A poesia épica de camõES: os lusíadas I camõES



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A POESIA ÉPICA DE CAMÕES: OS LUSÍADAS
I - CAMÕES
Luís Vaz de Camões é o maior escritor da língua portuguesa em todos os tempos e sua obra alcança a dos maiores nomes da literatura universal. Camões foi um poeta do Classicismo renascentista. O Renascimento literário, ocorrido no século XVI, caracterizou-se pela retomada dos valores estéticos da cultura clássica greco-latina. Uma volta aos padrões da Antiguidade Clássica conformou essa escola literária marcada pelo racionalismo, pelo universalismo, pela imitação da natureza, pelo equilíbrio entre a forma e o conteúdo, enfim, pela imitação dos escritores clássicos, ou seja, aqueles que escrevem de maneira clara, excelente, dignos, portanto de serem imitados, de servirem como modelo estético. A obra de Camões comporta três vertentes: poesia lírica, poesia épica e teatro. É na poesia épica que encontramos uma das mais primorosas obras do criação artística humana: o poema épico: "Os Lusíadas".
II - EPOPÉIA CLÁSSICA
Pertencente ao gênero épico, a epopéia é um poema que narra grandes feitos heróicos dos humanos. De tom elevado, heróico e grandiloquente, apresenta heróis de grande caráter, cuja força e coragem são postas a serviço de sua nação e de seu povo em grandes ações que merecem ser cantadas e enaltecidas. As epopéias renascentistas seguem o modelo das epopéias clássicas antigas como a "Eneida" de Virgílio, a "Ilíada" e a "Odisséia" de Homero. Segundo Massaud Moisés, a poesia épica deve girar em torno de assunto ilustre, sublime, solene, especialmente vinculado a cometimentos bélicos; deve prender-se a acontecimentos históricos, ocorridos há muito tempo, para que o lendário se forme e/ou permita que o poeta lhes acrescente com liberdade o produto da sua fantasia; o protagonista da ação há de ser um herói de superior força física e psíquica, embora de constituição simples, instintivo, natural; o amor pode inserir-se na trama heróica, mas em forma de episódios isolados; e, sendo terno e magnânimo, complementar harmonicamente as façanhas de guerra (...) Ainda caracterizava o poema épico o chamado maravilhoso, vale dizer, o impacto das forças sobrenaturais na ação dos heróis. Quanto ao meio expressivo, postulavam o emprego do verso (...) e postulavam que o verso deveria refletir, na sua majestade e gravidade, a magnitude da ação heróica; de onde o decassílabo, mercê das pausas marciais que o distinguem, ser tido como o metro mais conveniente à poesia épica”(Massaud Moisés, "A Literatura Portuguesa", 1992)
III - O IDEAL RENASCENTISTA DA EPOPÉIA
A intenção de cantar a nacionalidade portuguesa e seus feitos heróicos em um poema épico não iniciou com Camões. Vários autores humanistas, dentre eles Garcia de Resende e Antônio Ferreira, manifestaram a necessidade de se compor uma obra que igualasse os feitos dos portugueses aos dos gregos e troianos e ressuscitasse o nobre gênero clássico dentro do espírito que marcou a Renascença. Foi Camões quem levou a cabo tal intenção. Segundo Saraiva, “à idéia da epopéia pátria andava associada certa ideologia nascida da expansão” segundo a qual “os Portugueses cumpriam uma missão providencial, dilatando tanto o Império como a Fé: eram os Cruzados por excelência.”(Antonio José Saraiva, "História da Literatura Portuguesa" 1985)
IV - ESTRUTURA FORMAL DA OBRA “OS LUSÍADAS”:

. Divide-se em dez cantos


. Possui 8816 versos, divididos em 1102 estrofes de 8 versos (oitavas)
. As estrofes ou estâncias são compostas em oitava rimas: ABABABCC
As armas e os barões assinalADOS A

Que da ocidental praia lusitANA B

Por mares nunca dantes navegADOS A

Passaram ainda além da TrapobANA, B

Em perigos e guerras esforçADOS A

Mais do que prometia a força humANA B

Entre gente remota edificARAM C

Novo reino, que tanto sublimARAM. C


. Os versos são decassílabos heróicos, com cesura (acento) na 6a e na 10a sílabas ou decassílabos sáficos, com cesura na 4a, 8a e 10a sílabas. Ex.:

As/ ar/mas/ e os/ ba/RÕES/ as/si/na/LA/dos - decassílabo heróico


Es/pe/ra um/ COR/po/ de/ quem/ LE/vas/ A AL/ma - decassílado sáfico

.Apresenta as três partes da epopéia clássica:


V - AS PARTES DA EPOPÉIA
1) INTRODUÇÃO (I, 1-18)*: contendo a proposição, a invocação e a dedicatória:
* lê-se, canto I, estrofes 1 a 18
A – Proposição (I, 1-3)
O poeta apresenta o assunto que vai tratar no poema: o poeta vai celebrar em versos os feitos heróicos dos portugueses, as memórias dos reis e a expansão do império português:
As armas e os barões assinalados

Que da ocidental praia lusitana

Por mares nunca dantes navegados

Passaram ainda além da Trapobana,

Em perigos e guerras esforçados

Mais do que prometia a força humana

Entre gente remota edificaram

Novo reino, que tanto sublimaram


E também as memórias gloriosas

Daqueles reis que foram dilatando

A Fé, o Império, as terras viciosas

De África e Ásia andaram devastando,

E aqueles que por obras valerosas

Se vão da lei da morte libertando:

Cantando espalharei por toda parte,

Se a tanto me ajudar o engenho e arte.


