A participação popular na República Juliana Gustavo Marangoni Costa



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A participação popular na República Juliana
Gustavo Marangoni Costa*
Durante a retirada das tropas farroupilhas da vila de Laguna, após a derrota para o exército e a marinha imperial em 15 de novembro de 1839, o vigário da Matriz, padre Francisco Villela de Araújo, foi morto pelas forças farrapas que recuavam. Laguna retornou ao controle do Império e como o vigário não possuía herdeiros, seus bens foram arrecadados e avaliados pela Coletoria Municipal, para serem leiloados posteriormente em praça pública, segundo ordens do Juiz de Paz Municipal Antônio José da Silva. Dentre outros pertences do padre constavam:
1 cômoda de Jacarandá..............................12$800

1 sofá de Jacarandá.....................................6$000

1 mesa de Jantar de Cedro, com gavetas......4$000

1 escravo de nome João............................100$000

1 escravo de nome Paullo.........................250$0001
Nos meses seguintes à arrecadação, foram realizados leilões públicos para a venda dos bens de Francisco Villela de Araújo. Todos os itens inventariados foram arrematados por diversos cidadãos da vila de Laguna, exceto o escravo João que foi alforriado pelo senhor Joaquim Clemente Collaço de Almeida em 22 de junho de 1840, como consta abaixo.
Em praça do mesmo das feitas diligências da lei e praticadas as Cerimônias do Estilo, compareceu Joaquim Clemente Collaço de Almeida, e por ele foi dito que vinha apresentar em Juízo a quantia de cem mil réis, em que foi avaliado o escravo João, que foi do falecido Vigário Francisco Villela de Araújo, a quem deseja conferir a sua Liberdade, para que ele sobredito escravo a fique gozando como se liberto nasceu, cuja quantia [...] recebeu o sobredito depositário Fidellis Jozé de Fraga, que da mencionada quantia tomou conta, se obrigou as Leis Respectivas, e de que para constar mandou esse Juiz fazer este termo [...]2
Provavelmente a liberdade foi concedida ao escravo João por Joaquim Clemente sem que o cativo se encontrasse na vila. Em um ofício de fevereiro de 1841 o Juiz de Paz José Pinto de Magalhães, registrou que um escravo de nome João se apresentou a ele e que este era o mesmo escravo que pertencia ao vigário Francisco Villela de Araújo, o qual havia fugido da vila com os “Rebeldes da Província do Rio Grande”.

Este artigo se propõe a analisar as formas de participação da população de Laguna nos acontecimentos que envolvem a proclamação da República Juliana em Santa Catarina, abordando as manifestações de apoio dos habitantes de Laguna aos revolucionários farroupilhas. Temos consciência de que nem todos apoiaram a República Juliana e os farroupilhas, mantendo-se por vezes indiferentes, apresentando em alguns casos resistência ou então, ficando alheios ao processo. Porém neste momento, buscaremos uma análise mais detida sobre as formas de apoio da população lagunense como nos mostra a experiência do escravo João, entendendo apoio por relações de colaboração, conivência, suporte e atuação efetiva.

Para tanto, utilizaremos um conceito praticado por Gladys Sabina Ribeiro3 para abordar conflitos ocorridos entre negros e brancos nos primeiros anos após a independência. Identificando um forte antilusitanismo por parte de escravos e libertos e um grande preconceito do lado dos portugueses, principalmente proprietários e comerciantes, ela analisa o contexto e as razões que levavam aos confrontos entre brancos e negros. Baseando-se em documentos da época, Ribeiro tece uma definição para a população carioca que é a seguinte:
O Povo, com letra maiúscula e significando os proprietários – cidadãos ativos – agitavam-se pela falta e atraso no pagamento dos jornais devidos. [...] Em época de tantas ameaças e problemas de descontentamentos daquela outra parcela do “povo” (composta dos não-remediados, pobres, escravos, forros ou livres, e que era mantida em precário controle e ocupava boa parte do tempo da polícia e das classes abastadas do país) era preciso acalmar os proprietários e ter o menor número possível “de frentes de conflito”.4
O Povo de Laguna, com inicial maiúscula, é identificado nos comerciantes e pessoas influentes da vila, e o povo, com inicial minúscula é associado aos mais humildes: pescadores, militares de baixa patente, marinheiros, escravos e também, pequenos comerciantes.5 Sobre este se deterá mais atentamente nossa análise.

