A pesquisa sobre Identidade e Cidadania nos eua: da Nova História Social à Nova História Cultural



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A Pesquisa sobre Identidade e Cidadania nos EUA: da Nova História Social à Nova História Cultural

 

Barbara Weinstein


Department of History - State University of New York at Stony Brook

 

 



RESUMO
O presente artigo analisa as novas tendências da historiografia norte-americana a respeito da cidadania e da identidade, evidenciando os deslocamentos ocorridos tanto na escolha dos objetos de pesquisa quanto na abordagem. A passagem da história social para a história cultural implicou em rupturas significativas e abriu novas direções de pesquisa, perceptível na produção mais recente.
Palavras-chave: cidadania, identidade, historiografia norte-americana.

 

ABSTRACT


The present article deals with the new tendencies of north american historiography about citizenship and identity, emphasizing the birth of different choices on research subjects and approaches.
The move from social history to cultural history meant important ruptures and opened new directions of research which are visible in the most recent literature.
Keywords: citizenship, identity, north american historiography.

 

 



Para entender as novas tendências da historiografia norte-americana com respeito à identidade e à cidadania, é necessário regressar a um período anterior, ao auge da" nova história social," nos anos 70 e no início dos anos 80. Apesar da impressão geral entre os historiadores de que houve uma grande ruptura entre a história social daquela época, com sua orientação neomarxista, e a nova história cultural, a virada lingüística, e as abordagens pós-modernas de hoje, acho mais adequado dizer que as tendências atuais representam desdobramentos das preocupações anteriores.1 Ainda hoje, as novas tendências historiográficas, inclusive sobre identidade e cidadania, inspiram-se numa crítica dos conceitos fundamentais da (já velha) nova história social.

Aliás, a questão da cidadania, longe de ser uma preocupação para a nova história social nos EUA, era uma categoria, de certa forma, desprezada, pelo menos no seu sentido tradicional (o cidadão do conceito liberal, o sujeito autônomo, relacionando como indíviduo com o Estado). Entre os historiadores daquele período (inclusive eu), a noção da cidadania era criticada a partir de duas perspectivas. Primeiro, foi considerada como uma identidade que reforçava a noção de "consenso" na história norte-americana e que privilegiava a identidade individual, e assim" escondia" o significado e o peso da classe social na história dos EUA. Segundo, a noção de cidadania tradicionalmente foi utilizada (pelos historiadores do pós-guerra) sem sentido crítico e sem atenção para os extensos grupos de habitantes dos EUA, que não gozavam de plenos direitos de cidadania afro-americanos, mulheres, imigrantes não-brancos, homossexuais2.

Por isso, a grande missão da historiografia da nova história social foi a recuperação da categoria de classe, e uma ênfase na atuação/resistência dos grupos oprimidos aos processos de assimilação e repressão. Foi uma reação contra a narrativa da época progressista que apresentava os programas educacionais e assistenciais daquele período como uma grande força que transformaria a massa de imigrantes ou migrantes de origens diversas em uma população de cidadãos relativamente homogêneos, bem comportados e respeitáveis3. Em vez desta visão de assimilação (à identidade "americana" ou à da classe média) e da eficiência da classe dirigente, houve uma forte ênfase nas resistências das classes subalternas, e na manutenção dos espaços autônomos pelos grupos populares4.

Indiretamente, a bibliografia desta orientação contribuiu para complicar e questionar a noção "fundacionalista" de cidadão. Mas essa não era uma preocupação explícita daquela historiografia. Mesmo quando a cidadania entrou em discussão por exemplo, em estudos do discurso republicano dos artesãos (como o de Sean Wilentz) ou em estudos do "americanismo" da classe trabalhadora (como o de Gary Gerstle), o objetivo do historiador foi mais o de destacar o sentido de classe nestes discursos5. A identidade de classe era tida como" real", enquanto a cidadania era ainda um conceito para disfarçar outras identidades potencialmente mais perturbadoras da ordem social6.

Quanto aos estudos da mulher, do negro, do índio, na nova história social, inicialmente estas pesquisas existiram à margem da profissão; paulatinamente, essas" categorias" passaram a ser cada vez mais importantes, mas a tendência era, ainda, apenas "adicionar" essas categorias entre os historiadores desta linha, chegava a ser oportuno falar um pouco de raça ou gênero, de lazer e de consumo, mas as figuras centrais da historiografia continuavam sendo homens brancos da classe trabalhadora na linha de produção7.

Nos últimos quinze anos, o crescimento das políticas de identidades nos EUA, e o desenvolvimento de programas para os estudos da mulher, ou dos afro-americanos, ou dos novos grupos étnicos, começaram a revisar a narrativa-mestre da nova história social. A raça, a etnicidade e o gênero (e recentemente, a orientação sexual) viraram categorias cada vez mais significativas, reconhecidas como "identidades", que não podem ser reduzidas a uma "consciência" ou "cultura" de classe. Estreitamente relacionada com esta tendência foi o deslocamento do alvo de pesquisa da fábrica (ou outro lugar de trabalho ou produção) para a casa, a família, a rua, o bairro, os centros de lazer, as redes de amizade, até o mundo das emoções. Atividades como o consumo chegaram a ser objetos de estudo muito significativos, e não apenas categorias secundárias, subordinadas às atividades "produtivas"8.

Outra mudança muito importante na profissão do historiador norte-americano (e provavelmente similar à situação atual no Brasil) foi a migração de muitos jovens (e alguns velhos) pesquisadores - aqueles que anteriormente certamente faziam história social - para o terreno da "nova história cultural". Além da reorientação do objeto de pesquisa (para a literatura, música, cultura popular etc), o que mais distingue a nova história cultural (da nova história social) é sua ênfase nos modos de representação e na construção cultural/ discursiva de identidades, subjetividades etc, que refletem a influência da virada lingüística. Isto é, quando o historiador social falava do trabalho, ele se referia à própria "experiência" dos operários com o processo de trabalho; quando o historiador da cultura fala de trabalho, ele quer dizer a construção de diferentes noções de trabalho, e da linguagem usada para falar disso (o discurso sobre o trabalho, e não a experiência de trabalho)9.

