A paciente (The Patient Nurse) Diana Palmer



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A Paciente

(The Patient Nurse)

Diana Palmer


Ramon é o último homem de quem Noreen aceitaria ajuda, mas ela estava doente. Como médico, era dever de Ramon buscar a cura de seus pacientes. Como homem, ele tinha de encontrar um meio de cuidar do coração da mulher que assombrava seus sonhos. Seria ele capaz de sanar as dores da alma de Noreen?

Digitalização: Tinna

Revisão: Bruna Cardoso

PUBLICADO SOB ACORDO COM HARLEQUIN ENTERPRISES II B.V.S.à.r.l.

Todos os direitos reservados. Proibidos a reprodução, o armazenamento ou a transmissão, no todo ou em parte.

Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência.

Título original: THE PATIENT NURSE

Copyright © 1997 by Diana Palmer

Originalmente publicado em 1997 por Silhouette Desire

Arte-final de capa: Isabelle Paiva

Editoração Eletrônica:

ABREU'8 SYSTEM

Tel.: (55 XX 21) 2220-3654 2524-8037

Impressão:

RR DONNELLEY

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Aos cuidados de Virgínia Rivera virginia.rivera@harlequinbooks.com.br

Tradução: Mane Olivier



CAPÍTULO UM

ELE ouviu os comentários divertidos murmurados ao descer o corredor em direção ao centro de cardiologia do St. Mary's Hospital e foi difícil não sorrir. Acabara de ser entrevistado aquela manhã num programa de televisão sobre seus hábitos na sala de cirurgia. O repórter havia mencionado que o Dr. Ramon Cortero gostava de ouvir o grupo de rock “Desperado” durante as cirurgias cardiovasculares pelas quais era conhecido mundialmente. As enfermeiras e técnicos do centro de cardiologia onde trabalhava brincaram a respeito daquilo o dia inteiro. Eram uma equipe da qual ele próprio fazia parte e, portanto, não se ofendeu com a gozação. Na verdade, alguns deles também eram fãs do grupo do estado de Wyoming.

Os olhos negros sobressaíam no rosto moreno, bonito e magro enquanto passava em seu uniforme verde, procurando a mulher de um paciente em quem acabara de substituir uma válvula cardíaca em mau funcionamento.

Ela não estava na sala de espera do segundo andar. A enfermeira do centro, inadvertidamente, pedira que aguardasse na sala de espera do lobby principal e, quando ele ligara para lá, a mulher de meia-idade desaparecera. O marido milagrosamente sobrevivera, graças à habilidade de Ramon e algumas orações. Fora trazido com uma válvula perfurada agravada pela pneumonia. Tinha boas notícias para a mulher, se a encontrasse.

As portas do elevador se abriram e, quando ele se virou, lá estava ela, rodeada pelo filho adolescente, que usava um casaco preto comprido, vários membros da família do marido e uma das capelas do hospital, a seu lado praticamente desde o início daquilo tudo, 48 horas antes. Os olhos vermelhos e inchados de tanto chorar sinalizavam um pedido desesperado.

Ramon sorriu, respondendo à pergunta que ela parecia recear fazer.

— A operação foi um sucesso — disse sem rodeios. — Ele tem um coração forte.

— Graças a Deus e ao senhor. Obrigada. — Apertou-lhe a mão.

— De nada — respondeu Ramon com um sorriso gentil. — Fico feliz por poder ajudar. — O cardiologista, um jovial afro-americano que estava ao lado do cirurgião, sorriu. Fora ele quem explicara à família o procedimento de cateterismo bem como a cirurgia para substituição da válvula, oferecendo conforto e uma dose de esperança. A mulher apertou-lhe a mão e abriu um largo sorriso, agradecendo a ele também.

O Dr. Ben Copeland deu de ombros.

