A modernizaçÃo do jornalismo baiano: Um breve olhar sobre a proposta modernizante do jornal a tarde



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A MODERNIZAÇÃO DO JORNALISMO BAIANO:

Um breve olhar sobre a proposta modernizante do jornal A Tarde

Ana Spannenberg1


RESUMO: O jornalismo mantém imbricadas relações com a sociedade na qual se desenvolve, que, de modo algum podem ser entendidas por um viés unilinear, mas, ao contrário, reúnem manifestações de influência recíproca (cf. MELO, 2003; TRAQUINA, 2005). Consideramos ser possível recompor, ainda que de forma parcial, a relação entre jornal e a sociedade na qual se insere, a partir da observação da narrativa jornalística em uma perspectiva de modernização, de modo especial observando os seguintes critérios apontados por Traquina como identificadores da modernização do jornalismo: como divisão entre opinião e informação (gêneros), inserção da figura do repórter, visão do jornal como empresa (interesses comerciais) e desvinculação de interesses políticos. A presente comunicação apresenta um ensaio dessa proposta de recomposição, enfatizando, a partir de um olhar lançado para o jornal A Tarde, em três diferentes períodos: 1912 (fundação), 1970 (consolidação profissional do jornalismo), como se constitui a proposta modernizadora do jornalismo baiano.

PALAVRAS-CHAVE: jornalismo baiano, narrativa jornalística, modernização
A intenção da presente comunicação é discorrer sobre o jornalismo como uma narrativa social que estabelece imbricadas relações com a sociedade. Esse processo não pode ser percebido de modo linear, pois ocorre a partir de influências recíprocas, gerando uma teia de interdependências e interpenetrações. Para tanto, a apresentação será dividida em três momentos. No primeiro, será lançado um breve olhar para as teorias que se propõem a definir como a atividade jornalística se consolida na Europa e Estados Unidos, a partir da revolução industrial e do estabelecimento das modernas democracias. O segundo momento está voltado para como esse processo transcorre no Brasil e, mais especificamente, no jornalismo baiano. É preciso, entretanto, ressaltar que, nesse caso, a proposta assume um caráter aproximativo e hipotético, devido à escassa literatura a respeito, especialmente no que tange a história da imprensa na Bahia. Por fim, serão expostas algumas observações acerca do Jornal A Tarde, a partir de um recorte em dois diferentes momentos históricos: 1912, ano de sua fundação e 1970, período que demarca a consolidação do jornalismo como profissão na Bahia, a partir da formação universitária. A opção por essas duas fases se dá pela demarcação de dois momentos distintos, porém complementares no processo de “modernização” do jornalismo baiano que, acreditamos, pode ser percebida por elementos da narrativa jornalística.
1. Consolidação do jornalismo

Segundo o pesquisador português Nelson Traquina, a separação entre informação e opinião é o paradigma que norteia o jornalismo moderno, que passa a ser encarado como produto (2005, p.34ss). Esse fenômeno ocorre, especialmente, durante o século XIX: “[...] os jornais são encarados como um negócio que pode render lucros, apontando com [sic] objetivo fundamental o aumento das tiragens. Com o objetivo de fornecer informações e não propaganda, os jornais oferecem um novo produto – as notícias baseadas nos ‘fatos’ e não nas ‘opiniões’” (TRAQUINA, 2005, p.34). São dois os principais fatores que retratam essa “evolução” da atividade, afirma Traquina: a comercialização do jornal e a profissionalização de seus trabalhadores.

