A lei do Coração (a family of his own)



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A lei do Coração

(A Family of his own)

Evelyn A. Crowe


Jamais uma mulher o atraíra tanto!
Jayme Van der Bollen sempre fizera sucesso com as mulheres, sem nunca assumir compromisso algum. Porém, quando conheceu a arqueóloga Laura Ghant, ficou fascinado. De repente, parecia que faltava algo na vida do convicto solteirão, e a idéia de formar uma família tornou-se atraente. Só que Laura não se impressionou com a inesperada paixão de Jayme e não pretendia aumentar a lista de "troféus" desse inveterado conquistador...




Digitalização: Sílvia

Revisão: Maria Rocha


Querida leitora,
Aqui, na redação, pensamos muito antes de escolher o romance que iria dar início a Super Julia, a nova série de Romances Nova Cultural. E nós fomos unânimes em eleger A Lei do Coração, de Evelyn A Crowe, porque é uma história sensacional, que vai mexer, e muito, com o seu coração.

Lembre-se: a partir de agora, a cada 15 dias, você terá um encontro marcado com a emoção nos romances Super Julia!

Roberto Pellegrino Editor
Evelyn A. Crowe


A LEI DO CORAÇÃO
Copyright para a língua portuguesa: 1997

Tradução: Paula Dias de Andrade

EDITORA NOVA CULTURAL

Círculo do Livro Ltda.

Alameda Ministro Rocha Azevedo, 346 -11º andar

CEP: 01410-901 - São Paulo - Brasil

CÍRCULO DO LIVRO LTDA.

Fotocomposição: Círculo do Livro

Impressão e acabamento: Gráfica Circulo


A FAMILY OF HIS OWN
Copyright © 1996 by Evelyn A. Crowe

Originalmente publicado em 1996 pela Silhouette Books,

divisão da Harlequin Enterprises Limited.


CAPÍTULO 1
Jayme Van der Bollen recostou-se no espaldar da cadeira, inclinando-a para trás. Fechou os olhos e soltou um suspiro de satisfação. Aca­bara de saborear panquecas cobertas de mel, várias tiras de bacon, suco de laranja e três xícaras de café preto. Sem dúvida, um desjejum bem reforçado. Na­quele momento, tudo o que desejava era se entreter numa conversa descontraída com o irmão, a cunhada grávida e seu querido sobrinho.

Sentindo-se preguiçoso como um gato, abriu um dos olhos e sorriu, enquanto observava Ginny levantar-se. Era difícil acreditar que a conhecera havia pouco mais de um ano, na mais absurda das circunstâncias.

Tantas coisas haviam acontecido... O mais impor­tante era que seu irmão fora abençoado ao casar-se com Ginny.

Fitando a cunhada, Jayme concluiu que a amava. Chocava-o descobrir-se interessado por outra pessoa que não ele próprio. Ora, o amor nem sempre era per­meado de sexo. Deus, Matt poderia cortar-lhe a cabeça e expô-la no portão para advertir qualquer outro ho­mem que tivesse tais pensamentos a respeito da bela Ginny. Não, não. Jayme amava Ginny como uma irmã.

A vida era perfeita, pensava ele. Bem... quase...

Arregalando seus brilhantes olhos azuis, Jayme ex­pressou aquele sorriso maquiavélico, no qual Ginny sabia jamais poder confiar.

Não me venha com esse jeito maroto, Jayme — adiantou-se ela, recostando-se na pia e cruzando os braços sobre a enorme barriga.



Os olhos de Jayme arregalaram-se ainda mais. Dog, o cão da casa, sempre ao lado de Ginny, rosnou e mos­trou-lhe os dentes pontiagudos.

Só estava pensando em como você, Matt e Daniel têm sorte.



Ela esperava um daqueles comentários sarcásticos do cunhado; aliás, estava preparada para rebater à altura, mas emocionou-se com o profundo sentimento contido naquela frase. Jayme sentia-se solitário, pon­derou Ginny, e logo as lágrimas surgiram em seus olhos, ofuscando-lhe a visão.

