A mídia e o lugar histórico de constituição de si



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A mídia e o lugar histórico de constituição de si

Paulo Fernando de Carvalho Lopes1



Resumo :

Em vários momentos da humanidade, diversas instituições de saber trouxeram para si a condição de orientar os sujeitos à cerca de sua vida em sociedade. Na contemporaneidade, a mídia não é só veiculadora de mensagens, mas constituidora de sentidos. Ela se torna um lugar de referência que traz para si a condição de constituir sujeitos, produzir discursos e dar visibilidade a outros campos sociais invertendo relações de poder hegemonicamente históricas.



Palavras-chave : mídia, história, subjetividade, poder e discursos
Em vários momentos históricos da humanidade, determinadas instituições de saber trouxeram para si a condição de orientar os sujeitos à cerca de sua vida em sociedade. Duas hipóteses norteiam este artigo. A primeira é que hoje, na contemporaneidade, a mídia não é só veiculadora de mensagens, mas constituidora de sentidos. Ela se torna um lugar de referência que traz para si a condição de constituir sujeitos, produzir discursos e dar visibilidade a outros campos sociais, concorrendo para uma disputa de sentido e de público, invertendo relações históricas com outros campos. A segunda hipótese é que a subjetividade do sujeito é construída através de diversos discursos. É no entrelaçamento entre sujeito , discurso e mídia que surge uma forma dele se pensar a si.

Não são mais as instituições clássicas como escola, igreja, família, polícia, que têm-se o poder de dizer e de dar consciência do que somos, o que podemos vir a ser , a mídia ocupa um papel importante no modo de constituição de si.

Um dos objetivos deste trabalho é perceber historicamente este processo ocorreu na sociedade. Na primeira parte deste estudo, é feita uma contextualização - na Grécia, na pastoral Cristã , na Modernidade e na Atualidade - sobre a forma do sujeito constituir a si a partir dos discursos filosóficos, religiosos, psicanalísticos e midiático. Foucault (1985) afirma que para podermos entender algumas maneiras como o sujeito se constitui é preciso investigar historicamente as múltiplas consciências de si existentes no Ocidente.


1. A GRÉCIA E O DISCURSO MÉDICO FILOSÓFICO.


Pensar o modo de se constituir a si na Grécia Clássica é essencial para refletirmos sobre algumas questões que ganham uma maior visibilidade na sociedade atual. É através de regras de comportamento que os filósofos gregos estabelecem um campo de apreciação e de escolha morais.

Para os gregos, o “uso incorreto” da sexualidade levava o indivíduo a adoecer. Eles não associavam o sexo ao mal, ao pecado. A maior preocupação era com a saúde física e moral dos cidadãos. Os indivíduos procuravam se interrogar sobre seu comportamento a fim de se portarem como sujeitos virtuosos e éticos. Era pelo mundo das regras de conduta que a sua imagem de cada um ia sendo construída.

Deve-se entender, com isso, práticas refletidas e voluntárias através das quais os homens não somente se fixam regras de conduta, como também procuram se transformar, modificar-se em seu ser singular e fazer de sua vida uma obra que seja portadora de valores estéticos e responda a certos critérios de estilo. (FOUCAULT, 1985.p.15)
O pensamento filosófico elaborou um discurso sobre o “uso dos prazeres” e regras de austeridade a serem seguidas por todos os cidadãos livres. O descumprimento delas acarretaria doenças físicas ou morais e a possibilidade de uma abreviação da existência. Vários temores rondavam as discussões filosóficas . Um deles era o medo do desperdiço de sêmen por parte dos jovens, pois as conseqüências para tal ato eram: a debilidade do organismo, a morte, a finitude da raça e o comprometimento da humanidade.

Alguns escritos aconselham a não prática de “certos prazeres sexuais”, a menos que o indivíduo quisesse ser ele próprio o prejudicado. Era estabelecido todo um esquema de comportamento donde a fidelidade dos cônjuges demonstrava virtude, firmeza d’alma e domínio de si.

