A missão inversa: a Igreja Mundial do Poder de Deus em Portugal



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A missão inversa: a Igreja Mundial do Poder de Deus em Portugal

Eduardo Guilherme de Moura Paegle

Professor de História do Instituto

Federal de Roraima (IFRR)

Brasil

E-mail: edpaegle@gmail.com


Resumo: O presente artigo acadêmico está baseado nas pesquisas acadêmicas por ocasião da bolsa-sanduíche do doutoramento de Ciências Humanas pela UFSC entre o período de maio a setembro de 2012 na cidade de Lisboa da Igreja Mundial do Poder de Deus. A secularização do continente europeu, embora em menor grau, de Portugal, traz a tona o processo conhecido como missão inversa, do que o Brasil que tradicionalmente recebia missionários do exterior no século XIX passa a enviar missionários para a Europa, na busca de recristianização do Velho Mundo. Neste sentido, entendemos ser estratégica a chegada da Igreja Mundial do Poder de Deus em Portugal como porta de entrada para a expansão da referida igreja neopentecostal devido à mesma língua (o que é importante, num culto com características tão performáticas e na qual a palavra tem poder religioso) e as aproximações culturais que envolvem os dois países. Contemplado por pastores brasileiros e inúmeros fiéis de origem imigrante (brasileiros, angolanos e moçambicanos), embora tente atingir nativos portugueses, a Igreja Mundial do Poder de Deus segue estratégias já seguidas por outras denominações neopentecostais oriundas do Brasil, a saber: a Igreja Universal do Reino de Deus. Parte-se, portanto, da premissa do transnacionalismo, no qual o objeto de estudo, nesse caso, a Igreja Mundial do Poder de Deus traz consigo valores religiosos para um novo país para inserir no campo religioso português com dois inimigos claros: o secularismo e a tradição do catolicismo lusitano.
Palavras-chaves: Igreja Mundial do Poder de Deus, neopentecostalismo, missão inversa.


  1. Introdução

Historicamente, o aumento do pluralismo religioso em Portugal foi evidenciado apenas depois da Revolução dos Cravos1, de 25 de abril de 1974, que pôs fim ao Estado Novo (1933-1974). Conforme Vilaça (2006:146) o discurso salazarista enfocava um etnocentrismo institucional que identificava a história da sociedade portuguesa com a história do catolicismo lusitano. Desta forma, temos o fato de que:

O Estado Novo, ainda que não tenha hostilizado as Igrejas Evangélicas impediu a sua exteriorização em termos de lhe facultar liberdade de acção em estratégias e métodos proselitistas e as décadas da ditadura acabaram por representar tempos de consolidação organizacional, liderada por uma maioria de obreiros nacionais, de segunda e terceira geração. O salazarismo simboliza, em vários aspectos, um tempo em que o objectivo era a inércia do tempo, a anulação (pelo acantonamento) dos agentes dominados, não apenas do campo religioso, mas em toda a realidade social. Vilaça (2006:145- 146).

O salazarismo foi marcado em termos de propaganda pelo uso dos três f´s: o fado, futebol e Fátima como símbolos da portugalidade.

II – A inserção do neopentecostalismo em Portugal

O século XIX foi marcado pelas inserções das denominações evangélicas na chamada “Era das missões,” sob influência dos missionários ingleses e estadunidenses para o Novo Mundo. A Europa era um continente que enviava missionários para evangelizar o Novo Mundo e no final do século XX e início do XXI passou a ser um receptor de missionários. Foi na década de 1980 que temos a inserção do neopentecostalismo em território português com o pioneirismo da Igreja Maná de Jorge Tadeu em 1984.

Com o fim da Guerra Fria e a queda do Muro de Berlim, temos a ideia de um universo sem fronteiras políticas e ideológicas ganhando mais força. Neste sentido fica claro para Peggy Levitt (2007:12) que “Deus não precisa de passaporte”. Neste contexto, as igrejas neopentecostais de origem brasileira expandem o seu ministério para outros países, conforme exemplificado a seguir. Para Refkalesky (2012: p.32):

Se a igreja fosse um produto da balança comercial, o Brasil estaria com superávit. Nas últimas décadas foi invertida a tendência histórica, para a colonização, de receber mais missionários do que enviá-los para o exterior. Agora são os nossos evangelizadores que conquistam o mundo. A expansão das igrejas brasileiras no exterior segue as mesmas estratégias ligadas ao seu crescimento dentro do seu país. O caminho mais visível é o que envolve alto investimento midiático e a construção de megatemplos.

