A «Maria Stuart» de Schiller



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A «Maria Stuart» de Schiller

O ano de 1800 — o último desse esplêndido Século-Dezoiío, engrinaldado, na historia literária da Alemanha, por uma bela floração de talentos de primeira ordem, tocados pela chama divina do génio, que quase deixaram de ser ale­mães para se tornarem mundiais—é marcado pelo aparecimento da Maria Stuart, a notabilís-sima obra-prima em que Friedrich Schiller mais lucidamente deixou impressa a sua vigorosa personalidade de poeta dramático.

É logar-comum já bem sediço, em histo­ria da literatura, o dizer-se que, se Wolfgang Goethe foi o maior poeta da Alemanha, ninguém poderá negar a Schiller a glória de haver sido o seu mais notável dramaturgo. Na verdade, os dramas de Schiller são superiores aos do seu rival e grande amigo, como o são aos de Lessing, a cuja influência ele não procurou subtrair-se, antes se submeteu, com a reverência de um discípulo, nas chamadas obras da mocidade, nomeada e principalmente na Kabale und Liebe (Intriga e Amor), tragédia burguesa à feição das de Diderot e Lessing. E essa superioridade revela-se na unidade de composição, na escolha

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dos assuntos mais consentâneos com a arte scénica, no vigor dos sentimentos que se entre­chocam, no desenho primoroso dos caracteres, na perfeição técnica em matéria de construção teatral, na comunicabilidade simpática que se estabelece entre autor e espectador.

No drama que vamos analisar, tudo está no logar próprio. Como em nenhum outro dos de Schiller — parece-me — todos os caracteres estão admiravelmente tracejados, constituindo uma excelente galeria de tipos, magistralmente realizados, numa riqueza de contrastes bem acentuados, numa flagrante espontaneidade, que os torna bem vivos, palpitantes de realidade, deleitando o psicólogo que os analisa em todas as suas facetas, especialmente nos aspectos vo-litivo e emotivo.

O drama histórico, ensaiado com brilho por Goethe, no Goetz von Berlinchingen, tornara-se o drama romântico por excelência, relegando os outros sub-géneros para um plano inferior; e para isso contribuirá grandemente o génio dra­mático de Schiller, que cedo se dedicara aos estu­dos de história, abordando o género na Conju­ração de Fiesco (Verschworung des Fiesco in Genua), retomando-o no D. Carlos, para não mais o deixar, até que uma prematura morte veio pôr fecho a essa brilhante série de tragédias históricas que o poeta nos legou (1).

(1) Além dos dramas citados, pertencem ao teatro histórico de Schiller a trilogia de Wallenstein, a Virgem

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Ao passo que os espíritos coevos se volta-vam de preferência para a revivescência, já então em moda, das tradições nacionais, princi­palmente medievas—o que constituiu, como se sabe, uma das características do Romantismo subsequente,—o nosso poeta, com um ponto de vista que poderíamos classificar de cosmopolita, ia buscar os assuntos à história geral: no Fiesco, à história da república veneziana; no D. Carlos, à Espanha de Filipe II; na Virgem de Orleães, à França dos Valois; no Guilherme Tell, à história da constituição da República Suiça. O Wallens-tein, porém, é um drama eminentemente nacional.

Não era o homem da sua pátria e do seu tempo, não era o alemão que interessava o poeta; era o ser humano em geral, com a mul­tiplicidade das suas virtualidades, das suas pai­xões, da sua sede de domínio, da sua ânsia de liberdade, das suas grandezas, como dos seus desfalecimentos. E não se julgue que o teatro schilleriano se reduz a uma galeria de caracte­res, a uma dissecação de almas. Os seus heróis, todas as suas personagens, estão integrados na vida. Como em Shakespeare, tudo aqui é vida, e vida intensa e profunda.

Maria Stuart arde no desejo de viver: é uma chama que não quere extinguir-se. Exige da vida tudo o que de belo e de grande ela pode oferecer. Após dezoito anos de cativeiro, sob a

de Orleães (Joana d'Arc), a Noiva de Messina e o Gui-Iherme Tell.

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vigilância dos guardas severíssimos de Isabel, não se resigna ainda a ficar para sempre sepul­tada numa prisão; e, quando a ocasião se lhe proporciona, põe em jogo os seus dotes admi­ráveis de sedução, esse dom de fascinar que sabia possuir. Neste drama, é ainda a actriz exímia que a própria história nela vê (1). A elo­quência que o dramaturgo lhe empresta, pos­suiu-a ela em alto grau, como o afirma o teste-temunho dos contemporâneos. A delicadeza com que sabia exprimir os sentimentos mais ternos ficou memorável nos versos franceses que com­pôs, muito nova ainda, na côrte de França, quando ocupava o trono com Francisco II, seu primeiro marido. E a história regista igualmente essa bela coragem com que, no quinto acto da tragédia de Schiller, ela nos aparece, perdida já toda a esperança, e quando vai entrar na sala fatídica em que os serventuários de Isabel lhe ergueram o cadafalso. A sua beleza, como os dotes do seu espírito, venciam, e deles usou sempre como de uma arma contra a adver­sidade. Brantôme, que, com outros senhores franceses, a acompanhou à corte da Escócia, quando, viuva de Francisco II, regressou ao

(l) A. Filon, na Histoire Genérale dirigida por La-visse e Raubaud, acentua: «Elle ne fut probablement ni la sainte que ses partisans ont révérée, ni la scélé-rate que ses énnemis ont calomniée et maudite, mais une des actrices les plus accomplies qui aient paru sur lê théatre de la politique et elle devait se surpasser dans la dernière scène.

