A presença do barroco na invençÃo da psicanálise denise Maurano



Baixar 126.8 Kb.
Página1/3
Encontro29.07.2016
Tamanho126.8 Kb.
  1   2   3
A PRESENÇA DO BARROCO NA INVENÇÃO DA PSICANÁLISE

Denise Maurano*
Qual é a relação entre a psicanálise e o barroco? Qual é a conexão entre estes dois campos aparentemente tão distintos? Em que medida uma expressão artística, no caso, a arte barroca, pode interessar a teoria e a clínica psicanalítica? Em que perspectiva a ligação da expressão barroca com a psicanálise pode esclarecer uma e a outra? E, em último termo, por que falar da presença do barroco na invenção da psicanálise?
Esta questão ganha sentido a partir de uma reflexão sobre a ética, que focaliza a relação do sujeito à pertinência de sua ação. No contexto da psicanálise o sentido da ação do psicanalista é fundamental, quer se trate de sua intervenção na atividade clínica, ou na cultura, ou ainda no trabalho específico da transmissão. É prioritário que se saiba que a psicanálise é animada por uma concepção da condição humana que não nega a dimensão dos impasses e dos conflitos inerentes à própria humanidade. A psicanálise não trabalha a partir de uma visão ideal do sujeito, nem de uma idealização do mundo.
O estudo da arte barroca sugere que esta arte parece ser a expressão plástica, musical e literária do sujeito, tal como ele é abordado pela ética psicanalítica, fornecendo elementos de visibilidade para a difícil transmissão dessa ética, freqüentemente confundida com diversas éticas psicológicas e filosóficas. Esta confusão engendra distorções lamentáveis para a especificidade da proposição freudiana e traz conseqüências funestas para a transmissão da psicanálise. A contribuição de Lacan nos ajudará, de maneira decisiva diante dos impasses desta transmissão.
Dado que não é suficiente fazer uma investigação histórica do contexto vienense na época de Freud, este trabalho exige uma verdadeira imersão no barroco, afim de lhe captar o espírito.É preciso assim, primeiramente precisar que a questão do barroco é aqui referida não somente como um estilo no campo das artes, mas fundamentalmente como uma estrutura que corresponde a um modo de orientação do psiquismo, tal como propôs Eugène d’Ors.
A discussão segue quatro níveis de argumentação. Para começar é necessário trabalhar a noção de estilo à luz da psicanálise. Isto nos ajudará na abordagem da questão da subjetividade e de seu manejo na experiência psicanalítica, na perspectiva mesmo da dessubjetivação. Por essa via acederemos ao segundo nível de argumentação que abre a discussão sobre o gozo. Veremos que a abordagem do barroco será introduzida através desta discussão sobre o gozo. A afinidade ética entre o barroco e a psicanálise será então proposta em uma perspectiva estrutural. Enfim, será referido o contexto histórico da invenção da psicanálise e a presença do barroco nela implicada.

Considerações sobre o estilo
Todo retorno a Freud, que dá matéria a um ensino digno desse nome, não se produzirá senão pela via, por onde a verdade mais escondida se manifesta nas revoluções da cultura. Essa via é a única formação que podemos pretender transmitir aos que nos seguem. Ela se chama: um estilo.1
Esta proposição de Lacan no texto “A Psicanálise e seu ensino”, vem ao encontro da investigação aqui proposta. Se um estilo é a única formação que podemos pretender transmitir, cabe aos analistas engajados na transmissão da psicanálise estender as pesquisas nesse campo. Cabe nos perguntarmos sobre o que é o estilo, ou no que a questão do estilo articula-se à experiência psicanalítica. Obviamente, o estilo ao qual estou me referindo nesta justificativa não é meramente o designativo de uma época, mas de uma marca, de uma estrutura pautada pela verdade do desejo.

Haroldo de Campos, em um artigo onde aborda esta questão, lembra que a palavra estilo, que em francês é style, e stylo, que significa lapiseira, caneta nesta língua, vêm da mesma palavra latina stilus, que tem o sentido de instrumento pontiagudo, de metal ou osso, com o qual se escrevia nas tábuas enceradas. Ele recorda ainda que a afinidade entre as palavras está conservada em português pelo termo diminutivo estilete que, como sabemos, refere-se a um punhal e sugere que “foi por um passe metonímico – por um transpasse de significantes – que o instrumento manual da escritura passou a designar a marca escritural mesma: o estilo.”2


