A perspectiva sociológica – o homem na sociedade – peter berger



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A PERSPECTIVA SOCIOLÓGICA – O HOMEM NA SOCIEDADE – PETER BERGER
Ao chegarem a uma certa idade, as crianças ficam profundamente admiradas com a possibilidade de se localizarem num mapa.Parece estranho que a vida familiar de uma pessoa tivesse transcorrido inteiramente numa área delineada por um sistema de coordenadas impessoais (e até então desconhecidas) na superfície de uma mapa.As exclamações da criança – “Estive aqui”, “Agora estou aqui!” – revelam o assombro pelo fato de que o local das férias do verão passado, um local marcado na memória por fatos pessoais como a propriedade do primeiro cachorro ou uma coleção secreta de minhocas, tenha latitudes e longitudes específicas, determinadas por estranhos que não conhecem o cachorro, as minhocas ou a própria criança.Essa localização do “eu” em configurações concebidas por estranhos constitui um dos aspectos importantes daquilo que, talvez eufemisticamente, é chamado de “crescer”.Uma pessoa participa do mundo real dos adultos por possuir um endereço.A criança que talvez recentemente poria no correio uma carta endereçada “A vovô” agora informa a uma colega caçador de minhocas seu endereço exato – rua, cidade, estado e o que mais for necessário – e vê sua tentativa de ingresso na cosmovisão adulta legitimada espetacularmente pela chegada da carta do amigo.

À medida que a criança continua a aceitar a realidade dessa cosmovisão, continua a colecionar endereços – “Tenho seis anos”, “Meu nome é Brown, como o do meu pai, é porque meus pais são divorciados, “Sou presbiteriano”, “Sou americano”, e, quem sabe, “Estou na classe especial dos meninos inteligentes, porque meu Q.I é 130”.Os horizontes do mundo, da maneira como os adultos o definem, são determinados pelas coordenadas de cartógrafos remotos.Acriança pode exibir identificações alternadas ao se apresentar como pai ao brincar de casinha, como um cacique indígena ou como Davy Crockett, mas não deixará de saber em nenhum momento que está apenas brincando e que os fatos reais a seu respeito são aqueles registrados em sua ficha escolar.Abandonamos as aspas e assim denunciamos que também nós fomos induzidos à sanidade em nossa infância – é claro que devíamos escrever todas as palavras chaves entre aspas: “saber”, “reais”, “fatos”.A criança sadia é aquela que acredita no que está registrado em sua ficha escolar.O adulto normal é aquele que vive dentro das coordenadas que lhe foram atribuídas.

Aquilo a que se chama consenso geral é na verdade o mundo dos adultos aceito como óbvio – a ficha escolar transformou-se numa ontologia.Agora a personalidade passa a ser identificada, naturalmente, com a maneira como a pessoa está localizada com precisão no mapa social.O que isto significa para a identidade e as idéias de uma pessoa será tratado mais extensamente no próximo capítulo.O que nos interessa no momento é a maneira como essa localização informa a um indivíduo aquilo que ele pode fazer e o que pode esperar da vida.Estar localizado na sociedade significa estar no ponto de intersecção de forças sociais específicas.Geralmente quem ignora essas forças age com risco.A pessoa age em sociedade dentro de sistemas cuidadosamente definidos de poder e prestígio.E depois que aprende sua localização, passa também a saber que não pode fazer muita coisa para mudar a situação.

A maneira como os indivíduos de classe mais baixa usam o pronome “eles” exprime com bastante exatidão essa consciência da heteronomia da vida de uma pessoa. “Eles” arrumam as coisas dessa ou daquela maneira, “eles” dão o tom, “eles” fazem as regras.Talvez não seja muito fácil identificar esses “eles” com determinados indivíduos ou grupos.E o “sistema”, o mapa traçado por estranhos, sobre o quel tem-se de continuar a rastejar.Mas isto seria uma maneira unilateral de se considerar o “sistema”, se se pressupõe que este conceito perde o significado quando uma pessoa passa para as camadas superiores da sociedade.A rigor, haverá uma maior sensação de liberdade de movimento e decisão, o que será verdade.Mas as coordenadas básicas dentro das quais se pode mover e tomar decisões ainda terão sido traçadas por outros, na maioria estranhos, muitos deles mortos, há muito tempo.Até mesmo o autocrata total exerce sua tirania contra uma constante resistência, não necessariamente resistência política, mas a resistência do costume, das convenções e do simples hábito.As instituições trazem consigo um princípio de inércia, talvez alicerçada, em última instância, na rocha firme da estupidez humana.O tirano constata que, embora ninguém se atreva a contestá-lo, mesmo assim suas ordens serão frequentemente anuladas por mera falta de compreensão. A trama alienígena da sociedade se reafirma até mesmo diante do terror. Entretanto, deixemos de lado a questão da tirania.Nos níveis ocupados pela maioria dos homens, inclusive o autor e (supomos) quase todos os leitores destas linhas, a localização na sociedade constitui uma definição de regras que têm de ser obedecidas.

Como vimos, o consenso geral da sociedade entende isto.O sociólogo não contradiz esse entendimento.Ele o aguça, analisa suas raízes, às vezes o modifica ou o amplia.Veremos mais tarde que a perspectiva sociológica finalmente ultrapassa o consenso geral do “sistema” e de nosso cativeiro nele.Entretanto, na maioria das situações sociais específicas que o sociólogo se dispõe a analisar, ele encontrará poucos motivos para desmentir a idéia de que são “eles” que mandam...Ao contrário, “eles” terão ainda mais ascendência sobre nossas vidas do que julgávamos antes da analisa sociológica.Este aspecto da perspectiva sociológica pode ser melhor esclarecido pelo exame de duas importantes áreas de investigação – o controle social e a estratificação social.

Controle social é um dos conceitos mais utilizados em sociologia.Refere-se aos vários meios usados por uma sociedade para “enquadrar” seus membros recalcitrantes.Nenhuma sociedade pode existir sem controle social.Até mesmo um pequeno grupo de pessoas que se encontrem apenas ocasionalmente terá de criar seus mecanismo de controle para que o grupo não se desfaça em muito pouco tempo.É escusado dizer que os instrumentais de controle social variam muitíssimo de uma situação social para outra.A oposição numa organização comercial pode acarretar aquilo que os gerentes de pessoal chamam de “entrevista final” e que as organizações criminais chamam de último passeio de automóvel.Os métodos de controle variam de acordo com a finalidade e o caráter do grupo em questão.Em qualquer um dos casos, os mecanismos sociais funcionam de maneira a eliminar membros indesejáveis e (como foi enunciado de maneira clássica pelo Rei Christophe, o Haiti, quando mandou executar um décimo de seus trabalhadores) “para estimular os outros”.

