A performance passou a ser aceita como meio de expressão artística independente na década de 1970



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PREFÁCIO
A performance passou a ser aceita como meio de expressão artística independente na década de 1970. Naquela época, a arte conceitual - que insistia numa arte em que as idéias fossem mais importantes que o produto e numa arte que não pudesse ser comprada ou vendida - estava em seu apogeu, e a performance era frequentemente uma demonstração ou uma execução dessas idéias. Desse modo, a performance transformou-se na forma de arte mais tangível do período. Os espaços dedicados a arte da performance surgiram nos maiores centros artísticos internacionais, os museus patrocinavam festivais, as escolas de arte introduziram a performance em seus cursos e as revistas especializadas começaram a aparecer.

Foi durante esse período que esta primeira história da performance foi publicada (1979), demonstrando que havia uma longa tradição de artistas voltando-se para a performance ao vivo como um meio, entre muitos outros, de expressar suas idéias, e que esses eventos desempenharam um importante papel na história da arte. É interessante notar que a performance, até aquela época, fora insistentemente deixada de lado no processo de avaliação do desenvolvimento artístico, principalmente no período moderno, o que se deveu mais à dificuldade de situá-la na história da arte do que a qualquer omissão deliberada.

A amplitude e a riqueza dessa história tornou ainda mais evidente esse problema da omissão. Afinal, os artistas não usavam a performance simplesmente como um meio de atrair publicidade sobre si próprios. A performance tem sido vista como uma maneira de dar vida a muitas idéias formais e conceituais nas quais se baseia a criação artística. As demonstrações ao vivo sempre foram usadas como uma arma contra os convencionalismos da arte estabelecida.

Essa postura radical fez da performance um catalisador na história da arte do século XX; sempre que determinada escola - quer se tratasse do cubismo, do minimalismo ou da arte conceitual - parecia ter chegado a um impasse, os artistas se voltavam para a performance como um meio de demolir categorias e apontar para novas direções. Além do mais, no âmbito da história da vanguarda - refiro-me aqui aos artistas que, sucessivamente, lideraram o processo de ruptura com as tradições -, a performance esteve durante o século XX no primeiro plano de tal atividade: uma vanguarda da vanguarda. Muito embora a maior parte do que atualmente se escreve sobre a obra dos futuristas, construtivistas, dadaístas e surrealistas continue a se concentrar nos objetos de arte produzidos em cada um desses períodos, esses movimentos amiúde encontravam suas raízes e tentavam solucionar questões difíceis por meio da performance. Quando os membros desses grupos ainda estavam na faixa dos vinte ou trinta anos, foi na performance que eles testaram suas idéias, só mais tarde expressando-as em forma de objetos. A maioria dos primeiros dadaístas de Zurique, por exemplo, eram poetas, artistas de cabaré e performers que, antes de criar os próprios objetos dadaístas, expuseram obras de movimentos então recentes, como o expressionismo. Da mesma maneira, quase todos os dadaístas e surrealistas parisienses foram poetas, escritores e agitadores antes de passar a criação de objetos e pinturas surrealistas. O texto de Breton Surrealismo e pintura, escrito em 1928, foi uma tentativa tardia de encontrar uma possibilidade de expressão pictórica para o ideário surrealista e, como tal, continuou a colocar a questão: "O que é pintura surrealista?" ainda por alguns anos depois de sua publicação. Pois não foi o mesmo Breton que, quatro anos antes, tinha afirmado que o acte gratuit surrealista por excelência seria sair atirando a esmo por uma rua cheia de gente?

0s manifestos da performance, desde os futuristas até nossos dias, têm sido a expressão de dissidentes que tentaram encontrar outros meios de avaliar a experiência artística no cotidiano. A performance tem sido um meio de dirigir-se diretamente a um grande público, bem como de chocar as platéias, levando-as a reavaliar suas concepções de arte e sua relação com a cultura. Por outro lado, o interesse do público por esse meio de expressão artística, particularmente na década de 1980, provém de um aparente desejo desse público de ter acesso ao mundo da arte, de tornar-se espectador de seus rituais e de sua comunidade distinta, de deixar-se surpreender pelas apresentações inusitadas, sempre transgressoras, que caracterizam as criações desses artistas. A obra pode ser apresentada em forma de espetáculo solo ou em grupo, com iluminação, música ou elementos visuais criados pelo próprio performer ou em colaboração com outros artistas, e apresentada em lugares como uma galeria de arte, um museu, um "espaço alternativo", um teatro, um bar, um café ou uma esquina. Ao contrário do que ocorre na tradição teatral, o performer é o artista, raramente um personagem, como acontece com os atores, e o conteúdo raramente segue um enredo ou uma narrativa tradicional. A performance pode ser uma série de gestos íntimos ou uma manifestação teatral com elementos visuais em grande escala, e pode durar de alguns minutos a muitas horas; pode ser apresentada uma única vez ou repetida várias vezes, com ou sem um roteiro preparado; pode ser improvisada ou ensaiada ao longo de meses.