— É para isso que estamos aqui — disse, retribuindo o sorriso. — Seu marido está na UTI no final do corredor. Há uma sala ao lado onde pode esperar até que o liguem aos monitores. Então, poderá vê-lo. — Mais agradecimentos e lágrimas. Pediram a uma enfermeira que mostrasse à aliviada família o local de espera até receberem autorização para visitar o paciente.

— Às vezes — disse Ben —, assistimos a milagres. Não teria apostado um centavo na chance de recuperação do homem quando ele chegou.

— Nem eu. — assentiu Ramon com seriedade. — Mas, vez por outra, temos sorte. — Suspirou espreguiçando-se. — Eu podia dormir uma semana inteirinha, mas ainda estou de plantão. Você vai para casa, sortudo. — Ben sorriu.

Despediram-se com um aperto de mão. Ramon foi visitar dois outros pacientes operados que conseguira, com a ajuda de Deus, salvar do abismo. Tivera três cirurgias de emergência naquele que deveria ter sido um tranqüilo domingo de plantão, estava tenso, dolorido e muito cansado, mas um cansaço gostoso. Parou na janela olhando com satisfação a enorme cruz iluminada na parede principal do hospital. As preces às vezes eram atendidas. As deles o haviam sido aquela noite.

Examinou os pacientes, aviou receitas, vestiu-se e foi ao hospital municipal O’keefe, do outro lado da rua, visitar três outros pacientes. Também precisava ir ao hospital universitário Emory, em Decatur, a caminho de casa, para visitar um paciente pronto: receber alta. Depois de cumpridas as obrigações, foi para casa. Sozinho.

O apartamento espaçoso não era a casa de um homem rico. Preferia a simplicidade, uma reminiscência da infância num subúrbio de Havana. Pegou um exemplar do livro Cuentos, de Pio Baroja, e deu um sorriso triste ao ver a dedicatória que conhecia de cor: "Para Ramon, de Isadora, com todo o meu amor." Ela era sua mulher, falecida havia apenas dois anos, de pneumonia. Morrera enquanto ele estava no exterior, realizando uma complicada cirurgia num diplomata muito importante. Morrera por negligência, pois a prima a deixara sozinha a noite toda e o líquido nos pulmões, combinado a uma febre altíssima, a matara.

Que ironia, pensou, não estar em casa na única vez em que, de fato, precisaram dele... Deixara Isadora com a prima mais nova, Noreen, uma enfermeira diplomada. Ele achou que poderia confiar nela, mas ela deixara Isadora e, ao voltar, sua esposa já se fora. Ainda culpava Noreen pela negligência. Ela tentara desesperadamente explicar-se, mas ele se recusara a ouvir. A culpa dela não estava evidente a todos? Até mesmo à tia e ao tio dela, que a culparam com tanta veemência quanto ele?

Repousou o livro, passando o dedo afetuosamente na capa. Baroja, um famoso espanhol do início do século XX, médico e escritor, seu autor favorito. Muitas das histórias desse livro narravam à vida do escritor num subúrbio de Madri, antes da descoberta dos antibióticos. Histórias de dor, tragédia, solidão e, acima de tudo, esperança. A esperança era sua marca registrada. Quando tudo mais falhava, havia ainda a fé num poder superior, a esperança por um milagre. Naquela noite, havia acontecido um deles, para aquela senhora cujo marido estava na UTI. Ramon estava contente, pois aquelas pessoas tinham um casamento feliz, amavam-se, assim como ele e Isadora. Pelo menos no início...

Suspirou e foi até a cozinha. Abriu a geladeira.

— Ai, ai, ai — ele murmurou para si mesmo enquanto olhava o que havia lá dentro. — Você é um cirurgião mundialmente famoso, Sr. Cortero, e hoje à noite vai se banquetear com comida congelada: frango emborrachado e brócolis quase cru. Que decadência!

A campainha do telefone fez com que erguesse a cabeça e as sobrancelhas. Para todos os efeitos, estava de plantão até a meia-noite. Podia ser uma emergência. Ele atendeu

— Cortero — disse prontamente.

Um momento de silêncio.

— Ramon?


