A instruçÃo elementar na revista a informaçÃo goyana (1917/1935)



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A INSTRUÇÃO ELEMENTAR NA REVISTA A INFORMAÇÃO GOYANA (1917/1935)

Thaís Cristina Modesto Borges. UFG/CAC. Bolsista PIBIC. thaiscmborges@hotmail.com.

Ana Maria Gonçalves. Professora Adjunto da UFG/CAC.

Resumo
O presente trabalho tem como objeto de estudo a revista “A Informação Goyana”, publicada entre 1917-1935. Editada na Capital Federal colocava-se a serviço da divulgação das possibilidades da região do Brasil Central. Vale destacar que embora buscasse evidenciar a região, várias publicações desse periódico deram a Goiás um papel de destaque porque o núcleo de colaboradores que a produzia era formado por intelectuais goianos. Trata-se de uma pesquisa cujo objetivo é discutir a educação, especificamente a instrução elementar, sob a ótica da revista. Considerando que a mesma foi pensada como um instrumento projetado para divulgar as potencialidades e estimular o desenvolvimento de Goiás pretende-se com essa pesquisa conhecer o papel atribuído à instrução elementar no progresso do estado de Goiás. Nesse sentido, far-se-á uma apresentação da revista, seguida de uma pequena biografia dos principais colaboradores, Henrique Silva e Americano do Brasil. Na seqüência, apresenta-se uma discussão acerca do contexto em que a revista foi produzida, finalizando com a discussão de questões referentes à educação primária. Tem-se, portanto, a preocupação de compreender a natureza e o processo de constituição de conhecimentos sobre a educação primária goiana, assim como entender a função que lhe conferia a intelectualidade republicana da época.

Palavras-Chave: Instrução Primária, Revista A Informação Goyana, Educação em Goiás.



Introdução
O interesse pelo discurso sobre a instrução elementar que circulou na revista A Informação Goyana surgiu a partir de estudos sobre a história da educação primária em Goiás. A percepção de que vários trabalhos a apontavam como fonte e sua publicação digitalizada, pela Fundação Cultural Pedro Ludovico Teixeira, facilitando o acesso a todos os exemplares, levou-nos a elegê-la como objeto de estudo.

Para o entendimento da circulação dos discursos referentes ao tema instrução elementar o exame desse periódico parece-nos decisivo. Afinal, conforme Catani e Bastos (1997) e Catani (2003), através do acompanhamento da imprensa periódica é possível analisar os discursos que foram elaborados, bem como compreender a natureza e os processos de constituição de conhecimentos sobre a educação. Assim, procurou-se realizar essa atividade mapeando o tema por meio da leitura dos artigos publicados na revista A Informação Goyana desde o primeiro ao último exemplar (1917/1935).


A INFORMAÇÃO GOYANA” (1917-1935)

A revista A Informação Goyana circulou de agosto de 1917 a maio de 1935. Durante sua circulação, um total de 2.229 textos foram publicados, dentre artigos, notas de informações, biografias, reprodução de notas, homenagens, entre outros (TAVARES, 2007), divididos em 19 volumes e 213 números (NEPUMOCENO, 1998). Composta em papel de boa qualidade com formato 32x24cm, durante todo o tempo em que circulou teve seu conteúdo disposto em duas colunas.

A revista contou com a participação de engenheiros, médicos, militares, professores, advogados, farmacêuticos, religiosos, políticos, historiadores e outros. Seus fundadores foram Henrique Silva e Americano do Brasil.

Henrique Silva, republicano convicto, diretor principal desse periódico, nasceu em Bonfim1 em 21 de março de 1865. Iniciou a carreira das armas como cadete no Esquadrão de Cavallaria de Goyaz, matriculando-se mais tarde na Escola Militar da Praia Vermelha. Morreu em 1935, ano em que ocorreu a última publicação da revista.

Americano do Brasil, sobrinho-neto de Henrique Silva, nasceu em 28 de agosto de 1892, morreu assassinado em 20 de abril de 1932. Escreveu para a revista de 1917 a 1930. Formou-se pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Era médico, professor, pesquisador, historiógrafo, poeta folclorista, jornalista e político.

