A pedagogia popular de célestin freinet: descompasso entre a teoria política e a teoria pedagógica



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A PEDAGOGIA POPULAR DE CÉLESTIN FREINET: DESCOMPASSO ENTRE A TEORIA POLÍTICA E A TEORIA PEDAGÓGICA

COSTA, Michele Cristine da Cruz


Programa de Pós-graduação em Educação Escolar da FCLAr - Unesp/Araraquara

Célestin Freinet é considerado uma importante voz dentro do movimento que procurou reformar a escola durante o início do século XX, por sua tentativa de implementação de uma pedagogia popular avessa ao verbalismo da educação tradicional e apoiada nos pressupostos políticos e sociais de inspiração marxista. Comprometido com as camadas populares, Freinet contribuiu para a área da Educação com uma proposta de escola ativa que conscientiza os alunos do papel significativo que podem exercer dentro do processo de transformação social. Podemos, pois, considerá-lo um autor clássico para a Educação em geral e em específico para o campo da Historiografia Educacional.

No decorrer desse trabalho realizamos um ensaio no qual, a partir da metáfora da “curvatura da vara”, procuramos responder até que ponto a concepção educacional de Célestin Freinet se aproxima dos ideais do movimento das Escolas Novas. Para isso, explicitaremos o movimento que autor faz em relação às idéias pedagógicas, ora se aproximando do pensamento marxista, ora assumindo os ideais escolanovistas.

Ao estudarmos as concepções educacionais contidas nas obras de Celestin Freinet, objetivamos compreender em que campo do discurso ideológico encontravam-se seus escritos: se no movimento da Escola Nova ou se no campo da busca por uma proposta educacional alicerçada no materialismo histórico dialético, ou seja, no marxismo. Estaria Freinet utilizando-se do principio da “teoria da curvatura da vara”, tal como analisou Dermeval Saviani, pendendo a vara para um extremo oposto à chamada escola tradicional como o fizeram os escolanovistas, ou procurava o autor encontrar o equilíbrio entre extremadas defesas do trabalho educacional?

A teoria da curvatura da vara, fruto do pensamento leninista, é utilizada por Dermeval Saviani em sua obra “Escola e Democracia” (SAVIANI, 2003), na qual o autor advoga a necessidade de pensarmos uma proposta educacional que supere o ensino tradicional, assim como o escolanovismo, para além da pedagogia da essência e da pedagogia existência. Podemos inferir que para Freinet a vara pendia para o ensino tradicional, sendo que com o movimento escolanovista, o autor vislumbra a possibilidade de pender a vara para o outro lado, direcionando-a para o centro, ou seja, superando o ensino tradicional e também a proposta escolanovista, num projeto de construção de uma pedagogia popular.

Freinet procurou construir uma pedagogia popular de cunho marxista. Porém, ao estudarmos suas obras encontramos nas concepções de desenvolvimento infantil e na forma como definiu o papel do professor no processo de ensino-aprendizagem o encontro com os ideais defendidos pelo movimento escolanovista apresenta-se nítido

A escola moderna, proposta pelo autor, almeja que a criança adquira como valores: a criação artística, livre, crítica e poética. Essa escola dedica-se a colher bons frutos de todas as crianças, os quais são consolidados pelo espírito criativo, cooperativo e afetuoso decorrente de uma relação de ensino-aprendizagem baseada em alicerces de camaradagens entre alunos e professores, alunos-alunos, professores-professores e aluno-professor-cumunidade, para isto a escola se preocupa em preparar um ambiente agradável e fértil no seio escolar: “Tais flores da sensibilidade infantil e da solicitude dos mestres apenas desabrocham em climas de confiança e liberdade, onde a simpatia e disponibilidade venham ao encontro das iniciativas mais secretas” (FREINET, 1977b, p.14).

Essa concepção é muito diferente da escola tradicional, que se preocupa apenas com o rendimento escolar e em disciplinar as crianças, atropelando com isto, cada passo do processo de desenvolvimento infantil (FREINET, 1977b, p.14).

Freinet (1977b, p.14) afirma que “a criança perde muito tempo a discernir as hierarquias necessárias à formação de sua personalidade”, por isso, ele aconselha aos professores a não perder tempo em tentar disciplinar os alunos e a impor a estes normas inúteis e punitivas. O professor tem que desempenhar um papel “catalisador”, se preocupar em ser um ajudante da criança na medida em que cabe a ele ajudar seus alunos a vencerem os obstáculos e fazer com que a criança conserve o entusiasmo e a iniciativa.

Desta forma, o autor nega o ensino tradicional, por imperativo de seu tempo, aderindo ao ideário escolanovista e, por este viés, realizando a critica ao seu extremo. Contudo, durante este movimento contraditório presente na obra de Freinet, ao mesmo tempo em que abraçava os ideais da Escola Nova, ele apresentava-se preocupado e procurando não perder de vista a necessidade de uma síntese superior aos dois movimentos.

Ao escrever a respeito da Escola Nova, Freinet foi implacável e mordaz em suas criticas, entretanto, ao tentar diferenciar-se deste movimento, esta mesma veia contundente apresentou-se ausente uma vez que sua crítica ao movimento escolanovista se resumiu ao seu caráter elitista. Ou seja, percebemos que a crítica de Freinet ao escolanovismo é apenas formal, pois há uma concordância com a essência das concepções defendidas por este movimento.

A crença de Freinet na renovação da sociedade passava necessariamente pela urgência em se formar novos homens. A educação, nesse sentido, era entendida como o grande instrumento que poderia influenciar diretamente os rumos da nova sociedade que estava por se construir. Porém, a escola pública francesa daquele período, Segundo Freinet (1995), estava organizada em termos contrários a qualquer possibilidade de mudança da ordem social vigente. Freinet vê, então, na contraposição ao modelo tradicional de ensino, um bom caminho para a construção da escola verdadeiramente transformadora. Tal visão revigora a força do autor em colocar seu projeto de implementação de uma “escola do povo” em execução, com a proposta política de lutar ao lado de uma mudança radical da estrutura social francesa. Neste sentido, o autor busca implementar uma Educação Popular, no intuito de fazer dela um lócus de modificação da estrutura econômica.

