A liçÃo da mocidade reta



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A LIÇÃO DA MOCIDADE RETA”: UM OLHAR SOBRE O PROJETO EDUCACIONAL DO ESTADO NOVO (BIOGRAFIAS DE GETÚLIO VARGAS PARA A JUVENTUDE)

Ana Paula da Silva

UERJ / Programa de Pós Graduação em Educação

ana_pla6@hotmail.com

Palavras-chave: Educação – Juventude – Estado Novo

“As vidas verdadeiramente grandes são lógicas e conseqüentes.”

(Gustavo Capanema)
As palavras de Capanema, em texto de apresentação da obra Perfil do Estudante Getúlio Vargas, revelam a atmosfera simbólica que envolve as produções sobre a vida de Getúlio Vargas em foco neste trabalho. Visando aprofundar a reflexão acerca das mesmas, faz-se necessário, inicialmente, destacar alguns aspectos referentes à escrita biográfica.

A escrita biográfica e o processo de construção do ‘mito Vargas’


Segundo Gomes (2004)1, o ato de escrever sobre a própria vida ou sobre a vida dos outros, apesar de praticado há tempos, ganha contornos específicos no mundo moderno ocidental, grosso modo, a partir do século XVIII, com a emergência da figura do cidadão moderno, dotado de direitos civis e políticos (estes últimos, a partir do século XIX). O individualismo que consagra as sociedades modernas através de uma espécie de “contrato político-social que reconhece todos os indivíduos como livres e iguais”, acaba por fixar uma lógica coletiva que não se sobrepõe ao indivíduo. A singularidade de sua identidade individual confere ao sujeito o título de ‘moderno’, afirmando seu lugar na sociedade na medida em que o distingue dos demais, ao mesmo tempo em que o insere como parte constitutiva do todo social.

Se considerarmos, então, esta justaposição entre indivíduo e sociedade2, esta última pode ser considerada moderna apenas na medida em que os sujeitos que a compõem assim o forem. Desta forma, a consagração do lugar do indivíduo na sociedade confere à vida individual uma importância que a torna, então, “matéria digna de ser narrada como uma história”3. Assim, ainda segundo a autora, “é esse fundamento que está na base do que se considera a escrita biográfica e autobiográfica”.

O boom de publicações de caráter biográfico e autobiográfico verificado por Gomes na passagem do século XX para o século XXI e o crescente interesse por este tipo de escrita, pôde ser observado também durante os anos 1930 e 1940, conforme constatado em estudo de Márcia Gonçalves4. É possível perceber que ao longo das décadas de 1930 e 1940, segundo Gonçalves, o gênero biografia figura entre um dos mais publicados pelas principais editoras do país, o que indica a boa aceitação do gênero pelo público leitor. Durante o Estado Novo, as publicações dedicadas aos chamados estudos brasileiros estiveram entre os principais produtos de diversas editoras, que apostaram no crescimento do mercado de livros num momento em que a formação de uma cultura letrada apresentava-se como um dos signos da modernidade, ao mesmo tempo em houve forte investimento num discurso de fortalecimento da identidade nacional. Ainda segundo a autora, foi possível constatar que os textos biográficos figuraram entre os mais lançados no campo dos estudos brasileiros. As inúmeras biografias e textos sobre a vida de ‘homens ilustres’, como políticos e escritores brasileiros, constituíram o que a autora considerou uma “epidemia biográfica”, especialmente entre os anos de 1930 e 1940. O gênero, como mostra Gonçalves, esteve no bojo dos debates da crítica literária da época, sendo posto em questão o lugar do texto biográfico, enquanto mais próximo do romance/da literatura ou da história, ou, ainda, uma mescla destes, que seria considerada a base de uma biografia renovada.