A partir da leitura do primeiro número da revista e de autores como Nepomuceno (1998) e Tavares (2005), que, também, trabalharam com a revista, identificamos a mesma percepção acerca dos objetivos do periódico. Segundo Nepomuceno (1998, p. 38. Grifo no original), a revista foi criada com a pretensão de se transformar em “um órgão temático especializado em Brasil Central, com fim político e publicitário, logo, educativo”. Em Tavares encontra-se em destaque o desejo dos editores de tornar Goiás conhecido e respeitado por seus recursos naturais e por suas possibilidades econômicas, além de demonstrar a necessidade de apresentar a região à Nação.

E, por fim, os objetivos segundo seus criadores:

Um dos primeiros esforços desta revista é precisamente colocar diante dos olhos dos capitalistas, dos industriaes e dos comerciantes as possibilidades econômicas sem conta do estado mais central e menos conhecido do Brasil. A Informação Goyana traz, portanto, um fim e um programa que bem a definem na imprensa brasileira (A INFORMAÇÃO GOYANA, 1917).


Não resta dúvida, portanto, que o objetivo da revista era mesmo o de apresentar Goiás ao resto da Nação, ou seja, a revista foi o meio encontrado pelos goianos de mostrar o que o Estado guardava e que precisava ser descoberto, apresentado. Segundo seus editores, apresentar os recursos naturais para exploração viabilizaria a aproximação do “litoral ao sertão”.

Os editores da revista tinham uma clara percepção da desatenção para com Goiás, ou melhor, o desinteresse para com o estado, principalmente, por parte da imprensa do estado do Rio de Janeiro. Desse modo, decidiram-se por sua apresentação aos demais estados por meio de uma revista mensal. O enfoque, no entanto, não seria o de um “vizinho pobre”, grosso modo falando, mas de um território de riquezas incríveis, que ainda não tinha sido apresentado ao país.

Cabe mencionar que a revista abordou por volta de 27 diferentes assuntos, abrangendo desde a economia, que foi sua prioridade, a saúde, cultura, política, educação, etc. No que se refere à educação, tema a que nos dedicamos, a revista publicou cerca de 38 artigos, ou seja, do total de artigos publicados, 1.70%2 foi dedicado à educação.

Sabemos da importância que os republicanos atribuíam à educação, sobretudo, a instrução primária. Carvalho (1989) ressalta que para os republicanos a junção entre escola e a República era um futuro luminoso em que o saber e a cidadania se entrelaçariam trazendo o progresso. Desse modo, cabe indagar: por que se dedicou tão pouco espaço à instrução na revista A Informação Goyana? Como o estado poderia progredir mantendo um “bando de analfabetos”?



O CONTEXTO DE PRODUÇÃO DA REVISTA A INFORMAÇÃO GOYANA (1917/1935)
A revista A Informação Goyana começou a circular na Velha República, também conhecida como Primeira República, República Oligárquica ou República dos Coronéis. Tal caracterização vincula-se ao entrelaçamento dos conceitos de coronelismo e oligarquia, lembrando que os dois termos têm a mesma origem diferenciando-se apenas quanto âmbito de ação do coronel e do oligarca.

Inúmeros autores analisam o fenômeno oligárquico e o identificam em vários estados brasileiros e por toda a América Latina. Em Carone (1975, p. 269), por exemplo, encontramos uma abordagem importante que auxilia na compreensão das ações das oligarquias, qual seja: “ao sentido primitivo da palavra oligarquia – governo em que a autoridade está nas mãos de poucas pessoas – juntou-se no Brasil, um conceito mais específico: o de governo baseado na estrutura patriarcal”.

Goiás conheceu três oligarquias ao longo da Primeira República: o grupo bulhônico e xavierista nos primeiros vinte anos, o grupo caiadista e, por último, os Ludovico de Almeida. Com relação ao estado é preciso assinalar que as transformações desencadeadas pelos processos de industrialização e urbanização, herdadas do final do século XIX e início do XX, ainda não se faziam sentir como em outros estados da federação. De acordo com Moraes (1974), Goiás não apresentava condições para acompanhar o surto de desenvolvimento ocorrido no Brasil e essa marginalização refletiu-se nos setores político, administrativo, cultural e social.