Sua expressão ficou séria. Conhecia tão bem a voz que duas simples sílabas bastavam para identificá-la.

— Sim, Noreen — disse com frieza — O que você quer? Uma breve hesitação, também familiar.

— Minha tia quer saber se você vai à festa de aniversário do meu tio.

Que forçação de barra. Ela não era íntima dos tios. Nunca fora, mas o afastamento tornara-se mais perceptível depois da morte de Isadora.

— Quando é?

— Você sabe.

Ele suspirou, zangado.

— Se não estiver de plantão no próximo domingo, irei. — Mexeu num pedaço de papel sobre o vidro imaculado da mesinha de telefone. — Você vai? — perguntou em tom lúgubre.

— Não — respondeu sem demonstrar nenhuma emoção. — Levei o presente dele hoje. Eles viajaram e só voltam no final de semana, por isso me pediram para ligar. — Fez-se outra pausa. — Direi a minha tia que você vai. — E desligou.

Ele colocou o telefone no gancho e manteve a mão no aparelho frio como as profundezas de seu coração, onde Isadora vivia. Jamais conseguiria dissociar a morte da mulher de Noreen, que poderia ter-lhe salvado a vida se tivesse estado em casa. De certo modo, tinha consciência de que aquela raiva era irracional. Mas ele havia guardado o rancor, alimentando-o com ódio, atiçando as chamas para afogar a dor de perder Isadora daquela maneira. Obrigara-se a esquecer que Noreen amava Isadora e sofrerá tanto quanto ele. Ele a odiava e não conseguia disfarçar. Odiar Noreen era seu consolo, seu alívio, sua segurança.

Necessário admitir que ela nunca o acusara de injustiça ou irracionalidade. Apenas ficara fora de seu caminho. Trabalhava no hospital O’keefe, bem em frente ao hospital St. Mary, onde ele realizava a maior parte de suas cirurgias. Era uma das duas enfermeiras que se alternavam nos plantões noturnos em uma ala emergencial. Por vezes, ele a tinha em sua unidade, mas mesmo lá a tratava como um estorvo. Embora dona de um diploma universitário em enfermagem, de talento e inteligência para se tornar médica, por algum motivo, nunca seguira a carreira. Também nunca se casara. Tinha 25 anos, era madura e equilibrada, mas não havia nenhum homem em sua vida. Assim como não havia nenhuma mulher na de Ramon.

Voltou para a cozinha e preparou um bule de café. Precisava de poucas horas de sono e o trabalho era sua vida. O que teria feito ao perder Isadora se não tivesse a carreira?

Sorriu, lembrando-se com tristeza da beldade loura, dos olhos azuis tão vivos que sorriam com tanto afeto. Noreen tinha uma cópia mal-acabada dela, com cabelos louros escuros, olhos acinzentados e nada que chamasse a atenção. Isadora era linda, postura sofisticada e boas maneiras. A família era muito rica. Noreen não precisava trabalhar, pois era a única herdeira sobrevivente da fortuna dos Kensington. Mas, aparentemente, não tinha muito com que gastar dinheiro, pois se vestia mal, mesmo quando não estava trabalhando. Morava sozinha e nunca pediu aos tios um centavo de ajuda. Qual seria a resposta deles caso ela pedisse? Mas que tolice a dele perder tempo pensando nela!

Noreen tinha sido um mistério desde que ele conhecera Isadora seis anos antes. Isadora era extrovertida e sociável, sempre flertando, uma companhia divertida. Noreen, muito quieta, raramente se manifestava. Não tinha vida social. Estudiosa e reservada fazia estágio como enfermeira e sua profissão parecia ser a coisa mais importante de sua vida.

Ramon franziu o cenho. Estranho que uma mulher tão dedicada à profissão pudesse ter sido tão negligente com a própria prima. Noreen era tão responsável que costumava ter sua atenção chamada por questionar receitas que lhe parecessem inaceitáveis. Talvez tivesse inveja de Isadora. Mesmo assim, por que chegaria a ponto de deixar uma mulher seriamente doente num apartamento durante quase duas noites?