Neste sentido, a nova história cultural abriu um espaço para recuperar a questão da cidadania. Se todas as identidades, comunidades etc, são "imaginadas" ou" inventadas" ou "socialmente construídas," então o conceito de cidadão não é nem mais nem menos "real," e chega a ser um tema legítimo e importante para estudar. Falar de cidadania não é necessariamente aceitar a" realidade" da categoria, ou aceitar uma definição "liberal" de cidadania.

Para discutir estas novas tendências, inicialmente vou me referir, a alguns debates entre os historiadores sociais e os historiadores de culturas que indicam certas rupturas significativas entre a velha e a nova orientação10.E depois, quero falar com detalhes de alguns trabalhos recentes que indicam novas direções de pesquisa mas, também, indicam nítidas continuidades com a historiografia dos anos 70.

Alguns historiadores sociais, como é de se esperar, têm se sentido ameaçados pelas novas tendências. Há uma forte crítica contra a ênfase no texto e na linguagem, e contra a aparente rejeição de uma realidade ou verdade histórica estável e compreensível11. Para dar um bom exemplo, no ano passado a revista Radical History Review circulou, na Internet, uma chamada para artigos destinados a um número dedicado à questão da pobreza - isto é, à construção da pobreza como um problema social, uma categoria política etc. Um conhecido historiador social, Roger Horowitz, respondeu muito desapontado que a própria RHR estava falando de pobreza como uma construção social; diz ele, "os pobres entendem muito bem o que é pobreza"12.No final, ele denunciou a revista por ter abandonado seu compromisso com as lutas dos pobres e dos explorados. É um exemplo transparente da idéia de que a experiência determina o conhecimento e a consciência sem nenhuma mediação de qualquer outra influência cultural, ou nenhuma questão mais complexa de subjetividade.

Mas, apesar de episódios deste tipo, a disciplina de história não experimentou o tipo de "crise" que sofreram as áreas de literatura e de antropologia nos EUA, nos últimos anos. Acho interessante refletir sobre porque a nova orientação lingüistíca, o pós-modernismo etc, não provocaram uma crise mais profunda em nossa profissão. À primeira vista, essas novas tendências apresentavam um desafio bastante sério aos modos mais convencionais de fazer história. Elas colocavam em dúvida toda a empresa da reconstrução do passado. Mas a reação tem sido relativamente moderada. Ha uma série de debates na profissão, mas o tom da discussão é extremamente discreto comparado com as "guerras" nas outras disciplinas. Acho que a explicação é a existência de fortes continuidades, tanto quanto descontinuidades, entre a nova história social e a nova história cultural. A nova história social já pregava a necessidade de estudar grupos antigamente considerados marginais e tentava entender a formação de consciência através da esfera cultural13. Sua crítica implícita das velhas noções de cidadania, e das asserções universalizantes da velha história progressista, criou uma base para repensar o conceito de cidadania. Isto não quer dizer que não há nada de novo na nova história cultural, mas o impacto não foi do mesmo porte para a profissão de história que em outras disciplinas.

O resultado é uma série de debates sérios, mas de certa forma amistosos. Um importante ponto de contestação é a questão de resistência ou "agency"14.Por exemplo, Linda Gordon, uma das mais conceituadas historiadoras da sua geração nas áreas de história social e feminina, escreveu um livro sobre mulheres da classe trabalhadora e violência doméstica que se chama Heroes of Their Own Lives. Ela seguiu no livro uma linha que é nítidamente um produto da nova história social (com sua própria "virada feminista"). Segundo Gordon, muitas mulheres nessa situação, ameaçadas, ao mesmo tempo, por maridos violentos e por assistentes sociais que queriam retirar as crianças da casa problemática, resistiram a essas invasões de sua família e recusaram a ser vítimas, seja dos seus maridos, seja dos profissionais da classe média. A idéia central é que essas mulheres usavam os valores que vinham da experiência das mulheres da classe trabalhadora para resistir os valores e imposições da classe dominante. Rejeitaram a tentativa das representantes do Estado e da classe média para impor suas próprias noções de boa cidadã ou de boa mãe. Joan Scott, outra historiadora bem conhecida, feminista, e uma discípula convicta da virada lingüística, criticou o livro da Gordon e noção central de agency. Scott, em contraste, enfatiza a formação de subjetividades, e a participação dessas mulheres no mesmo campo cultural, com os mesmos conceitos e discursos de "boa mãe," que funcionam como a fundação das suas reivindicações de cidadania. Scott critica Gordon por naturalizar a resistência dessas mulheres, e por marginalizar a reação menos combativa das outras que, implicitamente, não tem "agency," na ótica da Gordon. Scott, entretanto, coloca que mesmo a passividade é uma estratégia discursiva para cultivar o apoio da assistente social, e assim modificar as relações de poder, e não podemos classificar um grupo como "heróis com agency" e outro grupo como "vítimas passivas"15.

Outro campo de debate é a área da história da classe trabalhadora, um lugar privilegiado para a nova história social, e hoje um terreno bastante contestado e criticado.

