A palavra, o Poder e o Torcer: o papel da imprensa e da ditadura militar na criação das torcidas organizadas de futebol no Brasil entre 1939 e 1985 Eric Monné Fraga de Oliveira



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A Palavra, o Poder e o Torcer: o papel da imprensa e da ditadura militar na criação das torcidas organizadas de futebol no Brasil entre 1939 e 1985
Eric Monné Fraga de Oliveira, Brasil

Instituto de Estudos Sociais e Políticos – IESP

Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ

Resumo

Nossa apresentação se propõe a discutir os problemas da relação entre as torcidas organizadas de futebol brasileiras com o Estado e a imprensa entre 1939 e 1985, focalizando no papel que estas instituições exerceram na transformação das formas de comportamento torcedor nos estádios, culminando na criação das atuais torcidas organizadas. Defendemos a ideia de que as formas de violência demonstradas pelas torcidas organizadas atualmente teve no Estado e na imprensa nacionais duas fontes para o seu desenvolvimento, uma vez que ambos incentivaram a organização disciplinar das massas torcedoras e, posteriormente, veicularam o discurso militarista que penetrou nessas organizações torcedoras.



Palavras-chave: violência; Estado; imprensa; torcidas organizadas; torcer.

Introdução
O presente trabalho tem como objetivo discutir a influência da imprensa brasileira e da ditadura militar na criação das torcidas organizadas de futebol no país, a partir das contribuições de outros pesquisadores brasileiros na área. Para isso, dividimos nossos esforços em duas partes, obedecendo a recortes cronológicos distintos. Em um primeiro momento, iremos analisar como o processo de organização das torcidas de futebol no Brasil contou com a participação direta e ativa da imprensa esportiva, sobretudo a partir de 1939. Na segunda parte, trataremos de analisar como o golpe militar em 1964 e a ditadura que se lhe seguiu durante 21 anos foi fundamental para a criação de um novo habitus torcedor.

A fim de realizar tal empreendimento, optamos por dois métodos diferentes e complementares. Em primeiro lugar, investigamos a bibliografia a respeito do surgimento das torcidas organizadas brasileiras e rearticulamos os dados e análises que são apresentados, tendo a imprensa e o Estado como duas variáveis separadas, porém potencialmente passíveis de realizar efeitos similares, e capazes de produzir efeitos concretos nas formas de incentivo a times de futebol. Em segundo lugar, voltamos nossa atenção para as próprias torcidas organizadas, tanto através das análises especializadas sobre elas quanto através do que elas próprias nos fornecem diretamente: símbolos, músicas, mascotes, registros discursivos etc.

Ao longo das últimas duas décadas, diversos autores notaram a influência de pelo menos uma dessas esferas (isto é, a esfera estatal e a esfera da comunicação de massa) sobre as transformações pelas quais as torcidas de futebol no Brasil passaram ao longo do século XX. Entre eles, destacamos Tarcyane Cajueiro Santos (2004), Maurício Murad (2012), Carlos Alberto Máximo Pimenta (2000), Luiz Henrique de Toledo (1996 e 2012), João M. C. Malaia (2012), Bernardo Borges Buarque de Hollanda (2008 e 2012), Jorge Luiz Medeiros Braga (2010), Marcos Alvito (2013) e Rodrigo de Araújo Monteiro (2003). Em cada um destes trabalhos, todavia, a influência de uma ou outra esfera sobre as torcidas e os torcedores é abordada com intensidade e escopo distintos. Buarque de Hollanda, por exemplo, se debruça exaustivamente sobre o papel da imprensa, sobretudo entre o período que se estende de 1967 a 1988, enquanto Malaia e Pimenta dedicaram atenção restrita à influência do Estado: o primeiro observando o decreto de 1920 que regulava o comportamento de torcedores dentro dos estádios de futebol (pp.70-1), o segundo lembrando o impacto da ditadura militar nas torcidas organizadas surgidas a partir da segunda metade da década de 1960.

Em nossa argumentação, traremos, de maneira crítica, alguns dos pontos tratados pelos autores a respeito do papel do Estado e da imprensa. Com isso, pretendemos demonstrar como é possível que a violência entre torcidas existente nos últimos trinta anos nos estádios brasileiros e seus arredores encontre, entre suas causas, tanto uma das esferas que mais cobra pela punição dos torcedores quanto aquela responsável pela sua punição e regulamentação de fato.



Torcer no Brasil: um breve histórico do termo e do ato
De acordo com o filósofo russo Mikhail Bakhtin, “a palavra constitui o meio no qual se produzem lentas acumulações quantitativas de mudanças [...]. A palavra é capaz de registrar as fases transitórias mais íntimas, mais efêmeras das mudanças sociais” (1997, p.42). Em outras palavras, as palavras têm sua história e acumulam a história dos registros discursivos em que se apresentam. Os termos “torcida”, “torcedor(a)” e “torcer”, que utilizamos para caracterizar aqueles que se dedicam a acompanhar, com maior ou menor intensidade, um atleta ou equipe esportiva, possuem, portanto, sua própria história. Isso fica ainda mais evidente quando notamos sua inscrição geográfica: no Reino Unido, são supporters ou fans (versão reduzida da palavra fanatics), isto é, apoiadores ou fanáticos; na Europa continental, são ultras, termo do latim que significa “além de”, indicando sua devoção radical ou extrema em relação ao time de futebol que seguem; nos Estados Unidos, nosso termo “torcer” deve ser traduzido pelo verbo to cheer, que ao pé da letra significa “alegrar” ou “animar” alguém; na Argentina, no Uruguai, no Chile e no Paraguai, utiliza-se o termo hincha, que vem do verbo inflar, demonstrando tanto o sofrimento apaixonado físico e psicológico da prática quanto o efeito esperado sobre o time: fazê-lo crescer perante o rival; na Espanha, o torcedor é um aficionado, ou seja, um apreciador, entusiasta, amador; em Portugal, é um adepto, que podemos aqui relacionar com seu uso cotidiano: alguém partidário de determinados princípios, práticas e valores, conhecedor de determinados dogmas e símbolos.