Um dos colegas de Ramon mencionara o nome de Noreen logo após o funeral e comentou a gravidade da situação, principalmente o estado dela. Ele retrucara que ela não lhe dizia respeito e afastara-se. Agora se perguntava o que o homem quisera dizer. Fazia muito tempo, é claro, e o colega havia se mudado para Nova York.

Ramon afastou o pensamento da mente. Ele tinha coisas mais importantes em que pensar.

NAQUELA TARDE de domingo, como não estava de plantão, foi visitar Hal Kensington, pai de Isadora, levando um presente de aniversário: um relógio de ouro. Mary Kensington recebeu-o na porta com um cafetã de seda de oncinha e o cabelo louro platinado, tão parecido com o da filha, preso no alto da cabeça.

— Ramon, quanta gentileza ter vindo! — disse entusiasmada, segurando-lhe o braço. Ela fez uma careta. — Lamento ter pedido a Noreen que ligasse para você convidando-o para a festa. Eu não tive tempo, com todas as obrigações beneficentes, você sabe.

— Não tem problema — ele respondeu automaticamente. Ela suspirou.

— Noreen é um fardo que precisamos carregar. Felizmente não a encontramos, exceto no Natal e na Páscoa e, mesmo assim, só na igreja.

Ele a fitou com curiosidade.

— Vocês a criaram.

— E você acha que eu deveria nutrir algum sentimento por ela? — Mary deu um sorriso amarelo. — Ela era filha do único irmão de Hal, então fomos forçados a recebê-la quando os pais morreram. Não foi por opção. Ela sempre atrapalhou. Vai ser solteirona, aposto. Já se veste como uma mendiga e, querido, nunca a convido para as festas. Ela é tão deprimente! Sempre foi assim, mesmo criança. Isadora era diferente: meiga, afetuosa. Desde que nasceu passamos a viver em função dela. Noreen foi criada pela minha mãe até ela morrer. Ela era um peso. Ainda é.

Estranho, Ramon sentiu uma ponta de pena da menininha triste obrigada a morar com pessoas que não a queriam. Foi direto ao ponto:

— Vocês não amam Noreen?

— Meu querido, quem pode amar uma mulher tão apagada? Gosto dela, mas nunca esquecerei que por causa dela perdemos nossa Isadora. Como, aposto, você também não — acrescentou, dando-lhe um tapinha confortador no braço. — Todos sentimos tanta falta dela...

— É verdade.

Hal, esparramado em sua poltrona favorita, a careca refletindo a luz do lustre de cristal, levantou a cabeça da revista de iatismo quando os dois chegaram.

— Ramon! Que bom que você veio! — Colocou a revista de lado e levantou-se para apertar calorosamente a mão do genro.

— Trouxe uma lembrancinha — disse Ramon, entregando o embrulho elegante.

— Quanta gentileza! — Sorrindo, abriu o presente e ficou entusiasmado com o relógio. — Era exatamente o que eu queria. Tenho um relógio esportivo, mas posso usar esse no Iate Clube. Obrigado.

Ramon abanou a mão no ar, indicando que o agradecimento não era necessário.

— Fico contente por ter gostado.

— Noreen deu uma carteira - disse Mary com desprezo.

— De pele de enguia — informou Hal, sacudindo a cabeça. — A moça não tem imaginação.

Ramon lembrou-se de onde ela morava, de suas roupas. Aparentemente, tinha muito pouco dinheiro, nada pedia aos tios e carteiras de pele de enguia eram caras. Imaginou o sacrifício para poder dar ao tio aquele presente pelo qual ele demonstrava tanto descaso. Ramon sabia como era ser pobre. Mostrava gratidão por qualquer presente recebido, por mais simples que fosse.