Cessem do sábio grego e do troiano

As navegações grandes de fizeram;

Cale-se de Alexandre e de Trajano

A Fama das vitórias que tiveram;

Que eu canto o peito ilustre lusitano,

A quem Netuno e Marte obedeceram.

Cesse tudo que a musa antiga canta,

Que outro valor mais alto se alevanta.


Paráfrase: há um hipérbato (inversão sintática) nessa introdução: (estrofe 2, verso 8) cantando espalharei por toda a parte, se para tanto me ajudar o engenho e a arte, (estrofes 1) as armas e os nobre ilustres que partindo da ocidental praia lusitana e navegando por mares desconhecidos (nunca dantes navegados) passaram ainda além da Trapobana (atual Ceilão no extremo asiático) enfrentando perigos e guerras e, indo além das próprias forças humanas edificaram entre povos distantes (gente remota) um novo reino que tanto elevaram (sublimaram). E cantarei também (estrofe 2) as memórias gloriosas dos reis que expandiram a Fé (cristã), o Império (lusitano) e as terras viciosas (infiéis, não cristãs) da Ásia e da África andaram devastando, além daqueles heróis que por ações valorosas enfrentam e vencem a própria lei da morte. Esqueçam(estrofe 3, note o hipérbato) as grandes navegações que o sábio grego (Ulisses, herói da "Odisséia" de Homero) e o troiano (Enéias, herói da "Eneida" de Virgílio) fizeram. Cale-se a fama das vitórias que Alexandre (imperador grego) e Troiano (imperador romano) tiveram, pois eu canto o ilustre peito do povo lusitano, a quem Netuno (deus do mar) e Marte (deus da guerra) obedeceram. Esqueça tudo que a poesia antiga canta, que outro povo mais valorosa se ergue.
B – Invocação (I, 4-5)
O poeta invoca as Tágides, musas do rio Tejo, para ajudá-lo na sua tarefa.
E Vós, Tágides minhas, pois criado

Tendes em mim um novo engenho ardente,

Se sempre, em verso humilde, celebrado

Foi de mim vosso rio alegremente,

Dai-me agora um som alto e sublimado,

Um estilo grandíloco e corrente,

Por que de vossas águas Febo ordene

Que não tenham inveja às de Hipocrene


C – Dedicatória (I, 6-8)
O poeta dedica seu poema a D. Sebastião:
6

E vós, ó bem nascida segurança

Da lusitana antiga liberdade,

E não menos certíssima esperança

De aumento da pequena cristandade;

Vós, ó novo temor da maura lança,

Maravilha fatal na nossa idade

Dada ao mundo por Deus (que todo o mande,

Pera do mundo a Deus dar parte grande);

[...]


18

Mas, enquanto este tempo passa lento

De regerdes os povos que o desejam,

Dai vós favor ao novo atrevimento,

Pera que estes meus versos vossos sejam;

E vereis ir cortando o salso argento

Os vossos argonautas, por que vejam

Que são vistos de vós no mar irado,

E costumai-vos já a ser invocado.

[...]


D – Narração (I, 19-X,144)
Esta é a parte mais longa do poema, nele está o núcleo narrativo, que é a viagem de Vasco da Gama às Índias. Entretanto, essa viagem é apenas uma das façanhas narradas no texto, pois a partir dela são narrados vários outros episódios e exaltados vários outros heróis da história portuguesa. A narração começa na estrofe 19 do canto I, já em plena ação ou in media res, como pedia a regra clássica: o portugueses já estão em pleno oceano, navegando na costa oriental da África. Em seguida (I, 20-41), a narração passa para o plano mitológico e os deuses reúnem-se no Olímpo, num concílio, um julgamento, para decidir sobre o futuro dos portugueses. Os deuses encontram-se divididos: Vênus e Marte são favoráveis aos portugueses, por sua bravura e admiração pela beleza; Netuno e Baco contra, pois vêem neles uma ameaça ao seu Domínio no mares no Oriente. Júpiter decide permitir a continuação da viagem. A partir daí os deuses irão sempre interferir. Passam por Moçambique e Mombaça (Canto II, 106) onde enfrentam ciladas preparadas por Baco e Netuno que se aliam aos mouros para derrotar os lusitanos; escapam com a ajuda de Vênus e chegam a Melinde.
19

Já no largo oceano navegavam,

As inquietas ondas apartando;

Os ventos brandamente respiravam,

Das naus as velas côncavas inchando;

Da branca escuma os mares se mostravam

Cobertos, onde as proas vão cortando

As marítimas águas consagradas,

Que do gado de Próteu são cortadas,

20

Quando os Deuses no Olímpo luminoso,



Onde o governo está da humana gente,

Se ajuntam em concílio glorioso,

Sobre as cousas futuras do Oriente.

Pisando o cristalino céu fermoso,

Vêm pela Via Láctea juntamente,

Convocados, da parte do Tonante

Pelo neto gentil do Velho Atlante.

30

Estas palavras Júpiter dizia,



Quando os deuses por ordem respondendo,

Na sentença um do outro diferia,

Razões diversas dando e recebendo.