Não pretendemos aqui aprofundar-nos nos diferentes argumentos que embasaram estes debates. Contudo, a discussão aponta para um aspecto que nos interessa particularmente: a característica aproximação entre o gênero biográfico e a historiografia, a relação estabelecida, neste período, entre a narrativa biográfica e a narrativa historiográfica. Inseridas no campo dos estudos brasileiros, quer dizer, no campo de publicações voltadas para a formação de uma cultura letrada nacional, as biografias foram entendidas, por alguns autores, como maneira de interpretar a história e o próprio país. Dessa forma, as chamadas biografias históricas são consideradas um campo fértil na medida em que poderiam apresentar a vida de personagens da história, de ‘homens ilustres’, como meio para formação e fortalecimento do sentimento de patriotismo e da identidade nacional. Segundo Gonçalves,

“Mais do que em qualquer outro tipo de narrativa, o biográfico era, por excelência, espaço de figuração das ações dos homens no mundo e, como tal, propício à criação de modelos mais ou menos exemplares no que remetia à edificação, ou à possibilidade de crítica, das imagens da nação” (Gonçalves, op. cit., p. 121)

A produção da coleção Biblioteca Pátria, da qual faz parte a biografia Getúlio Vargas para crianças, é um indício de que estas preocupações estiveram voltadas também para o público infanto-juvenil. Nesse sentido, esta e as demais publicações analisadas no presente trabalho devem ser pensadas no interior destes debates. Se considerarmos que as biografias foram concebidas como instrumentos de conhecimento histórico, é possível dizer que um dos objetivos destas publicações foi afirmar a figura de Vargas como um ‘vulto da história’, um dos ‘heróis nacionais’, como se referem os próprios textos. Em geral, estes termos são utilizados post-mortem, como uma espécie de homenagem a personalidades consideradas importantes na história de determinado grupo social. O fato de Getúlio Vargas, naquele momento, encontrar-se vivo, a meu ver, faz das biografias aqui analisadas um elo de aproximação entre a figura do presidente e o público leitor, configurando, assim, um dos elementos presentes no esforço de produção do chamado “mito Vargas”.

A PRODUÇÃO DO ‘MITO VARGAS’
Retomando as palavras de Capanema, é possível mensurar o caráter apologético do qual se revestiram as biografias de Vargas aqui analisadas. As narrativas encaminham-se na direção de situar a trajetória de Vargas entre as de personagens históricos como Tiradentes (como menciona Capanema na apresentação de Perfil do Estudante Getúlio Vargas) ou D. Pedro II, Anchieta, Duque de Caxias (como deixa ver a composição da coleção da qual faz parte Getúlio Vargas para crianças). A natureza das biografias orienta-se na direção de todo um conjunto de representações organizado em torno da figura de Vargas, com o objetivo principal de fortalecer sua imagem e do Estado Novo, e legitimar a figura do presidente como líder inconteste do governo.

O mito, apesar das diferentes conotações do termo com sentido negativo de ilusão, fantasia ou inverdade; constitui-se em narrativa repleta de significação que faz parte do imaginário social, do sistema simbólico produzido pela coletividade. No caso particular deste trabalho, não pretendemos adentrar na seara da verdade ou inverdade do mito, mas o que nos interessa reter é a eficácia simbólica deste mito, quer dizer, pensar o mito a partir do que este possa representar para a sociedade a qual pertence. Segundo apontado por Maria Eunice Maciel5, “um mito não é necessariamente uma história falsa ou inventada; é, isso sim, uma história que se torna significativa” (Portelli, 1996, apud Maciel, 1998, p. 85). Desta forma, o que nos interessa é analisar, em dada medida, o mito Vargas pela perspectiva do sentido e significado que possa ter assumido no imaginário social naquele período, mais especificamente no imaginário infanto-juvenil.

Acompanhando a abordagem de Roger Chartier (1990)6, que considera a produção de representações do mundo social como prática cultural, torna-se possível estabelecer tais representações como componentes da realidade social. Conforme afirma Loiva Otero Félix (1998)7, “não podemos considerar que real e imaginário sejam contrapostos ou antagônicos, ao contrário, são unidos simbioticamente na medida em que o real pressupõe o imaginário”. Quer dizer, afirmar que o mito situa-se no campo do imaginário não significa excluí-lo da realidade, ao contrário, a existência do mito implica um processo de construção e produção de representações acerca daquilo que se pretende mitificar. Em nosso caso particular, quer dizer que a produção do mito Vargas demandou do governo do Estado Novo uma série de providências encaminhadas nesse sentido. A produção de impressos como livros, folhetos e cartilhas, a utilização de meios de comunicação como instrumentos de propaganda, a organização de grandiosas cerimônias cívicas, são exemplos deste conjunto de medidas, no qual estão incluídas as biografias aqui analisadas.