Tais mudanças vem no rastro de um processo que começa a se delinear na Europa do século XVII (chamado de “século da educação”, em função das transformações sofridas no sistema educacional europeu decorrentes tanto da reforma quanto da contra-reforma) e que se estabelece a partir do século XVIII. Conforme Albert e Terrou (1990) o jornal que, desde as suas formas embrionárias pré-Gutenberg (gazetas, libelos e pasquins) assumia uma função menor, de sub-literatura, ganha outro status quando passa a ser utilizado enquanto instrumento político pelas grandes reformas sociais que florescem no século XVIII. Entretanto, nesse momento, ainda há uma visão do jornal enquanto órgão particular e opinativo. É somente no século XIX que essa percepção altera-se, a partir de fatores sociais como a urbanização e a escolarização, que aumentam o público leitor e seu interesse por informações; de fatores econômicos, como a redução do preço por exemplar, alavancada pela entrada da publicidade nos jornais; além de fatores técnicos, como melhorias na impressão, inserção de fotografias, ampliação da rede de informações a partir do telégrafo e, mais tarde, do telefone, e melhoria no sistema de distribuição, através das ferrovias, que não permitem mais ao jornal ficar restrito à circulação de uma cidade (cf. ALBERT e TERROU, 1991, p.30ss).

Entre os elementos que Traquina aponta como decisivos nesse processo (crescimento econômico, evolução social e técnica) está a emergência da democracia moderna, que enfatiza os direitos fundamentais do cidadão e situa o direito à informação como essencial para que os sujeitos possam cumprir seus deveres na sociedade. Assim, democracia e jornalismo aparecem como elementos simbióticos, pois é a liberdade vinculada à ela que confere “credibilidade” ao jornalismo (já que no período anterior esse era submisso ao poder político) (cf. TRAQUINA, 2005, p.42). O autor afirma: “A nova ideologia pregava que os jornais deveriam servir os leitores e não os políticos, pregava que traziam informação útil e interessante aos cidadãos, em vez de argumentos tendenciosos em nome de interesses partidários, pregava fatos e não opiniões” (TRAQUINA, 2005, p.50).

Além da mudança na percepção do jornal, duas outras alterações podem ser consideradas significativas: a inserção da figura do repórter (cf. TRAQUINA, 2005, p.52) e a utilização de técnicas de escrita (pirâmide invertida e lead) que conferem ao jornalista a autoridade para selecionar o que é mais importante na notícia (cf. TRAQUINA, 2005, p.60). Sobre o jornalista enquanto repórter (que se opõe diretamente ao jornalista do período anterior, preso à redação, de onde contentava-se em opinar sobre os fatos), Traquina descreve:

No jornalismo apareceu também, de uma forma crescente, uma nova figura que iria ocupar um lugar mítico e mesmo romântico na profissão emergente: o repórter. E era para esse mundo dos fatos que esta nova figura do campo jornalístico – o repórter – fazia um esforço supremo: a respiga e a montagem dos fatos. E este esforço tentava transformar o jornalismo numa máquina fotográfica da realidade, ou seja, na sua ideologia profissional, o espelho da realidade. A caça hábil dos fatos dava ao repórter a categoria comparável à do cientista, do explorador e do historiador. (TRAQUINA, 2005, p.52)


O outro elemento de transformação é a adoção de técnicas de redação que confiram ao texto jornalístico o maior grau de objetividade possível, tal como nas ciências exatas. Essa opção resguarda o jornalista e o jornal da emissão de opiniões explícitas, além de estabelecer uma certa uniformização dos textos, agora divididos em gêneros, assumindo marcas que deixam claro ao leitor o que são “fatos” e o que são “comentários”. Nilson Lage (2001) descreve esse mudança, pautada nos valores da imparcialidade, objetividade e veracidade da informação:

Tal imparcialidade, objetividade e veracidade cumprem frequentemente a função reiteradora que a opinião manifesta já não consegue suprir, apresentando como equilibradas e, portanto, naturais, as perspectivas dadas como boas, eliminando como subjetivas ou mentalistas as disposições inconvenientes de análise crítica e estabelecendo, necessariamente a priori, critérios de aferição da verdade. Um jornalismo que fosse a um só tempo objetivo, imparcial e verdadeiro excluiria toda outra forma de conhecimento, criando o objeto mitológico da sabedoria absoluta. (LAGE, 2001, p.34)