O Padre Baco ali não consentia

No que Júpiter disse, conhecendo

Que esquecerão seus feitos no Oriente,

Se lá passar a lusitana gente

31

Ouvido tinha os fados que viria



Uma gente fortíssima de Espanha,

Pelo mar alto, a qual sujeitaria

Da Índia tudo quanto Dóris banha,

E com novas vitórias venceria

A fama antiga, ou sua ou fosse estranha.

Altamente lhe dói perder a glória

De que Nis celebra inda a memória.

[...]


33

Sustentava contra ele Vênus bela

Afeiçoada à gente lusitana,

Por quantas qualidades via nela

Da antiga, tão amada sua, romana;

Nos fortes corações, na grande estrela,

Que mostravam na terra tingitana,

E na língua, na qual quando imagina,

Com pouca corrupção crê que é a latina.
CILADA DE BACO

(Fala do poeta)

106

No mar, tanta tormenta e tanto dano,



Tantas vezes a morte apercebida;

Na terra, tanta guerra, tanto engano,

Tanta necessidade aborrecida!

Onde pode acolher-se um fraco humano,

Onde terá segura a curta vida,

Que não se arme e se indigne o céu sereno

Contra um bicho da terra tão pequeno?
Em Melinde são bem recebidos e o rei pede ao Vasco da Gama que conte a história de Portugal (Canto III). A partir desse momento Vasco da Gama assume a narração: descreve a Europa, fala de Luso e Viriato, heróis portugueses primitivos, narra a fundação de Portugal por D. Afonso Henriques após a batalha de Ourique (1139) contra os castelhanos. Descreve os reinados dos primeiros reis (Sancho I, Afonso II, Sancho II, Afonso III e Dinis). No reinado de Afonso IV destaca o episódio de Inês de Castro.

O EPISÓDIO DE INÊS DE CASTRO (III, 118 a 135)
Episódio lírico-amoroso narrado por Vasco da Gama. Relata a história da morte de Inês de Castro, bela jovem filha da pequena nobreza de Castela, que se apaixona pelo príncipe D. Pedro, filho de Afonso IV. Embora fosse casado, D. Pedro ama Inês com quem tem filhos. A corte opunha-se a tal união por ver nela uma ameaça ao reino português e trama a morte de Inês durante a ausência de D. Pedro que estava na África. O rei, mesmo sabendo da inocência de Inês nada faz para impedir e ela é morta. Conta-se, num episódio lendário, que ao regressar da África e tornar-se rei D. Pedro teria desenterrado Inês, coroando-lhe rainha e fazendo a corte beijar a mão da rainha-morta.
118

Passada esta tão próspera vitória

Tornado Afonso á lusitana terra,

A ser lograr da paz com tanta glória

Quanta soube ganhar na dura guerra,

O caso triste e dino na memória

Que do sepulcro os homens desenterra,

Aconteceu da mísera e mesquinha

Que despois de ser morta foi rainha.

119


Tu só, tu, puro amor, com força crua,

Que os corações humanos tanto obriga,

Deste causa á molesta morte sua,

Como se fora pérfida inimiga.

Se dizem, fero Amor, que sede tua

Nem com lágrimas tristes se mitiga,

É porque queres, áspero e tirano,

Tuas aras banhar em sangue humano.

120

Estavas, linda Inês, posta em sossego,



De teus anos colhendo doce fruito,

Naquele engano da alma ledo e cego,

Que a Fortuna não deixa durar muito,

Nos saüdosos campos do Mondengo,

De teus fermosos olhos nunca enxuito,

Aos montes ensinando e ás ervinhas

O nome que no peito escrito tinhas.

121


Do teu Príncipe ali te respondiam

As lembranças que na alma lhe moravam,

Que sempre ante seus olhos te traziam,

Quando dos teus fermosos se apartavam;

De noite, em doces sonhos que mentiam,

De dia, em pensamentos que voaram;

Eram tudo memórias de alegria.
122

De outras bela senhoras e princesas

Os desejados tálamos enjeita,

Que tudo, enfim, tu, puro amor, desprezas

Quando um gesto suave te sujeita.

Vendo esta namoradas estranhezas

I velho pai que sesudo, que respeita

O murmurar do povo e a fantasia

Do filho, que casar-se não queria,

123


Tirar Inês ao mundo determina,

Por lhe tirar o filho que tem preso,

Crendo co’o sangue só da morte indina

Matar do firme amor o fogo aceso.

Que furor consentiu que a espada fina

Que pôde sustentar o grande peso

Do furor mauro, fosse alevantada

Contra uma fraca dama delicada?

124

Traziam-na os horrífico algozes



Ante o Rei, já movido a piedade:

Mas o povo, com falsas e ferozes

Razões, á morte crua o persuade.

Ela, com tristes e piedosas vozes,

Saídas só da mágoa e saüdade

Do seu Príncipe e filhos, que deixava,

Que mais que a própria morte a mogoava,

125


Pera o céu cristalino elevantando

Com lágrimas, os olhos piedosos,

(Os olhos, porque as mãos lhe estavam atando

Uns dos duros ministros rigorosos)

E depois nos meninos atentando,

Que tão queridos tinha e tão mimosos,

Cuja orfindade como mãe temia,

Para o avô cruel assi dizia:

126

“Se já nas brutas feras, cuja mente



Natureza fez cruel de nascimento,

E nas aves agrestes, que somente

Nas rapinas aéreas tem o intento,

Com pequenas criadas viu a gente

Terem tão piedoso sentimento,

Como coa a mãe de Nino já mostraram

E co’os irmãos que Roma edificaram:

127


Ó tu, que tens de humano o gesto e o peito

(Se de humano é matar uma donzela

Fraca e sem força, só por ter sujeito

O coração a quem soube vencê-la),

A estas criancinhas tem respeito,

Pois o não tens á morte escura dela;

Mova-te a piedade sua e minha,

Pois te não move a culpa que não tinha.

