A inversão de valores da conduta humana a civilização do Espetáculo: Uma radiografia do nosso tempo e da nossa cultura



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A INVERSÃO DE VALORES DA CONDUTA HUMANA

A Civilização do Espetáculo: Uma radiografia do nosso tempo e da nossa cultura
Ueliton Kuster

O objetivo principal desta obra é dizer que Llosa estava certo de suas convicções, pois o autor remete a questão da comodidade que o indivíduo adquiriu no campo da literatura, passando a admitir conceitos prontos, e, a não expressar sua opinião crítica, assim se tornando alfabetizado, porém, menos inteligente, integrando apenas um jogo de quebra cabeças como uma peça, que pode ser movida e descartada.

Colatina-ES, 19 de outubro de 2013.

LLOSA, Mario Vargas. A Civilização do Espetáculo: Uma radiografia do nosso tempo e da nossa cultura. Tradução de Ivone Benedetti, Rio de Janeiro. 1ª ed., ED Objetiva, 2013.

A Civilização do Espetáculo: Uma radiografia do nosso tempo e da nossa cultura”, do jornalista, dramaturgo, crítico literário, e um dos mais importantes escritores da atualidade, ganhador do prêmio Nobel de Literatura em 2010, pela academia Sueca. Mario Vargas Llosa nasceu em Arequipa, no Peru, em 1936, e passou a maior parte da infância na Bolívia. Mudou-se para Paris, onde escreveu várias obras de reconhecimento internacional. Leciona em várias Universidades norte-americanas e européias, estabelecendo-se entre Paris, Madri e Lima até hoje. Publicou várias obras de ficção, textos jornalísticos com os quais demonstra as suas idéias a respeito da conduta individual humana.

De acordo com Llosa, a cultura da “Civilização do espetáculo”, tem passado por várias transformações significativas, mas que em muitas das vezes deixam o ser humano com a capacidade de raciocínio reduzida devido a influências sofridas pela mídia consumista, que utiliza os meios de comunicação, para impor sua filosofia capitalista. A sociedade passou a ler menos, a não criticar certos valores que podem estar errados e o que é pior, a aceitar conceitos prontos a respeito de diversos temas.

A preocupação principal dos meios de comunicação é entreter a sociedade para que a mesma não se preocupe em pensar e criticar, pois assim perderiam o domínio sobre a “massa”. Não se venderiam canais de TV a cabo, revistas de celebridades e pacotes de internet, a fim de estar por dentro do mundo das notícias.

Na verdade esta é uma característica vergonhosa do ser humano, que se preocupa mais com a vida alheia do que com a própria, é isso que Llosa critica em eu ensaio. A sociedade parou de lutar por causas de interesse da coletividade, tanto no campo político, quanto religioso, artístico e literário. Não existem críticos que tem a capacidade de ler uma obra literária e expor sua opinião a respeito, mas o que houve foram formações de técnicos que atuam em área específica, como se fosse uma linha de produção onde cada ser humano apenas sabe fazer uma parte e nunca aprendeu a fazer o todo.

Nunca se conseguiram tantos avanços no campo da ciência, física e química, que levaram ao ponto de utilizar esse conhecimento para o desenvolvimento de curas para doenças, mas ao mesmo tempo se criaram armas poderosas a fim de demonstrar domínio uns sobre outros, de ostentação de poder destrutivo, sem ao menos perceber que esse mal não afetará apenas as nações dominadas, mas um conflito destas proporções causaria prejuízo para toda humanidade, como destacamos:

À extraordinária especialização a que chegaram as ciências é que, sem dúvida, se deve o fato de termos conseguido reunir no mundo atual um arsenal de armas de destruição em massa com o qual poderíamos extinguir várias vezes o planeta em que vivemos e contaminar de morte os espaços adjacentes” (p. 63).

Em outras palavras: quanto mais inteligente o nosso computador, mais burros seremos” (p. 193).

No aspecto religioso o autor nos remete para a questão dos tabus que foram quebrados na sociedade, principalmente no âmbito familiar. O sexo que era um símbolo de machismo, de controle e poder, foi vulgarizado na civilização do espetáculo, passou a ser frio, sem o maior erotismo e amor entre os parceiros, levando, consequentemente a um grande número de separações entre casais, o que nos induz a acreditar que a família perdeu sua estabilidade, sua força, ocasionando sérias magoas entre pais e filhos e estes se tornando indivíduos sem referenciais para se espelharem.

No âmbito do sexo nossa época passou por transformações notáveis, graças à progressiva liberalização dos antigos preconceitos e tabus de caráter religioso que mantinham a vida sexual dentro de um torniquete de proibições” (p. 46).