O autor busca desmistificar a concepção da escola como espaço de universalização do conhecimento, mostrando que a escola é reprodutora, e ao mesmo tempo, espaço de contradições onde se manifestam lutas de classes. E nessa configuração em que se encontrava a escola, o autor tentou inserir uma nova proposta através da implementação de sua Pedagogia Popular.

Foi pensando nos filhos da classe trabalhadora que Freinet se agarrou com todas as forças aos ideais socialistas e buscou neles elementos para implementar uma educação popular no seio da escola pública. Porém o autor deixa claro que tem consciência das dificuldades que perpassam a sua proposta, dos limites que todas suas tentativas encontrarão diante de uma renovação educacional em um sistema capitalista. Na introdução de seu livro “Para uma Escola do Povo”, o autor explicita tal consciência ao retratar um breve histórico da educação:


Nova etapa no século XIX. A introdução do povo torna-se uma necessidade econômica. O capitalismo triunfante instituiu, portanto, a escola pública, a qual foi pelo menos por um tempo, adaptada aos objetivos específicos que tinham motivado seu surgimento. Não se tratava, no fundo – qualquer que fossem as teorias e os discursos acadêmicos idealistas – de elevar o povo, senão de prepará-lo para preencher com mais eficiências e racionalidade as tarefas novas que o maniqueísmo lhe ia impondo. Ler, escrever, contar tornam-se as técnicas de base sem as quais o proletário não era nada a não ser um operário medíocre. Da mesma forma, rudimentos de literatura, de geografia, de história, de ciências e moral deveriam aperfeiçoar a adaptação do indivíduo aos estreitos limites do seu povo no quadro econômico.
Esta adaptação foi mais ou menos perfeita durante o período 1890-1914. O próprio povo estava aparentemente satisfeito e até bastante orgulhoso de uma escola que fazia seus filhos “doutores’. Os filósofos exaltavam as virtudes da razão e da ciência, estes novos deuses; a Pátria parecia solidamente cimentada e os comerciantes de toda espécie realizavam, com toda segurança, excelentes negócios. Todavia, o encanto rompeu-se, e a fraude macabra de 1914-1918 contribuiu amplamente para isto. Pouco a pouco, os mais esclarecidos e os menores elementos do povo tomaram consciência do destino de sua classe e das mentiras interesseiras propagadas pela educação que tinham recebido (FREINET, 1980, p.13-14).
Para o autor, a escola não escapa aos determinismos sociais. A clareza do papel reprodutor da escola dos interesses das classes dominantes foi confirmada a partir do momento que ele teve contato com o marxismo, e este começou a influenciar e direcionar o seu pensamento, a sua vida e seus ideais educacionais.

Por outro lado, Freinet considera que a instrução tem um poder libertador. É necessário apontar que a escola mesmo universalizada é uma escola que serve à burguesia, e mostrar que ela não é motor do progresso. Apontando as contradições presentes no seio escolar, estaria dando o primeiro passo para fazer da escola um espaço de formação, de libertação e não de contradição: pontando as contradiçesa tem consciencia da dificuldade de sua ma screveremos as t "“Denunciemos a ilusão dos tímidos que esperam fazer florescer, em meio aos caos social uma pedagogia e uma escola suscetível de servir de modelo para as realizações sociais futuras” (FREINET, 1980, p.15).

Porém, Freinet afirma que não é pelo fato de a escola ser reprodutora que devemos aceitar esta lógica e não reagirmos a ela, pois ao mesmo tempo em que ela é reprodutora, ela é espaço de contradições, e devemos manifestar neste espaço as lutas de classes: “Lutamos para fazer surgir, do próprio seio da escola pública, a Escola do Povo, cujos alicerces técnicos elaboramos minuciosamente” (FREINET, 1980, p. 23). Aqui Freinet deixa claro sua vontade de fazer surgir no seio de uma escola classista liberal uma escola para o proletário, uma escola que destrua a lógica classista.

O autor, após ter contato com alguns autores que faziam parte do movimento escolanosvista explicita a sua afinidade com os métodos de ensino utilizados pelos partidários do movimento, porém Freinet (1930, 1976, 1977, 1980, 1996) se opõe aos escolanovistas, pois segundo o autor, os adeptos deste movimento acreditam na existência de uma escola ideal afastada dos conflitos sociais:


Há uma neutralidade relativa: a dos pedagogos que escondem suas escolas novas nos bosques das montanhas, longe das aldeias, sobretudo, das cidades. Aliás, eles tentam fazer dos alunos ‘homens puros e fortes’, que constituirão, futuramente, o fermento da vida e moralidade a ser introduzido num mundo efervescente (...). Prefiro, de longe outra educação: aquela, mais difícil, porém mais fecunda, de uma escola inteiramente mesclada à vida e ao mundo do trabalho (FREINET, 1930, p.414-415).
Para Freinet, ao omitir as condições sociais concretas, a educação nova burguesa cai na armadilha do idealismo:
Percebemos a ilusão intelectualista que confere ao educador um imenso poder de libertação. Advertirmos para o perigo que representa, para ele, exaurir-se na tentativa de realizar a sonhada escola nova, pois ela é incompatível com a verdadeira condição de proletário e contribui para manter entre educadores a miragem reformista que vê na escola o instrumento todo poderoso de uma evolução social pacifica. (FREINET, 1931, p.38).
Em contraposição a uma proposta idealista, reprodutora, e que despreze a vida, Freinet busca, através da suas técnicas pedagógicas, a libertação dos filhos dos proletários: “Trataremos de ensinar, não o que está previsto pela burguesia, incluído nos métodos, consignados nos manuais, mas o que sendo fruto do desejo das crianças pode contribuir para sua elevação no quadro concreto de sua própria classe e da sua própria vida” (FREINET, 1930, p.409-413).