128

E se, vencendo a maura resistência,



A morte sabes dar com fogo e ferro,

Sabe também dar vida, com clemência,

A quem para perdê-la não fez erro.

Mas, se to assim merece esta inocência,

Põe-me em perpétuo e mísero desterro,

Na Cítia fria ou lá ou lá na Líbia ardente,

Onde em lágrimas viva eternamente.

129


Põe-me onde se use toda a feridade,

Entre leões e tigres, e verei

Se também achar posso a piedade

Que entre peitos humanos não achei.

Ali, co’o amor intrínseco e vontade

Naquele por que mouro, criarei

Estas relíquias suas que aqui viste,

Que refrigério sejam da mãe triste”

130

Queria perdoar-lhe o Rei benino,



Movido das palavras que o magoam;

Mas o pertinaz povo e seu destino

(Que desta sorte o quis)lhe não perdoam.

Arrancam das espadas de aço fino

Os que por bom tal feito ali apregoam.

Contra uma dama, ó peitos carniceiros,

Feros vos amostrais e cavaleiros?

131


Qual contra alinda moça Policena,

Consolação extrema da mãe velha,

Porque a sombra de Aquiles a condena,

Co’o ferro o duro Pirro se aparelha;

Mas ela, os olhos com que o ar serena

(Bem como paciente e mansa ovelha)

na mísera mãe postos, que endoudece,

ao duro sacrifício se oferece:

132

Tais contra Inês os brutos matadores,



No colo de alabastro, que sustinha

As obras com que Amor matou de amores

Aquele que depois a fez rainha,

As espadas banhando, e as brancas flores,

Que ela dos olhos seus regadas tinha,

Se encarniçavam, férvidos e irosos,

No futuro castigo não cuidosos.

133


Bem puderas, ó Sol, da vista destes,

Teus raios apartar aquele dia,

Como da seva mesa de Tiestes,

Quando os filhos por mão de Atreu comia!

Vós, ó côncavos vales, que lhe pudestes

A voz extrema ouvir da boca fria,

O nome de seu Pedro, que lhe ouvistes,

Por muito grande espaço repetistes.

134

Assi como a bonina que cortada



Antes do tempo foi, cândido e bela,

Sendo da mãos lascivas maltratada

Da menina que a trouxe na capila,

O cheiro traz perdido e a cor murchada:

Tal está, morta, a pálida donzela,

Secas do rosto as rosas e perdida

A branca e viva cor, co’a doce vida.

135


As filhas do Mondengo a morte escura

Longo tempo chorando memoraram,

E, por memória eterna, em fonte pura,

As lágrimas choradas transformaram.

O nome lhe puseram, que inda dura,

Dos amores de Inês, que ali passaram.

Vêde que fresca fonte rega as flores,

Que lágrimas são a água e o nome amores.

ANOTE: trata-se de um episódio lírico-amoroso. Camões reconta o famoso episódio de Inês de Castro e dá a ele uma interpretação literária e não histórica ao destacar o amor como elemento mais importante da tragédia. O motivo da morte de Inês foi, no texto, o amor demasiado que sentiu por D. Pedro. Note que o rei sente piedade de Inês mas parece seguir um destino mais forte, determinado pelo amor, personificado na estrofe 119. Aliás Camões parecer seguir a concepção do amor como um sentimento contraditório que levaria o amante não ao prazer, mas ao sofrimento, tema comum na sua obra lírica. Atenção para:

.Dramaticidade e caráter lírico do episódio: InêsXrei, povo

.Personificação do Amor (119/132) e Fortuna (120)