Nesse panorama, um grupo se tornou forte e controlou politicamente o estado, os Bulhões. Eles entraram para o cenário político tendo como eixo propulsor de suas idéias a imprensa livre. Fundaram jornais, estruturaram partidos políticos (militaram no Clube Liberal e no Centro Republicano) lutaram pela extinção da escravatura e pela extensão dos trilhos de ferro a Goiás.

No entanto, em virtude das lutas entre Bulhões e Caiado ganhou destaque junto aos Bulhões, José Xavier de Almeida. Segundo Rosa (1984), Xavier de Almeida – jovem, inteligente e com ambições políticas – transformou-se em uma espécie de “filho espiritual de Leopoldo de Bulhões”3. Assim, em março de 1901, com o apoio bulhônico, foi eleito Presidente do Estado4.

Xavier de Almeida adotou uma política de conciliação que permitiu sua aproximação com políticos da oposição (os Jaime, Alves de Castro, Caiado, Fleury), mas incomodou os membros do Centro Republicano. Além disso, implementou medidas fiscais e administrativas que desagradaram o grupo que o levou ao poder. Fortalecido, no entanto, por sua nova base de apoio, rompeu em definitivo com os Bulhões em janeiro de 1904 e, em março do mesmo ano, fundou o Partido Republicano Federal de Goiás.

O período de 1904 a 1909 foi dominado pelo grupo xavierista. Todavia, a despeito das realizações e melhorias econômico-financeira e educacional conquistadas no governo de Miguel da Rocha Lima (facção xavierista), algumas inovações apresentadas fugiram às tradições oligárquicas, geraram fissuras no seio do grupo e desembocaram no movimento conhecido como Revolução de 19095.

Com o exílio de Xavier de Almeida subiram ao poder os candidatos do Partido Democrático de Goiás: Leopoldo de Bulhões no Senado, Antônio Ramos Caiado e Marcelo Francisco da Silva na Câmara Federal e Urbano de Gouvêa (cunhado de Leopoldo de Bulhões) na Presidência do Estado. Dessa forma, percebe-se o renascimento do mandonismo bulhônico na política goiana, mas por pouco tempo em função de dissidências no Partido Democrático (Caiado e Jardim) e da vitória de Hermes da Fonseca para presidente da República.

Assim, em 19126, deu-se a ascensão da oligarquia Caiado e, a partir de então, os sucessivos governos estaduais, o legislativo estadual e a representação federal do estado foram compostas sob a tutela da família Caiado, precisamente sob a direção de Antônio Ramos Caiado (Totó Caiado) que, de 1912 a 19307, comandou o Partido Democrático em Goiás (RIBEIRO, 1998).

Cumpre informar que esse retrospecto foi feito no sentido de situar os vínculos políticos dos idealizadores da revista A Informação Goyana com o grupo xavierista. De acordo com Nepomuceno (1998) é possível constatar, a despeito da propalada neutralidade, uma clara simpatia pelo governo João Alves de Castro8, presidente do estado no ano em que a revista foi criada. A autora destaca que tratamento semelhante foi dispensado, também, ao governo Pedro Ludovico Teixeira. Na sua avaliação, a revista se comprometeu com os “bons governantes”, independente dos vínculos político-partidário, numa clara identificação com os postulados positivistas, que apontam o trato das questões políticas sob o manto da “cientificidade”, isenta, portanto, dos valores e paixões dos sujeitos.

Outro aspecto lembrado por Nepomuceno refere-se ao subsídio dado pelo estado à revista, ao longo de 1918 a 1930, sem aparente exigência de contrapartida. Na verdade, algo dessa natureza só seria explicitado em uma edição de outubro de 1930, quando se apresenta que a subvenção seguia-se da “[...] obrigação de remessa de 1 exemplar a cada Secretaria do Estado [...]” (A INFORMAÇÃO GOYANA, 1930).

A Informação Goyana teve, portanto, o papel de defender os interesses de Goiás, difundir as potencialidades econômicas, bem como as dificuldades que impediam o desenvolvimento da região, dentre elas a questão do transporte e das comunicações. Assim, desde sua apresentação inicial esse periódico se propôs a construir um saber sobre Goiás.