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seu trono das terras frias e inóspitas, deixou dito, ao traçar-lhe o retraio, que ela realizava o verso clássico: Vera incessu patuit dea. E Camden julgou-a d'est'arte: Foemina splendidis-simo ingenio si minus versatili (J).

A sua versatilidade! Schiller anota-a, passo a passo, através do drama.

Figura verdadeiramente teatral, e ao mesmo tempo soberanamente humana—a que o poeta foi buscar a esse século de violência, de intole­rância, de cruentas paixões políticas e religio­sas, a esse Século-Dezasseis, quiçá o mais teatral de toda a história!

Mas voltemo-nos para o proscénio e sigamos atentamente a representação, como espectadores conscientes, cujo espírito desperto, sem deixar-se empolgar .pela violência da emoção experimen­tada, vai analisando, criticando, comentando in mente. Sigamos o desenrolar da peça, scena a scena, desde o momento em que, atrás do pano de bôca, soam as clássicas pancadas de Molière.

I

Numa carta dirigida a Goethe (2), confessava Schiller o seu desvanecimento por haver seguido, na composição da Maria Stuart, aquela regra



  1. Ob. cit.

  1. 18 de Junho de 1799. ,

                  1. REVISTA DE ESTUDOS HISTÓRICOS 23

de Aristóteles, em que ao autor trágico se reco­menda o cuidado de excitar no espectador, desde o inicio do drama, a piedade e o temor.

Logo na primeira scena, com efeito, e desde as primeiras palavras, se desenha, com grande relevo dramático, a situação angustiosa da heroína, prisioneira da rainha da Inglaterra no castelo de Fotheringhay.

Ana Kennedy, a velha ama de Maria, que fielmente a acompanhou nas agruras desse longo cativeiro, vibra de sincera indignação perante um novo atentado do cavaleiro Paulet, encarre­gado pela rainha Isabel de exercer a mais estrita vigilância sobre a prisioneira. Acompanhado pelo seu ajudante, que empunha uma alavanca, o velho carcereiro propõe-se abrir um armário em que a rainha destronada da Escócia conserva ainda os seus segredos—«papeis insignificantes, simples exercícios de escrita — diz Ana — para encurtar os tristes ócios do cárcere».

Mas Paulet não recua. «É nos momentos de ócio que o espírito malino trabalha.» E tanto pior se êsses papeis são escritos em francês, pois essa é a língua que fala o inimigo da Inglaterra. A sua desconfiança acaba de ser despertada por uma jóia que das janelas alguém arremessou para o jardim. Pretendiam certa­mente corromper o jardineiro...

E, ao abrir finalmente o armário, fazendo saltar uma gaveta secreta, depara-se-lhe um diadema rial, rico de pedrarias, entremeadas com as flores de lis de França. «Emquanto ela

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possuir qualquer coisa, há de sempre prejudi­car, porque nas suas mãos tudo se converte em arma.»

A fiel Ana Kennedy lamenta a perda de mais esse objecto, o último adorno da sua rainha, em cuja contemplação ela encontrava ainda alguma alegria, revendo toda a grandeza passada, os dias em que, muito moça, ao lado do moço rei Francisco II, ocupara o trono de França. Agora, privam-na de tudo. Seus pés, afeitos às alcati­fas, tem de pisar aquele pavimento grosseiro. E é num vilíssimo estanho que a servem...

«Em Sterlyn—acentua Paulet, sarcastica-mente — era assim que ela fazia o marido (1) comer, emquanto bebia por taças de oiro, em companhia do amante.» Não tem um pequeno espelho.,. «Emquanto puder contemplar a sua vã imagem, não cessará de alimentar esperan- ças e ousadias.» Não tem um livro... «Leiam-
-Ihe a Bíblia, para lhe melhorar o coração.» Até o alaúde lhe tiraram... «Porque tocava canções lascivas.» — O espírito do puritanismo endurecia já aquele serventuário da realeza, que, na sua rígida austeridade, entende que todos esses adornos só predispõem para a vai- dade o coração que se deve ao arrependimento, pois «tão somente na privação e na humildade se pode expiar uma vida de frivolidade e de vício.»

(1) O rei Darnley, da Escócia, primo de Ma­ria. Schiller emprega Sterlyn por Stirling..