Deveria-se preservar a imagem de homem virtuoso, ativo e viril, afastando-se da imagem dos “efeminados” que pressupunha uma passividade, uma fraqueza e uma ameaça àqueles que procuravam sua temperança.

O modelo de abstenção descreve que o herói virtuoso é aquele que é capaz de se desviar do prazer. Ele é suficientemente senhor de si para se abster dos desejos sexuais. A exigência de uma austeridade não era imposta a todos da mesma maneira, era um complemento à moral onde propunha mais do que impunha.

Para os gregos, a constituição de si passava pelo pensamento médico filosófico que elaborou o chrèsis aphrodisiõn - uso dos prazeres - como forma de comedimento donde foram elaborados alguns discursos baseados em certos temas sobre a austeridade para com o corpo.

Para manter-se são, o indivíduo grego devia constituir a si mesmo enquanto sujeito moral, agindo de acordo com as normas do código. No sistema dos códigos e das regras de comportamento, a ênfase era dada às formas da relação consigo nos diferentes gestos, pensamentos e emoções. Eram os exercícios e as práticas que permitiam a transformação no modo de ser dos cidadãos.



2. A PASTORAL CRISTÃ E O DISCURSO DO PECADO

Falar à respeito da era Cristã pressupõe falar sobre a importância do papel da Igreja e da figura do Cristo na constituição do sujeito, ou seja, como estas duas entidades possibilitaram ao indivíduo pensar-se, são ou doente, de acordo com sua conduta.

Um aspecto bastante singular, nesta relação, é a imagem metafórica de Jesus enquanto “médico de almas”. Em diversas passagens, os evangelhistas Mateus, Marcos, Lucas e Pedro, ressaltaram a presença do Mestre como aquele que curava os enfermos em pecado e o homem necessitado de redenção.

No episódio da cura do enfermos aos sábados lê-se o seguinte: “E os fariseus, tendo saído, formaram conselho contra ele, para o matarem. Jesus, sabendo isso, retirou-se dali, e acompanhou-o uma grande multidão de gente, e ele curou a todos.”2

Segundo Entralgo 3, duas conseqüências históricas resultam desta metáfora significativa: a figura do cristianismo como uma “religião” para enfermos e a penitência como arte de cura. A moral encontrada no domínio da cultura foi o elemento fundador de um discurso que regulava o portar-se e conseqüentemente a imagem de si. É a partir dos discurso proferidos por quem de direito - os seguidores do Cristo - que o sujeito buscava o perdão das ofensas e um retorno feliz ao Paraíso.

A era cristã modificou a maneira como o indivíduo se constituiu enquanto sujeito moral a partir da idéia de pecado. Uma noção implícita, que serviu de base para vários discursos, foi a de que o cristão é descendente do pecado original, ou seja, fruto da Queda. Por causa da desobediência de Adão e Eva, todo indivíduo era um pecador que deveria luta para retornar sem máculas ao Céu.

Para alcançar o “paraíso celestial” era necessário seguir regras universais cujos objetivos eram impedir uma nova queda e a dispersão do rebanho divino diante das tentações da carne.

A concepção cristã da carne como uma fonte de suspeita permanente no interior dos indivíduos irá servir para estabelecer um equilíbrio entre estes dois pólos. Sem comprometer as necessidades de reprodução e organização familiar da sociedade civil, o cristianismo inaugura um meio de controlar o indivíduo pelo sexo. Não se exige uma completa renúncia, mas uma atenção constante aos movimentos da carne que ameaçam continuamente o indivíduo corrompendo seus princípios morais e sua vontade. (BRUNO,1996,p.41)

O poder pastoral imprimia regras cujos efeitos imediatos levavam os indivíduos a se pensarem enquanto sujeitos de moral ética e a estabelecerem uma relação consigo. Elas estabeleciam, em primeiro lugar, a salvação para todos aqueles que eram guiados pelo pastor. Era preciso internalizar este desejo como uma condição de vida. Cabia ao pastor assegurar a realização desta meta e cuidar da saúde de todas as almas através de um acompanhamento individual.