Em 1929, após a eleição, a oposição rompeu com o governo federal, visto que o mesmo era apoiado pelo grupo Caiado. Desse modo, a adesão às bandeiras da Aliança Liberal fez parte da “bandeira anti-caiadista” (MACHADO, 1990). A revolução de 1930 em Goiás, segundo Arrais (2007, p. 832-833), “tornar-se-ia uma simples importação do processo desencadeado em nível nacional”. Para o autor, a oposição “[...] poderia ser caracterizada como uma expressão de personalidades descontentes com sua posição dentro do quadro político estadual”.

Arrais (2007, p. 834) assinala que o quadro pós-30 revela, apesar do discurso de modernização e progresso,

[...] a união de antigos elementos de velhas e novas oligarquias (“coronel” Carvalhinho, “coronel” Sampaio, “coronel” Antônio Martins Borges, “coronel” Sebastião Clementino de Faria etc.) – alguns provenientes das antigas fileiras do Partido Democrata, de orientação caiadista.


Nessa linha de raciocínio, complementa:

A grande força renovadora da revolução de 30 parecia não querer grandes mudanças. Talvez algumas transformações menos drásticas. A passagem de Totó Caiado pela cidade de Uberlândia, acompanhado de um destacamento militar, poderia dar a impressão de que aquele chefe político derrotado estaria sendo levado a julgamento e pagaria por seus crimes. [Contudo] A realidade, entretanto seria bastante outra. Apesar de abertos inquéritos policiais para investigar as denúncias contra sua pessoa e a de seus correligionários mais próximos (irmãos, primos etc.) Totó continuou fazendo parte da vida política estadual sem ser importunado – mesmo que relegado a condição de oposição ao novo regime implantado em 1930 (ARRAIS, 2007, p. 835).


Em suma, de 1930 a 1935 tivemos no poder em Goiás, como interventor, Pedro Ludovico Teixeira, opositor dos Caiados. Para Machado (1990) muito da ordem oligárquica se manteve, mas aspectos fundamentais não se repetiram. A autora assinala que foi a figura do homem (Pedro) e não de uma família que catalizou a ação do Estado, não permitindo, pois, se falar em “ludoviquismo em contraposição a caiadismo”(1990, p. 124). Ademais, considera que o governo Ludovico não foi exclusivo de um segmento da classe dominante (grandes proprietários de terra), mas que permitiu a inserção de outros setores, dinamizando, assim, a vida do estado.

A INSTRUÇÃO ELEMENTAR NA REVISTA A INFORMAÇÃO GOIANA (1917-1935)
Inicialmente, procuramos mapear os artigos que tratassem da temática educação9, entre os anos de 1917 e 1935, na revista A Informação Goyana. A quantidade de artigos encontrada foi pequena e apresentavam as mais variadas abordagens e perspectivas.

O percurso de desenvolvimento da investigação baseou-se nos seguintes procedimentos. Primeiramente, foi realizada a leitura de todos os artigos da revista que tratavam direta ou indiretamente, ou mesmo mencionavam algum aspecto em relação à educação, em qualquer nível e modalidade. Em seguida, a partir desse quadro geral, buscamos sintetizar e analisar as principais idéias e posicionamentos dos trabalhos referentes ao tema instrução elementar.

Vale ressaltar que a ênfase maior da revista não foi quanto à instrução. O primeiro artigo abordando essa questão foi publicado em 1917, na edição de novembro. Escrito por Victor de Carvalho Ramos, se encontra na página 72 da revista editada em CD-Rom.

Nesse artigo, o autor, de forma explícita, critica o modo como a educação vinha sendo tratada pelo poder público. Afirma que os ensinos, tanto secundário quanto superior, estavam longe de cumprir seus objetivos e que o ensino primário sob a responsabilidade exclusiva dos estados era um erro, visto que não tinham recursos para desenvolvê-lo e para piorar o fato viviam “[...] absorvidos criminosamente pela politicagem desenfreada [...]” (A INFORMAÇÃO GOYANA, 1917). Destaca, ainda, que a difusão do ensino primário vinha se fazendo, essencialmente com o auxílio da iniciativa privada e dos municípios. Para exemplificar o papel desempenhado pela iniciativa privada cita os vários municípios onde havia bons colégios em funcionamento. Por fim, faz referência às verbas votadas pelo Congresso para a manutenção do ensino público destacando que eram irrisória e insignificante.