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Duma probidade inconcussa no cumpri­mento dos seus deveres, sincero e obstinado no seu patriotismo feroz, Paulet vê nessa princesa, cuja guarda lhe foi confiada, a mulher viciosa, adúltera e homicida, expulsa pelo seu povo, deposta do trono que havia manchado com um crime nefando—o assassínio do próprio marido; vê nela a. inimiga da sua fé, que veiu «conspi­rar contra a felicidade do país, trazer-lhe de novo os dias sangrentos de Maria a Espanhola, tornar a Inglaterra católica, traí-la em favor dos franceses;» a intrusa astuciosa, que pre­tende apoderar-se do trono que à rainha Isabel legitimamente pertence e lançar no reino o facho da guerra civil; a hipócrita, que põe ao serviço da sua desordenada ambição uma beleza invul­gar, irresistível, um conjunto de seduções que, mesmo do interior daqueles muros, tem ido armar, lá fora, o braço de mais de um scele-rado (como êsse Parry e êsse Babington que atentaram contra a vida de Isabel), e tem conse­guido perder homens do quilate e da nobreza de alma de Norfolk, cuja cabeça, por amor dela, caiu sob o cutelo do carrasco. «Por amor dela, enchem-se os cadafalsos de vítimas, sempre renovadas, e isto só acabará—exclama Paulet —no dia em que ela, a mais criminosa, ali for também imolada.»

E o carcereiro sente-se acurvar sob o peso tremendo da responsabilidade. Maldito ofício aquele! Ter de guardar a consumada intriguista, a ardilosa criatura «que só gera a desgraça,» e

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que, do fundo da prisão, pretende apoderar-se de toda a ilha.

«Não há varões de ferro que guardem dos seus ardis — clama, apavorado.—Porventura sei se estas grades não estão limadas, se o chão desta câmara, se estes muros, aparentemente tão sólidos, não estão escavados por dentro, para que a traição livremente circule, emquanto durmo?» Dormir? O receio obriga-o a erguer-se de noite e «a errar pelo castelo como uma alma penada, experimentando os ferrolhos e a fideli­dade dos guardas,» e é a tremer que vê despon­tar o dia, que poderá vir confirmar êsses receios.

Os críticos são unânimes em render elogios a esta magnífica scena de exposição, e já Ma-dame de Stael, na resenha que fez do drama no seu livro De 1'Allemagne, a ela se referira com entusiasmo, notando a vantagem da novidade (as scenas de exposição em movimento) sôbre os velhos processos de apresentação prévia do assunto: coros, prólogos, etc.. De notar é, neste ponto, que já Lessing se mostrara exímio nes­tas scenas de abertura, expondo em acção, no­meadamente na Emilia Galotti e na Minna von Barnhelm.

Marie Stuart aproxima-se, meditativa, com um crucifixo nas mãos.

Ao vê-la surgir, o rancoroso carcereiro exclama: «Nas mãos o crucificado, no coração o fausto da corte e os prazeres mundanos!»

Anna Kennedy, no auge da indignação, corre ao encontro da rainha, anunciando-lhe,

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por entre apóstrofes contra a tirania dos carce­reiros, novos sofrimentos, novos ultrajes. «Vê! A tua escrevaninha foi forçada, os teus escritos, o teu único tesoiro, que tão dificilmente salvá­mos, restos do teu adereço nupcial em França, estão em poder deles. Já não possuis o mínimo símbolo de realeza; despojaram-te de tudo!»

Maria mantém uma dignidade calma, uma resignação não isenta de grandeza.

— Socega, Ana. Não são esses adornos que. fazem a rainha. Podem proceder vilmente para connosco, mas não aviltar-nos. Na Inglaterra, tive de habituar-me a muitas coisas; ainda posso suportar mais esta.—E, voltando-se para Pau-let: «Sir, apropriastes-vos violentamente daquilo que tencionava entregar-vos hoje mesmo. Entre esses papeis, encontra-se uma carta dirigida à minha rial irmã de Inglaterra... Dai-me a vossa palavra de que a entregareis lealmente à própria rainha e não às mãos infleis de Bur-leigh... Ides saber o seu conteúdo, sir. Nessa carta, peço uma grande mercê... uma conver­sação com a própria rainha, que estes meus olhos nunca viram... Citaram-me perante um tribunal composto de homens que não reconheço como meus pares e entre os quais não posso contar com uma única simpatia. Isabel è da minha estirpe, do meu sexo e da minha plana: a ela só, à irmã, à rainha, à mulher, é que pode­rei abrir a minha alma.»

Pede ainda um segundo favor. Há muito que se vê privada das consolações da Igreja,

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do benefício dos sacramentos... Quem lhe tirou a coroa e a liberdade, é lhe ameaça a própria vida, não quererá decerto fechar-lhe as portas do céu.