O uso da palavra torcer como sinônimo de acompanhar e apoiar uma equipe esportiva tem sua origem no início século XX, no futebol, quando o esporte foi trazido ao Brasil. Até então, a palavra fazia referência a práticas estritamente físicas, indicando um movimento de modificação no corpo do objeto: curvar, virar, envergar, contorcer, retorcer, dobrar, enviesar, envergar. Com o futebol, a palavra assume um novo significado.

Malaia notou que o termo encontrava ocorrências na imprensa carioca já no primeiro decênio do século XX (p.60)1. Todavia, apenas na década de 1910 o termo se tornou frequente em textos jornalísticos, que passaram também a tecer reflexões e caracterizações dos torcedores e torcedoras e de suas atividades. O que primeiro se deve notar é que o ato de torcer não era uma metáfora do que a palavra significava, mas uma descrição do que de fato acontecia aos corpos. Torciam-se lenços, chapéus, barras de vestidos, bigodes, paletós; dobravam-se braços, viravam-se pernas, curvavam-se troncos para frente, para trás e para os lados; envergavam-se os pescoços; enfim, retorciam-se e contorciam-se os corpos sobre si mesmos. Em um sentido mais amplo, tal postura corporal, aliada aos gritos de incentivo ao time e de repúdio ao rival, significava que, durante uma partida de futebol, torciam-se também as regras de comportamento da sociedade pequeno-burguesa das nascentes metrópoles brasileiras, parte majoritária dos públicos assistentes na época.

Por sua associação ao público que acompanha os jogos de futebol, o verbo torcer assumiu então o significado de incentivar ou apoiar alguém, mais frequentemente se referindo a uma equipe esportiva. A ideia que sustenta esse significado é de que as práticas dos torcedores e torcedoras podem influenciar no andamento e no resultado dos jogos.

No início, os principais frequentadores das partidas eram membros das classes mais abastadas, tanto pelos preços dos ingressos quanto pelos pequenos estádios serem lugares privilegiados de socialização entre os associados dos clubes. Com o passar do tempo, o esporte se popularizou pelo país todo, atingindo todas as camadas sócio-econômicas.

Desde o princípio, o comportamento dos torcedores foi considerado desviante, sobretudo por suas ofensas aos adversários e por não observar as regras de conduta e etiqueta de outros eventos de grande porte, tanto públicos quanto privados. Malaia, por exemplo, ressaltou o artigo “Vida ao ar livre: Foot-ball”, da revista paulista Vida Moderna, publicado em 1914, que retrata uma partida entre, de um lado, um selecionado de jogadores da Associação Athletica das Palmeiras2 e da Associação Athletica Mackenzie e, do outro, uma equipe de jogadores italianos, realizada no estádio do Velódromo paulista: “em volta da pista, nas geraes, ao lado do elemento ordeiro, notava-se uma turba inconveniente de torcedores, que a todo transe procurava desnortear os nossos jogadores, lançando protestos em altas vozes” (Vida Moderna apud MALAIA, pp.61-2)3. Nesse trecho, fica bastante evidente a separação entre dois modelos de comportamento, representados por dois segmentos distintos, embora fisicamente próximos, do estádio: nas gerais, local dos ingressos mais acessíveis, encontrava-se a “turba inconveniente”, enquanto aqueles que observavam as normas estabelecidas de comportamento “civilizado” compunham o “elemento ordeiro”, situado nos setores mais caros do estádio.

Malaia não foi o único a identificar nos jornais essa forma de retratar a torcida. Buarque de Hollanda (2008) reproduziu integralmente uma série do Jornal dos Sports, lançada quarenta anos mais tarde, dividida em quatro partes que analisavam a torcida sob a lente da psicologia das massas de Gustave Le Bon – que já há muito tempo vinha sendo aplicada ao torcedor de futebol (BUARQUE DE HOLLANDA, p.383). O texto, publicado nas edições dos dias 05 (1- Classificação das Multidões), 06 (2- Características das Multidões), 07 (3- Comportamento das Torcidas) e 08 (4- Documentário) de novembro de 1953.

Embora não tenhamos espaço para reproduzir o texto integralmente aqui, notamos uma série de oposições realizadas no texto, muitas das quais presentes até hoje nas representações coletivas nacionais sobre o futebol. De um lado, encontramos nos textos as noções de civilização, burguesia, aristocracia, razão, consciente, complexidade, indivíduo, culto, cultura, liberdade, responsabilidade, lucidez e imparcialidade. Do lado oposto, os artigos situam: torcida, multidão, populacho, emoção, inconsciente, uniformidade, grupo, bárbaro, barbárie, servilismo, sugestibilidade, agressividade, parcialidade, agressividade, credulidade, anonimato, violência, brutalidade, impulso, contágio, doença.

