A literatura barroca no Brasil



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A Literatura barroca no Brasil

Camila Hallack Loures

Raquel Ruff Peixoto*

Introdução

Esse trabalho tem por objetivo apresentar aspectos gerais da literatura barroca principalmente no Brasil. Cabe ressaltar que o mesmo se propõe a mostrar o momento histórico o qual o barroco fez parte, enchendo o período entre o século XVI e o século XVIII em todos os povos do ocidente. É importante observar que não se pretende esgotar o assunto, nem mesmo em relação à literatura barroca brasileira, visto que a bibliografia é muito extensa. No entanto, o interesse nesse trabalho está em mostrar o barroco não só como um estilo artístico e literário, mas também, um estilo que perdura em outras épocas.

Este trabalho pretende enveredar pela literatura barroca no Brasil, no sentido de mostrar heranças e limites cronológicos, as principais características e seus principais representantes da época, bem como a repercussão do estilo literário barroco utilizado por demais artistas do mundo contemporâneo.

Para cumprir esses objetivos, o método utilizado foi de uma pesquisa bibliográfica sobre o conceito da arte barroca literária brasileira junto à utilização de diferentes livros poéticos.

A arquitetura deste trabalho está assim organizada: no primeiro capítulo, situam-se fragmentos da história do estilo barroco no ocidente, incluindo-se a questão do barroco no Brasil e sua origem; no segundo capítulo, discute-se as heranças e limites cronológicos da literatura barroca; no terceiro capítulo, verifica-se as principais características da linguagem barroca; no quarto capítulo, são observados os principais representantes da literatura barroca no Brasil; no quinto capítulo, comenta-se da utilização do estilo literário barroco na atualidade. Na conclusão, apresentam-se propostas de intervenção e possíveis possibilidades de continuidade do estilo barroco no mundo contemporâneo, não somente na literatura, mas em suas várias outras representações artísticas, mostrando que o barroco pode ser visto como um estilo de vida.


1 - O momento histórico do barroco e sua origem

1.1 - O momento histórico do Barroco

O barroco é um estilo que se manifestou em várias formas de arte na América Latina e na Europa Ocidental, da metade do século XVI ao final do século XVII.

Há uma atmosfera cultural comum naquela época graças às circunstâncias históricas. Quaisquer que sejam essas diferenças nacionais ou individuais na expressão do fenômeno barroco há entre as variadas manifestações, atributos comuns que fazem dele um fenômeno universal durante o século XVII.

Comparado aos outros dois movimentos que integram a Era Clássica, o Classicismo e o Arcadismo, o barroco representa um desvio da orientação clássica, já que procurava, ao mesmo tempo, unir a experiência renascentista ao reavivamento da fé cristã medieval. Punha em risco, assim, certos princípios muito prezados pela tradição clássica, como o predomínio da razão e o equilíbrio.

Assim, o barroco tenta conciliar duas concepções de mundo opostas: a medieval e a renascentista.

O período histórico no qual o movimento barroco se desenvolve apresenta características de um contexto de autoritarismo político, com o absolutismo, que foi o sistema político baseado na centralização absoluta do poder nas mãos do rei. Vive-se um momento de expansão, com a revolução comercial, cuja política econômica, o Mercantilismo, se baseava no metalismo, na balança comercial favorável e no acúmulo de capitais. Ocorre também, a luta de classes onde a burguesia, por deter forte poder econômico, pressionava politicamente a nobreza e o Rei, a fim de participar das decisões políticas do Estado Absolutista. Concomitantemente, a arte barroca eclode desse estado de turbulência, mudanças radicais e crises religiosas.

O barroco na arte marcou um momento de crise espiritual da sociedade européia. O homem do século XVII era dividido em duas mentalidades, duas formas diferentes de ver o mundo. Por isso o estilo barroco é um dos mais complexos que podem ser estudados na literatura brasileira.

O homem barroco vivia diante desse dilema entre o céu e a terra, o pecado e a salvação, a mística e a sensualidade, a santidade e o liberalismo, só havendo uma saída: conciliar os pólos opostos. Sua alma ficou assim, uma alma agônica, polarizada entre opostos, paradoxal. Toda literatura barroca testemunha esse estado de alma.

Convivendo com o sensualismo e os prazeres materiais trazidos pelo Renascimento, os valores espirituais tão fortes na Idade Média voltaram a exercer forte influência sobre a mentalidade da época. Uma nova onda de religiosidade foi trazida pela Contra-reforma e pela fundação da companhia de Jesus. O que decorreu daí foram naturalmente sentimentos contraditórios, já que o homem estava dividido entre valores opostos. E a arte barroca, que exprime essa contradição, igualmente oscila entre o clássico e pagão e o medieval e cristão, apresentando-se como uma arte indisciplinada.

Assim, valores como o humanismo, o gosto pelas coisas terrenas, as satisfações mundanas e carnais, trazidos pelo renascimento, que era caracterizado pelo racionalismo, equilíbrio e clareza e linearidade dos contornos, fundem-se a valores espirituais trazidos pela contra-reforma, com idéias medievais, teocêntricas e subjetiva. Nasce então uma forma de viver conflituosa expressa na arte barroca.

Politicamente, o homem da época sentia-se oprimido economicamente, contudo, sentia-se livre para enriquecer com a possibilidade de ascensão social.

No plano espiritual, igualmente se verificaram contradições: ao lado das conquistas e dos valores do renascimento e do mercantilismo - que possibilitou a aquisição de bens e prazeres materiais - a contra-reforma procurava restaurar a fé cristã medieval e estimular a vida e os valores espirituais.

Por esse conjunto de razões é que na linguagem barroca, tanto na forma quanto no conteúdo, se verifica uma rejeição constante na visão ordenada das coisas. Os temas são aqueles que refletem os estados de tensão da alma humana, tais como vida e morte, matéria e espírito, amor platônico e amor carnal, pecado e o perdão. A construção da linguagem barroca acentua e amplia o sentido trágico desses temas, ao fazer o uso de uma linguagem de difícil acesso, rebuscada, cheias de inversões e de figuras de linguagem. Outros temas que são facilmente encontrados são o sobrenatural, castigos, misticismo e arrependimento.

A época da Contra-reforma, e do barroco é principalmente marcado por uma profunda dualidade. Por um lado, é o desdobramento do humanismo clássico e do Renascimento, com seus apelos ao racionalismo, ao prazer, ao “carpe diem” (do latim, “aproveite o dia”). Por outro lado, o homem é pressionado pela igreja católica e pelo protestantismo, mas vigoroso a um regresso ao teocentrismo medieval, à postura estóica, a renuncia aos prazeres, à mortificação da carne e à observância plena do “amar a Deus sobre todas as coisas”, princípio capitular do teocentrismo medieval.