Daniel e Matt pararam de tirar a mesa e se fitaram. Em seguida, desviaram o rosto para não caírem na gargalhada.

Olhe o que você fez tio Jayme! Já lhe disse que as mulheres ficam muito sensíveis quando estão grávidas. Todas as emoções tomam-se mil vezes mais for­tes que o normal. — Daniel tocou o braço da madrasta com gentileza. — Não dê atenção a ele, Ginny. Titio está ficando velho e, por isso, seus hormônios acabam desregulando. Acho que foi tomado pelo impulso de criar seu próprio ninho.



Ginny precisou conter-se para não rir.

Bem, para isso, Jayme precisará de uma mulher.



O rosto de Jayme tornou-se pálido. Sua família in­sistia nesse assunto desde que ele vendera todas as propriedades que possuía, incluindo as lojas de queijo e vinho, para se estabelecer na fazenda que o pai lhe deixara como herança.
A propriedade estava localizada ao lado das vinhas da família, e Jayme tencionava administrá-la. Mas não tinha pretensões de se tomar um grande fazendeiro. Porém foi capaz de impressionar a todos quando trans­formou o velho celeiro numa casa confortável e habitável.

Mulheres... — resmungou, com certo desdém. — Elas não são o meu problema. Sempre existirão várias para escolher quando a hora chegar.



Boquiaberta, Ginny fitou Matt, sentindo-se chocada. Queria perguntar ao cunhado o que ele pensava a res­peito do amor, mas desistiu ao ver o marido meneando a cabeça, tentando adverti-la de que tal pergunta po­deria gerar uma polêmica discussão.

Na verdade, Jayme era um homem lindo. Alto, mus­culoso, de cabelos loiros e maravilhosos olhos azuis. Mas mesmo que não fosse atraente, haveria dúzias de mulheres caindo aos seus pés. O irmão de Matt possuía uma personalidade carismática, adorava rir e se divertir, jamais se mostrava hostil a quem quer que fosse.

E, para completar tantas qualidades, Jayme adorava mulheres. Era fascinado por elas. Na verdade, apre­ciava a companhia feminina. Aliás, companhias femi­ninas nunca lhe faltaram.

Do que preciso mesmo é alguém cheio de músculos para me ajudar a colocar os armários da cozinha — completou, desapontado por Ginny não contestar sua provocação sobre mulheres.



Com freqüência, Jayme e a cunhada costumavam discutir, trocando argumentos afiados a respeito desse assunto. Mas, no estado em que se encontrava e con­siderando que o nascimento do bebê se aproximava, qualquer frase mais significante poderia provocar rios de lágrimas nos doces olhos de Ginny. Afinal, Jayme adorava essa reunião matinal com a família e não pre­tendia polemizar; assim evitaria qualquer atitude que aborrecesse seu querido irmão.

Sorrindo, descontraído, Jayme levantou-se e pegou um dos livros que Daniel trouxera para casa. Seu sobrinho, um gênio de onze anos, estava sendo monitorado na Universidade do Texas, pois dedicava-se a uma pesquisa cujo nome Jayme não sabia sequer pronunciar.

Durante a semana, o garoto morava na universida­de, e nos finais de semana ou férias vinha à casa do pai. Nesse verão, Daniel fora liberado dos estudos, e Jayme aproveitou a oportunidade para passar mais tempo com o sobrinho.

Que livros são esses, Einstein? — Jayme pergun­tou. — Você não vai estudar o verão inteiro, não é? Pensei que fosse me ajudar na fazenda.



Daniel levantou-se, pegou um dos livros sobre a pi­lha e, erguendo-o, declarou:

São esclarecimentos importantes sobre nascimen­to e procriação. Como Ginny resolveu dar à luz aqui em casa, pensei que papai poderia se informar sobre os acontecimentos que envolvem o aparecimento de minha irmã.



