A literatura infantil, segundo m. B. Lourenço filho1



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A LITERATURA INFANTIL, SEGUNDO M. B. LOURENÇO FILHO1

Estela Natalina Mantovani BERTOLETTI



Introdução

No Brasil, a literatura infantil e juvenil constitui-se num campo de conhecimento relativamente recente, quando comparado a outros campos de conhecimento. As primeiras tematizações do gênero, datadas do final do século XIX eram esparsas e episódicas estando subsumidas, muitas vezes, na discussão sobre a produção de livros para crianças (MAGNANI, 1998). Na primeira metade do século XX, inicia-se a publicação de artigos, manuais de ensino e livros de caráter ensaístico sobre o gênero, propiciando crescente sistematização de idéias, o que se intensifica a partir da década de 1970, acompanhando a produção de livros de literatura infantil e juvenil (MORTATTI, 2000).

Ao longo desse período, alguns autores vão-se destacando e suas reflexões vão sendo referendadas em textos de autores a eles posteriores, tornando-se referências indispensáveis aos estudos e pesquisas sobre literatura infantil e juvenil. Mediante mapeamento da produção brasileira sobre o gênero, dentre aqueles autores que se tornaram representativos e referência constante, avulta-se, num passado recente, o educador brasileiro Manoel Bergström Lourenço Filho (1897-1970).

M. B. Lourenço Filho foi um dos pioneiros na tematização da literatura infantil, no artigo “Como aperfeiçoar a literatura infantil” (1943), produzido para ser proferido como palestra, a convite dos membros da Academia Brasileira de Letras, em 1943. O artigo foi publicado na Revista Brasileira (Rio de Janeiro), também em 1943, e no Boletim Informativo (Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil/RJ), números 30 e 31, de 1975.

Além desse, produziu um número significativo de textos sobre o tema2 e seus correlatos, como leitura e livros, publicados ou não: capítulo de livro, artigos, conferências, pareceres a textos de literatura infantil, crítica literária, “recepção de acadêmico”, introdução e prefácios a livros de e sobre literatura infantil e documentos produzidos pela Comissão Nacional de Literatura Infantil, da qual foi presidente em 1936 e 1937.

Com o objetivo de contribuir para a compreensão de importantes aspectos da história da literatura infantil em nosso país e de compreender o pensamento de Lourenço Filho a esse respeito, apresento, neste texto, resultados da análise de aspectos constitutivos da configuração textual (MORTATTI, 2000) do artigo “Como aperfeiçoar a literatura infantil” (1943).

Com base nessa análise é possível concluir que nesse artigo se encontram sintetizados conceitos básicos do pensamento de seu autor sobre o gênero e que nele o autor “funda” um modo de pensar a literatura infantil, que vem servindo de referência até os dias atuais, no que se refere tanto à produção de quanto à produção sobre literatura infantil.
1. Aspectos da atuação profissional do autor3

Em 1943, Lourenço Filho era um homem público que já havia construído uma carreira de prestígio, tendo alcançado renome e sucesso no Brasil e no exterior, graças a sua rara capacidade de trabalho e intensa atuação, da qual destaco neste tópico o que considero mais relevante para a compreensão de pensamento desse educador sobre literatura infantil contido, sobretudo, no artigo em análise.

Lourenço Filho formou-se professor primário, pela Escola Normal Primária de Pirassununga/SP, em 1914, professor secundário, pela Escola Normal de São Paulo/SP (a Escola Normal da Praça), em 1917, e, bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais, pela Faculdade de Direito de São Paulo/SP, em 1929. Como se pode verificar, trata-se de uma formação erudita e ampliada, de um intelectual que conhece e domina várias áreas do conhecimento, sempre sintonizado com os anseios e necessidades da época.

Em sua atuação profissional, verifica-se que a formação do normalista se sobrepunha à do bacharel, ou seja, Lourenço Filho é um educador em todas suas ações, haja vista as opções feitas por ele ao longo de sua carreira, sempre considerando a educação e seus problemas, onde eles aconteciam, no espaço escolar, seja como professor, administrador, pesquisador ou escritor.

