A pequena ridícula história de sonora



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Encontro03.08.2016
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A PEQUENA RIDÍCULA HISTÓRIA DE SONORA

Sonora é uma velha e decadente atriz de teatro. No estilo das grandes atrizes brasilleiras, levemente intelectual, um glamour mais pela pretensa inteligência que pela beleza. Vive cercada por seu passado e seus possíveis atos heróicos. No momento presente, o que vemos é uma mulher maltrapilha, senhora pós faxina estereotipada, apenas uma pobre dona de casa amarga e arrogante, com um lenço muito apertado na cabeça, chinelos de pelúcia encardida, magra, somente sua postura e maneira de falar revelam sua antiga condição. Seu discurso é incoerente, ou de uma coerência não muito aparente. Sonora deve ser representada por um ator magro.


O cenário é neutro, nada se sobressai. Panos de chita podem criar um semi-circulo lembrando um circo. Uma cama ao centro, e sobre ela uma boneca de pano. No fundo, a direita e esquerda da cama, dois planos mais altos, talvez apenas dois caixotes grandes, onde aparecerão os personagens da memória de Sonora. À direita, mais a frente uma cortina porta, tudo está levemente embolorado e úmido.
Esquecida e perdida no espaço tempo conversa com seu filho morto, que vem visitá-la de vez em quando. Ele é virtual, nem mesmo sua voz em off ouvimos. Sonora está de pé segurando uma vassoura e olhando para a porta cortina, que se movimenta como se uma leve brisa passasse. Está cansada e desarmada, possui certo tom de rancor.

Sonora – Meu filho é voce? Só pode ser... Ainda bem que voce veio, não agüentava mais conversar com baratas, é só o que tem por aqui. Voce é bem pontual, que dia é hoje? (senta, e muda o tom) Tudo isso é ridiculamente nostálgico. Você sabe que eu não sou burra, eu não preciso disso. Nem de migalhas. Nada. Não estou irritada. Eu não sou exagerada, sou uma atriz! (tenta limpar o quarto) lugar nojento... (olha para a platéia ) gente ingrata...( para o filho ) por que voce foi fazer aquilo? Porque essa falta de dignidade? Essa... essa falta de respeito para com os princípios mais básicos da estética?
Sonora nos tempos áureos, menos cansada, de óculos escuros e um lenço preto na cabeça. A cena escurece e é projetado no palco um grande close de Sonora, cena de entrevista (como o filho, o entrevistador é virtual, nem mesmo sua voz em off existe, a fala entre parênteses serve apenas como referencia para o ator, nunca sendo usada no espetáculo, por favor. Apenas as referencias de risadas são reais)

,
Sonora – Eu prefiro não tocar neste assunto, se eu pudesse, conversaríamos sobre arte, mas não posso, aquela maldita rede... (conforme fala faz o gesto)... Esticou o pé, rodopiou insensatamente, caiu, bateu a cabeça no chão, e, e... Partiu. (risos muito baixos)... De certa forma, foi sua coreografia de morte...



Entrevistador – ( e o que vai fazer agora? ) -

Sonora – agoira? Eu preciso descansar. Vou mergulhar dentro de mim e repensar a respeito do ridículo. A morte é um ato, o ultimo grande ato do ser sobre a terra, é a forma como ele sai de cena, para que caia o pano. Ou apenas um ultraje a vida.

Entrevistador – (pergunta sobre a maneira ridícula que seu filho morreu )

Sonora –(irritada ) Meu filho não morreu de maneira ridícula! Eu já disse, foi a sua coreografia de morte, e se os espíritos que movem nossa época fossem mais inteligentes, jamais transformariam este réquiem coreográfico de meu filho numa patética! Isto apenas mostra, e de forma cruel, o nível cultural de nossa ilha.