Em segundo lugar devia-se aceitar a autoridade do pastor uma vez que ele está preparando um lugar ao lado do Pai . A terceira técnica era a obediência incondicional ao pastor - vista como uma virtude maior -. Neste período, a vontade do pastor era também a vontade de Deus.

O último requisito era uma obrigação com a verdade. O relacionamento do cristão com o pastor implicava uma série de obrigações, uma vez que este era quem detinha a verdade. Isto poderia acontecer de duas maneiras: na primeira, o pastor era quem ensinava as verdades divinas, seus dogmas, suas regras etc. e na segunda, ele exigia a verdade do que se passava no interior do indivíduo para poder absolvê-lo. A verdade subjetiva deveria ser dita e confessada para possibilitar a purificação.

O momento oportuno - kairós, na Grécia - era voltado para as mulheres. Elas devem se manter virgens até o casamento, ocasião de se entregarem ao seu marido para perpetuar a espécie. O modelo a ser seguido era o da Virgem Maria. Mãe pura e casta.

Quanto aos homens, alguns deles - mais precisamente, aqueles que escolhia o celibato como opção de vida - deveriam resistir aos prazeres e desejos da carne martirizando o corpo, em rituais de auto-flagelação, e a alma, através da abstinência sexual e das privações dos prazeres da comida e do dinheiro.

O modelo a ser seguido era, em primeiro lugar, o de Jesus Cristo e em segundo, o dos santos. Quanto mais difícil e cheia de provas a vida na Terra melhor seria o lugar ao lado do Pai Celestial. O indivíduo cristão deveria estabelecer uma relação consigo para ter domínio sobre si através de um exame de consciência. A resistência aos desejos e prazeres se realizava numa relação agonística.



3. OS DISCURSOS NA MODERNIDADE: TERAPIAS E DESCOBERTAS
É a partir da corte vitoriana que outras formas de constituição do sujeito adquirem legitimidade. Segundo Foucault( 1985) , no início do século XVII ainda vigorava uma certa franqueza nos dizeres a respeito da sexualidade. “Eram frouxos os códigos da grosseria, da obscenidade, da decência, se comparados com os do século XIX”4. No entanto, ainda neste mesmo século, a sociedade burguesa estabeleceu normas de conduta social valorizando a discreção e a decência nas palavras, gestos e atitudes. Todo aquele que infringisse tais normas era considerado anormal.

O século XVIII marca a passagem da Pastoral Cristã para a Modernidade. O discurso centrado na moral foi substituído por um mais racional. Foram criados lugares e instituições onde fosse permitido falar e estudar vários assuntos com destaque para a sexualidade humana. O autor investiga como determinadas práticas discursivas ganham legitimidade em certos campos de saber, com regras próprias, produzindo discursos principalmente a respeito da sexualidade.

Vários métodos foram utilizados no estudo do sexo procurando uma melhor maneira para administrá-lo. Cronologicamente seis instituições tomaram para si este papel: a polícia, o colégio, a medicina (estudo das doenças dos nervos), a psiquiatria, a justiça penal e a psicanálise.

A polícia procurava ordenar as forças coletivas e individuais não através de uma repressão ou proibição, mas com um discurso útil sobre o bem-estar da população. Nos colégios havia toda uma preocupação arquitetônica que regulasse a sua organização interior.

O espaço da sala, a forma das mesas, o arranjo dos pátios de recreio, a distribuição dos dormitórios (com ou sem separações, como ou sem cortinas), os regulamentos elaborados para a vigilância do recolhimento e do sono, tudo fala da maneira mais prolixa da sexualidade das crianças. 5

Era preciso haver uma vigilância sobre o sexo do colegial para que ele não viesse a comprometer a si e a espécie. Os médicos procuravam esclarecer aos pais e professores sobre os perigos de um ato sexual na juventude. A medicina começou a estudar as doenças dos nervos.