A expressão “missão inversa” indica que o Brasil deixou de ser importador de missionários para ser exportador. As igrejas “made in Brazil” também se espalharam pelo mundo e neste sentido as igrejas neopentecostais tiveram um importante papel nesse processo. De acordo com Campos (1997:428-429) a terminologia é “missão reversa” de efeito bumerangue, no qual os fluxos transnacionais como no caso exemplificado se deslocam muito mais intensamente da origem brasileira para a portuguesa do que no sentido contrário.

III – A Igreja Mundial do Poder de Deus em Portugal

A Igreja Mundial do Poder de Deus busca seguir um processo de alcançar outros países para expandir o seu projeto missionário e fazer jus ao seu nome. O fato de Portugal ter a mesma língua do Brasil, de ser a porta de entrada do continente europeu, tornou-o um país estratégico para a expansão missionária da Igreja Mundial do Poder de Deus. Considerando-se a importância do uso da linguagem nas performances do culto, falar a mesma língua faz habitar os aspectos religiosos no mesmo universo de sentido que seria distinto como outros idiomas. Não há nenhuma novidade nisso, pois a Igreja Universal do Reino de Deus já havia entrado em Portugal em 1989, estratégia adotada pelo bispo Edir Macedo com o primeiro culto em dezembro do referido ano no bairro de Benfica, em Lisboa conforme já havia sido colocado pelos estudos de Rodrigues & Ruuth (1999:110-111).

A Igreja Mundial do Poder de Deus seguiu o modelo da Igreja Universal do Reino de Deus de “made in Brazil”, espalhando-se para países como África do Sul, Angola, Moçambique, EUA, México, Suriname, Argentina, Colômbia, Bolívia, Guiana Francesa, Uruguai, Filipinas, Japão, Portugal, Suíça e Itália. Portugal é o país no exterior com maior número de igrejas (onze), uma em cada uma dessas cidades: Lisboa, Almada, Amadora, Aveiro, Coimbra, Braga, Porto, Faro, Funchal, Leiria e Setúbal. Podemos dizer que a Igreja Mundial do Poder de Deus atinge blocos que conseguem se consolidar no exterior: 1) Bloco lusófono (Portugal, Angola e Moçambique), 2) Bloco latino-americano, que podemos chamar hispânico acrescido de um país asiático (México, Colômbia, Bolívia, Uruguai, Argentina e Filipinas), 3) Bloco para imigrantes (EUA, Japão e Itália), além da Suíça. A questão da proximidade cultural é um importante elemento para a expansão da referida igreja. É mais difícil se expandir para culturais mais distantes da original brasileira, embora o “jeitinho brasileiro” ajudassem os pastores em atuação no exterior quanto à sua adaptação.

A expansão da Igreja Mundial do Poder de Deus já completou quinze anos em Portugal, com inúmeros pastores e bispos de origem brasileira. Buscando alcançar portugueses, atinge no seu público, um considerável número de imigrantes brasileiros e da África lusófona, notadamente Angola e Moçambique. Importante salientar, portanto, que os países de expansão da Igreja Mundial do Poder de Deus são em sua maioria de cultura lusófona. Uma das dificuldades em Portugal é que a lei de liberdade religiosa atribuiu isenção fiscal para grupos com mais de sessenta anos no estrangeiro e com trinta anos no país, o que excluiu os grupos neopentecostais brasileiros com presença em Portugal, como a Igreja Sara Nossa Terra, Igreja Universal do Reino de Deus, Igreja Internacional da Graça de Deus e Igreja Mundial do Poder de Deus, como forma de neutralizar grupos religiosos mais competitivos no mercado de bens religiosos pelas Igrejas tradicionais de acordo com os estudos de Vilaça (2006:155-156).