Entrevistadora – ( hierarquia )

Sonora – Não! Eu não penso hierarquicamente! Nem sei mais o que estou dizendo... Eu construi um império, não apenas um império financeiro, muito mais que isso, eu construí um império cultural! (levanta as mãos) um império de formas, de sons e de silêncios, eu redignifiquei a arte nesta pobre ilha de misérias, que estava atolada nas chafurdas de obscuridade e ignorância, coloquei-a no mapa-múndi, na rota das artes do universo, fiz a idéia de grandiosidade retornar ao que era apenas humano, e então... A mesma imagem trágica, o pobre se senta na rede, lê algumas páginas de seu livro, não sei o que estava lendo, não me lembro. Cansado, segura a ponta de seu pé, estica a perna para frente num gesto sublime de expansão, e traído pela gravidade, de um giro brusco e inesperado, não calculado, brota a oportunidade insuspeita do acaso, que o coloca de mau jeito sobre o chão, rompendo o tênue fio que liga a vida ao incomensurável (risos em off, ela estende a mão en direção ao público ) ...e apenas o riso coletivo para amparar-me. Aqui, já não encontro palavras para sustentar o grandioso, que foge num momento onde as armas do ridículo apontam para mi m tão impunemente...

Fim da projeção, luz volta ao normal, Sonora retoma a conversa com o filho, menos grandiosa, e grandiloqüente, e um pouco mais cansada.



Sonora – não, meu filho... Eu senti muito sua partida, senti o golpe fatal. Como mãe voce ainda é um pedaço de mim que partiu... Mas, eu não sou apenas mãe, sou tambem o avatar de uma nova era, e voce levou consigo toda a minha dignidade.

Filho - ( voce está exagerando )

Sonora – NÃO É EXAGERO E A CULPA não é sua. Vamos mudar de assunto. (pausa. Ela tenta pensar em outra coisa, mas não consegue ) EU SÓ QUERO GRITAR!!! Eu perdi tudo e ainda tenho que ser educada? O CARALHO!!! Estou indignada sim... Contra tudo, contra todos, contra a natureza, contra os homens, contra deus. Eu cansei! Estou presa em minha feiura, nessas rugas nojentas, olhe (mostra as mãos) o que é isso? É deus quem fabrica uma pele assim? Voce não entende? Isso é defeito, a velhice é defeito, e a pobreza deformação deformante! HÁÁ! Não me venha falar que a natureza é sábia! Ela é cômica, e qualquer um que tenha verdadeiro espírito se rebelará contra ela!

Cai a luz e novamente projeção da entrevista



Sonora – Plástica! Eu? Não... eu nunca faria plásticas. Plástica somente a arte. Cada ruga que se formar em meu rosto será uma experiência de minha vida marcada em meu corpo, cada parte de mim conta uma história, e somente quem teme a própria história, modifica sua forma artificialmente. O espírito sim, este é criador e modificador de formas, e cabe a ele, transformar e remodelar um corpo conforme sua grandiosidade ou pequenez. Utilizar métodos artificiais é o mesmo que ridicularizar a vida. Eu jamais faria isso. Estaria indo contra o trabalho de toda uma existência. Sempre me dediquei a grandiosidade, por ela existo e nela me movo.

Entrevistadora- (não entendeu absolutamente nada do que Sonora disse, e faz algum tipo de pergunta estúpida, Sonora se irrita)

Sonora – Minha filha, é muito simples. O espírito de perfeição criou a forma humana em toda a sua complexidade e beleza. Obvio que alimentando este mesmo espírito criador e o engrandecendo, bem, é natural que ele saiba cuidar da forma que criou. Voce não entende? Estamos falando de imortalidade! Sei que o trabalho não é pequeno, pois não se trata apenas de minha grandiosidade, mas de toda uma nação mergulhada no obscurantismo. Olhe para as nuvens passeando pêlos céus e o amarelado esmaecido em suas bordas, e entenderá. (muda o tom) ...Desde o momento que comecei, sabia que o trabalho que o destino me colocava não era pequeno... Minha mãe, com sua dignidade irlandesa, certa vez , olhou bem dentro dos meus olhos e disse, eu ainda era apenas a menininha ruiva medrosa, na época muito pouco compreendi de suas palavras, e mesmo assim ela disse:
Durante a projeção da entrevista, Sonora coloca um travesseiro na barriga, e uma peruca ruiva na cabeça, sobe no caixote ao fundo a direita, acende uma luz sobre ela.