Ainda na juventude, recém formado professor, iniciou intensa atividade jornalística, que lançou seu nome, em nível nacional, mediante a divulgação de suas idéias modernas em relação ao seu tempo4. Colaborou com a revista Vida Moderna (SP) produzindo literatura e crítica literária, com a Revista do Brasil (SP) e com os jornais O Commercio de S. Paulo (SP), Jornal do Commercio (SP), A Folha (Porto Ferreira/SP), Jornal de Piracicaba (Piracicaba/SP), O Estado de S. Paulo (SP) e outros.

Nessa atividade jornalística, conheceu o escritor José Bento Monteiro Lobato, em 1918, a quem auxiliou e depois de quem se tornou secretário. Formavam, juntamente com Anísio Teixeira e Fernando de Azevedo, o que chamavam de uma “irmandade”, com obrigações de ação e necessidade de se fazerem combativos (LOURENÇO FILHO, 1929).

Ao longo de sua atuação profissional, Lourenço Filho demonstrou grande preocupação com a leitura e sua disseminação. A leitura tornou-se seu instrumento de trabalho, e se empenhou em tematizá-la em seus estudos e escritos, em normatizar seu ensino ao ocupar cargos administrativos e em concretizá-la em livros didáticos e de literatura infantil.

Como resultados desse empenho, destaco:

1. A publicação de:


    • artigos que demonstram preocupação com a leitura por parte de crianças e jovens, com o livro e a literatura: “O que a criança lê” (1920); “Um inquérito sobre o que os moços lêem” (1927); “O problema do livro nacional” (1938) e “O cinema e a literatura na educação da criança” (1939);

    • livro de literatura social: Joaseiro do Pe. Cícero – scenas e quadros do fanatismo no nordeste (1926), que fora publicado entre novembro de 1925 e agosto de 1926, sob a forma de série de artigos no jornal O Estado de S. Paulo; com esse livro conquistou o prêmio "Ensaios", da Academia Brasileira de Letras (1927) e a Cadeira nº 32, na Academia Paulista de Letras (1929)5;

    • cartilha para alfabetização de crianças e adultos: Cartilha do povo – para ensinar a ler rapidamente (1928), que alcançou mais de 2.000 edições ao longo de sua trajetória editorial6.

    • livros de literatura infantil, publicados a partir de 1942, os quais compõem a coleção Histórias do Tio Damião, a saber: Totó (1942), Baianinha (1942), Papagaio Real (1943), Tão pequenino (1943), Saci Pererê (1944), O indiozinho (1944), A irmã do indiozinho (1946), A gauchita (1946), A formiguinha (1946), No circo (1946), Maria do Céu (1951) e E eu, também... (1951)7




  1. A revisão de textos e orientações a escritores de literatura infantil,

    • em 1926, em substituição a Arnaldo de Oliveira Barreto, Lourenço Filho assumiu a organização da coleção Biblioteca Infantil (Melhoramentos); nesse trabalho, Lourenço Filho simplificou o vocabulário para atingir maior número de crianças e eliminou passagens de medo e/ou terror8.

    • também junto à Companhia Melhoramentos, emitiu milhares de pareceres a livros infantis que aspiravam publicação9.

3. A presidência, em 1936 e 1937, da Comissão Nacional de Literatura Infantil, órgão ligado ao Ministério da Educação e Saúde, com objetivo de organizar, delimitar e selecionar a literatura infantil produzida à época, no Brasil.

Os aspectos biobibliográficos aqui apresentados consideram apenas o período da atuação de Lourenço Filho direta e indiretamente ligado à literatura infantil, até 1943. Embora não contemplem o conjunto da vida e da obra desse educador, permitem compreender aspectos significativos da atuação profissional desse “ledor incorrigível” (LOURENÇO FILHO, 1945), que procurava levar a leitura a todos os brasileiros.
2. “Como aperfeiçoar a literatura infantil”


    1. Aspectos gerais

Conforme já apontado, “Como aperfeiçoar a literatura infantil” (1943) foi originalmente produzido para ser apresentado como palestra proferida por Lourenço Filho, em 1943, na Academia Brasileira de Letras, a convite de seus membros.