Nos quase quarenta anos que separam os dois textos, o país passou por diversas mudanças sociais, políticas e econômicas. No futebol, houve o início da profissionalização dos clubes, a incorporação de negros e a inclusão das classes populares – tanto no papel do torcedor quanto no do jogador. Por outro lado, a partir do início da década de 1920, também se viu a queda da presença de mulheres e famílias nos estádios. Embora jornais como O Imparcial tenham publicado cartas a Geminiano Franca, então chefe da polícia do Estado da Guanabara, afirmando que mulheres e famílias começaram a sair por se sentirem ofendidos e ameaçados pelos insultos e conflitos nas arquibancadas4, Malaia argumentou que isso ocorreu em virtude da extinção de um hábito burguês e pequeno-burguês sul-americano:
os sócios efetivos que comprassem os seus ingressos não poderiam levar mais as filhas solteiras e a esposa ao jogo sem que as mesmas pagassem para entrar [...]. O costume das entradas gratuitas para as dependentes deixou paulatinamente de vigorar entre os principais clubes do Brasil. Talvez, essa mudança de costume, aliado a um discurso de caracterização dos espetáculos esportivos como ambientes não-familiares, possa ter levado a esse afastamento das tão charmosas torcedoras dos estádios de futebol (pp.69-70).
No mesmo ano, o Decreto N.14.529, de 9 de dezembro de 19205, aparece como a primeira iniciativa estatal para regulamentar o comportamento de torcedores nos estádios de futebol e outros esportes. O segundo parágrafo do artigo 33 do Capítulo XI, “Dos Espectadores”, direcionado a todos que assistissem a espetáculos de caráter público, determinava:

Nos desportos ao ar livre é lícito aos espectadores, mesmo durante esses, manifestarem sua approvação ou reprovação, ou incitarem os que nelle tomam parte, por meio de cânticos, gritos, rumores habitualmente usados em taes espetáculos, ou diversões públicas6

Esse trecho representa a primeira vez em que o Estado reconhece o ato de torcer enquanto legítimo. Ao longo das próximas décadas, a legislação a respeito das torcidas de futebol mudaria algumas vezes. Por outro lado, os dicionários levaram mais algum tempo para reconhecer a legitimidade do uso do termo “torcer” com o significado de “animar com gestos a victória dos jogadores” – definição que aparece pela primeira vez em 19267 – e de “pugnar pela vitória de seu clube desportivo”, isto é, lutar e defender com empenho – a qual se registrou primeiramente apenas em 19498.

Até o presente momento, está bem claro que tanto o Estado quanto a imprensa, desde os primeiros anos do futebol no país, abordaram a questão das torcidas. Cabe agora explicar como as duas instituições levaram à criação das torcidas organizadas no país. É importante construir um argumento que demonstre que existe uma relação causal entre os dois fenômenos (de um lado, a atuação da imprensa e do Estado e, do outro, o surgimento das torcidas organizadas), não apenas uma sequência cronológica entre os dados.



Primeira fase: autonomizando a torcida em relação ao jogo
No Rio de Janeiro, em uma partida decisiva entre o Fluminense Football Club e o Clube de Regatas do Flamengo, disputada no campo das Laranjeiras, em 1936, o Jornal dos Sports lançou o primeiro Duelo de Torcidas, do qual participaram mais de vinte mil espectadores, com a finalidade de julgar a participação dos torcedores, em termos de animação e originalidade ao pugnar pela equipe. A iniciativa teve lugar um ano após a invenção de Mario Filho, aprovada pelo então prefeito Pedro Ernesto, de atribuir notas para as fantasias presentes no Desfile das Escolas de Samba da cidade, durante o carnaval. Liderada por Paulista e Guimarães, a torcida da casa disputou contra a adversária, chefiada por Jaime de Carvalho e ‘Vai na Bola’. Quinze anos depois, em 1951, também em um “Fla x Flu”, dessa vez no Maracanã, o jornalista Mario Filho, o mesmo que havia inventado as avaliações às escolas de samba cariocas, relançou o Duelo de Torcidas. Jaime de Carvalho e Paulista se enfrentaram novamente, como líderes das torcidas dos dois clubes.

Já em São Paulo, em meio ao Estado Novo varguista (1937-1945), no qual eram defendidos valores trabalhistas como disciplina, organização, coletividade e inclinação ao trabalho constante (PARDINI, 2009, p.143), a Rádio Gazeta e a Gazeta Esportiva realizaram um concurso a fim de avaliar as torcidas do campeonato paulista de 1943.