A justiça penal tomou para si o estudo da sexualidade a partir de crimes considerados “crapulosos” e antinaturais. Procuravam-se respostas diante dos desvios praticados pelos indivíduos. A sexualidade continua sendo parte do indivíduo constituída como matéria principal de sua conduta moral. No entanto ela adquire um potencial patológico. A vida sexual é responsável pelos desarranjos na vida mental e orgânica, no presente, e possivelmente nas gerações futuras. Exige-se que o indivíduo, com a ajuda de terapêutas, investigue a si a fim de que o sexo revele sua verdade.

Segundo Foucault, os dois principais campos discursivos que deram uma grande contribuição no estudo das “patologias” que envolvem a sexualidade foram: o médico-psiquiátrico e o psicanalítico.

O primeiro campo desenvolveu a chamada de Scientia Sexualis – conjunto de saberes e técnicas sobre a sexualidade. À ela atribuiu-se a tarefa de produzir discursos verdadeiros sobre o sexo. A scientia tem como núcleo o rito da confissão. Diferente da Pastoral onde o grande arquivo dos prazeres sexuais era, por obrigação, esquecido/apagado com o perdão, aqui, graças, a medicina, a psiquiatria e a pedagogia ele passou a ter a forma que possui hoje. Campe, Kaan, Krafft-Ebing, Tardieu, Molle e Havelock começaram a manter o registro infinito dos prazeres criando arquivos para estudos e que foi denominada de “pobre lírica do despropósito sexual”.

É desenvolvido um método de análise da formação de um certo tipo de saber a cerca do sexo. A preocupação médico-psiquiátrica centra-se em quatro grandes conjuntos estratégicos: a histerização do corpo da mulher, a pedagogização do sexo da criança, a socialização das condutas de procriação e a psiquiatrização do prazer perverso.

Quanto ao primeiro elemento, o corpo da mulher foi analisado num tríplice processo. Ele foi integrado, sob o efeito de uma patologia, ao campo das práticas médicas, depois posto em contato com o campo social e por fim no espaço familiar, com a vida das crianças. Exige-se a sanidade da mulher para que ela tenha a responsabilidade biológico-moral da educação dos filhos. A grande apreensão médica é pelo fato da histérica possuir um corpo cuja sexualidade exacerbada pode comprometer o constituir a si, fazendo-a agir como uma ninfômana.

Quanto as crianças é exigido um total controle de pais , educadores e médicos. Eles precisam impedir uma atividade sexual precoce. O combate ao onanismo é justificado pelo perigo que causa a saúde dos jovens e seus descendentes. O excesso pode acarretar desarranjos no corpo e na alma. Isto requer uma técnica corretiva através de uma ortopedia discursiva.

É detectado que existe um potencial patogênico nas condutas de procriação, tanto para o indivíduo quanto para seus descendentes. Por isso existem maneiras certas de incitar ou refrear a fecundidade dos casais. Determinadas práticas de controle de nascimento ou o adultério, podem desencadear no cônjuges, principalmente na mulher, doenças físicas ou mentais. Elas, por sua vez, podem ter efeitos maléficos sobre a descendência e prejuízos para o Estado.

No final do século XVIII surge a denominação do perverso. Ele fere deliberadamente a lei e é “transpassado pela tenebrosa folia do sexo”. Junto com ele diversos outros tipos de sexualidades - “sexualidades periféricas” - são objetos de estudos por parte da ciência. O perverso é responsável pelos desarranjos orgânicos ou mentais que abarcam tanto o indivíduo quanto à espécie. Para estudá-lo, o instinto sexual foi isolado como instinto biológico e psíquico autônomo. Os pesquisadores analisaram todas as formas de anomalia que podem afetá-lo a fim de estabelecer uma tecnologia corretiva.

No segundo campo discursivo, Freud formula uma etiologia sexual das neuroses onde a origem das forças impulsionadoras da neurose está na vida sexual. Ele concebe a sexualidade para além da atividade genital cujo o potencial patogênico e a perversão diferem das correntes médico psiquiátricas.