Apesar disso, podemos dizer segundo Blanes (2008:21) que “ (“...) o fenômeno religioso contemporâneo não é mais mediado por fronteiras políticas, mas sim num contexto global de circulação e mobilidade urbana “. O mesmo autor (2008:21-23) aponta que é através de uma dinâmica da existência das leis de liberdade religiosa, da incorporação das levas dos imigrantes notadamente brasileiras e africanas, o pentecostalismo, o neopentecostalismo e o carismatismo reconfiguraram os evangélicos portugueses. Trata-se de um processo de meridionalização (southernization) que traz a vitalidade tanto do campo protestante quanto católico ao Velho Mundo.

As igrejas “made in Brazil” também se inserem nessas (re) configurações e trabalham com uma memória comum por parte dos imigrantes, sendo que alguns casos muitos frequentavam as igrejas neopentecostais no Brasil e buscam esse apoio em Portugal, muitas vezes afastados dos laços familiares com a participação da igreja funcionando também com um ambiente de socialização num contexto diferente. Além disso, podemos dizer que o apelo da Igreja Mundial do Poder de Deus com o seu discurso da teologia da prosperidade tende a ter forte apelo em Portugal, um país sabidamente envolvido num momento de forte crise social e econômica. Esta observação é perceptível quando o endereço da Igreja, na cidade de Amadora, município da periferia de Lisboa e com elevados contingentes populacionais imigratórios tem o seu endereço anunciado como “próximo ao centro de emprego”, enquanto em Braga, num ponto de grande circulação como “próximo à estação de comboios”.

Não percebemos mudanças significativas nas estratégias em Portugal, comparadas ao Brasil. No pacote de TV a cabo Zon, no canal 175, busca-se atingir o público em suas casas. A sede da rede de TV localiza-se ao lado da igreja em Lisboa, na Rua Dona Estefânia, 177 C, próximo ao metrô Saldanha. Muitos programas vistos em Portugal, seja pelo site, seja quanto pela TV, são produzidos no Brasil, fato que presenciamos antes dos cultos em Lisboa. Folders divulgando a programação da Igreja na TV e o lembrete dos pregadores sobre a presença nesta mídia era comum em nossa pesquisa de campo. As liturgias e as formas de culto também apresentam as mesmas características daquela das igrejas brasileiras. A receita da Igreja Mundial do Poder de Deus segue a lógica da Igreja Universal, de acordo com a ideia de que quem viu uma, já viu todas. A Igreja Mundial do Poder de Deus segue fiel ao seu estilo litúrgico, ao carisma, aos milagres, ao tele-evangelismo, às concentrações de fé, oferecendo os mesmos produtos e serviços para a população portuguesa e mesmo para os imigrantes que conheciam a igreja nos seus países de origem, buscando uma relação de reconstrução de continuidade da experiência do fiel do seu país de origem (no caso, o Brasil) para o país de destino (Portugal).

A visibilidade e a presença dos neopentecostais no cotidiano brasileiro são maiores do que no caso português ainda cria obstáculos à presença dos neopentecostais, entre os portugueses, inclusive à da Igreja Mundial do Poder de Deus, que tenta superar gradativamente. Durante o período em que estivemos fazendo pesquisa de campo, tivemos a oportunidade de visitar um culto com a presença do apóstolo Valdemiro Santiago em Lisboa. O referido evento ocorreu em 26 de agosto de 2012, no Campo Pequeno, tradicional local de espetáculos nacionais e internacionais, bem como de touradas.

Nos dias que antecederam o culto foi feito uma propaganda bastante intensa na sede em Lisboa. A ideia era de criar um impacto. O obreiro Miguel, que conduziu o culto de concentração de fé no dia anterior no templo-sede em Lisboa, lembrou que pelo fato do apóstolo Valdemiro Santiago chegar, ninguém mais perderia a benção e que viriam pessoas da Bélgica, Alemanha, França para se manifestar pela Europa e que era uma ótima oportunidade para convidar familiares e não cristãos. Um caminhão com a placa do evento mostrava uma foto com a imagem do apóstolo Valdemiro Santiago e a sua esposa, a bispa Franciléia com as mãos levantadas com o logotipo e o nome da igreja, anunciava a entrada grátis ao culto das 10h00min do dia 26 de agosto de 2012, chamado de “concentração de milagres com o apóstolo Valdemiro Santiago”. Filas desde a madrugada com cerca de cem pessoas dormiram em frente ao Campo Pequeno para não perder nenhum detalhe. Localizamos inúmeros brasileiros de diferentes denominações evangélicas de várias partes da Europa, em grande parte com passagem pelo catolicismo, assembleianas brasileiras de Roma, brasileiras com passagem em religiões orientais e também da Igreja internacional do Poder de Deus de Lisboa foram alguns dos exemplos encontrados.