A República Catarinense6 insere-se no quadro de eventos da Revolução Farroupilha. Em 1835 inicia-se esta revolta no Rio Grande do Sul, desencadeada pela elite agropecuária gaúcha devido às dificuldades e prejuízos que estavam sofrendo em sua economia, causados pelos altos impostos sobre o charque e pela concorrência com os países platinos. Segundo Sérgio Buarque de Holanda e Pedro Moacyr Campos, “os Farrapos inspiravam-se em idéias liberais de cunho federativo”.7 Em 1836 foi proclamada a República Rio- Grandense que abrangia boa parte do interior da província gaúcha dominada pelos farroupilhas. Apesar da proclamação dos ideais liberais e republicanos, a principal causa da revolução foi sem dúvida o descontentamento com os impostos.

Os combates no Rio Grande do Sul se davam mais intensamente desde 1836 e os insurgentes meridionais detinham controle da região da campanha, interior do pampa gaúcho, com sua capital na vila de Piratini. No entanto, os portos da capital, Porto Alegre, e o porto de Rio Grande, permaneciam sob domínio imperial. Desta maneira, “bloqueados na zona lacustre, onde a marinha nacional não lhes permitia o menor avanço, procuravam aqueles com os catarinenses do altiplano um porto de mar para desafogo.”8

Foram elaborados planos para avançar sobre a província de Santa Catarina com o objetivo de tomar a vila de Laguna. Fundada no final do século XVII, a vila de Laguna constituía um importante ponto no litoral sul da Província de Santa Catarina em meados do século XIX. Vila portuária, sua economia se baseava na pesca, pequena agricultura e na comercialização de produtos pelo porto, tais como: arroz, café, açúcar, aguardente, milho, madeiras e principalmente a farinha de mandioca.9 A população de Laguna em 1833 era de 11682 pessoas dividas entre suas seis freguesias, sendo que um quinto do total era representado por escravos.10 A vila atraiu a atenção dos insurgentes rio-grandenses pois possuía um porto que viria atender às necessidades dos revolucionários.

As intenções farroupilhas de levar a revolução à província de Santa Catarina são percebidas desde 1838 quando a vila de Lages no planalto catarinense foi ocupada pela primeira vez por forças farroupilhas.11 Em março de 1839 foi proclamada a adesão da população de Lages à revolução, e declarada a incorporação da vila à República Rio-Grandense. Nesse mesmo ano, um ataque de forças combinadas por terra e mar foi destinado à Laguna. No comando das forças terrestres estava Davi Canabarro e chefiando a frota encontrava-se Giuseppe Garibaldi. Laguna foi conquistada sem maiores dificuldades no dia 22 de julho de 1839 pelos farroupilhas, devido à retirada do destacamento imperial, em número inferior aos atacantes, após confrontos iniciais. Logo foi proclamada a República Catarinense, um estado confederado à República Rio-Grandense, com sua capital na Cidade Juliana de Laguna e, englobando também a vila de Lages em seus domínios.

A chegada dos revolucionários farroupilhas em Laguna é relatada por diversos autores como um fato de grande alegria para a população lagunense. Oswaldo Rodrigues Cabral afirma que “a chegada dos rebeldes fez renascer velhos e adormecidos entusiamos nos lagunenses. O mesmo carinho acolhedor que haviam encontrado, anos antes, os refugiados, sentiram os guerreiros”.12 Ivo Caggiani também relata a felicidade das pessoas quando “as forças revolucionárias ao entrarem nas ruas da localidade foram recebidas por entre as mais entusiásticas demonstrações de regozijo da população”.13

Um exemplo de apoio dado aos farroupilhas anterior à tomada de Laguna, por pessoas residentes em Santa Catarina é o caso do serralheiro francês Maillard, relatado pelo Juiz de Direito e Chefe de Polícia da Comarca do Sul Severo de Amorim do Valle. Segundo o Chefe de Polícia, o serralheiro, em sua oficina na Vila Nova, distrito de Laguna, “fabricava e ainda fabrica lanças e outras armas para o uso dos rebeldes da Prov.ª de S. Pedro”.14 Provavelmente, Maillard não fabricava os armamentos para vendê-los aos farroupilhas por compartilhar de seus ideais liberais e republicanos e sim, por visualizar a grande possibilidade de lucro que a guerra lhe proporcionaria. Porém, o serralheiro arriscava-se muito, trabalhando em território sob domínio imperial e fornecendo armas para os insurgentes do Rio Grande do Sul. O ofício que relata o caso do serralheiro pede para que fosse enviado alguém para investigar a denúncia e que fossem tomadas as devidas providências. Em outra correspondência, em resposta ao ofício de Amorim do Vale, o Juiz de Paz da Vila Nova, Antônio L. Tavares, relata que o serralheiro já havia se mudado para a Enseada do Brito.15 Certamente o trabalho e os contatos mantidos pelo serralheiro francês geravam suspeitas na localidade onde morava, despertando o interesse do Chefe de Polícia. Talvez para evitar a investigação e possível punição é que Maillard tenha se mudado para a Enseada do Brito. A documentação não informa como terminou o caso do francês, mas possivelmente ele não foi localizado, pois certamente isso seria registrado nos documentos oficiais. Esse tráfico de armas realizado por Maillard revela relações de apoio aos revolucionários do Rio Grande do Sul, se considerarmos o risco que Maillard tinha de enfrentar para concretizar seu negócio. 16

