A percepçÃo da mulher portadora de câncer acerca de suas experiências emocionais anteriores ao diagnóstico



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A PERCEPÇÃO DA MULHER PORTADORA DE CÂNCER ACERCA DE SUAS EXPERIÊNCIAS EMOCIONAIS ANTERIORES AO DIAGNÓSTICO



demerval florêncio da rocha




RESUMO
Esta é uma pesquisa de abordagem qualitativa, empreendida para verificar, na história de mulheres portadoras de câncer, quais eventos emocionais ocorreram antes do diagnóstico da doença maligna e com que sentimentos e atitudes elas os enfrentaram. Estudou-se o processo de cancerinização, fomentado por esses eventos, com base na teoria homeopática dos miasmas. Averiguou-se a opinião das mulheres sobre possível relação de causalidade entre sofrimento emocional e câncer e também a importância dos conflitos decorrentes de relações de gênero. Os dados foram colhidos por entrevista aberta, rogeriana, não estruturada, com 20 mulheres que sofriam de algum tipo de câncer, e estudados através da Análise de Conteúdo, na sua vertente temática. As categorias temáticas resultantes da análise foram: grosseria/violência; falta de liberdade/segurança/apreço; infidelidade; perda de entes queridos; apreensão por parentes. Os principais núcleos de sofrimento ligados a essas categorias foram: mortificação; desapontamento/frustração; nostalgia; remorso/culpa; humilhação; pesar; ressentimento/amargura; preocupação excessiva. Os resultados nos levaram a sugerir que as pessoas que enfrentam sobrecargas emocionais negativas sejam abordadas precocemente por modalidades profilático-terapêuticas que saibam lidar com as diversas vertentes funcionais do amplo conceito de pessoa humana, como a homeopatia unicista.
Palavras-Chave: relações inter-pessoais; conflitos de gênero; sofrimento emocional; diagnóstico biopatográfico; dinâmica miasmática; cancerinização.

ABSTRACT
This research of a qualitative approach, aimed at verifying, in the history of women with cancer, which emotional events occurred prior to the cancer diagnostic, and which feelings and attitudes were involved in their coping. The process of cancerinization was studied based on the homoeopathic theory of miasmas. The opinion of the women concerning possible causality relation between emotional suffering and cancer was investigated. Also, the importance of the conflicts resulting from gender relationships was enquired. The data were collected through open, non-structured interviews with 20 women, who suffered from any kind of cancer. The data were analyzed using Content Analysis. The thematic categories extracted were: roughness/violence; lack of freedom/safety/esteem; infidelity; loss of dear ones; apprehension for relatives. The main biopathographic diagnostics related to those categories were: disappointment; nostalgia; regret/guilt; humiliation; sorrow; resentment; excessive preoccupation. The results lead us to suggest that people who face negative emotional overload should receive early holistic health care, that deals with several dimensions of the human person, such as the unicist homeopathy.
Key Words: interpersonal relationships; gender conflicts; emotional suffering; biopathographic diagnostic; miasmatic evolution; cancerinization process.

INTRODUÇÃO


O câncer é um dos temas que sempre fustigaram as reflexões dos biocientistas em torno da vida, do sofrer e da morte do Ser Humano. Segundo o Serviço de Informação de Mortalidade (SIM) da Secretaria de Saúde de Santa Catarina, essa doença ocasionou 1789 óbitos no sexo feminino neste Estado, no ano 2000. No mesmo ano morreram por câncer 55.439 mulheres no Brasil e 11.223 na Região Sul. Para 2001 o Instituto Nacional do Câncer estimou, apenas referente ao sexo feminino, o surgimento de 154880 casos novos, o que acarretaria 54.220 mortes entre as brasileiras (BRASIL, 2001). Os números oficiais da doença em mulheres, em 2001, publicados no site do Sistema Único de Saúde (BRASIL, 2002) confirmam as estimativas. Em 2002, no município de Chapecó/SC, segundo informações tabeladas pela Secretaria de Saúde local, morreram 55 mulheres, vítimas de câncer, sendo os órgãos mais acometidos a mama (10 óbitos) e o pulmão (6 casos).

Da mesma forma, diversos agravos emocionais ao gênero feminino têm intrigado a inquisitiva atividade terapêutica de profissionais de saúde (NEDER, 2001), as reflexões de filósofos (LIPOVETSKY, 2000) e as investigações de cientistas sociais (PAULA LEITE, 1994). São conflitos, vicissitudes, reveses que mulheres declaram ou confidenciam padecer em decorrência de suas relações interpessoais, intra ou extra-familiares, sobretudo com o gênero masculino (SOUZAS, 2000). As respostas e reações de tais mulheres aos possíveis eventos emocionais coincidem com alguma forma posterior de adoecimento grave? Eis um pressuposto básico deste estudo.

No jargão da Medicina Homeopática chama-se noxa todo agente ou circunstância capaz de provocar adoecimento em qualquer ser vivo. Seja qual for a corrente filosófica de atenção à saúde, é atualmente unanimidade entre as ciências naturais que a enfermação dos entes vivos é um produto da interação de noxas com a susceptibilidade individual (NASSIF, 1995).

A experiência de médicos homeopatas, psicólogos e profissionais afins sugere que as noxas, além das mecanicamente quantificáveis, podem ser também de natureza imaterial ou psicodinâmica (TEIXEIRA, 2000). Como comparação, cite-se as influências da fé sobre o sistema imunológico, que vêm sendo demonstradas recentemente (NEWBERG, 2001). Correlações similares, caracterizando como noxas situações psicossociais angustiantes, que levam a sentimentos e pensamentos diversos, são apontadas por vários autores: Deitos & Gaspary, 1997; Leal, 1993; Segerstrom, 2000; Sherman, 2001; Vera-Villarroel, 1999.