.Referências mitológicas



.Hipérbatos, metáforas, hipérboles, ortografia clássica
Paráfrase: (118) Depois da vitória sobre os mouros na batalha de Salado (1340), Afonso IV, o Bravo, retornou a Portugal para celebrar os seus sucessos e protagonizou um caso triste e digno de memória: a morte de Inês de Castro, aquela que depois de morta foi coroada rainha (119) [o poeta personifica e interpela o amor:] Somente tu, ó puro amor, foi a causa da morte da donzela, pois tu, ó Amor, como dizem, necessitas matar a tua sede não somente com lágrimas, mas precisas de sangue humano para banhares os teus altares (120) [começa o relato, interpelando Inês -:] Inês, estavas linda colhendo os doces frutos da tua juventude e dos amores que sentias por D. Pedro, por quem suspiravas nos campos do Rio Mondego ensinando aos montes e às ervinhas o nome do príncipe amado que trazias escrito no coração.(121) Tu guardavas n'alma as lembranças do amado quando teus olhos se afastavam dos dele e à noite, sonhavas com ele, de dia nele pensavas, mas ele estava ausente e a única coisa que restava eram memórias dos dias alegres.(122) [interpela o amor:] por ti, puro amor, o príncipe enjeitava casar-se com outras belas damas e princesas, pois só queria Inês. Vendo isso, Afonso IV, o sisudo pai de D. Pedro, ouvindo os conselhos do povo, desautoriza o amor do príncipe (123) e determina que Inês seja morta por lhe tirar o filho mantendo-o preso pela paixão e só o sangue da donzela poderia acabar com o firme amor. Que fúria permitiu que a espada fina que pesou sobre a fúria mouros, fosse levantada contra uma fraca e delicada dama? (124) Trazida pelos cruéis algozes diante de si, o rei tem piedade da pobre donzela, mas o povo o persuade a continuar com o cruel plano. Ela então com a voz triste pela mágoa e pela saudade do seu príncipe e de seus filhos (125) levanta os olhos lacrimosos (pois suas mãos estavam seguras por um dos ministros do rei) e depois, pensando nos seus filhos queridos, diz para o rei, avô cruel: (126) [Inês de Castro:]"Se a até mesmo as brutas feras e as aves de rapina que a Natureza fez cruéis de nascimento demonstraram piedade com as crianças pequenas, como a Loba com os irmão que fundaram Roma (127) o Senhor que tens o rosto e o coração humanos (se humano é matar uma donzela só por ter dado o coração a quem a conquistou) tem respeito a essas criancinhas, meus filhos, teus netos, já que a minha morte não te comove.(128) E se o senhor soube vencer na guerra, com ferro e fogo a resistência dos mouros deve saber ser clemente e poupar a vida de quem não cometeu crimes para perdê-la. Mas se mesmo inocente mereço ser punida, manda-me para o exílio na Cítia gelada ou na Líbia desértica e quente, onde eu viverei eternamente com lágrimas (129) e põe-me entre leões e tigres e verei se neles posso achar a piedade que não achei nos corações humanos e lá com o coração e o pensamento naquele por quem morro, criarei os seus filhos que o senhor acaba de ver e que serão o consolo da sua mãe triste”(130) O rei bondoso queria perdoar a dama movido por suas palavras, mas o povo e o Destino não a perdoam. Aqueles que defendiam a execução, carniceiros, arrancam a espada de aço fino e se mostram ferozes contra a dama (131) tal como Pirro que assassinou Policena sobre o túmulo de Aquiles sob os olhos de sua mãe que a tudo assistia; Policena como mansa ovelha, olha para sua mísera mãe pela última vez e se oferece ao duro sacrifício (132) Dessa mesma forma,os algozes avançam contra Inês os brutos matadores e enterram as espadas em seu colo de alabrastro - sustentáculo do belo rosto que encantara o príncipe - banhando de sangue as espadas e os olhos da dama que, como brancas flores já regadas, repletos de lágrimas estavam; férvidos e irados os algozes se encarniçavam, não cientes do futuro castigo (133) [interpela o sol:] Ó sol, bem pudera os teus raios esquecer aquele dia tão infeliz quanto o dia em que Atreu, rei de Micenas, serviu a carne de seus filhos ao seu irmão Tiestes; ó côncavos vales, que possam repetir o nome do seu amado Pedro que ouvistes Inês suspirar da boca fria à hora da morte.(134) Tal como a cândida e bela flor, que foi cortada antes do tempo e maltratada por mãos lascivas, perde o cheiro e a cor, está morta Inês, com o rosto pálido, sem a branca e viva cor de rosa, sem a doce vida.(135) As ninfas do rio Mondego, chorando, lembraram por longo tempo essa morte e para preservam eternamente a memória da bela Inês transformaram as lágrimas choradas numa fonte fresca que rega as flores e a que deram o nome de fonte dos amores de Inês.
Vasco da Gama continua narrando outros fatos importantes da história de Portugal, como a batalha de Aljubarrota que deu início à dinastia de Avis, fala dos reis desta dinastia das primeiras conquistas portuguesas, e do sonho profético do rei D. Manuel em que ele vê os portugueses chegando às índias. Durante o seu governo a expansão atingiu o auge. Vasco da Gama é escolhido para fazer a viagem. No momento da partida, na praia do Restelo, a 8 de julho de 1497, apareceu um velho de aspecto venerando que critica severamente as grandes navegações.
EPISÓDIO DO VELHO DO RESTELO
No momento em que as naus de Vasco da Gama se preparavam para partir a 8 de julho de 1497, do praia do Restelo, surge no porto um velho de aparência respeitável e profere um discurso contra as intenções dos portugueses de realizar a viagem:
93

Nós outros, sem a vista alevantarmos

Nem a mãe, nem a esposa, neste estado,

Por nos não magoarmos, ou mudarmos

Do propósito firme começado,

Determinei de assi nos embarcamos,

Sem o despedimento costumado,

Que, posto que é de amor usança boa,

A quem se aparta, ou fica, mais magoa.

94

Mas um velho, de aspecto venerando,



Que ficava nas praias, entre a gente,

Postos em nós os olhos, meneando

Três vezes a cabeça, descontente,

A voz pesada um pouco alevantando,

Que nós no mar ouvimos claramente,

C’uma saber só de experiências feito,

Tais palavras tirou do esperto peito:

95

“Ó glória de mandar, ó vã cobiça



Desta vaidade a quem chamamos Fama!

Ó fraudulento gosto, que se atiça

C’uma aura popular, que honra se chama!

Que castigo tamanho e que justiça

Fazes o peito vão que muito te ama!

Que mortes, que perigos, que tormentas,

Que crueldades neles experimentas!

96

Dura inquietação d’alma e da vida,



Fonte de desamparos e adultérios,

Sagaz consumidora conhecida

De fazendas, de reinos e de impérios!