O meio supremo e, sem dúvida, o mais antigo, de controle social é a violência física.Na sociedade selvagem das crianças ainda é o mais importante.Entretanto, até mesmo nas polidas sociedades das modernas democracias, o argumento final é a violência.Nenhum Estado pode existir sem uma força policial ou seu equivalente, em poderio armado.Essa violência final pode não ser usada com freqüência.Poderá haver inúmeras medidas antes de sua aplicação, à guisa de advertência e reprimenda.Mas se todas as advertências forem ignoradas, mesmo numa questão secundária como pagar uma multa de trânsito, o ato final será o aparecimento de dois policiais à porta do cidadão, com algemas e um tintureiro.Até mesmo o guarda moderadamente cortês que entregou o talão de multa provavelmente usava uma arma – em caso de ser necessária...E até mesmo na Inglaterra, onde os guardas não portam armas, receberá uma se a situação exigir.

Nas democracias ocidentais, onde prevalece a ênfase ideológica na submissão voluntária às leis votadas por representantes populares, essa presença constante da violência oficial é menos visível.O importante é que todos saibam que ela existe.A violência é o alicerce supremo de qualquer ordem política.O consenso geral da sociedade percebe isto, o que talvez tenha alguma coisa a ver com a generalizada relutância popular em eliminar a pena capital do Direito Penal (embora provavelmente essa relutância se baseie em doses iguais de estupidez, superstição e do bestialismo congênito que os juristas partilham com a maior parte de seus concidadãos).Contudo, a afirmativa de que a ordem política repousa em última análise na violência também é válida em relação aos Estados que aboliram a pena capital.Sob certas circunstâncias, os membros da polícia estadual de Connecticut (onde uma cadeira elétrica adorna a penitenciária central) recebem permissão para usar suas armas, mas a mesma possibilidade está aberta a seus colegas de Rhode Island, onde as autoridades policiais e penitenciárias não desfrutam das vantagens da pena capital.Não é preciso ressaltar que nos países de ideologia manos democrática e humanitária os instrumentos de violência são exibidos – e empregados – com muito menos discrição.

Como o uso constante da violência seria impraticável, e além disso ineficiente, os órgãos oficiais de controle social confiam sobretudo na influência inibidora da disponibilidade dos meios de violência.Por vários motivos, essa atitude geralmente se justifica em qualquer sociedade que não esteja à beira da dissolução catastrófica (como, digamos, em situações de revolução, derrota militar ou desastre natural).O motivo mais importante é o fato de que, mesmo nos Estados ditatoriais ou terroristas, um regime tende a ganhar aquiescência e até aprovação com a simples passagem do tempo.Não cabe aqui entrar na dinâmica sócio-psicológica deste fato.Nas sociedades democráticas há no mínimo a tendência de a maioria das pessoas aceitar os valores em nome dos quais os meios de violência são empregados (isto não significa que estes valores tenham de ser bons – a maioria dos brancos em algumas comunidades do Sul dos Estados Unidos pode ser, por exemplo, favorável ao uso da violência, por parte dos serviços policiais, a fim de manter a segregação – mas significa que a utilização dos meios de violência é aprovada pelo grosso da população).Em qualquer sociedade normal a violência é utilizada com parcimônia e como último recurso, e a mera ameaça dessa violência final basta para o exercício cotidiano do controle social.Para os fins a que nos propomos, o fato mais importante a salientar é que quase todos os homens vivem em situações sociais nas quais, se todos os outros meios de coerção falharem, a violência pode ser oficial e legalmente usada contra eles.

Compreendido assim o papel da violência no controle social, torna-se claro que os, por assim dizer, penúltimos meios de coerção são quase sempre mais importantes para a maioria das pessoas.Embora haja uma certa monotonia quanto aos métodos de intimidação imaginados pelos juristas e pelos policiais, os instrumentais subviolentos de controle social apresentam grande variedade e, às vezes, muita imaginação.É provável que, após os controles políticos e legais, se deva situar a pressão econômica.Poucos meios coercitivos são tão eficientes como aqueles que ameaçam o ganha-pão ou o lucro.Tanto os empregadores como os trabalhadores usam com eficácia essa ameaça como instrumento de controle em nossa sociedade .Entretanto, os meios econômicos de controle também são eficientes fora das instituições que compreendem a “economia”.As universidades e as igrejas utilizam as sanções econômicas, com a mesma eficiência, a fim de impedir seu pessoal de se entregar a uma conduta discordante que as respectivas autoridades julgarem ultrapassar os limites do aceitável.Talvez não seja realmente ilegal que um ministro religioso seduza sua organista, mas a ameaça de ser impedido para sempre do exercício de sua profissão constituirá um controle muito mais eficiente sobre essa tentação que a possível ameaça de ter de ir para a cadeia.É fora de dúvida não ser ilegal um ministro expor sua opinião sobre assuntos que a burocracia eclesiástica preferia ver sepultados no silêncio, mas a possibilidade de passar o resto da vida em paróquias rurais de baixa remuneração constitui realmente um argumento muito poderoso.É claro que tais argumentos são empregados mais abertamente em instituições econômicas propriamente ditas, mas a utilização de sanções econômicas nas igrejas e universidades não difere muito, em seus resultados, da que se verifica no mundo dos negócios.

Onde quer que seres humanos vivam ou trabalhem em grupos compactos, nos quais são conhecidos pessoalmente e aos quais estão ligados por sentimentos de lealdade pessoal (aquilo que os sociólogos chamam de grupos primários), mecanismos de controle a um só tempo muito potentes e muito sutis são constantemente aplicados ao transgressor real ou potencial.Tratam-se dos mecanismos de persuasão, ridículo, difamação e opróbio.Já se descobriu que em discussões grupais que se estendem durante um certo período, os indivíduos modificam suas opiniões originais, ajustando-as à norma grupal, que corresponde a uma espécie de média aritmética de todas as opiniões representadas no grupo.O ponto a que leva essa norma depende obviamente do grupo.Por exemplo, se tivermos um grupo de vinte canibais discutindo o canibalismo com um não-canibal, as probabilidades maiores são de que ao fim este último saia convencido e que, com apenas algumas reservas para manter as aparências (referentes, digamos, ao consumo de parentes próximos), cederá completamente ao ponto de vista da maioria.Mas se tivermos uma discussão entre dez canibais que consideram a carne de pessoas de mais de sessenta anos como dura demais para um paladar apurado e dez outros canibais que estabelecem o limite aos cinqüenta anos, é provável que por fim o grupo concorde em estabelecer o limite em cinqüenta anos, refugando como alimento os prisioneiros que ultrapassam esta idade.Assim se processa a dinâmica grupal.O que jaz no fundo dessa pressão aparentemente inevitável no sentido de um consenso, será provavelmente um profundo desejo humano de ser aceito, talvez por qualquer grupo que estiver à mão.Esse desejo pode ser manipulado com toda eficiência, como bem sabem os terapistas de grupo, os demagogos e outros especialistas no campo da “engenharia de consenso”.