Mãe irlandesa gorda e severa tem muito rancor e autoridade em suas palavras. Aponta para a boneca sobre a cama, o ator apenas incorpora a autoridade absoluta, sem mudar de roupa

Mãe- minha filha, vaca voce não vai ser, então vai e transforma essa terra de ninguem, essa pocilga, numa civilização. Resgata, se não a dignidade, pelo menos a grandiosidade. Não trema minha filha, Thomas Mann, Walt Whiltmam, T. S. Elliot, e Isadora sempre estarão ao seu lado, MAS NUNCA! Nunca de ouvidos a Maiakovsk e Kafka, cuidado com Black e Blavatisk, siga Stanislawisk e apenas escute, de longe, Grotowisk, cuidado com Brecht e muito mais ainda com Becket, e nem pense em se aproximar de Exupery. De sobremesa, pode comer os biscoitos do Oswald.

Volta para a entrevista projetada




Sonora- demorei anos para entender as palavras de minha mãe. Elas foram o meu guia nesta árdua tarefa de abarcar o todo da civilização e transformar em cultura digestiva para dar de comer a essa gente... (aponta carinhosamente para a platéia)

Fim da entrevista projetada, quebra para o filho invisível



Sonora-... Essa gente pobre e ingrata que esperou que eu desse apenas um escorregão para me destruir e me devolver a única coisa que sabem produzir, tomates podres e merda. O pior é que eu não escorreguei, mantive-me impecável durante toda minha carreira! (aponta para o nada, e grita) VOCE ESCORREGOU!

Filho – (eu caí)

Sonora – é a mesma coisa, cair da rede e morrer (off risos) escorregar no tapete, arrotar em público, peidar em elevador, que diferença faz? Quando se trata do grandioso, estas coisas simplesmente não existem, não devem. Todos os atos são precisos, cada gesto, cada palavra dita. Impecabilidade, esta é a decência e essência do existir.

Filho – (e o ridículo?)

Sonora – o todo não abarca o ridículo, ponto final. E sua atitude foi ridícula.

Filho (começa a chorar)

Sonora – (muda o tom e se torna mais afetuosa) Não seja tão sentimental... Estou apenas analisando a situação friamente, não é questão de atribuir culpas, eu não lhe culpo... Vamos falar coisas agradáveis? Porque não? Eu ainda tenho espírito,e isso tudo já passou, acabou, é passado. Voce morreu e levou tudo, minha fama, meu dinheiro, meu respeito, tudo. Quem se importa com isso? Tente entender, quem fica revoltada é a artista, eu, enquanto mãe já lhe perdoei, se é que algum dia o culpei por algo.

Filho (está chorando)

Sonora – (tenta consola-lo) Calma meu filho, não é culpa sua Ter nascido um fracasso, nem todos podem ser gênios. É como um quadro, existe o tema, o personagem principal, e existe o fundo. Eu sou o tema e voce, bem, voce apenas o fundo que existe para realçar o primeiro plano... (seu tom não é cínico, está realmente tentando consola-lo) ...se deus errou o tom , e pintou o fundo com a cor errada, estragando todo o quadro, a culpa não é sua, é dele! (aponta para o alto) Se anime, dá um sorriso... Meu fundo borrado... (suas palavras são verdadeiramente ternas e carinhosas)

Filho – (parou de chorar, e diz algo que faz Sonora mudar totalmente de expressão)

Sonora – O QUÊ???? Voce, num centro espírita? Mas quem voce pensa que pode ajudar?

Filho – (voce)

Sonora (mais indignada ainda) EU? (deboche) De que maneira poderia me ajudar?

Filho – ( )

Sonora – Não dá para Ter calma! Até morto voce continua absurdo, voce sabe que eu sou materialista, espiritismo faz parte do obscurantismo, minha religião ainda é a arte, voce quer que riam ainda mais de mim?