Neste contexto, Joan Scott aparece outra vez - agora para criticar E.P. Thompson e sua ênfase na "experiência," que tinha grande impacto na historiografia da nova história social, com sua atenção aos trabalhadores "comuns," em vez das lideranças ou (ainda pior), das vanguardas. Scott reconhece experiência como o conceito fundacional da obra thompsoniana; assim, "experiência" existe para Thompson como uma categoria não problemática. O significado da experiência operária é previsível para Thompson e é para ele o ponto de origem da consciência, enquanto para Scott o significado da experiência depende inteiramente do contexto cultural e a subjetividade já construída (mas continuamente reconstruída). E ainda mais, ela mostra como Thompson coloca certas experiências operárias (como a figura messiânica Joanna Southcott) fora da narrativa-mestre da classe trabalhadora inglesa, caracterizando-as como femininas. O resultado é, diz ela, a construção de uma identidade operária" normativa" e "masculinizada"16.

Em muitos estudos recentes, nota-se ainda uma tensão entre a ênfase anterior na experiência, agency, e resistência, e as preocupações pós-modernas. Mas, em geral, os estudos mais importantes e influentes dos últimos anos seguem a linha da nova história cultural, com sua ênfase na construção do campo cultural através dos discursos e das práticas sociais, e estes estudos geralmente destacam os limites da resistência, ou até rejeitam o conceito de resistência como um processo que ocorre fora do campo cultural dominante. Um dos resultados desta tendência é questionar ainda mais a narrativa "heróica" criada pelos historiadores da década de 70 (tanto sobre trabalhadores, como mulheres, grupos étnicos, ou gays). Claro que os próprios historiadores sociais ja tinham complicado essa narrativa, destacando o racismo, o machismo e a homofobia dos operários brancos, e indicando as divisões entre mulheres, pela raça ou pela classe. Seria um grande exagero dizer que aquela geração não teve consciência disso. Mas as categorias foram sempre trabalhados, no primeiro lugar, como coisas separadas (assim, o racismo podia ser expulso do movimento operário se os trabalhadores reconhecessem a sua verdadeira identidade de classe, com a implicação de que o racismo funcionava independente da esfera de classe)17.E houve uma tendência de estudar a raça ou o gênero ou a orientação sexual apenas em relação aos grupos nítidamente marginalizados ou explorados em função das categorias em questão. Então, a questão de raça só aparecia no contexto das experiências de trabalhadores negros; a questão de gênero só aparecia nos estudos sobre as mulheres. Talvez a grande contribuição de certos trabalhos recentes é justamente repensar e criticar essa abordagem.

Depois de um período, quando "raça" ficou subordinada à "classe" nos debates historiográficos (veja os trabalhos de Eugene Genovese ou Barbara Fields), a identidade racial ou étnica tem voltado como uma preocupação absolutamente central dos historiadores norte-americanos. E sobretudo, as óticas dos historiadores com relação a esse tema já mudaram bastante.

No passado, falar de "raça" queria dizer falar de "negro" ou afro-americano, raras vezes era falar dos "índios" ou dos chineses, mas geralmente a raça era uma questão em relação aos negros e outras populações" marginalizadas" ou sujeitas à discriminação. O resto da população, de certa forma, não tinha "raça," ou melhor dito, sua identidade racial não era uma questão para se perguntar ou um problema histórico. E a identidade racial dos grupos oprimidos foi considerada, geralmente, como uma coisa fixa, dada, e não o resultado de um longo e complicado processo histórico18.

Em contraste, nos últimos anos houve uma forte insistência no conceito de identidade racial como construção, e uma construção "relacional" (quer dizer, nossa noção de negro depende de nossa noção de branco). Um resultado é o conceito de brancura - whiteness - e os discursos e práticas (e os privilégios e "sacrifícios") associados com este status. Em outras palavras, "raça" faz parte de todas as construções sociais; e está, de alguma forma, sempre presente. E ainda mais, muitos historiadores argumentam que é impossível "separar" noções de classe ou gênero de noções de raça19. A historiadora Nancy Hewitt explica esta relação com a linguagem da química: as identidades não são "misturas", nas quais cada elemento mantém sua integridade; identidade assimila-se à "reação química" que vincula e transforma todos os elementos20.

Quero citar dois estudos importantes que trabalham com o conceito de brancura. Um livro pioneiro é de David Roediger; Wages of Whiteness investiga a formação da classe trabalhadora no século passado e a crescente associação de certas qualidades do bom trabalhador e cidadão (disciplinado, sóbrio, bom pai de familia) com a brancura21. Roediger elabora o processo de formação de uma identidade restrita aos trabalhadores brancos (uma frase, neste contexto, repetitiva - ser trabalhador era ser homem e branco), com ênfase na disciplina e num certo tipo de comportamento na esfera pública que trazia certos privilégios. Mas Roediger destaca, também, os sacrifícios da brancura; segundo ele, para estes homens brancos, havia um persistente desejo ou saudade de um ordem não sujeita à disciplina industrial, e na vida cultural dos brancos esse mundo "não regrado" era cada vez mais associado com os negros.

É assim que Roediger procura entender o enorme sucesso, na cultura popular branca, entre a Guerra Civil e a Primeira Guerra Mundial, do "blackface minstrelsy"22. Antigamente visto simplesmente como um meio de ridicularizar os negros, ou uma expressão (embora racista) de ressentimentos populares, essa forma cultural e teatral tem um duplo sentido para Roediger, que percebe um tipo de "saudades" na música e na atuação destes artistas. Ou seja, gozando dos privilégios da brancura, o branco das classes populares agora só pode ficar fora de controle quando ele se disfarça de "negro" (ou melhor dizendo, da sua projeção da identidade negra). O prazer de uma certa sensualidade, de certas formas de lazer e de várias maneiras de expressão chega a ser proibido ao branco, que precisa adotar (claro, apenas temporariamente) uma identidade caricaturizada e" negra" para recuperar este prazer.