Com um sugestivo título que indica seu conteúdo — como aperfeiçoar a incipiente produção de literatura infantil brasileira da época —, o texto procura, de um lado, assegurar a existência da literatura infantil e, de outro, sugerir medidas para melhorar a produção dessa literatura. Assim, partindo de dados históricos sobre a constituição do gênero, o autor determina a existência de uma literatura infantil “[...] perfeitamente desenvolvida, em todo o mundo, e com rápido crescimento em nosso país” (p.155)10. Desse modo, busca conceituá-la, estabelecer suas funções e modalidades e distingui-la da literatura didática e dos textos “triviais e insossos”, propiciados pelo “alargamento” do mercado editorial. Apresenta, ainda, um balanço da situação então atual e sugere como melhorá-la.

Desse modo, o texto está voltado para o público que solicitou a palestra, os membros da Academia Brasileira de Letras e a outros interessados, autores de literatura infantil ou que pretendam sê-lo.


    1. Conceitos básicos

  • Tradição oral e literatura infantil

Lourenço Filho (1943) aponta a tradição oral como a forma mais remota de constituição da literatura infantil, comunicada sob a forma de “[...] cantigas de berço, parlandas e outras manifestações do folclore” (p. 146), sendo empregada de forma intencional, como instrumento de educação, e a literatura escrita especialmente para crianças, como relativamente recente, uma vez que, inicialmente, afirma o autor, a literatura escrita adequada às crianças confundia-se com narrativas mágicas, fábulas e legendas destinadas aos adultos e com livros de estudos, próprios para uso na escola; somente mais tarde surge uma literatura destinada especificamente às crianças.


  • Literatura, literatura infantil, arte e formação

Literatura e literatura infantil têm, segundo Lourenço Filho, o mesmo fim, o da arte, ou seja, o de exprimir o belo, o de comunicar emoção estética. A literatura infantil, no entanto, é um “ramo de letras” especialíssimo, que deve receber tratamento específico, dadas as características específicas de quem a lê: a criança, um ser em formação. Como é desinteressada, afirma o autor, a literatura infantil é a própria arte e como a arte é relativa no tempo e no espaço, a produção literária é inseparável de quem a lê e de onde se projeta. “[...] Ainda que vise ao absoluto, ou ideal, a arte, objetivamente considerada, é relativa não só àquele que a produza, mas, assim também, àqueles a que se dirija, a que deva sugerir o belo”. (p. 156-7) (grifo do autor)

As crianças que lêem essa literatura, por sua vez, têm “[...] gradativo desenvolvimento mental, emocional e cultural” (p. 157), só sendo possível levar-lhes emoção estética por meio das letras, se considerada sua “estética evolutiva” em consonância com aquele desenvolvimento.

Segundo o autor, portanto, o desenvolvimento estético da criança se relaciona com sua evolução psicológica e formação ética. O “belo” destinado à criança, condiciona-se à necessidade de formação inerente à infância, ou seja, é o “[...] belo das idades infantis” (p. 157), assim, a literatura infantil é “[...} instrumento de profunda ação educativa” (p. 157) que
[...] concorre para a formação do gôsto artístico; coopera no equilíbrio emocional da criança; dá-lhes horas de sadio entretenimento e de liberação espiritual; faz amar o idioma nacional; desperta o gosto literário, estimulando a criação; e, mais generalizadamente, sem dúvida, pelo hábito que inculca da bôa leitura, prepara o consumidor das belas letras no homem do futuro. (LOURENÇO FILHO, 1943, p, 160)11
Justamente por desinteressada, por não pretender senão fazer admirar o belo, a literatura infantil, — arte que é — há de suscitar o bom gosto, o senso de medida, o desejo de superação; há de concorrer para o uso, crescentemente aprimorado, da linguagem, instrumento natural de comunicação e de expressão entre os homens, por si mesmo arte também; há de, enfim, cooperar, com as demais formas e processos de educação para a compreensão do pequenino mundo da criança, reflexo do mundo maior de coisas, idéias e sentimentos que a cerca. (LOURENÇO FILHO, 1943, p. 157-158)
Porém insiste: a literatura é informação e sugestão, mas sua função primacial e direta é a de sugerir o belo, sendo que, consoante à literatura infantil, o belo deve ser sugerido “[...] dentro dos recursos da mentalidade da criança” (p. 160), para
[...] suscitar o bom gôsto, o senso de medida, o desejo de superação; [...] concorrer para o uso, crescentemente aprimorado da linguagem [...]; [...] cooperar, com as demais formas e processos de educação para a compreensão do pequenino mundo da criança, reflexo do mundo maior de coisas, idéias e sentimentos que a cerca. (LOURENÇO FILHO, 1943, p. 157-8)