Na posição de médico homeopata em clínica privada e no serviço público, muitas mulheres me confidenciam profundos sofrimentos emocionais que padecem nas interações sociais e, sobretudo, nas relações de gênero. São relações mal havidas, não só com o cônjuge ou em uniões consensuais, mas também no convívio passado com o pai ou padrasto ou vivências de natureza vária – no ambiente de trabalho, na escola, em atividades de participação social e em diversas formas de exercício (às vezes conturbado) da cidadania. A motivação dos relatos está em problemas diversos de saúde, alguns de gravidade importante.

Após a aplicação do método clínico tradicional, valendo-me da anamnese e do exame físico para suspeitar ou afirmar o diagnóstico do agravo, percebo, na maioria das vezes, que o raciocínio fisiopatológico clássico não é congruente nem suficiente para explicar etiologicamente a doença diagnosticada. Então, não há como deixar de supor correlação causal entre o evento clínico e o sofrimento emocional relatado.

Dentre os adultos, são as mulheres as que mais procuram ajuda do médico homeopata para sanar incômodos em sua saúde e parece ser elas quem melhor pormenorizam seus sofrimentos. As doentes de câncer, por fatores diversos, dentre eles o arraigado senso comum de incurabilidade, procuram pouco os médicos homeopatas (MICALI, 1995). Presumo que tais mulheres, portadoras de tão grave moléstia, podem ter histórias tão ou mais contundentes de sofrimento emocional ligado ao desenvolvimento da doença do que as que padecem enfermidades benignas

Partindo desse pressuposto, pretendemos investigar se, na história de mulheres que desenvolveram algum tipo de câncer, de fato há evidências de sofrimento emocional importante antecedendo o diagnóstico da doença. Averiguar ainda de onde advêm tais sofrimentos emocionais, o que os ocasionaram e se há papel relevante das relações de gênero nessas aflições. O objetivo último de nossa diretriz metodológica é analisar relações entre eventos emocionais e o processo de cancerinização em mulheres, tendo como base a teoria homeopática dos miasmas. Utilizaremos o espaço restante desta introdução para expor tal teoria.

Em sua época, Samuel Hahnemann – 1755 a 1843 - o pai da homeopatia, não dispunha dos conhecimentos que temos hoje sobre o aparelho psíquico, a fisiopatologia e a psiconeuroendocrinoimunologia para compreender o motivo de um indivíduo adoecer e, principalmente, adoecer repetidamente ou tornar-se um doente crônico. Elaborou, então, a teoria dos miasmas, para fazer frente a tantas dúvidas sobre o assunto. Não se deve confundir essa teoria homeopática com sua homônima, defendida no contexto dos postulados higienistas da idade média. Miasma é um vocábulo grego que, etimologicamente, significa mancha; era correntemente falado na Grécia e Roma antigas para designar emanações pestilentas dos pântanos. Em sentido figurado quer dizer influência deletéria. É o resultado da ação das forças subversivas sobre a energia vital, ou seja, a reatividade individual pré-ativada.

Hahnemann, em seu Tratado de Doenças Crônicas, considerava três níveis de predisposição diferentes, portanto, três miasmas distintos, três estados reacionais às noxas. A esses três níveis de susceptibilidade denominou psora, sycosis e syphilis, nesta ordem crescente de potencial de agressão psíquica e tecidual.

Dada a complexidade e a extemporaneidade das explicações de Hahnemann sobre a origem desses miasmas e a maneira de eles se traduzirem em doenças, os homeopatas de hoje adaptaram as hipóteses do mestre aos conhecimentos que ele carecia, e concluíram (DIAS, 1999):

1) Psora corresponde à excitação dos sistemas psíquicos e orgânicos de eliminação; por isso se manifesta por transtornos puramente funcionais e não lesionais. Alergia e ansiedade são seus representantes mais clássicos. Para Hahnemann, a supressão da sarna era a causa do miasma psórico - em grego psora quer dizer sarna. Mas por que o indivíduo adquiria sarna? Além de o agente da escabiose (o acarídeo chamado hoje de Sarcoptes scabei) não ser conhecido na época, mesmo que o fosse, Hahnemann não se questionava sobre a susceptibilidade à sarna; sua hipótese miasmática já partia, portanto, da manifestação de uma doença e não da susceptibilidade primordial ao adoecimento. Para preencher essa lacuna, outros homeopatas, como o indiano Ghatak e o argentino Masi Elizalde aceitavam o dogma teológico do pecado original como fonte de todos os males e de todas as propensões mórbidas do ser humano (NASSIF, 1995).

2) Sycosis corresponde a um mecanismo de perversão de funções. Assim, glândulas que têm função secretora passam a desempenhar papel excretor. Por exemplo, várias glândulas vaginais, que normalmente secretam fluidos para lubrificá-la, tentam ajudar o organismo a eliminar agentes infecciosos; como não são apropriadas para essa função, seu esforço para consegui-lo acaba por acarretar alteração na própria glândula, surgindo condilomas e outras excrescências. Sykon, em grego, é figo, um fruto que, aberto, parece conter numerosos pólipos, parece um condiloma, uma excrescência genital (uma doença sexualmente transmissível). Para Hahnemann, a supressão de condilomas e verrugas por cauterização ou por cirurgia predispunha o organismo a outras doenças (“metástases” mórbidas, não necessariamente no sentido de malignidade). A teoria das supressões e metástases mórbidas é amplamente aceita ainda hoje como um preceito básico da prática homeopática, e a causalidade e o agravamento de doenças, inclusive o câncer, é explicada pela mesma, como veremos mais adiante. Hahnemann postulava que a supressão de condilomas ou da gonorréia favorece o surto de doenças em outros sítios e sob outras formas, ou seja, provoca metástases mórbidas, gerando o miasma sicótico.