Outro trabalho que tem certas preocupações em comum com o de Roediger é o livro Special Sorrows, de Matthew Jacobson, que mostra a relação entre etnicidade e os discursos imperialistas do fim do século passado23. O trabalho de Jacobson examina a trajetória política e cultural de três comunidades de imigrantes nos Estados Unidos - judeus, irlandeses e poloneses - no fim do século XIX e início do século XX. Jacobson escolhe estes três grupos porque cada um deles se considerava um povo sem Estado, um povo "exilado," que tinha uma certa simpatia com os movimentos dos súditos coloniais fora da Europa. Jacobson começa sua história na época da luta de Cuba contra Espanha e a eventual entrada dos EUA na guerra que resultou na redução de Porto Rico, das Filipinas e, de certa forma, da própria Cuba ao domínio colonial dos Estados Unidos. Usando a imprensa, romances, canções e poesia que circularam nessas comunidades étnicas, Jacobson mostra que, no ínicio desta época, os porta-vozes culturais dos três grupos étnicos se identificaram claramente com as lutas de povos não livres contra os poderes coloniais, e se manifestaram nitidamente contra a possibilidade dos Estados Unidos tornarem-se um império colonial24.Mas o discurso público na época, colocava os Estados Unidos cada vez mais como o poder civilizador, e a população dessas sociedades como selvagens ou bárbaras. Assim, os grupos étnicos agora estariam apoiando, não povos lutando pela liberdade, no mesmo sentido que os irlandeses, judeus e poloneses estavam lutando por sua própria emancipação, mas pessoas de cor escura representadas como bárbaras25. Jacobson traça a paulatina transformação da cultura política destas comunidades, que se associava (e suas preocupações políticas) cada vez menos com os povos não-europeus. Mais uma vez, o ponto de divisão é a brancura - estes três grupos étnicos (que antigamente foram considerados raças distintas) começaram a se perceber como integrantes da raça branca e cidadãos de um império poderoso, em vez de ser os povos refugiados identificados com as lutas das pessoas de cor em outras partes do mundo.

Relacionada com esta nova tendência de estudar a brancura é a crescente ênfase, na história do gênero, na masculinidade (ou "manliness"). Muitos historiadores de gênero, do mesmo modo que os estudiosos da raça, resolveram reconhecer que não são apenas as mulheres que tem gênero, e começaram a adotar uma perspectiva relacional. Intimamente ligada com a literatura sobre a brancura, os trabalhos sobre masculinidade investigam as mudanças nas "normas" de comportamento para os homens, e o papel da raça e da classe na construção dessas normas. Por exemplo, em termos de sexualidade, o homem "ideal" da classe média se distingue por sua capacidade de dominar seus instintos sexuais - uma capacidade para autocontrole que é altamente masculina. Em contraste, a suposta incapacidade dos homens das classes baixas (ou das raças escuras) de se controlar sexualmente, longe de ser um sinal de sua hipermasculinidade, é um sinal do seu estado infantil ou sua fraqueza; ainda mais, um homem tão descontrolado é capaz de buscar satisfação numa relação homossexual, que seria a melhor prova de que ele não é suficientemente masculino. Isso indica, também, a marcada distinção entre o "machismo" e o conceito norte-americano do manliness. Claro que este mesmo discurso, mutatis mutandi, foi aplicado pelos defensores da cultura burguesa para demostrar a fraqueza e a corrupção da velha aristocracia26.

Ao mesmo tempo, os novos trabalhos sobre gênero mostram que os discursos sobre masculinidade mudaram de uma época para outra. No meio do século passado, houve uma ênfase constante no autocontrole, no trabalho, na independência, e na repressão dos instintos primitivos (até dizer que os homens anglo-saxões tinham superados estes instintos). Nas últimas décadas do século, em contraste, houve uma preocupação com a excessiva civilização (até feminização) do homem da classe média. Ele continuava sendo obrigado a se controlar, a trabalhar, ser bom pai de família, mas também virou desejável que ele mantivesse uma certa "cultura física," participasse em atividades atléticas, e experimentasse a natureza em formas de lazer como a caça, a pesca, e o camping. O homem ideal virou um tipo como Teddy Roosevelt - o homem" civilizado" que, também, enfrenta os desafios do mundo primitivo e sabe canalizar seus instintos primitivos. Era ele o homem ideal para a época imperial.

Gail Bederman, num recente livro, Manliness and Civilization, analisa o discurso de civilização e mostra como ele foi composto a partir de certos discursos de" raça" e de "gênero" - inclusive, a noção, comum no fim do século passado, de que na alta civilização, há uma extrema diferenciação entre os papéis do homem e da mulher27.Entre os muitos exemplos destes discursos elaborados no livro, ela inclui a exposição Colombiana em Chicago em 1893, uma feira que comemorou o quarto centenário do" descobrimento" do Novo Mundo. O setor mais importante desta exposição foi a" White City" - literalmente, a cidade branca - que se referia à cor dos prédios, mas que tinha um duplo significado que é impossível ignorar. Foi na White City que os organizadores colocaram todos os símbolos do progresso, da indústria, da modernidade, tudo explicitamente atribuído à criatividade e à disciplina do homem (e do homem implicitamente branco). Houve várias tentativas por parte de grupos feministas ou negros para ganhar "representação" na cidade branca; no caso das mulheres, elas ganharam um pequeno prédio, no fim da cidade, para exibir as contribuições da mulher à civilização, e aos negros foi negada qualquer representação neste setor da exposição. (Os "africanos," porém, foram "representados" no setor que chamou-se Midway Plaisance onde houve recriações de várias culturas agrárias, começando com uma aldeia camponesa alemã, e descendo até uma aldeia" africana" do Dahomey). Bederman, além de indicar a marginalização ou exclusão destes grupos, apesar dos seus esforços para ser incluídos, mostra que as mulheres e os negros também atuaram no terreno do discurso de civilização. As feministas acabaram excluindo mulheres negras da sua comissão, e sua pequena exibição reproduziu a associação da modernidade e do progresso com a brancura. Os negros (representados por duas figuras de renome, Frederick Douglass e Ida B. Wells), enfatizaram o papel do homem negro, o seu "manliness," e insistiram que os homens negros nos EUA eram até mais "civilizados" que os homens brancos. Ainda mais, eles se dissociaram da "aldeia africana" duma maneira que indicava que a sua crítica não era simplesmente uma questão da natureza da exibição. Isto significa que mesmo nestes "contra-discursos" houve uma forte tendência para aceitar certos pressupostos dos conceitos de brancura e da masculinidade como base da civilização (e por implicação, como base para cidadania no mundo civilizado)28.