Paulet afiança-lhe que poderá receber o ministro anglicano, ao que ela vivamente res­ponde ser um padre da sua religião que re­clama, assim como um escrivão que redija as suas últimas vontades. Privaram-na dos servi­ços dos seus dignatários mais fieis; quere ao menos ter a certeza de que esses servos leais não sofrem torturas, nem privações.

Quando emfim lhe pede que quebre o seu longo silêncio, que lhe faça saber o que tem a temer ou a esperar, o cavaleiro limita-se a acon-selhar-lhe que regule as suas contas com o céu. E ás reiteradas preguntas de Maria, para que lhe diga se o julgamento se realizou já, e se foi condenada, o carcereiro obstinasse na afirmação de que nada sabe.

A figura rígida e enigmática de Mortimer, sobrinho do cavaleiro, surge um momento no limiar, anunciando ao tio que o procuram.

Maria interpela de novo o seu carcereiro. Tem ainda um pedido a formular: que, quando tenha alguma coisa a dizer-lhe, não se faça substituir por esse rapaz, cujos modos arrogan­tes e incivís não pode suportar.

Paulet assevera que o estima justamente por aquilo que aos olhos dela o torna antipá­tico: Mortimer não é desses efeminados que as lágrimas fingidas duma mulher conseguem amo-

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lecer; viajou, chega de Paris e de Reims, e traz um coração fiel de velho inglês. «Sôbre êle, con­clui, serão inúteis os vossos artifícios, Lady!»

Logo que Paulet se retira, a velha ama de Maria não pode sufocar a sua indignação em face de tanta insolência.

Perdida nos seus pensamentos, Maria obtem­pera suavemente:—«Nos tempos de esplendor, prestámos ouvidos demasiado complacentes aos aduladores. É justo, minha boa Kennedy, que ouçamos hoje a voz severa da censura.»

KENNEDY.—Como? Tão abatida, tão desa­nimada, querida Lady? Outrora tão alegre, éreis vós que me consoláveis, e eu tinha de ralhar-vos mais pela ligeireza do espírito do que pelos momentos de desânimo.

MARIA.—Reconheço-a... É a sombra ensan­guentada do rei Darnley que se ergue, colérica, do túmulo e não me deixará um instante de paz, até que a medida dos meus sofrimentos tenha transbordado.

KENNEDY. — Que pensamentos!

MARIA. — Esqueceste-te, Ana... Mas eu te­nho a memória fiel... O aniversário dêsse acto infeliz passa hoje de novo... e eu celebro-o com a penitência e o jejum.

KENNEDY,—Deixai em socêgo êsse mau espírito. Esse acto, expiaste-lo já por longos anos de arrependimento, por difíceis e dolorosas provas. A Igreja, que possui as chaves da liber­tação para toda a culpa, e o próprio céu perdoa- iam já.

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MARIA.—Sangrando ainda, essa culpa, per­doada há tanto, surge de novo da campa mal cerrada. Nem o toque da missa, nem a hóstia nas mãos do celebrante, podem repelir para o túmulo o espectro dum marido que pede vin­gança.

KENNEDY. —Não fostes vós quem o matou; outros o fizeram.

MARIA.—Mas sabia-o... e deixei que o acto se consumasse... e atrai-o com palavras enganosas para a rede da morte.

KENNEDY. — A mocidade atenua a culpa. Éreis tão nova!

MARIA.—Tão nova! E sobrecarreguei uma existência assim moça com tão pesada culpa!

Ana procura desvanecer a dolorosa impres-são, produzindo argumentos. Não tinha ela sofrido as maiores injúrias da parte dêsse homem vil, que o seu amor arrancara da obs­curidade para conduzir ao trono? Não esque­cera o indigno Darnley quanto lhe devia, para a ultrajar com suspeitas abjectas e costumes brutais, que a seus olhos o tornaram antipá­tico? Quando o encanto se desfizera e ela lhe fugira, cheia de cólera e de nojo, acaso procu­rara ele reconquistar as suas boas graças, pro­metendo emendar-se? Foi com arrogância e brutalidade que procedeu. Quis ser seu rei, quando não passava de vassalo. Sob os próprios olhos da rainha, fizera assassinar o favorito de Maria, o belo cantor Rizzio. Não, ela não fizera

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mais do que vingar com sangue um crime de sangue (1).

E Ana tenta demonstrar que Maria não estava em si, quando se deu o crime. Cegava-a o delírio da paixão que então nutria por Both-well, o sedutor terrível, que a dominava intei­ramente, «enlouquecendo-a com filtros mágicos e artifícios diabólicos...».

