A metalinguagem como estratégia de seduçÃo na leitura de crônicas de luís fernando veríssimo



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A METALINGUAGEM COMO ESTRATÉGIA DE SEDUÇÃO NA LEITURA DE CRÔNICAS DE LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO
Lúcia Helena Junqueira Maciel Bizzotto (Fale - Ufmg)

Resumo: Neste trabalho, faremos a apresentação de uma pesquisa com crônicas de Luís Fernando Veríssimo, atentando-nos, principalmente, para os aspectos metalingüísticos presentes no corpus analisado. Nosso objetivo é mostrar como a metalinguagem se apresenta como uma estratégia discursiva utilizada por Veríssimo, a fim de envolver e seduzir o leitor no ato linguageiro, permitindo que ele também seja inserido nesse contexto discursivo. Esse cronista não tem nenhuma intenção de produzir efeitos de verdade, mas, sim, efeitos de nonsense... Para isso, recria um novo contexto e situações novas de interação, a partir das re-significações das palavras, que são por demais exageradas ou explícitas para serem tomadas como “credíveis”. Há um jogo desenfreado que se estende nas explicações e comentários do narrador. Através da astúcia, do bom humor, da ironia, do deboche, da descrença, do exagero e do absurdo, ele não só brinca com as palavras, com os sentidos e com as significações, mas “zomba”, de modo gentil, das crenças lingüísticas do leitor, despertando nele emoções, intenções e seduções.
1. INTRODUÇÃO

Agora, na minha opinião, nos anos próximos, a pesquisa sobre o discurso, qualquer que seja a sua forma, deveria ser, dentro das ciências da linguagem, a perspectiva mais importante, já que abrange tanto aspectos empíricos como cognitivos e representacionais da comunicação humana.” (P. Charaudeau)1