Enquanto a raça e o gênero viraram as categorias mais importantes na literatura recente, há um crescente interesse também sobre o tema da orientação ou preferência sexual (que, obviamente, tem muitas ligações com a literatura e os debates sobre masculinidade).

Com respeito à orientação sexual, há duas tendências marcantes. Uma é um tipo de história social do homossexualismo parecida com os estudos feitos na década passada para recuperar a história da mulher29.Mas os melhores dos recentes estudos, como Gay New York de George Chauncey, não se contentam com a simples recuperação de um passado homossexual30.Chauncey, na sua recriação vívida da subcultura" gay" em Nova York antes de Stonewall (1969), insiste que nossa noção de que, naquela época os homens gays ficavam no armário, saindo e encenando apenas em lugares muito escondidos e marginais, se baseia numa imagem distorcida e excessivamente simplificada da época. Em contraste, ele mostra que houve uma cultura gay vibrante em Nova York antes de Stonewall, e que muitos homens transitaram dos mundos gay e não-gay sem grandes problemas31. Ainda mais, ele argumenta que a militância de hoje, e a aceitação da identidade gay como uma identidade "totalizante" ou essencial, acabam dificultando esta relação fluída entre os mundos gay e não-gay; assim, atualmente não existe a mesma flexibilidade, e de certa forma os homossexuais vivem num mundo mais segregado do que antigamente.

Este argumento de Chauncey encaixa muito bem com o projeto dos discípulos da "queer theory"32. Não vendo o homossexualismo como uma identidade fixa (e ainda menos biológica), os historiadores influenciados pela queer theory procuram não recuperar a história dos homossexuais como um grupo marginalizado, ou reconstruir a luta heróica dos militantes gays da época de Stonewall. Em vez disso, se interessam mais pela história da instabilidade de desejo sexual e de identidade sexual. Semelhante à história da mulher e a história de gênero, os historiadores do queer theory querem mostrar que não é necessário ter a presença de um sujeito homossexual para fazer a história do queerness, para ler um subtexto de ambigüidade sexual, ou para desdobrar as ansiedades culturais e políticas sobre a "ameaça" de homossexualismo ou os perigos da sexualidade descontrolada. Como um historiador explicou num recente artigo, os adeptos da queer theory se interessam mais pelo significado histórico da música de Cole Porter, que influia sobre a cultura em geral, do que na recuperação de figuras pouco conhecidas da comunidade gay33.Do mesmo modo que a história de gênero e a história da raça estão mudando de um enfoque nos grupos marginais ou esquecidos, para enfatizar a centralidade das questões de raça e de gênero, os historiadores de orientação sexual estão adotando uma abordagem que rejeita o essencialismo e privilegia a construção de identidades através dos discursos e práticas. Sobretudo, todos os três estão insistindo em colocar suas preocupações no centro do processo histórico e insistem que essas questões são de importância para todos os historiadores. Então, "classe" não é uma categoria que deve preocupar apenas os que estudam os operários; "gênero" não é uma categoria que deve preocupar apenas os que estudam as mulheres; "raça" não é uma categoria que deve preocupar apenas os que estudam as pessoas de cor; "orientação sexual" não é uma categoria que deve preocupar apenas os que estudam os homossexuais. Integrar estas categorias num projeto histórico não é simplesmente uma questão de falar de uma mulher ou outra, ou incluir uma figura gay ou negra. Todos os discursos e práticas, insistem estes recentes trabalhos, se constróem e são imbricados com os discursos de gênero, raça etc.

Finalmente, quais as implicações dessas novas tendências historiográficas para a questão da cidadania? Como eu disse na introdução, é difícil entender os desdobramentos da nova história cultural para com esta questão sem considerar as críticas da "cidadania" que surgiram da (velha) nova história social. A perspectiva crítica da nova história social garantia que a história dos grupos excluídos não acabou rendendo uma narrativa "inspiracional" (e conservadora nas suas implicações) de um processo, às vezes árduo e conflituoso, mas inevitável de expansão da categoria de cidadão para incluir o trabalhador, a mulher, o negro, o homossexual, com cada grupo demonstrando sua capacidade para exemplificar os valores e comportamentos do bom cidadão norte-americano. Os historiadores dos anos 70, com sua forte crítica da noção consensual da política, iniciaram (talvez inconscientemente) a desconstrução do conceito de cidadania.

Porém, a sua ênfase nos grupos marginalizados, o uso das categorias de classe, gênero ou raça como "dados" e o papel central da "experiência" (também não problematizada) geraram uma corrente essencialista que rejeitou qualquer noção de assimilação34. E esta tendência foi reforçada num momento histórico que testemunhou o crescimento de vários movimentos sociais baseados na política de identidade. Em vez de pregar a igualdade ou a integração (antigamente o tema dos movimentos sociais), o discurso essencialista destacava e festejava a diferença, agora dando a esta diferença um sentido positivo. Assim, por exemplo, a cultura feminina era diferente e superior à cultura masculina35. Os afro-americanos se interessavam menos em participar na política do "mainstream," e insistiam no direito de preservar sua diferença cultural e criar uma certa autonomia política36. Ainda mais, os movimentos sociais geralmente tentavam basear suas reivindicações numa história de opressão que dependia de uma imagem do grupo como uma entidade fixa e relativamente homogênea, e com sinais claros para distinguir quem pertencia e quem não pertencia ao grupo.