Lembrou-se de Noreen ter dado um pequenino vaso de cristal a Isadora de presente de casamento. Ela o jogara de lado sem dar-lhe valor, muito mais entusiasmada com uma toalha de mesa de linho irlandês, presente de uma amiga. Noreen não pronunciara uma palavra, mas um enfermeiro que a acompanhara ao chá de panela comentara, em voz consideravelmente alta, que Noreen deixara de adquirir um casaco de que muito necessitava para comprar aquele presente para a prima mal-agradecida. Isadora ouvira o comentário, pegara o vaso e fizera mil elogios. Mas era tarde demais. Noreen mantivera a cabeça erguida; não derramara uma lágrima. Mas seus olhos estavam tão tristes...

— Você está ouvindo, Ramon? — murmurou Hal. — Eu disse que temos de velejar um final de semana desses.

— Assim que eu tiver tempo — respondeu sem entusiasmo. Não se sentia à vontade com pessoas que, como eles, escolhiam os amigos pelo saldo bancário e posição social. Havia sido aceito por ser famoso e bem-sucedido. Mas o Ramon Cortero que fugira de Cuba com os pais aos 10 anos de idade não teria sido bem recebido como possível genro. Tinha certeza disso. Estranho, mas esses pensamentos vinham lhe atormentando nos últimos tempos.

Esperou apenas pelo bolo e o café servidos na louça fina e despediu-se. De fora, olhou a grande mansão de tijolos, tão insípida e fria quanto seus habitantes. O que estava acontecendo com ele para se sentir tão desconfortável com os pais de Isadora, sempre tão gentis com ele depois da morte da filha?

Voltou para o apartamento em sua Mercedes prateada, seu orgulho e alegria. Não se lembrava de se sentir tão vazio desde o funeral. Devia estar excessivamente cansado e precisava de férias. Uma semana de folga, só para si, e sumir. Podia ir para as Bahamas e descansar na praia alguns dias. Talvez isso o animasse.

Olhou os lindos arranha-céus enfeitados com luzes coloridas e lembrou-se de como aquele brilho elegante costumava lembrá-lo da linda Isadora. Para ele, ela era a expressão da doçura, mas lembrou-se de um dia ter chegado quando ela xingava Noreen por não ter colocado os suéteres na gaveta certa. Noreen não dissera uma palavra para se defender. Arrumara as roupas e deixara o quarto, sem olhar para Ramon.

Isadora rira orgulhosa e reclamara que era difícil achar quem trabalhasse direito. Ele considerara o comentário frio em se tratando da própria prima e lhe dissera isso. Isadora não lhe dera importância, mas ele passara a observar com mais atenção. Isadora e os pais tratavam Noreen mais como empregada do que como membro da família. Ela estava sempre pegando ou carregando algo para alguém, dando telefonemas, contratando bufês e conjuntos para festas, endereçando convites. Até quando estudava para as provas, as exigências de sua família não cessavam.

Ramon chamara-lhes uma vez a atenção para o fato de que as provas exigiam muitas horas de estudo e os três o fitaram sem expressão. Nenhum deles cursara uma universidade e não faziam idéia do que ele falava. Mantiveram as obrigações de Noreen. Só quando ela saíra de casa, logo depois do casamento de Isadora, os Kensington contrataram uma governanta.

Ao chegar em casa, preparou uma xícara de café, perturbado com o fato de pensar tanto em Noreen e, principalmente, no aniversário do tio. Hal e Mary Kensington haviam dado outras festas, mas Noreen raramente era incluída nas comemorações. Era como se não existisse, até precisarem de algo que só ela podia fazer como cuidar de Isadora quando ela tinha gripes, resfriados e indisposições.

Aquilo o fez lembrar-se da pneumonia de Isadora e da negligência de Noreen. Voltou a ficar com raiva. Apesar dos defeitos da mulher, ele a amava perdidamente. Embora Noreen tivesse sido maltratada pela tia, tio e prima, isso não justificava ter deixado Isadora morrer. Ele se apiedava por não ter recebido amor, mas sentia apenas desprezo quando se lembrava de que a mulher morrera por culpa dela.

