A mídia sonora na construção da identidade de uma comunidade: o caso da Vila Maria da Conceição



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A mídia sonora na construção da identidade de uma comunidade: o caso da Vila Maria da Conceição

Alessander Kerber1

Resumo:

Neste trabalho, pretendo analisar a influência da mídia sonora na construção da identidade de uma comunidade, mais especificamente, a da Vila Maria da Conceição, em Porto Alegre, dos anos 80 ao período atual. A organização desta comunidade em torno da Escola de Samba Puro tem sido o principal eixo articulador da sociabilidade e da identidade da mesma. O registro sonoro dos sambas entoados por tal Escola no decorrer das últimas duas décadas, conhecido e cantado por uma grande parte dos moradores do local, tem sido um elemento essencial na construção da identidade da mesma. Entendendo identidade como um sentimento e idéia de pertencimento a um grupo, pretendo uma análise das representações presentes nestes registros sonoros bem como em depoimentos de integrantes do movimento musical da comunidade.


Palavras chave: mídia sonora, identidade, Vila Maria da Conceição.
As cidades e seus bairros, vilas, regiões, os diversos espaços em que vivem comunidades são materialidade. São, por excelência, o espaço da construção humana. Porém, como materialidade erigida pelo homem, também são sociabilidade e, ainda sensibilidade.

“É construção de um ethos, que implica na atribuição de valores ao que se convenciona chamar de urbano, é produção de imagens e discursos que se colocam no lugar da materialidade e do social e que os representam; é percepção de emoções e sentimentos; é expressão de utopias, desejos e medos, assim como é prática de conferir sentidos e significados ao espaço e ao tempo, que realizam na e por causa da cidade.” (PESAVENTO, 2002: 24)

Neste sentido, a construção material e as divisões espaciais da cidade são, também, representações de construções imaginárias e divisões entre identidades. Cada cidade expressa, de variadas formas, uma identidade. Porém, sendo a cidade, por excelência, o espaço da diversidade, em uma cidade existem várias identidades que se distinguem, através de suas alteridades, através de símbolos que definem o espaço de cada uma.

Neste sentido, ao se falar em comunidade, não se está apenas referindo um grupo humano que reside em determinado espaço, mas um grupo que atua dentro deste espaço, que imagina, que idealiza, que sonha este espaço. Enfim, em todas as comunidades há a construção de identidades e, freqüentemente, através das lutas entre representações identitárias, há a vitória de uma identidade sobre outras na definição cultural da cidade ou de determinados espaços dela. No caso de Novo Hamburgo, só para citar um exemplo, construiu-se uma identidade fortemente vinculada à representações da cultura alemã, como o próprio nome da mesma já indica. Sendo Novo Hamburgo, também, um espaço de diversidade, há, nesta construção identitária, um processo de inclusão de alguns grupos e de exclusão de outros. Há, por exemplo, uma significativa parcela da população negra. Esta, apesar de conviver na comunidade, é imaginada como alteridade.

Caso oposto ocorre na Vila Maria da Conceição, em Porto Alegre, caso que será enfocado neste estudo, onde, apesar de haver elementos étnicos brancos convivendo neste espaço, construiu-se uma identidade negra, como vamos averiguar.

O trabalho que aqui apresento parte de desdobramentos de uma pesquisa que realizei para a Prefeitura Municipal de Porto Alegre, intitulada “Memória Musical da Vila Maria da Conceição” (KERBER, 2004). Não querendo realizar apenas um trabalho descritivo, mas analítico, acerca desta memória, uma primeira questão que me ocorreu foi, justamente, o que analisar. Tendo em vista que foi a própria comunidade local que, um ano antes, havia solicitado, no Orçamento Participativo, uma pesquisa sobre a história e a memória da música naquela comunidade, bem como que fosse gravado um CD com o registro sonoro de algumas das músicas que mais marcaram aquele grupo, pareceu-me instigante analisar os motivos disso.

Obviamente, a música é algo de grande importância para a identidade daquela comunidade. Aliás, poder-se-ia afirmar que a identidade da comunidade deste espaço da cidade de Porto Alegre constrói-se especialmente através de representações musicais. Com o desenvolvimento da mídia, especialmente no século XX, a memória coletiva tornou-se, nas sociedades ocidentais, cada vez mais vinculada a ela. A vontade desta comunidade em fazer um registro sonoro de suas principais canções indica-nos, então, um desejo de garantir a preservação de uma identidade.