Os problemas criados por essas correntes essencialistas não são apenas intelectuais. Este tipo de essencialismo depende, em última instância, da marginalidade; ele dificulta as alianças entre diferentes movimentos sociais, e gera muitos conflitos internos - no final, quem vai determinar qual é a própria essência da identidade feminina ou negra ou gay? Também, logo ficou claro que a tensão entre "igualdade e diferença" levou a certas implicações imprevistas. O melhor exemplo disso é o caso" Sears." Um grupo de mulheres que trabalhavam para Sears processou a empresa por ter excluído mulheres dos cargos mais lucrativos nas lojas. A Sears se defendeu usando o livro de uma historiadora feminista (que publicamente se posicionou em favor das mulheres que processavam a Sears), mostrando que a mesma historiadora, Alice Kessler-Harris, reconheceu no seu próprio livro que as mulheres tradicionalmente trocavam salário por horas mais flexíveis ou por condições de trabalho mais relaxadas, porque as suas prioridades eram diferentes dos homens. Ela insistiu no livro que a trabalhadora era diferente do trabalhador (não apenas no sentido da "construção" mas no sentido "real"), e usava seus próprios instrumentos de resistência e negociação. Qual foi o resultado deste discurso sobre a diferença? A Sears ganhou37.

Então, de certa forma, os trabalhos da nova história cultural, e os novos conceitos de identidade, podem ser vistos como uma tentativa de encontrar uma saída da seguinte dicotomia: ou você se assimila ao "mainstream," aos valores normativos da cidadania norte-americana, ou você rejeita a assimilação e privilegia seu estado "marginal," sua alteridade.

A preocupação atual é criar uma terceira opção que rejeita as identidades e categorias fixas e trans-históricas, mas não apenas em relação aos grupos" marginais". Pelo contrário, a maior preocupação é mostrar como as construções de brancura e de masculinidade formaram a base da cidadania, e por isso, mesmo com novos discursos ou construções, sem uma desconstrução destas categorias mestras, vamos testemunhar a contínua exclusão, desvalorização e subordinação de grandes camadas da população. A brancura, segundo David Roediger, é uma categoria completamente vazia no sentido positivo; nas suas próprias palavras: "Não é que a brancura é falsa e opressiva; é que a brancura é APENAS falsa e opressiva e nada mais". No seu argumento a brancura não tem outro conteúdo. Em contraste, ele insiste que a negritude (blackness) não é uma essência, mas ao mesmo tempo ele reconhece que esta identidade tem uma história com implicações positivas para a comunidade afro-americana38. Da mesma forma, os novos trabalhos sobre masculinidade questionam a recente tendência para festejar a identidade masculina, aliás supostamente de uma perspectiva não machista39. Mas se a masculinidade é um conceito construído com a proposta de valorizar os homens em relação às mulheres, qualquer tentativa de louvar ou reafirmar a masculinidade implica o fortalecimento duma identidade opressiva.

No sentido mais amplo, esta abordagem rejeita a noção de categorias normativas e monta uma crítica mais vigorosa e completa da noção de mainstream. Assim, o processo de criar um conceito realmente justo e equitativo de cidadania não é uma questão de incluir negros junto com brancos, ou mulheres junto com homens, ou gays junto com heterossexuais. Mas é uma questão de abolir as categorias políticas de branco, de homem, de heterossexual. O grande problema na questão de identidade e cidadania não é o falso essencialismo dos grupos marginais, mas o falso e opressivo essencialismo dos grupos dominantes. Então, a nova historiografia dos anos 90 tem reintroduzido a noção de cidadania, mas com a clara intenção de questionar e desconstruir todos os elementos que constituem este conceito.

 

NOTAS



1 Os seguintes artigos discutem o impacto da "virada lingüística" e outras tendências pós-modernas: Ankersmit, Frank. "Historiography and Postmodernism". In History & Theory. nº 28, 1989, pp. 137-153; MEGILL, Alan. "Recounting the Past: `Description', Explanation, and Narrative in Historiography". In American Historical Review nº 94, June 1989, pp. 627-653

; TOEWS, John. "Intellectual History after the Linguistic Turn: The Autonomy of Meaning and the Irreducibility of Experience". In AHR nº 92, Oct. 1987, pp. 879-907

; WALKOWITZ, Judith." Myra Jehlen and Bell Chevigny Patrolling the Borders: Feminist Historiography and the New Historicism". In Radical History Review 43. Winter 1989, pp. 23-43.

2 Sobre os pressupostos masculinos e etnocêntricos da linguagem "universal" dos historiadores e antropólogos da pós-guerra, veja HOLLINGER, David A. "How Wide the Circle of the We? American Intellectuals and the Problem of the Ethnos since World War II". In AHR 98, april 1993, pp. 317-337.

3 HANDLIN, Oscar. The Americans: A New History of the People of the United States. Boston, Little Brown, 1963.

É um bom exemplo da historiografia que destacou a "assimilação" de grupos étnicos ao corpo político.

4 Entre as obras mais importantes da nova história social, veja GUTMAN, Herbert. Work, Culture, and Society in Industrializing America. New York, Random House, 1977.

MONTGOMERY, David. Workers' Control in America: Studies in the History of Work. Technology, and Labor Struggles. Cambridge, Cambridge University Press, 1979 e DAWLEY, Alan. Class and Community: The Industrial Revolution in Lynn. Cambridge, Mass. Harvard University Press, 1976.

Mesmo durante seu auge, a nova história social foi criticada por historiadores como Eugene Genovese and Tony Judt pela tendência de exagerar a autonomia das classes populares, e de ignorar a esfera política.