Partindo do pressuposto que, para ser bem sucedido, o discurso das representações produzidas precisa encontrar eco no imaginário dos indivíduos aos quais se dirige, isto é, precisa estar adequado às significações do sujeito; creio não ser apropriado pensar a produção do mito como uma forma de dominação de um determinado grupo sobre outro. Ao contrário, acredito que a relação que se pretendeu estabelecer entre Vargas e a população infanto-juvenil esteve mais ancorada numa ideia de aliança e confiança que de obediência ou subserviência.

Nas biografias de Vargas utilizadas neste trabalho, a produção do mito se dá, em grande medida, a partir da exaltação de supostas virtudes e qualidades do presidente, que viriam se manifestando, segundo as publicações, desde sua infância. Segundo Ricardo Benzaquen de Araujo (1986)8, em texto que examina aspectos relacionados à produção do mito Vargas, “este mito implica, resumidamente, a atribuição de qualidades excepcionais a Getúlio, qualidades que dariam sentido, direção e legitimidade ao seu governo.” (Araujo, op. cit., p. 104).

Exemplo disto é a extrema dedicação aos estudos que, segundo contam as biografias, Vargas apresentaria desde sua entrada no ensino primário até o fim da faculdade de Direito. Falar em “feitiçaria dos algarismos” (História de um Menino de São Borja, p. 17), por exemplo, mais do que apontar para uma habilidade com os estudos matemáticos (comumente considerados mais complexos que os de outras áreas por boa parte dos estudantes), indica mesmo o domínio de tais estudos; quer dizer, algo que ultrapassa uma simples facilidade em lidar com este campo, o que poderia ser característico de qualquer aluno. O modo como as biografias tratam do episódio de desligamento de Vargas da Escola Preparatória e de Tática do Rio Pardo é outro indício que vai ao encontro dos apontamentos de Araujo (op. cit). Segundo Perfil do Estudante Getúlio Vargas, a atitude de Vargas, “repassada de altivez e lealdade” (p. 13), teria sido puro ato de solidariedade para com os colegas, já que o jovem não teria participado do fato que teria gerado a punição. Em Uma biografia para gente nova, da mesma forma, Getúlio figuraria entre os desligados simplesmente “para não quebrar o compromisso puramente virtual de solidariedade em fatos a que fora estranho”. O autor completa afirmando que não haveria “atitude de mais desinteressada correção” (p. 15).

Interessante perceber que, tratando do mesmo espisódio, Getúlio Vargas para crianças e História de um Menino de São Borja realizam uma abordagem diferente. Segundo estas duas publicações, Getúlio não teria sido desligado da escola, mas sim ‘promovido’. De acordo com Getúlio Vargas para crianças, na escola o jovem “cursa duas séries com distinção, sendo classificado no 25º Batalhão de Infantaria, com sede em Porto Alegre” (p. 17). Indo ainda além nos detalhes, em História de um Menino de São Borja Tia Olga afirma aos sobrinhos que “o Diretor da Escola chamou-o, apertou-lhe as mãos e comunicou-lhe que, em vista das belas notas e dos belos resultados que alcançara, ia ser transferido para Porto Alegre – onde serviria no 25º Batalhão de Infantaria” (p. 25)9. De todo modo, seja pelo sentimento de solidariedade para com os colegas ou pelo notável desempenho escolar, ambas as abordagens caminham no sentido de pôr em relevo para os jovens aquelas ‘qualidades excepcionais’ que caracterizariam a personalidade de Getúlio.

Na faculdade, segundo mostram as biografias, Vargas continuaria apresentando o mesmo comportamento cultivado desde a infância:

“Estudioso e metódico, dotado de clara inteligência aquisitiva, que lhe permitia imediata assimilação intelectual, ainda quando se tratava de assuntos os mais áridos e complexos, Getúlio Vargas passou a ser sem demora um dos primeiros alunos da turma” (Perfil do Estudante Getúlio Vargas, p. 29).