Freinet (1930) considera que, colocando à disposição da criança o máximo de elementos, possibilidades e lhe dando o máximo de liberdade, ela alcançaria um desenvolvimento social e individual não opressor. Nessa lógica, o autor traça os pressupostos da Escola Nova Popular.

Conseqüente esta atitude dúbia para com o movimento da Escola Nova acabou por levar o autor a ressignificá-lo, ao adaptá-lo às condições da aldeia, ou seja, a construção de uma pedagogia popular com alma escolanovista e não marxista. Para Freinet criara-se, assim, um método revolucionário condizente a uma “Escola Nova Popular”. Ao acreditar ter encontrado a solução que o elevasse para além dos conflitos, Freinet acabou por pender a vara para o extremo da Escola Nova. Assim, ao fazer o uso da curvatura da vara, ou seja, na tentativa de implementar uma proposta de educação marxista que buscasse a emancipação do proletariado, não consegue direcionar a vara para o centro. De fato, não consegue ir além dos movimentos criticados, mantendo a vara pendida para a Escola Nova, pois, ao criticar ambos movimentos, percebemos que Freinet utiliza as críticas como instauradoras das verdades, quando sua real contribuição seria o questionamento das verdades instaladas buscando superá-las.

Com o intuito de apresentarmos de forma mais detalhada o porquê de nossas afirmações anteriores, retomaremos sucintamente a tentativa de Cèlestin Freinet em romper com o ensino tradicional e com a Escola Nova. Finalmente, tentaremos mostrar porque o autor não conseguiu curvar a vara para o centro, ou seja, não conseguiu se aproximar de uma proposta de educação popular de vertente marxista.

Durante as leituras das produções bibliográficas de Célestin Freinet, vimos que ao elaborar sua proposta pedagógica, o autor centraliza suas preocupações com o ensino das camadas populares, ou seja, sua proposta tem como público alvo os sujeitos pertencentes ao proletariado. Assim, Célestin Freinet procura implementar sua pedagogia popular em instituições escolares públicas, no seio de uma sociedade organizada sob a égide do capital, buscando contraditoriamente superar os ditames dessa mesma sociedade pautada na exploração do homem pelo homem e na propriedade privada dos meios de produção.

Oliveira (1995), pontua que toda proposta do autor acompanha a preocupação com relação à escola e o meio social numa época em que a França estava politicamente dividida entre a direita (monarquistas e liberais), centro (republicanos), e a esquerda (socialistas e comunistas). Enquanto militante da esquerda socialista, Célestin Freinet buscava elaborar técnicas pedagógicas que pudessem libertar as crianças dos dogmatismos impostos pela sociedade capitalista, assim como envolver a criança ao máximo no processo de aprendizagem, respeitando seus direitos de crescer em liberdade, independente de suas diferenças (psíquicas, físicas e econômicas).

Assumindo a carreira de professor primário, sua primeira atitude foi vincular a escola à vida das crianças desprovidas dos benefícios da sociedade capitalista, mostrando-as desde pequenas os condicionantes que causam as desigualdades sociais. Para o autor, colocar as crianças em contato com as realidades que perpassam seu cotidiano é o primeiro passo que deve ser dado por um professor comprometido com a superação do capitalismo, pois, evidenciando a realidades eles contribuirão com a formação de sujeitos críticos, ativos, comprometidos com a luta pela superação desta sociedade de privilegiados.

Para tanto, Célestin Freinet diz que é necessário construir uma escola em que as crianças queiram permanecer, na qual elas possam se envolver por completo e aderir ao compromisso de lutar por uma transformação social. Refletindo em busca de elaborar elementos que atendam tal proposta, o autor procura negar as características da escola tradicional, chegando a conclusão de que ela se pauta na submissão do aluno em relação ao professor, na passividade do aluno e na ausência de pensamento crítico, pois o método utilizado durante o ato da aprendizagem “desvia” e “aniquila” a vontade da criança de aprender, pelo fato da aprendizagem ser resultado de um regime escolar “retrógrado” que não une suas técnicas pedagógicas à realidade cotidiana da vida do aluno, criando assim, uma dicotomia entre a realidade do aluno e a escola.

A escola pública apoiada numa concepção pedagógica técnica, intelectual e moral, considerada ultrapassada pelo autor, não atende às aspirações dos proletariados, assim como os impossibilita de adquirir consciência de seu papel histórico e humano:
Essa escola já não prepara para a vida, não está voltada nem para o futuro, nem mesmo para o presente, ela insiste em um passado caduco, como aquelas velhinhas que, por terem alcançado um sucesso merecido durante sua plena juventude, não querem mudar em nada seu gênero de vida nem a modas que tão certo dera, e amaldiçoam a evolução, a seu redor, de um mundo condenado (FREINET, 1995, p.3).
Sob uma escola na qual ele mesmo diz comprovar sua ineficácia, Freinet (1995) defende a necessidade de superá-la. E convida os professores para repensarem suas práticas pedagógicas e aderirem à proposta de implementação de uma pedagogia popular comprometida com a luta para a construção de uma nova sociedade:
Os educadores devem, sem mais tardar, tornar conscientes dessa desadaptação, realizar o esforço de rejuvenescimento que se impõe, rejeitar os chapelões e as saias pregueadas de uma época que ficou para trás, pôr-se ousadamente à escuta da nova vida, a seu espírito, a suas técnicas, a suas obrigações; parar de desdenhar o futuro em nome de uma rotina que nada mais é o freio perigoso á vida ascendente; atualizar-se. (FREINET, 1966, p.4).