Deixando-se arrastar pelas suas palavras e pela visão dos factos estupendos que vai nar­rando, a velha ama quasi se transforma em acusadora. Relembra a scena odiosa em que a rainha, perdido todo o resto do antigo pudor, atravessou as ruas de Edimburgo, levando à sua frente o amante, que conduzia em triunfo a espada veneranda da Escócia, por entre as maldições do povo revoltado; recorda a comé­dia do julgamento que, pela fôrça das armas,

. (1) Philippson, um dos historiadores mais recen­tes de Maria Stuart, demonstra não estarem provadas as acusações de adultério que lhe foram feitas; mas parece ir longe de mais quando afirma a virtude da rainha da Escócia em todas as circunstâncias da sua vida agitadíssima. — «C'esí Èlisabeth qui confribua à accréditer ce bruit (relativamente às relações amorosas com David Rizzio) par un propos mystérieux qu’elle laissa íomber dans une conversation avec l'ambassa-deur de France, en 1'qccompagnani d'une douleur et d'une sympathie hypocrites, à la façon de Mrs. Can-dour dans la School for Scandal ou de l'Arsinoe du Misanthrope. Plusieures annèes s'écoulérent avant que 1'impudicité diabolique de Marie devînt un thème fa-vori des puritains. (A. Filon, ob. cit., em nota).

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ela obrigou, o seu parlamento a representar, absolvendo o assassino Bothwell; e nem esquece a abjecção final—o casamento de Maria, perante o altar, com esse mesmo assassino.

Mortimer, porém, de novo aparece e, entre­gando uma carta à rainha, procura tranquili­za-la: «Não tenhais receio, senhora. Aprendei a conhecer-me.» E pede a Ana. que saia e se con­serve vigilante, para que Paulet os não sur­preenda. A ama hesita, confusa e receosa.

A carta é de Carlos de Guise, cardeal de Lorena e tio de Maria Stuart. Há aqui um ana­cronismo, que Schiller não evitou: a acção passa-se treze anos depois da morte do cardeal.

Com o assentimento de Maria, resserenada já, a ama retira-se.

Surprêsa até à estupefacção, a rainha da Escócia experimenta um vislumbre de espe­rança. «Confiai em Sir Mortimer, portador dêste, —escreve o tio cardeal—pois não tendes na Inglaterra amigo mais fiel.» Não será uma alu­cinação? Julgava-se abandonada do mundo inteiro e encontra um amigo tão perto de si. Encontra-o no sobrinho do seu carcereiro, na­quele em que via o pior inimigo.

Mortimer lança-se-lhe aos pés. «Perdão, rainha, por ter afivelado essa máscara odiosa, que foi para mim uma luta, mas a que devo o poder aproximar-me de vós, o poder trazer-vos auxílio e salvação.»

Esta scena, a mais vigorosa do primeiro acto, atesta o extraordinário poder de dramati-

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zação que Schiller possuia. Produz-se o encontro de duas grandes ansiedades: a de Maria, por saber que novo plano de libertação lhe é ofere­cido; a de Mortimer, por conseguir tudo contar na curta ausência do tio, que breve voltará em companhia de «um homem detestável,» e por ganhar, nesses rápidos momentos, a confiança daquela a quem vem oferecer salvação.

Um fanático e um homem de acção, capaz, por esse mesmo fanatismo, de se expor aos maiores perigos, é a criatura que Maria tem na sua presença. Conta como, educado no ódio sombrio do papismo, uma curiosidade irresis­tível o atraiu para o continente, no desejo vee­mente de conhecer a tão celebrada Itália.

—Era a época da grande festa da Igreja — prossegue.—As estradas regorgitavam de pere­grinos, as imagens de Deus eram coroadas por toda a parte; era como se toda a humanidade caminhasse, em peregrinação, para o reino dos céus... Também eu fui arrastado na torrente dessa, multidão cheia de fé e precipitei-me para os muros de Roma... Que impressão a minha, ó soberana! quando a pompa das colunas e dos arcos de triunfo se ergueu perante mim quando me vi rodeado pela majestade do Coliseu, quando o génio dos escultores me lançou num mundo de maravilhas! Nunca havia experi­mentado a soberania das artes. A Igreja em que me educaram odeia o encantamento dos sentidos, não admite as imagens, só venera o verbo incorpóreo. Que perturbação a minha,

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quando penetrava no interior dos templos, e uma música divina descia sobre mim, e um sem-número de imagens se destacavam dos muros e das abobadas, na presença do Santís­simo Sacramento, que se movia perante os nos­sos deslumbrados sentidos; quando, com êstes olhos, contemplei a Sacra-Família, a Anuncia­ção à Virgem, a Natividade do Senhor, a Santa Mãe de Deus, a Descida da Trindade, o esplen­dor da Transfiguração... — quando vi o Papa, em toda a sua sumptuosidade, celebrar a missa solene e abençoar os povos! Oh! O que era, ao pé dêsse esplendor, o oiro, o brilho das jóias com que se ornam os reis da terra? Só ele convive com o divino. A sua morada é o verdadeiro reino dos céus, pois semelhantes belezas não são deste mundo.

O puritano, para o qual, em regra, as coi­sas da arte são ininteligíveis, fizera-se católico.