Filho – ( )

Sonora – Isso é absurdo! Nunca! Não me peça isso! Voce está completamente equivocado, se eu aparecer em público novamente e num centro espírita, aí eu estarei morta mesmo!

Filho – (ele explica a idéia e ela vai mudando o tom e se acalmando)

Sonora – Ela, madame Sonora, esquecida e abandonada na tristeza da perda de seu único e adorado filho, volta a aparecer em público para receber uma mensagem psicografada do falecido. É de certa forma é romântico. Poderia ser um apelo sentimental ao coração desses porcos nojentos. Não, eles não iriam rir, não teriam coragem. Com morto não se brinca, acho que disso eles têm medo, e talvez algum respeito, não teriam coragem de me ridicularizar. (de súbito, perde a calma) Não! Eu não posso! É horrível! EU ESTOU HORRÍVEL!!!

Filho – ( )

Sonora – ...Deformada pela tristeza? Isso não é muito trágico? (pensa) Em que centro voce está... Baixando ?... É assim que se fala?...

Filho – ( )

Sonora – NAQUELE LUGAR!!! MAS ALÍ É O CENTRO DA POCILGA! (preocupada ) voce não falou para ninguem que era meu filho, falou?

Filho- ( )

Sonora – (aliviada) Melhor assim. Voce não poderia Ter escolhido um lugar melhor?

Filho –( )

Sonora – não tinha vaga? Nossa, que cosa mais burocrática...

Filho – ( )

Sonora – COMO?! Por minha causa não permitiram sua entrada em outro centro? Não diga! O boicote é geral mesmo. (pausa) Bem, eu preciso pensar melhor, faz cinco anos que não apareço, e não vai ser fácil convencer as pessoas, não posso me transformar de atéia para espírita da noite para o dia, isso seria traição. Preciso de um motivo acima de qualquer dúvida...

Filho – ( )

Sonora- (escuta com certo interesse)... Até que morrer lhe fez bem, voce está até um pouco mais inteligente...
Luz cai e acende uma luz branca, ao fundo, sobre o caixote a direita, Sonora coloca um óculos escuro muito grande, e senta de pernas cruzadas, pose de entrevista, volta as vezes a falar com o filho, saindo do clima de entrevista, se possível, utilizar a luz para marcar essa mudança rápidas

Sonora – Sim... No retiro e recolhimento que me propus, descobri cousas. De mim do mudo, do universo. Coisas que faltavam em minha obra. O tempo nos faz tolerantes, e aquele não era o momento certo de integrar o elemento religioso em nossa cultura, poderia se transformar em equivoco, obscurantismo. Uma questão puramente pedagógica. Esperei o momento apropriado para revelar mais esta faceta da realidade criativa. Sempre soube que este dia chegaria. Os conceitos do materialismo criativo estavam incompletos, eu sabia disso, mas não encontrava o meio correto de abordar este tema, mas quando o meu filho, através do médium (para o filho) – como é mesmo o nome do médium? (para a entrevistadora) mas quando o meu filho através do médium Barrotemos (faz careta) ...mandou me chamar, entendi aí a possibilidade de integrar o todo, e poder descansar sobre o meu império de idéias, sabendo-o completo.

Entrevistadora - ( )

Sonora – o centro da pocilga existe, logo, concluímos que ele pensa. E onde existe o pensamento, eu existirei. Meu filho trouxe a parte que faltava, não para mim, mas para vossos olhos.

Fim de entrevista. Tira os óculos e volta para o filho



Sonora – Será que faço alguma performance no centro? Eles permitem?

Filho – ( )

Sonora – Eu não estou insegura, só um pouco excitada. Faz cinco anos que o mundo não me vê.

Filho – ( )

Sonora – não foi porque riram de mim. Não seja petulante, ninguem riu de mim, certo? (um pouco histérica) Não admito, se for para usar estes termos, suma! Riram de voce! Eu, apenas por solidariedade, me ofendi, nunca se esqueça, ninguem jamais, de forma alguma, riu, ri, ou rirá de Sonora!!! (tentando se acalmar) Absurdo. Eu não estou insegura. Apenas um pouco cansada... Lembrei daquela coreografia, qual foi o ano? Em que ano estávamos... (se perde em lembranças melancolicamente doces) falava de uma menina nissei que queria ir para sua primeira aula de pintura, mas não podia porque seus pincéis estavam de molho...