Durante o início da campanha para a invasão de Santa Catarina, o Farroupilha, lanchão comandado por Garibaldi, naufragou na embocadura do Rio Urussanga devido aos ventos muito fortes e ao mar revolto, em um ponto entre Torres e Santa Maura [sic], onde morreram 16, de uma tripulação de 30 homens, muitos desses, revolucionários italianos, companheiros de Garibaldi.17 Ivo Caggiani avalia que o naufrágio se deu na barra do rio Araranguá.18 No entanto mais importante que a exata localização de onde ocorreu o acidente, é o relato de Garibaldi sobre o acontecimento. Segundo ele


Felizmente, aquela região da Província de Santa Catarina onde naufragáramos, animada pela notícia da chegada das forças republicanas, havia se rebelado contra o imperador. Assim, encontramos aliados ao invés de inimigos e fomos festejados, em lugar de sermos combatidos. Tivemos então à nossa imediata disposição todos os meios de transporte que podiam nos proporcionar os humildes habitantes aos quais pedimos hospitalidade.19
De acordo com esse trecho das Memórias de Giuseppe Garibaldi20 a população estava animada com a chegada das forças farroupilhas e auxiliou os sobreviventes do naufrágio do Farroupilha. Podemos notar uma forma de colaboração popular do povo com “p” minúsculo nestes eventos. As pessoas que ajudaram os revolucionários eram muito simples, chamados de “humildes habitantes” e de “aliados” por Garibaldi. É possível perceber, então um claro apoio da população menos favorecida aos farroupilhas que avançavam para tomar a vila de Laguna.

Valendo-se desse auxílio, Garibaldi juntou-se a Divisão Libertadora e voltou ao comando da esquadrilha farroupilha que ajudou a tomar Laguna em julho de 1839. A ação dos revolucionários é vista pelos gaúchos como um feito heróico em benefício dos catarinenses. Isso fica demonstrado num artigo do jornal farroupilha O Povo, de autoria de Davi Canabarro, publicado logo após a tomada de Laguna.


A Câmara Municipal da Vila de Laguna, fica certa, assim como o Povo deste Município do quanto devem ao Governo Republicano Rio-Grandense, por ter anuído ao clamor do Povo Catarinense, que jazia debaixo do jugo de um Governo perseguidor, e inumano que só se alimentava na perseguição sistemática dos Brasileiros, que firmes nos princípios do Governo Republicano só aguardavam o feliz momento da chegada da Divisão Libertadora [...]21
É muito clara no texto a propaganda contra o governo imperial empregada pelos farroupilhas, característica dos jornais liberais. Esse tipo de estratégia era utilizada para tentar ganhar mais apoio junto do restante da população, denunciando perseguições e descaso por parte do governo do Rio de Janeiro. É expressado no artigo que os farroupilhas vem atender ao apelo do povo de Santa Catarina que clamava por “libertação da opressão imperial”. Esse clamor estava, provavelmente, associado às pessoas simpáticas à revolução residentes em Laguna que apoiavam os revolucionários farroupilhas.