3) Syphilis, aqui entendida não como a clássica doença sexualmente transmissível (DST), mas como predisposição a várias manifestações mórbidas, é um miasma profundo e leva à destruição de tecidos e inibição da função mental. Hahnemann optou por esse nome para designar o miasma destrutivo porque em sua época a própria sífilis (DST) era tida como uma das doenças mais destrutivas dos tecidos (nevoso, vascular, ósseo etc.). As úlceras são as principais manifestações do sifilinismo ou luetismo, como atualmente prefere-se denominar esse miasma. Para Hahnemann, o miasma sifilínico era decorrência da supressão do cancro sifilítico por altas doses de mercurius.

Para nós, o termo miasma designa apenas um estigma patoenergético (indutor de doenças), uma perturbação energética, imaterial da energia vital. Classificamos como um “delírio escatológico” a apelação de alguns homeopatas a uma punição divina do dito pecado original como explicação de todo adoecimento da espécie humana. Contra essa extravagância dogmática insurgiu-se o homeopata brasileiro José Laércio do Egito, alegando, não sem razão, que tal postulado é uma afronta aos modernos conhecimentos científicos e é motivo suficiente para a homeopatia ser depreciada e escarnecida nos círculos acadêmicos. Por isso, em sua Contribuição ao estudo da teoria miasmática (EGITO,1999), esse autor descreve minuciosamente o curso das manifestações fisiopatológicas desde o início da exposição de um ser humano a uma noxa até níveis profundos de agressão somática e psíquica. Sua teoria é a que, ao nosso ver, melhor contemporiza também o processo de cancerinização com a racionalidade científica mais aceitável no momento. Sua leitura flui para uma explicação fisiopatodinâmica de autodefesa orgânica perante as noxas, configurando a definição ou justificação do fenômeno que aqui denominaremos dinâmica miasmática. Suas observações sobre o percurso somático e psíquico da cura remete para segundo plano as especulações metafísicas de diversos autores e as proposições etiológicas de Hahnemann sobre as bases fundamentais do adoecer. Egito defende, como também Hahnemann o fazia, que jamais encontraremos resposta satisfatória à inquietante aflição: por que o homem está susceptível às susceptibilidades? Talvez haja uma única confabulação não desprezível sobre isso: o homem é susceptível porque ele existe, e tudo que existe é susceptível a diversos fenômenos indissociáveis do existir. Quiçá por esse motivo, Egito se detém mais em questões referentes ao como adoecemos do que propriamente ao por que adoecemos. O conceito de miasma designa, para ele, não apenas o modo seqüencial de adoecimento, ou seja, a performance combativa às noxas, mas também as alterações deixadas na economia orgânica como decorrência desse combate; alterações essas que geram mais predisposição a enfermidades. Egito explana que a dinâmica miasmática transcorre por níveis de profundidade.

Em um 1º nível, o organismo lança mão do mecanismo de eliminação, adequando a noxa à função de algum órgão excitador. Para tanto, ocorre uma excitação fisiológica, que representa uma reação psórica. Como exemplo, temos um aumento da diurese, da transpiração ou das defecações quando há uma intoxicação exógena (alimentar, química, etc.). Nesse nível, nas reações de cura não há lesão tecidual, apenas exacerbação funcional. Na vertente somática, entra em ação o sistema emunctorial, ou seja, poros e orifícios excretores (externos) - como glândulas sebo-sudoríparas, ânus, uretra, canal lacrimal etc. – ou secretores (internos), como glândulas sexuais, glândulas e mucosa do tubo digestivo, epitélio broncopulmonar etc. No aspecto psíquico, para reagir a uma noxa psicodinâmica são acionados os mecanismos de defesa do ego, deles derivando o cortejo de sintomas mentais do miasma psórico. Psora, portanto, nada mais é que um estado de eliminação insuficiente. As principais manifestações psíquicas do miasma psórico são: ansiedade, inquietude, medos, hiperatividade, abstração da mente, melancolia, timidez, pusilanimidade, insegurança, falta de autoconfiança, indecisão, afabilidade, desejo de companhia, compassividade, procrastinação, condescendência, desejo de estar quieto etc.

Ante à pressão crescente da psora, acudindo esse estado de eliminação insuficiente para equilibrar a economia orgânica, as células secretoras entram em ação, extrapolando suas funções normais, mas atendendo também à função excretora, em socorro ao sistema emunctorial – é a perversão da função para compensar insuficiências. O tecido secretivo, quando passa a exercer atividade excretora, acarreta distúrbios em sua própria estrutura (hipertrofia), tais como derrames em cavidades abertas ou fechadas. As células secretoras, exercendo papel excretor, acabam alterando o terreno (o tecido) em determinadas localizações, gerando sintomas em decorrência da propensão incrementada de desenvolvimento de germes nefastos naqueles pontos. Também condiciona a formação de depósito e concreções em pontos indesejáveis, como acontece, por exemplo, num processo gotoso. Esse é o terreno sicótico, que facilita inúmeras síndromes clínicas.

Na área psíquica, quando os mecanismos de defesa do ego não são suficientes para atender ao equilíbrio, surgem sintomas reativos mais profundos como a desconfiança, medos mais intensos, ocultação, agressividade defensiva, obsessões, arrogância, fatuidade, imposição, desconfiança etc. Trata-se de uma verdadeira hipertrofia do ego, na forma de egolatria ou de egoísmo.

No 3º nível reacional há destruição tecidual. Portanto, o mecanismo é cicatricial e deixa seqüelas na maioria das vezes. A mente fica lesada, com funções intelectuais e afetivas alteradas ou mesmo destruídas. Pensamentos de autodestruição, ansiedade de consciência condenatória, perturbação de auto e hetero-avaliação e mais uma série infinda de comemorativos da semiologia psíquica estão presentes nesse estado denominado sifilinismo: impulsividade, impetuosidade, compulsões, ressentimento, ciúme doentio, desejo de vingança, crítica destrutiva, mordacidade, sarcasmo, misantropia, imbecilidade, aversão à ordem, delinqüência, tendência a blasfemar, pânico, crueldade, drogadicção, apatia, indiferença etc. Nesse nível passa a ocorrer destruições teciduais parciais, ulcerações e hemorragias, levando o organismo a se valer da cicatrização e fibrose como processo de cura.