2. Olhar sobre o jornalismo brasileiro

Esse processo, descrito por muitos autores como “modernização” do jornalismo não encontra correspondência imediata na imprensa brasileira e baiana, o que não significa que também aqui não tenha se processado uma consolidação da atividade jornalística, porém em outros moldes. Ao tratar do conceito de “modernidade”, Reinhard Bendix (1996) chama a atenção para que se evite a tentativa de imposição de um modelo único, linear, geralmente a partir da experiência européia, seguindo um padrão “antes-e-depois”. O autor destaca que, em países em desenvolvimento, seqüências ou tempos fixos de um padrão de modernização muitas vezes não podem ser empregados, por isso, sugere que se evitem listas de atributos “modernizantes”. “De um modo geral, listas de atributos de modernização não são passíveis de autorizar uma inferência confiável, se – com relação à seqüência e ao timing – seus vários itens são interpretados como índices de aproximação ao modelo ocidental.” (BENDIX, 1996, p.352)

A imprensa chega ao Brasil com a corte de D. João VI, que se refugiou aqui para não ser atacado por Napoleão, em 1808. Mesmo sem registros muito precisos sobre como e por que foi trazida, sabe-se que uma máquina tipográfica estava nos porões do Navio Medusa, que compunha a frota real. Logo na chegada, instala-se a Imprensa Régia (maio de 1808), com a função de imprimir documentos reais e produzir o jornal semanal Gazeta do Rio de Janeiro (setembro de 1808), precursor do Diário Oficial. De Londres chegava o clandestino Correio Brasiliense, editado por Hipólito José da Costa, defendendo a Independência do Brasil, que circulou a partir de junho de 1808, três meses antes da Gazeta. Três anos depois, o segundo jornal brasileiro recebe autorização para funcionamento, o baiano A Idade d’Ouro no Brasil, periódico áulico, que apoiava a Corte, fundado em 1811. O primeiro momento do jornalismo no país é marcado pela censura, que só é extinta com a Constituição de Portugal, promulgada em 1820, após a Revolução do Porto. Mas, logo após a proclamação da independência, em setembro de 1822, a censura logo retorna. A regência é o período de maior liberdade de imprensa neste primeiro século de jornalismo, quando proliferam pasquins com linguagem violenta e tendências sensacionalistas, movimento logo suprimido com o Golpe da Maioridade, que traz de volta a restrição à imprensa (cf. SODRÉ, 1999).

Somente no final do século XIX o jornalismo brasileiro começa a passar por transformações técnicas e estruturais que permitem entendê-lo como o embrião de uma empresa capitalista. Essas mudanças ocorrem durante o Segundo Reinado (1840-1889), pois os jornais precisavam fugir da censura imposta por D. Pedro II e acabavam buscando outros recursos – inicia aí a especialização em outros assuntos, a aproximação com o texto literário (através de autores como Machado de Assis, Joaquim Manuel de Macedo, Manuel Antônio de Almeida, Jose de Alencar, Bernardo Guimarães, entre outros) e as inovações tecnológicas (maior rapidez na impressão, inserção de fotografia, utilização do telégrafo) e mercadológicas (inserção de publicidade, distribuição dos jornais em carroças, percepção do leitor como cliente). (cf. SODRÉ, 1999)

Lavina Ribeiro (2004) situa nas primeiras décadas do século XX o processo de modificação do jornalismo brasileiro no sentido de valorização da atividade jornalística e do estabelecimento de regras para estruturação do texto e apuração das notícias. Essas últimas surgem em decorrência de uma estrutura organizacional, que fazia novas exigências:

Funcionar empresarialmente significa adequar-se a um circuito referencial de produtos e informação dos quais faziam parte os maiores jornais. O crescimento do número de fontes de informação, a divisão do noticiário em diversas áreas (política, economia, cidade, cultura etc.), o crescente prestígio da notícia sobre a opinião, as demandas por textos sintéticos e diversificados levou [sic] a mudanças crescentes na organização do trabalho, no perfil do profissional e na separação dos gêneros jornalísticos. (RIBEIRO, 2004, p.252-253)