A função essencial da literatura, seja ela para crianças ou não, é, segundo Lourenço Filho, servir de deleite para o espírito, proporcionando evasão e catarsis. “E isso é útil à higiene mental, quer do adulto, quer na criança, pois o espírito desta, como o daquele, se agita em choques e sobressaltos constantes” (p. 158). A imaginação, no entanto, “[...] não é uma capacidade isolada no espírito”, e, nesse sentido, a leitura na idade infantil é também “recreação”, entendida como motivo de reflexão, de formação sentimental, de estímulo à ordem social e moral.


Daí, como já se observou, a necessidade de adaptação da matéria a ser lida aos interesses da cada idade, sem o que não chegaria a ser atraente, mas também adaptação à conveniente direção e depuração que devem tomar êsses interesses (LOURENÇO FILHO, 1943, p. 159).
Assim, em virtude de ser a criança em suas diferentes idades a especificidade da literatura infantil, Lourenço Filho determina “modalidades” de livros infantis, classificadas segundo a idade cronológica da criança e a “procedência” desses livros infantis.


  • Literatura infantil e literatura didática

Embora a literatura infantil seja, para Lourenço Filho, um “[...] instrumento de profunda ação educativa”, ela se diferencia da literatura didática — composta por livros de estudo, próprios da escola, com sentido informativo e educacional, sob a direção do professor —, em virtude de sua essência distintiva de expressão de arte.

O objeto de arte, afirma o autor, pode ter algum fim prático. Assim, a literatura pode servir para exercícios escolares, porém esse não é o seu objetivo primeiro. A confusão encontra-se na oscilação dos livros escritos para crianças entre literatura didática e literatura infantil, devido à origem escolar desta última.




  • Mercado: trivialidade e concorrência

Segundo Lourenço Filho, a disseminação e renovação do ensino primário no Brasil assim como a organização de bibliotecas escolares nas escolas públicas, propiciaram a ampliação do mercado de livros infantis, tornando-o mais remunerador. O crescimento desse mercado levou, de um lado, a “disparates e trivialidades” na produção, caracterizada por: textos “insossos”, nos quais “fala o autor em demasia”, exageram-se os tipos e cometem-se excessos; narrativas pouco artísticas, sem cuidado, sem plástica, mal conduzidas que, ou se tornam inúteis, ou prejudiciais, estiolando a grande afeição da criança pela leitura. De outro, a expansão do mercado editorial estabeleceu uma concorrência positiva, no sentido do aperfeiçoamento do material de leitura, especialmente, no aspecto gráfico, “[...] de grande importância no alcance educativo que cada obra pode exercer sôbre a criança” (p. 164).


  • Linguagem, histórias, narrativas – o papel do autor

Segundo Lourenço Filho (1943), a linguagem é um instrumento de educação, empregada de modo intencional, seja na tradição oral, seja na literatura escrita. Nesta última, constitui expressão de arte, “[...] devendo obedecer a cânones de harmonia, de graça, de nitidez” (p. 159)

Vista desse modo e levando-se em consideração a literatura infantil enquanto deleite e formação, a literatura infantil deve empregar a melhor linguagem, “[...] o que significará a mais clara, a mais digna e a mais adequada a cada assunto e a cada idade a que se dirija” (p. 159).


Forma singela e adequada à idade, a que se destina, não significará, porém, plebeísmo, uso de expressões de gíria, imitação do falar do povo inculto. A forma há de ser bela, porque simples, porque clara, porque harmônica e equilibrada.

A forma há de ser bela a começar pela estrutura ou “composição” geral da obra: plano, entrecho, andamento, conclusão. Só assim o livro infantil “obra de arte”, como é de desejar-se, e como faz mister para que o gênero se justifique. (LOURENÇO FILHO, 1943, p. 160)


Ainda para o autor, o livro infantil deve utilizar-se de vocabulário comum e de estruturas simples de redação “[...] para que o sentido pleno da obra possa ser alcançado” (p. 159).