Se toda essa dinâmica miasmática não der conta da homeostasia do ser, mesmo que com seqüelas (cicatrizes, perda de funções ou de órgãos, oligofrenia, personalidade psicopática etc.), então o indivíduo chega a uma situação caótica de desorganização interna que pode romper os mecanismos de sintonização vibratória entre as unidades biológicas e o todo, provocando a perda do controle da inteligência vital sobre determinadas células. Este último estágio é chamado CANCERINISMO: o desgoverno da inteligência vital perde o controle supressivo sobre os oncogenes e as células passam a reproduzir-se desordenadamente. Na esfera mental, suas principais manifestações podem ser: delírio persecutório, pensamentos e atitudes ambivalentes, ilusões e alucinações diversas, desorientação espaço-temporal, dupla personalidade ou desrealização, confusão sobre sua própria identidade, desagregação do pensamento, ilogicidade verborréica, desejo de se esconder, catalepsia ou narcolepsia, sensação de expropriação de seus pensamentos, comportamento bizarro, estereotipias, automatismos, fala gutural ou incompreensível, solilóquio etc. (EGITO, no prelo).

Vários, pois, são os meios que a inteligência vital pode acionar para exercer o controle sobre todas as unidades morfo-funcionais da economia corpórea. Ao nível do cancerinismo, porém, rompe-se esse controle e, por isso, não é mais possível o exercício de atividade limitativa alguma ao nível da lesão, deixando essa atividade de ser um meio de drenagem para tornar-se, simplesmente, uma desagregação. No cancerinismo não existe apenas perversão ou destruição, mas também desagregação, uma forma desordenada de estruturação celular. Essa mesma desagregação às vezes se faz sentir somente no nível das faculdades psíquicas superiores, caracterizando síndromes graves e incuráveis, como a esquizofrenia, considerada, nesta teoria miasmática, como o câncer da mente.

Vários tratados e compêndios de homeopatia (EGITO, 1999; ORTEGA,1977) trazem listas de sintomas e perfis semiológicos e sua classificação dentro dos níveis da dinâmica miasmática. Esses sintomas, assim organizados como marcadores miasmáticos, facilitam muito a escolha do medicamento mais adequado para a re-harmonização das reações fisiopatológicas e evitar o processo derradeiro de cancerinização.

Conclui-se que os miasmas são apenas níveis reacionais de tentativas de equilíbrio do sistema. Para Egito, miasma é um termo singular, pluralizando-se apenas nas diferentes fases de sua performance combativa, ou seja, de sua dinâmica. Graças a poder se tornar sicótico é que o indivíduo não sucumbe como psórico; ou resiste no sifilinismo, que evita o êxito letal do sicótico; e às vezes se desagrega no cancerinismo, quando a noxa ou a idiossincrasia excedeu os potenciais de defesa do sifilinismo. O tratamento homeopático freqüentemente otimiza os estágios de autodefesa anteriores ao cancerinismo.


MÉTODO


Trata-se de uma pesquisa qualitativa, exploratória e descritiva para demonstrar apenas relações de coexistência ou de seqüência entre os eventos sofrimento emocional de mulheres e cancerinização em mulheres. O principal paradigma eleito para embasar a discussão de tal correlação foi a teoria homeopática dos miasmas. Os seguintes objetivos pautaram esta investigação: a) identificar as respostas ou reações demonstradas a tais eventos pelas mulheres que posteriormente desenvolveram câncer; b) constatar se mulheres que desenvolveram câncer presumem alguma ligação entre eventos emocionais que vivenciaram e a doença que tiveram; c) verificar se os eventos emocionais ligados a relações de gênero se destacaram em importância ou freqüência meio a eventos emocionais de outras circunstâncias. Não se cogitou explicar o ciclo de fenômenos de natureza emocional dentro do aparelho psíquico, nem afirmar relações de causalidade entre ambos os eventos.

Foram entrevistadas 20 mulheres, entre fevereiro e maio de 2003, todas da raça branca, na faixa de 37 a 73 anos de idade e residentes no município de Chapecó/SC. Quanto ao estado civil, 12 eram casadas, 5 descasadas, 1 viúva, outra era viúva/re-casada e uma era solteira. Dessa amostra, 15 tinham/tiveram câncer de mama, duas de reto, duas de útero e uma de pele (melanoma).

Os dados foram coletados através de entrevista aberta (não estruturada), temática, rogeriana, conforme é característica da anamnese homeopática no resgate da história biopatográfica. As entrevistas foram rigorosamente individualizadas entre o autor e o sujeito, sem presença nem interferência de terceiros por nenhum meio, e transcorreram em adequadas condições ambientais, ergonômicas e de privacidade acústica e visual. O tempo de duração, não pré-estipulado, foi de 45 minutos, em média, para cada interlocução. Todas as falas foram gravadas e transcritas, logo a seguir. A pesquisa foi procedida com estrita observância dos princípios bioéticos.

Procedemos à compreensão dos dados das entrevistas através da Análise de Conteúdo, na sua vertente Análise Temática, considerada uma técnica eficaz quando aplicada a discursos diretos e simples - significados manifestos, como se constatou na maior parte de nosso corpus - agrupando trechos de relatos em forma de representações que denominamos categorias temáticas, nos moldes configurados em Bardin (1977). Categorias são rubricas ou classes, as quais reúnem um grupo de elementos ou unidades de registro sob um título genérico. O critério de categorização que adotamos foi, obviamente, o semântico, conforme é de praxe em toda categorização temática. Assim recomenda Bardin, que procede a análise de um discurso, dividindo-o em unidades de registro, ou seja, em unidades gramaticais (frases ou palavras) de significação para o problema em estudo, que corresponde a um segmento de conteúdo. Em nosso caso, usamos o tema como unidade de registro. Tema é uma unidade de significação complexa, de dimensões variáveis. Sua realidade é de ordem psicológica, não de ordem lingüística: tanto uma afirmação, quanto uma alusão pode constituir um tema. A análise temática consiste em isolar temas de um texto e extrair as partes utilizáveis, de acordo com o problema pesquisado, para permitir sua comparação com outros trechos escolhidos da mesma maneira. Uma categoria é sempre mais abrangente que um tema.