Para analisar a identidade musical da comunidade, recorri, então, principalmente, a dois principais tipos de fontes: 1. Aos registros musicais e, neste grupo de fontes, aos sambas-enredo da Escola de Samba local e às canções escolhidas pela comunidade para serem registradas em CD; 2. Depoimentos cedidos por integrantes do movimento musical da comunidade.

Entendendo uma identidade como, ao mesmo tempo, idéia e sentimento de pertencimento a um grupo, o qual se une em torno de uma série de representações, tenho este conceito como fundamental para este trabalho. Para se relacionar com o mundo real, cada cultura constrói, a partir das práticas sociais, representações deste, as quais acabam orientando, novamente, as suas práticas sociais. As representações são, assim, a forma de conhecimento da realidade que cada grupo social ou sociedade constrói e reelabora através de lutas constantes.

Para a compreensão do real, há um processo de significação e associação com símbolos já existentes no imaginário daquele grupo. Até o desconhecido é pensado a partir de símbolos já conhecidos. Uma realidade, assim, nunca é apreendida de forma pura, sempre é apropriada e simbolizada, consciente ou inconscientemente, pelos grupos que dela se aproximam. E, é nesta atribuição de sentido, que percebemos que as representações não são “ingênuas”. Apesar de se proporem a uma aproximação com a realidade, sempre são influenciadas pelos interesses do grupo que a produz (CHARTIER, 1990: 17).

As representações que constituem o imaginário de um grupo social, como a comunidade da Vila Maria da Conceição, se baseiam em elementos da realidade concreta, dando, a estes, um significado, a partir dos desejos e necessidades conscientes e inconscientes dos grupos envolvidos. Como afirma Backzo:

“Os sistemas simbólicos em que assenta e através do qual opera o imaginário social são construídos a partir da experiência dos agentes sociais, mas também a partir dos seus desejos, aspirações e motivações. Qualquer campo de experiências sociais está rodeado por um horizonte de expectativas e de recusas, de temores e de esperanças.” (BACKZO, 1985: 311)

A Vila Maria da Conceição é fruto do crescimento da cidade de Porto Alegre, em meados do século XX, e da insuficiência dos setores públicos em proporcionar a urbanização necessária aos grupos sociais menos favorecidos.

As leis trabalhistas criadas durante o período que muitos historiadores definem como “Era Vargas”, estavam destinadas apenas aos trabalhadores das cidades, fazendo com que o trabalho neste local se tornasse mais atrativo e favorecesse a urbanização e a industrialização do país. A tendência política da época, que começou a ser constituída já nos anos 30, tentava incorporar esta mão-de-obra à modernização do país, reduzindo ou eliminando os conflitos de classe

“Cabia, neste sentido, superar tanto o ‘espírito antipatronal’ do operariado, quanto a mentalidade reativa da burguesia a uma política de incorporação do trabalhador à empresa e à sociedade.” (GOMES, 1979: 210)

Apesar de atrair trabalhadores dos mais variados lugares para a cidade, especialmente para as maiores, amplos segmentos sociais não foram incluídos neste processo de modernização. No caso de Porto Alegre, alguns destes segmentos foram habitar a Vila Maria da Conceição.

Em função disso, um elemento essencial que compõe a identidade desta comunidade é a questão da exclusão social. Nas próprias expressões utilizadas por seus integrantes para se representar demonstra-se esta questão. Ao se representarem, utilizando o termo “excluídos”, definem-se em oposição aos “incluídos” da cidade. Ao se representarem como “periferia”, expressão também presente no discurso de vários dos integrantes da comunidade, definem-se em oposição a uma comunidade central da cidade, em oposição a uma comunidade privilegiada que, diferente deles, tem acesso às vantagens e ao bem estar que a cidade proporciona.

Como fruto do crescimento populacional de Porto Alegre e da insuficiência do poder público na urbanização e assistência aos pobres, a Vila Maria da Conceição também é fruto do processo de exclusão social ocorrido durante o século XX. Ele inicia-se com a modernização e higienização das zonas centrais de várias cidades importantes do Brasil, como Porto Alegre. Estes processos estão associados à expulsão dos pobres destas áreas da cidade. Estas camadas sociais são levadas a se instalar nos bairros mais afastados. Assim:

Por exemplo, Rodrigo Corrêa de Souza, integrante do grupo musical “Obsessão”, em seu depoimento, define três espaços sociais: o morro, a baixada e o asfalto. Há uma relação de identidade entre o morro e a baixada, que são as duas regiões da Vila Maria da Conceição (o morro é a parte mais alta e a baixada, a mais baixa, em termos de relevo). Ao mesmo tempo, define uma relação de alteridade entre o morro e o asfalto, que representa a cidade “incluída”. O asfalto, símbolo da modernização, também serviu, no imaginário desta comunidade, para representar a inclusão social. Apesar de algumas ruas da Vila terem recentemente sido asfaltadas, este asfalto ainda representa os espaços da sociedade de classe média, onde o poder público mais agiu historicamente no processo de modernização da cidade.

Ao mesmo tempo, em vários discursos de moradores e outros integrantes da comunidade, mantém-se presente uma certa indignação em relação à atuação da polícia com a comunidade. O samba enredo, composto pelo Mestre Paraquedas (Eugênio Silva Alencar) para o carnaval de 1989, censurado, inclusive, pelo poder público, foi inspirado em uma destas situações. Em 1989 ainda havia o que Paraquedas chama de “restinho de repressão”, pois as músicas e enredo de carnaval tinham que passar pela censura federal.

“Eu tinha visto uma cena que me marcou [...] Tinha o seu João e o filho dele. O seu João era um negro pedreiro. Mas ele não se metia com ninguém, era um negro que só cuidava da família [...] A polícia que veio de lá, botou o seu João na parede. Aí pegaram a pastinha do Seu João, tinha uma marmita dentro [...] eles faziam assim com a marmita dele [mostrando para o pé que esfregava no chão]”

Esta situação o inspirou a fazer o seguinte samba:

“[...] Vai quem deve e quem não deve também

Negro e pobre por certo é marginal

Leva em cana e caga este negro a pau, ai

Mas onde está a liberdade desta tal democracia

Leis que protegem quem tem dinheiro e mordomia

Pobre Zé, não tem direito e valor

Vive reverenciando, o muito obrigado senhor”

Neste ano, o tema da escola tinha passado pela censura, as fantasias também, mas a letra da música, não. Foi até marcada a frase que não poderia sair. Ela dizia: “Só pegando no cano [o revólver] se ganha a parada”. Paraquedas apresentou-se, então, à censura e o censor lhe perguntou: “Seu Eugênio, o senhor é anarquista?” Paraquedas lhe respondeu que dependia do que ele considerava anarquismo. O censor retrucou que, pela sua leitura, a música incentivava as pessoas a pegarem em armas. Mestre Paraquedas disse que era isso mesmo. Isso fez com que a música não passasse. Não aceitando mutilar sua obra, Paraquedes fez outro samba enredo para a Escola, também crítico à exclusão social mas sem as expressões que, no outro samba, haviam sido censuradas. A música “É morro, é favela, é gueto, é quilombo” foi a grande vencedora do Carnaval de Porto Alegre.

“No dia que o doutor compreender

Que quem vive lá no Morro

também tem direito a viver

Viver com dignidade, sem opressão sem maldade

Então tudo vai mudar, vai mudar

Eu vou ser tratado como gente por aí

Vou ter casa, comida e um trabalho onde ir

As crianças todo o dia irão à escola estudar

E a velhice quer a condição de descansar, olhe bem

Enquanto este dia não vem

Sou o canto sou a luta sou a voz de quem não tem

É morro, é favela, é gueto é quilombo

É samba é quizomba meu povo”

Neste sentido, a crítica à exclusão social apresenta-se em várias canções produzidas por esta comunidade. Há um processo de identificação, também, com setores excluídos do Brasil como um todo, o que se mostra no samba-enredo do carnaval de 1995, de autoria de Ivan Paulo Martins, chamado “Maior Mágico do Mundo, o Operário do Brasil”. O compositor Ivan Paulo Martins (48 anos), que mora na Vila desde 1969, fala da dificuldade que o compositor popular que não tem apoio da mídia tem. Comenta, o autor, que:

“Eu fiz me baseando na história do trabalhador. [...] Naquela época o David Cooperfield fazia aquelas mágicas. Aí ele sonha que é um milionário daí quando ele acorda ele maior mágico do mundo, o operário do Brasil, porque para viver com [um salário]. [...] Me baseei na minha história mesmo”

A música diz:

“Como é que eu faço

pra poder sobreviver?

Dinheiro é pouco,

mal dá pra comer.

Me esforço muito,

trabalho tanto,

Recebo pouco,

que baita sufoco!

Tô com a corda no pescoço.

