A língua portuguesa no brasil



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A LÍNGUA PORTUGUESA NO BRASIL
Na linguagem, devemos considerar os diferentes registros:

  • corrente falado ( tenso ou distenso )

  • popular

  • escrito ( literário ou não )

  • dialetal

Língua é um sistema conexo de meios de expressão comuns a um conjunto de seres. Esse sistema que só existe nos indivíduos falantes tem, entretanto, existência independente deles, porque, tal como outras instituições sociais, lhes é imposto. Apesar disso, cada pessoa tem seu jeito de falar a própria língua, de modo que tantas há quantos são os indivíduos (p. 21). Quanto mais cultos são os indivíduos, mais se acercam de uma língua geral, padrão, quer estejam no Brasil, em Timor, em Goa, em Angola ou em Portugal (p. 23 ). Por vezes, palavras expressivas e justas metáforas conseguem varar o círculo em que se usam e ascender à linguagem familiar ou, mesmo, à língua comum ( p. 27 ). No Brasil-Colônia (...), o meio social era perturbado por elementos extra-europeus, índios e africanos. Mas deve ter-se na devida conta que a "classe branca" se estremou socialmente como "classe" superior. E que uma das características de "classe social é, precisamente, a linguagem. Ela até classifica socialmente os indivíduos. As classes sociais semelham pirâmides em os grupos estão dispostos uns acima dos outros. Cada grupo, ou camada, procura assimilar as particularidades da camada adjacente superior e evitar as da camada inferior. O cume da pirâmide é constituída pela classe mais elevada, ideal a que aspiram, grau por grau, os demais grupos sociais ( p. 92 ). Estamos, pois em face de tendência de imitação e seleção, que caracterizam a coesão social. São tendências "positivas" ( imitação do estrato superior ) e tendências "negativas" ( evitar o estrato inferior ). A "classe" mais elevada caracteriza-se, sobretudo, pelas tendências negativas – ela evita, ou procura evitar, tudo que é característico das outras camadas da sociedade. E, nada tendo acima de si, para imitar, apresenta aspecto arcaizante e neologista: procura criar novas formas ( p. 93 ). No português brasileiro, não há, positivamente, influência de línguas africanas ou ameríndias. O que há é cicatrizes da tosca aprendizagem que, da língua portuguesa, por causa de sua mísera condição social, fizeram os negros e os índios ( p. 97 ). Na variegada sociedade, o cume da pirâmide social estava exposto, de certo modo, mais que hoje, à "influência inversa", isto é, aquela que se exerce do "inferior" sobre o "superior" ( p. 99 ). Meio de expressão e comunicação, a língua é um instrumento vivo: move-se pelo tempo em fora, num curso que lhe é próprio. Para (...) Sapir, há uma deriva, isto é, uma determinada direção, que já encerra uma série de possibilidades. A rapidez ou lentidão com que se caminha por essa estrada depende de condições histórico-sociais ( p. 115 ). ...estagnação se explica pela passividade receptiva, mas vem, assim a coincidir com o espírito conservador das classes médias, explicável por um razoável sentimento de purismo. De modo geral, aliás, as línguas transplantadas mostram essas características ( p.117 ). Os negros trazidos para o Brasil já vieram, na sua grande maioria, falando português (...) simplificado e deturpado: a sua língua nunca foi ideal lingüístico ( p. 125 ). Dentro de uma grande cidade há cruzamentos constantes de círculos sociais, o que redunda numa grande interpenetração lingüística ( p. 131 ). O uso determina-se sempre pelo interesse da comunidade, que é, neste caso, a necessidade de ser compreendido. Por conseguinte, cada um se opõe, sem saber, e por instinto, à introdução do arbitrário no "uso". Quando por parte do indivíduo isolado se produz uma infração, logo se corrige, pois o ridículo castiga bastante ao culpado para tirar-lhe o desejo de repetí-la ( p. 225 ).

