A literatura como fonte para os estudos da história da educação Roselusia Teresa Pereira de Morais ufpel resumo



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VII Seminário de Pesquisa Qualitativa: fazendo metodologia


A literatura como fonte para os estudos da história da educação

Roselusia Teresa Pereira de Morais - UFPel

RESUMO
A pesquisa na área da História da Educação nas duas últimas décadas, com o advento da Nova História Cultural, ampliou as possibilidades de estudos a partir da definição de novos temas/ problemas e da utilização de documentos e fontes não tradicionais. O presente trabalho propõe aproximações entre a Literatura e os estudos de História da Educação. Recentes estudos apontam análises realizadas na História da Educação tendo como suporte teórico-metodológico as relações entre história, narrativa, ficção, literatura, memória e produção literária. Esses estudos revelam que há uma tendência que busca aproximar a História da Educação e a Literatura a partir de pressupostos que permitam reconhecer processos educacionais revelados nos textos literários. A Literatura como objeto de estudo para a História da Educação permite acessar representações assim como, os discursos e os dispositivos produzidos em torno do objeto de estudo a ser investigado. Considerando as suas particularidades existentes no espaço e no tempo configurado.

Palavras - chave: História da Educação; Literatura; Educação.

A literatura como fonte para os estudos da história da educação

Roselusia Teresa Pereira de Morais1 - UFPel


Apresentação
O presente artigo discute aproximações entre a Literatura e os estudos de História da Educação, a partir das contribuições da História Cultural. Nessa perspectiva, o objetivo central deste trabalho2 é apresentar as contribuições da Literatura, como fonte, para os estudos da História da Educação.

A pesquisa na área da História da Educação nas duas últimas décadas, com o advento da Nova História Cultural, ampliou as possibilidades de estudo a partir da definição de novos temas/ problemas e da utilização de documentos e fontes não tradicionais. Ao abordar a constituição da História da Educação no Brasil, Vidal e Faria Filho (2003) identificam os trabalhos realizados nos últimos 20 anos, apontando temas e períodos de interesses e abordagens mais recorrentes.

A produção de trabalhos nesse campo vem demonstrando uma “vitalidade” e um “alargamento” da interlocução com uma variada gama de disciplinas acadêmicas – Sociologia, Lingüística, Política, Antropologia, Geografia, Psicologia, Literatura e entre outros.

Este fato permite uma grande contribuição ao entendimento dos intercâmbios e aproximações no campo de produções em História da Educação, no Brasil. Para os historiadores da Educação isso tem significado uma forma de marcar o seu pertencimento a uma comunidade de pesquisadores e uma maneira de reafirmar uma identificação com procedimentos próprios ao realizar pesquisas historiográficas.


A História da Educação e a Literatura: limites e possibilidades
A História da Educação como campo de pesquisa vem ampliando a noção e a utilização de fontes e documentos sobre um objeto de estudo (NASCIMENTO, 2003). No campo das pesquisas educacionais, a partir da década de 1980, instauraram-se mudanças no fazer histórico, com o advento da Nova História Cultural que trouxe consigo uma ampliação das fontes utilizadas pelos historiadores e o uso de fontes nos seus mais variados suportes.

Dessa maneira, as recentes pesquisas vêm ampliando as possibilidades de estudo e de fontes, na medida em que são utilizados diversos documentos de distintas origens e gêneros. É possível perceber uma “revolução documental” que:


[...] também tenha atingido e marcado profundamente o campo da História da Educação, os pesquisadores têm insistido na necessidade de, mesmo para aqueles que abordam novos temas e que se utilizam de fontes não-tradicionais, de recorrerem aos arquivos propriamente ditos. Mas, em vez de fetichizarem o documento acreditando que eles possam falar toda a verdade, os historiadores têm se esforçado para problematizar essas fontes (LOPES E GALVÃO, 2001, p.81).
A possibilidade do uso de memórias, diários, cartas, biografias, fotografias, literatura, música, pintura, histórias de vida, depoimentos, anúncios e relatos de festas escolares publicados em jornais e revistas, entre outros, permitem acessar as práticas e os saberes difundidos, assim como, os discursos e os dispositivos produzidos em torno do tema de investigação. Neste sentido, as pesquisas vêm procurando analisar para além da legislação educacional, dos relatórios oficiais, regulamentos, programas de ensino, dados estatísticos, entre outros registros.

Como advertem Lopes e Galvão (2001), o passado em sua inteireza e completude nunca será plenamente conhecido e compreendido, no limite é possível entender os fragmentos e as incertezas do passado. Os traços, as marcas e os vestígios não apagados e deixados pelas sociedades passadas possibilitam acessar a representações difundidas e o significado destas nos seus espaços e tempos constituídos.