Matt empalideceu, e seus olhos escureceram. Meio aflito, passou a mão entre os cabelos pretos.

O médico estará aqui, Daniel. — Mas a curiosi­dade foi maior; então, largou os pratos na pia, pegando um dos livros. — Escolha o nome do bebê. Do primeiro mês ao primeiro ano. Tudo o que os pais precisam saber. Ei, isso é ótimo, filho! Vamos começar a lê-los esta noite.



Como sempre, Jayme sentou-se e ficou observando a conversa dos três. Precisou conter a gargalhada quando Matt começou a ler o título dos livros. Pensou que o irmão estivesse brincando, mas viu a seriedade em seu semblante.

Sentindo um nó na garganta, respirou fundo várias vezes para se controlar. Talvez já fosse hora de retirar-se.

Foi quando percebeu algo diferente no comporta­mento de Daniel. O garoto observava o pai e Ginny como se estivesse aguardando o momento de se ma­nifestar e transmitir alguma notícia. Fascinado com a expressão do menino, Jayme apenas esperou, saben­do que o sobrinho não agüentaria permanecer calado por muito tempo.

Sem dúvida, o menino estava tramando algo bem interessante.

Convidei uma amiga para passar o fim de semana conosco — anunciou Daniel, em tom informal. Como ninguém respondesse, pegou seu prato e levou-o à pia.

Você disse que eu poderia convidar quem eu qui­sesse, pai.

Daniel não conseguiria sustentar o pedido, pensava Jayme. Ele falava rápido demais, revelando que ocul­tava algo sobre aquele convite.

Umedecendo os lábios, Daniel fitou o tio, depois vol­tou-se para o pai, e um leve rubor cobriu-lhe as faces. Ao olhar para Ginny, esforçou-se em parecer triste e desencantado.

O nome dela é Laura, e deve chegar ainda esta manhã. — Foi a melhor manifestação de piedade que pôde apresentar. E, antes de sair, ainda completou:

Vocês vão gostar de Laura. Eu gosto. Quero dizer... De súbito, Daniel correu pelas escadas e refugiou-se em seu quarto.

Fitando os dois homens, Ginny resolveu se pronun­ciar, já que nenhum deles o fez.

Laura? Uma garota?

E o menino só tem onze anos — comentou Jayme, espantado. — Deve ter puxado pelo tio.

Jayme! — repreendeu Matt. — Daniel é jovem demais para se interessar por garotas. Não desse modo.



E ela deve ter a mesma idade que ele; portanto, tam­bém é nova demais.

Não sei — murmurou Ginny, sentando-se. — Você viu como ele sorria? Mas, Matt, você tem razão, Daniel é muito jovem para pensar em garotas e sexo. Não é? — A pergunta foi direcionada a Jayme, o especialista no assunto.

Bem, havia garotas, incluindo as mais velhas, me rodeando quando eu tinha a idade de Daniel. E essa Laura deve ser bem mais velha, pois não sei de nenhuma menina superdotada sendo monitorada na universidade.

Jayme... — resmungou Matt, em tom de advertência.

Você acha mesmo? — Ginny estava atônita. — Não, Ele é muito menino ainda, não é? Quando os garotos começam a...

Nenhum homem é jovem demais quando as mu­lheres mais velhas começam a persegui-lo. A bem da verdade, eu tinha quase a idade de Daniel na primeira vez...

Jayme! Você não tem trabalho a fazer? — Matt encarou o irmão e depois voltou-se para Ginny. — Não se aborreça. Pode não ser bom para o bebê.

Não estou abor...



Mas Matt não a deixou terminar:

Vamos, vou ajudá-la a arrumar o quarto de hós­pedes. Depois terminaremos com a cozinha. — E, olhando o homem à sua frente, acrescentou: — Ou talvez Jayme possa se ocupar dos pratos.