O homem do século XVII foi compelido a conciliar o Teocentrismo Medieval e o Antropocentrismo Clássico. Valemo-nos da apreciação do Prof. Afrânio Coutinho:
O homem do barroco é um saudoso da religiosidade medieval e, ao mesmo tempo, um seduzido pela solicitações terrenas e valores mundanos, amor, dinheiro, luxo, posição que a renascença e o humanismo puseram em relevo. Desse dualismo nasceu a arte barroca.1
É notório que, se a literatura é a expressão do homem e de seu tempo, o estilo barroco haveria de refletir as angústias, as incertezas e o desespero daqueles que viveram essa época. Fruto da síntese de duas mentalidades, a medieval e a renascentista, o homem do século XVII era um ser contraditório, tal qual a arte pela qual se expressou.

1.2 - A origem da palavra barroco:

A origem da palavra barroco tem suscitado muitas divergências. Dentre as várias posições, a mais aceita é de que a palavra se teria originado do vocabulário espanhol barrueco, vindo do português arcaico e usado pelos joalheiros desde o século XVI, para designar um tipo de “pérola irregular” e de formação defeituosa, aliás, até hoje conhecida por essa mesma denominação. Depois a etimologia da palavra barroco teria sua origem na escolástica medieval, sob a forma baroco, designando um tipo de raciocínio sem sentido, falso.

Os críticos e historiadores de arte definiam como uma estética de decadência, uma característica subsequente ao Renascimento. Era em suma, uma forma degenerada da arte renascentista, expressa pela perda do senso de clareza.

A posição mais recente, que se abre com os estudos de Heinrich Wolfflin (1864-1945)2, tende a ver no barroco uma constante universal na arte, expressiva dos períodos marcados por graves conflitos espirituais, e cujo a essência é a irregularidade, o retorcimento, o exagero e Heinrch Wolfflin logrou formular em termos definitivos a reinterpretação do estilo barroco em arte. Depois dele a arte ficou revalidada, não mais concebendo-se como uma forma degenerada, mas sim, um período peculiar da história da cultura, com valor estético e significados próprios.


2 - Beranças do barroco no Brasil e limites cronológicos da literatura barroca brasileira

2.1 - Heranças do Barroco no Brasil:

O barroco foi um movimento estético criado na Espanha no século XVI, quando Portugal estava sob o poder Espanhol e contra ele reagia. A luta era política pela restauração, mas naturalmente se estendia a tudo o que fosse de cunho espanhol, como o barroco, de espírito contrário à tradição artística lusa.

Enquanto isso, os brasileiros nada tinham contra os espanhóis, por isso os escritores daqueles séculos absorverem o espírito espanhol: Anchieta, Gregório de Matos, Padre Antônio Vieira, Botelho de Oliveira e outros.

No Brasil do século XVIII, a adoção do estilo barroco vincula-se certamente com o descobrimento de minas e a conseqüente riqueza de algumas camadas da população. O barroco brasileiro coincidiu com o nascimento da consciência nacional, ao mesmo tempo que a favoreceu. Contando com o apoio dos protetores das artes - paróquias, confrarias e associações religiosas - tornou-se a primeira possibilidade de expressão artística do país.

A Bahia é considerada essencialmente Barroca. O barroco brasileiro, criado pelos jesuítas da Contra-reforma no século XVI, é o espírito da conciliação e da fusão dos contrários. A Bahia também nasceu nesse século e adquiriu assim, todo o espírito barroco, fundiu brancos, negros, fez uma religião mista, a vida social, a comida, a música, uma linguagem.

O barroco tem a vantagem de ser um termo único, além de traduzir, por si próprio as características estéticas e estilísticas que a época encerra. De maneira geral, o barroco é um estilo identificado com uma ideologia, que busca traduzir um conteúdo espiritual.


2.2 - Limites cronológicos da literatura barroca no Brasil:
Fica difícil estabelecer limites para uma escola literária, já que as idéias vão mudando com o tempo e as gerações, gradual e lentamente. Mas, didaticamente, considera-se que o barroco surgiu no Brasil com a obra Prosopopéia de 1601, poema épico de autoria do português, radicado no Brasil, Bento Teixeira Pinto.3 Sendo esta, a primeira obra dita literária, escrita entre nós.

O limite final para essa escola, foi o ano de 1768, com a publicação de Obras Poéticas, de Cláudio Manuel da Costa, que no entanto, seria um poeta árcade. Porém, como o barroco no Brasil só foi mesmo reconhecido e praticado em seu final, entre 1720 e 1750, quando foram fundadas várias academias literárias4, desenvolveu-se uma espécie de barroco tardio nas artes plásticas, o que resultou na construção de igrejas de estilo barroco durante todo o século XVIII. As obras de Aleijadinho são o grande exemplo disso.


3 - Principais características da linguagem barroca

As obras de arte têm como ponto de partida a utilização da realidade concreta do mundo. Os barrocos valorizam a percepção sensorial da realidade, empregam freqüentemente palavras que designam cores (visão), perfumes (olfato), sensações táteis (tato), ou seja, buscam refletir a desarmonia do mundo barroco. Essa apreensão da realidade pelos sentidos expressa-se sobretudo através do emprego de muitas figuras de estilo: antíteses, paradoxos, hipérboles, anáforas, hipérbatos, anadiploses, metáforas, perífrases e outras.

Neste capítulo serão apresentadas as principais características utilizadas na linguagem barroca: o requinte formal, o conflito espiritual, o culto do contraste, a efemeridade do termo e Carpe diem, o paganismo, o dualismo, o cultismo ou gongorismo, a linguagem rebuscada, o conceptismo e a ironia.

Algumas características da linguagem barroca merecem especial atenção pela sua peculiaridade e pelo uso que foi sendo feito de algumas delas em escolas posteriores:

O Requinte formal revela o nível lingüístico altamente sofisticado dos textos barrocos. Apresentam construções sintáticas elaboradas, vocabulários de nível elevado. O barroco Literário foi uma arte da aristocracia e esse refinamento era desejado por seu público consumidor, porque lhe conferia status.
PONDERAÇÃO DO ROSTO E OLHOS DE ANARDA
Nos olhos e nas faces mais galhardas

Ao céu prefere quando inflama os raios,

E prefere ao jardim,

Se as flôres aguarda:
Enfim, dando ao jasmim e ao céu desmaios,

O céu ostenta um sol, dois sóis Anarda,

Um maio o jardim logra; ela dois maios.5


O conflito espiritual era latente ao homem barroco, que sentia-se dilacerado e angustiado diante da alteração dos valores, dividindo-se entre o mundo espiritual e o mundo material. As figuras que melhor expressam esse estado de alma são a antítese e o paradoxo.