Para cada sujeito, os temas inferidos pela análise de conteúdo foram comparados com a Matéria Médica Temática de Mirilli (1996), donde abstraímos os núcleos de sofrimento ou diagnósticos biopatográficos, e posteriormente fizemos a classificação miasmática dos mesmos com base nos estudo de Egito (no prelo). Diagnóstico Biopatográfico é um termo-síntese que indica o fenômeno biopsicodinâmico mais possivelmente relacionado ao despertar / agravação / recrudescimento do processo de adoecimento de um indivíduo. Tal indicador é sugerido após criteriosa análise da história biopatográfica do mesmo sujeito, levando-se em conta não apenas as expressões verbais, mas também toda a comunicação meta-lingüística do sujeito.

RESULTADOS E DISCUSSÃO


Os núcleos de sofrimento ou diagnósticos biopatográficos inferidos foram:


  1. Mortificação: por rudeza/grosseria do marido; por rudeza/ameaças do pai; por violência do sogro.

  2. Desapontamento, frustração: por insatisfação conjugal; por infidelidade conjugal (desapontamento amoroso); com o pai; por sonho não realizado.

  3. Nostalgia: por desaparecimento do filho.

  4. Remorso, culpa: por cometer assassinato; por manter relações extra-conjugais.

  5. Humilhação, desprezo: da família.

  6. Pesar: por morte fetal; morte do pai; morte do marido; morte da mãe; mortes na família.

  7. Ressentimento, mágoa, amargura: com colegas de trabalho; por infidelidade conjugal; com sogros.

  8. Preocupação excessiva: pelo sofrimento da mãe; por trabalho, negócios fracassados; com filho adolescente; por ausências do marido e pelo cotidiano.

  9. Sofrimento físico: por excesso de trabalho.

As categorias temáticas (CT) abstraídas do material analisado foram:




  1. Grosseria, violência : abrange todos os eventos relacionados a: grosseria, rudeza, violência, ameaça dirigidos contra a entrevistada ou a seus entes queridos ou cometidos pela própria entrevistada. Ela aparece em 11 entrevistas (E1,2,3,5,6,8,13,16,17,18,19). Os algarismos em negrito entre parênteses indicam as entrevistas em que a CT desempenhou importante papel biopatográfico. Dois núcleos de sofrimento estão ligados a esta categoria: mortificação, remorso.

  2. Déficit de liberdade, de segurança e de apreço: aplica-se às restrições para a entrevistada alcançar seus objetivos de vida, ocasionadas por comportamentos insatisfatórios de seus convivas no que se refere a provê-la de liberdade, segurança e apreço. Aparece em 17 entrevistas (E1,2,3,5,6,7,8,9,10,11,12,13,14,15,16,18,19). Cinco núcleos de sofrimento estão relacionados com esta categoria: desapontamento, humilhação, ressentimento, preocupação, sofrimento físico.

  3. Infidelidade: é qualificada pela infidelidade conjugal do marido ou da própria entrevistada. Aparece em 8 entrevistas (E2,3,5,6,11,12,16,19) Desapontamento, remorso e ressentimento foram os 3 núcleos de sofrimento ligados a esta categoria.

  4. Perda de entes queridos: seja por morte ou por desaparecimento. Aparece em 11 entrevistas (E3,4,6,10,11,12,13,14,15,17,18) Nostalgia e pesar foram os 2 núcleos de sofrimento concernentes a esta categoria.

  5. Apreensão pelos outros: refere-se às preocupações da entrevistada com doenças, sofrimento, ausências e comportamento de seus convivas. Aparece em 10 entrevistas (E3,6,8,10,12,14,15,17,19,20) Preocupação excessiva é o núcleo de sofrimento ligado a esta categoria.

Todas as entrevistas revelaram eventos emocionais, com carga diferenciada de sofrimento. A questão básica inicialmente proposta para a maioria das entrevistadas foi: “Por que você acha que teve essa doença?” Com esta formulação aberta e direta, abstendo-nos de conversas prelúdicas, evitamos a influência que outros discursos eventualmente exerceriam sobre a resposta, caso a questão básica fosse formulada no meio ou no fim da interlocução. Em muitas ocasiões essa indagação inicial foi suficiente para desencadear todo o processo discursivo da entrevistada acerca das agruras sentimentais de sua vida.

Não nos surpreenderam as confidências de sofrimentos relacionados principalmente à vida conjugal, já que os mesmos são lugar-comum na literatura. Obras escritas por feministas ou mesmo por autores masculinos estão repletas de depoimentos considerando o casamento um descalabro, principalmente para as perspectivas das mulheres. Em Lins (2000), entre dezenas de relatos, encontramos referência a uma recente pesquisa do IBGE com pessoas casadas, onde cerca de 80% das entrevistadas declaram-se decepcionadas com o casamento. Daí podermos estimar um percentual ainda maior, se considerarmos a dificuldade de se aceitar e declarar a falência de algo em que tantas expectativas foram depositadas. Viorst (1988) faz dois comentários sobre o casamento: “A boa ressalva é que, às vezes, o elo entre marido e mulher é mais forte do que qualquer dano que ambos possam se causar mutuamente. A má ressalva é que nenhum casal de adultos consegue provocar mais dano um ao outro do que marido e mulher” (p. 192). Simonton (1987) atesta que para muitas de suas pacientes o conflito ocorre quando elas descobrem que seus companheiros tiveram casos extra-maritais, sobretudo quando elas não querem saber de aconselhamento conjugal ou se as suas crenças religiosas as proíbem de aceitar a idéia do divórcio, mesmo sentindo vontade de deixar o casamento de lado. Em nosso conteúdo houve importantes conflitos conjugais na vida de dez entrevistadas, tendo sido eles os principais causadores dos seguintes núcleos de sofrimento das mulheres: mortificação, desapontamento e ressentimento. O depoimento de E11, que exemplifica a categoria temática 3, atesta isso pujantemente: “... O sofrimento assim marcado, grande, sempre foi na minha cabeça aquela traição dele, sempre aquela mágoa, vivendo traída, batalhando, ajudando ele...Eu sentia como uma ofensa, uma mágoa muito grande[...] A minha maior mágoa, maior das que eu tenho na minha vida, foi essa traição que ele me fez[...]”