ELE PASSOU seis dias sozinho nas Bahamas, curtindo a solidão de uma ilha isolada, onde alugara um quarto numa pousada. Andara pela praia lembrando-se dos dias felizes ali desfrutados com Isadora na lua de mel. Ainda sentia saudade dela, apesar do relacionamento turbulento.

Percebeu alguns fios de cabelo grisalhos e sentiu, como nunca, o peso da idade. Deveria se casar novamente; deveria ter um filho. Isadora não queria filhos e ele não a pressionara. Ainda tinham muito tempo pela frente. Ou assim acreditava.

O pôr do sol foi particularmente fulgurante, como um quadro pintado por um louco em cores flamejantes, com toques de preto, cortando o céu e descendo até o horizonte como uma faca. Suspirou admirando o céu e ouviu o som das ondas próximo a seus pés descalços. Era doloroso guardar no coração todo esse espetáculo sem ninguém com quem compartilhá-lo. Estava sozinho. Como desejava uma esposa afetuosa e muitos filhos brincando ao redor dele na praia! Talvez estivesse na hora de começar a pensar no futuro e não no passado. Dois anos era tempo suficiente para guardar o luto.

VOLTOU AO trabalho com entusiasmo, assumindo mais obrigações do que nunca. Operava um paciente particular no hospital O’keefe. Logo após uma cirurgia complicada, foi chamado ao CTI para examinar um paciente com quem a enfermeira da noite estava preocupada. Ele tinha três pacientes internados no hospital, além de pacientes no St. Mary e no Emory.

Não ficou nada satisfeito ao descobrir quem era a enfermeira da noite. Noreen, em sua habitual calça branca e jaleco comprido colorido, com um estetoscópio em volta do pescoço e o cabelo preso num coque, lançou-lhe um olhar frio quando ele parou na sala das enfermeiras.

— Não achei que você trabalhasse hoje no O’keefe — disse laconicamente, ainda usando seu jaleco verde de cirurgia.

— Trabalho sempre que necessário. E o que você está fazendo aqui?

— Um paciente solicitou que fosse operado aqui. Faço parte da equipe de três hospitais e esse é um deles — respondeu com igual frieza.

— Eu me lembro. — Ela enfiou as mãos nos bolsos do jaleco. — O seu Sr. Harris está vomitando. Não consegue segurar o remédio.

— Onde está o prontuário?

Ela foi até a porta do paciente, pegou-o da cesta de metal na parede e entregou-lhe. Ele fechou a cara.

— A náusea começou na última troca de turno. Por que não tomaram nenhuma providência? — ele perguntou.

— Algumas das enfermeiras estão trabalhando em turnos de 12 horas — ela o lembrou. — E chegaram quatro novos pacientes hoje à tarde nesta ala, todos em estado crítico.

— Isso não é desculpa.

— Sim, senhor — Noreen respondeu automaticamente, entregando-lhe uma caneta. — Poderia fazer algo agora?

Ele escreveu novos procedimentos e foi examinar o homem, pálido de tanto sofrimento. Saiu esbravejando.

— O cateter foi retirado ontem à noite e recolocado hoje de manhã. Por quê?

— Ele passou oito horas sem urinar. É o procedimento padrão. — Ele a encarou. — Ele está vomitando e sem beber muito líquido. Quanto mais tempo ficar com o cateter, maior o risco de uma infecção. Quero que a tire e só a recoloque até ele reclamar, e se reclamar de desconforto. Entendeu?

— Sim, senhor — respondeu ela.

— Quem pediu para que o cateter fosse retirado? — perguntou abruptamente.

Ela apenas sorriu.

— Esqueça — disse irritado, sabendo que nem mesmo sob tortura conseguiria que ela lhe dissesse quem havia sido. Os olhos fitaram o rosto oval. As bochechas estavam vermelhas, mas o resto do rosto, pálido e ligeiramente inchado. Ele fez uma careta. Nunca notara isso antes. Era o tipo de aparência encontrada em pacientes com problemas cardíacos. Ela voltou a guardar o prontuário.