Amanhã é a minha vez de lavar a louça. Além do mais, tenho de ir à cidade buscar os suprimentos que encomendei no armazém. — Jayme sabia quando era hora de se retirar; então, precipitou-se em direção à porta. No caminho, precisou desviar do cachorro, que já rosnava para ele. — Que tal me visitar mais tarde, Matt, e me ajudar com os armários da cozinha?

Tudo bem.


Two Rivers era uma comunidade rural, localizada entre Austin e San Antonio, no Texas. A maioria dos habitantes da pequena cidade era composta de artistas e artesãos que comercializavam seus trabalhos nos mercados das outras cidades vizinhas.

Após a chegada de Ginny, havia pouco mais de um ano, a aparência de Two Rivers mudou de forma con­siderável. Os habitantes, como na maioria das cidades do interior, eram fechados e carrancudos, mas, assim que as conheceram, logo se encantaram com sua pre­sença amiga e compreensiva. Ela, por sua vez, retri­buíra o carinho e o afeto na mesma proporção. Como advogada, a mulher de Matt aconselhara os artesãos a se unirem para obter um preço melhor pelas mer­cadorias que vendiam.

Agora Two Rivers tomava-se uma comunidade em pleno desenvolvimento. As fachadas das casas haviam sido restauradas, dando outro aspecto à avenida prin­cipal. O comércio tomava fôlego, trazendo de volta os jovens que abandonaram a região em busca de melho­res oportunidades de trabalho. Eles alugaram as lojas vazias e montaram o próprio negócio.

A cidade adquiria energia e vida. Jayme tinha de admitir que isso fazia com que se sentisse bem e revigorado.

Estacionou a caminhonete e permaneceu alguns mo­mentos observando os dois senhores idosos, sentados em frente à loja. Desde que era menino, aqueles dois homens discutiam entre si, esperando o dia passar. Do outro lado da rua, Mister mastigava tabaco, en­quanto talhava um pedaço de madeira sobre os joelhos.
Quantas vezes durante a infância Jayme viera à cidade, sentara-se aos pés do amável homem e obser­vara aquelas mãos mágicas esculpirem a madeira? Mister era um grande artista; criava animais com ta­manha perfeição que parecia lhes dar vida.

Sorrindo, Jayme voltou a atenção à srta. Rosemary. Ela devia ter uns noventa anos e ainda trabalhava. Embora não soubesse nada sobre bordados, tricô e laçarotes, Jayme estava certo de que, assim como Mister, a srta. Rosemary era uma grande artista e vendia seu trabalho por preço muito inferior ao valor merecido.

De todas as lembranças da infância, a mais forte e significativa para Jayme fora querer sair de Two Ri­vers. Seu pai jamais se preocupara com o filho, con­siderava-o apenas o resultado de um ato sexual com a mulher. O único interesse dele foram as vinhas, que ele cultivara como uma jóia preciosa. Durante a vida, se recusara a dividir os vinhedos com o primeiro filho, Matt, e muito menos com o segundo.

Resultado: Jayme só desejara se livrar da interfe­rência paterna, conquistando seu espaço com o próprio esforço. Claro, fora mais fácil sonhar do que realizar. Afinal, estava acostumado a ter dinheiro e privilégios. Então, uma vez que saíra da escola, acabou encon­trando as mulheres. Ou elas o encontraram?

Mas Jayme se estabelecera com os investimentos e negócios. Porém, depois de vender tudo, retomara a Two Rivers, aplicando uma fortuna nessa nova aven­tura. Na realidade, jamais se vira tão feliz e satisfeito quanto agora. Nem sequer sentia falta de mulheres, a não ser quando estava sozinho em sua cama à noite.

Abandonando os devaneios, saiu da caminhonete e foi até o armazém.

Annie — chamou ele, ao alcançar a porta da loja.



Lá dentro havia um grupo de senhoras escolhendo te­cidos. — Tanta beleza poderia cegar um homem!

