A memória, a história, o esquecimento



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Encontro03.08.2016
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RICOEUR, Paul. Fase documental: a memória arquivada. In: _____. A memória, a história, o esquecimento. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 2007.



  • Será preciso, contudo, não esquecer que tudo tem início não nos arquivos, mas com o teste­munho, e que, apesar da carência principal de confiabilidade do testemunho, não temos nada melhor que o testemunho, em última análise, para assegurar-nos de que algo aconteceu, a que alguém atesta ter assistido pessoalmente, e que o principal, se não às vezes o único recurso, além de outros tipos de documentação, continua a ser o confronto entre testemunhos.” p. 156

  • “... ao passar da memória à historiografia, mudam de signo conjuntamente o espaço no qual se deslocam os protagonistas de uma história narrada e o tempo no qual os aconte­cimentos narrados se desenrolam.” p. 156

  • “As lembranças de ter morado em tal casa de tal cidade ou de ter viajado a tal parte do mundo são particularmente eloqüentes e preciosas; elas tecem ao mesmo tempo uma memória íntima e urna memória compartilhada entre pessoas próximas: nessas lembranças tipos, o espaço corporal é de imediato vinculado ao espaço do ambiente, fragmento da terra habitável, com suas trilhas mais ou menos praticáveis, seus obstáculos variadamente transponíveis; é “árduo”, teriam dito os Medievais, nosso relacionamento com o espaço aberto à prática tanto quanto à percepção.” p. 157

  • “Mas colocar-se deslocar-se são atividades primordiais que fazem do lugar algo a ser buscado.” p. 157

  • “Para dizer a verdade, os deslocamentos do corpo e mesmo a sua manutenção, no lugar não se deixam nem dizer, nem pensar, nem sequer, no limite, experi­mentar, sem alguma referência, ao menos alusiva, aos pontos, linhas, superfícies, volumes, distâncias, inscritos em um espaço destacado da referência ao aqui e ao acolá inerentes ao corpo próprio.” p. 158

  • “É nos confins do espaço vivido e do espaço geométrico que se situa o ato de habitar.” p. 158

  • “Seja ele espaço de fixação no qual permanecer, ou espaço de circu­lação a percorrer, o espaço construído consiste em um sistema de sítios para as inte­rações mais importantes da vida.” p. 159

  • “É na escala do urbanismo que melhor se percebe o trabalho do tempo no espaço. Urna cidade confronta no mesmo espaço épocas diferentes, oferecendo ao olhar urna história sedimentada dos gostos e das formas culturais. A cidade se dá ao mesmo tempo a ver e a ler.” p. 159

  • “Com respeito à questão que desencadeou as observações precedentes, a do desligamento do espaço dos geógrafos e dos historia­dores em relação ao espaço da experiência viva, ancorada por sua vez na extensão do corpo e de seu ambiente, não se deve valorizar exclusivamente a ruptura. Evocamos mais acima o esquema de uma alternância de rupturas, de suturas e de retomadas em um nível superior das determinações que dependem do plano existencial.” p. 161

  • “Em conclusão, da fenomenologia dos “locais” que seres de carne e osso ocupam, abandonam, perdem, reencontram – passando pela inteligibilidade própria da arquitetura –, até a geografia que descreve um espaço habitado, o discurso do espaço traçou ele também um percurso ao sabor do qual o espaço vivido é alternadamente abolido pelo espaço geométrico e reconstruído no nível hipergeométrico da oikoumenê.” p. 162

  • “Esse caráter primitivo do sentimento dos intervalos resulta da relação que o tempo mantém com o movimento: se o tempo é “alguma coisa do movi­mento”, é preciso uma alma para distinguir dois instantes, relacioná-los um ao outro como o anterior ao posterior, apreciar sua diferença (heteron) e medir os intervalos (to metaxu), operações graças às quais o tempo pode ser definido como ‘o número do mo­vimento segundo o anterior-posterior’.” p. 163

  • “Dito isso, a contribuição do tempo calendárico consiste em uma modalidade pro­priamente temporal de inscrição, a saber, um sistema de datas extrínsecas aos acon­tecimentos. Assim como no espaço geográfico os lugares referidos ao aqui absoluto do corpo próprio e do ambiente se tornam locais quaisquer que se deixam inscrever entre os sítios cujo plano é desenhado pela cartografia, também o momento presente com seu agora absoluto torna-se urna data qualquer entre todas aquelas cujo calendário permite o cálculo exato no âmbito deste ou daquele sistema calendárico aceito por uma parte mais ou menos extensa da humanidade.” p. 164

  • “Reconhecemos ainda o tempo calendárico ou crônico no tempo da cronometria e da cronologia. O primeiro designa os ciclos curtos ou longos do tempo que retorna, anda em círculos: dia, semana, mês, ano; o segundo designa o tempo linear dos períodos longos: século, milênio, etc., dos quais a escansão é diversamente pontuada por eventos fundamentais e fundadores.” p. 165