A linguagem é o que possibilita a organização dos elementos da narrativa, de modo a dispô-los com harmonia e graça, despertando o interesse do espírito infantil, sob a forma de histórias. A história é a narrativa literária, ou seja, escolha e reorganização, segundo a intenção do autor, por isso o autor deve ser um artista.

Mais do que pessoa culta ou informada e capaz de imaginação, o autor de livros de literatura infantil, adverte Lourenço Filho, precisa sentir o mundo do espírito infantil, penetrar nele, comovendo e inspirando.
Intuição psicológica, conhecimento geral da psicologia infantil. Nenhuma receita específica, porém, poderá ser fixada, à vista da qual um autor medíocre possa tornar-se o artista que todo e qualquer gênero reclama (LOURENÇO FILHO, 1943, p. 163)
2.3 Literatura infantil, arte e formação: a criança como centro

No artigo em análise, Lourenço Filho explicita a idéia de constituição da literatura infantil, por isso faz apontamentos a respeito das origens do gênero na tradição oral, considerando-a como o primeiro momento constitutivo da literatura infantil. Não se detém, no entanto, em detalhes a esse respeito, uma vez que seu objetivo é “[...] propor o problema da literatura infantil, e [...] oferecer sugestões a seu mais demorado estudo” (p. 169), haja vista que esse texto foi escrito numa época de produção incipiente de literatura infantil e carente de uma produção mais sistemática sobre o gênero.

Assim, o autor busca suprir necessidades de época relativas ao incremento da produção, por meio de um balanço e crítica ao material existente e procura delinear uma história e propor uma teoria, até então praticamente inexistentes.

Diante dessas necessidades, Lourenço Filho detém-se, nesse texto, na conceituação da literatura infantil, no estabelecimento de suas funções e na caracterização de seu destinatário, diferenciando a literatura infantil da literatura didática e dos textos “triviais” e, ainda, “ensinando” os autores de literatura infantil sobre como escrever literatura. Sintetiza a constituição da literatura infantil e aponta ligeiramente a questão do mercado de livros infantis e do aspecto gráfico. Esses últimos estão somente apontados, talvez em virtude de serem ainda incipientes também.

Dos conceitos básicos destacados, portanto, é possível inferir que a literatura infantil, para Lourenço Filho, integra a literatura (para adultos), mas dela se diferencia exatamente pelo adjetivo que indica seu destinatário.

A criança — considerada de uma perspectiva psicológica por Lourenço Filho — é o centro, o que determina os fins dessa literatura. Em virtude de a criança caracterizar-se um ser em formação, aos aspectos estéticos — essência do literário —, devem-se juntar os aspectos formativos. Literatura infantil, portanto, serve para deleite, mas serve para formação também.

Além disso, a idade da criança deve ser considerada, juntando-se à evolução psicológica a sua evolução estética. Desse modo, Lourenço Filho detalha os tipos de textos adequados a cada idade, buscando na psicologia a explicação para a necessidade de adaptação da literatura aos interesses de cada faixa etária

Quanto ao autor de textos infantis, Lourenço Filho adverte que precisa ser um artista capaz de produzir “histórias”, ou seja, produzir textos em que haja “plástica”, comovendo e inspirando a criança. Em outras palavras: o autor de textos de literatura infantil precisa conhecer a psicologia da criança para produzir literatura infantil enquanto arte, que sirva para deleite e formação, que penetre no espírito da criança, promovendo mudanças interiores.


Considerações Finais

A análise do artigo "Como aperfeiçoar a literatura infantil" possibilitou, ao meu ver, verificar a sintonia dos conceitos básicos nele sintetizados com as necessidades da época, com o lugar em que circulou e com o leitor a que se destinava, bem como em sintonia com os propósitos do autor. Assim, o artigo circula numa época de incipiente produção de literatura infantil e de escassa produção sobre literatura infantil. Talvez em decorrência dessas circunstâncias, tenha sido escrito num tom normativo e doutrinário, no que se refere a destacar a importância da literatura infantil, "orientando" a respeito de como se produzirem textos do gênero, e, num tom enfático e incitativo, no que se refere à sugestão de medidas para o aperfeiçoamento da literatura infantil.

A essas considerações, devo acrescentar que a análise desse artigo não esgota a análise do pensamento de Lourenço Filho sobre literatura infantil. No entanto, posso afirmar que os conceitos básicos nele sintetizados permitem inferir que nesse texto “funda-se” um modo de pensar a literatura infantil, o qual parece se manter presente e operante na produção de e sobre literatura infantil da época e até os dias atuais, no Brasil.