Para Ortega (1977), Paschero (1988) e Egito (1999), dentre outros homeopatas, o ressentimento, que consiste em mágoa ou amargura prolongadas, é uma das manifestações mentais do miasma sifilínico, quer dizer, de terreno autodestrutivo. Tal miasma é o antecessor imediato do processo de desagregação constitucional do indivíduo, ou seja, do cancerinismo. O sentimento de desapontamento, decepção ou frustração pode representar a fase pré-ressentimento do fluxograma psicodinâmico de uma relação interpessoal. A frustração tenderá a seguir alguns desses caminhos: ser resolvida ainda nessa etapa, quer espontaneamente, por simples aconselhamento ou por intervenção terapêutica de natureza diversa; ficar encoberta por algum dos mecanismos de defesa do ego; imiscuir-se com algum ou alguns outros sentimentos negativos e, desse modo, derivar até níveis de sofrimento psíquico mais elevado, como é o ressentimento. É, sobretudo, a idiossincrasia do sujeito que irá definir a trajetória de um sentimento, detendo-o em um nível miasmático mais superficial, que denominamos psórico, ou levando-o a níveis profundos de sofrimento (nível sifilínico) até fazer o sujeito vivenciar o estado desagregador que é o miasma cancerínico.

Ainda sobre os conflitos de gênero, há muitas observações a comentar. Eles apareceram em 16 entrevistas; em 10 casos foram de natureza conjugal; também em 10 foram de índole familiar não-conjugal. Em 4 entrevistas houve relato de co-existência de questões de gênero de ambas as modalidades. Em 13 das 20 entrevistadas houve relação entre tais conflitos e núcleos de sofrimento.

A entrevistada E1, submetida a mortificação por grosserias do marido, conforme depoimento consignado na categoria 1 [“ele tratando sempre a coice, patada (...) me deu um paulada aqui (na testa) que até hoje me dói (...) ele me derrubou no chão e me pisava em cima (da cabeça) com os pés dele”], vivenciou o fenômeno com tristeza, desgosto, medo do parceiro, raiva, ressentimento e desejo de matá-lo. Impressionou-nos a seqüência de sentimentos, assim expressos nesta ordem que citamos, ao longo do relato espontâneo e fluente da voluntária. Pudemos observar nesse caso o desenvolvimento crescente da gravidade miasmática, uma vez que os sintomas tristeza, desgosto e medo do parceiro são componentes típicos de um miasma mais superficial (a psora), enquanto que ressentimento e desejo de matar são representantes do estado sifilínico. Não fôra exatamente o caso de E1, mas a literatura (Egito, no prelo) demonstra, através da descrição da matéria médica homeopática, que o desejo de matar (um sintoma sifilínico, como já dissemos) pode evoluir para ilusões ou alucinações de caráter persecutório – sintoma este que acusa já algum grau de desagregação mental, um corolário do miasma cancerínico. Uma seqüência como essa já foi detectada na experimentação do medicamento Haliaetus leucocephalus por pessoas sadias.

Esclareçamos que a maioria dos sujeitos que se apresentam com o miasma cancerínico em atividade, pode não esboçar todo o cortejo sintomático dessa diátese. Pela experiência de alguns homeopatas (CORPAS, 1987; TRAVERSO, 2001) a maioria das pessoas costuma manifestar apenas alguns sintomas ou algumas vertentes semiológicas do miasma cancerínico. Uns padecem sintomas da esfera mental (distúrbios do conteúdo do pensamento e do julgamento...), ficando poupadas as funções somáticas vitais. Outros, ao contrário, têm poucas alterações destrutivas da mente, recaindo quase toda sua pulsão energética no processo de desagregação celular para a formação de neoplasmas. Fôra esta segunda situação a que mais observamos em nossas entrevistas.

A participante E1 teve seu miasma sifilínico - aqui ilustrado pelo sintoma desejo de matar - inicialmente suprimido por mecanismos psíquicos e convertido para um estado aparentemente menos agressivo, representado este pelo sintoma sofrer silencioso – uma manifestação de terreno sicótico ou psórico. Como o miasma sicótico resultou não da cura do traço sifilínico, mas da supressão deste, então conjecturamos que a sycosis seguiu se aprofundando, reativando o miasma sifilínico e terminou por cancerinizar a entrevistada. Esta desenvolveu adenocarcinoma de reto, com metástases de natureza expansiva e compressiva em fígado, cavidade abdominal, diafragma e retroperitônio. Faleceu 2 meses após a entrevista.

Sobre a auto-culpabilização, um sentimento também eminentemente sifilínico ou pré-cancerínico (não estamos dizendo pré-canceroso), temos a resgatar a interessante narrativa de E6. Essa participante teve seu núcleo de sofrimento categorizado, excepcionalmente, também na categoria 1. Dizemos “excepcionalmente” porque é o único caso dessa categoria em que a violência fôra cometida pela própria entrevistada: ela assassinou uma colega de trabalho: “Pra você ter uma idéia, eu não sei o que é dormir 3 horas numa noite, eu não durmo, eu não mais consegui dormir. Isso foi pior que se eu tivesse ficado lá na cadeia 20 anos. Acho que eu teria lá na cadeia eu teria me revoltado, isso teria sido melhor do que eu ter fugido e acontecer o que aconteceu, puxa vida!” O diagnóstico biopatográfico mais saliente em todo seu relato foi remorso/culpa, ou seja, este foi seu único núcleo de sofrimento que pudemos inferir. Embora tenha havido outros sofrimentos, este foi o padecimento nuclear, que ela confessou não ter superado com o passar do tempo.