Deste modo, propõe aos professores a rejeição dos chapelões e das saias pregueadas, o fim a quaisquer resquícios da escola tradicional, pois essa não pode contribuir em nada com os ideais de uma escola popular, que necessita de total adesão e comprometimento dos alunos em relação ao trabalho que pretende realizar.

Surge então, a necessidade de se transformar a escola em um ambiente alegre, colorido e barulhento. Em um ambiente que desperte a atenção da criança e lhe suscite a sede pela aprendizagem. Com isto, as condições exteriores pautadas num ambiente alegre e sedutor, assim como a preocupação em satisfazer as necessidades dos alunos, tornam-se a base da proposta pedagógica de Célestin Freinet.

Na escola tradicional, centrada na matéria a ser ensinada e nos programas que definiam essa matéria, cabia aos professores, funcionários e alunos se submeterem a essas exigências, segundo Freinet e sua crítica efetuada à escola tradicional. Em contrapartida, o autor atenta para a necessidade de centrar o processo de ensino-aprendizagem na criança, nas suas necessidades vitais, no seu anseio interno e em função das necessidades da sociedade a que pertencem. É com base nesses pressupostos que decorrerão as técnicas, manuais e intelectuais propostas pelo autor. O verdadeiro objetivo educacional, segundo Freinet (1966), será fazer com que a criança desenvolva ao máximo a sua personalidade no seio de uma comunidade racional a que ela serve e que lhe sirva.

Como vemos, Freinet nega radicalmente a escola tradicional. Essa escola apática, desinteressante e ultrapassada deveria ser substituída por uma proposta de escola viva, feliz, experimental, cooperativa e que permita a livre expressão dos alunos. Estaria aí a prova inconteste da filiação teórica de Célestin Freinet ao ideário do movimento da Escola Nova? Afinal, as críticas por ele apresentadas são semelhantes àquelas feitas pelos autores escolanovistas.

Freinet entrou em contato com propostas pedagógicas de outros autores quando decidiu concorrer a uma vaga de inspetor primário. Assim, se deparou com as obras de Comenius, Montaigne, Rabelais, Rousseau, Pestalozzi, Spencer, entre outros autores representantes dos ideais escolanovistas. Durante todo contato com os referidos pensadores, Élise (1978) relata que Freinet refletia sobre àquelas teorias propostas e relacionava-as a sua prática pedagógica, e estas reflexões levaram-no a atentar-se para a origem do homem, a recuperar o homem natural e a estreitar a relação entre esse e o seu meio. Esses elementos proporcionaram a passagem da forma escolar considerada pelo autor como “caduca” à elaboração de sua pedagogia popular (FREINET, 1966, p.71).

Segundo o autor, as escolas tradicionais consideram que o conhecimento abstrato, a cultura, a inteligência, o culto às idéias e às palavras possam vir a ser o fim verdadeiro e definitivo de toda a educação. Divergindo dessa concepção, Freinet propõe a reorganização do ensino: “transformar tecnicamente a escola da saliva e da explicação em inteligente e flexível canteiro de obras, eis a tarefa urgente dos educadores” (FREINET, 1973, p.110).

Com isso, o autor afirma que a função dos professores é agir, verificar, experimentar, comparar, e sempre buscar uma prática que venha ao encontro do pleno desenvolvimento da criança, buscando satisfazer seus anseios.

Assim, o autor nos convida a eliminarmos as cátedras e arregaçar as mangas, pois:
[...] dar aulas do alto da cátedra, marcar deveres, corrigir, vigiar - sem respirar sequer – classificar e recompensar com uma boa nota ou com um ‘santinho’, essa é a função que se tem reservado desde sempre a professor primário e cuja tradição nos tem marcado com uma tara desumana, perigosamente inscrita nos reflexos quase naturais de quem pretende ensinar as crianças. (FREINET, 1973, p.113)
Esse tipo de prática corresponde para o autor uma imagem ultrapassada, de uma sociedade, autocrática, a qual o mestre ordena e o indivíduo obedece. Por isso, a necessidade urgente de os professores repensarem sua proposta:
Elimine a cátedra. ... Arregace as mangas para trabalhar com as crianças. Deixe de dar ordens e castigar, atire-se ao trabalho com os alunos. Não tenha medo de sujar as mãos, de se machucar com as marteladas, de hesitar nos casos em que a criança mais viva domina a situação de tatear, de se enganar, de recomeçar. (FREINET, 1973, p. 114).
O ensino é repensado, durante toda carreira o autor. Durante a sua reflexão, repensava sobre o ensino que recebeu no passado, sobre as propostas já consolidadas da pedagogia tradicional, na tentativa de construir técnicas que pudessem ser de fato significativa para as crianças. Na medida em que Freinet progredia em sua proposta, ele se encorajava para “arrebanhar” mais adeptos, convidando o professor para que: “Tire o chapéu para o passado, Tire o casaco para o futuro!” (1973, p. 117), pois não devemos pensar que nas escolas temos que imitar os mais velhos, empregando os seus métodos, mesmo que tenham sido bem conceituados em suas épocas, usando os manuais com que eles se declaravam satisfeitos e orgulhosos.

Superando o hábito de ditar as ordens, de assumir postura de sargento, de impor medo nas crianças, de inibir a livre expressão, Freinet age de forma inversa, incentivando e propiciando meios para as crianças se expressarem livremente. Assim, o autor constrói uma proposta ativa, envolvente, no intuito de levar as crianças até as “profundezas” do conhecimento, permitindo que elas saboreiem o gosto da experimentação, que possam tatear, inquirir e comparar, folhear livros e fichar, mergulhar-se em suas curiosidades na busca de suprimirem seus anseios pelo conhecimento. Percebemos, assim, que Freinet assume os principais pontos do ideário escolanovista: a livre expressão do aluno, que deve ocupar o centro do processo de aprendizagem, pautada na experimentação do cotidiano que o rodeia. Mas será que Freinet adere cegamente ao escolanovismo ou também realiza críticas a esse ideário?

