A missão entre Indígenas



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Encontro01.08.2016
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A missão entre Indígenas
O Conselho de Missão entre Índios – COMIN agradece a possibilidade de participar desse fórum. A missão entre indígenas na IECLB já tem muito mais história do que comumente se pensa. Entretanto, não quero cansá-los com uma descrição abrangente e detalhada sobre a missão do COMIN. Para isso temos o nosso folder, disponibilizamos para interessados os respectivos relatórios dos campos de trabalho e, desde 2004, podemos disponibilizar também um relatório institucional anual. Quero chamar atenção ainda para a nossa página na internet: www.comin.org.br. Estamos num momento rico de reflexão teológica e missiológica que gostaríamos de compartilhar para dentro da IECLB. O que vou trazer aqui é apenas um pequeno recorte
Gostaria de falar da relevância da missão entre indígenas, e compartilhar algumas reflexões sobre missão, a partir de uma experiência importante que tivemos, durante o ano passado.
1. Conflito de Direitos
A IECLB nasce envolvida num conflito de direitos sobre a terra. Seus membros imigrantes, nossos antepassados, foram assentados em cima de terras indígenas. Colonos e indígenas olham para uma história de sofrimentos infligidos uns aos outros. Certamente a IECLB não escolheu nascer assim. Entretanto, nascer envolvida num conflito de direitos sobre a terra é um fato fundante com o qual temos que lidar?
Meu bisavô, Richard Marmein, entrou no Vale do Itajaí como topógrafo, no início do século passado. Foi ameaçado de morte pelo notável cacique Xokleng "Camrém", do qual herdamos uma pintura que meu bizavô mandou fazer. (Slide) Desde menino, me lembro daquela imagem de Camrém pendurada na sala do "Urgrossvater" com a ambivalência do respeito e do domínio sobre os vencidos. Indígenas foram exterminados ou expulsos, para que colonos imigrantes pudessem ser assentados. A violência contra indígenas não é coisa apenas do passado. O Jornal O Caminho, de Julho 2006, noticia um relatório do CIMI que conta 287 assassinatos de indígenas nos últimos 10 anos, dos quais 122 só no período do atual governo. A história está projetando suas sombras sobre a atualidade.
No Oeste de Santa Catarina, um grupo de Guarani está reivindicando o seu direito constitucional de retornar para terra que ocupavam tradicionalmente. O laudo técnico elaborado confirma o direito dos Guarani à área reivindicada. Ocorre que nessa área, atualmente, moram famílias agricultoras que dispõem de títulos legais de suas terras. A constituição federal, no artigo 231, garante aos indígenas o direito originário sobre terras ocupadas tradicionalmente. O direito originário é anterior a qualquer outro direito, inclusive anulando direitos posteriormente adquiridos. As famílias agricultoras provavelmente terão que sair. Entre elas estão famílias-membro da IECLB. Durante encontro de reflexão que fizemos em abril de 2005 muitos perguntaram: "Como é que a nossa igreja, onde nós somos membros e que nós sustentamos com a nossa contribuição pode ter um COMIN que apóia os nossos inimigos?" Há várias outras situações semelhantes se construindo. Conflitos históricos não resolvidos estão nos alcançando. Qual é a missão da IECLB?
2. Tarefa do Estado e Tarefa da Igreja
A solução legal desse conflito entre agricultores e indígenas é de competência do Estado brasileiro.
Existe a Constituição Federal e leis complementares que regulamentam os procedimentos administrativos. O Estado tem órgãos competentes para executar a solução legal desse conflito.
As Igrejas têm outra tarefa: além de acompanhar criticamente a aplicação das leis e denunciar toda a corrupção interesseira de políticos que resistem a cumprir suas obrigações, apoiados por advogados e escribas que distorcem as leis segundo seus interesses, compete às Igrejas trabalhar as cabeças e os corações das pessoas envolvidas no conflito, para que uma convivência justa e reconciliada seja possível. A IECLB, no encontro de abril, declarou sua solidariedade ao direito de ambos os grupos, indígenas e famílias agricultoras. Pelos direitos das famílias agricultoras, com a Igreja Católica fez gestões junto ao governo estadual, para que lhes fosse garantido o direito à indenização das terras, já que foi o Estado de SC o responsável pela colonização. Logo no mês seguinte, uma Emenda à Constituição Estadual garantiu essa possibilidade. Justiça e Paz não são apenas palavras para serem anunciadas em cultos, nem apenas desejos piedosos com os quais se pode enfeitar orações, mas são a nossa tarefa e a nossa missão no cotidiano.
Durante o nosso encontro afloraram fortemente o preconceito, a discriminação étnica e cultural reinantes entre membros de nossa igreja. Se, de um lado, é compreensível que alguns mecanismos de auto-justificação vêm acompanhando as famílias de nossa igreja por longas gerações, de outro lado, é imperativo romper o ciclo que resulta em preconceito e discriminação. Além disso, os antropólogos chamam de etnocentrismo o fenômeno comum a grupos humanos que estão convencidos de que o único jeito de satisfazer os requisitos da verdadeira humanidade é organizar a vida na cultura em que se vive. Portanto, com a missão entre indígenas temos a ganhar como igreja étnica: dar-nos conta de nossa etnicidade, de que nossa cultura é apenas uma entre muitas outras formas de organizar a vida, - um tema de casa com o qual na IECLB estamos muito atrasados – podemos aprender a tratar exatamente no confronto com os que são muito diferentes de nós. O "outro" nos ajudará a nos conhecermos melhor.