  • “Por cronosofia, Pomian entende as grandes periodizações da história como as do islã e do cristianismo (em Daniel e Santo Agostinho) e suas tentativas de colocar-se em correspondência com a cronologia; enfrentam-se nesse campo as crono­sofias religiosas e as cronosofias políticas; aparece na Renascença uma periodização em termos de ‘épocas’ da arte li no século XVIII em termos de ‘séculos’.” p. 166

  • “Não admitimos de bom grado o estatuto cronosófico da idéia, ainda familiar aos historiadores profissionais, de tempo linear cumulativo e irreversível. A cronosofia do tempo cíclico na virada do século XX bastaria para lembrá-lo.” p. 167

  • “O conceito de épocas (op. cit., capítulo 3) é talvez o mais perturbador, na medida em que parece superpor-se à cronologia para recortá-la em grandes períodos. Assim continuamos, no Ocidente, a dividir o ensino da história e até da pesquisa entre Antigüidade, Idade Média, Tempos Modernos, mundo contemporâneo.” p. 167

  • “‘Assumida em sua realidade essencial, a língua é uma instância, continuamente e a cada instante, em processo de transição antecipatória. [...] Em si mesma, a língua não é uma obra acabada (ergon), mas uma atividade que se está fazendo (energeia). Por isso, sua verdadeira definição só pode ser genética.’ (apud L’Ordre du temps, p. 209).” p. 169

  • “Com o testemunho inaugura-se um processo epistemológico que parte da memória declarada, passa pelo arquivo e pelos documentos e termina na prova documental.” p. 170

  • “Além disso, no próprio interior da esfera histórica o testemunho não encerra sua trajetória com a constituição dos arquivos, ele ressurge no fim do percurso epistemológico no nível da representação do passado por nar­rativas, artifícios retóricos, colocação em imagens. Mais que isso, sob certas formas contemporâneas de depoimento suscitadas pelas atrocidades em massa do século XX, ele resiste não somente à explicação e à representação, mas até à colocação em reserva nos arquivos, a ponto de manter-se deliberadamente à margem da historiografia e de despertar dúvidas sobre sua intenção veritativa.” p. 170

  • “A atividade de testemunhar, capturada aquém da bifurcação entre seu uso judiciário e seu uso historiográfico, revela então a mesma amplitude e o mesmo alcance que a de contar, em virtude do manifesto parentesco entre as duas atividades, às quais será preciso em breve acres­centar o ato de prometer, cujo parentesco com o testemunho permanece mais dissi­mulado. O arquivamento, do lado histórico, e o depoimento perante um tribunal, do lado judiciário, constituem usos determinados prescritos de um lado para a prova documental, do outro, para a emissão da sentença. O uso corrente na conversação comum preserva melhor os traços essenciais do ato de testemunhar que Dulong re­sume na seguinte definição: “Uma narrativa autobiográfica autenticada de um acon­tecimento passado, seja essa narrativa realizada em condições informais ou formais” (Le Témoin oculaire, p. 43).” p. 172

  • A especificidade do testemunho consiste no fato de que a asserção de realidade é inseparável de seu acoplamento com a autodesignação do sujeito que testemunha. Desse acoplamento procede a fórmula típica do testemunho: eu estava lá. O que se atesta é indivisamente a realidade da coisa passada e a presença do narrador nos locais da ocorrência. E é a testemunha que de início se declara testemunha.” p. 172

  • “É por isso que a impressão afetiva de um acontecimento capaz de tocar a testemunha com a força de um golpe não coincide necessariamente com a importância que lhe atribui o receptor do testemunho.” p. 173

  • “A testemunha confiável é aquela que pode manter seu testemunho no tempo. Essa manutenção aproxima o testemunho da pro­messa, mais precisamente da promessa anterior a todas as promessas, a de manter sua promessa, de manter a palavra.” p. 174

  • “O que faz a instituição é inicialmente a estabilidade do testemunho pronto a ser reiterado, em seguida a contribuição da confiabilidade de cada testemunho à segurança do vínculo social na medida em que este repousa na confiança na palavra de outrem.” p. 174

  • “... o crédito outorgado à palavra de ou­trem faz do mundo social um mundo intersubjetivamente compartilhado. Esse com­partilhamento é o componente principal do que podemos chamar “senso comum”. E ele que é duramente afetado quando instituições políticas corrompidas instauram um clima de vigilância mútua, de delação, no qual as práticas mentirosas solapam as bases da confiança na linguagem.” p. 175

  • “O momento do arquivo é o momento do ingresso na escrita da operação histo­riográfica. O testemunho é originariamente oral; ele é escutado, ouvido. O arquivo é escrita; ela é lida, consultada. Nos arquivos, o historiador profissional é um leitor.” p. 176

  • “O arquivo apresenta-se assim como um lugar físico que abriga o destino dessa espécie de rastro que cuidadosamente distinguimos do rastro cerebral e do rastro afetivo, a saber, o rastro documental.” p. 177