A superioridade do catolicismo no domínio das artes, pela plasticização pomposa do culto externo, impressionara sempre o dramaturgo. A riqueza da sua imaginação supria, talvez com, vantagem, o não ter realizado essa tradi­cional viagem à Itália que os grandes espíri-tos da Alemanha se sentiam sempre inclinados a empreender, e que tão benéfica influência exercera sôbre o desenvolvimento da persona­lidade literária de Goethe. A essa admirável intuição, mais ainda que às descrições do seu amigo Goethe, devera Schiller a rara felicidade com que, na abertura do Guilherme Tell, repro-

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duzira a paisagem idílica, e ao mesmo tempo grandiosa, da Suíça, que ele jamais visitara.

O colorido da descrição de Mortimer im­pressiona grandemente Maria Stuart, que lhe roga que a poupe, que cesse de desenrolar perante a infeliz prisioneira «essa tapeçaria palpitante de vida.»

Mortimer abjurara a religião da infância, fizera-se católico, fora levado á presença do cardeal de Lorena-Guise—um verdadeiro prín­cipe da Igreja, como jamais vira outro, e que o mandara para a sua cidade de Reims, onde flo­rescia um colégio de jesuítas, que frequentou. Aí encontrara o bispo escocês de Rosse, exi­lado, em cujo palácio o olhar se lhe deparou num retrato de mulher, de um comovente e prodigioso encanto. Era; o retrato da rainha da Escócia, «a mais bela de todas as mulheres de hoje, (dissera-lhe o bispo) e também a mais digna de compaixão; é pela nossa fé que ela padece e é na vossa pátria que a fazem padecer.» Depois, o prelado explicara-lhe a genealogia de Maria e como só a ela competia reinar na Inglaterra, «e não a essa usurpadora, que o próprio Hen­rique, seu pai, repudiou como bastarda.» Não confiando apenas no testemunho do bispo, Mor­timer fôra consultar hábeis; juristas e lera os velhos armoriais, «Sei agora-exclama — que o direito que tendes sôbre a Inglaterra é o vosso único crime, que este reino vos pertence como coisa própria, quando nele, inocente, sois prisio­neira.»

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Narra ainda como um dia lhe chegara a noticia de que a cativa fora transferida do cas­telo de Talbot para o de Fotheringhay e entre­gue à guarda de seu tio Paulet. Era uma indica­ção do Destino: deveria ser êle o libertador da sua rainha. Por isso estava ali. Chegara havia dez dias. Depois duma pausa prossegue, num deslumbramento:

— Foi então que vos vi, rainha! Éreis vós... e não a vossa imagem... Oh! o tesoiro que êste castelo encerra! Não é uma prisão, é um palácio divino, mais esplendente que o dos reis da Inglaterra. Feliz aquele a quem é permitido respirar o ar que respirais! Tem sobeja razão aquela que aqui vos detém oculta. Toda a juven­tude inglesa se levantaria, nenhuma espada ficaria ociosa na bainha, e a Indignação de cabeça gigantesca se ergueria nesta ilha pací­fica, se aos bretões fosse dado ver a sua rainha!

Outro anacronismo: Maria conserva a antiga beleza, após os dezoito anos de cativeiro que a História conta; mas anacronismo absolutamente preciso para a urdidura da acção e para o signi­ficado poético do drama. Fora sempre a extraor­dinária formosura da Stuart e a sua graciosi­dade de maneiras, adquirida em parte na côrte brilhante dos Médicis de França; que lhe ganhara defensores estrénuos, capazes de todos os sacri­fícios. Essa beleza, mais do que a convicção da legitimidade dum direito, perdera Parry, per­dera Norfolk, ia perder Mortimer e Leicester. O poeta não poderia ver as coisas doutro modo.

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E logo desde a primeira scena, o espírito do espectador é preparado pelos dizeres de Paulet.

Quando Mortimer afirma ser necessário pro­ceder com presteza, Maria pressente que já foi julgada e insta para que lho diga francamente. Conhece então a sua verdadeira situação. Os quarenta e dois juizes do tribunal especial pro­nunciaram-se pela sua culpabilidade. A câmara dos Lords, a câmara dos comuns, toda a cidade de Londres reclamam instantemente a execução da sentença. Só a rainha hesita ainda... E se Isabel assume esta atitude, é mais por refinada astúcia, «para que a obriguem, do que por um sentimento de humanidade ou moderação.»