As crônicas, por serem textos breves e, por isso, muitas vezes indicados e apropriados para a sala de aula, despertam o interesse e a curiosidade da maioria dos leitores, não só dos alunos, mas também dos professores e daqueles estudiosos que se interessam pela análise discursiva de textos literários. Nosso propósito é, através da análise discursiva das crônicas, “apre(e)nder” um olhar crítico e aguçado do e no mundo em que vivemos, para que possamos, também, levar o outro (alunos, professores) a essa prática relevante e prazerosa nos caminhos da leitura. Além disso, pretendemos investigar, em textos literários, a contribuição da Análise do Discurso para o estudo dos fenômenos lingüísticos. Acreditamos que esse procedimento poderá auxiliar o professor/aluno a perceber as várias significações subjacentes nas crônicas e a descobrir as marcas explícitas e implícitas no texto literário, e que nos levam a interpretar a atitude do sujeito comunicante face ao seu dito, ao seu ouvinte e à sua representação de mundo. Enfim, acreditamos que, através das descrições teóricas e da aplicação prática nas crônicas, “ os estudos discursivos podem possibilitar diferentes abordagens e propiciar uma prática de leitura agradável para o grupo (professor/aluno), pois tais estudos levam ao prazer de descoberta da ‘fabricação’ de um texto, com seus encantos mistérios”. (MACHADO,2002)
A análise discursiva de textos literários é uma prática que vem se tornando comum nos dias de hoje e a crônica de Luís Fernando Veríssimo tem sido utilizada como objeto de pesquisa pelos analistas do discurso, tendo em vista a amplitude de elementos discursivos encontrados explícita e implicitamente na obra desse autor. Tal fato contribuiu para que escolhêssemos Veríssimo como fonte para nossa pesquisa, além de ser ele um cronista que desperta nos leitores uma curiosidade e um prazer intensos, que tornam o estudo agradavelmente trabalhoso. Esperamos que nossa pesquisa contribua, ainda que minimamente, para os estudos discursivos de textos literários, oferecendo outros elementos para a análise de textos de ficção, o que permitirá uma leitura crítica e acuidada tanto na situação de sala de aula, quanto em outros contextos de leitura da vida cotidiana. Gostaríamos, também, que nosso trabalho torne-se objeto de interesse daqueles que sentem desejo de ler sempre além do que as palavras dizem e que tenham prazer em mergulhar nas águas profundas e misteriosas da criatividade discursiva e da sensibilidade humana.
2. O METADISCURSO (A METALINGUAGEM)
O recorte feito nessa obra de Veríssimo se deve ao fato de que esse autor realiza, sobretudo em cinco crônicas selecionadas em uma parte intitulada “De olho na linguagem”, da obra Comédias para se ler na escola, um trabalho intenso sobre o que poderíamos chamar de “metalinguagem” ou “metadiscurso”, isto é, o discurso que se refere, implícita ou explicitamente, a seu próprio código ou a seu próprio funcionamento. Poderíamos até mesmo dizer que toda palavra é metalingüística, já que ela remete sempre a si mesma. Tal afirmação está coerente com as idéias de Ducrot (apud Maingueneau,1997:93), quando esse teórico afirma que “a partir do momento que falamos, falamos de nossa fala.”
Segundo Maingueneau (2000:97), o discurso é cheio de metadiscurso, uma vez que
“... o locutor pode, em todo momento, comentar sua própria enunciação do interior mesmo dessa enunciação (...) Esse metadiscurso pode, igualmente, atingir a palavra do co-enunciador, para confirmá-la ou reformá-la: ao mesmo tempo em que se realiza, a enunciação auto-avalia-se, comenta-se, solicitando a aprovação do co-enunciador...”
Dessa forma, a metalinguagem presente nas crônicas selecionadas pode ser considerada uma estratégia discursiva no momento da captação e na dramatização da escritura do texto de ficção e é exatamente esse aspecto que nos induz a esta pesquisa semiolingüística e à análise deste corpus. Consideramos, ainda, que tais elementos estratégicos não só caracterizam as crônicas de humor escolhidas, como também as aproximam, no que se refere à significação enunciativa, e permitem um trabalho de análise discursiva, tomando como base teórica o contrato de comunicação de Charaudeau, bem como a mise-en-scène da prática linguageira.
Esse metadiscurso poderá atingir a palavra do leitor, a fim de confirmá-la ou reformulá-la; a enunciação, ao mesmo tempo que se realiza, auto-avalia-se, solicitando uma aprovação do leitor. Assim, podemos identificar algumas funções do metadiscurso, conforme Maingueneau (1997, 93-94; 2000, 97-98):


  • auto-corrigir-se ou corrigir o outro;

  • marcar a inadequação de certas palavras;

  • eliminar, com antecedência, um erro de interpretação;

  • desculpar-se ou solicitar permissão para empregar certos termos;

  • reformular a proposição;

  • fazer uma preterição;

  • confirmar; ou, ainda,

  • construir uma imagem do locutor, diferenciando-se de outra.

É importante ressaltar que essa classificação é flexível, pois, na realidade, o que interessa à Análise do Discurso não é determinar todas as funções do metadiscurso, e, sim, articular a função deste ou daquele marcador de metadiscurso com o micro e o macrotexto nos quais intervém.


É nosso propósito, neste trabalho, identificar as funções metadiscursivas (ou metalingüísticas) nos textos selecionados e analisar as relações existentes entre essas funções e o discurso presente nesses textos. Assim, poderemos perceber que o metadiscurso é um conjunto de acréscimos contingentes que têm por objetivo retificar a trajetória da enunciação, colocá-la em conformidade com as intenções do locutor. Essas intenções são percebidas e inferidas através das glosas empregadas com freqüência no desenrolar das crônicas, as quais apresentam-se “...como a exibição de um debate com as palavras, o qual se pretende exemplar; ela define para o co-enunciador o bom caminho através do rumor infinito dos signos da língua e do interdiscurso.”. (Maingueneau, 1997:94)
3. A CRÔNICA DE HUMOR DE VERÍSSIMO
O ‘grande mistério’ é a simplicidade.”