Seriam avaliados itens como disciplina, entusiasmo, coro e organização, harmonia e originalidade, além do número de componentes durante os jogos [...]. Os clubes que tivessem suas torcidas nas três primeiras posições ganhariam um prêmio instituído pelo jornal e pela rádio, enquanto aos ‘chefes das torcidas’9 seriam concedidas medalhas (MALAIA, pp.82-3).
Isso foi o início do que chamaremos aqui de processo de “autonomização” das torcidas de futebol, fundamental para o surgimento das torcidas organizadas atuais.
Duas competições, pois, se armavam: uma no campo, outra na arquibancada. A repercussão da competição entre as torcidas implicava o envolvimento dos dirigentes dos clubes, que apoiavam as lideranças torcedoras para que elas pudessem organizar e promover a alardeada festa multicor (BUARQUE DE HOLLANDA, 2012, p.89).
Com isso, ocorre uma mudança na própria natureza da torcida. Se antes a torcida visava apenas servir como combustível emocional e psicológico para os jogadores de seu time e como elemento de intimidação aos rivais, a partir de então a torcida passa a perceber um propósito em si mesma. Seus olhos e seus esforços não estão mais integralmente dedicados ao jogo. Sua atenção agora se divide entre o jogo de futebol e o embate entre as torcidas, cujo resultado não mais depende do que ocorre em campo, ainda que as torcidas mantenham o interesse em influenciá-lo.

Esta primeira etapa da autonomização das torcidas, marcada sobretudo por sua carnavalização, apresentou também a tentativa de exercer controle sobre elas, com o intuito de discipliná-las. Chefes de polícia, dirigentes das federações esportivas, jornalistas, diretores e presidentes dos clubes enxergavam nelas um elemento perigoso, que deveria ser controlado: “o objetivo era inculcar disciplina entre os torcedores em suas horas de diversão nas praças de esporte, com a supressão das palavras de baixo-calão e a contenção dos distúrbios que volta e meia faziam ressurgir o espectro da turba também nos estádios” (p.92).

Para isso, os líderes das torcidas exerciam um papel fundamental. Além de organizar o espetáculo nas arquibancadas e nas gerais e de representar a torcida inteira no exterior e perante a imprensa, os líderes, torcedores-símbolos dos clubes, também tinham o dever de manter os torcedores controlados, fazendo com que observassem determinadas normas de comportamento. No Rio de Janeiro, em 1942, Jaime de Carvalho, líder da torcida flamenguista desde o primeiro Duelo de Torcidas, fundou a Charanga, uma banda voltada a oferecer músicas como elemento de estímulo ao time. O líder da torcida rubro-negra foi responsável por introduzir não apenas os instrumentos sonoros nos jogos do Flamengo como também por definir que os torcedores utilizassem camisas iguais às dos jogadores em campo. Para o código de vestimenta mais formal da época, essa padronização da veste torcedora foi uma inovação particularmente peculiar. Além disso, os torcedores passaram a portar bandeiras e faixas às arquibancadas.

Em São Paulo, os primeiros agrupamentos organizados aparecem na virada da década de 1930 para a de 1940. No ano de 1940, a Torcida Uniformizada do São Paulo (TUSP)10 foi fundada por Manoel Porfírio da Paz e Laudo Natel, responsáveis por recolher dinheiro entre dirigentes e pessoas que trabalhavam ou frequentavam o clube para contratar serviços de transporte coletivo para que os torcedores pudessem acompanhar o time.

Ao longo dos anos seguintes, diversas outras formas de organização torcedora surgiram, todas chefiadas por um ou mais líderes carismáticos.
Nas décadas imediatas à edificação do Maracanã, havia seis chefes de torcida conhecidos na cidade e identificados como legítimos por seus torcedores: Jaime [de Carvalho], do Flamengo; Dulce Rosalina, do Vasco; Paulista, do Fluminense; Tarzã, do Botafogo; Juarez, do Bangu; e Elias Bauman, do América (p.100).
De acordo com Buarque de Hollanda, todos eles provinham das classes populares, exercendo funções laborais modestas.

Entretanto, de todos os casos, o do Jaime do Flamengo é o mais exemplar para nossos propósitos, uma vez que o líder da Charanga exerceu um papel importante durante a Copa do Mundo de 1950, tal como relatou Buarque de Hollanda:


Em 1950, a preocupação em projetar a imagem de um país cordato fez com que as autoridades delegassem a Jaime de Carvalho boa parte da responsabilidade na orientação dos torcedores. Os organizadores vislumbravam a importância de um chefe de torcida que auxiliasse o trabalho do chefe de polícia no comportamento dos espectadores. Uma campanha desenvolvida pela imprensa ressaltava a inconveniência do arremesso de objetos no gramado, do emprego de palavrões e recomendava a chegada antecipada, a fim de evitar tumultos no acesso às tribunas. Com este intuito, os meios de comunicação davam inteiro aval à Charanga (p.104).
Os duelos de torcida promovidos pela imprensa continuaram durante as décadas de 1950 e 1960, alcançando até a primeira metade da década de 1970. Líder ao mesmo tempo carismático e tradicional, Jaime de Carvalho era responsável por buscar os troféus conquistados pela torcida na sede do Jornal dos Sports, tanto os individuais quanto os coletivos. No ano de 1965, havia dez troféus diferentes, que premiavam a originalidade individual dos torcedores dos dois lados, o número de membros e de bandeiras presentes no estádio, a expressividade e a vibração da torcida, o festejo dos gols e a qualidade da banda sonora que acompanhava. Além disso, os líderes também eram responsáveis por manter a ordem e incentivar o time com aplausos e gritos. A título de exemplo, Jaime de Carvalho, em um jogo contra a União Soviética sediado no Maracanã em 1965, aconselhou aos torcedores que não fossem ao estádio utilizando camisas de seus respectivos clubes, a fim de prevenir distúrbios entre membros de torcidas distintas. Por esse seu papel frente às torcidas, “o capitão Nelson de Mello, encarregado de vigiar o Maracanã, lhe outorgara, já em 1958, o diploma da Polícia Militar e o título de Torcedor Número 1 do Estádio Municipal” (p.108), evidenciando mais uma vez a relação entre as torcidas de futebol e as instituições estatais responsáveis pelo uso da força física.