Em 1923, Freinet tem oportunidade de entrar em contato com os representantes do movimento escolanovista ao participar do “Congresso da Liga Internacional da Escola Nova”, realizado na Suíça. Neste congresso, o autor aprofundou seus conhecimentos sobre as propostas educacionais da Escola Nova.

Élise (1978) afirma que o autor compartilhava com a proposta dos autores que objetivavam pela construção de uma escola ativa, entre eles, Ferrière teve uma influência decisiva no pensamento do autor. Porém, segundo o autor, mesmo centrado na construção de uma escola ativa, Ferrière deixava a desejar em relação à experimentação, à livre expressão durante o processo de ensino- aprendizagem.

Conforme aumentava o contato de Freinet com a proposta da escola Nova todo pensamento do autor voltava-se para suas crianças pobres da aldeia de Bar-sur-loup, confirmando-lhe a total dependência e submissão entre educação e sociedade. Para o autor, da mesma forma que a sociedade necessita se libertar dos ditames da sociedade capitalista, a escola necessita libertar-se de todo e qualquer tipo de doutrinamento e de privilégios.

Embora entenda que o ideário escolanovista apresente aspectos positivos, Freinet afirma que esse ideário se afasta dos problemas da vida cotidiana das crianças pobres, compondo uma teoria idealizada, tendo em vista uma classe social específica que não é a dos proletariados. A eficácia da proposta da Escola Nova vincula-se às condições econômicas favoráveis para o seu desenvolvimento. Pode ser considerada uma educação ideal em escolas que apresentam condições econômicas ideais para sua implementação, ou seja, é uma educação que exige recursos financeiros para colocar em prática sua proposta, sendo então, imprópria para ser implementada no seio das escolas públicas que atendem o proletariado:


Freinet percebe então que há uma educação nova relativamente fácil de ser implementada nas escolas que possuem material educativo e instalação escolares capazes de possibilitar as atividades a atividade da criança e individualização do ensino. Mas, na escola de Bar-sur-loup, a realidade é bem diferente. A lembrança de sua salinha de aula, nua e poeirenta, vem lhe a memória apertar-lhe o coração ... ele toma ainda mais consciência da dependência estreita que une a escola e o meio, do quanto a sociedade condiciona a escola e o ensino. Não há pedagogia sem que sejam preenchidas as condições econômicas favoráveis que permitem a experiência e a pesquisa. Não há educação ideal, há educação de classes. (FREINET, Élise, apud OLIVEIRA, 1981, p.26).

Para Freinet (1975), a grande contribuição e amparo que ele pode encontrar no movimento escolanovista é a crítica em relação à escola tradicional, pois, o autor relata que para além da crítica o movimento serve-lhe apenas de inspiração para elaborar técnicas que tenham como objetivo atender os anseios das crianças. Porém, o autor faz questão de explicitar que ele e os escolanovistas têm uma concepção diferente de ver as crianças, uma vez que considera que as crianças devem ser vistas da mesma forma como nós vemos os homens, ela não é para o autor um ser abstrato.

Segundo Élise (1978), para Freinet, a criança abstrata do ideário burguês não existe, sua concepção de criança, segundo a autora, são aquelas crianças da aldeia, são aquelas crianças excluídas de se beneficiarem dos mesmos privilégios concedidos aos filhos da burguesia.

Élise (1977; 1978) e Oliveira (1995) relatam que Freinet, além de taxar a Escola Nova de classista, considerava-a idealista, a serviço dos ideais da burguesia. Diferente da sua proposta em colocar as crianças desde pequenas em contato com a realidade social, os escolanovistas pretendiam afastar, “preservar” as crianças dos conflitos sociais.

Freinet, em 1925, tem a oportunidade de entrar em contato com o “Sindicato Pan-Russo dos Trabalhadores de Ensino”, e foi por meio deste contato que o autor pôde ir até a Rússia e conhecer a proposta de ensino do país. Diferente da sensação de quando entrou em contato com os pensadores representantes do movimento escolanovista, o autor viu que a proposta de ensino desenvolvida naquele país apresentava de fato semelhanças com a realidade das suas crianças da aldeia. Mais tarde, o autor critica também a referida proposta ao considerá-la dogmática e inflexível.

O autor reconhece a influência do movimento da Escola Nova no país, mas também reconhece que esta influência apresenta-se subordinada ao referencial marxista. O país centrava suas forças na construção de um “homem novo”, liberto das amaras do sistema capitalista. Apesar da França não passar como a Rússia pela experiência de tentativa de superação do sistema capitalista, Freinet acreditava no poder da educação ao aliar-se aos demais movimentos revolucionários. O autor compreende as limitações do ensino em uma sociedade capitalista, mas também reconhece o perigo que o ensino apresenta ao sistema quando se aproxima dos movimentos de esquerda. Nesse sentido, a opção do autor foi construir uma proposta pedagógica comprometida com a superação das desigualdades sociais, da sociedade dividida em dominantes e dominados, de privilegiados e explorados, direcionando sua ação pedagógica com a tentativa de formar sujeitos críticos, ativos e comprometidos com os ideais socialistas.

Como já apontamos em outros momentos do presente trabalho, o autor não se preocupa apriore com a transmissão de conhecimentos, e sim com a aprendizagem significativa para as crianças, uma aprendizagem que permita o “desabrochar” de suas potencialidades, principalmente o seu senso crítico e a liberdade. Freinet (1977a), ao descrever a importância da pedagogia experimental, afirma que a sua proposta não se preocupa com a quantidade de conhecimentos a ser transmitida aos seus alunos, mas sim com o processo de aprendizagem e com a utilidade, com o significado destes conhecimentos. Para o autor, a experimentação é a chave para todas as aquisições a serem adquiridas pelos alunos, ela que levará o aluno à tentativa experimental e à construção do saber: “[...] nenhuma, absolutamente nenhuma das grandes aquisições vitais se faz por processos aparentemente científicos.” (FREINET, 1977a, p.14).