No âmbito da História da Educação e de outros campos do conhecimento, como nos aponta Nascimento (2006), o desenvolvimento de pesquisas com fontes menos tradicionais vem adquirindo um novo estatuto metodológico. Nesse universo amplo de fontes para os estudos da História da Educação, encontramos a Literatura. Esta é ainda pouco usada pela História em geral e tem sido submetida a determinadas regras que são tanto da História quanto da própria Literatura. Analisar a Literatura a partir de uma abordagem histórica pode nos permitir:
[...] a descoberta de mundos completamente diferentes daqueles exibidos por outro tipo de texto escrito. Atualmente a escola, as relações escolares, as brincadeiras e o mundo infantil são objetos das ciências sociais, fazem-se dissertações e teses; no entanto, durante muitos anos essa realidade foi trazida por outro tipo de texto, os literários: romances, novelas, pequenos contos para crianças, literatura religiosa e moral, até mesmo a poesia. Em História da Educação, essa fonte começa a ser mais bem aproveitada e tem propiciado emergirem do desconhecido o cotidiano de escolas, formas de socialização, maneiras de trajar, relações, tudo isso que faz parte da vida de homens e mulheres[...]. (LOPES; GALVÃO, 2001, p.85)

A possibilidade de identificar representações a partir da literatura é legítima ao considerar “(...) o documento literário e o artístico como plenamente históricos, sob a condição de ser respeitada a sua especificidade.” (LE GOFF, 2003, p. 11).

A perspectiva de aproximar a Literatura e a História, através de procedimentos próprios da História da Educação pressupõe que:
[...] cada fonte, cada documento, tem um valor relativo estabelecido a partir da possibilidade de submetido, e das relações (em maior número possível) que o pesquisador consegue estabelecer com informações trazidas por outros estudos sobre o tema, sobre a metodologia e teoria da História.Uma palavra, uma expressão, uma categoria, um estilo de escrita encontrados em um documento só adquirem sentido se não se quer cometer anacronismos, quando colocadas em seus contextos próprios de produção e circulação. Esses contextos são dados ao pesquisador a partir de um maior número possível de relações/ associações que conseguir estabelecer entre o que o documento traz e o que não está nele. Um trabalho de compreensão é o que se pede.” (LOPES; GALVÃO, 2001 p.85)
Neste sentido, a pesquisa exige do pesquisador o rigor metodológico e um entendimento que ultrapassa a fonte e alcança dimensões históricas e sociais mais amplas em que o objeto foi construído. Assim, o trabalho de investigação a ser realizado, “exige que se persigam o sujeito da produção, as injunções na produção, as intervenções, isto é, as modificações sofridas e o destino e destinatário desse material” (LOPES; GALVÃO, 2001, p.81).

O ofício do historiador em seus objetos e métodos de estudo implica em considerar elementos essenciais no processo de constituição do objeto a ser investigado. Le Goff (2003) nos indica a importância em reconhecer uma análise crítica diante de uma fonte documental. Isso porque o caráter histórico do conhecimento é provisório, incompleto, seletivo e limitado a partir dos questionamentos feitos pelo historiador às evidências apresentadas.

Debruçar-se sobre a História (ou histórias) “no desenho de vertentes que a compõem, não é tarefa simples. Implica efetuar escolhas, constituir hierarquias, elaborar análises que, ao mesmo tempo que conferem uma inteligibilidade à narrativa, instituem um passado (portanto, exigem uma memória) para o campo.”(VIDAL; FARIA FILHO, 2003, p.38)

Isso porque o caráter histórico do conhecimento é provisório, incompleto, seletivo e limitado a partir dos questionamentos feitos pelo historiador às evidências apresentadas. “A evidência histórica existe, em sua forma primária, não para revelar seu próprio significado, mas para ser interrogada por mentes treinadas numa disciplina de desconfiança atenta.” (THOMPSON, 1981, p.38).

Um objeto de estudo, em História da Educação, nunca está suficientemente explorado. Isso porque a história “é sempre reescrita na medida em que depende do problema proposto a ser enfrentado (...) Esta, por sua vez, é sempre resultado de um olhar que, do presente o pesquisador (a) lança ao passado”. (LOPES; GALVÃO, 2001, p.92)

É necessário integrar cada vez mais as pesquisas em andamento e realizadas, possibilitando dar respostas às perguntas cada vez mais refinadas que fazemos a nossos objetos (VIDAL, 2006). Neste sentido, é importante o diálogo constante no campo da História da Educação a fim de fortalecer as interpretações e a ampliação das fontes investigadas, como o uso da Literatura.