Podemos então deduzir que a participação da imprensa na primeira fase de organização dos torcedores foi central em pelo menos três sentidos. Em primeiro lugar, ela produziu os duelos entre torcidas, com o intuito de avaliar as torcidas, de maneira independente ao que acontecia dentro de campo. Em segundo lugar, ela agiu como um braço do Estado Novo, buscando implantar nas torcidas, através da criação de disputas entre as torcidas, os valores trabalhistas do varguismo, como disciplina e inclinação ao trabalho. Em terceiro lugar, ela produziu uma multiplicidade de discursos que tinham como objetivo exigir do Estado, dos clubes e das federações o controle sobre os torcedores.



Segunda fase: autonomizando a torcida em relação ao clube
A segunda fase do processo de autonomização da torcida no Brasil é marcado por uma série de rupturas que levaram ao surgimento das atuais torcidas organizadas. Essas rupturas ocorreram dentro do campo específico das torcidas, mas o formato que suas consequências assumiram demonstra a influência de agentes externos.

A primeira ruptura de que trataremos não é específica do caso brasileiro. Gary Armstrong (1998), Eric Dunning (DUNNING & ELIAS, 1985) e Ramón Spaaij (2006), em seus respectivos estudos sobre o problema do hooliganismo no Reino Unido, mostraram que também na terra da rainha, sobretudo a partir do princípio da década de 1960, houve um desmembramento nas arquibancadas: se até então era bastante comum que pessoas de diversas faixas etárias assistissem aos jogos de seus times em conjunto, a partir de então ocorre um destacamento dos setores de jovens homens, entre 14 e 25 anos, que passam a assistir aos jogos em grupos exclusivos a esta faixa etária e, portanto, a ocupar o mesmo espaço nas arquibancadas, excluindo homens mais velhos, crianças e mulheres.

Esse processo ocorreu tanto no Brasil quanto na Inglaterra. Entretanto, devido às configurações específicas da sociedade, das torcidas e dos estádios, possuiu efeitos diferentes, embora em ambos os lugares, os agrupamentos surgidos tenham sido responsáveis por incontáveis casos de violência nos estádios e em seus arredores. No Brasil, todavia, a ruptura não foi apenas etária, mas também política, no sentido das relações de poder na vida cotidiana. Não foi apenas um desmembramento surgido em virtude de uma nova forma de torcer, mas também uma reação direta à condição das formas de organização torcedora até então. Os motivos para isso são relativamente simples. Essa ruptura, ocorrida justamente no momento em que deveria ocorrer a transição de antigos para novos líderes das torcidas (em virtude de doenças e envelhecimento, o que comprometia a regularidade de suas presenças nos estádios), é uma recusa a aceitar a legitimidade das lideranças presentes entre os torcedores, por elas receberem o apoio da direção do clube e da polícia militar, como era o caso de Jaime de Carvalho e os outros líderes. Os novos agrupamentos juvenis olhavam com desconfiança, embora majoritariamente mantivessem a deferência, uma liderança que representava os interesses dos dirigentes dos clubes e do Estado.

Como observou Buarque de Hollanda, algumas das justificativas apresentadas pelos torcedores para essa transformação “tinham um tom mais áspero, acusatório. Eram motivadas pelo cerceamento dos chefes de torcida, que tolhiam a livre manifestação dos torcedores” (pp.108-9). O ponto nevrálgico estava situado no direito a criticar o desempenho de jogadores, técnicos e dirigentes, que era vetado pelos líderes da torcida. Esse confronto de interesses entre liberdade de expressão, de um lado, e manutenção da ordem e do status quo, de outro, era central não apenas às torcidas, mas a toda a sociedade brasileira, que se encontrava, desde abril de 1964, sob uma ditadura militar.

O conflito foi finalmente materializado quando, em maio de 1967, a torcida do Fluminense apresentou no estádio uma faixa onde se lia “Torcida Dissidente”, fruto da discórdia entre Paulista, antigo chefe da Torcida Organizada do Fluminense que havia se afastado temporariamente por motivos de saúde, e Bolinha, que assumiu a frente da torcida na ausência de seu antigo chefe, e que impôs resistência a devolvê-la a Paulista quando este retornou. Esse caso, apesar de emblemático, foi, em certo sentido, uma exceção, pois a fragmentação da torcida e a ruptura com o poder estabelecido dentro dela era fruto de uma dissidência entre indivíduos, enquanto as demais torcidas do país verificavam um conflito de gerações, a exemplo o que aconteceu na torcida do Flamengo em 1967, quando membros da Ala Jovem da Charanga romperam com a torcida e fundaram o Poder Jovem, parando de freqüentar o tradicional setor esquerdo das tribunas de rádio para animar o time a partir das arquibancadas atrás do gol. Com isso, os jovens escapavam da repressão contra palavrões e vaias, além do uso de fogos de artifício dentro do estádio. Dois anos depois, o grupo se oficializou como uma torcida organizada, sob o nome de Torcida Jovem do Flamengo.