Outra demonstração de apoio aos rebeldes foi praticada pelos praças da guarnição da Fortaleza Nossa Senhora da Conceição de Araçatuba, localizada no extremo sul da Ilha de Santa Catarina. Após a tomada de Laguna, os farroupilhas seguiram em perseguição às tropas imperiais que haviam se retirado de Laguna. Os insurgentes avançaram ao norte e só foram detidos na planície do rio Massiambú, porque o Morro dos Cavalos proporcionava um bom entrincheiramento às forças imperiais que detiveram o avanço dos farrapos. No intervalo de tempo em que a frente de batalha se estabilizou nesse local alguns praças da guarnição da Fortaleza Nossa Senhora da Conceição se rebelaram contra seu comandante e se juntaram às forças farroupilhas estacionadas na planície do rio Massiambú. Assim noticiou o Boletim da Vanguarda da Divisão Libertadora em suplemento especial do jornal O Povo de 18 de setembro de 1839:


Os maus tratamentos, as injúrias continuadamente lançadas contra os Brasileiros pelo Comandante da Fortaleza do Sul contra nós, de comprimir despertaram no coração do virtuoso soldado José Pinto Ribeiro a nobre ira de um verdadeiro filho da terra de Santa Cruz possuído dela assentou no silêncio o seu projeto, e previa a fé do secreto, o comunicou depois ao seu Sargento; ambos juraram imolar-se para Pátria, e Deus abençoou a generosa conjura.

A noite do dia onze devia presenciar o heroísmo destes dois Campeões da Liberdade brasileira: a uma hora da madrugada do dia doze, seis tiros de pessas [sic] patentearam aos tiranos que nem sempre seus crimes ficam impunidos: [sic] um 2.º Tenente espirava aos golpes daqueles Patriotas, e o 1.º Tenente que comandava a guarnição aprisionado juntamente com outro 2.º Tenente, um 1.º Sargento, e um Cadete; e as sete horas o denodado José Pinto Ribeiro, depois de ter entregado o Comando ao Sargento, acompanhado por três camaradas, veio pedir socorro aos nossos, que de súbito foi lhe dado de tropas, e embarcações: as oito horas o pavilhão da República tremulava sobre a fortaleza: o Comandante da Vanguarda aumentava sua força com quarenta e quatro soldados, e apossou-se de cinqüenta armas de Infantaria, cinqüenta baionetas, cinqüenta patronas, cinqüenta cinturões, três mil para mais cartuxos de infantaria, vinte e duas arrobas de pólvora, arriba de três mil balas de canhão, uma prodigiosa quantidade de velas mistas, e de espoletas, cinco peças montadas e cinco para montar.22


Essa ação perpetrada por iniciativa do soldado José Pinto Ribeiro representa mais uma manifestação de apoio aos farroupilhas. Talvez os motivos da revolta do soldado José contra seus comandantes sejam mais antigos e profundos do que a simples adesão ao ideal republicano, mas o fato é que ele, um sargento e posteriormente mais três praças, seguidos de outros tantos, se rebelaram contra o comando da fortaleza, juntaram-se aos farroupilhas entregando numerosa quantidade de armamentos e munição a estes e por fim, hastearam a bandeira republicana no alto da fortaleza. Possivelmente a proximidade da fortaleza com a posição dos farroupilhas estacionados na planície do rio Massiambú, tenha facilitado e influenciado a ação dos praças, mas o mais importante é que o soldado Pinto Ribeiro e seus companheiros componentes da parte da população com p minúsculo, demonstraram também o apoio dos mais humildes aos insurgentes rio-grandenses. Este acontecimento foi muito celebrado pelos farroupilhas, tanto que o soldado José Pinto Ribeiro foi aclamado cidadão benemérito da pátria e elevado ao posto de 1.º Tenente do Corpo de Artilharia.23

Após quatro meses de república em Santa Catarina, uma contra-ofensiva imperial retomou Laguna na batalha do dia 15 de novembro de 1839, onde os farroupilhas com uma inferioridade numérica em relação às tropas legalistas, passaram todos os cavalos e mantimentos de que dispunham para a margem fronteira, numa posição que possibilitasse uma rápida retirada em caso de derrota.24 Foi exatamente o que ocorreu. Após uma batalha rápida, porém intensa, as tropas farroupilhas derrotadas retiraram-se de Laguna, alguns batendo em retirada para o Rio Grande do Sul e outros para o planalto catarinense em direção a Lages. Juntamente com esses revolucionários, retiraram-se moradores de Laguna como nos demonstra o ofício abaixo:


Levo a presença de V. Ex.ª não só as relações dos bens arrecadados pelo Juiz de Órfãos da Vila de Laguna, pertencentes aos indivíduos que se retiraram daquela Vila com os rebeldes, mas também a cópia do ofício que as acompanhou. E como o respectivo Juiz de Órfãos exige vários esclarecimentos a respeito para seu governo, julgo que uma vez arrecadados os bens daqueles ausentes nos termos da Lei de 3 de Novembro de 1830 para se acautelar não só qualquer extravio, como também para segurar a futura reparação dos danos em que possam incorrer seus donos pela sua cumplicidade na revolta em virtude de uma sentença, deverá ele Juiz fazer que se ponha em arrematação.25
Muitos habitantes de Laguna que participaram ativamente da República Juliana e que fugiram juntamente com os farroupilhas no momento de sua retirada tiveram seus bens arrecadados e leiloados em praça pública segundo as ordens do Juiz de Direito, que foram cumpridas pelo Juiz de Órfãos de Laguna. Os leilões eram realizados à revelia, uma vez que os proprietários dos bens não se encontravam na vila para reclamar direito sobre eles, e como demonstra o ofício eram conduzidos para reparar quaisquer danos que poderiam ter causado aqueles que fugiram.

Um dos habitantes de Laguna que se evadiu da vila com os rebeldes foi Silvério Pereira da Silva. No inventário de arrecadação de seus bens fica claro que foi efetuada a arrecadação por Silvério “ter se ausentado com os rebeldes”.26 A partir da descrição dos bens arrecadados na residência de Silvério pode se ter uma idéia da sua ocupação e do seu status social. Foram relacionados entre outros:


Sessenta e quatro anzóis brancos, nove foices [ilegível], três machados, um par de [corroído] de porta, três escovas de calçado, um cadeado, uma pequena panela de ferro, uma libra de Macela Galega, meia libra de Canela, vinte e duas Penas de Lápis [...]27
Pode-se notar pela variedade e quantidade de bens que, provavelmente, se tratava de um pequeno comerciante. Não são encontrados utensílios de grande valor como peças de prata que, caso Silvério as possuísse, certamente teria levado consigo em sua fuga. Não se trata de uma pessoa de muitas posses pois a grande maioria dos bens inventariados são utensílios domésticos comuns e produtos de pequeno valor. Trata-se portanto, provavelmente, de uma pessoa com p minúsculo, que demonstrou seu apoio aos farroupilhas deixando Laguna juntamente com os revolucionários.

Outro exemplo de apoio é a experiência do escravo João, relatada inicialmente. Durante a Revolução Farroupilha os escravos que se apresentavam para lutar na guerra eram considerados homens livres. Essa possibilidade de liberdade atraiu muitos escravos para as forças farroupilhas e uma vez alistados, os escravos eram enviados para a linha de frente do combate. Segundo Morivalde Calvet Fagundes,


desde cedo os revolucionários trataram de oferecer aos agenciadores plena liberdade aos cativos, sossegando os proprietários com a segurança de que seriam indenizados, mediante venda dos bens legalistas, para atender a tal empenho, o que os fazia tolerar a expropriação. Os negros eram encaminhados aos batalhões de 1.ª linha.28
Situação semelhante ocorreu durante as Guerras de Independência na Bahia. A participação de negros nos conflitos contra os portugueses foi tão intensa que constituíam uma tropa distinta, chamada de Partido Negro, que começou a preocupar os proprietários baianos pela dimensão que estava alcançando. João José Reis cita que “muitos escravos não esperaram que seus senhores os liberassem para a luta e fugiram para se unir às forças brasileiras. Mais tarde, o governo imperial os recompensaria instruindo o governo da província que recomendasse aos senhores sua alforria gratuita e, caso estes a recusassem, que os alforriasse com recursos da Junta Provincial da Fazenda”.29

Este exemplo pode iluminar o caso do escravo João. Provavelmente ele fugiu da vila após a morte de seu senhor, o vigário Francisco Villela de Araújo, para lutar ao lado dos farroupilhas em busca da sua liberdade. Dessa maneira, sem ter consciência de sua alforria retornou à Laguna meses depois e após se apresentar ao Juiz de Paz José Pinto de Magalhães, João foi avaliado e leiloado em praça pública, sendo arrematado pelo senhor Fortunato Jozé da Silva,30 retornando à sua condição de escravo, possivelmente por ignorância das autoridades e dele próprio de sua alforria. 31



Tentamos demonstrar nesta breve comunicação que ocorreram manifestações de apoio da população de Laguna aos rebeldes rio-grandenses durante a Revolução Farroupilha. Certamente estas relações de colaboração e suporte propiciaram um clima favorável em Laguna, influenciando na “invasão” farroupilha e contribuindo, de certa forma, para o processo de proclamação e instalação da República Juliana.

1* Mestrando em História. Universidade Federal de Santa Catarina

 Arquivo da Comarca de Laguna (ACL) – Laguna. Inventário e Arrecadação dos bens do vigário Francisco Villela de Araújo em maio de 1840. A grafia dos documentos primários foi atualizada.