Outro cartaz de divulgação apresentava o apóstolo e a bispa em frente à Torre de Belém, tradicional monumento da capital portuguesa com uma multidão ao fundo com horário e a data do evento acompanhado do logotipo. Envelopes para arrecadação do evento com a bandeira portuguesa no fundo, o apóstolo Valdemiro Santiago e a sua esposa ajoelhados, com os dizeres do versículo de Filipenses 4.19 “E o meu Deus, segundo a sua riqueza em glória, há de suprir em Cristo Jesus, cada uma de vossas necessidades “ e as sugestões de contribuições financeiras nos valores de 200, 100 e 50 euros; bem como toalhas “Sê tu uma bênção”, com o endereço da sede em Lisboa, funcionavam com material de tentar alcançar mais portugueses nessa obra. No dia da concentração de fé, fiéis foram mobilizados desde cedo da manhã para entregarem folhetos de divulgação do referido evento.

Na entrada do evento, dos fiéis eram divididos em quatro filas, sendo tocados ou pelo apóstolo Valdemiro Santiago ou pela Bispa Franciléia, para depois se acomodarem nos bancos. Era muito comum, o público comparecer acompanhado das bandeiras dos países de origem (Alemanha, Itália, Inglaterra, entre outros) que eram constantemente lembrados como forma de mostrar o impacto da igreja por todo o mundo. Dois telões nas laterais e várias câmeras e com pregador constantemente lembrando que o culto estava sendo televisionado para todo o mundo. Milhares de fiéis chegavam com ônibus de suas caravanas com identificação das cidades portuguesas (Porto, Braga, Amadora, entre outros), alguns de metrô. A concentração de fé apresentava diversas características que julgamos importantes.

A primeira característica era de uma nova delimitação do tempo. Num tempo de crise socioeconômica do Estado e da sociedade portuguesa, o evento quis marcar um “novo tempo”, como ficou claro nos cultos da sede lisboeta um “antes” e um “depois” do evento, pois marcaria um grande avivamento jamais visto em Portugal. Aquilo que acontecia no Brasil, também seria presenciado em Portugal.

A segunda característica foi o reconhecimento do público, enquanto sujeitos de um mesmo espaço compartilhado. Em outras palavras, era preciso evidenciar que a Igreja Mundial do Poder de Deus é globalizada e que estava atingindo várias partes do planeta, com fiéis dos quatros cantos da Terra, que teriam o privilégio de fazer parte de um grupo maior do que a sua igreja local. Localizamos na fila para entrar na arena um senhor português que não frequentava um templo da Igreja Mundial do Poder de Deus, mas que assistia aos programas de TV da referida denominação. Ele era oriundo de Vila Nova de Gaia, cidade vizinha do Porto, localizada no norte do país.

A capacidade da igreja Mundial do Poder de Deus de aglutinar em torno de um evento, pessoas de diferentes origens, em torno de um objetivo comum era um sinal evidente da referida manifestação do poder. O foco comum ou a pedra de toque era o fato de ser “uma concentração de milagres”, o que criava expectativas em torno dos presentes. Tal fenômeno é ampliado e reverberado pela mídia. Cria-se uma comunidade afetiva nas palavras de Birman (2003:244). Para Segalen (1998:16) os “rituais reforçam os sentimentos de pertença colectiva e da dependência de uma ordem moral superior que salva os indivíduos do caos e da desordem”.

