A missão das igrejas na visão do mst1



Baixar 21.75 Kb.
Encontro01.08.2016
Tamanho21.75 Kb.




A MISSÃO DAS IGREJAS NA VISÃO DO MST1

  1. Nos propuseram para este momento, partilhar com vocês membros da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil a visão do MST sobre a missão que cabe a todos e a cada um, membros desta Igreja e cidadãos da sociedade brasileira.

  2. Num primeiro momento entendemos que é importante apresentar alguns dados sobre o MST. Que nasceu há 18 anos, articulado pelas pastorais da terra, pastorais sociais, aposições sindicais progressistas no Sul do Brasil. E hoje está presente em 23 Estados, envolvendo cerca de 1,5 milhão de pessoas. Sendo 350 mil famílias assentadas, e 80 mil famílias acampadas, em 600 acampamentos. No decorrer da história do MST, surgiram necessidades de organizar além da Luta pela Terra, a Produção, a Educação, a questão de Gênero, Meio Ambiente, a Formação de lideranças ( ver dados no anexo I) . Mas ao construirmos um movimento nacional, com muitos militantes e com propostas de organizar as comunidades rurais – assentamentos – começamos a nos preocupar com que valores queremos estas novas comunidades? Quais os princípios éticos, morais, políticos que iriam nortear o caminho a seguir pelo movimento? Qual é a missão do MST?

  3. A missão de uma organização, precisa ser vista como um processo. Geralmente longo, moroso e permanente. Não é uma tarefa, é um processo, que vai além de um encontro ou um documento. A missão precisa permear toda a organização. Precisa estar incrustada na sua filosofia de trabalho, nas ações concretas, na formação de suas lideranças. Precisa ser compreendida por todos e todas, assumida por todos e todas. Mas o que dizer para irmãos e irmãs da Igreja Anglicana? Por onde começar? Qual o caminho a seguir? Qual de fato deve ser a Missão da Igreja na sociedade atual? Talvez o caminho seja refletir do ponto de vista histórico, para chegarmos a uma visão de presente e futuro, de qual deva ser a missão da Igreja, de cada membro desta Igreja, com a realidade que hoje se apresenta.

  4. Refletindo historicamente, podemos afirmar que a Missão de Deus começa por uma tomada de consciência de quem é o povo: Isto implica, pelo menos 4 pressupostos sobre a natureza da humanidade.

a) As pessoas são feitas a imagem de Deus : Esta afirmação bíblica essencial tem uma enorme importância para a dignidade de todos os seres humanos, para sua personalidade e sua relação com o Criador, e para toda a concepção do ecumenismo. O destino das pessoas criadas a imagem de Deus é desfrutar de uma humanidade plena, isto é, ser "sujeitos" ( participantes ativos na história de suas vidas) e não "objetos" ( receptores passivos de ditados e imposições de outros).

b) As pessoas vivem num marco histórico / herdado de tipo cultural e religioso: A missão que começa ( por quem são realmente) será muito sensível a realidade cultural, que é fundamento mesmo em que está arraigada a existência de cada um. Dado o caráter social dos seres humanos, quando não se respeita sua realidade cultural não se respeita sua condição humana. A realidade cultural das pessoas incluí seu patrimônio religioso. Esta forma de considerar as pessoas em sua realidade cultural não significa uma aceitação estática ou desprovida de sentido crítico de toda expressão cultural.

c) As pessoas são administradoras da criação - participam do trabalho de Deus (OPUS DEI): A convicção de que as pessoas têm a responsabilidade de administrar a criação de Deus é fundamental para a concepção cristã de "quem é o povo" ; esta convicção se deriva da verdade de que os seres humanos foram criados a imagem de Deus e, por isso, foi-lhes dado a responsabilidade, de como membros da ordem criada, colaborar para que essa mesma ordem (a casa de Deus – Oikos) seja parecida com o paraíso esperado. Por conseguinte, os seres humanos são os administradores junto com Deus da criação. Deus precisa de nós. E é por isso que se revelou na nossa história e quer incessantemente estabelecer uma relação amorosa conosco. A afirmação de que as pessoas devem ser sujeitos e não objetos se confirma de novo. Toda forma de vida humana (toda estrutura da sociedade) que mantém as pessoas como objetos e lhes nega o direito a ser "sujeitos de sua história" é uma violação de sua condição humana e de seu destino de ser administradores da criação de Deus.



