A invisibilidade do negro no livro didático



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A INVISIBILIDADE DO NEGRO NO LIVRO DIDÁTICO

Adjane dos Santos Ramos (UFAL)

Janynha_jocum@hotmail.com

Laura Jéssica Santos Antunes (UFAL)

laura_jessica@hotmail.com

Amanda Cássia Silva (UFAL)

amandacassia.ufal@hotmail.com
RESUMO: O intuito do presente artigo é expor como a imagem do negro vem sendo colocada no livro didático, onde se pode observar que eles são retratados com posições sociais inferiores ao branco, ignorando a história da cultura africana e sua relação com a cultura brasileira, desta maneira o livro tem contribuído para a ideologia do branqueamento, devido a isto o aluno negro tende a ter um sentimento de auto-rejeição, de baixa auto-estima, gerando dificuldades no processo de aprendizagem. Além de, explicitar a importância de combater o preconceito e discriminações no espaço escolar abordando a Lei nº 10.639/03. Portanto o docente precisa auxiliar na desconstrução da discriminação, fazendo uma analise critica dos textos e das ilustrações que estão estereotipadas nos livros, mas para isto é necessário o fornecimento de material didático que aborde a questão racial e recursos que possam auxiliar os professores para que possam ministrar aulas combatendo o preconceito.

PALAVRAS-CHAVE: Negro. Livro didático. Discriminação.


  1. INTRODUÇÃO

Pode-se observar ao longo da história o estereótipo que o livro didático faz do negro, onde sua imagem aparece marginalizada, como escravo, como empregado, como miserável, ou seja, exercendo uma função inferior ao branco. Vale ressaltar que a cultura africana é muito presente no Brasil, no qual percebemos a influência nos costumes do país como: na dança, nas comidas, na arte, na música, na religião entre outros, por isso o Brasil é um país multicultural, diversificado que contém em sua cultura uma forte influência da cultura africana, porém o livro didático tem ocultado essa realidade, pois o mesmo não trás a origem de nossas riquezas culturais. O referido artigo parte da perspectiva de mostrar que o livro didático deve oferecer e embasar temáticas reflexivas que são fundamentais para a construção da consciência negra, inclusive para o aluno, pois se compreende que ele é formador crucial no reconhecimento do negro, além disso, pretende-se também realizar uma abordagem a partir da obra de Silva (2004), e também da lei 10.639/03 que estabelece a obrigatoriedade do ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, oficiais e particulares, os conteúdos deverão ser ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de Educação Artística e de Literatura e História Brasileiras.
2. NEGAÇÃO DO NEGRO NO LIVRO DIDÁTICO

O livro didático não trata de forma igualitária os sujeitos que são negros, os mesmos são retratados com posições sociais inferiores ao branco, e não dá embasamento para que o aluno possa refletir sobre a importância do negro para a nossa cultura e também para a sociedade brasileira, apresentando o negro de forma desvalorizada.

Silva (2004) em seu livro A discriminação do negro no livro didático, elabora uma pesquisa vasta onde foram analisadas 82 obras de Comunicação e Expressão de Ensino Fundamental, para identificar estereótipos e preconceitos em textos e ilustrações desses livros didáticos, de acordo com suas pesquisas verificou-se que os personagens negros são citados como pertencentes a um passado histórico, não atuantes no presente e identificados como escravos, humildes e colocados em posição inferior, constatou que as discriminações étnico-raciais na literatura infantil brasileira difundem a relação opressor-oprimido, onde o branco é o representante da espécie com atributos tidos como universais, os grupos e multidões são majoritária ou exclusivamente brancos, a mulher negra é a doméstica. O branco evidencia-se pelo desempenho de atividade profissionais mais diversificadas. O negro foi associado a personagens maus, à sujeira, à tragédia, à maldade e o branco representou os santos, os ricos, os heróis. Silva (2004) articula processos de desconstrução da teoria do branqueamento, da democracia racial e dos sistemas educacionais ainda centrados em princípios epistemológicos positivistas, eurocêntricos, etnocêntricos que excluem a imagem e concepção do individuo de origem africana. De acordo com os resultados obtidos mediante as pesquisas que foram feitas por Silva (2004) pode-se observar a omissão da história africana e a forma desvalorizada como o livro didático mostra a imagem do negro, isto se torna um empecilho para que o aluno negro não aceite sua identidade, fazendo com que ele jamais queira identifica-se com quem aparece na história de maneira desumanizada. Por isso cita-se Munanga (2005), à respeito da ideologia do branqueamento do livro didático:

“Ao veicular estereótipos que expandem uma representação negativa do negro e uma representação positiva do branco, o livro didático está expandindo a ideologia do branqueamento, que se alimenta das ideologias, das teorias e estereótipos de inferioridade/superioridade raciais, que se conjugam com a não legitimação pelo Estado, dos processos civilizatórios indígena e africano, entre outros, constituintes da identidade cultural da nação” (MUNANGA, 2005, p.23, Apud Silva).