Quebra para coreografia, luz avermelhada, tudo é cerimonioso e extremamente lento. Ela vai para o canto direito do palco, pega um copo cheio de água, com uma bola de gude dentro (está tampado com filme plástico, o espectador não deve perceber) atravessa o palco, para no centro, se vira para a platéia, num gesto dramático, vira o copo sobre a cabeça , ele não derrama, está com o filme plástico. Ela se encolhe muito lentamente, faz uma pinta amarela na testa, puxa os olhos com as mãos e abre rápido os braços para a platéia, agradece a multidão, que aplaude enlouquecida e joga flores. Comoção geral.

Volta para o filho
Sonora- oito milhões de pessoas chorando, nenhum sorriso, solenidade absoluta diante do incomensurável ato das contrariedades humanas, uma paródia de toda a existência, mais que isso, materialização do conceito de fragilidade de grandioso. Mas não importa, eu apenas queria dizer que me sinto como aquela menina. O universo inteiro para ser conquistado e ela está apenas cansada. Será que os grandes conquistadores, olhando o vasto campo inimigo, sentiam tambem essa fadiga, não física, mas puramente existencial?...

Filho – ( )

Sonora – (ela se surpreende com o que o filho lhe diz) Napoleão tomava vitaminas? Quem te disse isso?

Filho – ( )

Sonora – (mais surpresa ainda) Como assim? Voce nem sabe falar francês... Ele não iria conversar justo com voce, mesmo que...

Filho – ( )

Sonora – E onde voce aprendeu? ... Todos sabem?...Achei que ninguem mais sabia falar isso. Voce acha que se pedisse, bem... Vocês não devem Ter muito que fazer, será que ele não viria assim... para uma conversa descontraída, um chá rápido, fique a vontade para lhe fazer o convite...

Filho- ( )

Sonora – ( desapontada ) Bem... Imaginei, nada é perfeito.

Fim do primeiro ato

Intervalo


II ATO

Sonora está com a mesma roupa, por cima colocou um casaco de tiras de trapos imitando vison, de gola muito grande. Se possível, várias cabecinhas de gato fazem a barra. Uma bolça e óculos escuros. Está exageradamente pintada, e usa aparelho de dentes. Está nervosa, entra pisando firme, joga a bolsa sobre a cama, está cansada, mais irritada que cansada.



Sonora – IMBECÍL!!!!! Que palhaçada! Não tinha nada mais inteligente para dizer? ( tira o aparelho ) Porque não me avisou que aparelho de dentes se tonou fora de moda a anos? Chamaram-me de velha planetária por sua culpa! VELHA PLANETÁRIA! EU! Novamente me fez passar por palhaça. Primeiro cai de uma rede e simplesmente... Morre! Só dez centimetros do chão, uma queda de dez centimetros para morrer, não era muito pouco? Tínhamos dinheiro suficiente para que voce caísse de avião! Ou pulasse de um prédio, quem sabe. Mas dez míseros centimetros te bastaram, mesquinho! (respira) agoira, na primeira chance de desfazer o mal entendido, voce me apronta mais essa, não só confirmou que o filho de Sonora não passa de um estúpido miserável, tanto em vida quanto em morte, como duplicou as risadas e o ridículo em minha vida! (coloca as mãos sobre o rosto dramaticamente, e depois lança um olhar irado ao redor) onde está voce? Covarde. Com certeza não vai aparecer tão cedo. Pelo menos alguem ainda tem medo de mim...

Voa um jornal pela porta e acerta a cara de Sonora, é um jornal catástrofe popular, com a manchete:



Filho defunto baixa em terreiro e fala para atriz esclerosada:

Oi, mamãenzinha querida...”





Sonora – O QUÊ?! ESCLEROSADA? EU?!!??