Para Freinet (1975), é a livre expressão que manterá acesa a chama do interesse pelo conhecimento, pois ela dá total liberdade para os alunos se expressarem, ela faz eclodir um clima privilegiado de liberdade, interesse, cumplicidade e confiança entre professores e alunos, estabelecendo deste modo uma ação cooperativa e agradável entre ambos. Além da livre expressão, o trabalho pedagógico deve ser dinâmico e deve, sobretudo, respeitar os conhecimentos que as crianças já dominam. Os professores para irem além destes conhecimentos necessitam descobrir as tendências naturais das crianças para estimular por meio delas as descobertas de novos conhecimentos. É necessário, assim, que os professores saibam como intervir no processo de aprendizagem dos alunos, para isto eles devem ser observadores, investigadores, de modo que possam descobrir as tendências naturais das crianças.

Toda esta exposição sobre a concepção de Célestin Freinet em relação à pedagogia tradicional, a pedagogia nova e os condicionantes que o levaram a construção de sua proposta de Educação Popular, leva-nos a inferir que na busca de elaborar uma proposta que tem como objetivo levar a criança ao seu desenvolvimento máximo, de modo que, elas tornem homens críticos, ativos, sujeitos históricos, comprometidos com os interesses de sua classe ─ proletariados ─ e com o futuro da sociedade, ou seja, com a superação do sistema capitalista, o autor propõe, contraditoriamente, a utilização dos procedimentos escolanovistas, portanto liberais (livre expressão, aprendizagem significativa, centralidade do conhecimento advindo do cotidiano, professor como mero observador-investigador), para se alcançar objetivos de superação da sociedade capitalista proclamados pelo marxismo. Nesse sentido, Freinet se afasta de uma proposta pedagógica que tenha como objetivo a transmissão dos conhecimentos produzidos histórica e coletivamente pelos seres humanos.

Percebemos, então, o descompasso entre o pensamento político e o pensamento pedagógico de Célestin Freinet, ou seja, sua teoria política (concepção de homem e sociedade) diverge de sua teoria pedagógica (concepção de desenvolvimento e ensino-aprendizagem). Desse modo, a proposta do autor não consegue superar o ensino tradicional, pois nega o seu conteúdo democrático, critica o escolanovismo como elitista, mas adere a seu ideário liberal. Por fim, propõe uma pedagogia popular que politicamente pretende-se marxista, mas adota os mesmos princípios metodológicos do movimento escolanovista.

Ao percebermos esse descompasso entre a teoria política e a teoria pedagógica propostas pelo autor detectamos, a partir da metáfora da teoria da curvatura da vara, que ele não consegue direcionar a vara para o centro. Com isto, queremos pontuar que ao realizar críticas à escola tradicional e ao movimento da Escola Nova, na tentativa de implementar uma proposta de educação marxista que busque a emancipação do proletariado, Freinet não consegue direcionar a vara para o centro uma vez que não consegue ir além dos movimentos criticados, mantendo a vara pendida para a Escola Nova, mesmo que procure popularizar esse método por meio da criação de um espécie de “Escola Nova Popular”. Mas por que não podemos atribuir a Freinet na sua tentativa de construção de uma Pedagogia Popular o caráter marxista? Cabe ainda destacar que a Pedagogia de Freinet, em consonância com a Escola Nova, acabam por produzir concepções negativas sobre o ato de ensinar. E a transmissão de cultura, o ensino são fundamentais quando pensamos a formação humana a partir do materialismo histórico dialético, do marxismo.

Podemos apontar a proposta de Célestin Freinet como uma concepção negativa sobre o ato de ensinar, pois apresenta uma secundarização do papel do professor e da transmissão de conhecimento, da cultura acumulada pela humanidade, no processo de ensino-aprendizagem.

Duarte (2003) afirma que as concepções negativas sobre o ato de ensinar não permitem que o indivíduo rompa com a sociedade da ilusão, da alienação, não podendo chegar de uma maneira consciente à sociedade do conhecimento1. Ou seja, ao negar o processo educativo, a apropriação e a objetivação dos conhecimentos produzidos histórico e coletivamente, a educação continuará mantendo-se a serviço do capital, do processo de exploração e dominação.

Freinet (1976a, b e c) elabora sua obra na tentativa de auxiliar os professores a entenderem o processo de desenvolvimento da criança, para que o processo educativo permita o desenvolvimento integral da criança (desenvolvimento físico, psíquico, afetivo, moral e intelectual). Porém, o autor não concebe que para o processo educativo possa contribuir para o desenvolvimento integral da criança é essencial que o professor transmita aos alunos os conhecimentos que já foram produzidos pela humanidade; Freinet prioriza que o desenvolvimento psíquico do aluno aconteça de forma natural e espontânea numa ampla gama de situações e circunstâncias que partam do seu cotidiano.

Percebemos, então, que o discurso pedagógico defendido por Freinet apresenta-se na contramão da importância do ato de ensinar, ao defender que o conhecimento tenha como base o cotidiano ao invés do não-cotidiano, ao valorizar o pragmático e o utilitário ao invés do teórico e sistematizado, o lúdico ao invés do ensino intelectual.

Quando a escola enfatiza uma prática educacional centrada no cotidiano da criança, consciente ou inconscientemente, a escola está proporcionando aos indivíduos uma formação adaptada à realidade social contemporânea. Com isso, o autor não consegue ir além de uma proposta reprodutora dos ideais liberal-burgueses.