Chamam-te ilustre, chamam-te subida,

Sendo dina de infames vitupérios

Chamam-te Fama e Glória soberba,

Nomes com que se o povo néscio engana!

97

A que novos desastres determinas



De levar estes Reinos e esta gente?

Que perigos, que mortes lhe destinas,

Debaixo dalgum nome proeminente?

Que promessas de reinos e de minas

De ouro, que lhe farás tão facilmente?

Que famas lhe prometerás? Que histórias?

Que triunfos? Que palmas? Que vitórias?

98

Mas, ó tu, geração daquele insano



Cujo pecado e desobediência

Não comente do Reino soberano

Te pôs neste desterro e triste ausência

Mas inda doutro estado, mais que humano,

Da quieta e da simples inocência,

Idade de ouro, tanto te privou,

Que na de ferro e de armas te deitou:

99

Já que nesta gostosa vaidade



Tanto enlevas a leve fantasia,

Já que á bruta crueza e feridade

Puseste nome, esforço valentia,

Já que prezas em tanta quantidade

O desprezo da vida que devia

De ser sempre estimada, pois que já

Temeu tanto perdê-la Quem a dá:

100


Não tens junto contigo o ismaelita,

Com quem sempre terás guerras sobejas?

Não segue ele do Arábio a lei maldita,

Se tu pela de Cristo só pode pelejas?

Não tem cidades mil, terra infinita,

Se terras e riqueza mais desejas?

Não é ele por armas esforçado,

Se queres por vitórias ser louvado?

101

Deixas criar ás portas o inimigo,



Por ires buscar outro de tão longe,

Por quem se despovoe o Reino antigo,

Se enfraqueça e se vá deitando a longe;

Buscas o incerto e incógnito perigo

Por que a Fama te exalte e te lisonje

Chamando-te senhor, com larga cópia,

Da Índia, Pérsia, Arábia e de Etiópia?

102


Oh! Maldito o primeiro que, no mundo,

Nas onda vela pôs em seco lenho!

Digno da eterna pena do Profundo,

Se é justa a justa Lei que sigo e tenho!

Nunca juízo algum alto e profundo,

Nem cítara sonora ou vivo engenho

Te dê por isso fama nem memória,

Mas contigo se acabe o nome e glória!

103

Trouxe o filho de Jápeto do céu



O fogo que ajuntou ao peito humano,

Fogo que o mundo em armas acendeu,

Em morte, em desonras (grande engano)!

Quanto melhor nos fora, Prometeu,

E quanto pera o mundo menos dano,

Que a tua estátua ilustre não tivera

Fogo de altos desejos que a movera!

104


Não cometera o moço miserando

O carro alto do pai, nem o ar vazio

O grande arquitetor co’o filho, dando,

Um, nome ao mar, e, o outro, fama ao rio.

Nenhum cometimento alto e nefando

Por fogo, ferro, água, calma e frio,

Deixa intentado a humana geração.

Mísera sorte! Estranha condição

ANOTE : o discurso do velho do Restelo se contrapõe-se ao discurso expansionista que norteou a política colonialista portuguesaa nos XV e XVI. Note que na proposição (estrofes 1 e 2) essa política é exaltada quando se justifica a viagem como a busca da expansão do Império português e da Fé cristã. O velho procura desmascarar essa visão, mostrando que na verdade aqueles ideais não passavam do desejo de mandar e de obter a fama (95) o que lhes poderia trazer conseqüências funestas. O discurso do velho representaria assim aqueles que não concordavam com a política expansionista bancada pela Coroa portuguesa em associação com a burguesia e parte da nobreza. O velho representa, assim, um pensamento reacionário, próximo de uma parcela da nobreza. Note que ele execra aqueles heróis que trouxeram o progresso para a humanidade: o iventor dos navios (102), Prometeu - que deu o fogo ao homem e com ele as artes e a ciência (103), Dédalo, arquiteto que projetou asas para o seu filho Ícaro tentar voar. Atenção para:

. A contraposição deste discurso com o da proposição

. O ideal cristão do velho.