O ridículo e a difamação são instrumentos potentes de controle social em grupos primários de todas as espécies.Muitas sociedades usam o ridículo como um dos principais controles sobre crianças – a criança obedece à norma não por receio de castigo, mas para não ser alvo de zombaria.Em nossa própria cultura, isto tem constituído importante medida disciplinar entre os negros do Sul.No entanto, a maioria das pessoas já sentiu o medo arrepiante de cair no ridículo em alguma situação social.A difamação, ou o mexerico, como é bem sabido, é de especial eficácia em pequenas comunidades, onde a maior parte das pessoas conduz suas vidas num alto grau de visibilidade e possibilidade de inspeção por parte de seus vizinhos.Em tais comunidades, o disse-me-disse é um dos principais canais de comunicação, essencial à manutenção da trama social.Tanto o ridículo como a difamação podem ser manipulados deliberadamente por qualquer pessoa inteligente que tenha acesso às suas linhas de transmissão.

Finalmente, uma das punições mais devastadoras à disposição de uma comunidade humana consiste em submeter um de seus membros ao opróbio e ostracismo sistemáticos.De certa forma é irônico constatar que este é um mecanismo de controle favorito de grupos que se opõem em princípio ao uso da violência.Exemplo disso seria a “rejeição” entre os menonitas.Um indivíduo que quebra um dos principais tabus do grupo (por exemplo envolver-se sexualmente com um estranho) é “rejeitado”.Isto significa que, conquanto possa continuar a trabalhar e viver na comunidade, ninguém jamais lhe dirigirá a palavra.É difícil imaginar um castigo cruel.Entretanto, essas são as maravilhas do pacifismo.

Um dos aspectos do controle social que deve ser salientado é o fato de se basear frequentemente em afirmações fraudulentas.Num capítulo posterior, retomaremos a importância da fraude para uma compreensão sociológica da vida humana; aqui frisaremos apenas que uma concepção de controle social é incompleta, e portanto tendenciosa, se esse elemento não for levado em consideração.Um garotinho pode exercer considerável controle sobre seu círculo de colegas se tiver um irmão maior que, se necessário, possa ser convocado para sovar algum adversário.Contudo, na falta de tal irmão, é possível inventar um.Nesse caso só dependerá do talento de relações públicas do garotinho conseguir traduzir essa invenção em controle real.As mesmas possibilidades de fraude existem em todas as formas de controle social discutidas.É por isso que a inteligência contribui para a sobrevivência quando se trata de competir com a brutalidade, a maldade e recursos materiais.Voltaremos ainda a este ponto.

Podemos, então, considerar que estejamos no centro (isto é, no ponto de maior pressão) de um conjunto de círculos concêntricos, cada um dos quais representa um sistema de controle social.O círculo exterior bem poderá representar o sistema legal e político sob o qual somo obrigados a viver.É o sistema que, contra a vontade da pessoa, lhe cobrará impostos, a convocará para as forças armadas, a fará obedecer as suas inúmeras leis e a seus regulamentos, se necessário a meterá na prisão, e em último recurso a matará.Não é necessário que uma pessoa seja um Republicano direitista, nos Estados Unidos, para se perturbar com a contínua expansão do poder desse sistema, que atinge todos os aspectos concebíveis da vida de uma pessoa.Seria um exercício salutar anotar, durante uma única semana, todas as ocasiões, inclusive as fiscais, em que se sofreu as exigências do sistema político-legal.O exercício pode ser concluído com a soma das multas e/ou sentenças de prisão a que poderia levar a desobediência ao sistema.O consolo que poderia advir de tal exercício consistiria em perceber ou lembrar que os serviços policiais e judiciários são normalmente corruptos e de limitada eficiência.

Outro sistema de controle social que exerce pressão contra a figura solitária no centro dos círculos é o da moralidade, costumes e convenções.Só os aspectos mais urgentes (para as autoridades) desse sistema acarretam sanções legais.Isto não significa, entretanto, que se possa, sem risco, ser imoral, excêntrico ou anticonvencional.Nesse ponto, todos os outros instrumentos de controle social entram em ação.A imoralidade é punida com a perda do emprego, a excentricidade pela perda das possibilidades de se conseguir outro, o anticonvencionalismo pela rejeição dos grupos que respeitam aquilo que consideram ser boas maneiras.O desemprego e a solidão talvez sejam castigos menores que ser levado arrastado pelos policiais, mas talvez a pessoa punida não pense assim.O desafio extremo aos costumes de nossa sociedade, que dispõe de um instrumental de controle bastante desenvolvido, pode levar ainda a outra conseqüência – a definição de uma pessoa como “adoidada”.

A burocracia esclarecida (da qual fazem parte, por exemplo, as autoridades eclesiásticas de algumas denominações protestantes) já não atira seus empregados discordantes no olho da rua, mas ao invés disso os submete a tratamento psiquiátrico.Dessa forma, o indivíduo que não satisfaz os critérios de normalidade estabelecidos pela administração, ou por seu bispo, é ameaçado com desemprego e com a perda de ligações sociais, mas além disso também é estigmatizado como uma pessoa que com toda justiça poderá ser afastada inteiramente da categoria dos homens responsáveis, a menos que dê mostras de remorso (“entendimento”) e resignação (“reação” e “tratamento”).Assim os inúmeros programas de “assistência”, “orientação” e “terapia” levado a efeito em muitos setores da vida institucional contemporânea, fortalecem enormemente o mecanismo de controle da sociedade como um todo, e principalmente daqueles seus argumentos onde as sanções do sistema político-legal não podem ser invocadas.

Contudo, além desses amplos sistemas coercitivos exercidos sobre todos os indivíduos, há ainda outros círculos de controle, menos gerais.A ocupação escolhida por um indivíduo (ou, como geralmente acontece, a ocupação a que foi levado) inevitavelmente o subordina a vários controles, muitas vezes bastante rígidos.Há os controles formais de juntas de licenciamento, organizações profissionais e sindicatos, além, é claro, dos requisitos formais estabelecidos por seus empregadores.Ao lado desses controles formais, há outros informais, impostos por colegas de profissão e companheiros de trabalho.Este ponto também não exige maiores explicações.O leitor poderá alinhar seus próprios exemplos – o médico que participa de um programa de assistência médica pago por antecipação, o agente funerário que anuncia funerais baratos, o engenheiro industrial que não leva em consideração a obsolescência planejada em seus cálculos, o ministro que afirma não estar interessado no tamanho de sua congregação (ou melhor, o que age assim – quase todos dizem isto), o burocrata do governo que regularmente gasta menos que a verba consignada, o operário da linha de montagem que excede as normas tidas como aceitáveis por seus colegas, etc.As sanções econômicas são, naturalmente, as mais comuns e eficientes nesses casos – o médico se vê impedido de trabalhar em todos os hospitais, o agente funerário pode vir a ser excluído de sua associação profissional por “falta de ética”, o engenheiro poderá ser obrigado a entrar para os Voluntários da Paz, como também o ministro e o burocrata (para trabalhar, digamos na Nova Guiné, onde ainda não existe obsolescência planejada, onde os cristãos são raros e muito dispersos e onde a máquina administrativa ainda é bastante pequena para ser relativamente racional) e o operário da linha de montagem poderá vir a descobrir que todas as peãs defeituosas da fábrica sempre acabam em sua banca.Entretanto, as sanções de exclusão social, desprezo e ridículo também podem ser quase intoleráveis.Todo papel ocupacional na sociedade, até mesmo em empregos muito humildes, traz consigo um código de conduta que não pode ser violado impunemente.Normalmente, a obediência a esses código é tão essencial para a carreira de uma pessoa quanto a competência técnica ou a educação.