Em certos países do Oriente Médio o fanatismo religioso sempre foi algo condenado pela mídia sensacionalista, principalmente com ataques realizados a outros países, como forma de “purificação” que o islamismo defende contra aqueles que julgam traidores. Mas a mídia se esquece de que ela própria alimenta esta agitação, e que graças as suas incitações, a civilização do espetáculo molda esses monstros dispostos a perderem a vida para prejudicar aos outros.

Para começar, o grande protagonista da política atual, o terrorista suicida, visceralmente ligado à religião, é um subproduto da versão mais fundamentalista e fanática do islamismo” (p. 143).

De certa forma Llosa nos mostra que em se tratando de política, a mídia é instrumento fundamental para divulgação de propostas partidárias e que candidatos querem a todo custo estar sempre aparecendo, com discursos pomposos, sem a menor preocupação com suas convicções e propostas, pois a memória do povo é fraca e logo cairá no esquecimento depois das eleições, sendo torturados por um mundo de corrupção, que desviam dinheiro público para os bolsos de “charlatães” da política.

O político de nossos dias, se quiser conservar a popularidade, será obrigado a dar atenção primordial ao gesto e à forma, que importam mais que valores, convicções e princípios” (p. 44).

Alem disso o povo associa a figura do político a uma pessoa desonesta sem caráter e sem escrúpulos, mas por sua própria iniciativa não procura melhorar tal situação e se cala, manifestando apenas estatísticas, reflexo de uma sociedade que prefere se esquivar do problema ao encará-lo de frente, com medo de ser absorvida pela sujeira da corrupção, não se dando conta que é pior que o próprio, pois presencia tal situação, sabe da gravidade dos danos e se mantém inerte.

Hoje em dia, em todas as pesquisas sobre política uma maioria significativa de cidadãos opina que se trata de atividade medíocre e suja, que repele os mais honestos e capazes e recruta sobretudo nulidades e malandros que veem como uma maneira rápida de enriquecer” (p.120).

Outra conseqüência de tudo isso é a escassa ou nula reação do grande público aos níveis de corrupção que, tanto nos países desenvolvidos quanto nos chamados em vias de desenvolvimento, seja nas sociedades autoritárias, seja nas democracias, talvez sejam os mais elevados da história” (p. 124).

No que se refere à esfera judicial, assimilando com o direito, várias são as posições da justiça em tentar dirimir conflitos entre os particulares e a mídia sensacionalista, que invade a intimidade e a propriedade em busca de fofocas, notícias de baixo calão, tudo para satisfazer a curiosidade da natureza humana e é claro vender revistas.

Teoricamente, a justiça deveria fixar os limites a partir dos quais uma informação deixa de ser de interesse público e transgride o direito à privacidade dos cidadãos” (p. 122).

Com relação à cultura, das obras de arte, pinturas e músicas que vem sendo degradados por explosões de luzes e sons que não traduzem nenhum conteúdo que possa enriquecer a alma humana, deixando um vácuo que não consegue ser preenchido, e quando sai de moda, um novo “hit”, já está atraindo a atenção, tendo seu declínio posteriormente.

Ela nos condena à mesma receptividade passiva, à atonia moral e à anomia psicológica em que costumam nos deixar as ficções ou os programas de consumo de massas, cujo único propósito é entreter” (p. 202).

Esse vazio é alimentado por publicidade barata, que induz as pessoas ao consumismo por puro prazer sem necessidade, o que a mídia diz que entrou na moda, instiga o individuo a ter aquele objeto, fazendo-o acreditar que se não adquiri-lo será infeliz.

O vazio deixado pelo desaparecimento da crítica possibilitou que, insensivelmente, a publicidade o preenchesse e se transformasse atualmente não só em parte constitutiva da vida cultural, como também em seu vetor determinante” (p.33).



A meu ver, Llosa está certo, as pessoas perderam o senso crítico, os valores morais de família, religião, política, de promover os interesses da coletividade, o ser humano se tornou vazio, sem capacidade de se opor aquilo que acredita estar errado e promover mudanças. De fato o indivíduo ficou “burro”, enquanto que seus computadores entretem e produzem a pleno vapor.

Isso se reflete no campo do Direito, pois se não surgirem novos doutrinadores que passem a estudar e questionar o comportamento humano para forçar na elaboração de legislações cada vez mais equivalentes e justas, seremos reféns da própria insensatez, onde apenas copiaremos o que outros já disseram que devíamos fazer sem ao menos pensar e se perguntar se isto realmente está certo.


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