Rosseler (2004) afirma que com essa adaptação a escola estará cometendo um duplo equívoco:
o equívoco histórico de pressupor que a sociedade capitalista contemporânea é uma formação social natural, independente dos homens, e por isso absoluta, eterna; e o equívoco moral, de defender uma forma que aliena os indivíduos da sua condição de seres humanos. (ROSSLER, 2004, p.81).

Uma proposta que se apóie em teorias políticas de vertente marxista preocupa-se em romper com a lógica da negação da transmissão de conhecimento, pois, considera essa negação como uma prática aliada às propostas educacionais liberais burguesas ─ na sociedade capitalista e nas relações que constituem essa sociedade, a atividade vital é transformada em mercadoria, deixando de se apresentar aos indivíduos enquanto atividade na qual ele se constituirá enquanto gênero humano para-si (DUARTE, 1993).

O objetivo de superação de uma educação alienadora pressupõe a transmissão de conhecimentos, num processo de atualização histórico-cultural dos seres humanos. Assim, podemos conceber que o processo educativo está aliado à luta por uma reestruturação radical da sociedade quando permitirmos que os indivíduos se apropriem do conjunto de conhecimentos produzidos ao longo da história, garantindo o progresso do desenvolvimento humano na produção de sua própria existência.

O comprometimento de Freinet com a formação da criança enquanto ser social e histórico se contradiz ao assumir um ideário que limita o processo humanizador do indivíduo, aderindo a uma proposta pedagógica pautada na fetichização2 da criança, assim como seu cotidiano, em detrimento da socialização de um saber historicamente sistematizado.

Consideramos a desvalorização da transmissão como um equívoco do ponto de vista social e histórico, pois a realidade social humana depende da continuidade da transmissão da cultura. Compartilhamos da idéia de que o princípio da desvalorização do conhecimento contradiz a realidade social, histórica e antropológica do ser humano.

Temos consciência de que sem a superação de uma sociedade de classe, o sistema educacional continuará reproduzindo a lógica do capital, que por um lado aponta para a possibilidade de uma educação verdadeiramente rica, mas que de fato faz com que a escola se distancie cada vez mais da possibilidade de alcançar a formação plena dos seres humanos. No entanto, consideramos de fundamental importância, a elaboração de uma proposta pedagógica que se posicione na contramão da manutenção do sistema capitalista, comprometida em resgatar a finalidade da educação escolar, que entendemos ser a transmissão de conhecimento, num processo de atualização histórico-cultural dos seres humanos.

Para Saviani:
O desenvolvimento da educação e, especificamente, da educação pública, entra em contradição com as exigências inerentes à sociedade de classe de tipo capitalista. Esta, ao mesmo tempo em que exige a universalização da forma escolar de educação, não pode realizar plenamente, porque isto implicaria sua própria superação. (SAVIANI, 2005, p. 256)
Esse pode ser considerado o dilema histórico pelo qual passa a burguesia em relação à educação: por um lado, devido ao desenvolvimento dos processos de trabalho, há a necessidade de se garantir um mínimo de educação aos trabalhadores para que eles continuem reproduzindo o capital; e por outro, o perigo que a socialização dos conhecimentos pode representar à manutenção da própria estrutura do capital.

Não é nenhuma novidade ressaltarmos que o papel da educação reservado à classe trabalhadora é fazê-la se enquadrar aos ditames dominantes da sociedade capitalista. Muitos destes discursos apresentam-se mascarados por meio do discurso do respeito à individualidade, propondo uma educação que tenha o aluno como figura central no processo de ensino-aprendizagem, que defenda a autonomia do aluno, ajudando o homem a realizar-se. Tudo isto é proposto e pensado de modo que se mantenham os objetivos da ordem intactos. Freinet percebe este movimento, entretanto, contraditoriamente, fundamenta sua proposição educacional afastada de concepções que visam à reprodução da riqueza humana, do saber sistematizado, da cultura erudita, da cultura letrada.

Freinet se propôs a pensar uma educação que se constituísse crítica, revolucionária superando assim a Escola Nova e a tradicional, porém não consegue ir além do realizado pela própria Escola Nova. Se sua proposta de pedagogia popular apontava concepção política nas bases do marxismo, sua concepção educacional prendeu-se ao escolanovismo ao colocar a criança no centro do processo de aprendizagem, ao pautar-se na livre expressão da mesma, ao tomar o seu desenvolvimento apenas como um dado natural e biológico, ao reduzir o professor a mero observador e, por conseguinte, negar a transmissão dos conhecimentos histórica e coletivamente produzidos pelo conjunto da humanidade como papel central da educação.

Voltando nosso olhar para o contexto histórico-político no qual Célestin Freinet produziu sua proposta, encontramos um período de desenvolvimento tecnológico e científico, contraditoriamente aliado ao aumento da exploração e miséria das camadas populares. Os reflexos desse contexto atingiram o cenário educacional da época, propiciando o surgimento de concepções que procuravam entender a criança, compreendendo-a em seu desenvolvimento psíquico e social, e atribuindo à educação a esperança de formar homens livres, comprometidos com a construção de um futuro melhor, como forma de prevenção da guerra, do totalitarismo, das crises e demais desastres ocorridos no período.

Como homem do seu tempo, Freinet transpõe essas questões para sua proposta, apoiando-se nos ideais socialistas e, por meio deles, buscando formar uma geração comprometida com a construção de uma nova sociedade, comprometida com a superação do capitalismo. Na construção de sua pedagogia popular, sente-se obrigado a negar radicalmente a concepção educacional que considerava estar impregnada da visão de mundo da classe dominante, o que o leva a negar o ensino tradicional em negação à própria burguesia. Porém, a negação ao ensino tradicional se faz por meio da adesão aos ideais escolanovistas, nos quais o autor não consegue enxergar as influências da teoria política liberal que sustentava a própria burguesia enquanto classe dominante. Suas críticas aos ideais da Escola Nova se resumem ao fato da materialização dessa teoria somente se concretizar em privilégio das elites. Dessa forma, o autor propõe a utilização dos princípios escolanovistas no trabalho educativo junto às camadas populares, numa espécie de “Escola Nova Popular”.