O segundo artigo “Goyaz e a Mensagem Presidencial”, publicado na edição de junho de 1918, traz a Mensagem de Alves de Castro ao Congresso Goyano sobre as realizações, situação financeira do estado e perspectivas. No que tange ao ensino primário fala da necessidade do estado assumir a tarefa de sua difusão e manutenção através da criação de grupos escolares, visto que os municípios não tinham condição de custeá-la. Nesse sentido, aponta Minas e São Paulo como exemplo a serem seguidos.

Nesse mesmo número, A. Euzébio publica um artigo com o título “A instrucção em Goyaz”. Nele o autor reclama das publicações tendenciosas que apresentam a instrução goiana em condições precárias. Ressalta a propriedade com que a questão fora tratada, em edição anterior, e destaca que quase todas as cidades em Goiás tinham escolas primárias, fossem elas públicas ou particulares, mantidas pelos municípios ou mesmo pelos grandes fazendeiros. Seu texto é marcado por uma visão positiva da organização escolar, da ordenação do tempo e dos saberes difundidos, mas crítico quanto a ação de certos examinadores, na sua avaliação mais comprometidos com questões políticas que com o desenvolvimento do ensino.

Há que se destacar que a revista A Informação Goyana foi lançada quando a presidência do estado era ocupada por João Alves de Castro, ex-secretário da Instrução no governo Xavier de Almeida. Dessa forma, esperava-se que João Alves de Castro, conhecedor das deficiências da educação no estado, reformulasse o ensino.

Com o artigo “O Ensino Obrigatório em Goiás”, publicado na edição de dezembro de 1918, publiciza-se que Alves de Castro ratificou seu compromisso com a instrução. O texto enaltece a medida adotada por Alves de Castro de declarar o ensino primário obrigatório e ressalta o papel desempenhado por Americano do Brasil, um dos fundadores da revista.

O artigo “Grupo Escolar de Bonfim”, publicado na edição de abril de 1921, revela que o governo não havia colocado em prática os planos relativos ao ensino primário, persistindo, portanto, altos índices de analfabetismo. Registra-se, no entanto, exceções em alguns municípios, assim como o esforço das municipalidades na construção de prédios próprios. Bonfim é apontado como o primeiro município goiano, que a despeito da inexistência de renda em seus cofres, possuía um grupo escolar digno, com 8 salas, sendo 4 do sexo masculino e 4 do sexo feminino, onde o curso se dava em 4 anos.

A edição de agosto e setembro de 1922 traz na primeira página a fotografia do Coronel Eugenio Rodrigues Jardim, presidente do estado, seguida de uma Mensagem Presidencial encaminhada à Assembléia. Quanto à instrução primária se coloca a indeclinável necessidade de sua difusão e aperfeiçoamento. O texto, no entanto, aponta como dificuldades a extensão territorial, a falta de professorado idôneo e a impossibilidade de fiscalização. Registra, também, que na Conferência Interestadual do Ensino Primário de 1921, definiu-se que a União deveria colaborar com os estados e municípios na difusão do ensino primário, bem como criaria escolas normais em todo país.

Nas edições de 1923 uma Mensagem Presidencial de Miguel da Rocha Lima foi publicada por temas, na de julho precisamente, a questão da instrução primária foi novamente abordada. Nela se reconhece o esforço das administrações anteriores, assim como se repetem as dificuldades e problemas a serem superados. Registra-se o funcionamento de 152 escolas, sendo 57 do sexo masculino, 50 do feminino e 49 mistas, com uma freqüência média de 4.250, 3.370 e 2009 alunos.