(R.Braga)8
A escritora Ana Maria Machado, no prefácio do livro Comédias para se ler na escola (Veríssimo, 2001:14), comentando sobre as crônicas de Veríssimo e seu estilo, diz o seguinte:
“Sobre qualquer assunto e a qualquer pretexto, o autor revela suas obsessões, fala das mesmas coisas, preocupa-se com o social e o ético, despreza solenemente o econômico... e encontra sempre uma maneira nova de fazer isso, como se nunca o tivesse feito antes. As situações podem ser quotidianas, mas os ângulos geralmente são insólitos e inesperados. Ou então reforçam o já esperado, mas com tão exatas pitadas de exagero que a caricatura até parece um retrato realista pelo avesso, em que o lado cômico é revelado em sua verdadeira grandeza e o sentido profundo aparece com nitidez.”
É dessa forma que Veríssimo escreve suas crônicas, recheadas de humor, pinceladas de deboche, e apimentadas de ironia, de maneira caricatural e às vezes irreverente, numa atitude “brincalhona” e “não séria”, que o faz deslocar da posição de escritor para a posição de leitor, como se a voz daquele que fala fosse também a voz daquele que lê, operando uma identificação com o outro. É interessante notar que a própria capa do livro analisado, Comédias para se ler na escola, ilustra bem essa imagem rebelde e irreverente do cronista: uma caricatura de Veríssimo que assume a posição de aluno em uma carteira escolar, na qual ele está assentado sobre livros, tendo à mão um aviãozinho de papel; no chão, estão rolinhos de papel jogados displicentemente; além disso, vê-se um rolinho lançado ao ar, na parte superior da capa, como se estivesse sendo lançado na direção do próprio leitor. O sorriso maroto e simpático do Veríssimo/aluno estampado nessa ilustração confirma a sua função de cronista/humorista: despertar no leitor o prazer pelo texto e mostrar que ele (escritor/narrador) também se torna o outro (o leitor, por exemplo, o aluno), assim como o próprio leitor (por exemplo, o aluno) poderá colocar-se no lugar de escritor/narrador, havendo, portanto, de modo implícito, o desejo de que uma troca de papéis entre os actantes desse ato de comunicação se opere. Esse diálogo entre o cronista e o leitor torna-os cúmplices no ato de reinventar e re-significar o mundo pelo viés da literatura; cronista e leitor, juntos, vão experimentar vontades, desejos, curiosidades e indignações.

Ainda nos remetendo a um outro cronista para falarmos de crônica, podemos repetir as palavras de Rubem Alves (2002:61), que diz: “Crônicas, para serem gostosas, devem refletir a imensa variedade da vida. Um cronista é um fotógrafo. Ele fotografa com palavras. Crônicas são dádivas aos olhos. Ele deseja que os leitores vejam a mesma coisa que ele viu.”

Esse cronista é também Veríssimo, que consegue atingir seus objetivos da sedução de seu estilo e da leitura prazerosa de seus textos, através de um fator extremamente significativo em sua arte “fotográfica”: a linguagem. Para Ana Maria Machado, ainda no prefácio do livro por nós trabalhado (Veríssimo, 2001:14-15), Veríssimo:
“...conta com seu magistral domínio da linguagem e do ritmo da narração. Tem uma admirável economia no uso das palavras - tudo é enxuto, nada sobra. No país do barroco, é quase minimalista. Seus diálogos dão até a impressão de que saíram de uma fita gravada. (...) Estamos exatamente diante daquele processo que Carlos Drummond de Andrade descreveu tão bem, ao dizer que queria a beleza da simplicidade - mas não a beleza do que nasceu simples e sim a beleza do que ficou simples. Fruto da atenção impiedosa, muito trabalho e aguda consciência de como cortar.”
É essa linguagem de Veríssimo - descompromissada, próxima da linguagem falada, que mais parece um “bate-papo” com o leitor - que nos permitirá fazer nosso trabalho de pesquisa, tendo em vista que esse artista da palavra vê a linguagem - como dizia o crítico Roland Barthes para caracterizar um escritor” (apud Machado, in Veríssimo, 2001:15)

As crônicas por nós selecionadas demonstram essa maestria de Veríssimo em lidar com a palavra de maneira tão natural e espontânea, buscando na simplicidade, no lúdico e no humor os ingredientes principais para “servir” o seu texto e fazê-lo ser visto, lido, experimentado e “saboreado”, como ele próprio o faz.