Esta passagem de Perfil do Estudante Getúlio Vargas ilustra o tom desmesurado nos elogios à Vargas. O ‘feiticeiro dos algarismos’ havia crescido, mas em sua personalidade permaneceriam os sinais da excepcionalidade. Segundo o trecho citado, Vargas era mais que inteligente, ‘era dotado de clara inteligência aquisitiva’; não só assimilava determinados assuntos, mas o fazia de forma ‘imediata’, mesmo aqueles ‘mais áridos e complexos’; não era somente um bom aluno, era ‘um dos primeiros’. Tratando de um universo próximo da realidade dos jovens (o cotidiano de um estudante), a produção do mito Vargas explora sua eficácia simbólica na medida em que opera com argumentos capazes de atribuir-lhe sentido no imaginário do público leitor.

Voltando sua reflexão para a origem do carisma e formação da aura de líder máximo de Júlio de Castilhos na construção da República no estado do Rio Grande do Sul, Félix (op. cit.) aponta três itens que considera como predominantes em qualquer processo de mitificação. São eles: a) a conjunção de um momento histórico específico; b) o dom profético da palavra; e c) a questão da identidade. Reconhecendo as especificidades da abordagem de Félix e considerando as aproximações com a que estamos procurando estabelecer neste trabalho, peço aqui licença para utilizar tais categorias analíticas a fim de prosseguir nossas reflexões, na medida em que estas nos ajudam a pensar o processo de produção do mito Vargas. Conforme afirma a autora,

“O processo de heroicização e mitificação tem seu momento oportuno especialmente em situações de crise histórica conjuntural. Nos momentos de ruptura do ritmo histórico da continuidade e da normalidade, o grupo social tende a necessitar de um novo tutor, de um novo guia.” (Félix, op. cit., p. 143)

A princípio, penso ser oportuno atentar para o termo ‘ruptura’. O governo Vargas foi caracterizado pelo forte investimento na propaganda política, que se caracterizou, em grande medida, pela tentativa de desqualificar, especialmente, o período da Primeira República, afim de legitimar o governo pós-1930. Desta forma, penso que a ideia de ‘ruptura’ está mais ligada à produção do governo a nível de discurso, sendo necessário, portanto, atentar para o risco de naturalização do termo neste caso. Nas biografias aqui analisadas, fica claro que os períodos de ‘crise’ no qual Vargas teria exercido o papel de ‘guia’ do grupo social, seriam: quando assume o governo do Rio Grande do Sul, o do Movimento de 1930 e o da instauração do Estado Novo. As biografias tendem a caracterizar estes períodos como momentos de intensa instabilidade social.

Apesar de a abordagem de Perfil do Estudante Getulio Vargas se encerrar no período de conclusão do curso de Direito, o autor, André Carrazzoni, aponta para uma atmosfera de turbulência que considera envolver a política riograndense, caracterizada principalmente pelas disputas entre os partidos Republicano e Federalista. A criação do Bloco Acadêmico Castilhista, que teria nascido “das conversações entre os estudantes no quarto do bacharelando Getúlio Vargas” (Perfil do Estudante Getúlio Vargas, p. 48), aponta para uma espécie de iniciação de Getúlio no ambiente das disputas partidárias de seu estado. Segundo História de um Menino de São Borja, “as lutas políticas nesse Estado [Rio Grande do Sul] ferviam de um modo assustador” (p. 46). Nessa mesma perspectiva, Georgino Avelino em Uma biografia para gente nova afirma que “as oposições, em Estado como o Rio Grande do Sul, constituíam ameaças constantes à ordem interna” (p. 23). Nota-se, nas citações a seguir, que caracterizar desta forma o momento que antecede a chegada de Vargas no governo do estado é estratégia utilizada nas narrativas para, em seguida, indicar que sua liderança viria ser responsável pela transformação do ambiente turbulento em ambiente ordenado, pacificado, tal qual sinaliza a abordagem de Félix:

“Começou seu governo pela pacificação política do Rio Grande” (Getúlio Vargas para crianças, p. 30).

“O Presidente Getúlio Vargas viu que não lhe seria possível governar nesse ambiente de agitação dos espíritos. E tratou de promover a pacificação política do Estado – o que conseguiu” (História de um Menino de São Borja, p. 46)

“A missão do homem de govêrno foi, de começo, construir união sólida entre os riograndenses” (Uma biografia para gente nova, p. 22)

O momento que antecede o movimento de 1930, da mesma forma, é marcado nas biografias pelo clima de “desorganização política que imperava em todo o território nacional” (Getúlio Vargas para crianças, p. 34). A metáfora da represa que arrebenta utilizada em História de um menino de São Borja e a expressão ‘ebulição social’ em Uma biografia para gente nova, ilustram esta ideia de agitação e instabilidade pela qual se pretendeu caracterizar o período. Novamente, a figura de Vargas aparece como a de ‘guia’ do grupo, aquele que seria responsável por “dar remédio à desordem” (Getúlio Vargas para crianças, p. 34).