  • “... o arquivo promove a ruptura com o ouvir-dizer do testemu­nho oral. Naturalmente, se os escritos constituem a porção principal dos depósitos de arquivos, e se entre os escritos os testemunhos das pessoas do passado constituem o primeiro núcleo, todos os tipos de rastros possuem a vocação de ser arquivados. Nesse sentido, a noção de arquivo restitui ao gesto de escrever toda a amplitude que lhe confere o mito do Fedro. Pela mesma razão, toda defesa do arquivo permanecerá em suspenso, na medida em que não sabemos, e talvez não saibamos jamais, se a passagem do testemunho oral ao testemunho escrito, ao documento de arquivo, é, quanto a sua utilidade ou seus inconvenientes para a memória viva, remédio ou ve­neno.” p. 178

  • “... um documento de arquivo está aberto a quem quer que saiba ler; ele não tem, portanto, um destinatário, designado, diferentemente do testemunho oral, dirigido a um interlocutor preciso; além disso, o documento que dorme nos arquivos é não somente mudo, mas órfão; os testemunhos que encerra desligaram-se dos autores que os “puseram no mundo”; estão submetidos aos cuidados de quem tem competência para interrogá-los e assim defendê-los, prestar-lhes socorro e assistência.” p. 179

  • “Se se pode falar de observação em história, é porque o rastro é para o conheci­mento histórico o que a observação direta ou instrumental é para as ciências naturais. O testemunho figura aí na condição de primeira subcategoria; ele traz de imediato a marca que distingue seu emprego na história de seu emprego nas trocas ordinárias nas quais predomina a oralidade.” p. 180

  • “Além da interdição elementar da contradição formal – um acontecimento não pode ao mesmo tempo ser e não ser –, a argumentação vai da arte de desmascarar as im­perícias dos plagiários, de discernir as inverossimilhanças notórias, até a lógica das probabilidades.” p. 184

  • “‘Na crítica do testemunho, quase todos os dados são viciados’ (op. cit., p. 116) – com a probabilidade do juízo de autenticidade produzido pelo leitor de arquivos. Entre o pró e o contra, a dúvida se faz instrumento de conhecimento na avaliação dos graus de verossimilhança da combinação escolhida.” p. 184

  • “‘Como o do médico, o conhecimento histórico é indireto, indiciário e conjetural’ (op. cit., p. 154). Nisso a escrita, a textualidade, que desmateria­liza a oralidade, não muda coisa alguma, pois é ainda e sempre de casos individuais que trata o historiador.” p.185

  • “O benefício da contribuição de C. Ginzburg é então o de estabelecer urna dialética do indício e do testemunho no interior da noção de rastro e de, assim, dar ao conceito de documento toda sua envergadura. Ao mesmo tempo, a relação de complementa­ridade entre testemunho e indício vem inscrever-se no círculo da coerência interna­-externa que estrutura a prova documental.” p. 185

  • “... o beneficiário da operação seria o conceito de documento, soma dos indícios e dos testemunhos, cuja amplitude final alcança a amplitude inicial do rastro.” p. 186

  • “Coloca-se nesse estágio a noção de prova documental, que designa a porção de verdade histórica acessível nessa etapa da operação historiográfica.” p. 188

  • “... não há observação sem hipóteses nem fato sem perguntas. Os documentos só falam quando lhes pedem que verifiquem, isto é, tornem verdadeira, tal hipótese.” p. 188

  • “Rastro, documento, pergunta formam assim o tripé de base do conhecimento histórico.” p. 188

  • “Para o historiador, o documento não está simplesmente dado, como a idéia de rastro deixado poderia sugerir. Ele é procurado e encontrado. Bem mais que isso, ele é circunscrito, e nesse sentido constituído, instituído documento, pelo questionamento.” p. 189

  • “Torna-se assim documento tudo o que pode ser interrogado por um historiador com a idéia de nele encontrar uma informação sobre o passado.” p. 189

  • “Ora, esses testemunhos orais só se constituem em documentos depois de gravados; eles deixam então a esfera oral para entrar na da escrita, distanciando-se, assim, do papel do testemunho na conversação comum. Pode-se dizer então que a memória está ar­quivada, documentada. Seu objeto deixou de ser uma lembrança, no sentido próprio da palavra, ou seja, algo retido numa relação de continuidade e de apropriação com respeito a um presente de consciência.” p. 189

  • “O fato não é o acontecimento, ele próprio devolvido à vida de uma consciência testemunha, mas o conteúdo de um enunciado que visa a representá-lo. Nesse sentido, deveríamos sempre escrever: o fato de que isto ou aquilo aconteceu. Assim compreendido, pode­-se dizer do fato que ele é construído pelo procedimento que o extrai de uma série de documentos dos quais se pode dizer que, em troca, o estabelecem.” p. 190


Fichamento realizado por Sirlene Ribeiro Góes
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