Isso levou ao próximo passo do processo de autonomização das torcidas: elas não deveriam mais ser controladas pelos clubes, elas seriam agora independentes dos desejos dos dirigentes – o que levou a um efeito em cascata, com diversos rompimentos e o surgimento de múltiplas torcidas organizadas para cada time, acabando com a identificação “um clube”, “uma torcida”. Não à toa, algumas levaram essa característica em seu nome, entre as quais destacamos a Torcida Tricolor Independente, do São Paulo Futebol Clube, a Força Independente Colorada, do Sport Club Internacional, a Fúria Independente, do Paraná Clube, a Torcida Fúria Independente, do Guarani Futebol Clube, e a Torcida Fúria Independente do Botafogo, do Botafogo de Futebol e Regatas. Embora estas três últimas tenham surgido após o fim da ditadura militar, elas demonstram como a independência em relação aos dirigentes é um valor que permaneceu entre as torcidas organizadas. O seguinte trecho deixa evidente a insatisfação com os chefes de torcidas vinculados aos dirigentes dos clubes.


A Independente nasceu das divergências de ideias e posturas entre a torcida uniformizada Tusp e alguns dos seus filiados. Tiveram muitas dificuldades mas souberam supera-las (sic). [...] O time perdeu o primeiro jogo na quarta-feira por 3 a 2, para o [Club] Cerro Portenho [pela Taça Libertadores da América de 1972] e a torcida, a confiança na diretoria da Tusp. ‘Não bastasse o time ter perdido descobrimos que os cabeças da torcida ficariam hospedados em hotéis 4 estrelas e os demais em pensões. Para completar, ficamos sabendo que em vez deles de (sic) distribuírem os brindes e camisetas, estavam vendendo’ lembra Newton Ribeiro, um dos fundadores da Independente. Foi a Gota d’água. (Site do G.E.R.C. Tricolor Independente)11.
O esvaziamento da política na vida pública veio então acompanhado de uma politização da vida torcedora. Os torcedores mais jovens, entre 16 e 25 anos, protagonizaram o rompimento com as torcidas vinculadas aos clubes, para manifestar sua insatisfação para os dirigentes, os demais torcedores, os jogadores, o técnico e a imprensa. Se a ditadura militar visava controlar os discursos sobre política, sociedade e Estado, a torcida respondia se desamarrando dos grilhões impostos pelos clubes, pela polícia militar e pelos chefes de torcida que controlavam as vozes e o comportamento do público espectador. Os estádios se tornaram um lugar de protesto, onde os jovens encontraram legitimidade para expressar suas insatisfações – o que não significaria que elas seriam sempre resolvidas, nem que a faceta repressiva do poder do Estado não estaria presente.

A presença de uma ditadura militar controlando a vida pública teve como consequência não apenas a politização dos estádios, mas também uma militarização da organização torcedora. A partir de meados dos anos 1960, não apenas houve uma juvenilização das torcidas organizadas como também uma verdadeira militarização de seus discursos e de seu universo simbólico. Em nossa pesquisa, registramos o surgimento de doze torcidas organizadas durante o período da ditadura militar que portavam ao menos uma das características a seguir: 1) mobilização de símbolos carregados da ideologia militar; 2) emprego de termos militares para se referir a si mesma ou a uma de suas partes; 3) uso de lemas ou símbolos nacionalistas (o que era amplamente incentivado oficialmente pelo regime político na vida pública).

Dessa maneira, temos que as torcidas Força Flu (fundada em 1970), do Fluminense, Máfia Azul (1977), do Cruzeiro Esporte Clube, Torcida Organizada Povão (1976), do Esporte Clube Bahia, Império Alviverde (1977), do Coritiba Foot Ball Club, Torcida Organizada Bafo do Leão (1972), do Sport Club do Recife, e Força Independente Colorada (1977) se encontram subdivididas em “comandos”12, em alusão ao termo “comando militar”, nome utilizado para denominar os agrupamentos de regiões militares. Não é mera coincidência, portanto, que essas divisões das torcidas sejam feitas de forma a cada uma representar uma região – um bairro, uma cidade, um agrupamento de cidades ou um Estado da federação. Além destas, também temos a Torcida Jovem do Botafogo (1969), que é subdividida em esquadrões, e os Dragões da Força Atleticana de Ocupação (1969), do Clube Atlético Mineiro, que já em seu nome apresenta um termo referente a uma ação militar (ocupação, isto é, uma invasão e submissão militar de um país ou de um território por um Estado estrangeiro).

Além destas, podemos encontrar também o uso do guarda pretoriano como símbolo da Força Jovem do Vasco (1970), do Clube de Regatas Vasco da Gama. Já no que diz respeito ao lema, que é utilizado pelas torcidas como uma maneira de demonstrar os ideais que elas valorizam, a Torcida Jovem do Cruzeiro (1970) e a Torcida Garra Tricolor (1981), do Fluminense, utilizavam uma frase tirada do hino nacional: “verás que um filho teu não foge à luta”.