“Só por feliz intervenção de coincidências a que poderíamos chamar providenciais, é que, em alguns casos, uma revolução encontra condutores que a interpretem e dirijam a fins verdadeiramente renovadores e construtivos” (Uma biografia para gente nova, p. 25).

Neste momento de crise, como sugerem as biografias, a condução de Getúlio Vargas é apontada como fator primordial para o ‘êxito’ do movimento, sendo concentrada em sua figura a responsabilidade pelo ‘restabelecimento’ da ordem social.

O período entre 1930 e 1937 é tratado nas biografias de modo a exaltar as realizações de Vargas a frente do governo, demonstrando seus esforços voltados para o que seria a ‘reorganização’ do país. Contudo, segundo o encaminhamento das narrativas, a instabilidade na área política é o que caracteriza o período (entre 1934 a 1937, especialmente) como uma conjuntura de ‘crise’.

“Os agitadores, os mercenários a soldo de ideais estranhos, os sem-pátria e os aproveitadores de todas as situações começaram a perturbar o ambiente da pátria com os movimentos desagregadores e dissolventes.” (Getúlio Vargas para crianças, p. 78)

Por esta passagem de Getúlio Vargas para crianças pode-se notar a conotação negativa conferida pelas biografias aos movimentos de oposição ao governo. Desta forma, o discurso veiculado por estas publicações é o de que estes movimentos acabam por configurar um momento de crise na medida em que constituiriam uma ameaça à política que vinha sendo estabelecida por Vargas. Neste momento, em meio a uma “crise que caminhava para consequências extremas” (Uma biografia para gente nova, p. 29), a instituição do Estado Novo é apontada pelas biografias como “uma reação contra a desordem” (Getúlio Vargas para crianças, p. 82). Nova conjuntura de crise e, mais uma vez, Getúlio Vargas aparece como ‘tutor’ do grupo social, neste caso, segundo as biografias, responsável por garantir a manutenção da tranquilidade nacional.

Outro item considerado por Félix no processo de mitificação é o que denomina ‘dom profético da palavra’. Segundo a autora, o domínio do verbo possibilita nos imaginários sociais a ‘sacralização’ de seu possuidor. Nas biografias aqui analisadas, é possível perceber a expressão desta categoria através do destaque à suposta habilidade de Vargas apresentada no trato com as palavras, desde o tempo do colégio. Esta habilidade estaria representada pela figura do orador. Segundo Perfil do estudante Getúlio Vargas ainda no ensino secundário, na Escola Brasileira, Getúlio Vargas teria sido eleito orador do Clube Literário Brasileiro, criado pelos alunos daquela instituição. No papel de orador, Vargas seria responsável por realizar discursos ligados às atividades do clube, o que, segundo a publicação, “teria sido oficialmente a sua primeira manifestação oratória” (Perfil do Estudante Getúlio Vargas, p. 20). Seguindo a perspectiva da exaltação de supostas qualidades e virtudes no processo de produção do mito, as biografias vêm carregadas de elogios a esta que seria mais uma habilidade excepcional apresentada pelo jovem Vargas:

“O jovem orador possuía sóbria gesticulação, falava pausadamente e à retórica rendia o apreço suficiente para justificar o gosto próprio da idade pelo ornato da frase” (Perfil do Estudante Getúlio Vargas, p. 20)

Ao longo do curso de Direito também teria desempenhado esta ‘função’, realizando discursos em movimentos estudantis como “porta-voz da mocidade” (Perfil do Estudante Getúlio Vargas, p. 38), além de ter sido orador de sua turma na cerimônia de formatura, conforme informam as biografias.

“Sua palavra era fácil, sem atavios, mas impregnada de vivo conhecimento das questões, do exato têrmo das realidades” (Uma biografia para gente nova, p. 21)

Referindo-se ao período da atuação de Vargas como deputado, a passagem supracitada de Uma biografia para gente nova resume, de certa forma, a tentativa expressa nas biografias de apontar sua suposta destreza no trato com as palavras como um sinal de sua ‘excepcionalidade’.