Referências

LOURENÇO FILHO, Manoel Bergström. O que a criança lê. Jornal do Commercio. São Paulo, 20 mio 1920.

______. Joaseiro do Pe. Cícero – scenas e quadros do fanatismo no nordeste. São Paulo: Melhoramentos, 1926.

______. Um inquérito sobre o que os moços lêem. Educação. São Paulo, v. 1, n. 1, p.30-39, out. 1927.

______. Cartilha do povo – para ensinar a ler rapidamente. São Paulo: Melhoramentos, 1928.

______. Carta de Lourenço Filho a Anísio Teixeira. São Paulo, 1 nov 1929.

______O problema do livro brasileiro. Estudos Brasileiros. Rio de Janeiro, v. 1, n. 1, p. 79-96 e 101-103, jul/ago 1938.

______. O cinema e a literatura na educação da criança. Rio de Janeiro: Imprensa Oficial, 1939.

______. Totó. São Paulo: Melhoramentos, 1942. 16p., il.. (Histórias do Tio Damião, 1)

______. Baianinha. São Paulo: Melhoramentos, 1942. 16p., il. (Histórias do Tio Damião, 2)

______. Como aperfeiçoar a literatura infantil. Revista Brasileira. Rio de Janeiro, v. 3, n. 7, p. 146-69, 1943.

______. O papagaio real. São Paulo: Melhoramentos, 1943. 16p., il. (Histórias do Tio Damião, 3)

______. Tão pequenino. São Paulo: Melhoramentos, 1943. 16p., il. (Histórias do Tio Damião, 4)

______. Saci Pererê. São Paulo: Melhoramentos, 1944. 16p., il. (Histórias do Tio Damião, 5)

______. O indiozinho. São Paulo: Melhoramentos, 1944. 16p., il .(Histórias do Tio Damião, 6)

______. Biblioteca e ensino. Revista da Academia Paulista de Letras. São Paulo, v. 8, n. 32, p. 30-51, dez, 1945.

______. A irmã do indiozinho. São Paulo: Melhoramentos, 1946. 16p., il. (Histórias do Tio Damião, 7)

______. A gauchita. São Paulo: Melhoramentos, 1946. 16p., il. (Histórias do Tio Damião, 8)

______. A formiguinha. São Paulo: Melhoramentos, 1946. 16p., il. (Histórias do Tio Damião, 9)

______. No circo. São Paulo: Melhoramentos, 1946. 16p., il. (Histórias do Tio Damião, 10)

______. Maria do Céu. São Paulo: Melhoramentos, 1951. 16p., il. (Histórias do Tio Damião, 11)

______. E eu, também... São Paulo: Melhoramentos, 1951. 16p., il. (Histórias do Tio Damião, 12)

______. Como aperfeiçoar a literatura infantil. Boletim informativo. Rio de Janeiro, Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, Rio de Janeiro, v. 7, n. 30, p. 5-7, abr/jun 1975.

______. ______. Boletim informativo. Rio de Janeiro, Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, Rio de Janeiro, v. 7, n. 31, p. 5-15, jul/set 1975.

MAGNANI, Maria do Rosário Mortatti. Entre a literatura e o ensino: um balanço das tematizações brasileiras (e assisenses) sobre literatura infantil e juvenil. Miscelânea (FCL-UNESP-Assis). v. 3, p. 247-257, 1998.

MORTATTI, Maria do Rosário Longo. Leitura crítica da literatura infantil. São Paulo: Leitura: teoria & prática, n. 36, p. 11-17, dez. 2000.



1 Apresentam-se, neste texto, resultados parciais de pesquisa de doutorado, em desenvolvimento, com bolsa CNPq e sob orientação da professora Dra. Maria do Rosário Longo Mortatti, junto ao Programa de Pós-Graduação em Educação – UNESP–Marília e vinculada à linha de pesquisa "Literatura infantil e juvenil" do Grupo de Pesquisa “História do ensino de língua e literatura no Brasil” (GPHELLB) e do Projeto Integrado de Pesquisa “Ensino de língua e literatura no Brasil: repertório documental republicano” (PIPELLB) (apoio e auxílio CNPq; auxílio FAPESP), ambos coordenados pela orientadora.