A valorização da atividade jornalística fica bem demarcada com a criação da Associação Brasileira de Imprensa, em 1908, que demonstra o reconhecimento da “[...] forte legitimidade institucional da imprensa como instância pública” (RIBEIRO, 2004, p.265). Para Ribeiro (2004), esse momento já permite perceber um “sentimento de classe”, tanto pelo reconhecimento das empresas jornalísticas, quanto por utilizar o jornalismo como ponte para conseguir um cargo público que garantisse a sobrevivência (RIBEIRO, 2004, p. 265).

Não existem muitos registros sistematizados do jornalismo na Bahia. De acordo com Meire Lúcia dos Reis (2000), a função informativa tarda a tomar conta do jornalismo soteropolitano, mesmo com a inserção de anúncios desde os últimos anos do século XIX, não é possível demarcar uma alteração significativa. A autora relata que os jornalistas baianos do início do século XX não consideravam contraditório estar vinculados a um partido político. Ela cita um trecho do editorial do jornal Diário de Notícias, de 17 de março de 1903, no qual se explica a diferença entre uma “imprensa neutra” e um “imprensa independente”: “[Neutra] é uma imprensa sem iniciativa, sem actividade, sem direito de fiscalização, indiferente, nulla” e a “imprensa independente [...] é autonômica, capaz de exercer com amplitude as três funcções capitães de instruir, fiscalizar e orientar sciente e consciente dos seus direitos e deveres”. A autora explica: “Para o jornal, estar diretamente ligado a um partido político, ou a um chefe político, não significava perder a independência, que seria relativa, pois pressupunha a dependência de opiniões formadas por um grupo político” (REIS, 2000, p.24)

É importante ressaltar quem eram os leitores dos jornais nesse período. Conforme Reis,

Ler um jornal no século XIX e início do XX era hábito impregnado de significados diversos mas um deve ser destacado: só alguns eleitos podiam se aventurar a esta dificílima tarefa. A maioria absoluta da população na Bahia não era alfabetizada, assim como em todo Brasil. (REIS, 2000, p.7).


A autora toma como base o número de votantes para tentar dimensionar os alfabetizados do período, embora advirta que esse não é o melhor parâmetro, pois muitos apenas aprendiam a assinar o nome para ser considerados eleitores, mesmo sem domínio da leitura. Em 1890, dos 1.379.616 adultos habitantes do estado, 81,9% eram analfabetos. Já em 1920, a população eleva-se em 0,80% e o número dos que não sabem ler cai para 75%. Nesse período, a população de Salvador era de 283.422 habitantes que, conforme Reis, concentrava a maioria dos letrados. “Assim, a elite letrada compunha um quadro restrito da sociedade baiana, e os jornais eram feitos para essa elite que hegemonizava culturalmente uma cidade com o seu saber e influência” (REIS, 2000, p.8), afirma a autora.

3. A proposta modernizante de A Tarde

Não pretender estabelecer uma lista de “atributos modernizantes”, visto às restrições já descritas, conforme Bendix (1996). Apesar disso, optamos por observar alguns elementos descritos por Traquina como características da modernização do jornalismo, tais como divisão entre opinião e informação (gêneros), inserção da figura do repórter, visão do jornal como empresa (interesses comerciais) e desvinculação de interesses políticos.

Ao ser lançado, em 15 de outubro de 1912, o A Tarde surge como inovador nesse cenário. Tanto no aspecto gráfico, quanto na construção e seleção das notícias, percebe-se uma melhoria que o diferencia dos demais jornais do período (cf. REIS, 2000, p.20). As mudanças que ele acarreta no cenário local fazem com que, aos poucos, os seus concorrentes sintam-se ameaçados. Meire dos Reis narra um episódio que demonstra esse desconforto que, segundo ela, “marcava de forma drástica a afirmação de uma nova concepção de jornalismo, enquanto negócio com possibilidade de gerar outros” (REIS, 2000, p.22) e, ao mesmo tempo, registra a tensão que a busca da modernização estabelece com a permanência das formas tradicionais de solução de conflitos.