( SILVA NETO, Serafim. Rio: Presença, 1988 – as aspas são nossas )



ASPECTOS LINGÜÍSTICOS DE ALGUMAS REGIÕES BRASILEIRAS

O substrato arcaico constitui a substância da nossa fala popular. O resultado da influência tupi e africana foi a simplificação das flexões nominais e verbais. Ex: o sinal de plural só aparece nos determinativos; o verbo só tem flexão de 1a e 3a pessoas;. o imperativo só se apresenta em uma forma, na chamada fala popular. Em algumas regiões, o imperativo é substituído por formas como: “você pode fazer isto?” “você não vai fazer isto não, né?”. A apócope do /l/ final ocorre em vários pontos. Em Alagoas e Pernambuco, o /-ste/ do pret.perf. substitui-se por /-sse/. No Nordeste, encontram-se as formas: /lun.a/, /mutcho/ ( o ditongo africa a oclusiva ). No Sul, há influência espanhola no /e/ final (não se reduz) e no uso dos sufixos /-ito/, /-ico/. Por todo o interior é comum a monotongação ( Orora, Ogênio, Oguém ), a metátese ( fremoso), a fuga aos esdrúxulos, a forma menas. Em Goiás aparecem as formas: duzoito, alucrim, amoi, por dezoito, alecrim, amor. No Nordeste, as pré-tônicas soam como abertas. No Rio, o /s/ em final de sílaba soa como chiante, o que também ocorre em algumas regiões do Nordeste. Registra-se, em algumas áreas, o multiplicativo formado com tanto: “o terreno é quatro tanto desse”. No Norte conservou-se salvar = saudar ( donde saravá). Na região do S. Francisco, dama=meretriz: Por todo o Brasil, o /r/ pós-vocálico tem várias realizações, inclusive 0. Ocorre, em alguns casos, a iotização do /lh/ (muié). Está se generalizando o uso de ter como verbo impessoal e de em com verbos de movimento. O /e/ pré-tônico realiza-se como /é/, /ê/, /i/, porém sempre verdura. O /o/ pré-tônico também se realiza como /ó/, /ô/, /u/, com supercorreções (ortiga). No Rio, é grande a oscilação( portero, chuvê ). O Rio também monotonga /ei/, antes de /j/, /x/, /r/, exceto em gueixa. Ainda no Rio, africam-se /t/ e /d/, antes de /i/. Aparece também uma fímbria vocálica, antes do /s/ pós-vocálico, fenômeno mais sensível na camada menos escolarizada e observável, também, nas vogais nasais ( rapais, vãis ). O /l/ final é, mais comumente, vocalizado (Brasiu). Surgem vogais suarabáticas ( fulô ). A nasalação é mais intensa no Norte (chãmar, ãmar ). Perde-se, ãs vezes, a nasalidade final ( virge). A nasalidade se mantém, na Bahia, em, p. ex., lun.a. No Pará, o /o/ tônico passa a /u/: canua cheia de cucos. No Rio, ocorre: a rente, mermo, ma reu. No Ceará: fradinho> fradim. O ditongo pode se palatizar(Tonho). Em S. Paulo aparece a forma aquele um. João Ribeiro, em História do Brasil ( 1935:316), expôs os focos de irradiação cultural, as cinco células fundamentais que formaram o tecido do Brasil:

1_ Maranhão e Pará: sempre viveram à parte;

2_ Pernambuco, Paraíba, R. G. Do Norte, Ceará e Alagoas (Guerra dos Mascates e Confederação do Equador);

3_ Sergipe e Bahia;

4_ Rio de Janeiro, que tinha jurisdição sobre Espírito Santo, litoral paulista e região do atual ABC;

5_ S. Paulo, com expansão para Goiás, Minas e Mato-Grosso.

O Sul povoou-se mais tarde, com migrantes europeus

Antenor Nascentes, em O idioma nacional (1933), esboçou o quadro: Sul e Norte, com a linha divisória indo da foz do rio Mucuri até a cidade de Mato-Grosso, no estado do mesmo nome. O dialeto do Norte apresentaria as variantes:

_ amazônica ( Pará, Amazonas, Acre e parte de Goiás );

_ nordestina ( Maranhão, Piauí, Ceará R.G. do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, e parte de Goiás);

O dialeto do Sul compreenderia quatro variantes:

_ baiana ( Sergipe, Bahia, parte de Minas Gerais parte de Goiás);

_ fluminense ( Espírito Santo, Rio de Janeiro, zona da mata mineira);

_ mineira mista ( centro-oeste );

_ sulina ( demais estados ).


Fichamento de: MELO, G. C. A língua no Brasil. Rio, Agir, 1945;

CUNHA, Celso. Língua portuguesa e realidade brasileira. Rio: Tempo Brasileiro, 1976.


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