d) A missão começa pelas "pessoas que sofrem" :Ainda que a missão de Jesus é universal, para "que todos sejam salvos e conheçam a verdade" (1 Tm.2:4), também é verdade que Jesus mostra um interesse especial pelas pessoas que sofrem. Na sinagoga, no princípio de seu ministério (Luc.4:18-19), Jesus fala com as palavras do profeta Isaías: O Espírito do Senhor está sobre mim,porque Ele me ungiu;enviou-me a anunciar a boa nova aos pobres,e curar os quebrantados de coração e proclamar a liberdade aos cativos,a libertação aos que estão presos,a proclamar um ano aceitável ao Senhor. Assim é como Jesus entende sua missão. Então este é um compromisso fundamental. Jesus começa pela condição humana e se questiona sobre o que trará e restaurará a vida?. Para ele, o povo sempre foi a primeira referência. Se fez pobre desde o nascimento. Tomou partido ao lado dos oprimidos, defendeu os famintos, as mulheres na figura de Madalena, agiu concretamente na multiplicação dos pães. E a proposição fica para os membros das igrejas – Daí-lhes vós mesmos de comer! É responsabilidade missionária das igrejas se envolverem profundamente com as fomes pelas quais o povo passa, pelas lacunas e barreiras a uma vida digna que são impostas a maioria da população do mundo.

  1. A MISSÃO DEVE CONSIDERAR SERIAMENTE A POLÍTICA: Desde a criação, ao entregar o mundo a Humanidade, Deus pede que ele seja cuidado. Os humanos foram constituídos, de acordo com o segundo relato da criação, para Guardar e Cultivar. A política é o Ato do Bem Comum. Nas comunidades humanas esta experimentação da vida se faz através também de atos políticos do cotidiano. As situações desorganizadoras da vida humana de nossa realidade como: a fome, miséria, violência, a falta de terra e trabalho, são conseqüências, causadas por estruturas que impedem a plenitude da missão das Igrejas e precisam ser enfrentadas com posturas políticas firmes e conseqüentes. Assim pois a missão exige um compromisso sério com o trabalho político de construir um mundo que reflete mais fielmente os valores evangélicos. O compromisso político responsável requer uma cuidadosa análise da sociedade. Por que sofrem as pessoas? Quais são as causas?

  2. A MISSÃO É AÇÃO DE DEUS: O testemunho das escrituras nos mostra muito claramente que Jesus nos ensinou que a missão não consiste tanto no que dizemos se não no que fazemos. "Pelos seus frutos os conhecereis" (Mat.7:16). "Nem todo aquele que me diz "Senhor, Senhor" entrará no reino dos céus, mas aqueles que fazem a vontade de meu Pai que está nos céus" (Mat.7:21). A missão é a tarefa de fazer fermentar o conjunto da criação de Deus, a comunidade humana.

  3. A MISSÃO DE DEUS É AÇÃO EM FAVOR DE UMA TRANSFORMAÇÃO
    NA PERSPECTIVA DO REINO: Quando afirmamos que a "missão é ação" é evidente que a ação a que nos referimos é toda aquela que expressa e ativa a realização do reino de Deus. E neste sentido a missão cristã deverá perseguir.

  1. Libertação dos oprimidos para conseguir a justiça: Esta transformação do mundo requer a libertação dos seres humanos em todas as situações em que estão submetidos e oprimidos ou de alguma maneira se atente contra sua humanidade. Finalmente, "libertação" e "Salvação" são sinônimos. Será útil um entendimento compreensível do trabalho de salvação nas seguintes dimensões:
    A Salvação atua na luta pela justiça econômica e contra a exploração da humanidade pela humanidade. A Salvação atua na luta pela dignidade humana e contra a opressão política dos seres humanos pelos seus semelhantes.
    A Salvação atua na luta pela solidariedade e contra a alienação de uma pessoas por outras. A Salvação atua na luta da esperança contra a desesperação na vida pessoal.
    A concepção cristã da libertação está inspirada no conceito bíblico de justiça.

  2. Organização para conquistar a justiça / organização para adquirir poder: Existem muitos interesses poderosos que atuam contra a libertação; por isso, é evidente que não poderá conquistar-se a liberdade sem luta. Para poder ganhar essa luta é absolutamente essencial que o povo se organize para adquirir poder, organização que consiste em ensinar as pessoas a descobrir seu valor como seres humanos criados a imagem de Deus, sua dignidade, confiança e sabedoria coletiva, todo o qual conduz a uma ação comunitária eficaz. Dada a realidade dos ‘principados e potentados", que se encontram manifestamente nas estruturas da sociedade, a luta por uma libertação completa do povo requer organizar-se para adquirir poder. Omitir-se desta necessidade revela uma ignorância culpável das forças do mal e uma negativa a reconhecer uma dimensão vital do processo que as freia e as derrota.