. As referências mitológicas


Paráfrase: (94) Mas um velho, de aspecto respeitável, que estava entre o povo , com os olhos postos em nós balançou três vezes a cabeça, descontente, levantando a voz pesada para que nós o ouvíssemos claramente do mar, e com sabedoria, fruto da suas experiências disse-nos: (95) [fala do velho dirigida aos portugueses:] “Ó glória de mandar, ó vã cobiça desta vaidade chamada Fama! Ó ilusão estimulada pelo que se conhece como honra! Que grande castigo e que justiça impões aos corações que te adoram [a fama e a honra]Que mortes, que perigos, que crueldades provocais nos corações que vos procuram! (96) A busca da glória e da fama é fonte de inquietação da alma e da vida, e fonte de desamparos e adultérios, é uma grande consumidora de reinos e de impérios! Chamam-te Fama e Glória, e esses são nomes com os quais o povo ignorante é enganado (97) ó ambição da glória e da fama, a que novos desastres levarás este reino e esta gente. Que perigos e que mortes lhes destinas sob algum nome glorioso? Que promessas de reinos e de minas de ouro lhes fará tão facilmente? Que fama lhes prometerá? Que histórias? Que triunfos? Que palmas? Que vitórias? (98) Mas vocês, descendentes de Adão, cujo pecado e desobediência o levou a ser desterrado do Paraíso e deixar a inocência com que lá vivia: (99) vocês que chamam a crueldade de esforço e valentia, que pregam o desprezo pela vida – que devia ser sempre estimada, pois já temeram tanto perdê-la (100) vocês já não tem bem perto os mouros com quem ainda terão bastante guerras? Pois enquanto vocês seguem a lei de Cristo, não seguem eles as leis muçulmanas? Se desejam mais terras e riquezas, não tem esses mouros cidades mil e terra infinda? Não é contra eles que têm que lutar em busca de vitória e louvores (101) Vocês que deixam os mouros às nossas portas para irem buscar outro inimigo tão longe, vão e deixam o nosso reino enfraquecido! Buscam o perigo incerto em nome da fama e da riqueza para serem senhores de todo o Oriente! (102) Oh! Maldito seja o primeiro homem do mundo que pôs velas em madeira seca e construiu o primeiro barco. Nunca ninguém festeje com canto sua memória e que o seu e sua glória para sempre se acabe.(103) Prometeu, filho de Japeto, trouxe o fogo dos céus para o homem e com ele acendeu-se a guerra que causa mortes e desonras. Teria sido melhor, ó ilustre Prometeu, que não tivesses, trazido-lhes o fogo! (104) Pudera o moço Ícaro não Ter tentado voar até o céu alto nas asas fabricadas pelo pai Dédalo e caido no mar que recebeu seu nome. Pois: nenhuma ambição por fogo, ferro, água, calma e frio deixa satisfeito o ser humano. Miserável sorte! Estranha condição a sua!

Vasco da Gama continua narrando a história ao rei de Melinde: (Canto V) a viagem pela costa africana o cruzamento do Equador, e a parte mais difícil da viagem, a passagem pelo cabo das Tormentas. No momento da passagem surge no oceano um gigante de aspecto monstruoso e ameaçador vociferando bravamente contra os portugueses: é o gigante Adamastor, personificação do Cabo das Tormentas, acidente geográfico da Costa Africana, cuja passagem era difícil. Os portugueses enfrentam o gigante e atravessam o cabo. Finalmente narra a seqüência da viagem e a chegada a Melinde. Vasco da Gama deixa a posição de narrador. A armada portuguesa deixa Melinde (Canto VI) e parte em direção à Ïndia. Enfrentam novas ciladas de Baco e de Netuno. Finalmente chegam a Calicute (Canto VII). Narra-se o desembarque e os primeiros contatos com os mouros. Descreve-se as Índias. Enfrentam problemas com os mouros e uma nova cilada de Baco (Canto VIII) Os portugueses conseguem se livrar dos problemas com os mouros (Canto IX) e Vasco da Gama carrega as naus de especiarias e parte de volta a Portugal. No caminho Vênus faz aparecer no mar a Ilha dos Amores, uma ilha paradisíaca, onde os portugueses terão suas recompensas pela bravura e coragem com que realizaram sua viagem. Na ilha, os marinheiros divertem-se com as ninfas enquanto Vasco da Gama ama a deusa Tétis. Tétis oferece um banquete aos portugueses (Canto X) e após o banquete leva Vasco da Gama para o alto da ilha e descreve-lhe o mundo até então conhecido e profetiza novos feitos heróicos dos portugueses. Os navegantes partem da ilha e regressam a Lisboa. Tem-se a partir de então o epílogo, última parte da epopéia.


CANTO IX

ILHA DOS AMORES

52

De longe a ilha viram, fresca e bela,



Que Vênus pelas ondas lha levava

(Bem como o vento leva branca vela)

Pera onde a forte armada se enxergava;

Que, por que não passassem, sem que nela

Tomassem porto, como desejava,

Pera onde as naus navegavam, a movia

A Acidália, que tudo, enfim podia.

54

Três fermosos outeiros se mostravam



Erguidos com soberba graciosa,

Que de gramíneo esmalte se adornavam,

Na fermosa ilha, alegre e deleitosa.

Claras fontes e límpidas manavam

Do cume, que a verdura tem viçosa;

Por entre pedras alvas se deriva

A sonorosa linfa fugitiva.

55

Num vale ameno, que os outeiros fende



Vinham as claras águas ajuntar-se,

Onde uma mesa fazem, que se estende

Tão bela quando pode imaginar-se.

Arvoredo gentil sobre ela pende,

Como que pronto está pera afeitar-se,

Vendo-se no cristal resplandescente,

Que em si o está pintando propriamente.

[...] 64


Nesta frescura tal desembarcavam

Já das naus os segundo argonautas,

Onde pela floresta se deixavam

Andar as belas deusas, como incautas.

Algumas, doces cítaras tocavam,

Algumas, harpas e sonoras frautas;

Ontras co’os arcos de ouro, e fingiam

Seguir os animais que não seguiam

[...] 83

Oh! Que famintos beijos na floresta,

E que mimoso choro que soava

Que afagos tão suaves, que ira honesta!

Que em risinhos alegre se tornava!

O que mais passam na manhã e na sesta,

Que Vênus com prazeres inflamava,

Melhor é experimentá-lo que julgá-lo;

Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo.
CANTO X
A MÁQUINA DO MUNDO

75

Despois que a corporal necessidade



Se satisfez domantimento nobre,

E na harmonia e doce suavidade

Viram os altos feitos que descobre,

Tétis, de graça ornada e gravidade,

Pera que com mais alta glória dobre

As festas deste alegre e claro dia,

Pera o felice Gama assim dizia:

76

Fez-te mercê, barão, a Sapiência



Suprema de, co’os olhos corporais,

Veres o que não pode a vã ciência

Dos errados e míseros mortais.