5 WILENTZ, Sean. Chants Democratic: New York City and the Rise of the American Working Class, 1788-1850. New York, Oxford University Press, 1984

; GERSTLE, Gary. Working Class Americanism: The Politics of Labor in a Textile City, 1914-1960 Cambridge. Cambridge University Press, 1989.

6 Para um exemplo disso, veja FIELDS, Barbara J. "Ideology and Race in American History" In KOUSSER, J. Morgan and MCPHERSON, James M. (eds.). Region, Race, and Reconstruction. New York: Oxford University Press, 1982, pp. 143-177.

Fields faz um contraste entre raça e classe, insistindo que raça é uma construção puramente ideológica, enquanto classe tem uma base material e objetiva. Um recente livro sobre historiografia escrito por três eminentes historiadoras norte-americanas delineia a transição da história social à história cultural, mas sua análise tende a confundir as distinções entre a abordagem materialista/sócio-cultural associada com E.P. Thomposon e a nova história cultural pós-moderna. APPLEBY, Joyce, HUNT, Lynn and JACOB, Margaret. Telling the Truth about History. New York, W.W. Norton, 1995, pp. 220-221.

7 Para uma discussão dos limites do método de "incluir a mulher no retrato," veja SCOTT, Joan Wallach." Women's History". In Gender and the Politics of History. New York, Columbia U. Press, 1988, pp. 15-27.

8 BERGER, Iris, BROWN, Elsa Barkley and HEWITT, Nancy A. "Symposium: Women, Blacks and Workers Confront Gender, Race and Class". Feminist Studies nº 18, summer 1992, pp. 283-326.

9 APPLEBY et alii. Telling the Truth. pp. 217-223.

10 Enquanto Appleby, Hunt and Jacobs usam a categoria "história social" para denominar a história demográfica e quantitativa, a "velha" história social, estou me referindo neste artigo à nova história social, com suas influências mais nitidamente neo-marxistas.

11 Um bom exemplo disso é PALMER, Bryan. Descent into Discourse: The Reification of Language and the Writing of Social History. Philadelphia, 1990.

12 HOROWITZ, Roger. Reply to RHR Call for Papers on Internet.

13 Por isso, uma figura como Raymond Williams pode funcionar como uma referência extremamente importante, tanto para a história social como a história cultural. APPLEBY et alii. op cit., p. 221.

14 A palavra "agency" se refere à capacidade dos seres humanos de influir na história ou serem" agentes" da história, e geralmente é utilizada em contraste com o estruturalismo que, supostamente, não reconhece o papel ativo dos seres humanos.

15 GORDON, Linda. Heroes of Their Own Lives: The Politics and History of Family Violence. New York, Viking, 1988.

Quanto ao debate, veja SCOTT, Joan e GORDON, Linda. Review and Reply, Signs 15, summer 1990, pp. 848-860.

16 SCOTT, Joan W." Women in The Making of the English Working Class". In Gender and the Politics of History, pp. 68-90.

Para uma leitura feminista de Thompson menos crítica, veja HALL, Catherine. "The Tale of Samuel and Jemima: Gender and Working-Class Culture". In Early-19th-Century England. White, Male and Middle Class New York, Routledge, 1992, pp. 124-150.

17 Para uma crítica desta perspectiva, veja ROEDIGER, David R. The Wages of Whiteness: Race and the Making of the American Working Class. London, Verso, 1991, pp. 06-11.

18 Houve sempre importantes exceções, como MORGAN, Edmund S. American Slavery, American Freedom: The Ordeal of Colonial Virginia. New York, 1975.

Que foi um dos primeiros livros que tratou da escravidão, não como uma instituição "peculiar," um desvio do caminho de liberdade, mas como um aspecto intrínseco da liberdade dos brancos.

19 BERGER, Iris, BROWN, Elsa Barkley and HEWITT, Nancy A. "Symposium: Intersections and Collison Courses: Women, Blacks, and Workers Confront Gender, Race, and Class". In Feminist Studies nº 18, vol. 2, Summer 1992, pp. 283-326.

Veja também BARON, Ava. "Gender and Labor History". In Baron, Work Engendered: Toward a New History of American Labor. Ithaca, Cornell U. Press, 1991.

20 HEWITT, Nancy A." Compounding Differences," op. cit., p. 318.

21 Outros livros que trabalham com o conceito de brancura incluem Roediger, Towards the Abolition of Whiteness: Essays on Race, Politics, and Working-Class History, London, Verso, 1994

; SAXTON, Alexander. The Rise and Fall of the White Republic. London, 1990

Noel. How the Irish Became White. New York, Routledge, 1995; STOLER, Ann Laura. Race and the Education of Desire. Durham, Duke U. Press, 1995.

22 "Blackface minstrelsy" refere a um tipo de teatro musical e popular em qual os músicos pintavam os rostos (com tinta preta) e cantavam no "dialeto dos negros." Os cantores eram todos homens (mas muitos se disfarçavam de mulher), e na grande maioria brancos, mas houve alguns grupos teatrais de negros que adotaram o estilo de "blackface minstrelsy." Além do estudo de Roediger, "White Skins, Black Masks: Minstrelsy and White Working Class Formation in the Antebellum United States". In Wages of Whiteness, pp. 115-131

, veja LOTT, Eric. Love and Theft: Blackface Minstrelsy and the American Working Class. New York, Oxford U. Press, 1993.

23 JACOBSON, Matthew Frye. Special Sorrows: The Diasporic Imagination of Irish, Polish, and Jewish Immigrants in the United States. Cambridge, Mass., Harvard U. Press, 1995.

24 Idem, pp. 141-76. Isto é no sentido do imperialismo formal; no sentido informal, os EUA já tinha entrado no concurso imperialista.