Finalmente, encontramos novamente entre fanáticos flamenguistas um caso paradigmático, que combina as três características supracitadas. A Torcida Jovem do Flamengo (1967) possui o lema “o exército rubro-negro”, é subdividida em pelotões e emprega como símbolo um tanque de guerra. Dessa forma, este setor da torcida rubro-negra apresenta, de uma só vez, três elementos que comprovam a militarização discursivo-ideológica dos agrupamentos torcedores.

Por outro lado, é possível notar em quatro torcidas da época uma reação direta à ditadura militar. Os grupos Gaviões da Fiel Torcida (1969), do Sport Club Corinthians Paulista, Torcida Jovem do Santos (1969), do Santos Futebol Clube, Torcida Tricolor Independente (1972) e Força Jovem do Vasco. Embora apenas as duas primeiras tenham exibido, no final da década de 1970, a exigência por “anistia ampla, geral e irrestrita”, fruto da combatividade do Movimento Feminino pela Anistia e dos Comitês Brasileiros de Anistia, as quatro torcidas apresentam um discurso contrário à ditadura em seus websites.


Anos 60, enquanto o futebol alegrava o povo, os políticos construíam suas obras faraônicas endividando a nação. Dentro dos clubes, os torcedores eram submissos, acríticos e comprometidos com os cartolas. Inspirados nos movimentos estudantis que pediam o fim da Ditadura Militar, surgiram no Brasil várias torcidas jovens, marcadas por uma outra concepção de torcida organizada e por outros modelos de comportamento e valores para torcedores (Site do G.R.T.O. Força Jovem do Vasco)13.
‘O país passava por uma época de muita repressão e ditadura, e sempre éramos molestados pela polícia, que não podia ver um grupinho reunido, já desconfiava tratar-se de um complô’, recorda Newton. (Site do G.E.R.C. Tricolor Independente). 14
A fundação dos Gaviões, em 1º de julho de 1969, ocorreu num momento dramático e marcante para os brasileiros: a ditadura militar. Numa época em que a liberdade de expressão praticamente não existia, estes jovens torcedores iniciam uma cobrança junto a vida política e administrativa de um dos maiores clubes de futebol do Brasil, o Sport Club Corinthians Paulista. [...] O Corinthians estavam sob administração de Wadih Helu, que durante anos tentou impedir a criação dos Gaviões através de represálias e atos característicos do tempo da ditadura (Site dos Gaviões da Fiel)15.
A Torcida Jovem ao longo de sua história sempre foi considerada pela imprensa e pelo povo de modo geral uma torcida politizada. [...] Em 1970, participamos da oposição na eleição do Santos F.C. de lá pra cá nunca ficamos inertes da vida política do nosso clube [...]. Sempre tivemos uma posição independente, sempre assumindo os compromissos em prol do Santos F.C. [...] Foi realmente uma época com dificuldades, repressões. [...]Vamos descrever algumas passagens, onde nossa entidade esteve verdadeiramente identificada. Campanha de anistia ampla, geral e irrestrita, onde inclusive nosso companheiro Cosmo Damião foi indicado coordenador. Na memoral (sic) campanha das diretas já, nossa bateria nota 10 esteve presente em todos os comícios na capital de São Paulo. (Site da Torcida Jovem)16

Conclusão
O que vemos nos registros acima nos deixa claro que, nas narrativas de suas próprias histórias, essas torcidas organizadas constroem a si mesmas em oposição ao regime militar, criando uma relação entre a repressão da ditadura da época e a submissão aos desejos dos “cartolas”, termo utilizado popularmente para se referir aos dirigentes dos clubes e federações. Não é necessário verificar as informações apresentadas pelas torcidas: o seu estatuto de verdade não está em jogo, uma vez que a maneira pela qual elas constroem suas próprias narrativas históricas exprime os significados que elas atribuem a si mesmas, suas identidades e suas histórias. Enquanto a vida democrática era interrompida pelo regime, os clubes, em sua maioria, permaneciam com eleições democráticas ao menos nominalmente livres, tornando-se um lugar propício para que fosse satisfeito o desejo por participação política de diversos jovens filiados a torcidas organizadas.

Por outro lado, a Ditadura Militar não teve apenas um efeito reativo de oposição entre as torcidas. Ainda que não tenhamos encontrado evidências de grupos de seguidores de futebol que tivessem apoiado o golpe ou o regime, notamos que o ethos militar implantado pela ditadura na sociedade permeou também as torcidas organizadas nascentes. Foi o que verificamos anteriormente, notando a ocorrência frequente de termos e símbolos militares entre as torcidas.

O argumento que aqui apresentamos é de que, se, por um lado, a imprensa, influenciada pelo Estado Novo de Getúlio Vargas, possui um papel central na organização das torcidas brasileiras, fase fundamental para o desenvolvimento das atuais torcidas organizadas, por outro lado, temos que a ditadura militar exerceu, involuntariamente, uma participação ímpar no desenvolvimento daquilo que Monteiro chamaria de “etos guerreiro” dos torcedores organizados, isto é, “um tipo de comportamento que privilegia o confronto violento, a agressividade virial e sobretudo a demonstração de superioridade física sobre o outro” (2003, p.110).