A escola desempenha uma função primordial na formação crítica dos sujeitos, preparando-os para exercitar as funções política e social na sociedade da qual fazem parte, ou seja, é um local que visa à inclusão do cidadão na sociedade, através da interelação pessoal e da capacitação para atuar no grupo que convive é onde o individuo constitui e decifram suas relações com o mundo interno e externo, pertence à instituição educacional a tarefa de contribuir para a transmissão dos valores éticos e morais que integram a sociedade, desempenhando uma função necessária na formação de indivíduos críticos que são desenvolvidos na instituição de ensino através da práxis mediadas por professores. Podem-se observar estes aspectos na citação de Vieira:
“Há, pois, uma estreita articulação entre as relações de convivência social instituídas pela escola e a cidadania. Ou seja, é no exercício da vivência entre os seres diferentes que se aprendem normas, sem as quais não sobrevive a sociedade. Mas, por certo, não é apenas para a convivência social e para a socialização que existe a escola. Ela surge da necessidade que se tem de transmitir de forma sistematizada o saber acumulado pela humanidade. Na chamada sociedade do conhecimento este papel tende a assumir uma importância sem precedentes. Outro aspecto a assinalar é que a escola é uma instituição datada historicamente. Ou seja, cada sociedade, cada tempo forja um modelo escolar que lhe é próprio”. (VIEIRA, 2001, p.130).

3. O PROFESSOR E SUA IMPORTANCIA NA DESCONSTRUÇÃO DA DISCRIMINAÇÃO

Nesta perspectiva, cabe ao educador fazer o intermédio entre o aluno e o conhecimento acumulado em uma cultura possibilitando que o mesmo forme conhecimentos acerca do mundo físico, social e de si mesmo, desta forma aos professores é imputada a ação de contemplar as diferenças culturais na sua prática pedagogia, deste modo se faz necessário que na formação do docente esteja incluso uma fundamentação específica que dê a ele subsídios indispensáveis para desconstruir os estereótipos e a invisibilidade constatados nos materiais pedagógicos, designadamente nos textos e ilustrações dos livros didáticos. O professor é um importante aliado para rescindir a imagem negativa que grande parte dos livros didáticos apresenta do negro, o docente pode trazer para sala de aula informações que desfaça as idéias que o negro está relacionado com aquilo que não é bom, pode-se trazer atividades que associe a cor negra a algo positivo, como expor nomes de pessoas, que são negras e que são bem sucedidas, para mostrar aos discentes que não há correlação entre a cor e o intelecto, pois nos livros didáticos aparecem estereótipos de que os negros são incapazes, que só faz o mal, que não prestam, que ser negro é feio, entretanto o branco é colocado como: bonito, capaz, e aparece nas melhores posições sociais, sendo médico, general, comerciante entre outras, em virtude disto o individuo de cor negra tem uma forte tendência a não gostar de si mesmo, negando a natureza de sua cor. Pinto afirma as representações negativas que são feitas a respeito do negro:


“Praticamente todos os autores que dedicaram ao estudo do negro chamam a atenção para as imagens e as representações negativas vigentes na nossa sociedade a respeito desse segmento racial. O negro é desvalorizado, tanto do ponto de vista físico, intelectual, cultural, como moral; a cor negra e os traços negróides são considerados antiestéticos; a cultura e os costumes africanos são reputados como primitivos; há uma depreciação da sua inteligência e uma descrença na sua capacidade; coloca-se em dúvida sua probidade moral e ética” (PINTO, 1987, p.19).

Os negros geralmente são apresentados nos livros didáticos como um problema social, pode-se notar na charge abaixo, que o menino negro está representado um marginal e o garoto branco como um alguém que é bem sucedido.