Tornando ao assunto dos conflitos de gênero, especulação semelhante, no que se refere à dinâmica miasmática, não podemos deixar de tecer acerca do núcleo de sofrimento de E12, também representado pela rubrica remorso/culpa e também o único exemplo da categoria temática 3 em que a infidelidade conjugal foi praticada pela própria entrevistada: “...meu Deus do céu, a gente se arrependia, de ver o marido, o filho ali e saber que eu tinha ido com outro, a gente ficava assim explodindo [...] Foi muito difícil, muito complicado pra mim [...] Quem sabe esse sentimento forte de culpa me levou a ter esse problema? Porque o câncer também é isso, alguma decepção...” O que causaria mais sofrimento para ela: o ato da infidelidade ou os possíveis sentimentos pelo ato não realizado (desejo contido, insatisfação sexual, necessidade de se libertar de amarras, necessidade de experimentar...)?

Vimos que o “segundo sexo”, na linguagem de Simone de Beauvoir, computou também bastante desvantagem nos atritos discriminados na categoria temática 2. Nesta abundaram questões de estirpe não conjugal. Deduzimos que desapontamento, humilhação e ressentimento, todos presentes nessa categoria, não foram atributos exclusivos das disfunções matrimoniais, mas também de relações mal havidas com pai, sogro, cunhado e filho. Apenas três entrevistadas não mencionaram eventos geradores de insatisfação pessoal (nesses quatro tipos de relação de parentesco) no que se refere à falta de liberdade, de segurança e de apreço em suas vidas. E7, por exemplo, estava concluindo seu relato, no qual não havíamos percebido nenhuma desarmonia digna de nota no tocante à sua vida conjugal, familiar e vida de solteira. Eis que quando já íamos desligar o gravador, ela nos surpreende com o olhar mais melancólico de toda sua entrevista e nos confidencia a maior frustração de sua vida: meu pai nunca me deixou estudar”, ameaçando esboçar um pranto que ela mesma tratou de conter.

A perda de entes queridos constituiu uma das categorias temáticas (CT-4) com maior carga de sofrimento nuclear. Além do sentimento de pesar (a forma de expressão de perda que mais encontramos), tivemos também a surpresa de encontrar desapontamento e até mesmo ressentimento (E17) com o próprio pai, por ter ele morrido embriagado: “Tu voltou atrás numa pedra muito grande [...] Meu pai morreu bêbado. Isso aí é uma dor, essa é uma dor muito grande. A gente não gostava nem de lembrar aquilo. Ele morreu e morreu bêbado, que a gente nunca quis aceitar [...] Morreu com 54 anos e bêbado [...] nunca pude esperar de meu pai isso...”

À exceção de E17, todos as outras sete mulheres que manifestaram condoimento importante por morte de alguém, o fizeram na forma de pesar e demonstravam estado de inconsolabilidade. Embora o foco temporal de nossa investigação dissesse respeito à anterioridade ao diagnóstico de câncer, foi marcante a coincidência do agravamento da doença de E3 com o enlutamento pela morte de sua mãe. A entrevistada, que curiosamente desenvolveu melanoma em área completamente protegida do sol (oco axilar), teve metástases pulmonares poucas semanas após a morte da mãe. Seja tal evolução mera coincidência ou não com o prognóstico porventura esperado para o tipo histológico do tumor, o fato é que a própria entrevistada, já com pouco fôlego devido ao acometimento respiratório, foi enfática ao afirmar: “...depois que ela faleceu (choro), pra mim sinto falta todo dia (choro) [...] Eu vejo assim, que depois que minha mãe faleceu minha doença teve um avanço. Pra mim ela era a coisa mais importante de minha vida e hoje não vejo mais sentido [...]” E3 faleceu dois meses depois da entrevista. Em E14 observamos a proximidade temporal de menos de um ano entre a morte da mãe e a recidiva do câncer de mama.

Seja qual for o evento ocorrido nas relações humanas, o que importa, sobretudo, até mesmo mais que os sentimentos com os quais o sujeito percebe tais eventos, mais importante que isso, para o processo de patogenização, são as atitudes com as quais o mesmo sujeito lida com os sentimentos e enfrenta o evento. De acordo conosco está Paiva (1992), quando grifa a importância da inabilidade de expressar o ódio acompanhado de culpa e depressão na gênese do câncer. Em nosso estudo percebemos que as mulheres que manifestaram atitudes de enfrentamento/oposição/ruptura (6 casos) em relação aos traumas sofridos estavam tendo melhor prognóstico de saúde do que as que se alinharam às diversas situações com atitudes de concessão/submissão (5 casos). Igualmente nefasto parece ter sido o padrão comportamental de resignação/sofrer silencioso (8 casos). As duas entrevistadas que representaram nitidamente esse protótipo já não estão entre nós (E1 e E3). Seria uma investigação complementar bastante interessante acompanhar a trajetória de vida de nossas entrevistadas ou de outras mulheres portadoras de câncer a partir dos sentimentos manifestos por elas antes do diagnóstico ou durante a vigência da doença, averiguar eventuais mudanças de atitudes e de comportamento e comparar com o prognóstico clínico e miasmático.