Dizia Freud que as exigências de uma sexualidade sadia entravam em contradição com as da sociedade de seu tempo. Não somente a falta de satisfação pela ação repressiva direta seria a causa das neuroses mas, também, o recalque das representações e desejos sexuais, recalque este atribuído à moralidade do próprio sujeito, ao seu ideal, enquanto fruto da educação. O ato repressivo seria, apenas, em parte, responsável pela formação das neuroses. 6

Há um recalcamento de boa parte dos componentes pulsionais originários devido às exigências morais e culturais. A libido mesmo represada continua agindo no inconsciente e a requerendo uma descarga, uma satisfação. A neurose surge quando começa a haver conflitos entre o ego e certos impulsos sexuais que ameaçam a integridade ou os padrões éticos do primeiro.

É a partir da análise da atividade sexual infantil que o pai da psicanálise define a libido como manifestação dinâmica na vida mental da pulsão sexual 7. As pulsões estão presentes desde início da vida do indivíduo e têm lugar nas zonas erógenas. Procuram satisfazerem-se, num primeiro momento, independentemente umas das outras. No processo de desenvolvimento do indivíduo, elas se tornam cada vez mais concentradas e convergentes.

A força patogênica da sexualidade deve-se ao fato dela ser recalcada por excelência. A doença é resultado de um recalque, de um déficit na satisfação sexual e não de um excesso antinatural ou de uma falha na interiorização dos códigos morais.

4- A ATUALIDADE E OS DISCURSOS MIDIÁTICOS

A Atualidade é o final desta narrativa histórica sobre o modo de constituição de si. Neste momento, a sexualidade continua tendo importância, contudo ela não é mais a essência do discurso que leva o indivíduo a se pensar doente. Os discursos na atualidade centram-se nas novas descobertas tecnológicas. Uma verdade continua habitando o inconsciente, mas não é preciso que o indivíduo gaste anos e anos para se conhecer. Isto pode ser feito o mais rápido possível através de um detalhado exame de código genético. A verdade do ser encontra-se registrada no DNA. A informação contida nos genes permite detectar as doenças antes mesmo delas se manifestarem. A idéia básica do nosso tempo é que graças a tecnologia pode-se achar, o mais breve, a cura para todas as doenças, inclusive os desvios da sexualidade. O conceito de anormal encontra-se em xeque. A sociedade começa a tentar a conviver com o diferente desde que ele não a ponha em risco.

A constituição do sujeito é mediada pelos meios de comunicação e pelas novas tecnologias. Num primeiro momento, afirma-se que a mídia assume uma posição de diagnosticar, de esclarecer etc. os indivíduos tomando para si um papel que antes era dos médicos, modificando a relação8 entre médico-paciente.

No dizer midiático é possível perceber como é construída discursivamente uma noção de sujeito. Até algum tempo atrás eram as instituições tradicionais - escola, igreja, Estado – as responsáveis pela imagem de si exigida aos indivíduos. Hoje, a cada edição ou período são divulgadas matérias apresentando novos estatutos de constituição do ser. Diante da profusão de informações divulgadas global e instantaneamente, sobre as mais recentes descobertas, não existe um discurso tão hermético e duradouro como existiu em outros momentos. Cada vez mais rápido modelos e paradigmas são substituídos por outros mais novos.

Está implícito, na sociedade atual, que o campo dos mídias é autônomo, ou seja, ele não é apenas um lugar de recepção das representações sociais. Ele é um agente que constrói, articula, pedagogiza, e hierarquiza saberes através de regras e poderes específicos, tomando para si um lugar que antes já fora de outras instituições sociais.

A mídia procura relatar, através de artigos, reportagens, entrevistas etc., o que se passou num outro lugar e num outro instante. Ela oferece, ainda, ao leitor, uma noção de realidade utilizando os processos de linguagem, segundo uma articulação de operações especificas. A economia discursiva de cada suporte, aponta para o objeto do qual falam, no nosso caso, a noção de saúde . É pelo sistema de linguagens que um fato é produzido, circula e é consumido no mercado simbólico.