A questão da identidade, terceiro item considerado na abordagem de Félix, está relacionada a uma identificação do herói/mito com a história do grupo social ao qual pertence. Segundo a autora,

“A identidade pressupõe um elo com a história passada e com a memória do grupo na qual o novo chefe político, ungido à condição de guia, de profeta, de vidente, desempenha o papel de iluminador da história futura, heroicizado e mitifcado. [...] Há uma identificação do personagem com a história nacional ou regional, com a história do que considera o ‘seu povo’” (Félix, op. cit., p. 144)

O período da infância de Vargas, tal qual abordado pelas biografias, enfatiza a imagem de seu pai, Manuel Vargas, como figura importante na cidade de São Borja e cujo prestígio devia-se, principalmente, à sua atuação como militar, principalmente pela participação na guerra do Paraguai.

“O General Manuel do Nascimento Vargas, estancieiro, exemplo de bravura e de desinteresse, quando passava pelas ruas da cidade natal era apontado a dedo pelos pais aos filhos:

- Aquele dali é o general Vargas, que esteve na guerra do Paraguai.” (História de um Menino de São Borja, p. 9)

Esse destaque conferido à figura do pai remete à ideia de tradição da família Vargas na história local, o que configura, a meu ver, um primeiro aspecto de identificação de Vargas à ‘história regional’, como considera Félix. A vivência no ambiente do campo aparece como elemento de aproximação entre a figura de Vargas e a vida local. Segundo indicam as biografias, Getúlio teria crescido “saltando e correndo pelos campos, andando a cavalo, conversando com os peões...” (Getúlio Vargas para crianças, p. 10). A utilização da imagem do menino montado em um cavalo, em meio ao ambiente rural, parece ter a intenção de reforçar no imaginário do leitor a ideia de completa integração de Vargas àquele ambiente e, consequentemente, uma forte identificação com aquele grupo social. Interessante perceber como esta questão da identidade é explorada em História de um Menino de São Borja. Ao longo de toda a narrativa, Tia Olga refere-se a Vargas, na maioria das vezes, como “o menino de São Borja”, mesmo nas passagens referentes a acontecimentos de sua fase adulta. O que parece-me estar implícito é a tentativa de identificar a imagem de Vargas à sua terra natal e ao ‘seu povo’, ou seja, um outro modo de forjar/reforçar essa relação de aproximação e identificação.

É possível perceber nas biografias que a preocupação com esta questão da identidade vai para além da ligação entre Vargas e a cidade de São Borja, compreendendo também sua relação com o estado do Rio Grande do Sul. O esforço no delineamento da relação com seu estado está ancorado na imagem de um Rio Grande do Sul como cenário de tradição na história do país, especialmente com relação à instauração do então recente regime republicano.

“O Rio Grande do Sul é um dos focos de grandeza e heroísmo da história brasileira. [...] Seus herois são audaciosos e nada temem.” (Getúlio Vargas para crianças, p. 7)

“O Rio Grande do Sul foi, a certos respeitos, o teatro preferido dessas dissidências em torno do regime” (Uma biografia para gente nova, p. 15)

A figura do gaúcho, desta forma, é associada à ideia de bravura, à imagem do herói. Tal bravura estaria relacionada a um forte sentimento de patriotismo, o que torna o vínculo de Getúlio Vargas com a terra natal, em larga escala, um vínculo com a própria nação:

“O Menino de São Borja era mais que Menino de São Borja e mais que gaúcho: logo que se sentiu gente já era brasileiro da gema.” (História de um Menino de São Borja, p. 12)

Creio que a sensibilização do grupo social para esta identidade construída possibilitaria, então, a legitimação de uma imagem mitificada de Vargas, vinculada simbolicamente ao herói e protetor, responsável pela unidade do grupo.