3. Parábola dos dois irmãos brigados
Dois irmãos moravam como vizinhos. Suas terras eram divididas por um rio. Nos últimos tempos, um desentendimento sobre as divisas que já vinha de longe começou a se avolumar. Brigaram tão feio que não quiseram mais se ver, que dirá, se falar.
Certo dia chegou um carpinteiro, pedindo trabalho. Vinha com suas ferramentas e a sua vontade. Só lhe faltava uma tarefa. O irmão resolveu dar uma utilidade ao monte de madeira e tábuas que estavam empilhadas no pátio. Pediu ao carpinteiro que construísse uma cerca bem alta na beira do rio, para que não precisasse mais ver nenhum sinal do seu irmão. Em seguida, viajou.
Depois de algumas semanas voltou para casa. Ficou muito incomodado com o que viu. Em lugar de uma cerca, o carpinteiro tinha construído uma ponte.
Enquanto xingava o carpinteiro por essa alteração da ordem de serviço, viu o seu irmão vindo pela ponte, de braços erguidos, pedindo perdão. Ele não se agüentou e foi ao encontro do irmão, fazer as pazes.
Quando se deram conta, o carpinteiro já ia longe. Chamaram-no de volta. Queriam comemorar e festejar a reconciliação. Mas, o carpinteiro pediu licença de continuar o seu caminho. "Ainda tenho muitas pontes a construir".
O COMIN é um construtor de pontes. Indígenas e agricultores são irmãos na humanidade que foram atiçados a brigar uns contra os outros pela mesma terra e chegaram "ao ponto da cerca", de não quererem mais se ver e muito menos se falar. Todo extermínio físico começa com a negação do outro e de seus direitos em nossas cabeças e corações. Por muito tempo, se criou na sociedade uma mentalidade de que esse assunto de índios vai se resolvendo por conta própria, à medida em que os indígenas forem sendo exterminados ou absorvidos na sociedade nacional. Mas, graças a Deus, os poucos povos indígenas restantes estão vivendo novas perspectivas.
4. Reconciliação
A nossa missão é de reconciliação. Assim como Cristo nos reconciliou com Deus, nossa tarefa é trabalhar pela reconciliação entre os irmãos, nesse caso entre indígenas e colonos. Em lugar de muros queremos construir pontes, ajudar a reconciliar o que parece irreconciliável, porque Deus nos convoca para essa tarefa. Assim diz o apóstolo Paulo, em 2 Co 5.18: Ora, tudo provém de Deus que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo, e nos deu o ministério da reconciliação. Para dize-lo numa expressão luterana: "O céu já é nosso, vamos meter as mãos na terra!" A reconciliação da qual eu falo não é de se dar tapinhas nas costas nem de apenas não se desejar o mal. Ela tem que ser operacionalizada politicamente. A reconciliação não acontece quando o mais forte a decreta ou anuncia, mas acontece quando o mais fraco e injustiçado pode dizer: agora eu me sinto respeitado em minha dignidade de ser humano igual aos outros. Fazemos o nosso trabalho tendo numa mão a Bíblia e na outra a Constituição Federal.
5. O rio corre para o oceano
Uma inspiração para a missão quero recordar através de uma metáfora de Paulo Freire, esse grande pensador brasileiro que nos chamou especial atenção para o método, o jeito de fazer, o caminho. Aguçou nossa sensibilidade para o método de Jesus, o caminho de Jesus. Nesse sentido é que entendemos que Jesus é o caminho, a verdade e a vida. Não é pra menos que os primeiros cristãos eram chamados de "os do caminho.
Diz Paulo Freire que, antes de um rio cair no oceano, ele treme de medo. Olha para trás, para toda a jornada: os cumes, as montanhas, o longo caminho sinuoso através das florestas, através dos povoados, e vê à sua frente um oceano tão vasto que entrar nele nada mais é do que desaparecer para sempre. Mas não há outra maneira. O rio não pode voltar. Ninguém pode voltar. Voltar é impossível na existência. Você pode apenas ir para frente. O rio precisa arriscar-se e entrar no oceano. E somente quando ele entra no oceano é que o medo desaparece, porque apenas então o rio saberá que não se trata de desaparecer no oceano, mas de tornar-se oceano. Por um lado é desaparecimento e por outro lado é renascimento.

A IECLB é um rio ao lado de muitos outros. Existir para servir ao longo do caminho é a sua missão! Cair no oceano é sua finalidade escatológica.


O oceano de Deus recebe rios das mais diversas tradições e culturas. No Reino de Deus não interessa mais, qual água veio de qual rio. Possivelmente também nós trememos diante do encontro com os outros, os completamente diferentes de nós, por causa de nossas inseguranças. No oceano percebemos a insignificância de nossos temores diante da grandeza multifacetada do projeto de salvação de Deus. Somos privilegiados para nele contribuir, com rio de tradição cristã, mas de modo algum, somos donos dele.
Florianópolis, no Fórum de Missão da IECLB, 13-16 de julho de 2006
Hans Alfred Trein

Coordenador Adjunto do COMIN
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