4. A METALINGUAGEM COMO ESTRATÉGIA DISCURSIVA DE SEDUÇÃO
Analisando nosso corpus, notamos a presença de enunciados metalingüísticos, que, de maneira freqüente e sistemática, perpassam não só os textos analisados, mas também o discurso inferido nesses textos. A metalinguagem se apresenta, pois, como uma estratégia discursiva utilizada por Veríssimo, a fim de envolver o leitor no ato linguageiro, permitindo que ele também seja inserido nesse contexto discursivo. Veríssimo utiliza a metalinguagem nas crônicas estudadas, na medida em que explica para o leitor de seu texto o mundo ao qual ele está se referindo, ou seja: explica o significado das palavras usadas em seu discurso; tece comentários sobre elas; retifica ou ratifica os significados e sentidos dados pelos dicionários; reconstrói novos sentidos e significados para as palavras e ainda recria um novo contexto e situações novas de interação, a partir das alterações e re-significações das palavras.
Assim, podemos observar, nos enunciados metalingüísticos encontrados nas crônicas, as seguintes funções:
i) corrigir a explicação dada pelos dicionários a respeito do sentido ou significado das palavras, dando a elas um novo sentido, mais “correto” e mais coerente, conforme o próprio locutor (Veríssimo) intui ou pressente, como se vê nos trechos abaixo :
Certas palavras têm o significado errado. Falácia, por exemplo, devia ser nome de alguma coisa vagamente vegetal.” (“Defenestração”)

Defenestrar devia ser um ato exótico praticado por poucas pessoas.” (“Defenestração”)

(... )E ‘quatrilhão’ não é como, por exemplo, ‘otorrino’, que cai no chão e corre para um canto.” (“Pudor”)
ii) redefinir as palavras, explicando os significados que, para o autor, fazem mais sentido e são mais pertinentes, conforme as passagens seguintes:
( O Vizeu é um vento que nasce na costa ocidental da África, faz a volta nas Malvinas e nos ataca a bombordo, cheirando a especiarias, carcaças de baleia e, estranhamente, a uma professora que eu tive, no primário.)” (“O jargão”)

( A sanfona é um perigoso fenômeno que ocorre na vela parruda em certas condições atmosféricas e que, se não contido a tempo, pode decapitar o piloto. Até hoje não encontraram a cabeça do comodoro Abelardo.)” (“O jargão”)

Já a terrível palavra ‘seborréia’ escorre pelos cantos da boca e pinga no tapete.” (“Pudor”)

Gosto da palavra ‘fornida’. É uma palavra que diz tudo o que quer dizer.” (“Palavreado”)


iii) fazer uma preterição:
Não estou dizendo que quem escreve sobre economia não sabe o que está escrevendo, ou se aproveita da ignorância generalizada para enganar. Estou dizendo que a análise econômica é uma arte tão imprecisa que, mesmo desconfiando do embuste, a maioria hesitaria antes de denunciá-lo.” (“O jargão”)
iv) construir uma imagem do locutor/autor, ora inusitada, heróica e aventureira:
Mas, na minha imaginação, sou um marinheiro de todos os calados. Senhor de ventos e de velas e, principalmente, dos especialíssimos nomes da equipagem.” (“O jargão”)
Ora crítica, irônica:
Sempre imaginei que poderia escrever uma coluna de economia usando um jargão falso assim, com pseudônimo.” (“O jargão”)
Ora rebelde, irreverente:
Agora mesmo me deu uma estranha compulsão de arrancar o papel da máquina, amassá-lo e defenestrar esta crônica. Se ela sair é porque resisti.” (“Defenestração”)
Ora “brincalhona”, não-séria:
Mas experimente dizer ‘silfo’. Não voou, certo? Ao contrário da sua mulher, ‘silfo’ não voa. Tem o alcance máximo de uma cuspida. ‘Silfo’, zupt, plof.” (“Pudor”)