Metade do grupo de oito senhoras sussurrava algo e ria como adolescentes. Apesar de possuírem um ar severo, elas não eram imunes ao charme de Jayme Van der Bollen.

Onde ela está? — perguntou ele, antes de sentir a mão bater-lhe nas costas. — Ei, comporte-se, Annie! Você sabe que não resisto às ruivas.

Por isso não consegue ficar longe de Ginny? — provocou a simpática Annie.

Recostando-se no balcão, Jayme esboçou um dos seus sorrisos mais sedutores, ciente de que vários ouvidos atentos esperavam pela resposta.

Amo Ginny do mesmo modo que todos aqui na cidade. O fato de ela cozinhar bem, apoiar meu irmão, fazer meu sobrinho voltar a sorrir e ser ruiva ajuda muito. Mas, Annie, ninguém mais possui cabelos tão vermelhos quanto os seus. — Jayme baixou o tom de voz para não ser ouvido. — Parecem morangos madu­ros, e eu adoro morangos.



Annie sorriu, parecendo esquecer todos os problemas.

Os oito galões de verniz que você encomendou chegaram. Parece-me uma quantidade exagerada, Jayme.

Vou passar por todo o assoalho de madeira de minha casa.

Como estão as meninas? Elas...



A frase não foi terminada, pois todas correram em direção ao rádio quando soou o alarme. Jayme se di­vertiu com a cena. Jamais imaginara que aquelas se­nhoras poderiam se mover com tanta agilidade.

Enquanto as damas ouviam a mensagem de Foster Schneider, que morava perto da entrada da cidade,

Jayme começou a transportar os galões de verniz para a caminhonete, mantendo-se atento às notícias do rádio.

Havia um ano ou mais, a pequena comunidade ins­talara um sistema de alarme para proteger Ginny. Algum tempo antes disso, a cunhada de Jayme teste­munhara no tribunal, e, como medida de segurança, tivera de entrar no Programa de Proteção a Testemu­nhas do FBI. Ela já deixara de fazer parte desse pro­grama, mas a ameaça permanecia. Portanto, qualquer estranho que chegasse à cidade pela rodovia principal era avistado por Foster ou por Tom Klein, que vivia no outro extremo da estrada. Os dois vigilantes sen­tavam-se no terraço de suas respectivas residências, atentos a qualquer veículo desconhecido. Quando viam algum, anotavam o número da chapa, a cor e a marca do carro, e relatavam a Annie, no armazém. Antes de o automóvel atingir os limites da cidade, as informa­ções eram passadas ao xerife, e este se encarregava de verificar a segurança.

No momento em que carregava o último galão, Jay­me ouviu Annie chamá-lo.

Qual é o problema?

O xerife sempre atende ao chamado do rádio, mas me parece que ele não se encontra próximo ao aparelho. Se o carro parar na cidade, você pode veri­ficar do que se trata essa inesperada visita?

Claro. — Jayme saiu do armazém e sentou-se ao lado de Mister. Porém não precisou esperar muito. — Parece que ainda existem pessoas vivendo nos anos setenta. Há muito tempo não via essa marca de carro.



Estreitando os olhos, tentou enxergar quantas pes­soas havia naquele veículo, mas o sol da manhã refletia no vidro da frente, dificultando-lhe a visão.

Bem devagar, o carro aproximou-se e estacionou em frente ao armazém de Annie. Os dois senhores que discutiam na frente da loja pareciam temerosos com a inesperada visita. Quando Jayme fez menção de ir até o visitante, outros dois homens já atravessavam a rua em sua direção. Com um aceno de mão, ele os avisou de que se encarregaria do assunto.

Mesmo antes de ver o motorista, Jayme já notara que se tratava de uma mulher. Caminhando ao lado do carro, manteve a atenção nos lábios rosados e no delicado queixo, refletidos no espelho retrovisor. Ao aproximar-se da maçaneta da porta, esta se abriu de súbito e jogou-o para trás.