Quer seja um ritualismo tribal, uma representação medieval da Paixão de Cristo, um espetáculo renascentista ou as soirées organizadas pelos artistas da década de 1920 em seus ateliês de Paris, a performance conferiu ao artista uma presença na sociedade. Dependendo da natureza da performance, essa presença pode ser esotérica, xamanística, educativa, provocadora ou um mero entretenimento. Os exemplos renascentistas chegam até mesmo a mostrar o artista no papel de criador e diretor de espetáculos públicos, desfiles fantásticos e triunfais que frequentemente exigiam a construção de primorosos edifícios temporários, ou de eventos alegóricos que utilizavam o talento multimídia atribuído ao homem do Renascimento. Uma batalha naval simulada, concebida por Polidoro da Caravaggio em 1589, foi representada no átrio do Palácio Pitti de Florença, especialmente inundado para a ocasião; Leonardo da Vinci vestiu seus pruf0rmers como planetas e os pôs a declamar versos sobre a Idade de Ouro em um quadro vivo intitulado Paradiso (1490); e o artista barroco Gian Lorenzo Bernini montou espetáculos para os quais escreveu roteiros, fez o cenário e desenhou os figurinos, construiu elementos arquitetônicos e chegou a criar cenas realistas de uma inundação, como fez em L'lnondazione [A Inundação do Tibre], de 1638.

A história da performance no século XX é a história de um meio de expressão, maleável e indeterminado, com infinitas variáveis, praticado por artistas impacientes com as limitações das formas mais estabelecidas e decididos a pôr sua arte em contato direto com o público. Por esse motivo, sua base tem sido sempre anárquica. Por sua própria natureza, a performance desafia uma definição fácil ou precisa, indo além da simples afirmação de que se trata de uma arte feita ao vivo pelos artistas. Qualquer definição mais exata negaria de imediato a própria possibilidade da performance, pois seus praticantes usam livremente quaisquer disciplinas e quaisquer meios como material - literatura, poesia, teatro, música, dança, arquitetura e pintura, assim como vídeo, cinema, slides e narrações, empregando-os nas mais diversas combinações. De fato, nenhuma outra forma de expressão artística tem um programa tão ilimitado, uma vez que cada performer cria sua própria definição ao longo de seu processo e modo de execução.

A terceira edição deste livro é a atualização de um texto que, em 1978, reconstituiu os passos de uma história até então não contada. Como uma primeira história, colocava questões sobre a própria natureza da arte e explicava o importante papel da performance no desenvolvimento da arte do século XX. Mostrava de que modo os artistas optaram pela performance para se libertarem dos meios de expressão dominantes - a pintura e a escultura - e das limitações de se trabalhar dentro dos sistemas de museus e galerias, e de que modo eles a usaram como uma forma provocativa de responder às mudanças que então se operavam - quer políticas, no sentido mais amplo, quer culturais. Uma edição posterior revelou o papel desempenhado pela performance na destruição das barreiras entre as belas-artes e a cultura popular. Nela também se mostrava como a presença viva do artista e o enfoque em seu corpo se tornaram cruciais para as concepções acerca do "real'', além de constituírem uma base para o desenvolvimento das instalações, da videoarte e da fotografia de arte em fins do século XX. Esta última edição descreve o enorme aumento do número de performers e de espaços dedicados à realização da performance, não apenas na Europa e nos Estados Unidos, mas no mundo todo, à medida que ela foi se tomando o meio de expressão escolhido para a articulação da "diferença” nos discursos sobre multiculturalismo e globalização. O livro também mostra em que medida a academia se voltou para a arte da performance como uma importante referência nos estudos culturais - quer em filosofia, arquitetura ou antropologia -e desenvolveu uma linguagem teórica para o exame crítico de seu impacto sobre a história intelectual. Ainda vale a ressalva, colocada na primeira edição, de que o livro não pretende ser um registro de todos os performers que estiveram em atuação no século XX. O que se pretende mostrar é antes o desenvolvimento de uma sensibilidade. O objetivo deste livro permanece o mesmo - levantar questões e chegar a novos entendimentos -; compete-lhe apenas dar uma idéia de uma vida que está além de suas páginas.


Nova York, fevereiro de 1978, janeiro de 1987, outubro de 2000.


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