O controle social do sistema ocupacional é da maior importância porque é i emprego que decide o que uma pessoa pode fazer na maior parte de sua vida – de quais associações ele poderá tornar-se membro, quem serão seus amigos e onde ele poderá morar.Contudo, além das pressões da ocupação de uma pessoa, seus outros envolvimentos sociais também acarretam sistemas de controles, muitos dos quais menos rígidos, outros ainda mais inflexíveis.Os códigos que regem a admissão e permanência em muitos clubes são tão rigorosos quantos os que decidem quem pode tornar-se chefe na IBM (às vezes, felizmente para o atormentado candidato, os requisitos são os mesmos).Em associações menos fechadas, as normas podem ser mais indulgentes e talvez só raramente um membro seja excluído, mas a vida pode se tornar tão desagradável para o persistente não-conformista que sua participação se torne humanamente impossível.É claro que os pontos cobertos por esses códigos tácitos variam amplamente.Podem incluir maneiras de vestir, linguagem, gosto estético, convicções políticas e religiosas, ou simplesmente maneiras à mesa.Em todos esses casos, porém, constituem círculos de controle que circunscrevem efetivamente o âmbito das possíveis ações do indivíduo na situação dada.

Por fim , o grupo humano no qual transcorre a chamada vida privada da pessoa, ou seja, o círculo da família e dos amigos pessoais, também constitui um sistema de controle.Seria erro grave supor que este seja necessariamente o mais débil de todos , apenas por não possuir os meios formais de coerção de alguns dos outros sistemas de controle.É nesse círculo que se encontram normalmente os laços sociais mais importantes de um indivíduo.A desaprovação, a perda de prestígio, o ridículo ou o desprezo nesse grupo mais íntimo têm efeito psicológico muito mais sério que em outra parte.O fato de o chefe concluir que uma pessoa é imprestável pode ter conseqüências econômicas desastrosas, mas o efeito psicológico de tal opinião é incomparavelmente mais devastador para um homem se ele descobrir que sua mulher chegou à mesma conclusão.Além disso, as pressões desse sistema íntimo de controle podem ser exercidas nas ocasiões em que uma pessoa está menos preparada para elas.No trabalho, uma pessoa geralmente está em melhores condições de se resguardar, de se precaver e fingir que está à vontade.O “familismo” americano contemporâneo, um conjunto de valores que dá forte ênfase ao lar como lugar de refúgio das tensões do mundo e da realização pessoal, contribui bastante para esse sistema de controle.Um homem relativamente preparado psicologicamente para oferecer combate em seu escritório estará disposto a fazer qualquer coisa para preservar a precária harmonia de sua vida familiar.Ademais,o controle social daquilo que os sociólogos alemães chamam de “a esfera do íntimo”´e particularmente poderoso devido aos próprios fatores da biografia do indivíduo que entraram em sua formação.Um homem escolhe uma mulher e um bom amigo em atos de auto-definição.Aquelas pessoas que ele conhece mais intimamente são aquelas com que ele tem de contar para sustentar os elementos mais importantes de sua auto-imagem.Portanto, arriscar a desintegração dos relacionamentos com essas pessoas equivale a arriscar perder-se a si mesmo de maneira inapelável.Não é de admirar, portanto, que muitos déspotas no escritório obedeçam prontamente às suas mulheres e tremam diante de um olhar de reprovação dos amigos.

Se voltarmos à imagem de um indivíduo localizado no centro de um conjunto de círculos concêntricos, cada um dos quais representa um sistema de controle social, podemos compreender um pouco melhor que situar-se na sociedade significa situar-se em relação a muitas forças repressoras e coercitivas.O indivíduo que pensando consecutivamente em todas as pessoas que talvez tenha de agradar, desde o inspetor do serviço de rendas internas, até sua sogra, julgar que toda sociedade esteja montada em sua cabeça não deve rejeitar essa idéia como uma perturbação neurótica momentânea.É provável que o sociólogo intensifique essa opinião, por mais que outros orientadores digam tratar-se de uma ilusão.

Outra área importante de análise sociológica que talvez contribua para elucidar o pleno significado da localização na sociedade é a da estratificação social.O conceito de estratificação refere-se ao fato de que toda sociedade compõem-se de níveis inter-relacionados em termos de ascendência e subordinação, seja em poder, privilégio ou prestígio.Em outras palavras, estratificação significa que toda a sociedade possui um sistema de hierarquia.Alguns estratos, ou camadas sociais, são superiores, outros são inferiores.A soma desses estratos constitui o sistema de estratificação de uma determinada sociedade.

A teoria da estratificação é um dos setores mais complexos do pensamento sociológico, e estaria inteiramente fora dos objetivos deste livro apresentar qualquer espécie de introdução ao assunto.Bastará dizer que as sociedades diferem amplamente no tocante aos critérios segundo os quais os indivíduos são levados aos diferentes níveis, e que diversos sistemas de estratificação, utilizando critérios distributivos inteiramente diferentes, podem coexistir na mesma sociedade.É claro que os fatores que determinam a posição de um indivíduo no sistema de estratificação da tradicional sociedade de castas na Índia são muito diferentes dos fatores que determinam sua posição numa moderna sociedade ocidental. E as três principais recompensas da posição social - poder, privilégio e prestígio – com freqüência não se sobrepõe, antes existindo lado a lado em sistemas de estratificação distintos.Em nossa sociedade riqueza muitas vezes leva a poder político, mas não necessariamente.Além disso existem indivíduos poderosos e dotados de pouca riqueza.E o prestígio pode estar ligado a atividades sem nenhuma relação com posição econômica ou política.Essas observações indicam que devemos agir com cautela ao investigar a maneira como a localização na sociedade envolve o sistema de estratificação com sua enorme influência sobre toda a vida de uma pessoa.

