trabalharam juntos na obra mais importante do modernismo no Rio de Janeiro: o Palácio Gustavo Capanema, ou Ministério da Educação e da Cultura (MEC). Hugo Hamann se mostra empolgado e não consegue disfarçar a admiração quando o assunto é Le Corbusier: "Ele foi impressionado pela luminosidade do Rio e por isso gostava de incorporar às suas construções o brise-soleil, que regula a luminosidade dos prédios controlando o vento e o sol", explica. O estilo é agora popular nos Estados Unidos.

Outro arquiteto francês moderno, bem menos influente, merece, no entanto, ser citado: Jacques Pilon, responsável pelo projeto doedifício Maison de France, em 1955; do edifício Edison Passos, em 1946; e dos edifícios Chopin, Prelúdio, Balada e Barcarola na Avenida Atlântica, de 1951 a 1957. Segundo Hugo Hamann, os dois arquitetos modernos brasileiros mais importantes são Oscar Niemeyer e Lúcio Costa. Dois ex-discípulos de Le Corbusier.



Fonte: Revista França-Brasil, órgão de divulgação da Câmara de Comércio França-Brasil


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