A sociedade atual possui características que a difere muito de todas as outras. A relação temporal presente/passado é substituída pela relação presente/futuro. A culpa de um passado errante não encontra um eco forte ao ponto de paralisar, cristalizar o sujeito num discurso de “mea culpa”. O gozo desta nova vida é aqui/agora.

Se antigamente a moral era rigorosa para com o indivíduo obrigando-o a dominar e sublimar desejos em prol do despertar da consciência para desta forma conseguir o paraíso celestial, hoje, a preocupação é com a melhor maneira de obter prazer, como conseguir ser feliz sem tanto sofrimento.

Lipovetsky9 afirma que a sociedade atual erradicou as imposições da moral e a cultura do dever por sacrifício morreu. Vivemos em um período pós-moralista onde a ética que se estabelece reivindica regras justas e equilibradas, apela para a responsabilidade e não para obrigação. Não há lugar para a renúncia de nós mesmos, as lições de moral ficam ofuscadas pelo brilho dos flashes e promessas de viver melhor e divertimento proporcionado pela mídia.

Hoje vivemos a cultura do self-love onde já não propõe estrangular o desejo mas exacerbá-lo e desculpabilizá-lo. O usufruto do presente, o templo do eu, do corpo e do desconforto são a nova Jerusalém. Há duas tendências na sociedade pós-moral. Uma incita os prazeres imediatos, quer sejam consumistas, sexuais ou distrativos. Sobrevaloriza a pornografia, a droga, o sexo selvagem, a bulimia de objetos e de programas midiáticos, a explosão do crédito e o endividamento doméstico. A outra tendência privilegia a gestão ‘racional’ do tempo e do corpo, a “qualidade total”, uma obsessão pela saúde e pela higiene.

O homem contemporâneo lida diariamente com inúmeros riscos. Ele estabelece uma relação de prazer com estilos de vida sem se reprimir, pois sabe que se tomar determinada atitude pode conseguir um resultado positivo (fama) ou negativo (morte). Cabe a ele decidir se quer ou não correr o risco.

Na Atualidade, o grande paradoxo de nosso tempo é que não somos mais pecadores, mas portadores de doenças que poderão virtualmente aparecer. Assim nos comportamos como doentes sem estarmos doentes. Os sujeitos estabelecem consigo uma identidade fornecida pelo padrão de saúde e de boa vida oferecidos pela mídia e pelo paradigma da longevidade presente em nossa sociedade.

As publicações estão repletas de informações sobre a melhor maneira de se fazer exercícios, as possíveis causas de certas doenças: como preveni-las ou tratá-las, e ainda, técnicas de como retardar o envelhecimento. Os sujeitos devem manter-se informados e seguir as dicas dadas pelos meios de comunicação. O mercado editorial investe em artigos e imagens que mostrem o corpo humano funcionando com todas as suas potencialidades através de ângulos inéditos

Torna-se possível programar a si e ao nosso corpo com as informações fornecidos pelos mídia e desta forma constituir uma identidade.10 Na era da felicidade, do prazer sem risco e da doença sem dor, a comunicação exerce um papel importante quando apresenta diversos tipos de opções a fim de que se possa escolher a melhor maneira de manter ou ficar em forma e apagar do rosto e do corpo as marcas do tempo.

O público adquire uma compreensão da realidade social fornecida, em grande parte, pelo que está presente na mídia. O leitor se informa sobre determinado assunto a medida em que ele é tema da cobertura mediática. Desta maneira, pressupõe-se haver um público-leitor interessado nas informações que indicam uma melhor maneira de se manter jovem e são.

Considerações finais

O conhecimento dos possíveis riscos possibilita a emancipação e/ou a liberação. Os cristãos, acreditavam que deveríamos sofrer no presente para alcançar o Paraíso no futuro. Para os modernos, a negatividade, eram os micróbios e o anormal. Havia uma espécie de temor coletivo diante do futuro. Os indivíduos deviam cuidar de si e de sua saúde levando em conta a saúde coletiva e das gerações futuras. O futuro era um lugar de realização.