Em 1920, Antônio Marques dos Reis, que era diretor do jornal Manhã, acusou Ernesto Simões Filho, fundador do A Tarde, de ‘jornalista de balcão’. A razão seria, segundo Walfrido Moraes, que Simões Filho começou a tratar o jornal como uma empresa, assim ‘os espaços destinados a servir a interesses pessoais e comerciais deveriam ser pagos’. Diante da acusação do seu concorrente, Simões Filho não teve dúvidas: sacou do revólver e, como o adversário tentasse se esquivar, ‘atirou-lhe nas nadegas’ – conforme afirmou no seu depoimento na Polícia – ‘ para que ficasse gravado naquela região glútea, o sinete do covarde’. (REIS, 2000, p.22)


Aloysio de Carvalho Filho descreve o surgimento do A Tarde como o marco do processo de “modernização” do jornalismo baiano. O autor escreve, em 1960:

O aparecimento, em 1912, de A Tarde, órgão independente de propriedade e direção de Simões Filho, tendo na redação Ranulfo Oliveira, hoje seu diretor, marca, sensacionalmente, a estréia, na Bahia, da imprensa moderna, pelo modelo de A Noite, que Irineu Marinho criara com êxito, na capital do país. (CARVALHO FILHO, 2005, p.67)


O A Tarde, em 1912, realmente carregava uma série de características que o distinguiam claramente dos demais jornais do período que iam desde a organização gráfica (com a introdução do uso de manchetes na primeira página, fotos ampliadas em mais de uma coluna e títulos em destaque), até a estrutura redacional (predominantemente informativa) e às opções temáticas. É interessante perceber a importâncias desses dois últimos fatores no estabelecimento da relação entre leitor e veículo. Podemos aproximar a noção de estrutura redacional ou gênero jornalístico àquela que Teun Van Dikj chama de “esquema da notícia”. Segundo o autor, “muitos tipos de discursos em nossa cultura têm uma organização esquemática mais ou menos fixa. Os usuários da linguagem aprendem estes esquemas durante a socialização [...]” (VAN DIJK, 1990, p.78). Tais esquemas tornam a assimilação do conteúdo mais fácil, pois para compreender do que se trata a notícia, o leitor deve apenas conhecer parte do que se diz e ativar o restante que já está gravado em sua memória. Essas estruturas conhecidas previamente pelo leitor irão atuar como facilitadoras da leitura.

Essa perspectiva também permite-nos observar a variação de temáticas, visto que a interpretação de um determinado texto jornalístico inicia antes da leitura completa deste, começa quando o leitor faz conjecturas a respeito do tema. O tema pode ser percebido por sinais que, para Van Dijk, estão principalmente nos títulos e na cabeça das matérias (VAN DIJK, 1990, p.59), por esse motivo as modificações gráficas do A Tarde têm importância crucial na performance da leitura. Visto que se pode afirmar que o tema é um dos fatores que prepara a interação texto-leitor. O autor explica que “[...] o tema atua como uma instância de controle principal sobre a posterior interpretação do resto do texto. Quando conhecemos o tema, é mais fácil compreender as respectivas orações do texto.” (VAN DIJK, 1990, p.59).

Tais mudanças podem ser percebidas na edição do A Tarde em 19 de novembro de 1912, uma terça-feira. A primeira página traz as informações consideradas mais relevantes, com duas fotos e títulos em destaque. Nesses textos predomina a estrutura informativa, com a utilização de algumas estratégias que demarcam a tentativa de distanciamento do repórter, como a entrevista em discurso direto ou a busca de mais de uma fonte.