No governo de Brasil Caiado assistimos, também, o propósito de difusão da instrução primária, pelo menos é o que se vê, no artigo “Instrucção e Viação”, publicado na edição de agosto de 1925. Este artigo assinala que essa administração tem como propósito difundir a instrução e desenvolver a viação. O interessante é que esse texto é a reprodução de matéria publicada originalmente na imprensa oficial O Democrata. Outro detalhe importante é que esse mesmo número traz um fragmento da Mensagem Presidencial do presidente do estado Miguel da Rocha Lima, de maio de 1925. Esta, a exemplo da anterior, apresenta o número de escolas primárias em funcionamento, bem como assinala o esforço da administração na difusão desse nível de ensino.

A edição de outubro de 1926 traz o fragmento da Mensagem de Brasil Caiado referente à instrução primária. Nela se coloca o progresso ininterrupto desse nível de ensino, mas sinaliza que a parte técnica do ensino caminhava lentamente em virtude da não obediência dos professores quanto às orientações pedagógicas10.

Já o artigo “Regulamento do Ensino Normal em Goyaz”, publicado na edição de fevereiro de 1931, traz um pedido do secretário José Honorato da Silva e Souza ao Interventor, para que aprovasse o projeto de regulamentação do Ensino Normal. Como justificativa apontava que a falta de instrução da população era o freio que não deixava Goiás progredir. O secretário acreditava que só seria possível combater o analfabetismo em Goiás no dia que o estado contasse com um professorado numeroso e capacitado.

Outra preocupação do secretário José Honorato era com relação à própria história do Estado. Nesse sentido, ele propôs ao Interventor que decretasse obrigatório, no quadro de disciplinas das escolas, aulas especiais sobre a história de Goiás. No seu entendimento, isso elevaria a moral patriótica do povo goiano, sendo este o primeiro passo dado em defesa do patrimônio histórico do estado. Assim, o secretário apresenta ao senhor Interventor a necessidade do Arquivo Histórico e Geográfico de Goiás.

A publicação de janeiro de 1933 traz o artigo “A Instrucção Publica no Estado de Goyaz”, excertos de um Relatório do Secretário Geral José Honorato. Nele encontramos dados comparando a evolução da educação no estado, no sentido de demonstrar seu progresso no novo regime. Os dados apresentados são o que segue: no ano de 1930 havia cerca de 212 estabelecimentos de ensino, sendo 20 Grupos Escolares, 80 Escolas mistas, 43 escolas do sexo feminino, 48 escolas do sexo masculino, e funcionavam, também, 9 Escolas Normais. Já no ano de 1932, o número de estabelecimentos de ensino saltou de 212 para 306 estabelecimentos, dentre eles estavam: 25 Grupos Escolares, 11 Escolas Complementares, 1 Jardim de Infância, 4 Aulas Avulsas, 54 Escolas do sexo masculino, 51 Escolas do sexo feminino, 140 Escolas mistas, 5 Escolas noturnas, 1 Faculdade de Direito, 1 Escola de Aprendizes Artífices, 11 Escolas Normais, 2 estabelecimentos de ensino secundário (Liceu e Colégio Anchieta).

Dando ênfase a essa questão o artigo traz os seguintes dados referentes ao número de professores e freqüência de alunos:
Quadro - 1

ANO

1929

1931

1932

CORPO

DOCENTE

232

538

746

FREQUÊNCIA DE ALUNOS

12.814

14.397

19.637

Fonte: A Informação Goyana, 1933.
Uma publicação de maio de 1933, sob o título “A Instrucção em Goyaz – uma suggestão do Director do Interior ao Interventor do Estado”, traz a reivindicação de criação de três cinemas educativos no estado: um na capital e os outros em Anápolis e Buriti Alegre. O requerente destaca que os grupos escolares já estavam equipados, que os custos da obra não seriam elevados e os benefícios sociais incomparáveis.

Finalizando, apresentamos a entrevista concedida pelo Deputado José Honorato ao Diário de São Paulo. Esta entrevista foi publicada com título “A Obra que a Revolução está fazendo em Goiáz”, na edição de fevereiro de 1934. Nela, o deputado enfatiza a reconstrução que o interventor operava no campo educacional, principalmente, o ensino primário. Aponta a adaptação do professorado aos modernos métodos pedagógicos, abertura de processos seletivos no provimento das cadeiras, o aperfeiçoamento do sistema de ensino e a fundação de escolas, fato que modificara radicalmente a feição do ensino em Goiás.