Sigue-me firme e forte, com prudência,

Por este monte espesso, tu co’os mais”.

Assim lhe diz e o guia por um mato

Árduo, difícil, duro a humano trato.
77

Não andam muito, que no erguido cume

Se acharam, onde um campo se esmaltava

De esmeraldas, rubis, tais que presume

A vista, que divino chão pisava.

Aqui um globo vêem no ar, que o lume

Claríssimo por ele penetrava,

De modo que o seu centro está evidente,

Como a sua superfície, claramente.

[...]


80

Vês aqui a grande máquina do mundo,

Éterea e elemental, que fabricada

Assim foi do Saber, alto e profundo,

Que é sem princípio e meta limitada.

Quem cerca em derredor este rotundo

Globo e sua superfície tão limada,

é Deus; mas o que é Deus, ninguém o entende,

Que a tanto o engenho humano não se estende.

E - EPÍLOGO (X, 145-146)
O epílogo apresenta um tom melancólico. Camões lamenta a decadência da Pátria que caminhava para uma inevitável ruína. É um tom quase profético, pois em 1580, oito anos após a publicação da obra, Portugal caía sob domínio espanhol.

83

Não mais, musa, não mais, que a lira tenho



Destemperada e a voz enrouquecida,

E não do canto, mas de ver que venho

Cantar a gente surda e endurecida.

O favor com que mais se acende o engenho

Não no dá a pátria, não que está metida

No gosto da cobiça e na rudeza



De uma austera, apagada e vil tristeza.
VI - ALGUNS ASPECTOS GERAIS D’OS LUSÍADAS
Tema
O tema da epopéia é a história de Portugal. O assunto principal, a viagem de Vasco da Gama serve como pretexto para o tema e define plano histórico do poema. O poema traz em decorrência disso, um herói individual, Vasco da Gama, e um herói coletivo, o povo portugês.
Titulo
Lusíadas deriva de Luso, que teria sido o primeiro português.
Mitologia
O uso da mitologia, ou maravilhoso pagão, de deuses, cria no poema um plano mitológico que se desenvolve paralelamente ao plano histórico. Em muitos momentos os dois planos se cruzam. Nota-se também a presença do maravilhoso cristão; um exemplo disso é o episódio da Ilha dos Amores uma reconstrução do paraíso edênico.
Linguagem
Destaca-se na linguagem de Camões o vocabulário clássico e a sintaxe erudita. Além do vocabulário, violentas inversões sintáticas (hipérbatos), elipses, e referências mitológicas e históricas dificultam para o leitor moderno a leitura da obra.
Sobre a estrutura do poema
.Apesar de representar fidedignamente o espírito de “ressurreição” do gênero clássico, as características formais do poema são, segundo Massaud Moisés, “um tanto heterodoxas quando postas em face da epopéia clássica (...) A começar do herói, que não é Vasco da Gama, salvo como porta-voz dos que levaram a cabo a ousada empresa, ou símbolo do povo português (..) os navegantes como uma unidade, ou mesmo Portugal como terra de ‘armas e barões assinalados’, é que representam o papel de herói no poema. Mais ainda, a viagem às Índias carecia de força dramática, como episódio histórico e motivação literária, para justificar por si só uma epopéia de tão alto sentido e intenção. Além de ser muito recente para tornar-se mito (condição básica da epopéia) faltava-lhe o porte heróico, isto é, faltava-lhe instituir-se num cometimento que transcendesse o plano humano e se aproximasse do divino (o herói clássico resultava do consórcio entre um deus e uma mortal: daí o seu caráter de semideus, e as façanhas sobrenaturais que operava; seu lado humano se revelava numa imperfeição, como o calcanhar de Aquiles) (...) na verdade, o poeta se viu obrigado a colocar maior ênfase naquilo que era excrescente ou meramente marginal no eixo central da epopéia clássica, como se pode observar na fisionomia de alguns episódios fundamentais: A ilha dos Amores, o Gigante Adamastor (...). Tais inovações, e outras, que se lhes poderiam juntar, significam a edificação duma epopéia renascentista, moderna, desobediente aos ensinamentos dos antigos (‘Cessem do sábio Grego e do Troiano/As navegações grandes que fizeram,’) e inclinada a espelhar a nova idade do homem” (Massaud Moisés, "Literatura Portuguesa",1997)
Sobre a importância do poema
"Simbolizando a conquista dos mares pelo navegante português, representa igualmente o domínio pelo homem novo, da Renascença, sobre os elementos da Natureza. Numa época de sulcado antropocentrismo, é imensurável o significado dum poema que fixa um dos raros momentos em que o homem experimenta com êxito a magnitude de sua força física e moral num embate de proporções cósmicas. (...) Neste sentido, a obra ultrapassa o século XVI, e adquire valor universal e perene, pois contém a imagem do homem de sempre, ansioso de conquistas novas que lhe dêem a impressão de superar a certeza da própria pequenez e dependência, identificada com a sensação de angústia que acompanha o ato de contemplar os então assombros da Natureza. Daí não estranhar que Camões, pela representação universal de seu pensamento, fruto de um singular poder de transfiguração poética, típica do visionário e do gênio, seja considerado um dos maiores poetas de todos os tempos” Moisés, 1997)






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