Quebra para plano alto à esquerda, onde vemos uma silhueta recortada de perfil. O poeta. Voz em off do próprio ator


Poeta –


OLHEI O MUNDO E ESTRANHAS FLUTUAÇÕES,

VOCE PODE ME DIZER DE ONDE VEM ESTE SOM?

É SÓ O CAOS PULSANDO... NÃO ENLOUQUEÇA AINDA.

No escuro do texto, Sonora levanta, tira o lenço ou pode permaner de lenço e colocar um chapéu escuro, coloca um sobretudo preto, se transforma no cineasta maldito, vai para o plano alto a direita, sobre o caixote, de pé




Cineasta – Sonora, voce só deu uma volta no circulo, voltou de onde saiu, é a própria essência do materialismo criativo. Abarcar o todo, abarcar principio e fim, que é o novo começo. Agora, rumar para a outra metade do circulo. Era a respeito disso que Tiradentes falou antes de morrer. Eu sou desconhecido, sim, mas tenho o roteiro certo e voce é a única que poderá realizá-lo (faz sempre gestos grandes com as mãos, marcando as falas decoradas e bem pontuadas)

Sonora – ( )

Cineasta – tudo bem... eu sei que saí da boca do lixo. Mas é onde nos encontramos, e o único lugar provável para sairmos.

Sonora – ( )

Cineasta – sua experiência vai engrandecer o filme, coloca-la na galeria ao lado dos grandes, vamos nos consagrar para a eternidade Sonora. E talvez seja nossa única ultima e grande chance, Sonora. Pense. É a humanidade que precisa de nós, e não o contrário. (vira de costas)

Sonora – ( )

Cineasta – não! Não é filme de horror. É... É... Conceptual! Toma...

entrega para o vazio, o roteiro, um calhamaço de folhas com uma capa vermelha. Sem largar o roteiro, tira o sobretudo coloca o lenço e volta Sonora conversando com o filho, novamente, indignada




Sonora – voce não tinha nada mais inteligente para me dizer meu filho? Tudo estava indo tão bem, tão solene, tão ritualístico! ...e voce me faz uma papagaiada daquela?

Filho –( )

Sonora – eu sei meu filho, a culpa nunca é sua. Voce so é a parte cômica de minha vida, detesto comédia, ela vulgariza a vida, como o sexo vulgariza o corpo. E alem do mais, rir dá rugas. Tudo bem, qual o problema?... Você só despertou a “Luccely Ball” que existe em mim, sem problemas, agoira todos podem rir de graça.

Filho – (ele diz que vai embora, nunca mais irá voltar)

Sonora – (ela se arrepende) Calma! Eu não quero isso, por favor, voce é minha única companhia..

Filho – (para voce, eu não passo de um pateta imbecil)

Sonora – voce não é um pateta imbecil, é meu filho, e meu amigo. Por favor, eu preciso de alguem para me escutar! Ninguem mais quer me ouvir, tudo porque quis dignificar a raça humana, recuperando os conceitos básicos de civilização (começa a chorar de verdade, não há nada de falso nessas ultimas palavras ) ... Voce me fez chorar, voce não pode ir embora, eu prometo que não citarei mais nomes nem frases de livros, nem nada de minhas obras pregressas, nunca mais falarei de dignidade... (está para ajoelhar, e se percebe, interrompendo o ato, muda bruscamente do choro lamurioso, para a indignação ) Tudo bem. Tudo muitíssimo bem. Tirei os porcos da pocilga, e dei pérolas a eles, ensinei-os a andar sobre os pés, e comer com talheres, mas foi como criar cobras. Vá. Vá embora, voce não está preparado para ouvir a verdade, a verdade envergonha e causa mágoas nos espíritos fracos, tenham corpo ou não, voce apenas me confirmou o que sempre soube, agoira entendo por que não acreditei em mortos durante todos estes anos

Filho – (voce estás dizendo besteiras)