25 MILLER, Stuart Creighton. Benevolent Assimilation: The American Conquest of the Philippines, 1899-1903. New Haven,: Yale U. Press, 1982

; KAPLAN, Amy. "Black and Blue on San Juan Hill". In KAPLAN, Amy and PEASE, Donald E. Cultures of United States Imperialism. Durham, Duke U. Press, 1993.

26 Estudos históricos sobre a masculinidade incluem BEDERMAN, Gail. Manliness and Civilization: A Cultural History of Gender and Race in the United States, 1880-1917. Chicago, U. of Chicago Press, 1995

; ROTUNDO, E. Anthony. American Manhood: Transformations in Masculinity from the Revolution to the Modern Era. New York Basic Books, 1993; MANGAN, J.A. and WALVIN, James. Manliness and Morality: Middle-Class Masculinity in Britain and America, 1800-1940. New York, St. Martin's Press, 1987

; SINHA, Mrinalini. Colonial Masculinity: The Manly Englishman and the Effeminate Bengali in the Late 19th Century. Manchester, Manchester U. Press, 1995; uma discussão pioneira da masculinidade no México é STERN, Steve J. The Secret History of Gender: Women, Men, and Power in Late Colonial Mexico. Chapel Hill, U. of North Carolina Press, cap. 7, 1995.

27 Bederman, Manliness, pp. 35-36. Este conceito nos oferece um forte contraste com as ansiedades dos anos vinte deste século, quando a modernidade "ameaçava" apagar as distinções entre homem e mulher. Veja BESSE, Susan K. Restructuring Patriarchy: The Modernization of Gender Inequality in Brazil, 1914-1940. Chapel Hill, U. of North Carolina Press, cap. 1, 1996.

28 Bederman, de outro lado, insiste que este contra-discurso de civilização abriu um espaço para enfrentar e repensar o discurso hegemônico. Douglass, por exemplo, escreveu que o negro estava" resistindo como homem" sua opressão racista, e colocou o racismo fora da cultura dos civilizados. Manliness, 39.

29 Alguns estudos centrais são D'Emilio, John e FREEDMAN, Estelle. Intimate Matters: A History of Sexuality in America. New York Harper & Row, 1988; DUBERMAN, Martin, VICINUS, Martha e Chauncey, George Hidden from History: Reclaiming the Gay and Lesbian Past. New York, NAL, 1989

; KENNEDY, Elizabeth and DAVIS, Madeline. Boots of Leather, Slippers of Gold: The History of a Lesbian Community. New York, Routledge, 1993; FADERMAN, Lillian. Odd Girls and Twilight Lovers: A History of Lesbian Life in 20th-Century America. New York, Columbia U. Press, 1991

; BERUBÉ, Allan. Coming Out Under Fire: The History of Gay Men and Women during World War Two. New York, Free Press, 1990.

30 CHAUNCEY, George. Gay New York: Gender, Urban Culture, and the Making of the Gay Male World, 1890-1940. New York, Basic, 1994.

31 A Rebelião de Stonewall (1969), um importante ato de resistência em Greenwich Village contra os policiais, serve para muitos escritores como divisor de aguas entre a velha e a nova cultura gay. Sobre este episódio, veja DUBERMAN, Martin. Stonewall. New York, Dutton, 1993.

32 "Queer" é, na linguagem convencional, uma palavra mal educada para gays, semelhante com" veado" em português. Foi escolhida pelos adeptos da teoria exatamente por causa de ser mal educada e indiscreta. Além disso, "queer" pode conotar uma pessoa que é "abnormal" mas ela não identifica a sexualidade do sujeito da maneira tão definitiva como a palavra "gay." Nas palavras de Martha Umphrey," `queer history' pode abranger as práticas heterossexuais não-normativas," junto com a história gay. "The Trouble with Harry Thaw". In RHR nº 62, spring 1995, p. 23.

Veja também PENN, Donna. "Queer: Theorizing Politics and History", pp. 24-42; WARNER, Michael. Fear of a Queer Planet: Queer Politics and Social Theory. Minneapolis, U. of Minnesota Press, 1993.

33 ABELOVE, Henry. "The Queering of Lesbian/Gay History". In RHR nº 62, sSpring 1995, pp. 44-57.

Este autor destaca a forte influência de Michel Foucault entre os historiadores desta nova geração.

34 Um exemplo da tendência anti-assimilacionista é HARRIS, Daniel. The Rise and Fall of Gay Culture. New York, Hyperion, 1997

; veja também a crítica de George Chauncey deste livro em The New York Times Book Review, Sunday, 07/09/97, p. 20.

35 Um texto chave para esta posição é GILLIGAN, Carol. Different Voice: Psychological Theory and Women's Development. Cambridge, Mass., Harvard U. Press, 1992.

36 Este movimento" separatista" ou nacionalista é geralmente associado com a escola" afrocêntrica" cujo objetivo é desvendar a contribuição cultural, científica, e filosófica da Africa à civilização mundial, e nos casos mais extremos, demonstrar a superioridade essencial dos africanos. Molefi Kete Asante, Kemet, Afrocentricity and Knowledge (Trenton: Africa World Press, 1990).

Para uma crítica da" Afrocentricity," veja Gilroy, Paul. The Black Atlantic: Modernity and Double Consciousness. Cambridge, Mass. Harvard U. Press, 1993, pp. 187-196.

37 Kessler-HARRIS, Alice. Out to Work: A History of Wage-Earning Women in the United States. New York, Oxford U. Press, 1982

; SCOTT, Joan. "The Sears Case" In Gender and the Politics of History, pp. 167-177; MILKMAN, Ruth. "Women's History and the Sears Case". In Feminist Studies nº 12, 1986, pp. 394-395.

38 "Introduction," Towards the Abolition of Whiteness.



39 STIMPSON, Catherine." Foreword". In Bederman, Manliness and Civilization.


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