Apesar das inovações, o A Tarde também ainda estava preso ao esquema tradicional de vinculação política. Isso pode ser percebido pelo seu próprio processo de fundação, em 1912, após intervenção do presidente Hermes da Fonseca, que nomeia J.J. Seabra como governador do estado, em substituição a Aurélio Viana2. Em outubro desse mesmo ano, Ernesto Simões Filho, que ocupava um cargo de confiança do governo estadual, como administrador dos Correios, lança seu jornal, que, de acordo com seu biógrafo Pedro Calmon, pretendia ser “porta-voz altissonante de J.J. Seabra”.

Ainda na edição de 19 de novembro, a manchete da primeira página traz uma reportagem sobre as obras de construção do porto em Salvador. Ao longo do texto, o repórter não identificado (embora na fotografia aberta em quatro das sete colunas que compõem a capa a figura seja do próprio Simões Filho com o governador) descreve minuciosamente a visita, percebe-se uma preocupação em ater-se à narração-descritiva, que algumas vezes acaba caindo na adjetivação. Ao final, o texto deixa escapar um sinal explícito da proximidade com Seabra, fazendo uma brincadeira e uma cobrança:

Ao sahirmos, o Kodack d’A Tarde demora um instante a comitiva. E s. ex. o sr. governador, estacando gentilmente, faz-nos um bello reclame: - Ah! é A Tarde que nos tarda, diz s. ex., num trocadilho de espírito. A excursão estava terminada. É justo dizermos que todos trouxeram a mais agradavel impressão, tal o incremento que teem tomado as obras. Resta que o mesmo aconteça á avenida do Pilar a Jequitaia.

Apesar da vinculação política, é interessante ressaltar que a matéria traz uma caracterização gráfica e uma clara presença da figura do repórter que a vinculam com a noção de modernização que o jornal tenta imprimir a seus textos.

Além da tendência política, é possível perceber, em algumas matérias, uma postura do jornal que vai além da simples transmissão de informações, se arrogando o papel de porta-voz da opinião pública, quase como espécie de “consciência coletiva”. É o que ocorre, por exemplo, na reportagem policial “Martyrios ignorados – Uma orphã deshonrada, ao abandono é agora perseguida e sob ameaças de torturas”. No texto, o jornal relata a história de uma jovem menor de idade que haveria sido seduzida por um homem chamado Alberto, descrito como “vil seductor”, que era “amasiado” com uma mulher por nome Eufrásia, descrita como “preta feiticeira”, que estaria perseguindo a órfã. No decorrer do texto, lê-se:

A reportagem d’‘A Tarde’, no intuito de auxiliar a policia e a justiça na repressão desse crime, faz-se ao encalço de todos os pormenores e espera concorrer efficazmente para o desaggravo da sociedade, villipendiada por um seductor sem escrúpulos, cuja consciencia não lhe doeu quando perpetrou a infelicidade suprema de uma desvalida.

Nelson Traquina (2005) descreve um duplo papel que os jornalistas assumem na teoria democrática que marca o processo de modernização: “como porta-vozes da opinião pública, dando expressão às diferentes vozes no interior da sociedade que deveriam ser tidas em conta pelos governos, e como vigilantes do poder político que protege os cidadãos contra os abusos (históricos) dos governantes” (TRAQUINA, 2005, p.48). É interessante perceber como o A Tarde estabelece um processo modernizador que coloca em choque essas duas funções, assumindo uma posição na qual se interpenetram os interesses do jornal enquanto empresa, da sociedade enquanto leitores e das instâncias de poder, no caso desse primeiro momento, o governo estadual de Seabra. Constrói-se dessa forma uma configuração de tensão entre a mudança e a permanência, que é claramente refletida nas suas opções editoriais.

A partir da década de 1960, a Bahia começa a sofrer alterações significativas que fazem Antônio Risério (2004) considerar o século XX “partido ao meio”, no que tange a sua história. Afirma o autor:

Até a década de 1950, a Cidade da Bahia e o seu Recôncavo permanecem compondo um espaço coeso, essencialmente tradicional. Ainda é a Bahia do saveiro, do terno branco, da vegetação exuberante, das ruas que se espreguiçam sob o sol. Tempos do chamado “enigma baiano”. Mas, a partir da década de 1960, tudo muda. Surgem estradas e distritos industriais. Avenidas, trevos e túneis. A Cidade da Bahia explode para todos os lados, experimentando problemas e tensões até então inéditos. (2004, p.455)

O autor considera que, a partir dos anos 1950,

a Bahia irá ingressando – progressiva, mas decisivamente – na dança do capitalismo moderno. [...] Basicamente, por dois caminhos: a criação de um setor petroleiro em nossa economia e a política de isenção tributária do Governo Federal, via Sudene – às quais se aliam, de resto, nossos primeiros gestos de planejamento econômico estadual (RISÉRIO, 2004, p.513).


Tal processo se dá pela instalação da Petrobrás, em meados da década de 1950, no Recôncavo; pela criação da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), em 1959; e pelas construções da BR 324 e da Hidrelétrica de Paulo Afonso.

Ao analisar um segundo momento do A Tarde, em 1970, podemos perceber a incorporação das características apontadas como determinantes da modernização do jornalismo, seguindo a “tendência” de modernização do estado. Optamos por essa data em função de três fatores principais. O fato da primeira turma do Curso de Jornalismo da Universidade Federal da Bahia ter ingressado em 1962 (cf. CALMON, 2005) sugere que, na segunda metade da década de 1960, uma gama de novos profissionais tenha se inserido no mercado de trabalho soteropolitano. Acreditamos que, em 1970, já se possam perceber alterações significativas decorrentes dessa formação sistematizada, que diferia muito do ofício do jornalista treinado pela prática até então predominante nas redações. Também nesse sentido, é significativo o ano de 1969 como data da publicação do primeiro dos volumes de Luiz Beltrão dedicados ao estudo da rotina e produção jornalística, com ênfase nos gêneros jornalísticos (“A imprensa informativa”), que pode ser considerada a primeira publicação sistematizada sobre o tema no Brasil. Por fim, ainda em 1969, ocorre a fundação do jornal Tribuna da Bahia, considerado um ícone no jornalismo brasileiro por ser um dos primeiros a introduzir a utilização de um manual de redação e de treinamento para os seus profissionais (Escolinha TB de Jornalismo), o que, a nosso ver, provoca alterações nos concorrentes que, com ele, dialogam.

Na edição de 21 de novembro de 1970, sábado (edição de final de semana, já que o jornal não circulava no domingo) já se pode perceber a opção pelo texto mais informativo, com inserção de discurso direto e consulta a fontes variadas. Uma modificação clara é o aumento do número de páginas, com a inserção de mais notícias, mais anúncios publicitários e um amplo caderno de classificados. No geral, os textos são curtos e informativos, alguns reproduzindo na íntegra discursos de autoridades constituídas (o que pode ser entendido pelo período, no qual vigia o Ato Institucional número 5). Apesar desse fator externo, o jornal traz para a capa a necessidade de constituição de um terceiro partido, além de Arena e MDB, demonstrada pelo alto índice de votos em branco. Tal idéia é defendida sem muita ênfase também no editorial.

Tal como em 1912, nesse período podem ser percebidos, em alguns momentos, a reprodução, por parte do jornal, de idéias que perpassam o senso comum e que são apresentadas como a incorporação de uma “opinião pública” da qual o jornal se coloca , ainda que de modo sutil, como porta-voz, tais como preconceito racial e resistência à quebra de tradições. O primeiro caso encontra-se em uma chamada que funciona como legenda da foto principal da capa. Nela, a Miss Mundo, representante das Antilhas é coroada. Após breve descrição do evento, a chamada conclui com a frase: “Um aspecto curioso do concurso, no seu resultado final, foi a colocação da representante negra da África do Sul, Pearl Janson, que ficou em segundo lugar, enquanto a branca do mesmo país, Jillian Jessup, foi classificada em quinto.” Já a quebra de tradições é questionada em uma reportagem assinada por Chico Marques, na qual o autor critica a utilização do palavrão. O texto de abertura é o seguinte:

Primeiro o palavrão cercou os lares mais tradicionais, expulsou os bons costumes e fêz cair por terra os preconceitos. Por toda parte há sempre alguém com “um nome feio” na bôca. Mas ninguém liga para nada. Os “coroas” acham que o palavrão está em moda, enquanto os psicólogos dizem que quem o usa procura apenas a auto afirmação. Esta reportagem é para mostrar AS MIL FACES DO PALAVRÃO.
Todos os exemplos e colocações aqui mencionados são apenas fragmentos de um trabalho de doutoramento ainda em fase inicial. Como já dito, não é nossa intenção trazer nessa comunicação idéias prontas, mas lançar questionamentos. Acreditamos que a modernização do jornalismo baiano, tal como qualquer processo histórico, envolve uma gama de fatores e não pode ser entendida de modo linear, seguindo um padrão estabelecido pela experiência européia, que segue uma seqüência e um tempo específico. Há que se levar em consideração o conjunto de fatores sócio-político-econômicos que constroem essa configuração social específica. Consideramos que, ao observar a narrativa jornalística – especialmente os elementos gêneros, temáticas e hábito de leitura (o qual não foi anteriormente mencionado) – podemos reconstruir, ainda que parcialmente, esse desenho e, com ele, o desenho da sociedade na qual ele se desenvolve.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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BENDIX, Reinhard. Construção nacional e cidadania. Trad. Mary Amazonas Leite de Barros. São Paulo : Edusp, 1996. Col. Clássicos, vol. 5.

CALMON, Jorge. “Oito razões (dentre muitas outras) para que exista Curso de Jornalismo.” In: TAVARES, Luiz Guilherme (org). Apontamentos para a história da imprensa na Bahia. Salvador : Academia de Letras da Bahia; Assembléia Legislativa do Estado da Bahia, 2005.

CARVALHO FILHO, Aloysio de. “Jornalismo na Bahia, 1875-1960”. In: TAVARES, Luiz Guilherme (org). Apontamentos para a história da imprensa na Bahia. Salvador : Academia de Letras da Bahia; Assembléia Legislativa do Estado da Bahia, 2005.

LAGE, Nilson. Ideologia e técnica da notícia. 3.ed. Florianópolis : Insular, Ed. da UFSC, 2001.

SODRÉ, Nélson Werneck. História da imprensa no Brasil. 4.ed. Rio de Janeiro : Mauad, 1999.

REIS, Meire Lúcia Alves dos. A Cor da Notícia: Discurso sobre o negro na imprensa baiana – 1888-1937. Dissertação (Mestrado em História Social / Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas). Salvador : Universidade Federal da Bahia, 2000.

RIBEIRO, Lavina Madeira. Imprensa e Espaço Público: A institucionalização do jornalismo no Brasil (1808-1964). Rio de Janeiro : E-Papers Serviços Editoriais, 2004.

RISÉRIO, Antônio. Uma história da Cidade da Bahia. 2.ed. Rio de Janeiro : Versal, 2004.

TRAQUINA, Nelson. Teorias do Jornalismo – Porque as notícias são como são. 2.ed. Florianópolis : Insular,2005. Vol.I

VAN DIJK, Teun. A. La noticia como discurso – Comprensión, estructura y producción de la información. Barcelona : Paidós, 1990.



1 Jornalista, mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela FACOM / UFBA e doutoranda em Ciências Sociais pela FFCH / UFBA.

2 Polêmico governador que, em 1912, transferiu a sede do governo baiano para Jequié e ordenou o cerco e ocupação da Câmara Municipal, na qual funcionava a Assembléia Legislativa e como, mesmo com hábeas-corpus impetrado pela Justiça Federal, Viana não retirou o cerco o exército bombardeou o centro de Salvador durante quatro horas, no dia 10 de janeiro de 1912 (cf. CARVALHO FILHO, 2005, p.71; RISÉRIO, 2004, p. 490)


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