Caído no asfalto, Jayme gargalhava diante do ocor­rido, e ainda continuava a rir quando o salto de uma bota pisou em seu calcanhar. Num ato reflexo, se afas­tou no momento em que a outra bota pisava no chão. De repente, suas pernas se enroscaram no outro par de pernas e, segundos depois, sentiu o pequeno corpo caindo sobre o dele.

Laura Ghant nunca se sentira tão envergonhada em sua vida. Tinha batido num homem com a porta do carro, jogando-o ao chão, e pisado sobre o infeliz. Como se não bastasse todo esse constrangimento, ao se esforçar para socorrê-lo, acabou perdendo o equilí­brio e caindo sobre ele.

Desculpe-me...



O boné de beisebol caiu-lhe sobre os olhos, obstruindo-lhe a visão, mas Laura pôde sentir o tremor do corpo masculino sob o dela.

Por favor, perdoe-me. — Quando tentou se le­vantar, apoiando-se no tórax, ouviu um gemido de dor. — Desculpe-me. Se não estiver machucado e puder se mover, poderia virar-se para a direita? Assim conse­guirei tirar o meu braço.



Mas, quando Jayme se moveu, foi na direção con­trária. O braço direito de Laura continuou embaixo do corpo musculoso, que ainda tremia. Teria ele que­brado algum osso?

As pernas de ambos estavam tão embaralhadas que ela não podia mexer os joelhos. Temia ter provocado um ferimento grave; então, resolveu apalpar o corpo dele.

Não faça isso de novo. Você pode arruinar minha reputação.



Desesperada, Laura tentava levantar a aba do boné para enxergar a vítima.

Se você parar de se debater, moça, vou poder afastar minhas pernas das suas.



Aquele homem estava rindo? Sim, ele parecia estar rindo!

Se você se virar para a esquerda, vou poder soltar meu braço.



Na verdade, a risada era descontraída e agradável. Sendo assim, ele não devia estar machucado. Sem se preocupar com arranhões, Laura puxou o próprio bra­ço. Depois apoiou-se no tórax e ergueu-se.

Ei! — protestou Jayme. — Cuidado! É melhor tomar cuidado com essas mãos, senhorita.

Então, por que ficou aí deitado como um saco de batatas? — Laura tentava parecer séria, mas era difícil conter o riso. — Você podia ter me ajudado.

Após piscar algumas vezes, Jayme pôde ver a es­trutura daquele corpo pequeno e delicado. As coxas bem torneadas sob a calça jeans tinham curvas sinuo­sas até os quadris. A frente única de algodão azul revelava, de leve, as formas arredondadas dos seios.

Nossa... — murmurou ele, antes de completar: — Não sou um cavalo. Então, que tal parar de me cutucar com essas botas?

Escute, seu brutamontes, você quase quebrou o meu braço!

Tenho planos para esse corpo, sabe? Por isso, é melhor tratá-lo com carinho.



O modo como Laura cerrou os lábios mostrava a vontade quase incontrolável de rir. Ela retirou o boné, e o sorriso de Jayme se alargou. Laura não fazia o seu tipo, porém era muito bonita. Os cabelos curtos e castanhos estavam espetados em todas as direções. O rosto revelava um misto de vergonha e divertimento. E os olhos, de um verde profundo, fitavam-no com raiva.

Se você não tem... — As palavras lhe faltaram no momento em que reparou no homem sobre o qual estava sentada.



Durante milésimos de segundo, Laura fitou-o sem poder acreditar no que via. Aquele homem não era um estranho. Lembranças vieram-lhe à mente de for­ma arrasadora. De repente, sentiu o rosto aquecer, seguido de um súbito frio na espinha. Não queria tocá-lo, mas também não podia ficar ali sentada sobre ele.

Então, levantou-se, ignorando os gemidos de protes­to de Jayme ao se apoiar nele mais uma vez. Tentou se virar o mais rápido possível para não ter de enca­rá-lo, perdendo assim todas as forças.
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