Maria, sempre rainha, não se mostra sur­-
preendida, nem aterrorizada. Diz estar de há
muito preparada, afirma conhecer os seus jui­-
zes: querem que as suas legitimas pretensões
fiquem com ela enterradas, para sempre, na
noite do cárcere. E quando Mortimer assegura
que só a morte da rival tranquilizará a rainha
Isabel, garantindo-lhe o trono, Maria tem um
assomo de revolta. Ousará ela colocar uma
cabeça coroada sobre o cepo do carrasco? Não
receará a vingança da França? E o rei de Espa­-
nha? E os próprios bretões? Quererá ela dar-
-lhes esse espectáculo? ,

Mortimer não tem ilusões: Isabel ousará tudo. Com a França, acaba de concluir uma paz perpétua, concedendo a mão e o trono ao Duque de Anjou. Nem um mundo em armas a poderá atemorizar, desde que esteja em paz com

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o seu povo. E êste, nos últimos tempos, viu mais de uma mulher descer do trono para subir ao cadafalso. Cita Ana Bolena, a mãe da própria Isabel, e Catarina Howard, e Lady Gray, ás mulheres de Henrique VIII. Mas Maria Stuart não receia o cadafalso; receia «outros meios, mais silenciosos,» a compra dum assassino, por exemplo.

É chegado o momento de Mortimer desvendar o seu plano. Nenhum assassino conseguirá atin­gir a sua rainha. Está tudo preparado: doze mocos do país são seus aliados e devem con­duzi-la à mão armada para bem longe dali. O conde de Aubespine, enviado da França, conhece e protege a aliança; é no seu palácio que os conjurados se reúnem.

Maria estremece, apavorada perante a audá­cia desse moço. Lembra-lhe as cabeças sangren­tas de Babington e de Tichburn, expostas, para exemplo, na ponte de Londres, e incita-o a fugir, pois certamente algum traidor terá já informado Lord Burleigh, o tesoureiro-mór. Nunca a des­graça poupou aqueles que protegeram Maria Stuart!

Mas Mortimer não recuará: será já uma felicidade morrer para a salvar. Tudo inútil, afirma ela. Só a livre vontade de Isabel lhe poderá abrir as portas do cárcere. Um só homem no mundo o poderia conseguir: o conde de Lester (Leicester) (1).

(1) No diálogo, Schiller emprega a forma simpli-

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O outro recua, cheio de espanto. Lester? O conde de Lester! O mais sanguinário dos seus perseguidores, o favorito de Isabel?

Maria porém não desiste da idea. Anima-a uma grande esperança. Que vá, que lhe fale francamente, que lhe leve aquela carta, com um retraio dela.

Mortimer, com a carta nas mãos, não se refaz do espanto, quando Kennedy se precipita na câmara, anunciando a chegada de Paulet, acompanhado de um fidalgo da corte.

— É Lord Burleigh — diz Mortimer. — Sere­nai, rainha. Escutai com sangue-frio a notícia que ele vos traz.

E desaparece, com Ana, por uma porta lateral.

Maria Stuart reveste-se de dignidade, des­prezando os dizeres de Paulet, que lhe reco­menda resignação para ouvir o que Sua Senho­ria, Lord Burleigh, tem a dizer-lhe.

Trava-se então um duelo de palavras, em que a rainha prisioneira se mostra hábil esgri­mista em face da velha raposa de chancelaria.

BURLEIGH.—Venho, como enviado do tri­bunal.

MARIA.—Lord Burleigh, servidor do tribu­nal a que emprestou o seu espírito, empresta-lhe agora a sua palavra.

ficada Lester, por exigências de métrica e, provavel­mente, por ser a mais próxima da pronúncia inglesa. Nas rubricas e na lista das personagens mantém a forma Leicester.

40 REVISTA DE ESTUDOS HISTÓRICOS

PAULET.—Falais, como se conhecêsseis já
a sentença.

MARIA.— Desde que é Lord Burleigh que a traz, decerto a conheço já. De facto, Sir.

BURLEIGH. — Submetestes-vos ao tribunal
dos quarenta e dois, Lady...

MARIA. — Perdão, Milord, por vos cortar a palavra desde o princípio. Que me submeti ao julgamento dos quarenta e dois, dizeis. Nunca o poderia fazer... por respeito da minha plana, da dignidade de meu filho (1) e de todos os príncipes. A lei inglesa determina que todo o acusado seja submetido a juízo perante jurados seus iguais. Quem é meu igual nesse júri? Apenas os reis são meus pares.

O tom dramático vai diminuindo para o fim da scena. Maria Stuart pleiteia como um jurista, produz argumentos sobre argumentos, a que se não deixa dobrar a argúcia do ministro. Toda essa discussão visa a pôr o especta­dor a par das diversas fases do julgamento. O tesoureiro-mórr defende a constituição do tri­bunal: são os primeiros homens do país que o compõem, independentes e acima de toda a sus­peita de corrupção; são os mesmos que gover­nam, com liberdade e justiça, o nobre povo inglês.

Maria porém acusa-os de venialidade e bai­xeza, por se terem submetido aos caprichos de

(1) O rei Jaime VI da Escócia, e depois I da Ingla­terra, filho de Maria Stuart e de Darnley.

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sultão de Henrique VIII, por haverem forjado e derrogado leis (refere-se aos Lords e aos comuns), dissolvendo casamentos, destituindo e deserdando hoje princesas, para amanhã as coroar como rainhas, depois de as haver avil­tado com o nome de bastardas.