Sonora – NÃO É BESTEIRA! (irritada, se torna histérica, como quando riram dela) quem é voce para lançar alguma palavra em minha direção? E a meu respeito! Voce que nasceu e mamou deste leite de sabedoria! Estou farta! Por que estava lhe implorando que ficasse? O veneno torna os fortes cada vez mais fortes. Vá, suma para junto de sua gente, vá conversar com Napoleão em esperanto! Voce tambem quer me ridicularizar, mas saiba de uma coisa: (abre os braços para o infinito)

EU SOU A DIGNIDADE, A DIGNIDADE DA RAÇA HUMANA, E NÃO É A MIM, FENIX RESSUCITADA, QUE VOCES ESTÃO LANÇANDO SEUS DARDOS ENVENENADOS NO LODO DA RIDICULARIZAÇÃO. VOCES ESTÃO ZOMBANDO DE SUA PRÓPRIA IMUNDÍCIE!!! (fecha os braços) voce e este resto animal que se arroga o titulo de “nova raça humana”, pois se o humano abdicou da dignidade em nome da licenciosidade e da preguiça, eu abdico do humano e entro para o mundo da “DIGNIDADE GRANDIOSA DO SER!” ( aponta para a platéia) ...e “ser” nunca passou e jamais passará perto daquilo que vocês julgam humano. Ser humano escute: pode rir como hiena, eu de minha parte alimentei-me de vosso veneno por acaso, e nele descobri o antídoto contra tua conduta ofídia. Estou alem e tenho agoira como único espectador, Apolo, porque SOU PORTE DA GALERIA DOS GRANDIOSOS!!!
Furibunda, pega o roteiro vermelho, e sai. Pode tocar alguma musica grandiosa. Breve blecaute

Cena do filme



No centro do palco um copo com água e uma coroa de louros, ela entra a esquerda, está coberta por um manto de veludo vermelho muito grande, no pescoço um colar de grandes pérolas. Olha para o chão solenemente, há sarcasmo na cena. Quando chega ao centro, sobe de plano, pode ser o caixote do fundo que foi arrastado para frente, não faz diferença. Estoura o colar de pérolas, vira o copo sobre a cabeça, desta vez ele derrama, e se auto coroa com os louros. Está satisfeita com a vingança realizada. Olha para o público com desprezo, soberba. Abre os braços e deixa cair o manto, por baixo veste um longo e grande tubo preto.
Quebra para conversa com o cineasta, está tranqüila e satisfeita, ainda está com a coroa de louros na cabeça. No canto ao fundo uma rede azul marinho, esticada.


Sonora – voce tinha razão, meu jovem. O filme foi sucesso absoluto. Cinco mil pessoas chorando, nenhum sorriso. Coroamos novamente a civilização. Já se ouve falar por aí, em neo-renascimento, graças a nós...

Cineasta – ( )

Meu filho? Reencarnou na Espanha. Está bem, tem pais que podem dar a ele uma educação mais elementar. Bem, o importante é que banimos o ridículo e recuperamos os cinco mil anos de civilização, agoira, no seu devido lugar. Mas há muito mais trabalho, precisamos manter o curso do rio da sabedoria correndo sem se desperdiçar novamente, formando a nova geração que cuidará do tesouro para que o ridículo não sufoque a dignidade e tome cena outra vez (vai se sentando na rede e dizendo o texto, calmamente) ...nessa nossa eterna... E pequena tragédia irremediavelmente grega... (pega a ponta do pé e estica a perna se espreguiçando. Sua perna vai girando para trás, a rede vira, Sonora vai soltando um grito desafinado, ridículo, esticado e sufocado que aumenta até se tornar ensurdecedor, desequilibrando e caindo num único arco em câmera lenta. Som de baque forte.Silencio. fica imóvel, com a perna para cima,começam risos baixos que vão aumentando. Ela esticada. De ponta cabeça. A luz do palco vai se apagando aos poucos, depois luz de serviço, e as risadas continuam, infinitamente. O ator não volta para agradecer. As risadas permanecem até que o teatro fique vazio)
Fim
São Paulo, 3 de fevereiro, 1997 8:29PM







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