A Brevidade dos gostos da vida, em contemplação dos mais objetos



Nasce o Sol; e não dura mais que um dia:

Despois da Luz, se segue a noite escura:

Em Tristes sombras morre a Formosura;

em contínuas tristezas a alegria.
Porém, se acaba o Sol, Por que nascia?

Se formosa a Luz é, por que não dura?

Como a beleza assim se transfigura?

Como o gosto, da pena assim se fia?
Mas no Sol, e na Luz, falte a firmeza;

na Formosura, não se dê constância:

E na alegria, sinta-se a tristeza.
Comece o mundo, enfim, pela ignorância;

pois tem qualquer dos bens, por natureza,

a firmeza somente na inconstância.6
O culto do contraste está presente nas idéias barrocas confrontando elementos como amor e sofrimento, vida e morte, juventude e velhice, ascetismo e mundaneidade, carne e espírito, religiosidade e erotismo, realismo e idealismo, naturalismo e ilusionismo, céu e terra, pecado e perdão numa tentativa de conciliar pólos opostos até aqueles então considerados irreconciliáveis: a razão e a fé.

O espírito barroco é cabalmente expresso no célebre dilema do 3º ato de Hamlet, de Shakespeare: “To be or not to be, that is the question”. (“Ser ou não ser, eis a questão...”).7

Tem-se a vasta utilização da efemeridade do tempo e carpe diem: o homem barroco tem consciência de que a vida terrena é passageira, e por isso, é preciso pensar na salvação espiritual. Mas, já que a vida é passageira, sente ao mesmo tempo, desejo de gozá-la antes que acabe, o que resulta num sentimento contraditório, já que gozar a vida implica em pecar, e se há pecado, não há salvação.

Pretendendo o poeta moderar o excessivo sentimento de Vasco de Sousa de Paredes, na morte da dita sua filha.


Para que é mais idade, ou mais um ano

Em quem, por privélegio e natureza,

Nasceu flor, a que um sol faz tanto dano!?
Nossa prudência, pois, em tal dureza

Não sinta a dor, e tome o desengano

Que um dia é eternidade da beleza.8

Assim, como tudo na vida a beleza também é efêmera. O texto se serve de imagens plásticas para mostrar isso: “que um dia é eternidade da beleza”. Desta forma, o tempo atua sobre o ser humano conduzindo-o à decadência.

Essa imagem que vai da “flor” ao “dano” põe ante os olhos do leitor, a sua imaginação e revela os conceitos de decadência e transitoriedade da beleza e da vida.

O paganismo é uma característica da linguagem barroca que aparece em alguns textos buscando um traço do Classicismo e da Cultura greco-romana, no qual, os deuses da mitologia pagã aparecem para representar um sentimento ou um tema abstrato qualquer:


EXPRESSÕES AMOROSAS A ÜA DAMA A QUEM QUERIA
Enquanto com gentil descortesia,

o ar, que fresco Adónis te namora,

te espalha a rica trança brilhadora,

quando vem passear-te pela fria.9

Adónis(ou Adonai) é um ente mitológico que representa a grande beleza e a vaidade.

O dualismo encontrado na linguagem barroca, se desenvolve em torno da transitoriedade da vida, da fulgacidade das coisas e do sentimentos contraditórios que envolve a natureza humana. A dualidade característica na arte na época barroca foi uma maneira de extravasar, de tentar mostrar como se sentia o homem da época colocado entre dois extremos.
DEFENDENDO O BEM PERDIDO
O bem, que não chegou a ser possuído

perdido causa tanto sentimento,

que faltando-lhe a causa do tormento,

faz ser maior tormento o padecido
Sentiu o bem logrado já perdido,

mágoa será do próprio entendimento:

porém, o bem que perde em pensamento

não deixa o outro bem restituído.10

O jogo de palavras Cultismo ou Gongorismo são características da linguagem barroca que receberam essas denominações na Península Ibérica, e em colônias ultramarinas. Seria um aspecto do barroco voltado para o rebuscamento da forma, para a ornamentação exagerada do estilo. O termo cultismo deriva da obsessão barroca pela linguagem culta, erudita, e o gongorismo alude ao autor espanhol Luís de Gongora11, expoente maior desse procedimento literário, criador de uma verdadeira escola que tem como seguidores, entre nós, Manuel Botelho de Oliveira e, em alguns momentos, Gregório de Matos Guerra.

O aspecto exterior imediatamente visível no Cultismo ou Gongorismo é o abuso no emprego de figuras de linguagem: metáforas, antíteses, hipérboles, hipérbatos, anáforas, anadiploses, paronomásias, quiasmos e sonoras.

O cultismo explora, também através do jogo de palavras, efeitos sensoriais, tais como cor, forma, volume, sonoridade, imagens violentas e fantasiosas, enfim, recursos que sugerem a superação dos limites da realidade, ou seja, uma percepção sensorial da realidade:





A uns mártires penduravam pelos cabelos, ou por um pé, ou por ambos, ou pelos dedos, polegares, e assim, no ar, despidos, batiam e martelavam com tal força e continuação, os cruéis e robustos algozes (carrascos), que ao princípio açoitavam os corpos, depois desfiavam as mesmas chagas (feridas) , ou uma chaga até que não tinha já que açoitar nem ferir. A outros estirados e desconjuntados no ecúleo (instrumento de tortura), ou estendidos na catasta, (cadafasto, em forma de leito, feito em grades, em que se torturavam os mártires) aravam os membros com pentes e garfos de ferro, a que propriamente chamavam escorpiões, ou metidos debaixo de grandes pedras de moinho, lhes espremiam como um cardar (pentear) o sangue, e lhe moíam e imprensavam os ossos, até ficarem com uma pasta confusa, sem figura, nem semelhança do que dantes eram. A outros cobriam todos de pez (breu, piche), resina e enxofre, e ateando-lhes o fogo, os faziam arder em pé como tochas ou luminárias, nas festas dos ídolos, esforçando-os para este suplício como lhes dar a beber chumbo derretido.12

Neste fragmento, podemos perceber claramente a tentativa de Pe. Vieira de fazer o leitor sentir o que ele descreve, como uma forma de persuadir seus ouvintes a não se envolverem com idéias de reforma religiosa (o protestantismo). Para isso, toma como exemplo a persistência religiosa dos mártires da Igreja Católica e descreve com extrema figuração como eram torturados esses mártires.