Como mencionado anteriormente, a escrita biográfica no período do Estado Novo foi compreendida, entre outras concepções, como uma das vertentes da escrita historiográfica. No caso particular das biografias de Vargas aqui analisadas, foi possível perceber que, antes disso, o texto biográfico serviu como pano de fundo para o enaltecimento da imagem do presidente diante do público leitor. Quanto a isso, vale lembrar que não nos interessa, nesta ocasião, questionar a verossimilhança das narrativas, mas sim refletir sobre a forma como estas foram encaminhadas e os efeitos que possam ter produzido. Retomando, mais uma vez, as palavras de Capanema citadas inicialmente e analisando o conteúdo das produções, fica claro que a trajetória de vida de Vargas, tal qual abordada nas publicações, é delineada a partir da seleção de determinados acontecimentos significativos, do ponto de vista de quem as produziu, visando a conformação de uma história composta de fatos coerentes e orientados, como aponta o texto de Capanema. Esta concepção acerca do gênero biográfico desconsidera, de certo modo, a real fragmentação e descontinuidade das experiências do indivíduo, na medida em que pressupõe uma ilusória ideia de linearidade e coerência dos fatos ao longo da vida.

Segundo adverte Pierre Bourdieu10,

“Produzir uma história de vida, tratar a vida como uma história, isto é, como o relato coerente de uma sequência de acontecimentos com significado e direção, talvez seja conformar-se com uma ilusão retórica...” (Bourdieu, 2005, p. 185)

Considerando os apontamentos de Bourdieu, creio, contudo, que as biografias de Vargas foram produzidas justamente com a intencionalidade de situar sua trajetória de vida como um projeto bem sucedido. A noção de projeto, a meu ver, configura uma outra categoria de análise acerca do processo de mitificação. Neste caso, estaria ancorada numa ideia de predestinação, bastante explorada pelas narrativas. Como também aponta Bourdieu, a expressão da ideia de projeto na escrita biográfica estaria implícita na utilização de expressões como “‘já’, ‘desde então’, ‘desde pequeno’, etc” (Bourdieu, op. cit., p. 184). Nessa perspectiva, a exaltação de supostas virtudes de Vargas, especialmente no período da infância e da juventude, deixa ver a intenção de apontá-las como ‘sinais’ que justificariam as posições que viria ocupar no futuro. A seleção de determinados fatos e a forma como estes são explorados nas biografias configuram estratégia para reforçar a ideia do mito/herói em torno da figura de Getúlio, na medida em que agregam a este a carga simbólica do que seria uma predestinação para ocupar aquele lugar no grupo social.

“Pode o homem ser descontínuo, num mundo também descontínuo: em meio às mutações de cenários, às flutuações de idéias e aos acidentes da própria evolução individual, ele obedecerá a uma secreta ou invisível linha de constância. Esta linha parte da criança, acusa-se na juventude e prolonga-se através da existência, a despeito das curvas imprevistas do itinerário social.” (Perfil do Estudante Getúlio Vargas, p. 10)

Apesar de considerar os desvios e descontinuidades na ‘evolução individual’, Carrazzoni aponta para o ufanismo característico de boa parte da produção biográfica do período do Estado Novo, especialmente das publicações destinadas a contar sobre a vida de Getúlio Vargas. A ‘linha de constância’ a qual se refere nada mais é que uma indicação da ideia de que, desde a infância, as atitudes e experiências de Vargas estariam concorrendo para o que seria um futuro pré-determinado. Referindo-se a período de sua atuação como advogado em São Borja, Alfredo Barroso em Getúlio Vargas para crianças aponta para a mesma questão:

“No interior do Estado, advogando, Getulio Vargas estuda sempre e cada vez mais a mentalidade de seu povo, suas aspirações e necessidades. Sabe que, quanto melhor conhecer o povo, mais fácil lhe será a tarefa de, no futuro, saber governá-lo.” (Getúlio Vargas para crianças, p. 22)

A narrativa se constrói de forma a situar no imaginário do leitor as experiências do jovem Vargas como uma espécie de preparação (quase que consciente!) para sua vivência futura. Nesse sentido, a ideia de predestinação reforça o processo de construção do mito, possibilitando a legitimação da figura de Vargas como tutor do grupo social, na medida em que estaria ‘predestinado’ a assumir este lugar.



REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
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AVELINO, Georgino. Uma biografia para gente nova. Departamento de Imprensa e Propaganda, 1941.