Ficou evidente que a maioria das entrevistadas verbaliza alguma crença na relação entre o adoecimento por câncer e algum sofrimento emocional que vivenciaram em uma ou outra etapa de sua existência. Foram 15 mulheres que manifestaram essa opinião, algumas delas bastante convictas. Alguns fatores sentimentais apontados pelas voluntárias do estudo (como tendo ligação com o surgimento ou com agravamento do câncer) coincidem com alguns núcleos de sofrimento que percebemos durante e após a realização das entrevistas: preocupação excessiva (E19), ressentimento (E17) e remorso/culpa (E12). Essas três mulheres utilizaram exatamente os termos que nós tomamos para designar esses três núcleos de sofrimento. Em alguns outros casos a entrevistada se referiu diretamente ao evento (infidelidade do marido, por ex.) como possível causa de sua doença e não ao sentimento (raiva, por ex.). De qualquer forma, em alguns casos foi notória a coincidência entre nossa avaliação biopatográfica e os fenômenos presumidos pelas entrevistadas como tendo ligação causal ou agravadora de sua doença.

CONSIDERAÇÕES FINAIS


Conforme os resultados obtidos, podemos afirmar que, antes do diagnóstico de câncer, houve incontestável abundância de vivências emocionais estressantes na vida de mulheres que, posteriormente, desenvolveram malignidades teciduais. Tanta coincidência seqüencial entre sofrimento emocional e adoecimento por câncer torna embaraçoso supor apenas casualidade e deixar de cogitar relação de causalidade entre uma coisa e outra.

Na maioria das mulheres abordadas detectamos sentimentos desestabilizadores da homeostase psíquica. Foram sentimentos que não puderam ser contidos ou resolvidos pelos mecanismos básicos de superação ou de proteção do ego e, assim, progrediram de um nível miasmático mais superficial (nível psórico) para níveis mais profundos (nível sifilínico). Os principais eventos causadores de sofrimento nas entrevistadas foram: perda de entes queridos; infidelidade conjugal; tratamento indelicado ou violento por parte dos convivas; falta de liberdade, de segurança e de apreço. Esses eventos causaram, mais intensamente, os seguintes núcleos de sofrimento: pesar, mortificação, remorso e ressentimento. Em alguns relatos, essas rubricas biopatográficas, que representam profundidade maior de padecimento, foram precedidas por sentimentos mais superficiais e potencialmente menos graves em relação à dinâmica miasmática, tais como nostalgia, frustração, sensação de ser depreciada e preocupação. Nos casos de maior agressividade do tumor, com avanço ou disseminação mais precoce, ficou evidente a predominância de núcleos mais profundos de sofrimento emocional antes do diagnóstico ou antes do agravamento do câncer.

Nas mulheres com maior gravidade do quadro clínico, incluindo as duas que já faleceram, foram notórias as atitudes de concessão e submissão concernentes às pessoas e males que suportaram em suas vivências familiares. As que responderam com atitudes de enfrentamento, oposição e ruptura nos relacionamentos estavam tendo melhor evolução de sua malignidade (até o dia da entrevista).

Dentre as interações conflituosas, os eventos e sentimentos decorrentes de relações de gênero sobrepujaram os de outros intercursos. No que tange à freqüência e profundidade de sofrimento, as questões de natureza conjugal se destacaram sobre os conflitos de gênero de índole familiar não-conjugal. A infidelidade conjugal foi o evento que mais se destacou nas relações conflituosas de gênero, despontadamente a infidelidade masculina. Esta nunca foi confessada pelo praticante antes de ser descoberta pela entrevistada. Nossa curiosidade diz respeito ao prognóstico miasmático em relação a esta peculiaridade: será que uma relação mais franca, onde o cônjuge tivesse revelado à esposa suas aventuras extra-maritais, antes que a esposa descobrisse, será que isso não evitaria progressão do sofrimento a níveis psíquicos profundos? Será que esse núcleo de sofrimento se constituiu a partir da infidelidade ou a partir da falta de sinceridade na relação conjugal? Ou por ambas as coisas?

É público e notório que a grande maioria das mulheres que padecem sofrimentos emocionais não desenvolvem câncer, pois, se assim fosse, haveria poucas mulheres sem câncer na face da terra. Isso, todavia, com base racional na estrutura epistemológica desta nossa pesquisa, não invalida a constatação de que a maioria das mulheres que desenvolveram câncer padeceu sofrimentos emocionais importantes antes mesmo da suspeita de terem a doença.

Pelas evidências de relação causal contributiva dos aspectos sentimentais no processo de carcinogênese, endossamos a sugestão, já proposta por outros colegas e pesquisadores, que as pessoas que enfrentam ou enfrentaram sobrecargas emocionais negativas sejam precocemente abordadas por profissionais de saúde e educação que valorizem todos os requisitos integradores da noção de pessoa humana – espiritualidade, subjetividade, corporeidade, liberdade e alteridade – e com eles saibam lidar. Como exemplo de abordagens profilático-terapêuticas que primam por esses quesitos, podemos citar a homeopatia unicista, a terapia centrada no cliente, o psicodrama, a antroposofia, a psicologia sistêmica e a gestalt-terapia. Dessas modalidades, a homeopatia unicista é a que efetivamente não faz disjunção terapêutica entre as manifestações orgânicas e mentais de uma mesma enfermidade ou de um mesmo indivíduo em fases distintas de seu adoecer, tendo maior competência para lidar com as diversas vertentes funcionais do amplo conceito de pessoa humana . É nossa obrigação reivindicar a oferta de tais serviços também para a grande parcela socioeconomicamente mais carente da população e colaborar com as instituições ou voluntários que prestam algum tipo de apoio psicossocial aos doentes de câncer.

Urge enfatizar, nos currículos de formação dos profissionais das áreas de saúde, educação e de ciências humanas, a validade prática das diversas teorias do adoecer e dos ensinamentos da homeopatia e da antropologia sobre o processo de doença e de cura, ao invés de priorizar apenas os postulados da medicina galênica, os quais, infelizmente, ainda imperam na academia e nas entidades que atuam nos diversos níveis de complexidade de assistência à saúde.



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