E ‘caos’, você sabe. É uma palavra chiclé-balão. Pode explodir na nossa cara.” (“Pudor”)

Mas ‘trilhão’, entende, era sinônimo de ‘numeroso’. Não era um número, era uma generalização. Você dizia ‘trilhão’ e a palavra subia como um balão desamarrado, não dava tempo nem para ver a sua cor.” (“Pudor”)
Ora fantasiosa, inventiva, como um narrador de histórias de fadas, ou de histórias que lembram As mil e uma noites. Veríssimo, tal como Sherazade, seduz seu interlocutor com narrativas em cuja ação mistura: amor, paixão, erotismo, morte, vingança, ambição, dinheiro, trapaça, como os exemplos a seguir confirmam:
“‘Lorota’, para mim, é uma manicura gorda. É explorada pelo namorado, Falcatrua. Vivem juntos num pitéu, um apartamento pequeno. Um dia batem na porta. É Martelo, o inspetor italiano.(...)” (“Palavreado”)

Não posso ver a palavra ‘lascívia’ sem pensar numa mulher, não fornida mas magra e comprida. Lascívia, imperatriz de Cântaro, filha de Pundonor. Imagino-a atraindo todos os jovens do reino para a cama real, decapitando os incapazes pelo fracasso e os capazes pela ousadia.” (“Palavreado”)


(É interessante observar, nesse último exemplo, a relação próxima de sentido da palavra “lascívia”, segundo Veríssimo sugere, com o sentido do dicionário Aurélio: “propensão para a luxúria, sensualidade exagerada, lubricidade.” Dessa maneira, há implícita, nessa passagem, a função que vem a seguir.)
v) confirmar o significado das palavras, conforme o dicionário, mesmo que, às vezes, o locutor (Veríssimo) não concorde com a definição dada, como nas passagens:
Um dia, finalmente, procurei no dicionário. E aí está o Aurélio que não me deixa mentir. ‘Defenestração’ vem do francês ‘defenestration’. Substantivo feminino. Ato de atirar alguém ou algo pela janela. Ato de atirar alguém ou algo pela janela! (...) Afinal, não existe, que eu saiba, nenhuma palavra para o ato de atirar alguém ou algo pela porta, ou escada abaixo. Por que, então, defenestração?” (“Defenestração”)

É verdade que, se tivesse me dado o trabalho de olhar no dicionário mais cedo, minha ignorância não teria durado tanto. Mas o óbvio, às vezes, é a última coisa que nos ocorre. Está no Aurelião. Tintim, vocábulo onomatopaico que evoca o tinido das moedas.” (“Tintim”)

O Aurelião não nos ajuda. ‘Triz’, diz ele, significa por pouco. Sim, mas que pouco? Queremos algarismos, vírgulas, zeros, definições para ‘triz’.” (“Tintim”)

É dizer ‘Sílfide’ e ficar vendo suas evoluções no ar, como as de uma borboleta. Não tem nada a ver com o que a palavra significa.” (“Pudor”)


vi) e, ainda, é função de alguns enunciados metalingüísticos explicar a palavra como se ela - objeto do discurso do ato linguageiro - fosse “literalmente” um objeto, ou seja, uma “palavra-objeto”, como se vê no trecho humorístico que se segue:
Depois de dizer ‘quatrilhão’ você tem que pular para trás, senão ele esmaga os seus pés. E ‘quatrilhão’ não é como, por exemplo, ‘otorrino’, que cai no chão e corre para um canto. ‘Quatrilhão’ cai, pesadamente, no chão e fica. Você tenta juntar a palavra do chão e ela quebra. Tenta remontá-la - fica ‘trãoliqua’ e sobra o agá.” (“Pudor”)
Como se pode notar pelas passagens destacadas, o metadiscurso se apresenta como um jogo com o discurso; na realidade, um jogo no interior desse discurso, “um dispositivo que abre seus caminhos, que negocia continuamente através de um espaço saturado de palavras, palavras outras.(Maingueneau, 1997:95)