Essa supervalorização da forma é mais comum na poesia. Observe no fragmento seguinte o extremo cuidado formal que leva o poeta a agendrar um esquema no qual o final de cada verso repete-se no início do seguinte:
PECADOR CONTRITO AOS PÉS DE CRISTO CRUCIFICADO
Ofendi-vos, meu Deus, é bem verdade;

verdade é, meu Senhor, que hei delinqüido,

delinqüido vos tenho, e ofendido;

ofendido vos tem minha maldade.13

O conceptismo ocorre sobretudo na prosa. Corresponde ao jogo de idéias à organização da frase com uma lógica que visa ensinar e convencer. É a supervalorização do raciocínio agudo:


Para um homem se ver a si mesmo são necessárias três coisas: olhos, espelho e luz. Se tem espelho e é cego, não se pode ver por falta de olhos; se tem espelhos e olhos, e é de noite, não se pode ver por falta de luz. Logo, há de existir mister luz, há mister espelho, e há mister olhos.14
Ironia do grego cióneia, ‘interrogação’15 consiste em dizer o contrário do que está pensando ou em questionar, satirizar certo tipo de comportamento com a intenção de ridicularizar, de dar ênfase a algum aspecto passível de crítica:

Aos Sres. Governadores do mundo em seco da cidade Bahia e seus costumes:


A cada canto um grande Conselheiro,

que nos quer governar cabana e vinha:

Não sabem governar sua cozinha,

e querem governar o Mundo inteiro!16

A partir deste ponto estaremos conceituando e exemplificando algumas figuras de estilo fundamentais para o entendimento da literatura barroca:

A antítese que significa do grego anti, ‘contra’ + thesis, ‘afirmação’17, é uma figura de pensamento que consiste no emprego de palavras numa oração ou período que se opõem quanto ao sentido: bem x mal, branco x preto, claro x escuro. É a figura mais comum do barroco, reflete a contradição enfrentada pelo homem da época, seu dualismo e a luta de forças opostas que o arrastam:

Defendendo o Bem Perdido:


O bem, que não chegou ser possuído,

perdido causa tanto sentimento,

que faltando-lhe a causa do tormento,

faz ser maior tormento o padecido.
Infalível será ser homicida

o bem, que sem ser mal, motiva o dano;

o mal, que sem ser bem apressa a morte.18

O paradoxo é uma figura de linguagem mais radical que a antítese. Poderia ser definido como emprego de idéias numa oração ou período que se opõe quebrando a lógica, ou seja, resultando na apreensão da realidade através dos sentidos:



Ardor em firme coração nascido;

Pranto por belos olhos derramados;

Incêndio em mares de água desfarçado;

Rio de neve em fogo convertido.19

Hipérbole que significa do grego hyperbolè, ‘lançar sobre’20, é uma figura de linguagem também conhecida como intensificação, é a figura de pensamento que consiste na ênfase resultante do exagero deliberado, quer no sentido negativo, quer no positivo. É uma forma de exagerar a verdade, mas com respeito a beleza, seja por amplificação, seja por atenuação. É o que ocorre em expressões cotidianas como “morreu de rir”, “morto de fome”, “já te disse quatrocentas bilhões de vezes...”, ou em construções literárias como:


rios te correrão dos olhos se chorares ...”21

A hipérbole traduz a grandiosidade, a ostentação do mundo barroco. É uma figura que engrandece ou diminui exageradamente a verdade das coisas.


Anarda passando o tejo em uma barca
meu peito também, que chora

de Anarda ausências perjuras,

o pranto em rio transforma

o suspiro em vento muda.22

A anáfora que vem do grego ana, ‘repetição’ + phorá, ‘que conduz’23, é uma figura de construção que consiste na repetição intencional de uma ou mais palavras no início de vários versos:

Buscando a Cristo crucificado um pecador, com verdadeiro arrependimento.
A vós correndo vou, Braços sagrados,

nessa Cruz sacrossanta descobertos;

que para receber-me estais abertos,

e por não castigar-me estais cravados.
A vós, Divinos olhos, eclipsados,

de tanto sangue e lágrimas cobertos;

pois para perdoar-me estais despertos,

e por não condenar-me estais fechados.
A vós, pregados os Pés, por não deixar-me:

A vós, Sangue vertido, para ungir-me:

A vós, Cabeça baixa, por chamar-me:
A vós, Lado patente, quero unir-me:

A vós, Cravos preciosos, quero atar-me,

ara ficar unido, atado e firme.24

A Anáfora também pode ocorrer na prosa, quando iniciamos as orações ou períodos por uma mesma palavra ou locução. Observando:


Quando fazem os ministros, o que fazem?

Quando respondem? Quando deferem?

Quando despacham? Quando ouvem?25
O hipérbato que significa do grego hipérbaton, ‘inversão’26, é a figura sintática de construção que consiste numa inversão violenta da ordem direta da frase. Citam-se, como exemplo notório, os versos iniciais do hino nacional:
Ouviram do Ipiranga as margens plácidas

De um povo heróico o brado retumbante...”27

Na ordem direta da frase ficaria: “As margens plácidas do Ipiranga ouviram o brado retumbante de um povo heróico”.

O hipérbato resulta em certa dificuldade de leitura, como se verifica nos quatro primeiros versos do poema de Gregório de Matos:
É a vaidade, Fábio, nesta vida

Rosa, que de manhã lisonjeada,

Púrpuras mil, com ambição dourada,

Airosa rompe, arrasta presumida.28

Rescrevendo-os em ordem direta, teríamos: “Fábio, a vaidade nesta vida é rosa que, lisonjeada de manhã, arrasta presumida mil púrpuras e rompe airosa com ambição doirada”.


A anadiplose é uma figura de construção que consiste na reiteração dos termos finais de um verso ou oração, no início do verso subseqüente. Essa figura de construção é bem clara no poema de Gregório de Matos Guerra:

Retrato de D. Brites, uma formosa dama na Bahia, de quem o Autor se namorou, e tratou vários tempos:


No peito, desatina o Amor cego,

Cego só pelo amor do vosso peito,

Peito em que o cego Amor não tem sossego;

Sossego por não ver-lhe amor perfeito;

Perfeito, e puro amor em tal emprego;

Emprego, assemelhando à causa o efeito;

Efeito, que é mal feito ao dizer mais

Quando chega o Amor a extremos tais.29
A metáfora, que significa do grego meta: ‘mudança’, + phora: ‘transporte’, é a figura de palavra em que se emprega um termo por outro, mantendo-se entre eles uma relação de semelhança; é uma espécie de “comparação abreviada”, como em “Seus olhos são esmeraldas” isto é, seus olhos são verdes. A metáfora foi assim definida por Aristóteles: “consiste em transportar para uma coisa o nome da outra (...) uma espécie de comparação, a qual, falta a locução comparativa”.30
“Dos Desenganos da vida humana”
É a vaidade, Fábio, nesta vida (1)

Rosa, que de manhã lisonjeada, (2)

Púrpuras mil, com ambição dourada,(3)

Airosa rompe, arrasta presumida.(4)
É planta, de que abril favorecida, (5)

Por mares de soberba desatada, (6)

Florida galeota empavesada, (7)

Sulca ufana, navega destemida. (8)
É nau enfim, que em breve ligeireza, (9)

Com presunção de Fênix generosa,(10)

Galhardias apresta, alentos preza: (11)
Mas ser planta, ser rosa, ser nau vistosa (12)

De que importa, se aguarda sem defesa (13)

Penha a nau, ferro a planta, tarde a rosa? (14)31

O próprio título do soneto, “Dos Desenganos da vida humana”, metaforicamente, alude ao emprego intensivo da metáfora.