Chego em casa cansado,

No rádio um papo “furado”

Anunciando novo plano no Brasil.

Sobrou pra mim!

Pra acabar com essa história

Que só explora e enrola

Resta eu sonhar

este sonho cor de anil.

Dormi, sonhei que era um milionário,

Burguesia sem horário

que não sabe o que tem.

Extravasar na Ilha da Fantasia,

Festejando todo o dia,

vendo o dinheiro render.

Quando acordei,

“Nega Véia” me chamando,

A marmita fui pegando

para não perder o trem.

Eu me “flagrei”

que sou o Copperfielf,

Maior mágico do mundo,

operário do Brasil.”

Associada a esta identidade de exclusão está a identidade étnica. Realmente, a composição étnica do Morro é, em grande maioria, composta por afro-descendentes. Contudo, entendendo a etnicidade como um processo em construção constante que se relaciona com as necessidades contemporâneas de cada grupo, e não como algo dado naturalmente, adotamos a idéia de Barth, em que:

“[...] as distinções étnicas não dependem de uma ausência de interação social e aceitação, mas são, muito ao contrário, freqüentemente as próprias fundações sobre as quais são levantados os sistemas sociais englobantes. A interação em um sistema social como este não leva a seu desaparecimento por mudança e aculturação; as diferenças culturais podem permanecer apesar do contato interétnico e da interdependência dos grupos.” (BARTH, IN: POUTIGNAT, 1998: 188)

Contudo, a identidade étnica negra sempre sofreu exclusão social na história brasileira. Até o começo do século XX, ao se pensar a questão do atraso do Brasil, colocava-se, como bode expiatório, a questão da influência africana e a mestiçagem na composição étnica do povo brasileiro. O samba-enredo de 1994, composto por Mestre Paraquedas, intitulado “Ainda Hoje, Zumbi”, retoma, novamente, a questão da exclusão, associando-a a identidade étnica negra:

“Samba Puro é Zumbi,

é liberdade

É Palmares, é Brasil realidade.

Surge no horizonte uma esperança

Porque aqui a luta ainda continua

Valeu até o sofrimento de Zumbi

O negro é hoje consciência

Da razão de ser

um negro no Brasil.

Resgata das raízes

a cultura do passado

E faz tua bandeira

no caminho do futuro.

Zumbi ainda é força

na semente que plantou.

É linda a negritude

de quem negro sabe ser

No ritmo,

na alma e na sua poesia

É África

presente no nosso dia-a-dia.

Na sua humildade

muito pouco o negro quer

Constar os seus direitos

como um cidadão qualquer.

Hoje, trezentos anos se passaram

Que acabaram

com o Quilombo dos Palmares

Mas não morreu

a luta pela liberdade.

Mais do que nunca

no meu peito está batendo

O grito insatisfeito de Zumbi.”

Parece haver uma associação entre uma identidade de classe e uma identidade étnica. Assim, negro e pobre são utilizados, às vezes, quase como sinônimos, representando esta identidade de exclusão manifestada pela comunidade. Desta forma, Maurício Molina Leites (25), do grupo de rap “Alvo do Sistema” (ver anexo 10), afirma que existem brancos fazendo hip hop

“mas que são criados na favela. Isso não quer dizer, porque eu sou branco eu não sou criado numa favela, não convivo com negro. Eu, particularmente, detesto música de branco entendeu, porque, infelizmente ainda não vi nada até hoje. Tem música para playboy, música para negro e música para quem gosta de funk. [...] Tu vai no Dado Bier: só toca umas danças que tu fica pulando, fica te atirando para tudo o que é lado, não tem uma identidade. Agora tu vai num [ambiente de hip hop], os caras estão ali curtindo a letra, estão ouvindo a música.”

Maurício é autor de uma música intitulada “O negro”, que diz:

“Há mais de quinhentos anos

Vivemos escravizados

Nenhuma senzala sofrida...

Vivemos trancafiados...

E agora, chega aí então!

Você conhece seu passado, irmão?

Muitos negros parecem não ter conhecimento

De todo seu passado, de todo o seu sofrimento...

Então se conscientize e olhe para trás

Nossos ancestrais foram vendidos como animais

Dentro de porões, dentro de desespero...

Agonizando, morrendo em navios negreiros...

Atravessaram o mundo para serem vendidos aqui

Da áfrica ao Brasil, brutalidade igual, não ví...

As chicotadas foram dadas

Há quinhentos anos atrás

Ano dois mil não cicatriza mais

A marca está no rosto, está na nossa letra...