Assim como a organização das torcidas continuou mesmo após a imprensa parar de realizar competições entre as torcidas, o etos guerreiro causado pela militarização das torcidas continuou se desenvolvendo mesmo após o fim do regime militar. Registramos que pelo menos nove torcidas surgidas após 1985 e ainda atuantes carregam referências militares, bélicas ou guerreiras em seus nomes: Comando Azul (1995) e Torcida Organizada Gladiadores (2000), da Associação Desportiva São Caetano, Torcida Esquadrão Andreense (2005), do Esporte Clube Santo André, Torcida Guerreiros Barueri (2005), do Grêmio Barueri Futebol Ltda., Torcida Falange Tricolor (1990), do São Paulo, Torcida Esquadrão Atleticano (1990), do Atlético Mineiro, Nação Independente Comando Vermelho (1992), do Internacional, Força Independente Falange Grená (1994), da Sociedade Esportiva Recreativa Caxias do Sul, e Torcida Organizada Falange Azul (1992), do Londrina Esporte Clube. Mais ainda, doze possuem referências militares nos nomes de suas subdivisões ou subsedes: Mancha Verde Juventude (1990), do Esporte Clube Juventude, Torcida Organizada Mancha Azul (1995), do Avaí Futebol Clube, Torcida Uniformizada Os Imbatíveis (1997), do Esporte Clube Vitória, Torcida Organizada Dragões Alviverde (1996), do Coritiba, Torcida Uniformizada Jovem do Sport (1995) e Torcida Gang da Ilha (1988), do Sport, e Falange Azul são subdivididas em “comandos; Esquadrão Atleticano em tropas; Super Jovem Vasco (2006), do Vasco, em esquadrões; a Torcida Jovem Flu (2004), do Fluminense, em batalhões; a Mancha Azul (1990), do Cruzeiro, em comandos; e Movimento Mancha Alvinegra (1986), do Botafogo, em legiões.



Para finalizar, gostaríamos de concluir que de maneira alguma o fenômeno da violência nos estádios no Brasil tenha sua causa única no impacto direto da imprensa esportiva e indireto da ditadura militar. Existem diversas variáveis envolvidas, como os problemas na questão da cidadania no país, o tratamento oferecido pelas forças policiais aos torcedores, a presença do crime organizado em alguns agrupamentos torcedores, a relação direta entre masculinidade e violência na sociedade brasileira – particularmente a associação entre paixão masculina e impulsos agressivos – e o cenário mundial da violência torcedora. Entretanto, nosso intuito foi demonstrar como duas das forças que buscam historicamente controlar o comportamento torcedor acabaram por gerar organizações que hoje são tidas por boa parte do público apreciador do esporte como as principais responsáveis pela violência relacionada ao futebol. Ao mesmo tempo, é importante também ressaltar que tal processo ocorreu sem a intencionalidade dos agentes envolvidos, estejam eles no nível macro ou no nível individual. Dessa maneira, utilizando a terminologia de Robert K. Merton (1957), podemos falar que o artigo tratou dos efeitos não intencionais da ação humana em uma escala institucional.

Referências Bibliográficas
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1 “O Rio Sportivo publicou interessante nota na coluna ‘Dizem...’, seção de boatos da imprensa esportiva, afirmando que o ‘‘Captain’ João Pereira [...] quase ficou sem bigode, de tanto torcer para o Fluminense [Football Club], no ‘match’ deste club contra o [Sport Club] Mangueira’” (“Dizem...”. Rio Sportivo, 31 de julho de 1909, p.3 apud MALAIA, 2012, p.60)

2 Não confundir com a Sociedade Esportiva Palmeiras, então chamada de Sociedade Esportiva Palestra Itália (que também aparece com a grafia italiana Società Sportiva Palestra Italia), fundada em 1914.

3 “Vida ao ar livre: Foot-ball”. Vida Moderna, 13 de agosto de 1914, Anno IX, n.234, p.29.

4 O Imparcial, 16 de julho de 1920, p.7.

5 BRASIL. Regulamento das Diversões Públicas. Decreto N. 14.529, Diário Oficial da União, 12 de dezembro de 1920, pp.20700-20705.

6 Ibidem, p.20703.

7 Novo Dicionário Encyclopedico Illustrado da Língua Portugueza. Rio de Janeiro: Livraria Garnier, 1926, p.1247.

8 MORAIS, Orlando Mendes de. Dicionário Ginasiano Brasileiro de Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: d. Getulio Costa, 1949, p.926.

9 “Torcida uniformizada – Regulamento”. Gazeta Esportiva, 22 de março de 1943, p.4 apud MALAIA, p.83.

10 Primeira forma de organização torcedora filiada ao São Paulo Futebol Clube.

11 Disponível em: http://www.independentenet.com.br/4rt8s1fgw7asd/index_principal.php?area=historia. Acesso em 10 de Julho de 2015.

12 Na realidade, os “comandos” da Império Alviverde se encontram atualmente extintos.

13 Disponível em: http://www.forcajovem.com.br/site/. Acesso em 10 de julho de 2015.

14 Disponível em: http://www.independentenet.com.br/4rt8s1fgw7asd/index_principal.php?area=historia. Acesso em 10 de julho de 2015.

15 Disponível em: http://www.gavioes.com.br/index.php/torcida/. Acesso em 10 de julho de 2015.

16 Disponível em: http://torcidajovem.com.br/torcida-historia. Acesso em 10 de julho de 2015.


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