O tipo de estratificação mais importante na sociedade ocidental contemporânea é o sistema de classes.O conceito de classes, como a maioria dos conceitos na teoria da estratificação, tem sido definido de várias formas.Para nossos objetivos, será suficiente entender classe como tipo de estratificação no qual a posição geral de uma pessoa na sociedade é determinada basicamente por critérios econômicos.Em tal sociedade, a classe em que se chega é tipicamente mais importante do que a classe em que nasceu (embora a maioria das pessoas admita que esta tenha influência profunda sobre aquela).Além disto, uma sociedade de classes é uma sociedade de alta mobilidade social.Isto significa que as posições sociais não são fixas, que muitas pessoas mudam suas posições para melhor ou para pior no decorrer de sua vida, e que, conseqüentemente nenhuma posição parece inteiramente segura.Por isso, os símbolos da posição de uma pessoa são de grande importância.Isto é, pelo uso de vários símbolos (como objetos materiais, estilos de comportamento, gosto e linguagem, tipos de associação e até opiniões apropriadas) uma pessoa esta´sempre a mostrar ao mundo o ponto a que chegou.É a isso que os sociólogos chamam de símbolos de status que tem despertado grande atenção nos estudos de estratificação.

Max Weber definiu classe em termos das expectativas razoáveis que um indivíduo pode ter.Em outras palavras a classe de uma pessoa determina certas possibilidades, ou oportunidades, quanto ao destino que a pessoa pode esperar ter na sociedade.Todo mundo admite isto em termos estritamente econômicos.Um indivíduo de classe média superior de, digamos, vinte e cinco anos de idade tem muito mais possibilidades de possuir daí a dez anos uma casa elegante, dois carros e uma casa de campo do que outro indivíduo da mesma idade de classe média inferior.Isto não significa que este último não tenha nenhuma possibilidade de obter essas coisas, mas simplesmente que se encontra em desvantagem estatística.Isto não é de modo algum surpreendente, por quanto, de saída, classe foi definida em termos econômicos e uma vez que o processo econômico normal garante que dinheiro atrai dinheiro.Contudo, a classe determina as possibilidades da vida em muitos outros sentidos além do puramente econômico.A posição de classe de uma pessoa determina o nível de educação que seus filhos provavelmente terão.Determina os padrões de assistência médica desfrutados por ela e por sua família, e por conseguinte, as expectativas de vida no sentido literal da palavra.As classes superiores de nossa sociedade alimentam-se melhor, moram melhor, são mais bem educadas e vivem mais do que eu seus concidadãos menos afortunados.Poder-se-à dizer que estas observações são óbvias, mas elas adquirem maior impacto quando se constata que há uma correlação estatística entre a quantidade de dinheiro que uma pessoa ganha por ano e o número de anos que pode esperar poder ganhá-lo.Mas as conseqüências da localização dentro do sistema de classes vão mais além.

As diferentes classes de nossa sociedade não só vivem de maneira diferente quantitativamente, como também vivem em estilos diferentes qualitativamente.Um sociólogo competente, diante de dois índices básicos de classe, como renda e ocupação, é capaz de fazer uma longa lista de prognósticos sobre o indivíduo em questão mesmo que nenhuma outra informação lhe seja dada.Como todas as outras previsões sociológicas, esses prognósticos terão caráter estatístico.Ou seja, serão afirmações de probabilidade e terão uma margem de erro.No entanto, poderão ser bastante precisas.Conhecendo essas duas informações a respeito de determinado indivíduo, o sociólogo será capaz de oferecer palpites inteligentes a respeito do bairro da cidade onde esse indivíduo mora, bem como sobre o tamanho e o estilo de sua casa.Poderá ta,bem fazer uma descrição geral da decoração interior e conjecturar sobre os tipos de quadros na parede e sobre os livros e revistas nas estantes.Poderá ainda calcular o tipo de música que o indivíduo gosta de ouvir e até mesmo se ele costuma ouvi-la em concertos, na vitrola ou no rádio.Mas o sociólogo poderá ire adiante.Pode predizer os clubes e associações de que o indivíduo em questão é sócio e qual a igreja.Pode estimar seu vocabulário, sua maneira de falar, etc.Pode avaliar a filiação política do indivíduo e sua opinião sobre várias questões públicas.Pode prever seu número de filhos e ainda se ele tem relações sexuais com a mulher com as luzes acesas ou apagadas.Poderá fazer algumas afirmativas sobre a probabilidade do cidadão ser acometido por várias doenças físicas e mentais.Como já vimos ele será capaz de situar o homem num quadro atuarial de expectativas de vida.Finalmente, se o sociólogo decidisse verificar todos esses palpites e solicitasse uma entrevista ao indivíduo em questão ele será capaz de estimar as possibilidades de que a entrevista seja negada.

Muitos dos elementos a que acabamos de nos referir são criados por controles externos, em qualquer classe dada.Assim o gerente de uma empresa que tiver o endereço “errado” e a mulher “errada” será submetido a considerável pressão para mudar ambos.O indivíduo de classe trabalhadora que desejar freqüentar uma igreja de classe média superior será levado a entender em termos inequívocos que “se sentiria mais satisfeito em outro lugar”.Ou a criança de classe média inferior com inclinações para a música de câmera se defrontará com fortes pressões para corrigir essa aberração e adquirir interesses musicais mais consonantes com os de sua família e de seus amigos.Contudo, em muitos desses casos, a aplicação de controles externos será de todo desnecessária, uma vez que a probabilidade de ocorrência de desvios é realmente mínima.A maioria dos indivíduos aos quais está aberta uma carreira de executivo casa-se com o tipo “certo” de mulher, quase que por instinto, e as crianças de classe média inferior tem seus gostos musicais formados bem cedo, e de maneira tal a se tornarem relativamente imunes às seduções da música de câmera.Cada ambiente de classe forma a personalidade de seus membros através de inumeráveis influências que começam ao nascimento e que se estendem até a formatura do curso secundário ou ao reformatório, conforme o caso.Só quando essas influências formativas de alguma forma não conseguem alcançar o objetivo é que se faz necessária a ação dos mecanismos de controle social.Portanto, ao tentar compreender a importância de classe, estamos não só examinando outro aspecto de controle social, como estamos também começando a vislumbrar a maneira como a sociedade penetra nos recônditos de nossa consciência, uma coisa sobre a qual nos alongaremos nos próximo capítulo.