Uma terceira característica é o fato de que a referida concentração de milagres conseguiu unir diferentes elementos: mobilização de recursos financeiros (durante o evento foram pedidos 91 Euros por pessoa para contribuir com a obra), um espetáculo midiático (a escolha do local, a indicação dos bancos que deviam ser ocupados, o posicionamento das câmeras, o layout do espaço), um momento final de peregrinação (o fato de muitos fiéis chegarem a Lisboa com esse propósito) pelo que se criou uma simbiose desses elementos apresentados como característicos dos rituais também presentes nas correntes da igreja universal do reino de Deus.

Na inserção da Igreja Mundial do Poder de Deus, chamamos a atenção para algumas questões problemáticas nesse processo. Colocamos três questões centrais. A primeira questão são as suspeitas em relação aos métodos neopentecostais devido às táticas adotadas pela Igreja Universal do Reino de Deus que respingam na Igreja Mundial do Poder de Deus. A segunda questão está articulada na relação da Igreja com a população imigrante, sobretudo brasileira. A terceira dificuldade é a questão da secularização.

O primeiro desses problemas é que o legado da Igreja Universal do Reino de Deus, enquanto uma Igreja neopentecostal foi visto, no mínimo, com uma reputação duvidosa por parte da opinião pública e que outras igrejas “made in Brazil” tendem a sofrer ainda mais dificuldades com esse legado. Exemplo disso são os seguintes episódios de certa repercussão: a criação de um partido político chamado Partido Social Cristão, que teve que mudar de nome para Partido da Gente em 1995, pois na legislação portuguesa, os partidos políticos não podem ter vinculação religiosa; incidentes em Póvoa de Varzim em julho de 1995, de fiéis da Igreja Universal do Reino de Deus que estragaram de propósito os tapetes de flores feitos para a festa católica de Nossa Senhora de Belém, e tiveram, por isso, reações negativas da Igreja Católica, chegando ao ponto de fiéis iurdianos sofrerem agressões físicas; o episódio do Coliseu do Porto, quando a igreja de Edir Macedo tentou comprar essa tradicional casa de espetáculos, que com reação contrária do governo, da classe intelectual e artística que acabou não concretizada, bem como as desconfianças por parte de outras igrejas evangélicas portuguesas aos métodos iurdianos como dispostos na obra de Rodrigues & Ruuth (1999: 120-123). Daí que os métodos semelhantes, adotados pela Igreja Mundial do Poder de Deus em relação às perspectivas iurdianas tendem a gerar desconfianças entre os portugueses. A popularidade da rede Record de TV em Portugal muito provavelmente também reforce essa tendência.

O segundo aspecto é a dificuldade de alcançar fiéis portugueses. As minorias religiosas, como no caso da Igreja Mundial do Poder de Deus, no contexto português, ainda não conseguiram se desvincular do fato de ser “uma igreja brasileira”. Lembro-me que na ocasião de um culto em Lisboa, um bispo falou que “Os fiéis portugueses não respeitam um pastor português”. Considerando que a maioria dos pastores da igreja de Valdemiro Santiago em Portugal é de origem brasileira, fato evidenciado pelo sotaque facilmente observável nas pesquisas de campo, há certo grau de dificuldade em criar uma liderança lusitana emergida dentro do contexto religioso português.

O fato dos imigrantes buscarem criar redes de socialização frente a uma realidade num contexto diferente do seu país de origem através da religião não é nenhuma novidade nos estudos sociológicos. No sentido durkheiniano, a integração era importante como forma de evitar a anomia social. Nos dizeres de Vilaça (2008:23) “O facto de existirem valores socialmente partilhados contribui para a formação de grupos e redes de solidariedade que são essenciais à integração social.”

Com esta ideia em mente, lembra-se do papel significativo que a Igreja Mundial do Poder de Deus teve com os fiéis brasileiros e da África lusófona, para a criação de redes de solidariedade entre esses imigrantes, suprindo, muitas vezes, a ausência de laços familiares, de amizades, entre outros, numa terra distante. Para Vilaça (2008:30) tanto a etnicidade quanto a religiosidade compõem como formas de laços de pertencimento. O efeito da solidariedade quando se chama o outro de “meu irmão”, enquanto reconhecimento dos pares como iguais tem um importante efeito religioso e psicológico, ainda mais, em momentos de crise social e econômica pelos quais Portugal tem passado nos últimos anos. Uma mesma fé e uma mesma origem nacional facilitam a criação de um tecido social mais homogêneo frente às adversidades cotidianas.