Os diversos textos literários podem nos auxiliar na compreensão de ideais/ ou imagens representadas e divulgadas, como opção para fazer mediações entre a ficção e a “reinterpretação” construídas pelo autor. Uma vez que:

As fronteiras entre ficção e verdade são consideradas cada vez mais tênues no âmbito das ciências humanas, e tende-se a concordar que a obra literária não reflete a realidade: a fração do real que revela é resultado de uma reinterpretação e de uma reelaboração. Ainda que condicionada socialmente, o seu domínio é sobretudo estético. No entanto, a verdade que ficção pode trazer importa mais do que uma suposta ‘realidade’. Uma verdade que escapa, às vezes, à pesquisa histórica ou à pesquisa considerada científica. Os autores não são somente testemunhas da escola de sua infância ou da idade adulta, mas são intérpretes sensíveis e apaixonados dos processos familiares, escolares e socais. As relações entre literatura e história são caracterizadas pela tensão e não pelo reflexo ou correspondência direta. (LOPES; GALVÃO, 2001 p.85)


Neste sentido, a pesquisa exige do pesquisador o rigor metodológico e um entendimento que ultrapassa a fonte e alcança dimensões históricas e sociais mais amplas em que o objeto foi construído. Assim, o trabalho de investigação a ser realizado, “exige que se persigam o sujeito da produção, as injunções na produção, as intervenções, isto é, as modificações sofridas e o destino e destinatário desse material” (LOPES; GALVÃO, 2001, p.81).


Considerações finais

A Literatura como objeto de estudo para a História da Educação permite acessar as representações assim como, os discursos e os dispositivos produzidos em torno do objeto de estudo a ser investigado. Considerando as suas particularidades existentes no espaço e no tempo configurado.

Recentes estudos3 apontam análises realizadas na História da Educação tendo como suporte teórico-metodológico as relações entre história, narrativa, ficção, literatura, memória e produção literária. Há uma tendência que busca aproximar a História da Educação e a Literatura a partir de pressupostos que permitam reconhecer processos educacionais revelados nos textos literários.

Estes estudos revelam que o ofício do historiador é marcado por uma variedade e, ao mesmo tempo, uma especificidade no trato com as fontes. Formas diversas de analisar um mesmo objeto de estudo definem um campo com múltiplas possibilidades teórico-metodológicas em que permite aproximações com diversas áreas do conhecimento, entre elas: a Literatura.

A escrita literária, por sua vez, pode ser compreendida como uma prática humana situada em um contexto e que tem formas, modos e estruturas próprias. A narrativa, a poesia, o conto, o romance, a crônica e entre outros textos literários, nos permite acessar idéias, ideais, representações, símbolos, costumes e entre outras inúmeras possibilidades.

Referências Bibliográficas:

LE GOFF, Jacques. História e memória. 5º ed. São Paulo: Editora da Unicamp, 2003.

LOPES, Eliane Marta Teixeira; GALVÃO, Ana Maria de Oliveira. História da Educação. Rio de Janeiro: DP&A, 2001.(Coleção: O que você precisa saber sobre...).

LOPES, Eliane Marta Teixeira. História da Educação e Literatura: algumas idéias e notas. Revista do Centro de Educação. Edição 2005. Vol. 30. N 2. Disponível em: <http://coralx.ufsm.br/revce/revce/2005/02/a10.htm >; Acesso em: 10 abr.2008.


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NASCIMENTO, Jorge Carvalho do. Historiografia educacional sergipana: uma crítica aos estudos de História da Educação. São Cristóvão, Grupo de Estudos Pesquisas em História da Educação/ NPGED/ UFS, 2003.


NASCIMENTO, Jorge Carvalho do. Sobre o campo da História da Educação na região Nordeste. In: VASCONCELOS, José Gerardo e NASCIMENTO, Jorge Carvalho do. História da Educação no Nordeste brasileiro. Fortaleza: Edições UFC, 2006. p. 29-43

PESAVENTO, Sandra Jatahy. História e Literatura: uma velha-nova história. Revista nuevo mundo- mundos nuevos. Disponível em: < http://nuevomundo.revues.org/document1560.html>; Acesso em: 10 abr. 2008.

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1 Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Pelotas – UFPel. Endereço eletrônico: roselusia@bol.com.br


2 O presente estudo faz parte de um projeto de dissertação de Mestrado, em desenvolvimento, no Programa de Pós-Graduação em Educação, da Faculdade de Educação - da Universidade Federal de Pelotas, que analisa as obras literárias do escritor Érico Veríssimo. Este trabalho é orientado pela professora Dra. Eliane Teresinha Peres (PPGE da FaE- UFPel)


3 Estudos desenvolvidos por : LOPES (2005); MENDONÇA (2008); MORAES (2008); PESAVENTO (2008); ZECHLINSKI (2008).

FURG, 21 e 22 de agosto de 2008.

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