Ressalte-se neste ponto que essas observações sobre classe não pretendem de modo algum constituir uma acusação colérica contra nossa sociedade.Existem decerto alguns aspectos de diferenças de classe que poderiam ser modificadas por certas espécies de engenharia social, como a discriminação de classe na educação e as desigualdades de classe na assistência médica.Entretanto, nenhum volume de engenharia social modificará o fato básico de que os diferentes ambientes sociais exercem diferentes pressões sobre seus membros, ou que algumas dessas pressões contribuem mais do que outras para o sucesso, segundo a maneira como o sucesso for definido numa dada sociedade.Há bons motivos para se crer que algumas das características fundamentais de um sistema de classes, às quais acabamos de nos referir, são encontradas em todas as sociedades industriais ou em industrialização, inclusive nas governadas por regimes socialistas, que negam em sua ideologia oficial a existência de classes.Entretanto, se a localização num determinado estrato social tem essas amplas conseqüências numa sociedade relativamente “aberta”como a nossa, é fácil imaginar quais serão as conseqüências em sistemas mais”fechados”.Neste ponto nos reportamos mais uma vez à instrutiva análise feita por Daniel Lerner sobre as sociedades tradicionais do Oriente Médio, nas quais a localização social fixava a identidade e as expectativas de uma pessoa (até mesmo na imaginação) num grau na maioria dos ocidentais acha difícil até de compreender.Entretanto, antes da revolução industrial as sociedades européias não eram radicalmente diferentes, na maioria de suas camadas, do modelo tradicional de Lerner.Em tais sociedades, pode-se saber o que é um homem apenas conhecendo-se sua posição social, da mesma forma que se pode olhar para a testa de um hindu e ver nela a marca de sua casta.

Contudo até em nossa própria sociedade existem outros sistemas de estratificação, por assim dizer sobrepostos ao sistema de classe, muito mais rígidos que este, e que, por conseguinte,determinam de maneira muito mais severa americana é o sistema racial, que a maioria dos sociólogos considera uma variedade de casta.Em tal sistema, a posição social básica de uma indivíduo (isto é, a fixação de sua casta) é determinada ao nascimento.Pelo menos em teoria ele não tem absolutamente nenhuma possibilidade de modificar essa posição no decorrer de sua vida.Por mais rico que um homem se torne, sempre será negro.Ou por mais baixo que um homem caia, em termos dos costumes da sociedade, sempre será branco.Um indivíduo nasce em sua casta, tem de viver toda a vida dentro dela e dentro dos limites de conduta prescritos.É claro que deve casar-se e procriar dentro dessa casta.Na realidade, pelo menos em nosso sistema racial, existem algumas possibilidades de trapaça – isto é, negros de pele clara “passarem” por brancos.Entretanto, essas possibilidades em pouco alteram a eficácia total do sistema.

Os fatos deprimentes do sistema racial americano são por demais conhecidos para exigirem maior elaboração aqui.É claro que a localização social de um indivíduo como negro (mais no Sul do que no Norte, naturalmente, com menos diferenças entre as duas regiões do que brancos farisaicos do Norte habitualmente proclamam) implica numa dramática redução de possibilidades existentes determinadas pela classe.Na verdade, as possibilidades de mobilidade social de um indivíduo são nitidamente determinadas pela localização racial, uma vez que algumas das desvantagens mais prementes desta última são de caráter econômico.Assim, a conduta, as idéias e a identidade psicológica de um homem são moldadas pela raça de maneira muito mais decisiva do que pela classe.

A força repressora dessa localização pode ser vista em sua forma mais pura (se é que tal adjetivo pode ser aplicado, mesmo num sentido quase químico, a fenômeno tão revoltante) na etiqueta racial da sociedade tradicional do Sul dos Estados Unidos, na qual todo e qualquer caso de interação entre membros das duas castas era regulado num ritual estilizado projetado com todo cuidado para honrar uma das partes e humilhar a outra.Um negro se arriscava a punição física, e um branco a extremo opróbrio, pela mais leve violação do ritual.A raça era muito mais importante do que o lugar onde uma pessoa podia morar e a quem podia ligar-se.Determinava a inflexão vocal, os gestos, as piadas de uma pessoa, e até se infiltrava em seus sonhos de salvação.Em tal sistema, os critérios de estratificação tornavam-se obsessões metafísicas – como no caso da senhora sulista que expressava a convicção de que sua cozinheira iria sem a menor dúvida para o céu das pessoas de cor.

Um conceito muito usado em sociologia é o de definição da situação.Assim chamado pelo sociólogo americano W.I.Thomas, significa que uma situação social é o que seus participantes crêem que ela seja.Em outras palavras, para as finalidades do sociólogo, a realidade é uma questão de definição.É por isso que o sociólogo deve analisar atentamente muitas facetas da conduta humana que em si mesmas são absurdas ou ilusivas.No exemplo do sistema racial acima mencionado, um biólogo ou antropólogo poderá olhar as convicções são inteiramente falsas.Poderá então negá-las como apenas mais uma mitologia produzida pela ignorância e má vontade humanas, arrumar suas coisas e ir embora.A tarefa do sociólogo, porém, só então começa.De nada lhe adianta rejeitar a ideologia racial sulista como uma imbecilidade científica.Muitas situações sociais são na verdade controladas pelas definições de imbecis.Na verdade, a imbecilidade que define a situação faz parte do material de análise sociológica.Assim, a compreensão operacional que o sociólogo tem de “realidade” é um tanto peculiar, questão à qual retornaremos.No momento, o importante é observar que os controles inexoráveis pelos quais a localização social determina nossa vida não são eliminados com o desmascaramento das idéias que sustentam esses controles.

E a história não acaba aí.Nossas vidas são dominadas não só pelas inanidades de nossos contemporâneos, como também pelas de homens que já morreram há várias gerações.Além disso, cada inanidade ganha credibilidade e reverência com cada década passada desde sua promulgação.Como Alfred Schetz observou, isto significa que cada situação social em que nos encontramos não só é definida por nossos contemporâneos, como ainda pré-definida por nossos predecessores.Como não se pode redargüir a nossos ancestrais, comumente é mais difícil nos livrarmos de suas fatídicas heranças do que das tolices criadas em nossa própria geração.Este fato é expresso no aforisma segundo o qual os mortos são mais poderosos que os vivos.

É importante acentuar este ponto porque ele nos demonstra que até mesmo nas áreas em que a sociedade aparentemente nos permite alguma opção a mão poderosa do passado estreita ainda mais essa opção.Como por exemplo, voltemos a um incidente já evocado, a cena de um casal de namorados ao luar.Imaginemos ainda que essa ocasião seja a decisiva, na qual uma proposta de casamento é feita e aceita.Ora, sabemos que a sociedade contemporânea impõe consideráveis limitações a essa escolha, facilitando-a bastante nos casos dos casais que se ajustam nas mesmas categorias sócio-econômicas e criando graves obstáculos nos casos em que não existe essa concordância.No entanto, também é claro que até mesmo nos pontos em que “eles” (que ainda estão vivos)não fizeram nenhuma tentativa consciente para limitar a escolha dos participantes nesse drama específico, “eles” (que já morreram) escreveram o script de quase toda a cena.A idéia de que a atração sexual pode ser traduzida e emoção romântica foi maquinada por menestréis de vozes aveludadas que excitavam a imaginação de damas aristocráticas mais ou menos por volta do século XII.A idéia de que um homem deveria fixar seu impulso sexual de modo permanente e exclusivo numa única mulher, com quem ele deve dividir o leito, o banheiro e o tédio de milhares de cafés-da-manhã remelosos foi produzida por teólogos misantrópicos um pouco antes.E a premissa de que a iniciativa desse acordo maravilhoso deva partir do macho, com a fêmea sucumbindo graciosamente à remetida impetuosa de suas carícias, remonta às eras pré-históricas em que pela primeira vez guerreiro selvagens investiram contra alguma pacífica aldeia matriarcal, arrastando suas filhas.