O poema se entretece a partir de três metáforas da vaidade: rosa, planta, nau (navio), que tem duração efêmera, ainda que si suponham eternas. Primeiramente, são mostradas as qualidades de cada um desses elementos metafóricos. Como a rosa, a vaidade “rompe airosa” (elegante); como a planta favorecida pelo mês de abril (quando é primavera na Europa), ela segue rapidamente feito uma “galeota empavesada” (embarcação enfeitada); como uma nau ligeira, preza alentos e galhardias ( elogios e elegâncias).

Observe que as metáforas são colocadas nos versos 2, 5 e 9 e, após retomadas nos versos 12 a 14, quando, no último terceto, o poeta as dispõe em ordem decrescente, inversa: a penha (pedra) destrói a nau, assim como o ferro (instrumento de corte qualquer) destrói a planta e a tarde (o tempo que passa) destrói a rosa.

A conclusão a que se chega, portanto, é que a vaidade é frágil e efêmera.
A metaforização intensiva do texto barroco estabelece, quase sempre, uma identificação sensorial resultando no aspecto cromático e criando associações surpreendentes. Assim, o poeta barroco diz: “os marfins da boca” ao invés de dentes, “o zéfiro manual” (vento suave) ao invés de leque, “a língua dos olhos”, ao invés de lágrimas, “rubi”, ao invés de sangue.32
A perífrase é uma figura de linguagem também denominada circunlóquio, é a figura de pensamento que consiste na substituição de uma palavra por uma série de outras, de modo que estas se refiram àquela, indiretamente. Utilizada, em geral, para evitar a monotonia das expressões gastas ou para criar novas relações metafóricas, é o que ocorre em: “Graças à onipotência de quem devemos a criação do Universo”, que significa simplesmente “Graças a Deus”.33
4- Principais representantes da literatura barroca no Brasil

Apresentam-se neste capítulo, os principais autores e obras da Literatura barroca no Brasil.

Para se entender um pouco em que contexto se passou a era do estilo barroco, vão ser abordados aspectos gerais da vida de alguns autores e suas obras:
4.1 - Gregório de Matos Guerra:

Nascido em Salvador na Bahia, em 20 de dezembro de 1633, entrou para o Colégio dos Jesuítas da Bahia com catorze anos e, revelando grande argüição nos estudos, os pais mandam-no estudar Direito em Coimbra. Tornou-se Bacharel Formado, viveu alguns anos em Lisboa exercendo a profissão, ocupando vários cargos na magistratura portuguesa. Porém, o caráter irreverente de suas sátiras provocou sua expulsão dessa cidade. Nesse tempo, casou-se e enviuvou. Voltou então ao Brasil desiludido. Em Salvador levou vida desregrada, compondo poemas satíricos e tendo famosos encontros amorosos com freiras. A intensidade de suas sátiras justificou o apelido com que ficou sendo conhecido: Boca do Inferno. Em sua terra natal, é convidado a trabalhar com os jesuítas no cargo de tesoureiro-mor da Companhia de Jesus. Em 1694, casa-se novamente com a viúva Maria de Povos, inspiradora de alguns de seus poemas líricos. Após esse período, abandona os padres e é degredado para Angola; já bastante doente, retorna ao Brasil um ano depois, mas sob duas condições: estava proibido de pisar em terras baianas e de apresentar suas sátiras. Morreu em Recife, no ano de 1696; com 59 anos foi enterrado na Capéla do Hospício de Nossa Senhora da Penha. Demolida a Capela, não restou nenhum vestígio de Gregório de Matos Guerra.

Nunca em vida Gregório de Matos publicou um livro, e suas poesias colecionadas e publicadas apenas por seus admiradores, sobrevive até hoje em antologias. A principal antologia foi à feita pela ABL no começo do século. As suas composições poéticas denotam um ódio verrinoso com alternância de religiosidade e arrependimento.

Apesar de ser conhecido como poeta satírico, Gregório de Matos, também praticou, e com esmero, a poesia religiosa e a lírica. Podemos ressaltar que ele utilizava do estilo conceptista mais do que o cultista, apresentando jogos de palavras ao lado de raciocínios sutis, sempre com o uso abusivo de figuras de linguagem:


Aos vícios
Eu sou aquele que os passados anos

Cantei na minha lira maldizente

Torpezas do Brasil, vícios e enganos.34
A sátira de Gregório não se voltou apenas contra as situações, instituições, mas também para pessoas: fidalgos, mulatos, gente do povo e do governo, todos são objetos do seu escárnio.

Assim se define Gregório no início da poesia “Aos vícios”. E, realmente, na poesia satírica procura satirizar o brasileiro, o administrador português, el-rei, o clero e, numa postura moralista, os costumes da sociedade baiana do século XVII. É patente um sentimento nativista quando ele separa o que é brasileiro do que é exploração lusitana.

Na poesia lírica e religiosa, deixa claro certo idealismo renascentista, colocado ao lado do conflito entre o pecado e o perdão, buscando a pureza da fé, mas, tendo ao mesmo tempo, necessidade de viver a vida mundana. São essas contradições que o situam perfeitamente na escola barroca.

Sua obra permaneceu inédita até o século XX, quando a Academia Brasileira de Letras, entre 1923 e 1933, publicou seis volumes, assim distribuídos: I. Poesia sacra; II. Poesia lírica; III. Poesia graciosa; IV e V. Poesia satírica; e VI. Últimas.


A JESUS CRISTO NOSSO SENHOR
Pequei, Senhor: mas não porque hei pecado,

da nossa alta Piedade me despido:

antes, quanto mais tenho delinqüido,

vos tenho a perdoar mas empenhado.

(...)

Eu sou, Senhor, Ovelha desgarrada;

cobrai-a; e não queirais, Pastor Divino

perder na vossa Ovelha a vossa glória.35

Gregório de Matos.

Neste poema, temos um excelente exemplo de conceptismo:
Se pecou ele é a ovelha desgarrada do rebanho; o pecado não deve ser somente motivo de castigo, mas razão para que o Pastor Divino se empenhe em recobrar sua “ovelha”. Para tanto deve perduar-lhe o pecado. O poeta aldaciosamente, dá um conselho a Cristo: que ele não queirra perder a glória e infinita bondade que é a capacidade divina de perduar. Caso contrário, deixando perdersse, perderá com ele a glória do perdão.36
4.2 - Padre Antônio Vieira:

Padre Antônio Vieira, nasceu em Lisboa, em 1608. Aos sete anos parte com a família para a Bahia, no Brasil, onde o pai exercia a função de secretário da Governação.

Estuda no colégio jesuíta da Bahia e ingressa em 1623, na Companhia de Jesus, recebendo ordens em 1635 e iniciando nessa altura o seu trabalho como pregador. Em 1641, parte para Lisboa com o governador para apresentar ao rei D. João IV, de quem se tornaria confessor, a adesão à causa da Restauração. Este foi um movimento pelo qual Portugal liberta-se do domínio espanhol. O rei encarregou-o de várias missões diplomáticas na Holanda e em Roma. Não sendo bem sucedido nestes encargos, regressou novamente ao Brasil e dedicou-se à missionação dos índios. Politicamente, Vieira tinha contra si a pequena burguesia cristã, por defender o capitalismo judaico e os cristãos-novos; os pequenos comerciantes, por defender um monopólio comercial; os administradores e colonos, por defender os índios. Após a morte de D. João IV, essas posições tomada por Vieira, principalmente a defesa dos cristãos-novos, lhe custam uma condenação pela Inquisição. Fica preso de 1665 a l667. Com a subida ao trono de D. Pedro II, Padre Antônio Vieira é absolvido.

Depois, regressa definitivamente à Bahia, onde morre com quase 90 anos de idade, no Colégio da Bahia.

O padre Antônio Vieira foi missionário, pregador, diplomata, político e escritor.

Sua obra pode ser dividida da seguinte maneira:

Profecias: constam de três obras: História do futuro, Esperanças de Portugal e Clavis prophetarum, em que se notam o Sebastianismo e as esperanças de Portugal se tornar o Quinto Império do Mundo, pois, tal fato estaria escrito na Bíblia. Isso demonstra seu estilo alegórico de interpretação bíblica, um nacionalismo megalomaníaco e uma servidão incomum, própria dos Jesuítas.

Cartas: são cerca de 500 cartas, que versam sobre o relacionamento entre Portugal e Holanda, sobre a Inquisição e os cristãos-novos e sobre a situação da Colônia. Constituem importantes documentos históricos.

Sermões: Os sermões buscam arrebatar o ouvinte para despertar sua consciência, convidando-o a pensar e a agir. Visando a esse objetivo o jesuíta geralmente estabelece analogias entre o presente vivo e a Bíblia. São quase 200 sermões, o melhor da obra de Vieira. De estilo barroco conceptista, totalmente oposto ao Gongorismo, o predador português joga com as idéias e os conceitos, segundo os ensinamentos da retórica dos jesuítas. Um de seus principais sermões é o Sermão da sexagésima, pregado na Capela Real de Lisboa em 1655 e conhecido também por A palavra de Deus. O Sermão da Sexagésima, de caráter metalingüístico, versa sobre a arte de pregar em suas dez partes. Nele Vieira usa de uma metáfora: pregar é como semear. Traçando paralelos entre a parábola bíblica sobre o semeador que semeou nas pedras, nos espinhos (onde o trigo frutificou e morreu), na estrada (onde não frutificou) e na terra (que deu frutos), Vieira critica o estilo de outros pregadores contemporâneos seus (e que muito bem caberia em políticos atuais), que pregavam mal, sobre vários assuntos ao mesmo tempo (o que resultava em pregar em nenhum), ineficazmente e agradavam aos homens ao invés de pregar servindo a Deus.

Dentre suas obras mais conhecidas, destacam-se ainda: Sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal contra as de Holanda: pregado na Igreja de Nossa Senhora da Ajuda, Bahia, em 1640. Vieira incita o povo a combater os holandeses falando sobre os horrores e depredações que os protestantes fariam: “entrarão por esta cidade com fúria de hereges e vencedores, não perdoarão o estado, o sexo nem a idade”. Há também, o Sermão de Santo Antônio, chamado de Sermão aos peixes: sobre os colonos que aprisionavam índios.


Sermão da sexagésima:



Será por ventura o estilo que hoje se usa nos púlpitos? Um estilo tão dificultoso, um estilo tão afetado, um estilo tão encontrado a toda parte e a toda natureza? Boa razão é também esta. O estilo há de ser muito fácil e muito natural. Por isso, Cristo comparou o pregar ao semear. Compara Cristo o pregar ao semear, porque o semear é uma arte que tem mais de natureza que de arte.

Já que falo contra os estilos modernos, quero alegar por mm o estilo do mais antigo pregador que houve no Mundo. E qual foi ele? O mais antigo pregador que houve no Mundo foi o Céu. Suposto que o Céu é pregador, deve ter sermões e deve ter palavras. E quais são estes sermões e estas palavras do Céu? As palavras são as estrelas, os sermões são a composição, a ordem, a harmonia e o curso delas. O pregar há de ser como quem semeia, e não como quem ladrilha ou azuleja. Não fez Deus o céu em xadrez de estrelas, como os pregadores fazem o sermão em xadrez de palavras. Se de uma parte está branco, de outra há de estar negro: se de uma parte está dia, de outra há de estar noite? Se de uma parte dizem luz, da outra hão de dizer sombra; se de uma parte dizem desceu, da outra hão de dizer subiu. Basta que não havemos de ver num sermão duas palavras em paz? Todas hão de estar sempre em fronteira com o seu contrário?(...)

Mas dir-me-eis: Padre, os pregadores de hoje não pregam do Evangelho, não pregam das Sagradas Escrituras? Pois como não pregam a palavra de Deus? – Esse é o mal. Pregam palavras de Deus mas não pregam a Palavra de Deus.37

4.3 – Manuel Botelho de Oliveira:

Manuel Botelho de Oliveira, nasceu em 1636, era de uma família abastada de Salvador e estudou Leis em Lisboa, sendo contemporâneo de Gregório de Matos. Dedicou-se à advocacia na Bahia com sucesso. Foi vereador, advogado e agiota.

O primeiro escritor nascido no Brasil a ter uma obra impressa. Em 1705 vem à luz Música do Parnaso, representativa do estilo barroco da época. Manuel Botelho de Oliveira, é de cunho estilizado , não representa o universo brasileiro senão no seu poema À Ilha de Maré, pelo seu caráter pictórico e exuberância de minúcias, e especialmente pela preocupação por uma paisagem brasileira, manifestando um nativismo, que o próprio poeta justifica na dedicatória ao Duque do Cadaval. À Ilha de Maré foi uns dos primeiros poemas a louvar a terra:


Ponderações do Rosto e Olhos de Anarda
Nas faces considero equivocado

de açucenas e rosas ou vestido;

porque se vê nas faces reduzidos

Todo o império de flora venerado (Manuel Botelho de Oliveira).38
Desdém e fermosura
Querendo ver meu gosto

O cândido e purpúreo de teu rosto,

Sinto o desdém tirano,

Que fulmina teu rosto soberano;

Mata-me o equívoco, o belo me convida,

Encontro a morte, quando busco a vida ( Manuel Botelho de Oliveira).39

AMORA, Antonio Soares. Panorama da poesia brasileira: Era luso-brasileira. Rio de Janeiro, Editora Civilização brasileira, Volume I, 1959 pagina 64


Teme que seu amor não possa encobrir-se
Não pode bela ingrata,

Encobrir-se este fogo, que me mata;

Que quando calo as dores,

Teme meu coração que entre os ardores

Das chamas, que deseja,

Meu peito se abra, e minha fé se veja ( Manuel Botelho de Oliveira).40

Ilha de Maré



Esta Ilha de Maré, ou de alegria,

Que é termo da Bahia,

Tem quase tudo quanto o Brasil todo,

Que de todo o Brasil é breve a pôdo;

E se algum tempo Cietéria a achará,

Por esta sua chipre desprezada,

Porém tem com Marília verdadeira

Outra vênus melhor por padroeira.41
4.4 - Bento Teixeira:

Bento Teixeira era portuense, cristão novo, nascido em 1565, veio para o Brasil por volta de 1567 e estudou com os Jesuítas na Bahia para seguir a carreira eclesiástica. Exerceu o magistério particular e a advocacia.

Em 1570 foi preso pelo assassinato da mulher, possivelmente por crime de adultério; acoutou-se então, no convento de Beneditinos, em Pernambuco; foi condenado a 20 anos de prisão, que não se sabe ao certo se cumpriu. Foi mais ou menos nessa época que escreveu a Prosopopéia.

A Prosopopéia é um poema encomiástico que foi publicado em Lisboa, em 1601, cujo título significa, discurso feito por pessoa fictícia, no caso, por Proteu, figura mitológica marinha, deus dos vaticínios, ou seja, que profetiza, prenuncia algo. É um pequeno poema épico em que o poeta exalta a figura de Jorge Albuquerque Coelho e seu irmão Duarte, donatários da Capitania de Pernambuco. É uma imitação de Os Lusíadas, com 94 estâncias em oitava-rima e decassílabos heróicos com todas as partes clássicas do modelo épico renascentista: proposição, inovação, dedicatória e narração. A narrativa é feita por Proteu, referindo os acontecimentos heróicos no Brasil e a seguir.

Em 1594, denunciou-se cristão novo perante o Visitador do Santo ofício em Olinda e é mandado para Lisboa para ser julgado, onde abjurou o judaísmo, obtendo liberdade condicional. Faleceu na prisão em Lisboa não se sabe quando.

Bento Teixeira se muito aproveitou d’Os Lusíadas (episódios, imagens conceitos, maneiras de dizer, esquemas rítmicos e rímicos), em muitos pontos deu-se o direito de discordar, e até explicitamente, do seu modelo camoniano, e por vezes, também, de seus modelos antigos, que considera e declara errados no que respeita a crença no elemento mitológico.

A atitude de independência de Bento Teixeira estava dentro dos cânones da imitação clássica: imitar sem copiar. Mas a legitimidade de sua atitude, até hoje mal compreendida pelos críticos, não teve infelizmente para seus critérios de poeta, o apoio, indispensável de grande talento criador. Se no poemeto a passagens de boa poesia, o conjunto revela ter faltado ao Autor o talento para uma obra de largo fôlego e intensa emoção, qualidades que seu antecessor, Luís Vaz de Camões, possuíra em alta dose.

A crítica em geral não lhe atribuiu grande valor literário, porém, merece a atenção dos historiadores por ser a primeira obra poética, dando início a uma linhagem laudatória e ufanista da terra e da gente brasileira.

A prosopopéia

Ò sorte, tão cruel, como mudável,

Por que usurpas aos bons o seu direito?

Escolhes sempre o mais abominável,

Reprovas, e abominas o perfeito.

O menos digno, fazes agradável,

O agradável mais, menos aceito.

Ò frágil, inconstante, quebradiça,

Roubadora dos bens, e da justiça! (Bento Teixeira).42
5 - A utilização de características da linguagem barroca no mundo contemporâneo

Nenhum período da história da arte tem sido como o barroco, usado nas últimas décadas com um tão amplo e diversificado interesse crítico.

No que diz respeito ao barroco estamos diante de uma arte que nos mostra a liberação da sensibilidade perante ordenações impostas, fazendo com que o objeto estético flua natural e espontaneamente.

Vários autores da atualidade adotaram o estilo barroco em seus poemas e musicas. O que ocorre é que temas como o conflito, a morte o grotesco, o absurdo da vida, são eternos, sempre preocuparam e sempre preocuparão o ser humano. Por razões histórico-sociais, esses temas absorvem o homem barroco.

A situação histórica semelhante que ocorrer em nosso século, faz surgir uma necessidade de que um novo barroco literário se manifeste.

Vão ser utilizados nesse trabalho, versos de Carlos Drummond de Andrade. De fato, este grande poeta contemporâneo tem a “alma barroca”, isto é, sua sensibilidade combina com a do estilo barroco, e isso se manifesta em inúmeros poemas seus.

Também vamos utilizar as poesias de Affonso Ávila, ensaísta e Diretor da Revista Barroco, editada pela UFMG que é um poeta ligado a tendências predominantemente concretistas no qual, seus poemas buscam, em geral, uma interligação entre os aspectos temático, ritmo e visual. No entanto, Affonso Ávila, carrega uma forte herança barroca. Tal herança parece ser incorporada e trabalhada de forma inconsciente pelo poeta, que denominou um de seus livros de Barrocolagens. Nesta obra, o autor realiza, de fato, colagens de textos de Padre Antônio Vieira, Gregório de Matos Guerra, entre outros, misturados a versos de sua autoria, nos quais, reproduz o estilo discursivo e a temática barroca.43

Foram citados neste capítulo alguns trechos de letras de músicas de Caetano Veloso, que se servia muito da linguagem barroca em suas composições. O próprio diz em uma de suas músicas, mais especificamente “Outras Palavras”, ser barroco. Como também, Chico Buarque de Holanda, Milton Nascimento, que utilizam em algumas de suas canções figuras de linguagem predominantemente do estilo barroco.

Apesar de possuírem características barrocas, não se pode dizer que os textos de Drummond, Ávila, Caetano Veloso, Chico Buarque e Milton Nascimento são barrocos, pois, eles apresentam, em sua predominância traços que caracterizam a literatura do nosso tempo. A técnica do colagem de Affonso Ávila, por exemplo, é tendência da arte moderna. Os poemas de Drummond por sua vez, apresentam uma visão moderna do universo, ainda que os sentimentos do poeta se manifestem, muitas vezes, através de formas barrocas de expressão. Bem como, Caetano Veloso, Chico Buarque e Milton Nascimento utilizam da linguagem barroca nas suas composições, porém, as músicas são modernas.