c) O imperativo da participação: As pessoas têm que participar no processo de sua própria libertação. A liberdade é um direito do ser humano. Segundo a tradição cristã ‘fomos libertos para a liberdade’. A participação é a prática da liberdade. Se não se estimula e capacita as pessoas para participarem plenamente no processo libertador, não poderá produzir-se uma verdadeira libertação; tal é a importância fundamental da participação, que é uma característica do ser humano e da comunidade humana. Todo "projeto de libertação" que subestime e ignore a participação como um elemento básico do caminho ( e a meta) da libertação haverá de considerar-se com uma enorme desconfiança. Os cristãos crêem ter uma percepção especial da profundidade do mal e de suas diferentes manifestações, tanto sutis como de outro tipo. A melhor proteção contra todas as formas de fascismo e de totalitarismos é a participação plena e significativa do povo no processo de libertação.
A organização para adquirir poder de uma forma que permita conquistar as metas da missão cristã se caracteriza sempre pela realidade da participação popular. Neste sentido uma tarefa fundamental das igrejas é atuar neste campo de capacitação e participação (incentivo e militância) nos processos de organização do povo para a vida e vida plena.

  1. O imperativo da resistência: Quem espera em Cristo não pode seguir aceitando a realidade tal como se apresenta, se não que começam a sofrer suas conseqüências e opor-se a ela. (...) A paz com Deus significa conflito com o mundo. Os cristãos pertencem a Cristo, não ao César. Não podem ‘servir a dois senhores". Tem um compromisso de estabelecer os valores do Reino. Não tem outra possibilidade que resistir as forças do mal. Sua vocação se caracteriza por este imperativo de resistência. A resistência é uma atitude em defesa da plenitude da vida. É toda atitude e ação, individual e coletiva, que se opõe as forças que ameaçam aos seres humanos e a obra criadora de Deus no mundo ( entre estas ameaças concretas se encontram a exploração econômica, a marginalização e a perseguição das pessoas). Por isso, o fato de que os cristãos estejam chamados a oferecer resistência não deveria sequer considerar-se como tema de discussão na comunidade cristã. Onde quer que as leis da sociedade violem de uma maneira flagrante e sistemática a lei de Deus, não deveria existir nenhuma dúvida de qual é o dever cristão. Há muitas situações na vida nas quais obedecer a Deus exige desobedecer ao César. A desobediência civil se converterá em uma qualidade necessária da missão cristã sempre que as leis da sociedade prejudiquem gravemente aos seres humanos. Tais leis são "leis ilegais" , leis de opressores criminosos. Os seres humanos têm obrigação moral de oferecer-lhes resistência. "Devemos obedecer a Deus antes que as pessoas". Esta foi a descoberta que fizeram os primeiros cristãos quando começaram a viver a nova vida de Cristo.

  1. A MISSÃO faz parte da visão, que é a antecipação do futuro no presente. No caso específico do MST, nossa missão está centrada nos princípios e nas ações concretas, nestes 18 anos de existência: lutar por um mundo justo e fraterno, enfrentar as estruturas que impedem uma reforma agrária e terra para todos que dela precisam para viver. Organizar comunidades, que chamamos de assentamentos, com escolas, associações, cooperativas, onde o esforço coletivo e individual precisam somar e não dividir. Exigir políticas publicas adequada aos trabalhadores sem terra. Os direitos negados secularmente ás mulheres. Nossa luta precisa enfrentar as desigualdades sociais, a má distribuição da terra onde 2% proprietários dominam 45% das terras. A distribuição injustas dos recurso do orçamento público, que destina 40 bilhões para o pagamento das dividas com o capital financeiro, e menos de 17 para a Educação, 12 para a Saúde, e menos de 1 para a Reforma Agrária. Lutar contra Estruturas do Estado que está organizado para oprimir. Que em 2001, prendeu 230 militantes do movimento, 12 foram assassinados. E os 19 mortos de Carajás, foram mais uma vez ignorados num julgamento que absolveu culpados. Na luta contra estruturas imperialistas como o Projeto da ALCA para a América Latina. A opressão do Império contra povos oprimidos como foram as guerras contra diversas nações.

  2. Nos sentimos parte desta missão de Deus e das Igrejas, quando em nosso cotidiano enfrentamos injustiças, denunciamos, marchamos e ocupamos terras e espaços. Mas também quando a partir de nossos princípios vamos construindo esperança, novas comunidades, novos laços de fraternidade, colocando mais uma criança na escola, colhendo o fruto do trabalho, respeitando diferenças e comungando com irmãos de fé como neste momento.

P/ Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra

1 PASQUETTI, Luis Antonio. Militante do MST há 14 anos, da coordenação do Escritório de Representação do MST em Brasília. Mestre em Administração. Com a colaboração de UETI, Paulo. Militante do MST em Brasília. Professor de Filosofia e Teologia, do Serviço de Intercambio do CEBI Nacional.


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal