A mulher samaritana



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A mulher samaritana”

O exemplo de aconselhamento de Jesus em João 4.1-42.

Clayton Lima de Souza




  1. Introdução.

O episódio do encontro entre Jesus e a mulher samaritana (João 4.1-42) é importante para a compreensão da maneira como o Mestre aconselhava. Começando pelo fato de que para Ele isso era de longe apenas uma tarefa de gabinete, que aconselhar fazia parte do seu dia a dia com as pessoas e que por isso era imperativo para Ele de cuidar delas; passando pelas diversas reações da aconselhada e a maneira como o Senhor lidou com cada uma delas e finalmente, chegando à conclusão do episódio que demonstra claramente a maneira misericordiosa e graciosa de Jesus confrontá-la e levá-la à cura.





  1. Contextos históricos, culturais e religiosos.

No ano 722 a.C., todos os habitantes do Reino do Norte (Israel) cuja capital era a cidade de Samaria são levados cativos para a Assíria, e o império instala em seu território outros deportados de diversas nações conquistadas. Quando os israelitas voltam do exílio, eles encontram esses gentios morando em suas terras e a partir dali, começa um processo de miscigenação racial que dá origem aos samaritanos, fato que os judeus não admitiam. A animosidade entre judeus e samaritanos se acirrou quando um templo rival foi construído no monte Gerizim pelos samaritanos, local este que mais tarde foi completamente destruído pelos judeus. A rixa era tão grande, que nos tempos de Jesus os judeus da galileia que queriam descer à Jerusalém para as festas no templo, preferiam atravessar o Jordão, descer pela Peréia e novamente transpô-lo para entrar na Judeia, evitando assim a passagem pela Samaria. O comentário Atos traz uma observação que pode deixar ainda mais clara a situação entre Judeus e Samaritanos:


“Para que Jesus se hospedasse por lá, alimentando-se de comida samaritana e ensinando aos samaritanos (v.40), seria mais ou menos como desafiar a segregação nos Estados Unidos durante os anos 50 ou o Apartheid na África do Sul nos anos 80 – chocante, extremamente difícil, algo perigoso. O Jesus dos Evangelhos está mais preocupado com pessoas do que com costumes.” (pg. 284).
Religiosa e moralmente, os samaritanos não eram menos rigorosos que os judeus. Apesar de crer que somente Moisés foi profeta e aceitar apenas o Pentateuco como palavra inspirada por Deus, os samaritanos também aguardavam o Messias que para eles era O Taheb, ou seja, o restaurador. Na verdade, a impressão que se tem ao observar a história, é que os samaritanos eram um povo rejeitado em busca de uma identidade cultural e religiosa próprias.



  1. Afinal, quem era esta mulher samaritana?

Todas as informações disponíveis sobre esta mulher se encontram neste trecho de João. Porém, com a ajuda das informações de contexto histórico e cultural podemos conjecturar sem nos afastarmos da verdade.

Sua situação de pessoa socialmente execrável é destacada pelo evangelista logo no começo da narrativa, ao dizer que ela foi sozinha e ao meio dia buscar água no poço. Mulheres normalmente não iam sozinhas tirar água, muito menos na hora mais quente do dia em um poço que ficava em um lugar ermo fora dos portões da cidade. Possivelmente, aquela atitude tinha o objetivo de evitar se encontrar com outras pessoas de sua comunidade; aquela mulher estava se defendendo da discriminação que sofria.

Podemos supor também que se tratava de uma mulher pobre, pois se não fosse esse o caso, provavelmente um dos seus servos é quem faria tal serviço enfastioso.

O fato de ter sido casada muitas vezes pode ser devido a uma série de fatores como viuvez e abandono (divórcio). A verdade é que se tratava de uma samaritana com uma vida emocional despedaçada. Seu companheiro atual, pelo fato de não ser seu marido pode indicar uma desistência de ter uma vida normal e de ter se acomodado com o que estava disponível; ela poderia também ser estéril, pois esse seria um motivo adequado para os seus maridos anteriores a terem abandonado.

Enfim, ela era alguém que as pessoas de sua comunidade não queriam ter um relacionamento. Muito provavelmente, ninguém tiraria uma foto ao lado dela e colocaria em seu “Facebook”.





  1. O aconselhamento de Jesus.

A primeira coisa que podemos dizer a respeito da atitude de Jesus é que seu amor transpôs barreiras. Havia muitos motivos para que Jesus nem sequer falasse com aquela mulher. Sua condição de Judeu, de rabino e a própria história e reputação da mulher eram suficientes para que Jesus a ignorasse, mas mesmo assim Ele a abordou. Até a vasilha que a mulher tinha era impura para que um judeu bebesse água. Não é um exagero dizer que Jesus arriscou a sua própria reputação por amor à samaritana. Cuidar das pessoas é muitas vezes sujar as mãos e a camisa revirando o lixo.

Podemos dizer também que a tarefa de Jesus foi facilitada porque como Deus, Ele conhecia sua história e seu coração. Mas podemos também dizer, sem perder a fé na divindade do Mestre, que pelas indicações que a situação lhe oferecia ele podia traçar um perfil antes de dar inicio à conversa. Ao observar aquela mulher solitária, naquele lugar e naquele horário, Jesus já poderia ter verificado que algo errado estava acontecendo com ela.

Jesus a aborda com um pedido - “Dê-me um pouco de água”(4.7) – que de certa forma foi arriscado por dois motivos:



  1. O Comentário Atos explica que a frase “eu não tenho marido” pode significar “estou disponível”. Pode ser que a mulher tenha pensado que Jesus estava flertando com ela ao lhe pedir água; afinal, o que um homem queria falando com ela naquele lugar? Um fato que pode ser ainda mais complicador, é que o próprio Jacó de quem atribuíam o poço e seu pai Isaque ficaram conhecendo suas esposas em situações quem envolviam um poço. É importante entender que pessoas com problemas de aceitação podem estar vulneráveis emocionalmente, e o risco de um envolvimento sentimental entre o aconselhador e o aconselhando é real e possui precedentes. Jesus procura imediatamente desfazer qualquer mal entendido;

  2. Desconfiança: em minha opinião, pela situação em que vivia e pela maneira ríspida como respondia a Jesus, aquela mulher estava na defensiva para evitar abusos. Pessoas que vivem situações semelhantes têm dificuldades de se relacionar porque já foram muito machucadas (como mulheres que aprendem a não confiar em homens).

Jesus deixa claro que sua intenção é ajuda-la ao oferecer “água viva”, que no dia a dia significava água fresca e corrente. Para ela que era obrigada àquela situação para buscar água parada em um poço, a alternativa de agua fresca e corrente em outro lugar chamou logo a sua atenção. Porém, assim como Nicodemos no capítulo anterior, aquela mulher não entendeu que Jesus estava preocupado com questões bem maiores.

Ao pedir que chame seu marido, Jesus já sabia de sua situação extraconjugal. Sua intenção é despertá-la para o seu verdadeiro problema, que obviamente não era água, mas aceitação e falta de relacionamento com Deus.

O motivo mais provável para a resposta “eu não tenho marido” tenha sido uma reação provocada por Jesus. Segundo o Comentário NVI, a mulher fala a verdade sobre a sua situação emocional, e citando Tasker, chama a atenção de que “porque ela falou a verdade, a verdade a liberta – ela esta livre para receber o presente que Jesus pode lhe dar” (pg. 1718). Um dos principais objetivos de Jesus naquela seção de aconselhamento era fazer com que as máscaras caíssem para que ela pudesse ser verdadeiramente tratada.

O Novo Comentário da Bíblia Nova Vida, afirma que “Jesus aproveita a resposta para confrontar-lhe com seus pecados” (pg. 1071) A partir dali, a mulher provavelmente procura desviar a atenção de Jesus de seus pecados pessoais ao levantar a questão religiosa. Ela muda de assunto porque se sentia desconfortável por Jesus chegar tão próximo da sua dor. Mudar de assunto é um recurso frequente quando colocamos o “dedo na ferida”, e Jesus soube com maestria manter o foco no problema ao apontar que ela deveria adorar a Deus “em Espírito e em Verdade”, ou seja, desenvolver um relacionamento genuíno com Ele.





  1. Algumas conclusões:




  1. Jesus não assume uma posição sectária, asceta ou discriminatória, mas não foge de sua responsabilidade de lhe dizer o que ela precisava ouvir. Ele não a condenou e não a tratou com severidade. Porém, disse tudo o que precisava dizer a ela;

  2. Jesus, apesar da aspereza inicial da mulher, manteve uma atitude de mansidão demonstrando ele próprio ter controle emocional e sensibilidade com a situação dela. É importante entender, que muitas vezes, pessoas amargas e que procuram manter as pessoas a distancia são assim porque estão profundamente feridas e a atitude madura de Jesus foi essencial para que a conversa pudesse ter seu prosseguimento;

  3. Percebe-se que a atitude ríspida e defensiva da mulher vai se abrandando no desenrolar da conversa e isso se deveu à atitude mansa de Jesus;

  4. Adoração e adoradores: Para uma mulher de relacionamentos destruídos, somente o relacionamento restaurado com Deus poderia curá-la;

  5. Finalmente, Jesus usou de graça e misericórdia com aquela mulher, e é isso que um conselheiro deve oferecer àquele que busca a sua ajuda.

Bibliografia.
Bíblia de Estudo Nova Tradução na Linguagem de Hoje - Sociedade Bíblica do Brasil. (2005; 2005).

KEENER, Craig S. Comentário Bíblico Atos: Novo Testamento. Belo Horizonte: Editora Atos, 2004.



SHEDD, Russel P. Org., O Novo Comentário da Bíblia: Volume III. São Paulo: Edições Vida Nova, 1963.

BRUCE, F.F., Org. Comentário Bíblico NVI: Antigo e Novo Testamento. São Paulo: Editora Vida, 2008.


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