Apresentaremos neste capítulo algumas relações entre o estilo literário barroco e o estilo desses autores contemporâneos:

No que diz respeito ao sentimento que a realidade humana é absurda, sem solução, repleta de contrastes:
O amor não nos explica. E nada basta,

nada é de natureza assim tão casta.
que não macule ou perca a sua essência

ao contato furioso da existência
Nem existir é mais que um exercício

de pesquisar da vida um vago indício
a provar a nós mesmos que, vivendo,

estamos para doer, estamos doendo (Carlos Drummond de Andrade).44
Bem como, a expressão do grotesco, do chocante, do monstruoso: É o “feísmo”, ou o “belo horrível” barroco:
Tropicália

O monumento não tem porta

a entrada é uma rua antiga estreita e torta

e no joelho uma criança sorridente

feia e morta estende a mão (Caetano Veloso).45

Também é comum ao mundo moderno a angústia religiosa, ligada a mistura entre o sagrado e o profano:


Poema das Sete Facas

(...)
Meu Deus por que me abandonaste


se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,


Se eu me chamasse Raimundo
seria apenas rima, não seria solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer


mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo
(Carlos Drummond de Andrade).46
Em muitos poemas da atualidade é comum a expressão do conflito, manifestado através da anteposição de imagens e sentimentos antagônicos:
Anjos de duas faces
Anjo de duas faces,

o sol e as trevas, eis,

E vós, Indecisão,

serpente me venceis
Bigênito demônio

solevando punhal,

deuses escarnecendo,

sois o Bem, sois o Mal?

Sorriso de mulher

em pose de invectiva,

o choro da criança

Não morta, semiviva
Anjo de duas faces,

duplo lago reflete

o olhar de uma condena,

o olhar de outra promete (Affonso Ávila).47

A letra dessa música Contemporânea estrutura-se a partir de uma característica fundamental do estílo barroco: a antítese.


FRUTA BOA
É maduro nosso amor

Não moderno.

Fruto de alegria e dor.

Céu, inferno

Tão vivido nosso amor,

Convivência de felicidade e

Paciência.48

UMAS E OUTRAS



Se uma nunca tem sorriso

É pra melhor te reservar

E diz que espera o paraíso

E a hora de desabafar.

A vida é feita de um rosário

Que custa tanto a se acabar...

Por isso, às vezes ela pára

E senta um pouco pra chorar.

Que dia! Nossa, pra que tanta conta

Já perdi a conta de tanto rezar.
Se a outra não tem paraíso

Não dá muita importância, não.

Pois já forjou o seu sorriso

E fez do mesmo profissão.

A vida é sempre aquela dança

Onde não se escolhe o par.

Por isso, às vezes ela cansa

E senta um pouco pra chorar.

Que dia! Puxa, que vida danada

Tem tanta calçada pra se caminhar (Chico Buarque de Holanda).48
É fácil encontrar o rebuscamento nos poemas modernos, sutileza e complexidade das idéias:
Os remédios do amor e o amor sem remédio

são as quatro coisas e uma só

o primeiro remédio é o tempo

tudo cura o tempo, tudo faz esquecer,

tudo gasta, tudo digere, tudo acaba

atreve-se o tempo a colunas de mármore,

quanto mais a coração de cera?

são as afeições como a vida,

que não há mais certo sinal

de haverem de durar pouco,

que terem durado muito (Affonso Ávila).50
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Conclusão
O presente trabalho tentou mostrar o barroco ligado a uma ideologia que lhe empresta unidade espiritual, e essa ideologia traduziu-se em todas as manifestações artísticas, além do vestuário, da jardinagem, das festas, das características estéticas e estilísticas.

O barroco preencheu o vácuo existente entre o renascimento e o classicismo, definindo obras diversas que refletem um estado de espírito comum, em todas as literaturas nacionais modernas. O barroco é portanto um estilo artístico e literário, e mais do que isso, o estilo de vida que tomou conta do período compreendido entre o final do século XVI e o século XVII, e de que participaram todos os povos do Ocidente.

Verifica-se que o barroco utiliza de temas contraditórios e conflituosos, como a morte, o absurdo da vida, o diferente. No entanto, esses temas são eternos, sempre estarão presentes na vida das pessoas. A criação barroca adquiriu, quase sempre, um caráter bastante autônomo, com o objetivo de criar naturalmente uma nova espécie de agir e de ser. Desse modo, pode acontecer que uma situação histórica semelhante volte a ocorrer em nosso século e, assim, um novo barroco literário torne a se manifestar enrriquecendo novamente o estilo de viver e pensar dos homens ocidentais.
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FARACO, Carlos Emílio. MOURA, Franscisco Marto. Língua e Literatura. São Paulo, Editora Ática, 19ª Edição, 1999.


* CAMILA HALLACK LOURES é graduada em Psicologia na Universidade Federal de Juiz de Fora. Participa do estudo e investigação de textos de Freud e Lacan, tendo amplo interesse nas relações existentes entre a Ética da Psicanálise e as obras literárias das diversas escolas, em especial o Barroco. Estas pesquisas ocorrem como uma forma de delinear como as expressões estéticas explicitam os eixos que sustentam a clínica psicanalítica.

RAQUEL RUFF PEIXOTO como psicóloga se interessa em investigar a relação do homem e a sociedade. O laço social que o ser humano estabelece como emergência desse sujeito na cultura, na civilização. É nessa encruzilhada que ingressou, com o objetivo voltado para a psicanálise não somente na atuação clínica, mas também na pesquisa a partir do estudo do ser humano dentro de um contexto, numa linguagem própria.




1 In: www.geocities.com/alcalina.gel/39litera/


2 In: www.geocities.com/alcalina.gel/39litera/


3 MATOS, Gregório de,in HOLANDA, Sérgio Buarque de. Antologia dos poetas brasileiros da fase colonial. São Paulo, editora pespectiva, 1979.Pag.57.


4 VIEIRA,Antônio, in FARACO, Carlos Emílio. MOURA, Franscisco Marto. Língua e Literatura. São Paulo, Editora Ática, 19ª Edição, 1999.Pg.309.


5 NICOLA, José de. e INFANTE, Ulisses. Gramática Contemporânea da Língua Portuguesa. São Paulo, Editora Scipione, 3ª edição, 1990. Pag 439.


6 MATOS,Gregório de, in HOLANDA, Sérgio Buarque de. Antologia dos poetas brasileiros da fase colonial. São Paulo, editora pespectiva, 1979.Pg.67.


7 NICOLA, José de. e INFANTE, Ulisses. Gramática Contemporânea da Língua Portuguesa. São Paulo, Editora Scipione, 3ª edição, 1990. Pag 437.



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