Maria reconhece que Burleigh, incorruptí­vel, vigilante, infatigável, só pretende o bem do Estado, mas conjura-o a que se defenda de tomar o interesse do Estado pela justiça. «O bretão não pode ser justo para com o escocês, e o ódio que os separa só deixará de existir no dia em que o mesmo scetro domine em toda a ilha».

A uma frase sarcástica de Burleigh, a. Stuart responde, confessando que alimentara essa espe­rança: de unir as duas nações, livre e jubilo-samente, à sombra da oliveira.

— Foi por mau caminho que. enveredastes para o conseguir—volve Burleigh—pois quises­tes incendiar o reino e subir ao trono por entre as labaredas da guerra civil.

E logo acentua que não foi para discutir que veio ali. Mas a discussão prossegue a propósito das provas que no tribunal se produziram con­tra a acusada : cópias de cartas que lhe são atri­buídas e cujos originais não aparecem, o teste­munho de secretários que â traíram, pactos cuja existência ninguém provara (1).

(1) Os grandes legistas modernos, afirmando o pouco valor dos depoimentos arrancados aos secretários de Maria, opinam que, «no último processo da Stuart,

42 REVISTA DE ESTUDOS HISTÓRICOS

Quando o ministro a acusa de formar planos para aniquilar a religião do país e de excitar os reis da Europa contra a Inglaterra, a heroina proclama que, mesmo que o haja feito, é contra­riamente ao direito das gentes que a conservam ali prisioneira. Esta rainha do século XVI, do século das violências sem limites e da intolerân­cia mais absurda fala como falaria um soberano esclarecido da idade de Schiller. E termina por apostrofar a rainha inglesa: que a mate, que a ofereça como vítima em holocausto à sua segu­rança, mas que não dissimule sob o pretexto sa­grado da lei a tentativa sangrenta da violência, pois semelhante comédia não iludirá ninguém.

— Ela desafia-nos—clama Lord Burleigh, ao vê-la desaparecer, na sua olímpica serenidade.— E desafiar-nos há, Sir Paulet, até nos degraus do cadafalso. Esse coração orgulhoso não é dos que facilmente quebram.

Entre Burleigh e o carcereiro vai passar-se a scena da corrupção. Friamente, calculadamente, o fiel, o digno ministro de Isabel conduz o diá­logo de modo a convencer o carcereiro de que, sendo de absoluta necessidade libertar a Ingla­terra do perigo que a existência de Maria repre­senta, seria no entanto conveniente poupar a rainha a ter de assumir a responsabilidade daquela morte. «Ah! se essa mulher tivesse

como nos processos de 1568 e 1569, nenhuma das regras
tutelares da justiça inglesa foi observada». (A. Filon,
ob. cit.).

REVISTA DE ESTUDOS HISTÓRICOS 43

morrido antes de pisar o solo da Inglaterra! Que a doença a consuma na prisão! E, todavia, se por acaso um acontecimento natural a levasse, chamar-nos-iam decerto assassinos...»

—É bem verdade—concorda Paulet. — Quem pode impedir os homens de pensarem o que muito bem lhes pareça?

— Mas não o- poderiam provar — insinua Burleigh—e faria menos barulho...

Paulet começa a compreender o que pre­tendem dele, e a sua honestidade revolta-se. Se aborrece Maria, é porque vê nela um perigo para a pátria, mas a sua inconcussa probidade não lhe permite tornar-se cúmplice dum crime vulgar.

BURLEIGH. — Se a rainha tivesse servido­res mais atentos!

PAULET. —Mais atentos?

BURLEIGH. — Que soubessem cumprir uma
ordem muda... -

PAULET. — Uma ordem muda?

BURLEIGH. — Que quando confiassem à sua vigilância uma serpente venenosa, não guar­dassem o inimigo como uma jóia preciosa e sagrada.

PAULET, significativo. — O bom nome, a irrepreensível reputação da rainha é também uma jóia de preço, pela qual nos cumpre ve­lar, Sir.

E, quando o ministro, arrancada finalmente a máscara, abertamente lhe diz que, se não quere prestar-se pessoalmente ao acto, poderá

44 REVISTA DE ESTUDOS HISTÓRICOS

no entanto facilitar a acção a um outro, o carácter impoluto de Paul et desenhasse ; com toda a nitidez na fala com que fecha o acto:

— Nenhum assassino conseguirá aproximar-se dela, emquanto os deuses do meu lar a pro­tegerem. A sua vida é para mim sagrada, como o não é mais a cabeça da rainha da Inglaterra. Sois juizes, julgai, condenai-a à morte, e quando o carpinteiro vier, com o martelo e a serra, montar o cadafalso... a porta do meu castelo abrir-se há para o cherife e para o carrasco. Por agora, ela está confiada à minha guarda; podeis ter a certeza de que a guardarei, de modo que ela não faça, nem lhe façam, mal algum.



(Continua).

angelo ribeiro
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