Por fim, gostaríamos de ressaltar que reconhecemos os limites desse estudo. Porém, procuramos com o estudo das obras de Celestin Freinet polemizar suas posições. Reconhecemos a importância deste pensador que deve ser mais e melhor estudado, pois, em hipótese alguma deixamos de considerar válidas as técnicas por ele desenvolvidas, muitas cristalizadas no fazer pedagógico. Compreendemos que a contradição presente na obra do autor é um reflexo do período em que ele produziu, quando a Escola Nova, enquanto movimento político e educacional teve uma força muito grande. Seu discurso da renovação era legítimo, pois questionava uma escola que necessitava ser reformada, entretanto, ao pender a vara para o outro lado caiu em um extremo em defesa dos ideais da Escola Nova e dos ideais da escola tradicional, ainda não superados. Freinet procurou caminhar nesta direção ao propor a construção de uma pedagogia popular, contudo, sua teoria não teve a força necessária para recolocar a vara no centro, sem pender para extremos.


REFERÊNCIAS:

DUARTE, Newton. A individualidade Para-si: Contribuição a uma Teoria Histórico-Social da Formação do Indivíduo. Campinas: Autores Associados, 1993.

DUARTE, Newton. Educação Escolar, Teoria do Cotidiano e a Escola de Vogotski. Campinas: Autores Associados, 2001.

DUARTE, Newton. Sobre o Construtivismo. Campinas, SP: Autores Associados, 2000 (Coleção Polêmicas do Nosso Tempo).

DUARTE, Newton. Sociedade do conhecimento ou sociedade das ilusões?: quatro ensaios críticos dialéticos em filosofia da educação. Campinas, SP: Autores Associados, 2003. (Coleção Polêmicas do nosso tempo).

FREINET, Célestin. O Método Natural (vol. I, II, III). Tradução de Franco de Souza e Maria Antonieta Guerreiro.Lisboa: Editorial Estampa, 1977 (a, b e c).


FREINET, Célestin. Ensaios de Psicologia Sensível (vol. I e vol. II). Tradução de Margarida Mendes Palma e Maria de Fátima Sá Melo Ferreira. Lisboa: Editorial Presença, 1976 (a e b).
FREINET, Célestin. La vie à L’ école russe. Paris, L’école Émancipée, avr.1930.

FREINET, Célestin. Nos recherches de pédagogie nouvelle em regime capitaliste. Cannes, CEL, L’Imprimeri à L’ école, jan. 1931.


FREINET, Célestin. Para uma Escola do Povo. Lisboa: Editorial Presença, 1980.
FREINET, Célestin. Para uma Escola do Povo: guia prático para a organização material, técnica e pedagógica da escola popular. Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes.
FREINET, Célestin. Pedagogia do Bom Senso. Tradução de J. Baptista. 5. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1996.
FREINET, Élise. Nascimento de uma Pedagogia Popular: os métodos de Freinet. Editorial Estampa, Lda., Lisboa, 1978.
FREINET, Élise. O Itinerário de Célestin Freinet. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1979.

OLIVEIRA, Anne Marie Milon. Célestin Freinet: Raízes Sociais e Políticas de uma Proposta Pedagógica. Rio de Janeiro: Papeis e Cópias de Botafogo e Escola de Professores, 1995.


OLIVEIRA, Anne-Marie M. Revisitando a obra de Célestin Freinet: Limites e possibilidades de uma proposta de educação popular na escola pública. Dissertação de Mestrado. IESAE/FGV, Rio de Janeiro, 1989.
ROSSLER, João. Henrique. A Educação como Aliada da Luta Revolucionária pela Superação da Sociedade Alienada. IN: DUARTE, N. (Org.). Crítica ao Fetichismo da Individualidade. Campinas: Autores Associados, 2004.
ROSSLER, João. Henrique. Sedução e Modismo na Educação: processos de alienação na difusão do ideário construtivista. 2003. 285 p. Tese (Doutorado em Educação) – Faculdade de Ciências e Letras, Universidade Estadual Paulista, Araraquara, 2003.

SAVIANI, D. História das Idéias Pedagógicas: reconstruindo o conceito. In: FARIA FILHO, L. M. (ORG). Pesquisas em História da Educação: Perspectivas de análise, objeto e fonte- Belo Horizonte: HG edições, p. 9-24, 1999.


SAVIANI, Dermeval. Educação: do senso comum à consciência filosófica. São Paulo, Cortez/Autores Associados.1980.
SAVIANI, Dermeval. Escola e Democracia. Campinas, SP: Autores Associados, 2003. (Coleção Polêmicas do Nosso Tempo).
SAVIANI, Dermeval. História das Idéias Pedagógicas no Brasil. Campinas, SP: Autores Associados, 2007.
SAVIANI, Dermeval. O Debate Teórico e Metodológico no Campo da História e sua Importância para a Pesquisa Educacional. In: SAVIANI, D; LOMBARD, J. C. & SANFELICE, J. L. – História e historia da educação. Campinas: Autores Associados/ HISTEDBR, 1998.
SAVIANI, Dermeval. Pedagogia Histórico-Crítica: primeiras aproximações. 8ª.ed. Campinas: Autores Associados, 2000.


1 Duarte (2003), em sua obra: “Sociedade do Conhecimento ou Sociedade da Ilusão”, realiza uma reflexão filosófica pautada numa perspectiva crítico-dialética mostrando que os princípios valorativos defendidos pelos modismos educacionais se contrapõem à apropriação do conhecimento.

2 Para entender melhor a questão do fetichismo Cf.: Duarte, Newton (2004). Crítica ao Fetichismo da Individualidade. Campinas, Autores Associados.



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