Nos livros de história e em toda raça negra

Que foi massificada e vive humilhada

E o sistema filha da puta que assiste não faz nada

Pois a maioria outra cor de pele tem

E o racismo guardado dentro do peito também

Ninguém nesse mundo vale mais que ninguém

O essencial é o conteúdo que a sua mente tem

Primeiro ame sua pele, depois sua cor...

Ame sua cultura, guarde nosso valor...
Seja informado

Seja um negro inteligente

Seja informado

Lute pela nossa gente


Que irmão é você?

Seja um verdadeiro preto

Que irmão é você?

Seja um verdadeiro preto

Que irmão é você?

Seja um verdadeiro preto

Que irmão é você?

Que irmão é você?”

Mariza Jussara R. da Silva (58 anos), integrante do grupo de trabalho “Marias Marias”, veio para a Maria da Conceição com 4 anos. Junto a outras mulheres negras da comunidade, pensaram em juntar um grupo para fazer algum trabalho, artesanal ou manufatireiro, para vender, acabando por escolher a tecelagem. Ela afirma:

“A música faz parte do nosso grupo porque nós somos, nós fizemos parte de um grupo de Pastoral do Negro e o negro tem toda esta musicalidade. Cantando, trabalhando, está cantando, está fazendo alguma coisa, está cantando. E nós também fizemos parte aqui do Grupo de Celebração Afro, que nós temos na comunidade. E aí é onde a gente canta as nossas músicas. [...] Quem nos trouxe este movimento negro para cá para dentro da comunidade, que já faz mais de 20 anos, foi o padre Antonhinho. Então começamos na Pequena Casa com um grupo de Pastoral, junto com um grupo de mães que já havia na Pequena Casa. Aí depois a gente começou a fazer reuniões [...] de movimento negro, as mulheres. [...] Eu acho que aqui em Porto Alegre, nós aqui da Maria da Conceição somos o maior quilombo negro que tem. Sabe? É mais enraizado aqui na Maria da Conceição.”

Segundo ela, na origem, na década de 50, a Vila Maria da Conceição não era dominantemente negra, tornou-se um “quilombo” posteriormente:

“Nesse tempo aqui não tinha muito negro não. Veio muita ‘catarina’ para cá também. Aqui ficou assim uma ‘catarinada’ geral. E depois foi mudando, foi, foi mudando. A negrada começaram a se apossar mais da comunidade.”

Neste sentido, a identidade negra é um elemento fundamental na composição identitária da Conceição a ponto de, alguns integrantes da comunidade, verem este espaço de Porto Alegre como um quilombo. Esta identidade se expressa na canção de celebração afro “Negro Nagô”, interpretada pelo grupo Marias Marias:

“Eu vou tocar minha viola

Eu sou negro cantador

O negro canta, deita e rola

Lá na senzala do senhor.

Dança aí negro nagô

Vou botar fogo no engenho

Aonde o negro apanhou

O negro é gente como outro

Quer ter carinho, e quer amor

Dança aí negro nagô!

Tem que acabar com essa história,

Que negro é inferior.

O negro é gente e quer escola,

Quer dançar samba e ser Doutor

Dança aí negro nagô!

O negro mora na favela

Não é culpa dele não senhor,

A culpa é da abolição,

Que veio e não libertou

O negro está em toda parte

Na Assembléia e sindicato,

Daqui a pouco vamos ter

A Raça negra no senado!”

Desta forma, percebe-se que a comunidade da Vila Maria da Conceição recorreu à mídia sonora para cristalizar uma memória coletiva, a qual está associada à identidade da mesma. Na escolha das músicas para este registro, bem como nos depoimentos cedidos por integrantes da comunidade, percebe-se que se construiu uma identidade de exclusão social. Contudo, esta exclusão manifesta-se tanto no lamento pelas difíceis condições da realidade, como no desejo da mudança em relação a ela. Enquanto que lamenta-se todas as coisas tomadas como negativas, exalta-se os elementos tomados como positivos e, entre eles, a música é essencial. Desta forma, este registro sonoro apresenta-se como uma tentativa de expressar feiúra e beleza, violência e amor, desvalorização e valorização que convivem neste espaço de Porto Alegre e que compõe a identidade do mesmo.


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1 Professor do Centro Universitário FEEVALE e do Departamento de História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul; Doutorando em História (UFRGS), Mestre em História (UNISINOS), Bacharel e Licenciado em História (UFRGS).

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