2 Lourenço Filho também concretizou uma produção de literatura infantil. Título, edições e tiragens podem ser consultados em: BERTOLETTI, Estela Natalina Mantovani. A produção de Lourenço Filho de e sobre literatura infantil: um instrumento de pesquisa. Instrumento de Pesquisa — Faculdade de Filosofia e Ciências, Universidade Estadual Paulista, Marília, 2002. 17f. Digitado

3 As informações contidas neste tópico foram extraídas de: MONARCHA, Carlos; LOURENÇO FILHO, Rui. Por Lourenço Filho: uma biobibliografia. Brasília: INEP/MEC, 2001. 313p. (Coleção Lourenço Filho)



4 As idéias divulgadas nos primeiros escritos de Lourenço Filho continuaram a ser trabalhadas, ampliadas ou reformuladas em seus escritos e atuação ao longo de toda sua carreira, como informa LOURENÇO, Leda Maria Silva. O pensamento de Lourenço Filho em seus primeiros escritos pedagógicos e nas Conferências da Associação Brasileira de Educação – ABE. In.: MONARCHA, Carlos (Org.) . Centenário de Lourenço Filho: 1897-1970. Londrina: Universidade Estadual de Londrina; Marília: Universidade Estadual Paulista; Rio de Janeiro: Associação Brasileira de Educação, 1997. p. 47-76 e ______. Artigos em jornais. In.: MONARCHA, Carlos; LOURENÇO FILHO, Ruy. (Org.). Por Lourenço Filho: uma biobibliografia. Brasília: INEP/MEC, 2001. p. 121-125. (Coleção Lourenço Filho).

5 Estudo aprofundado e interpretação aguda desse livro de Lourenço Filho, encontram-se em MONARCHA, C. O sertão cearense segundo Lourenço Filho. Marília, 2001. Tese (Livre-Docência em História da Educação Brasileira) – Faculdade de Filosofia e Ciência, Universidade Estadual Paulista, Marília

6 Essa e outra cartilha de Lourenço Filho, são analisadas em: BERTOLETTI, Estela Natalina Mantovani. Cartilha do povo e Upa, cavalinho! – o projeto de alfabetização de Lourenço Filho. Marília, 1997. Dissertação (Mestrado em Educação) – Faculdade de Filosofia e Ciências, Universidade Estadual Paulista, Marília.

7 Informações detalhadas a respeito dos livros dessa série encontram-se em: BERTOLETTI, Estela Natalina Mantovani. A produção de Lourenço Filho de e sobre literatura infantil: um instrumento de pesquisa, 2002. Instrumento de Pesquisa — Faculdade de Filosofia e Ciências, Universidade Estadual Paulista, Marília. 17f. Digitado.

8 A respeito da atuação de Lourenço Filho como organizador da coleção Biblioteca Infantil, ver: MENIN, Ana Maria da Costa Santos. O patinho feio de H. C. Andersen: o “abrasileiramento” de um conto para crianças, 1999. Tese (Doutorado em Letras) — Faculdade de Ciências e Letras, Universidade Estadual Paulista, Assis (v. 1 280f; v. 2 Anexos). Estudando a revisão de Lourenço Filho de O patinho feio, de Hans C. Andersen, Menin afirma que ele não apenas revisou, mas recriou textos dessa coleção, segundo o seu projeto e com autonomia de trabalho.

9 A respeito desses pareceres emitidos por Lourenço Filho, ver, especialmente: MARINS, Francisco. Literatura Infantil e Lourenço Filho. In.: MONARCHA, Carlos (Org). Centenário de Lourenço Filho: 1897-1970. Londrina: Universidade Estadual de Londrina; Marília: Universidade Estadual Paulista; Rio de Janeiro: Associação Brasileira de Educação, 1997. p. 77-89. e SOARES, Gabriela Pellegrino. A semear horizontes: leituras literárias na formação da infância, Argentina e Brasil (1915-1954), 2002. Tese (Doutorado em História Social) — Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo. 339p.

10 Neste tópico, sempre que se tratar de citação, no corpo do texto, de trecho do artigo em análise, indicarei apenas o número da página.

11 Nesta e nas demais citações mantenho a ortografia de época.


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