2 ACL – Laguna. Inventário e Arrecadação dos bens do vigário Francisco Villela de Araújo em junho de 1840.

3 RIBEIRO, Gladys Sabina. “Pés-de-chumbo” e “Garrafeiros”: conflitos e tensões nas ruas do Rio de Janeiro no Primeiro Reinado (1822 – 1831). In: Revista Brasileira de História. São Paulo: ANPUH/FAPESP/Marco Zero, vol. 12, n.º 23/24, 1991/1992.

4 Idem. p. 145.

5 LUCENA, Liliane M. Fernandes de. Laguna: de ontem a hoje espaços públicos e vida urbana. Florianópolis, 1998. Dissertação (Mestrado em Geografia) Universidade Federal de Santa Catarina. p. 32.

6 Proclamada no dia 29 de julho de 1839, a República Catarinense é conhecida também como República Juliana, uma referência ao mês de sua proclamação.

7 HOLANDA, Sérgio Buarque de; CAMPOS, Pedro Moacyr. História geral da civilização brasileira: dispersão e unidade. 5 ed. São Paulo: DIFEL, 1985. p. 501-502.

8 BOITEUX, Henrique. A República Catharinense: notas para sua história. Rio de Janeiro: Xerox, 1985. p. 105.

9 LUCENA, Liliane M. Fernandes de. Op. cit. p. 31-32.

10 Arquivo Histórico Municipal – Florianópolis .Ofícios da Presidência da Província para Câmara Municipal de Desterro. Pasta n. 70. Ofício de 1º de agosto de 1834.

11 A vila de Lages foi tomada pelos farroupilhas e retomada pelas forças imperiais por quatro vezes durante a Revolução Farroupilha.

12 CABRAL, Oswaldo R. História de Santa Catarina. Rio de Janeiro: Laudes, 1970. p. 120.

13 CAGGIANI, Ivo. David Canabarro: de tenente a general. Porto Alegre: Martins Livreiro, 1992. p. 69.

14 Arquivo Público do Estado de Santa Catarina (APESC) – Florianópolis. Ofícios dos Chefes de Polícia e Juizes de Direito ao Presidente da Província. Cópia do ofício de Severo Amorim do Valle para Antônio L. Tavares em 7 de fevereiro de 1839.

15 APESC - Florianópolis. Ofícios dos Chefes de Polícia e Juizes de Direito ao Presidente da Província. Ofício de Antônio L. Tavares para Severo Amorim do Valle em 23 de fevereiro de 1839.

16 O caso de Maillard pode ser considerado como tráfico de armas, pois constituía um comércio ilegal, realizado contra a lei do governo chamado legalista, o governo imperial.

17 DUMAS, Alexandre. Memórias de Garibaldi. Porto Alegre: L&PM, 1998. p. 87.

18 CAGGIANI, Ivo. Op. cit. 68.

19 DUMAS, Alexandre. Op. cit. p. 94.

20 As Memórias de Garibaldi foram escritas por Alexandre Dumas a partir de entrevistas com o próprio Garibaldi e, baseadas em seus diários e anotações.

21 O Povo. n.º 94. p. 4. Caçapava, 20 de agosto de 1839.


22 O Povo. n.º 102. Caçapava, 18 de setembro de 1839. Suplemento Especial.

23 Idem.

24 CAGGIANI, Ivo. Op. cit. p.80.

25 APESC – Florianópolis. Ofícios dos Chefes de Polícia e Juizes de Direito ao Presidente da Província. Ofício de Severo Amorim do Valle para Francisco Soares d’ Andrea em 15 de fevereiro de 1840.

26 ACL – Laguna. Inventário e Arrecadação dos bens de Silvério Pereira da Silva em 24 de janeiro de 1840.

27 Idem.

28 FAGUNDES, Morivalde Calvet. História da Revolução Farroupilha. Caxias do Sul, UCS, 1985. p. 252.

29 REIS, João José; SILVA, Eduardo. Negociação e conflito: a resistência negra no Brasil escravista. São Paulo: Cia das Letras, 1989. p. 90.

30 ACL – Laguna. Inventário e Arrecadação dos bens do vigário Francisco Villela de Araújo em fevereiro de 1841.

31 No período em que João permaneceu fora de Laguna ocorreu uma alteração do Juiz de Paz, de Antônio José da Silva para José Pinto de Magalhães, ocasionando talvez, a ignorância do processo de alforria do escravo João.


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