Atualmente, o futuro passa a ser um tempo que deve ser adiado por ser o lugar onde vai ocorrer a nossa degradação. A doença, a morte e a velhice são anunciadas, de uma maneira alarmista, como o nosso negativo. Isto torna o futuro algo que deve ser evitado. Procura-se antecipar as doenças e as causas da morte para melhor as evitar. Um discurso sobre o bem-estar faz parte da teleologia do sujeito contemporâneo.

Os discursos veiculados na mídia chamam a atenção para a responsabilidade de vivermos amanhã de acordo com o que fazemos hoje. O indivíduo é responsável por sua vida, sua morte, sua saúde, sua doença e as condições de vida das gerações futuras.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BRUNO, Fernanda. Diet’ética: A Saúde na Mídia. In ECO- Publicação da Pós-Graduação em Comunicação e Cultura. Rio de Janeiro: Imago, vol.05, 1992, p.69-82.

_____________. Do Sexual ao Virtual. Dissertação de Mestrado UFRJ, 1996.

CADERNOS IPUB. O Discurso em Mosaico - Contribuições da Lingüística e da Semiologia para o campo da Saúde Mental. Rio de Janeiro: UFRJ, n.05, 1997.

ENTRALGO, Laín. História Universal de La medicina. Barcelona: Salvat, 1972.

FAUSTO NETO, Antônio. Mortes em Derrapagem - os Casos Corona e Cazuza no discurso da comunicação de massa. Rio de Janeiro: Rio Fundo Editora, 1991. 204p.

____________. A Deflagração do Sentido - Estratégias de produção e de captura da Recepção. Revista Textos de Cultura e Comunicação . Salvador: n.01, p. 58- 80, 1985.

FOUCAULT, Michel. A História da Sexualidade 1 - A vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal, 1985. 152p.

_____________. A História da Sexualidade 2.- O uso dos prazeres. Rio de Janeiro: Graal, 1988. 232p.

___________. A História da Sexualidade 3. - O cuidado de si. Rio de Janeiro: Graal, 1985. 246p.

FREUD, Sigmund. O futuro de uma ilusão. O mal-estar na civilização. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. vol. XXI. Rio de Janeiro, Imago, 1974.

LIPOVETSKY, Gilles. O Crepúsculo do Dever. A Ética Indolor dos Novos Tempos Democráticos. Lisboa: Dom Quixote, 1994, 320 p.

VAZ, Paulo. O Inconsciente Artificial. São Paulo: Unimarco,1997.



1 Doutor em Comunicação e Cultura pela UFRJ e Professor Adjunto I da Universidade Federal do Piauí

2 Mateus. XII, 14:15.

3 Entralgo, Laín. In História Universal de La Medicina. Ed. Salvat, Barcelona, 1972, Tomo III, p.01.

4 ---------------. Op. cit. , p.9.

5 Règlement de police pour les lycées (1809) in A História da Sexualidade 1. Op. cit. p.151.

6 Jaldo, Antônio in Psicologia e Psicanálise: Desafios. Brasília, Edunb, 1993, p.09.

7 Freud nesta época falava em pulsões parciais. Depois ele passou a se referir a pulsão. A pulsão é única e indiferenciada, são as suas representações no aparelho psíquico que fazem as diferenças.

8 Segundo Boltanski, dentro das classe populares, segundo uma visão mais cientificista, o médico é o principal agente de difusão de conhecimentos cujo a legitimidade de seus atos e discursos são respaldados pela ciência legítima. Hoje a relação se modifica com a mídia assumindo o papel de divulgação em massa de diagnósticos.

9 Gilles LIPOVETSKY, O Crepúsculo do dever - a ética indolor nos novos tempos democráticos. Dom Quixote, 1994.

10 Fernanda BRUNO, Diet’ética: A saúde na mídia, in Publicação da Pós-Graduação em Comunicação e Cultura n. 05.

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