A mulher que matou os peixes



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Encontro29.07.2016
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A mulher que matou os peixes
Clarice Lispector

Para Nicole e Cássio

Para João, Mark e Giancarlo

Para Karin, Letícia, Mônica, Zilda e Azalia

sobretudo para a

Campanha Nacional da Criança

Essa mulher que matou os peixes infelizmente sou eu. Mas juro a vocês que foi sem querer. Logo eu! Que não tenho coragem de matar uma coisa viva! Até deixo de matar uma barata ou outra.

Dou minha palavra de honra que sou pessoa de confiança e meu coração é doce: perto de mim nunca deixo criança ou bicho sofrer.

Pois logo eu matei dois peixinhos vermelhos que não fazem mal a ninguém e que não são ambiciosos: só querem mesmo é viver.

Pessoas também querem viver, mas infelizmente também aproveitar a vida para fazer alguma coisa de bom.

Não tenho coragem ainda de contar agora mesmo como aconteceu. Mas prometo que no fim deste livro contarei e vocês, que vão ler essa história triste, me perdoarão ou não.

Vocês hão de perguntar: por que só no fim do livro?

E eu respondo:

- É porque no começo e no meio vou contar algumas histórias de bichos que eu tive, só para vocês verem que eu só poderia ter matado os peixinhos sem querer.

Estou com esperança de que, no fim do livro, vocês já me conheçam melhor e me dêem o perdão que eu peço a propósito da morte de dois “vermelhinhos” – em casa chamávamos os peixes de “vermelhinhos”.

Eu sempre gostei de bichos. Tive uma infância rodeada de gatos. Eu tinha uma gata que de vez em quando paria uma ninhada de gatos. E eu não deixava se desfazerem de nenhum dos gatinhos.

O resultado é que a casa ficou alegre para mim, mas infernal para as pessoas grandes. Afinal, não agüentando mais os meus gatos, deram escondido de mim a gata com sua última ninhada.

Eu fiquei tão infeliz que adoeci com muita febre.

Então me deram um gato de pano para eu brincar.

Eu não liguei para ele, pois estava habituada a gatos vivos.

A febre só passou muito tempo depois.

Bem, vamos mudar de assunto.

Vou contar antes umas coisas muito importantes para vocês não ficarem tristes com meu crime. Se eu tivesse culpa, eu confessava a vocês, porque não minto para menino ou menina. Só minto às vezes para certo tipo de gente grande porque é o único jeito. Tem gente grande que é tão chata! Vocês não acham? Elas nem compreendem a alma de uma criança. Criança nunca é chata.

Por enquanto só posso dizer que os peixes morreram de fome porque esqueci de lhes dar comida. Depois eu conto, mas em segredo, só vocês e eu vamos saber.

Tenho esperanças de que até o fim do livro vocês possam me perdoar.

Antes de começar, quero que vocês saibam que meu nome é Clarice. E vocês, como se chamam? Digam baixinho o nome de vocês e meu coração vai ouvir.

Peço que leiam esta história até o fim. Vou contar umas coisas: minha casa tem bichos naturais. Bichos naturais são aqueles que a gente não convidou nem comprou. Por exemplo, nunca convidei uma barata para lanchar comigo.

Minha casa tem muitos bichos naturais, menos rato, graças a Deus, porque tenho medo e nojo deles.

Quase todas as mães têm medo de rato. Os pais não: até gostam porque se divertem caçando e matando esse bicho que detesto. Vocês têm pena de rato?

Eu tenho porque não é um bicho bom para a gente amar e fazer carinho. Vocês fariam carinho num rato? Vai ver vocês nem têm medo e em muitas coisas são mais corajosos do que eu.

Tenho um amigo que, quando era menino, criou um rato branco. Fiquei com tanto nojo que só quero apertar a mão de meu amigo quando passar o susto. Seu rato era, na verdade, uma rata e se chamava Maria de Fátima.

Maria de Fátima morreu de um jeito horrivelzinho (eu digo horrivelzinho porque no fundo estou bem contente): um gato comeu ela com a rapidez com que comemos um sanduíche.

Como eu is dizendo, os bichos naturais de minha casa não foram convidados. Apareceram assim, sem mais nem menos.

Por exemplo: tenho baratas. E são baratas muito feias e muito velhas que não fazem bem a ninguém. Pelo contrário, elas até roem a minha roupa que está no armário.

Vocês sabem que eu tive uma guerra danada contra as baratas e quem ganhou nessa guerra fui eu?

Eu fiz o seguinte: paguei um dinheiro para um homem que só faz isso na vida: matar baratas.

Esse homem faz uma coisa que se chama dedetização. Ele espalha esse remédio pela casa toda. Esse remédio tem um cheiro muito forte que não faz mal para a gente mas deixa as baratas muito tontas até que morrem.

Mas parece que uma barata, antes de morrer, conta baixo às outras baratas que minha casa é perigosa para a raça delas, e assim a notícia se espalha pelo mundo das baratas e elas não voltam para minha casa. Só seis meses depois elas ganham coragem de voltar, mas eu chamo de novo o homem dos remédios e elas fogem de novo.

Barata é outro bicho que me causa pena. Ninguém gosta dela, e todos querem mata-la. Às vezes o pai da criança corre pela casa toda com um chinelo na mão, até pegar uma e bate com o chinelo em cima até ela morrer. Tenho pena das baratas porque ninguém tem vontade de ser bom com elas. Elas só são amadas por outras baratas. Não tenho culpa: quem mandou elas virem? Vieram sem serem convidadas. Eu só convido os bichos que eu gosto. E, é claro, convido gente grande e gente pequena.

Sabem de uma coisa? Resolvi agora mesmo convidar meninos e meninas para me visitarem em casa. Vou ficar tão feliz que darei a cada criança uma fatia de bolo, uma bebida bem gostosa, e um beijo na testa.

Outro bicho natural da minha casa é... adivinhem!

Adivinharam? Se não adivinharam não faz mal, eu digo a vocês. O outro bicho natural de minha casa é a lagartixa pequena. São engraçadas e não fazem mal nenhum. Pelo contrário: elas adoram comer moscas e mosquitos, e assim limpam minha casa toda.

Eu não mato lagartixa mas tem gente que corta elas com o chinelo. Aí é engraçado: cada pedaço solto da lagartixa começa a se mexer sozinho. Por exemplo, uma perna cortada e solta da lagartixa fica se mexendo no chão e tremendo o tempo todo. É um mistério mexerem-se os pedaços antes de morrer.

O que eu não entendo também é o paladar horrível que a lagartixa tem por moscas e mosquitos. Mas é claro: como não sou lagartixa, não gosto de coisas que ela gosta, nem ela gosta do que eu gosto.

Uma vez prendemos um mosquito e olhamos ele bem de perto com uma lente forte. E vocês não imaginam como é a cara de um mosquito. É muito esquisita. Não tenho medo de mosquito nem de mosca, mas tanto um como o outro me incomodam muito. A lagartixa, que é minha grande amiga, me ajuda com muita alegria porque mosquito para ela é sobremesa. Nós, gente, gostamos de sobremesa com coco, por exemplo, mas a lagartixa até parece ter nojo desse doce.

A lagartixa não fala, não canta, não dança, não gosta da gente porque tem medo das pessoas. A lagartixa seria um perigo para nós se ela fosse igual em tamanho ao jacaré.

Agora vou falar sobre bichos convidados, igual ao meu convite para vocês. Às vezes não basta convidar: Tem-se que comprar.

Por exemplo, convidei dois coelhos para morar com a gente e paguei um dinheiro ao dono deles. Coelho tem uma história muito secreta, quero dizer, com muitos segredos.

Eu até já contei a história de coelho num livro para gente pequena e para gente grande. Meu livro sobre coelhos se chama assim: “O mistério do coelho pensante”. Gosto muito de escrever história para crianças e gente grande. Fico muito contente quando os grandes e os pequenos gostam do que escrevi.

Se vocês gostam de escrever ou desenhar ou dançar ou cantar, façam porque é ótimo: enquanto a gente brinca assim, não se sente mais sozinha, e fica de coração quente.

Voltando aos coelhos, tem gente que come coelho. Eu não tenho coragem porque é como se eu comesse um amigo. Os dois coelhos que tivemos em casa eram meus amigos.

Também tivemos aqui em casa dois patos comprados que andavam o dia inteiro atrás da gente com aquele modo engraçado de andar dos patos.

Outro bicho que pensa que a gente é mãe deles é qualquer pinto. Nesse ponto o pinto é igual a gente: fica com saudade do calor da galinha-mãe. O que a gente pode fazer de bom para um pinto que fica piando e chorando de saudade é segura-lo na mão e esquentar o corpo dele. Quando a gente pega neles a gente sente o seu minúsculo coração batendo dentro do pequeno corpo fofo e morno deles. Embaixo das penas macias sentem-se os ossos bem finos das costelas deles. Pinto é sempre magrinho. E, longe da galinha, morre à toa. Já comprei muitos pintos e a maioria morreu. Só continuavam a viver os pintos que tinham alma mais forte.

Quanto a cachorros, eu já tive dois.

O primeiro foi assim: eu estava morando numa terra que se chama Itália. Um dia, andando pelas ruas da cidade, vi um cachorro vira-lata.

Os vira-latas são tão inteligente que aquele que eu vi sentiu logo que eu era boa para os animais e ficou no mesmo minuto alvoroçado abanando o rabo.

Quanto a mim, foi só olhar que logo me apaixonei pela cara dele. Apesar de ser italiano, tinha cara de brasileiro e cara de quem se chama Dilermando. Paguei um dinheiro para a dona dele e levei Dilermando para casa. Logo dei comida a ele. Ele parecia tão feliz por eu ser dona dele que passou o dia inteiro olhando para mim e abanando o rabo. Vai ver que a outra dona dele batia nele, de modo que Dilermando estava feliz em mudar de dona.

Dilermando era quase tão inteligente como uma criança de dois anos. Vivia atrás de mim para não se sentir sozinho. E comia tanto de tudo que logo engordou.

Passava o dia cheirando as coisas: cachorro cheira as coisas para compreendê-las; eles não raciocinam muito, são guiados pelo amor do coração dos outros e deles mesmos.

Dilermando gostava tanto de mim que quase endoidecia quando sentia pelo faro o meu cheiro de mulher-mãe e o cheiro do perfume que uso sempre. Esse perfume se chama em francês “Vert et Blanc”, isto é, “Verde e Branco”, e foi inventado por um homem que se chama Carven. Como vocês vêem, existe de tudo neste mundo: mulheres que batem em cachorros, outras que nunca batem, homem que ganha dinheiro para matar baratas, homem que faz umas misturas e inventa perfume. Isto eu estou dizendo para que vocês se lembrem quando crescerem que há muito o que fazer na vida.

Bem, mas e o cheiro de Dilermando. Ele detestava tomar banho, pensava que era a gente era ruim quando obrigava ele a esse sacrifício. Como dava muito trabalho dar banho todos os dias e como ele fugia da banheira todo ensaboado, terminei dando banho só duas vezes por semana. O resultado, é claro, é que ele tinha um cheiro muito forte de cachorro e eu logo sentia com o meu faro, porque gente também tem faro. Vocês têm faro? Aposto que sim, porque além de sermos gente, somos também animais. O homem é o animal mais importante do mundo, porque, além de sentir, o homem pensa resolve e fala. Os bichos falam sem palavras.

Sabem como tive que me separar de Dilermando? É que eu tinha de ir embora da Itália e ir para um país chamado Suíça. E nesse país os hotéis não deixam entrar cachorros. Então escolhi uma moça muito boa para cuidar dele. Na hora de me despedir dele, fiquei tão triste que chorei. E Dilermando também chorou.

Muitos anos depois eu estava morando em outro país que se chama Estados Unidos da América. E comprei um cachorro americano com o nome de Jack. Não lembro de que raça ele era porque não faço diferenças, eu gosto de todas as raças humanas e de animais.

Jack era daqueles cachorrões que latem o tempo todo e vigiam a casa para não deixar entrar ladrão.

Jack só fazia algumas coisas na vida disciplinada dele: latia, comia, namorava muito, vigiava a casa, dormia, brincava com a gente.

Ele tinha uma vida muito animada porque ele gostava de tudo o que fazia. Igual a mim, porque faço várias coisas na vida e gosto do que faço. Muitas coisas eu faço sem gostar, só por dever. Jack era menos inteligente que Dilermando, mas era um cachorro muito corajoso. Ele não tinha medo de nada.

Sabem o que aconteceu? Foi o seguinte: de noite Jack ficava no nosso jardim defronte de casa e ele era tão metido a importante que passou a vigiar a rua inteira, sem ninguém pedir. Quando uma pessoa passava lá longe na rua, ele latia tanto que acordava toda a vizinhança.

Até que uma madrugada um vizinho veio de pijama para nossa casa e disse que estava cansado de não dormir e que, se Jack ficasse conosco, ele ia dar um tiro nele.

O vizinho estava muito zangado, e eu vi que ele mataria mesmo. Para salvar a vida de Jack, demos ele a uma família muito boa que morava num sítio e onde Jack podia latir à vontade.

Só tive na vida esses dois cachorros felizes. Agora vou contar uma história de macacos um pouco alegre e um pouco triste.

Imaginem vocês que tinha saído para fazer compras e quando voltei e entrei em casa senti que havia alguma coisa esquisita acontecendo. Toas as pessoas estavam no terraço dos fundos e fui olhar o que era que tinha ali.

Vocês não acreditam que eu não esperava jamais o que encontrei: um macaco. Na verdade era um mico tão grande e forte como se fosse um filhote de gorila. Ele estava muito agitado e nervoso porque ainda não conhecia bem a casa. De pura agitação subia de repente pelas roupas estendidas na corda, sujando todas as roupas lavadas. De lá de cima dava gritos que nem marinheiro dando ordens num navio. E jogava cascas de banana mesmo que caíssem em cima de nós.

Bom, esse mico enorme passou a morar conosco. Sempre que eu ia para a área de serviço ele ficava alegre que pulava de um canto para outro, sujando tudo.

Vocês sabem muito bem que macaco é bicho que mais se parece com as pessoas. Esse macaco até parecia ter vida humana. Parecia com um homem maluco. Como ele fazia uma bagunça horrível na casa, resolvi dá-lo às crianças do morro que adoram micos. Em casa todo mundo ficou triste e zangado comigo.

Passou-se mais um ano. Uma tarde eu estava andando pelas ruas para comprar presentes de Natal. As ruas estavam muito cheias de pessoas comprando presentes. No meio daquela gente toda, vi um agrupamento, fui olhar: era um homem vendendo vários micos, todos vestidos de gente e muito engraçados. Pensei que todas de casa iam ficar adorando o presente de Natal, se fosse um miquinho. Escolhi uma miquinha suave e linda, que era muito pequena. Estava vestida com saia vermelha, e usava brincos e colares baianos. Era muito delicada conosco, e dormia o tempo todo.

Foi batizada com o nome de Lisete. Lisete às vezes parecia sorrir pedindo desculpas por dormir tanto. Comer, quase não comia, e ficava parada num cantinho só dela.

No quinto dia comecei a desconfiar que Lisete não estava bem de saúde. Pois não era normal o jeito quieto e calado dela.

No sexto dia quase dei um grito quando adivinhei: “Lisete está morrendo! Vamos leva-la a um veterinário!” Veterinário é o médico que só cuida de bichos.

Ficamos muito assustados porque já amávamos Lisete e sua carinha de mulher. Ah, meu Deus, como nós gostávamos de Lisete! Enrolei Lisete num guardanapo e fomos de táxi correndo para um hospital de bichos. Lá deram-lhe imediatamente uma injeção para ela não morrer logo. A injeção foi tão boa que até parecia que ela estava curada para sempre, porque de repente ficou tão alegre que pulava de um canto para outro, dava guinchos de felicidade, fazia caretinhas de macaco mesmo, estava doida para agradar a gente. Descobrimos, então, que ela nos amava muito e que não demonstrara antes porque estava tão doente que não tinha força.

Mas, quando passou o efeito da injeção, ela, de repente, parou de novo e ficou toda quieta e triste na minha mão. O médico então disse uma coisa horrível: que Lisete ia morrer.

Aí compreendemos que Lisete já estava muito doente quando eu a comprei. O médico disse que não se compram macacos na rua porque às vezes estão muito doentes. Nós perguntamos muito nervosos:

- E agora? Que é que o senhor vai fazer?

Ele respondeu assim:

- Vou tentar salvar a vida de Lisete, mas ela tem que passar a noite no hospital.

Voltamos para casa com o guardanapo vazio e o coração vazio também. Antes de dormir, eu pedi a Deus para salvar Lisete.

No dia seguinte o veterinário telefonou avisando que Lisete tinha morrido durante a noite. Compreendi então que Deus queria leva-la. Fiquei com os olhos cheios de lágrimas e não tinha coragem de dar esta notícia ao pessoal de casa. Afinal avisei, e todos ficaram muito, muito tristes.

De pura saudade, um de meus filhos perguntou:

- “Você acha que ela morreu de brincos e colar?”

Eu disse que tinha certeza que sim, e que, mesmo morta, ela continuaria linda.

Também de pura saudade, o outro filho olhou para mim e disse com muito carinho:

- “Você sabe, mamãe, que você se parece muito com Lisete?”

Se vocês pensam que eu me ofendi porque pareci com Lisete, estão enganados. Primeiro, porque a gente se parece mesmo com um macaquinho; segundo, porque Lisete era cheia de graça e muito bonita.

- Obrigada meu filho – foi isso que eu disse a ele e dei-lhe um beijo no rosto.

Um dia desses vou comprar um miquinho com saúde. Mas esquecer Lisete? Nunca.

Bem, agora descansem um pouco porque vou contar uma história tão horrível que até parece filme de mocinho e bandido. É uma história de amor e ódio misturados num só coração.

Já descansaram? Bem, então prestem bastante atenção porque essa história de cachorro é terrível mesmo. Não pensem que estou inventando as minhas histórias. Dou minha palavra de honra que minhas histórias não são de mentira: aconteceram mesmo.

Bem, preparem-se que eu vou começar.

Um amigo meu, chamado Roberto, tinha um cachorro que se chamava: Bruno Barberini de Monteverdi. É um nome comprido para um cão, mas era assim que ele se chamava. Quando a gente queria falar com ele só chamava Bruno, porque senão seu nome ficava enorme.

Bruno tinha um amigo, cachorro também, que vigiava a casa de um vizinho. Esse amigo-cachorro de Bruno chamava-se Max.

Eles eram tão amigos que um chamava o outro, convidando para almoçar e botavam os dois focinhos no mesmo prato de comida. É claro que Bruno nem Max falavam, só latiam. E os convites para um almoçar na casa do outro eram transmitidos assim: latindo um pouquinho, abanando o rabo, ficando parado um diante do outro, e de repente andando. Então o cachorro entendia que era para seguir o outro e almoçarem juntos.

Esqueci de dizer que Bruno Barberini Monteverdi tinha paixão pelo dono, Roberto. E era muito fiel. Bruno não deixava ninguém se aproximar demais do dono pensando que iam ataca-lo. Todas as noites esperava acordado que o dono voltasse e só ia dormir quando esse chegava. Isso eu estou contando para vocês entenderem a tragédia que aconteceu.

Um dia, Max estava almoçando na casa de Bruno, quando o dono entrou na cozinha. Não se sabe por que Max resolveu fazer festinhas no dono de Bruno. E para fazer a festinha aproximou-se do dono e se encostou na sua perna.

Bruno ficou espantado por um segundo: pensou que Max ia atacar Roberto e correu em defesa do dono.

Para defender o dono, atirou-se em cima de Max, que não tinha culpa nenhuma. Mas Max, vendo-se ferozmente atacado reagiu. E o resultado foi uma luta sangrenta.

Max tinha mais força que Bruno. Bruno estava sendo estraçalhado. Finalmente, Roberto conseguiu separar os dois.

Bruno estava gravemente ferido e já quase morrendo. Seu coração quase não batia mais. Roberto levou Bruno depressa para o hospital de bicho. Lá deram uma injeção para reanimar o seu coração, que estava quase parando. Cuidaram dos ferimentos do corpo e da cabeça, e Bruno ficou muitos dias no hospital. Até que ficou bom e pôde voltar para casa.

Agora pergunto a vocês: que é que Bruno fez?

Bruno era tão corajoso que, curado dos ferimentos, foi atacar Max. Este deu-lhe então a maior surra que se posso imaginar. E dessa vez os ferimentos foram tão graves que até as orelhas de Bruno ficaram inteiramente rasgadas. Roberto levou-o de novo para o hospital, onde dessa vez, Bruno ficou dois meses. Quando ficou curado, voltou para casa.

E agora me respondam: que é que vocês acham que Bruno fez?

Acertaram. Bruno foi vingar-se e atacar Max.

Mas dessa vez ele estava com tanta, mas tanta raiva que sua força aumentou e ficou diabólica.

E ele, enfim, matou Max.

É, mas no mundo dos cachorros é diferente. Não há polícia para eles irem se queixar. Então os cachorros mesmos resolvem entre si as brigas, fazem o papel de juiz e de polícia, e muitas vezes agem como bandidos armados. Os cachorros não se perdoam.

O que aconteceu foi que os cachorros da vizinhança ficaram contra Bruno e não perdoaram a morte horrível de Max.

Então, para vingarem-se, começaram a cercar Bruno. Bruno já tinha até medo de sair para a rua. Quando saía, ficava muito desconfiado, olhando de um lado para outro.

Afinal, vendo que não acontecia nada de ruim, começou tranqüilamente a sair de novo. E foi esse o grande erro de Bruno.

Uma tarde ele estava passando todo sozinho e até lamentando a morte de Max que era o seu único amigo. Estava com muita saudade. Amigo bom não se encontra todos os dias. Os cachorros têm uma alma bem grande, eles até entendem a gente. O mundo dos cães é cheio de amor para dar, e eles dão de graça. Bruno estava triste demais sentindo falta daquele que matara por amor a Roberto.

Nessa tarde tão triste, quando não havia prazer em ao menos cheirar as coisas, apareceu de repente na esquina um cachorro.

E de repente na outra esquina mais um cachorro. E depois, saíram das casas da vizinhança três cachorros.

Bruno percebeu logo que estava cercado por vários cachorros enormes e fortes. Bruno sabia que a lei dos cachorros é a vingança. Ele quis fugir mas não podia quebrar o cerco. Os cachorros formavam uma espécie de círculo em torno de Bruno.

E o círculo ia ficando cada vez mais apertado. Até que os cachorros conseguiram encurralar Bruno junto de uma árvore.

Os cachorros então de repente atacaram de uma só vez Bruno, fazendo eles mesmos justiça, porque, como eu disse, no mundo dos cães eles próprios se encarregam de ser juiz e polícia. Eram cinco cachorrões contra Bruno. Bruno ainda tentou se defender mas não tinha força contra eles.

E aconteceu o que era de se esperar: o pior. Os cinco cachorros castigaram Bruno até ele morrer.

E assim é que Bruno Barberini de Monteverdi morreu para todo o sempre.

Vocês ficaram com saudade do Bruno? Eu também. A história da vida e da morte de Bruno Barberini de Monteverdi é uma história de grande amor:

Bruno amava tanto Roberto que não permitia nenhum outro cachorro fazer carinho no dono ou ataca-lo.

Também era grande o amor fraterno que ligava Bruno e Max. Mas o primeiro amor era para Roberto.

Vocês ficaram tristes com a história? Vou fazer um pedido para vocês: todas as vezes que vocês sentirem solitários, isto é, sozinhos, procurem uma pessoa para conversar. Escolham uma pessoa grande que seja muito boa para crianças e que entenda que às vezes um menino ou uma menina estão sofrendo. Às vezes de pura saudade, como os periquitos australianos. Conheço uma moça que toca piano muito bem nos teatros. Essa moça ganhou de presente no dia do seu aniversário um periquito australiano. Só ganhou a fêmea. O pior é que as pessoas que dão um periquito australiano têm que comprar dois: um macho e uma fêmea que, por causa da raça deles, são tão amorosos que passam o dia se beijando e não podem ser separados. A periquita até adoeceu de tanta saudade do macho dela.

Bom, depois de contar uma história um pouco triste sobre a saudade da periquita, quero ficar alegre e alegrar vocês com outra história.

Falarei sobre uma coisa muito boa: sobre uma ilha.

Vocês gostariam de ter uma ilha só para cada um de vocês e para os seus amigos? Eu gostaria muito e não tenho.

Mas uma amiga minha comprou uma ilha só para ela e os amigos descansarem. Vocês sabem bem como é uma ilha? E um pedaço de terra cercado de água por todos os lados.

Eu queria que vocês fossem fazer uma visita comigo à ilha de minha amiga. Vocês poderiam tomar banho de mar, caçar bichos, e de noite iam dormir numa rede. Vocês não iam ter medo porque eu ia dormir no mesmo quarto, protegendo cada menino e cada menina.

No mar dessa ilha tem de tudo: todas as espécies de peixes. Até cavalo-marinho tem. Ver um cavalo-marinho nadar é lindo: parece até com homens e mulheres dançando devagar.

Essa ilha é um pouco encantada.

Por quê? Pelo ar sempre novo, pelo capim chamado sapê que parece cantar ao vento, pela cidade das borboletas. Minha amiga e um grupo de amigos dela estavam explorando a ilha, e no meio de um bambual encontraram a cidade das borboletas. Nessa clareira elas vivem, voam alto, voam baixo, voam ao redor de nós. Pequenas, grandes, azuis, amarelas e de todas as cores. Parecia um bailado de borboletas naquele silêncio que só uma ilha tem.

O silêncio da ilha é um silêncio diferente: é atravessado pelos sons característicos dos habitantes animais e vegetai. Planta, se a gente pegar com jeito, as folhas delas parecem cantar. E falam com a gente. O quê? Depende de a gente estar triste ou alegre, com fome de beleza e de conversa.

Minha amiga comprou a ilha para lá morarem durante um tempo crianças um pouco tristes que ainda não tinham conversado com plantas e animais. Um cavalo-marinho recebeu minha amiga no banho de mar.

No fundo do mar lá é azul e de todas as outras cores também por causa dos ouriços coloridos e das estrelas-do-mar e pelas algas que se movem dando esse colorido ondulante.

Vocês pensam que estou inventando?

Mas, se eu jurar por Deus que tudo o que contei neste livro é verdade, vocês acreditam? Pois juro por Deus que tudo o que contei é a pura verdade e aconteceu mesmo. Eu tenho respeito por meninos e meninas e por isso não engano nenhum deles.

Bem, obrigada por terem acreditado em mim. Não gosto de passar por mentirosa.

Além dos cardumes de peixes pequenos e grandes, no mar da ilha também tem cardumes de botos ou delfins: parecem com uma baleia pequena.

Os bichos da terra são pássaros de todas as cores e tamanhos. Também tem na ilha muita cobra e muito lagarto. A casa da ilha fica de portas e janelas fechadas contra mosquitos, lagartos e cobras. Tem também manadas de antas.

A ilha é tão grande que a dona dela ainda não conheceu tudo. E tem uma parte selvagem que nunca foi explorada.

A parte encantada são os brinquedos no mar de noite: desde a pesca com luz de lanterna até o mergulho todo iluminado pela fosforescência das plantas do mar. Peçam à gente grande para explicar o que é fosforescência.

As frutas são jaca, caju, cajá, graviola, bananas. E dos coqueiros altíssimos caem cocos à beca, até em cima da gente se não se toma cuidado. Tem também goiabas das brancas e vermelhas, e pitangas escarlates.

A água para beber foi canalizada com os bambus enormes da ilha.

É uma ilha tão encantada que eu teria medo de ficar sozinha de noite na minha rede. Nessa ilha tem todas as espécies de árvores, plantas, frutas e flores.

Morar numa ilha para sempre é triste porque a gente não quer se separar da família e dos amigos. Mas não precisamos morar lá. Basta passar sábado e domingo.

Bem, vamos deixar a ilha em paz, e voltar para os bichos. Eu tenho uma amiga que tem um cachorro que late tanto e tão alto que já me deu vontade de latir de volta.

Eu fico muito ofendida quando um bicho tem medo de mim, pois sou corajosa e protejo os animais. Quem de vocês tiver medo, eu cuido e consolo. Porque sei o que é o medo que as crianças têm porque já fui criança. Até hoje ainda tenho medo de certas coisas.

Outra amiga tinha uma cadela chamada Bolinha. Ela era muito normal, mais normal que muita gente humana e que muitos cachorros. Era uma mãe perfeita. Cuidava sozinha dos filhotes e lambia eles em lugar de dar banho. Quando minha amiga chegava perto, empurrava os filhotes com o focinho para apresenta-los. Bolinha ensinava os filhos a correr e a brincar.

Era muito sensível e um pouco nervosa. Percebia longe a chegada de pessoas. Quando as pessoas estavam zangadas, ou ela fazia alguma coisa errada, encostava-se contra a parede e ficava de lá olhando muito sem jeito.

De cavalo não tenho nenhuma história para contar, e é uma pena, porque cavalo é um animal de grande beleza.

Bem, agora chegou a hora de falar sobre o meu crime: matei dois peixinhos. Juro que não foi de propósito. Juro que não foi muito culpa minha. Se fosse, eu dizia.

Meu filho foi viajar por um mês e mandou-me tomar conta de dois peixinhos vermelhos dentro do aquário.

Mas era tempo demais para deixarem os peixes comigo. Não é que eu não seja de confiança. Mas é que sou muito ocupada, porque também escrevo histórias para gente grande.

E assim como a mãe ou a empregada esquecem uma panela no fogo, e quando vão ver já se queimou toda a comida – eu estava também ocupada escrevendo história. E simplesmente fiz uma coisa parecida co deixar a comida queimar no fogo: esqueci três dias de dar comida aos peixes! Logo aqueles que eram tão comilões, coitados.

Além de dar comida, eu devia sempre trocar a água do aquário, para eles nadarem em água limpa.

E a comida não era qualquer uma: era comprada em lojas especiais. A comida parecia um pozinho horrível, mas devia ser gostoso para peixe porque eles comiam tudo.

Devem ter passado fome, igual gente. Mas nós falamos e reclamamos, o cachorro late, o gato mia, todos os animais falam por sons. Mas peixe é tão mudo como uma árvore e não tinha voz para reclamar e me chamar. E, quando fui ver, estavam parados, magros, vermelhinhos – e infelizmente já mortos de fome.

Vocês ficaram muito zangados comigo porque eu fiz isso? Então me dêem perdão. Eu também fiquei muito zangada com a minha distração. Mas era tarde demais para eu lamentar.

Eu peço muito que vocês me desculpem. Dagora em diante nunca mais ficarei distraída.

Vocês me perdoam?

A partir de histórias de bichos – um cachorro tem alma bem grande, um coelho tem histórias secretas... – até a revelação de seu “crime” de ter matado os peixes, Clarice Lispector transmite neste livro uma rica mensagem de compreensão, afeto e solidariedade para as crianças, que lêem com o coração.






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