O terceiro aspecto é a secularização. Para Casanova (1994:211) a secularização pode ser vista sob três óticas: 1) Como a distinção das esferas seculares das normas e instituições religiosas; 2) Como declínio das práticas e crenças religiosas; 3) Como um relegar da religião à esfera privada. Na análise de Berger (1985:119) a “secularização” é visto como “o processo pelo qual setores da sociedade e da cultura são subtraídos à dominação das instituições e símbolos religiosos”. No caso português, após o “25 de abril de 1974”, a distinção entre as esferas seculares da privada se acentuou. De um Estado quase totalmente monopolizado pelo catolicismo, passou para um estado concorrencial e com a visibilidade de um maior pluralismo religioso, incluindo os neopentecostais. A questão é que esse processo está ligado à racionalização, à autonomização do indivíduo, ao desencantamento do mundo, sendo que a tecnologia se opõe a qualquer estrutura (religião, ciência, ideologias) despossuída de uma crença absoluta conforme Vilaça (2006:87). Para Rodrigues (2007: 147) a modernidade é vista com dois efeitos: o avanço da racionalização se opondo ao caráter sagrado/religioso e a diferenciação, vista como desengajamento da sociedade em relação ao religioso. De acordo com Davie (1994) a ausência dessa fidelização institucional religiosa que indica a ideia de não fazer parte de grupos religiosos institucionalizados foi apontada como “crer sem pertencer.”

A Europa tem sido vista como uma região muito mais secularizada do que a América Latina. A Igreja Mundial do Poder de Deus busca responder com a fidelização aos seus cultos (através das curas, contribuições financeiras, poder dos objetos sacralizados e carisma dos seus líderes, inserção na TV). O poder mágico do lenço “Sê tu uma bênção” se opõe a uma visão racionalista de mundo que desconsidera qualquer artifício como possuidor de elementos mágicos. Na referida igreja, o indivíduo não é visto como autônomo, pois este não é intrinsecamente mal, mas como vítima de possessão demoníaca, que impede de ser próspero, seja física ou economicamente. Implicitamente uma crítica ao valor do individualismo dado na pós-modernidade.

A presença na mídia televisiva e as concentrações de fé são desafios para os defensores do secularismo, que buscam, a todo custo, o desaparecimento de qualquer vestígio de religiosidade na esfera pública. Ainda nos moldes como ocorre no Brasil, os neopentecostais se movimentam no sentido de buscar visibilidade na esfera pública, embora inexista uma bancada evangélica em Portugal, como a que ocorre no Brasil.

O neopentecostalismo procura dar sentido à vida, ainda que seja mais do “aqui e agora” do que num plano transcendente. Numa explicação religiosa mais ampla, o secularismo, ao negar qualquer explicação de cunho teológico ou religioso, passa a ser visto como inimigo para os neopentecostais. Pode-se aceitar qualquer explicação sobrenatural (curas, milagres e, mesmo prosperidade avaliada como fruto de bênção divina) dentro da teologia da prosperidade. No contexto português, ainda mais do que no contexto brasileiro, o neopentecostalismo busca um reencantamento do mundo, pois o secularismo como inimigo é mais visível.



IV - Considerações Finais

Buscamos através deste artigo, compreender as estratégias missionárias adotadas pela Igreja Mundial do Poder de Deus em Portugal. As relações entre a identidade brasileira da origem da referida denominação neopentecostal num contexto religioso diferente, como no caso português, caracterizam o processo que chamamos de igreja “made in Brazil” com as especificidades e contextualizações próprias dentro dos fluxos transnacionais do novo mundo em direção ao velho mundo.



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1 O cravo vermelho tornou-se o símbolo da Revolução de Abril de 1974. Segundo se conta, foi uma florista de Lisboa que iniciou a distribuição dos cravos vermelhos pelos populares que os ofereceram aos soldados. Estes os colocaram nos canos das espingardas. Por isso se chama o “vinte e cinco de abril” de 1974 de revolução dos Cravos.


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