(

SILVA, A. S.; Bertolin, R; Oliveira, J. A. apud COSTA, p. 51)



Devido à falta de uma reflexão sobre as relações étnicas raciais no planejamento escolar observa-se o silêncio escolar no que diz respeito ao racismo, a discriminação racial, que tem contribuído para que seja um problema no ambiente escolar, o preconceito e a discriminação racial contribui para que os alunos negros ocasionem a auto-rejeição, o desenvolvimento de baixa auto-estima, gerando dificuldades no processo de aprendizagem, por conseguinte a evasão escolar, Cavalleiro (2005) mostra algumas situações que o individuo negro enfrenta na escola:
“Dissimulações, apelidos, xingamentos, ironias consolidam a perpetuação de preconceitos e discriminações raciais latentes. Situações nas quais estudantes negros (as) são tratados (as) por seus colegas e/ou professores (as) com termos preconceituosos e discriminatórios sinalizam a reiterada prática de investida contra a humanidade dos primeiros, numa tentativa de transformá-los em animais irracionais ou coisas, não sujeitos sociais: “urubu”, “macaco”, “picolé de asfalto”, “a coisa está preta”, “humor negro”, “carvãozinho”,” filhote de cruz-credo”, etc.” (CAVALLEIRO, 2005, p. 13)

Portanto para mudar esta situação não basta apenas a contribuição dos educadores é fundamental o fornecimento de material didático que aborde a questão racial e recursos que possam auxiliar os professores para que possam ministrar aulas combatendo o preconceito. No dia 9 de janeiro de 2003, foi aprovada a Lei nº 10.639 pelo presidente da Republica, Luiz Inácio Lula da Silva, que torna obrigatório o ensino sobre História e Cultura Africanas e Afro-brasileiras nos estabelecimentos de Educação Básica, oficiais e particulares. A aprovação da lei não é tudo é essencial que os cursos formem docentes suscetíveis para trabalhar em sala de aula o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira e Africana, ou seja, é necessário que os centros acadêmicos preparem professores qualificados para trabalhar a lei, além disso, é necessário o apoio dos governos municipais, estaduais e federal para que desta forma a Lei 10.639/03 seja realmente executada.



4. CONSIDERAÇÕES FINAIS:

A educação brasileira precisa abordar de forma explícita a existência de uma diversidade cultural e étnica que tenha por desígnio abater o preconceito racial, não somente no livro didático, mas também no espaço escolar, desta forma contribuirá para construção de uma sociedade mais justa e igualitária. Se os livros didáticos permanecerem trazendo a imagem do negro de maneira desvalorizada, de modo negativo isto reforçará ainda mais o racismo, já que as ilustrações preconceituosas são repassadas aos alunos por meio do livro didático. Para solucionar este problema é de suma importância que nos currículos das instituições de educação, contemple o ensino da história e da cultura afro-brasileira e africana, os materiais didáticos, ou seja, os livros necessitam apreciar a importância que o povo negro tem para cultura do Brasil, deve-se expor que a cultura do país possui muito da cultura africana, por fim o docente necessita abordar as diferenças culturais, incentivando os seus alunos a respeitar e reconhecer a diversidade cultural de cada sujeito, tendo o objetivo de formar uma sociedade mais democrática e justa.


5. REFERÊNCIAS

CAVALLEIRO, Eliane dos Santos. Educação anti-racista: caminhos abertos pela Lei Federal nº 10.639/03/ Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade. -Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade, 2005.


Lei 10639/03 | Lei no 10.639, de 9 de janeiro de 2003 Disponível em:< http://www.jusbrasil.com.br/legislacao/98883/lei-10639-03>Acesso em: 25 junho 2011.

MUNANGA, Kabengele. Superando o Racismo na escola. 2ºed. Brasília: Ministério da Educação Continuada, Alfabetização e diversidade, 2005. p. 7-75.

PINTO, Regina P. Movimento negro e educação do negro: a ênfase na identidade. Cadernos de Pesquisa. São Paulo, 1993, n. 86, p. 25-38.______. A educação do negro: uma revisão de bibliografia. Cadernos de Pesquisa. São Paulo, 1987, n. 62, p.3-34.

SILVA, Ana Célia. A discriminação do negro no livro didático. 2ºed.- Salvador: EDUFBA, 2004. p. 13-53.

SILVA, A. S.; BERTOLIN, R.; OLIVEIRA, T.A. Tecendo textos. 8ª série. Coleção

Novo Tempo. São Paulo: IBEP,1999.in: COSTA, Cândida Soares da. O negro no livro didático da língua portuguesa: imagens e percepções de alunos e professores. – (Coleção Educação e Relações Racionais, 3) – Cuiabá: UFMT – IE, 2007.


VIEIRA, Sofia Lerche. Escola – função social, gestão e política educacional. In: FERREIRA, NauraSyria Carapeto, AGUIAR, Márcia Ângela (org). Gestão da Educação: impasses, perspectivas e promissos. São Paulo: Cortez, 2001. p. 129 – 145.



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