A leitura e a biblioteca: alguns aspectos da história da biblioteca municipal de são carlos



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A LEITURA E A BIBLIOTECA: ALGUNS ASPECTOS DA HISTÓRIA DA BIBLIOTECA MUNICIPAL DE SÃO CARLOS

Tatiana Lopes Salciotto - Faculdade de Ciências e Letras – Unesp – Campus de Araraquara
Uma questão que vem nos preocupando a um certo tempo é a leitura. Ela está envolta por diversos aspectos que interferem no modo de concebê-la. Desse modo, não podemos deixar de enfatizar que a leitura é antes de tudo um ato político. Tanto para a conscientização quanto para a alienação, assim como a educação apresenta esta faceta.

As formas como a leitura é retratada e os locais de sua realização revelam as escolhas e as suas funções em determinadas épocas. Por isso, consideramos importante a delimitação do objeto de estudo que permita reflexões sobre a leitura.

Neste momento, a focalização da pesquisa recai sobre a Biblioteca Municipal de São Carlos “Amadeu Amaral” (BMS). Mais especificamente, a criação, leis e resoluções sobre a fundação da biblioteca.

Para uma análise desse tipo, consideramos importante como fonte de pesquisa alguns jornais da cidade, principalmente, em um primeiro momento, o jornal “Correio de São Carlos” e as representações apresentadas para seus leitores sobre a referida biblioteca, entre os anos de 1942 (fundação da biblioteca) até 1953.

Durante esses onze anos, de fundação e estruturação, a biblioteca passou por alguns problemas, principalmente para a real efetivação de seus trabalhos.

Algumas leis foram decretadas, mas nesse início, a instituição, apesar de ser considerada importante, como ressaltaremos no decorrer deste trabalho, não obteve as condições materiais (prédio para funcionamento, livros, estantes, profissionais, etc.) para atender adequadamente as necessidades culturais e educacionais da população.

Mas, antes de tudo, é preciso ressaltar melhor o aparato teórico utilizado e o modo como percebemos a leitura; para a partir deste ponto, relacionar os textos jornalísticos com a visão deles sobre a leitura e o papel da biblioteca.

Para isso, não podemos deixar de lado as reflexões imprescindíveis de Paulo Freire sobre o assunto. Ele vê a leitura como um possível modo de conscientização da realidade social e histórica. Porém, ela também pode ser usada como mecanismo de alienação e mecanização, como já colocamos.

Essa dualidade parece ser a principal característica da biblioteca estudada, pois constatamos que nos textos do jornal há unanimidade em considerar a leitura como um direito cultural e intelectual para todos.

A perspectiva de democratização reflete a busca pelo ideal republicano no Brasil desde o final do século XIX. E mais tarde, na década de 1930 e 1940, há maior ênfase na democratização da educação devido ao governo populista de Getúlio Vargas. Lembremos que a fundação da BMS foi em 1942.

Essa realidade histórica possibilita pensarmos em um tipo específico de democratização, de formação do cidadão, mas essa postura não garante alterações na ordem social e na esfera do poder.

Essa postura “democrática” não garante os resultados esperados nas propostas de Paulo Freire sobre leitura e conseqüentemente educação e liberdade.

Esse autor percebe a educação como uma:

(...) Atitude dialogal à qual os coordenadores devem converter-se para que façam realmente educação e não “domesticação”. Exatamente porque, sendo o diálogo uma relação eu-tu, é necessariamente uma relação de dois sujeitos. Toda vez que se converta o “tu” desta relação em mero objeto, se terá pervertido o diálogo e já não se estará educando, mas deformando.” (1981, p.115)

O jornal durante o período escolhido, que abrange o início da formação da BMS, apresentou onze reportagens que estavam relacionadas diretamente com a questão da biblioteca pesquisada. Número relativamente pequeno, o que parece revelar a fragmentação da instituição na cidade, durante esse período.

Mas no mesmo jornal, nos deparamos com outras notícias sobre leitura; entre comentários, sugestões e críticas sobre a BMS e também sobre outras instituições da cidade preocupadas com a questão da leitura e a sua democratização.Como exemplo de iniciativas, podemos citar a Biblioteca dos Alfaiates, da escola Normal, criação da biblioteca infantil, biblioteca circulante, no presídio, entre outras realizações culturais ou apenas tentativas.

Porém, como acrescenta Paulo Freire, muito mais importante é o como essas instituições trabalhariam a leitura.

No dia dez de outubro de 1943 aparece um texto no jornal solicitando ao prefeito maior empenho. A leitura é vista como algo essencial e positivo para a cidade.

“(...) a Biblioteca e Museu de São Carlos constituem um grande acontecimento de muitos maiores conseqüências para o futuro da cidade do que em geral se supõe. É o meio mais eficiente de cultura de um povo.”

E na primeira página do dia 13/02/1944 na Crônica da Semana, Florêncio de Paiva retoma o mesmo assunto, acrescentando que:

“Talvez pareça a algumas pessoas de espírito mais prático que o momento exige monopólio das vistas oficiais para as questões de ordem material; nós, porém, que somos irredutíveis quanto à prioridade do espírito sobre a vida física, não nos cansaremos de pedir melhor guarida para aqueles diletos filhos da inteligência: os livros (...)”.