Da mesma forma como todos esses vetustos personagens prepararam a estrutura básica dentro da qual se desenrolaram as paixões de nosso casal, também cada um dos estágios de suas relações recíprocas foi pré-definido, pré-fabricado – ou, se o leitor assim preferir “fixá-lo”.Não se trata apenas do fato de se esperar que os dois se apaixone e contratem um casamento monógamo no qual a moça renunciará ao sobrenome de solteira e o rapaz à solvência financeira, que esse amor deva ser fabricado a todo custo para que o casamento não pareça insincero a todos os envolvidos, ou que a Igreja e o Estado vigiem a ménage com toda atenção uma vez estabelecida – embora tudo isto constitua normas fundamentais estipuladas séculos antes de os protagonistas nascerem.Além disso, cada um dos estágios do namoro e do noivado é também estabelecido por um ritual social, embora sempre haja margem para improvisações, uma variação excessiva nos padrões certamente porá em perigo toda a operação.Assim nosso casal começa com idas ao cinema e passa a encontros na igreja e a reuniões de família; começa de passeios de mãos dadas e passa a explorações hesitantes e aquilo que inicialmente desejava guardar para depois; começa com planos para uma saída a noite e passa para planos para nova residência – sendo que a cena ao luar ocupa seu lugar adequado na seqüência cerimonial.Nenhum dos dois inventou o jogo ou qualquer uma de suas partes.Apenas decidiram jogá-lo um com o outro, e não com terceiros.Tão pouco tem muita margem de escolha quanto ao que acontecerá depois da troca ritual de proposta e resposta.Familiares, amigos, clérigos, vendedores de jóias, corretores de seguros, floristas e decoradores garantem que o restante do jogo continue a ser praticado dentro das regras estabelecidas.Tão pouco esses guardiões da tradição tem de exercer muita pressão sobre os protagonistas, uma vez que as expectativas de seu mundo social há muitos anos foram integradas em suas projeções do futuro – eles desejam exatamente aquilo que a sociedade espera deles.

Se as coisas se passam assim nas esferas mais íntimas de nossa existência, é fácil constatar que não mudam muito e que quase todas as situações sociais encontradas no decorrer de uma vida.Quase sempre, o jogo já foi “arrumado” muito antes de entrarmos em cena.Tudo quanto nos resta, geralmente, é jogá-lo com mais ou menos entusiasmo.O professore que entra na sala para dar aula, o juiz que pronuncia sentença, o pregador que enfatiza sua congregação, o general que dá ordem de ataque à sua tropa – todas essas pessoas estão empenhadas em ações pré-definidas dentro de limites muito estreitos e protegidos por imponentes sistemas de controles e sanções.

Tendo em mente essas considerações, podemos agora chegar a uma compreensão mais exata do funcionamento das estruturas sociais.Um útil conceito sociológico em que basear essa compreensão é o de “instituição”.Geralmente se define instituição como um complexo específica de ações sociais.Podemos dizer assim que lei, classe, casamento ou religião organizada sejam instituições.Essa definição ainda não nos informa a maneira como a instituição se relaciona com as ações dos indivíduos envolvidos.Arnold Gehlen, sociólogo alemão contemporâneo, ofereceu uma resposta sugestiva a essa questão.Gehlen concebe a instituição como um órgão regulador, que canaliza as ações humanas quase da mesma forma como os instintos canalizam o comportamento animal.Em outras palavras, as instituições proporcionam métodos pelos quais a conduta humana é padronizada, obrigada a seguir por caminhos considerados desejáveis pela sociedade.E o truque é executado ao se fazer com que esses caminhos pareçam ao indivíduo como os únicos possíveis.

Citemos um exemplo.Como não é preciso ensinar aos gatos a caçar ratos, existe aparentemente alguma coisa no equipamento congênito de um gato (um instinto, se o leitor gostar do termo) que o faz agir assim.Presumivelmente, quando um gato avista um rato, há alguma coisa que lhe diz : “Coma!Coma!Coma!”.Não se pode dizer que o gato resolve atender este apelo interior.Ele simplesmente segue a lei de seu ser mais íntimo e arremete contra o pobre camundongo (o qual, suponho, escuta uma voz interior que lhe diz: “Corra!Corra!Corra!”).O gato não tem outra alternativa.Mas agora voltemos ao casal cujo namoro analisamos anteriormente.Quando nosso rapaz viu pela primeira vez a moça com quem representaria a cena do luar (ou, se não foi na primeira vez, algum tempo depois), também ouviu uma voz interior, que lhe dava uma ordem bem clara.E seu comportamento subseqüente demonstra que ele também não pôde resistir à voz de comando.Não, essa imperativa não é essa que o leitor provavelmente está pensando – esse imperativo nosso rapaz compartilha congenitamente com os gatos, chimpanzés e crocodilos e não nos interessa no momento.O imperativo que nos interessa é aquele que lhe diz : “ Case-se!Case-se!Case-se!”.Ao contrário do gato, nosso rapaz não nasceu com esse imperativo.Ele lhe foi instilado pela sociedade, reforçado pelas incontáveis pressões de histórias de família, educação moral, religião, dos meios de comunicação e da publicidade.Em outras palavras, o casamento não é um instinto, e sim uma instituição.No entanto, a maneira como conduz o comportamento para canais pré-determinados é muito semelhante à atuação dos instintos em seus setores.