BARROSO, Alfredo. Getúlio Vargas para crianças. Volume especial, Biblioteca Pátria. Grande Consórcio Suplementos Nacionais – (Publicação – DIP - 1942)
BOURDIEU, Pierre. A ilusão biográfica. In: Usos & abusos da história oral. Janaína Amado e Marieta de Moraes Ferreira, coordenadoras. 6ª Ed. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2005.

CARRAZZONI, André. Perfil do Estudante Getúlio Vargas. Rio de Janeiro: Editora A Noite, 1943.



CHARTIER, Roger. Por uma sociologia histórica das práticas culturais. In: A história cultural: entre práticas e representações. São Paulo: Bértrand, Brasil, 1990.
ELIAS, Norbert. A individualização no Processo Social. In: _________. A sociedade dos indivíduos. Organizado por Michael Schröter, tradução Vera Ribeira. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 1994.
FÉLIX, Loiva Otero; ELMIR, Cláudio P. (orgs). Mitos e heróis: construção de imaginários. Porto Alegre: Ed. Universidade/UFRGS, 1998.
GOMES, Angela de Castro. Escrita de si, escrita da história: a título de prólogo. In: ________; (org.) Escrita de si, escrita da história. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2004.
GONÇALVES, Márcia de Almeida. Em terreno movediço: biografia e história na obra de Octávio Tarquínio de Sousa. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2009.
TIA OLGA. História de um menino de São Borja. Rio de Janeiro: Departamento Nacional de Propaganda, 1939.



1 Cf. Gomes, Angela de Castro. Escrita de si, escrita da história: a título de prólogo. In: ________; (org.) Escrita de si, escrita da história. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2004.

2 Sobre o tema, interessante ver texto de Norbert Elias. Em sua abordagem, o autor faz uma crítica à ideia de oposição entre indivíduo e sociedade, afirmando a impossibilidade de existência de entidades como um “indivíduo extra-social” ou uma “sociedade extra-individual”. Cf. ELIAS, Norbert. A individualização no Processo Social. In: _________. A sociedade dos indivíduos. Organizado por Michael Schröter, tradução Vera Ribeira. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 1994.

3 Cf. Gomes, op. cit., p. 12.

4 Gonçalves, Márcia de Almeida. Em terreno movediço: biografia e história na obra de Octávio Tarquínio de Sousa. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2009.

5 Maciel, Maria Eunice. Procurando o imaginário social: apontamentos para uma discussão. In: Mitos e heróis: construção de imaginários / Organizado por Loiva Otero Félix e Cláudio P. Elmir. – Porto Alegre: Ed. Universidade/UFRGS, 1998.

6 Chartier, Roger. Por uma sociologia histórica das práticas culturais. In: A história cultural: entre práticas e representações. São Paulo: Bértrand, Brasil, 1990.

7 Félix, Loiva Otero. A fabricação do carisma: a construção mítico-heróica na memória republicana gaúcha. In: Mitos e heróis: construção de imaginários / Organizado por Loiva Otero Félix e Cláudio P. Elmir. – Porto Alegre: Ed. Universidade/UFRGS, 1998.

8 Araujo, Ricardo Benzaquen de. O Dono da casa: Notas sobre a imagem do poder no “mito Vargas”. Religião e Sociedade, 13/2, julho 1986.

9 Penso que esta diferença na abordagem do mesmo tema deva-se ao público mais específico ao qual se dirigem as publicações. Acredito que, pela linguagem elaborada e utilização de termos mais complexos, e também pela ausência de ilustrações (no caso de Uma biografia para gente nova há somente a ilustração da capa), Perfil do Estudante Getúlio Vargas e Uma biografia para gente nova destinam-se a um público de adolescentes e jovens já em idade um pouco mais avançada. A utilização de notas de rodapé em Perfil do Estudante Getúlio Vargas e a escrita contínua de Uma biografia para gente nova são também indícios da destinação a um público, espera-se, mais ‘maduro’. Já História de um Menino de São Borja e Getúlio Vargas para crianças, pela considerável quantidade de ilustrações (e teor das mesmas) e por se caracterizarem narrativas menos densas, revestidas de um caráter mais lúdico, a meu ver, aproximam-se de um público mais infantil.

10 Bourdieu, Pierre. A ilusão biográfica. In: Usos & abusos da história oral. Janaína Amado e Marieta de Moraes Ferreira, coordenadoras. 6ª Ed. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2005.


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