Refletindo um pouco sobre o trecho acima, novamente notamos a relevância da biblioteca para a cidade. Mas, se pensarmos na seguinte consideração de Freire (1982):


“A insistência na quantidade de leituras sem o devido adentramento nos textos a ser compreendidos, e não mecanicamente memorizados, revela uma visão mágica da palavra escrita. Visão que urge ser superada.”(p.19).
E também a de que:
“(...) eu não leio para formar-me; eu me formo também lendo... Mas, por outro lado, eu não cerro as portas na leitura da palavra porque eu acho que ela não se dá, em termos profundos, sem a leitura do mundo”(1982, p.4)
Percebemos que as considerações sobre a leitura tomam um rumo mais aprofundado e de crítica, do que a proposta no jornal. Pois, nesse meio jornalístico, enfatizam os livros, mas não o modo como eles deverão ser utilizados e estudados.

A leitura deve ser algo construtivo, reflexivo e dialógico e não algo pronto e mecanizado.

O leitor, para Freire, participa e constrói o conhecimento. E não é aquele que precisa buscar na biblioteca, neste caso, conhecimentos e reflexões prontas e consideradas corretas, devendo ser seguidas cegamente.

Freire preocupa-se com a formação do homem integralmente e não em sua mecanização. Devemos ser sujeitos e não objetos perante o mundo; e a leitura é mais uma maneira, importante, de se praticar esse modo de ver o mundo.

As considerações anteriormente colocadas têm maior sentido quando lemos a seguinte afirmação de Freire:

“(...) é impossível um estudo sério se o que estuda se põe em face do texto como se estivesse magnetizado pela palavra do autor, à qual emprestasse uma força mágica. Se se comporta passivamente,“domesticando”, procurando apenas memorizar as afirmações do autor”(1984, p.10)


O próximo ponto que gostaríamos de discutir neste texto é sobre a relação da BMS com a Prefeitura, a classe alta da cidade e os políticos em geral.

Percebemos, na pesquisa do jornal Correio de São Carlos, alguns textos exigindo maior empenho dos políticos e também outros textos que demonstram as atividades feitas em prol da biblioteca. Atividades apenas administrativas, como aprovação de leis.

Em 1944, no dia 20 de julho, com o título “Constituída a Comissão Municipal de Biblioteca”, notamos a preocupação, que podemos considerar como apenas burocrática, da administração municipal em realmente institucionalizar a biblioteca. Já que noticiava a assinatura de uma portaria para a nomeação de pessoas para coordenar a BMS.

Alguns nomes considerados importantes aparecem, como de professores e arquivistas. Mas, percebemos que esse tipo de postura revela o valor elitista dado à biblioteca e não o de democratização e igualdade social.

Quando há esse tipo de escolha, vemos também a ideologia que permeia a instituição. Nesse caso, postura contrária à de Paulo Freire.

É interessante notarmos, a preocupação do autor sobre a posição das bibliotecas para a educação popular, e, portanto, para a diminuição das desigualdades sociais.

(...) a biblioteca popular, como centro cultural e não como um depósito silencioso de livros, é vista como fator fundamental para o aperfeiçoamento e a intensificação de uma forma correta de ler o texto em relação com o contexto. Daí a necessidade que tem uma biblioteca popular centrada nesta linha de estimular a criação de horas de trabalho em grupo, em que se façam verdadeiros seminários de leitura, ora buscando o adentramento crítico no texto, procurando apreender a sua significação mais profunda, ora propondo aos leitores uma experiência estética, de que a linguagem popular é intensamente rica. (1982, p.38)
Não pensamos que a leitura e a biblioteca sejam o modo mais eficaz de diminuição da pobreza, já que vemos uma implicação mais geral, como a econômica e a política; mas, palavras como conscientização, reflexão e leitura devem caminhar juntas e serem um mecanismo de luta política.

Freire (1982, p.4), nos lembra novamente que “temos de ler mesmo; temos de ler seriamente, mas LER, isto é, temos de nos adentrar nos textos, compreendendo-os na sua relação dialética com os seus contextos e o nosso contexto.”

As reflexões do autor nos permitem pensar a BMS como uma instituição que pode tomar caminhos diferentes e não ser apenas uma instituição burocrática.
O analfabeto, principalmente, o que vive nas grandes cidades, sabe, mais do que ninguém, qual a importância de saber ler e escrever, para a sua vida como um todo. No entanto, não podemos alimentar a ilusão de que o fato de saber ler e escrever, por si só, vá contribuir para alterar as condições de moradia, comida e mesmo de trabalho. (Paulo Freire)
Bibliografia:
Associação de Leitura do Brsil (ALB). Disponível em: http://www.alb.com.br Acesso em 16 junho de 2003.
FREIRE, Paulo. Ação cultural para a liberdade: e outros escritos. 7.ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984.

________ . Educação como prática de liberdade. 13.ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981.

________. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. São Paulo: Cortez, 1982. (Polêmicas do nosso tempo, 4)

________. Da leitura do mundo à leitura da palavra. In: Leitura: teoria & prática. Campinas, ano 1, n. zero, p.3-9, 1982.




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