A veracidade disto se torna óbvia quando tentamos imaginar o que nosso jovem faria na ausência do imperativo institucional.Poderia, naturalmente, fazer um número quase infinito de coisas.Poderia manter relações sexuais com a moça, deixá-la e nunca mais voltar a vê-la.Ou poderia esperar que seu primeiro filho nascesse e depois pedir ao tio materno da moça que o criasse.Ou poderia reunir três amigos e propor tomar a moça em comum como esposa.Ou poderia incorporá-la a seu harém, juntamente as outras vinte e três mulheres que já vivem lá.Em outras palavras, dados seu impulso sexual e seu interesse naquela moça específica, o rapaz estaria num impasse bastante sério.Mesmo supondo que ele tivesse estudado antropologia e soubesse que todas as opções acima mencionadas constituem as atitudes normais em certas culturas humanas, ainda assim ele estaria em apuros para decidir qual seria o caminho mais conveniente nesse caso.Já percebemos então o que o imperativo institucional faz para ele – protege-o desse impasse.Exclui todas as outras opções em favor daquela que a sociedade pré-definiu para ele.Até mesmo afasta essas outras opções de sua consciência.Apresenta-lhe uma fórmula – desejar é amar, é casar.Tudo quanto lhe resta fazer agora é retrilhar o caminho preparado para ele mesmo nesse programa.Isto poderá apresentar um número bastante grande de dificuldades, mas são dificuldades de natureza muito diversa das enfrentadas por algum proto-macho que encontrasse uma proto-fêmea numa clareira da floresta primal e tivesse de elaborar um mudus vivendi viável com ela.Em outras palavras, a instituição do casamento serve para canalizar a conduta de nosso rapaz, fazê-lo seguir determinado tipo de comportamento.A estrutura institucional da sociedade proporciona a tipologia para nossas ações.Só muito, muito raramente é que temos necessidade de imaginar novos tipos segundo os quais nos conduzir.No mais das vezes, podemos no máximo escolher entre o tipo A e o tipo B, tendo ambos sido pré-definidos a priori.Poderíamos decidir entre ser artista ou homem de negócios.Em ambos os casos, porém encontraríamos pré-definições bastante precisas do que devemos fazer.E nenhum dos dois estilos de vida terá sido inventado por nós.

Outro aspecto do conceito de Gehlen da instituição a salientar, porque ele será importante mais adiante, é o da aparente inevitabilidade de seus imperativos.O rapaz médio de nossa sociedade não só rejeita as opções de poliandria ou poliginia, como pelo menos para si, julga-as literalmente inimagináveis.Acredita que o rumo de ação pré-definido institucionalmente seja o único que ele poderia jamais tomar, o único de que ele é ontologicamente capaz.É de se presumir que, caso refletisse sobre a perseguição que move o camundongo, o gato chegasse à mesma conclusão.A diferença está em que o gato chegaria à conclusão correta, ao passo que o rapaz está enganado.Tanto quanto saibamos, um gato que se recusasse a perseguir camundongos constituirá uma monstruosidade biológica, talvez o resultado de uma mutação maligna, certamente um traidor da própria essência da felinidade.Entretanto, sabemos perfeitamente que ter muitas mulheres ou ser entre muitos maridos não representa uma traição da condição humana, em qualquer sentido biológico, ou mesmo da virilidade.E como tais opções são possíveis aos árabes e tibetanos, respectivamente, devem também ser biologicamente possíveis a nosso rapaz.Na verdade, sabemos que se ele tivesse sido tirado do berço e levado para essas plagas exóticas, não teria crescido como o típico rapaz americano de sangue quente e algo mais que ligeiramente sentimental de nossa cena luar, e se teria transformado num lúbrico polígamo na Arábia ou num tranqüilo marido entre maridos no Tibet.Ou seja, ele está enganando a si mesmo (ou, mais exatamente, está sendo enganado pela sociedade) quando encara seu rumo de ação nessa questão como inevitável.Isto significa que toda estrutura institucional tem de depender da fraude e que toda existência em sociedade traz consigo um elemento de má fé.Este vislumbre da realidade pode parecer profundamente deprimente a princípio, mas, como veremos, ele na verdade nos oferece a primeira nesga de uma visão da sociedade um pouco menos determinista que aquela que até agora obtivemos.

No momento, contudo, nossas considerações sobre a perspectiva sociológica nos conduziram a um ponto em que a sociedade mais parece uma gigantesca prisão que qualquer outra coisa.Passamos do contentamento infantil de se possuir um endereço à percepção adulta de que a maior parte da correspondência é desagradável.E a compreensão sociológica só nos ajudou a identificar mais de perto todos os personagens, vivos ou mortos, que gozam do privilégio de nos oprimir.

O pensamento sociológico que mais aproxima dessa concepção da sociedade é o associado a Emile Durkheim e à sua escola.Durkheim ressaltava que a sociedade é um fenômeno sui generis, isto é, ela representa uma relidade compacta que não pode ser reduzida a outros termos ou para eles traduzida.Durkheim afirmou ainda que os fatos sociais são “coisas”, possuidoras de uma existência objetiva externa a nós, tanto quanto os fenômenos da natureza.Durkheim agiu assim sobretudo para proteger a sociologia de ser tragada pelos psicólogos de espírito imperialista, mas sua concepção é importante, ainda que excluamos essa preocupação metodológica.Uma “coisa” é algo como uma pedra, por exemplo, com que se topa, algo que não deixa de existir mediante um simples desejo.Uma “coisa” é aquilo contra a qual se investe em vão, aquilo que existe apesar dos desejos e das esperanças de uma pessoa, aquilo que por fim pode cair sobre a cabeça de uma pessoa e matá-la.É nesse sentido que a sociedade constitui uma coleção de “coisas”.É possível que a instituição social que melhor ilustre essa qualidade da sociedade seja a lei.



A seguirmos a concepção durkheimiana, portanto, a sociedade se manifesta como um fato objetivo.Ela existe, é algo que não pode ser negado e que se tem de levar em conta.A sociedade é externa a nós.Ela nos cerca, circunda nossa vida por todos os lados.Estamos na sociedade, localizados em setores específicos do sistema social.Essa localização pré-determina e pré-define quase tudo quanto fazemos, desde a linguagem até a etiqueta, desde nossas convicções religiosas até a probabilidade de que venhamos a cometer suicídio.Nossos desejos não são levados em consideração nessa questão de localização social, e nossa resistência intelectual aquilo que a sociedade aprova ou proíbe adianta muito pouco, na melhor das hipóteses.A sociedade, como fato objetivo e externo, manifesta-se sobretudo na forma de coerção.Suas instituições moldam nossas ações e até mesmo nossas expectativas.Recompensam-nos na medida em que nos ativermos a nossos papéis.Se saímos fora desses papéis, a sociedade dispõe de uma número quase infinito de meios de controle e coerção.As sanções da sociedade são capazes, a todo momento da existência, de nos isolar dentre os outros homens, expor-nos ao ridículo, privar-nos de nosso sustento e de nossa liberdade e, em último recurso, privar-nos da própria vida.A lei e a moralidade da sociedade podem apresentar complexas justificativas para cada uma dessas sanções, e a maioria de nossos concidadãos aprovará que sejam usadas contra nós como castigo por nosso desvio.Finalmente, estamos localizados na sociedade não só no espaço, como também no tempo.Nossa sociedade constitui uma entidade histórica que se estende temporariamente além de qualquer biografia individual.A sociedade nos precedeu e sobreviverá a nós.Nossas vidas não são mais que episódios em sua marcha majestosa pelo tempo.Em suma, a sociedade constitui as paredes de nosso encarceramento na história.






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