Considerações Finais
De modo geral, é possível fazer uma avaliação inicial no sentido de que a revista progressivamente foi produzindo um conhecimento sobre as condições da instrução no estado, seja apresentando informações oficiais, seja trazendo o ponto de vista dos intelectuais que a criaram. Pode-se dizer que, ao longo do período em que foi editada, a revista construiu um quadro geral da situação da instrução primária no estado, por meio dos diagnósticos acerca da necessidade de ampliar o número de escolas, da defesa da escola normal como espaço de qualificação para o magistério e do registro dos parcos recursos públicos para investimentos em educação.

Outro aspecto que merece destaque é a defesa da instrução elementar como elemento estratégico no projeto liberal de sociedade. Como todos os republicanos, os criadores da revista, concebiam a educação escolar como propulsora do projeto civilizador da nação e do encaminhamento da sociedade goiana rumo aos avanços alcançados pelos estados desenvolvidos.

A exemplo do que ocorreu em outros estados o grupo escolar, também, era considerado o modelo de organização da escola. Nesses termos, sua difusão é parte do compromisso dos governos que buscavam a superação da situação de atraso a que Goiás estava submetido.

Silva (2008, p. 48) em trabalho sobre as fotografias das escolas, publicadas na revista A Informação Goyana, assinala que as mesmas “possuíam um caráter de exaltação das características estéticas, o equilíbrio e a racionalidade dos novos prédios públicos. Era mais do que apenas documentar”. Tratava-se de construir uma nova imagem sobre a educação em terras goianas. Desse modo, a partir de 1918, ganhou espaço a construção de prédios específicos para os estabelecimentos de ensino, que gradativamente ocuparam o lugar das antigas escolas, embora tenha prevalecido o modelo de escolas isoladas.

Em suma, por meio da revista é possível perceber a trajetória da educação primária em Goiás, acompanhando inclusive o destaque dispensado ao ensino privado.

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1 Hoje Silvânia-GO.

2 Dados retirados das análises de Nepomuceno (1998).

3 José Leopoldo de Bulhões nasceu na Cidade de Goiás-GO, formou-se em direito, atingiu projeção nacional como político (Deputado, Senador e Ministro da Fazenda).

4 Xavier de Almeida não pertencia à família Bulhões, mas seu ingresso era esperado por meio de laços matrimoniais. Todavia, ele rompeu com essa expectativa casando-se com a filha de um influente coronel do sul do estado.

5 Os Bulhões aproveitaram as cisões no seio do grupo xavierista e se aproximaram de inimigos históricos (Caiado, Jaime) para banir Xavier de Almeida da vida pública.

6 Em 30/3/1912 assumiu o vice-presidente Herculano de Souza Lobo, que ficou no cargo apenas até 24/5/1912, em função de desentendimentos com o Partido Democrata. Desse modo, o período de transição foi cumprido por Joaquim Rufino Ramos Jubé. Em 31/7/1913, Olegário Herculano da Silveira Pinto, presidente eleito, tomou posse, mas também não cumpriu o mandato, sendo substituído provisoriamente, a partir de 6/7/1914, por Salatiel Simões de Lima, que entregou o cargo a Joaquim Rufino Ramos Jubé, presidente da Assembléia Legislativa, em 3/11/1916. Finalmente, em 3/11/1916, o vice-presidente Aprígio José de Souza foi empossado, no entanto, faleceu logo em seguida, e o governo foi novamente entregue a Joaquim Rufino Ramos Jubé, que ficou no poder até a eleição de João Alves de Castro em 1917 (GONÇALVES, 2004, p.40).


7 Toda essa hegemonia não impediu cisões no grupo Caiado. Trata-se da ruptura entre dois troncos da família: Mário Alencastro Caiado e Totó Caiado.


8 Ex-Secretário da Instrução na gestão Xavier de Almeida.

9 Já tínhamos uma idéia prévia do número de artigos a partir da leitura do trabalho de Nepomuceno (1998).

10 As Mensagens Presidenciais de 1927, 1928 e 1929, publicada em julho de 1927, agosto de 1928 e julho de 1929 respectivamente, repetem essas considerações.


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