5. À GUISA DE ALGUMAS CONCLUSÕES

É interessante notar que, além dos trechos destacados anteriormente, também os títulos das crônicas e o título do capítulo (De olho na linguagem) são metadiscursivos. Os títulos das crônicas nos remetem ao próprio objeto de interesse da crônica: “Defenestração” é a palavra que tanto fascinava o autor/enunciador e sobre a qual ele faz comentários, suposições e explicações; “Tintim” também é uma palavra que, durante alguns anos, o intrigou, a qual ele também discute, questiona e na qual reflete; na crônica “O jargão”, ironicamente, ele inventa expressões e explicações novas e inusitadas, como um “jargão falso”, definido por ele próprio; em “Pudor”, ele tece críticas à economia brasileira, partindo da impressão que algumas palavras lhe causam, passando pela palavra “trilhão” e chegando à palavra “quatrilhão” e às reformas monetárias, motivadas por um “pudor lingüístico”; finalmente, “Palavreado” é o que ele escreve na última crônica analisada, falando da palavra “com nenhum nexo”, reinventando para ela um novo contexto, recriando outras versões e outras histórias, “palavreando” a palavra.


Quanto ao título do capítulo - De olho na linguagem -, esse já diz, metalingüisticamente, a intenção do autor e o que ele pretende fazer nas crônicas selecionadas. “De olho na linguagem” significa “ver” a palavra, não só escrevê-la, mas ver no sentido também de tomá-la como “objeto” de atenção, de curiosidade, e até mesmo de estudo, de análise, de reflexão...Aliás, é esse também o alvo de nosso estudo, uma vez que também nós estamos “de olho” nas estratégias que constroem o discurso e que “chamam” seu interlocutor, o co-enunciador desse ato discursivo.
Também podemos perceber o lúdico e o humor na linguagem, como dissemos, na própria capa do livro, mas aí num outro plano, que é o do desenho representando o autor. Estamos nos referindo ao sobrenome do autor - ver!ssimo - com uma exclamação no lugar do “i” tônico. Podemos nos arriscar a dizer que a metalinguagem, de maneira irônica, está presente aí: o verdadeiro (vero) foi exagerado pelo sufixo (íssimo). Ora, a hipérbole é um sinal que diz ao leitor: “Atenção! Aí pode também haver ironia!”
Este é Veríssimo: irreverente e exclamativo no próprio nome, invertendo e subvertendo a ordem das coisas, a fim de provocar ora espanto, ora admiração, ora surpresa, ora curiosidade, ora indignação... Há um jogo e um jogo desenfreado que se estende nas explicações e comentários do narrador. Através da astúcia, do bom humor, da ironia, do deboche, da descrença, do exagero e do absurdo, ele não só brinca com as palavras, com os sentidos e com as significações, mas “zomba”, de modo gentil, das crenças lingüísticas do leitor, despertando nele emoções e seduções. Enfim, várias são as intenções desse cronista, que tem na palavra o humor certo para sentidos incertos e significações acertadas.
6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ALVES, R. A escola com que sempre sonhei sem imaginar que pudesse existir. Campinas: Papirus, 2002.

ARRIGUCCI JR., D. Enigma e comentário. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.

BARTHES, R. O prazer do texto. 3. ed. São Paulo: Perspectiva, 2002.

FERREIRA, A. B. H. Novo dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

MACHADO, I. L. et al. (org.) Ensaios em análise do discurso. Belo Horizonte: N.A.D., 2002.

MAINGUENEAU, D. Novas tendências em Análise do Discurso. Campinas: Pontes, Editora da Unicamp, 1997.

MAINGUENEAU, D. Termos–chave da Análise do Discurso. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2000.

MARI, H. et al. Fundamentos e dimensões da análise do discurso. Faculdade de Letras, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte: Carol Borges edit., N.A.D., 1999.

SÁ, J. A crônica. São Paulo: Ática, 1985.

VERÍSSIMO, L. F. Comédias para se ler na escola. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.



1 Charaudeau, in Mari, 1999:420.

8 Braga, in Arrigucci,1987:38.





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