— Os técnicos de enfermagem estão muito ocupados neste turno. Se alguém pudesse ficar com ele e lhe dar gelo picado, talvez ajudasse.

— Ele não tem família? — perguntou Ramon, emocionado com a preocupação dela.

— Um filho em Utah. Está a caminho, mas só chega amanhã, é triste.

— Muito. — Ele olhou na direção da esposa de um dos pacientes passando pelo corredor com um copo de isopor e uma jarra de plástico. — Aonde ela vai?

Noreen sorriu os olhos faiscando.

— A técnica de enfermagem jamaicana, a Sra. Hawk, disse a ela onde ficam a máquina de gelo e a de café. Desde então ela está ajudando todo mundo. Ela pega até toalhas, panos e cobertas quando precisa, em vez de pedir a alguém.

— Isso é algo fora do comum?

— Bem, tem três outras mulheres que aparecem a cada cinco minutos na porta e nos pedem para dar água aos maridos delas quando eles estão com sede, depois que chegam aqui, vindos da cirurgia.

— As enfermeiras costumavam ter essas obrigações — lembrou-a.

— As enfermeiras costumavam ter mais tempo, menos pacientes, menos trabalho burocrático e não muitos processos judiciais com que se preocupar — retrucou suspirando.

Ele observou-lhe o rosto e voltou a franzir o cenho.

— Você está se sentindo bem? — perguntou, com evidente relutância.

Ela fechou a cara.

— Estou um pouco cansada, como todos neste turno. Obrigada por ter examinado o Sr. Harris, doutor.

Ele deu de ombros.

— Avise se ele tiver mais ânsias de vômito.

— Sim, doutor. — Ela agia de modo educado, mas frio, distante.

Os olhos escuros de Ramon se estreitaram ao encontrar os olhos acinzentados dela.

— Você não gosta nada de mim, não é? — perguntou sem rodeios, como se só então tivesse percebido aquilo.

Ela riu bem-humorada.

— Essa não é a minha fala? — Virou-se sem fitá-lo e voltou ao trabalho, aparentemente ignorando-o.

ELE SAIU da ala, mas remoia algo no fundo de sua mente, algo que não conseguia decifrar. Estava inquieto e desconhecia o motivo. Férias, pensou, deveriam deixar as pessoas relaxadas. As dele pareciam ter tido o efeito contrário.

Atrás dele, Noreen tentava acalmar seu traidor batimento cardíaco, forçando-se a não olhar o homem alto e moreno a quem secretamente entregara seu coração há muito tempo. Ele nunca soubera e jamais saberia. Isadora levara aquele homem alto para casa e despedaçara o coração de Noreen. Os olhos escuros afetuosos, os sorrisos sensuais não eram para ela. Isadora, a bonita, a namoradeira, casou-se com o homem por cujo beijo Noreen daria a vida. Mantivera esse doloroso segredo durante seis longos anos, durante os quatro anos do casamento de Ramon e os últimos dois penosos anos de acusação e perseguição. O coração devia ter desistido, mas continuava batendo, apesar da doença que se agravava a cada dia.

Chegaria uma hora em que não teria tempo de procurar um médico. Não que isso importasse. Levava uma vida de sacrifícios e obrigações. Não recebia amor desde a morte dos pais. Vira-se perdida mudando-se para a casa grande e solitária, os donos a haviam aceitado com relutância. Era a empregada particular de Isadora, a secretária da tia, o Office boy do tio. Passara sozinha e solitária praticamente toda a vida adulta, permanentemente apaixonada pelo marido da prima e orgulhosa demais para demonstrá-lo.

Agora, ele a odiava, culpava-a por algo injustamente. Ele ainda pertencia à linda Isadora. Noreen concentrou-se em seus afazeres, esquecendo Ramon, o passado e a dor. Aceitava sua derrota, como sempre, e voltou ao trabalho.





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