Creio que se pode dizer que é por meio dessa marca escritural que se “fareja” a dita verdade mais escondida que, para a Psicanálise, não é senão a verdade do desejo. Nos Escritos em sua “Abertura”, Lacan parafraseando Buffon que disse: O estilo é o homem, alonga esta frase interrogativamente e diz: “O estilo é o homem...: o homem a quem nos dirigimos?3” E acrescenta:
É o objeto que responde à questão sobre o estilo, que nós colocamos de entrada em jogo. Neste lugar no qual Buffon remarcava o homem, (a presença do homem), nós evocamos a queda deste objeto, como reveladora do que esta queda distingue, ao mesmo tempo como causa do desejo onde o sujeito se eclipsa, e como sustentando o sujeito entre verdade e saber.4
Lacan acrescentará: “O estilo é o Outro”, frente ao que Haroldo de Campos retoma a citação acima complementando com o que o próprio Lacan havia dito: “O estilo é o Outro... (O homem a quem nos dirigimos)5”, para lembrar que a inconsistência disso que nós somos como sujeitos advém do fato de que nossa própria mensagem nós a recebemos do Outro, afinal, não inventamos a língua, mas sim a apreendemos do Outro e é com isso que tecemos o que somos. Este Outro, esta alteridade é, portanto, o que vigora no centro de nós mesmos. Resta-nos entretanto, tomar esta alteridade ao nosso modo, e será exatamente isso o trabalho do inconsciente. Em “Situação da psicanálise e formação do psicanalista”, Lacan enfatiza que “não há forma por mais elaborada do estilo em que o inconsciente não abunde, sem excetuar as eruditas, as conceitistas e as preciosas, que ele não desdenha mais do que não o faz o autor destas linhas, o Gôngora da psicanálise, pelo que dizem, para servi-los”6. Donde pode-se pressupor que lá onde está o estilo, está o que, na falta de consistir como objeto, o sujeito erigiu como desejo, operação fundadora do inconsciente.
Érik Porge, num artigo recentemente publicado na Revista Essaim, por ele dirigida, perguntando-se sobre o estilo de Lacan, propõe-se a discutir o tema do estilo, sugerindo que “o estilo é esta dimensão suplementar ao sentido que está fixado à maneira de dizer e se faz ao mesmo tempo suporte do desejo e causa da divisão do sujeito7, donde se pode depreender que pelo fato de que o sentido, algo que em última instância definiria nosso ser, nos escapa, resta-nos contornar este lugar de falta com nossa maneira. O estilo vem então indicar o ponto de sustentação de nosso desejo, com todas as conseqüências que disto decorre.
Pela via da ênfase no que diz respeito à maneira, maneira de dizer, cabe lembrar uma citação do seminário “As formações do inconsciente”8, onde Lacan diz que lamenta, que não pode fazer nada, porque o estilo dele é o que é. Pede então que as pessoas façam um esforço trata-se aí obviamente do esforço para entendê-lo e diz que para além das dificuldades pessoais dele, há nas dificuldades deste estilo, algo que diz respeito não propriamente a ele, mas ao objeto do qual se trata em sua fala. Diz que é preciso falar de maneira válida da função criadora que o significante exerce sobre o significado, significa falar “no fio da palavra”. Convida-nos portanto a explorar a função criadora do significante. Alerta que há necessidades internas de estilo que se impõem e anuncia que, em seu seminário, retomará sobre um certo estilo que ele não hesita em chamá-lo por seu nome o maneirismo. E atribui a este estilo uma função insubstituível.
O movimento maneirista, na história da arte, situa-se no século XVI, entre a Renascença e o Barroco. É a arte da belle manière, referindo-se à arte de imitar, por exemplo, pintar à maneira de alguém, Rafael ou outro qualquer. Imitar não a realidade mas um modelo já trabalhado. Trata-se portanto, como salienta Porge, reportando-se a Claude-Gilbert Dubois, de “uma imitação diferencial”, uma imitação que faz valer a sua própria maneira.
Embora levando em consideração estes aspectos do maneirismo implicado nesta discussão sobre o estilo de Lacan que recai sobre a discussão acerca do estilo da psicanálise, não podemos deixar de considerar também o fato de Lacan, em uma posição mais tardia, mais precisamente quinze anos depois da citação acima exposta, no seminário Mais, ainda, numa lição intitulada “Do Barroco”, ter proferido: “Como alguém percebeu recentemente, eu me alinho – quem me alinha? Será que é ele ou será que sou eu? Finura da alíngua – eu me alinho mais do lado do barroco”.9 E acrescenta mais adiante:
Não é à toa que dizem que meu discurso participa do barroco...De tudo que se desenrolou dos efeitos do cristianismo, principalmente na arte – é nisto que encontro o barroquismo com o qual aceito ser vestido – tudo é exibição de corpo evocando o gozo.10

O deslizamento de Lacan na pesquisa sobre o estilo, apreendido como a maneira particular de alguém traduzir em seus próprios termos o que lhe vem de fora, o que lhe vem da dimensão de alteridade, configurando assim as bases de sua subjetivação, para uma investigação que virá focalizar o gozo e aspectos da dessubjetivação, valendo-se para isso da expressão barroca, é, a meu ver, a razão pela qual ele distinguirá tardiamente em sua obra o campo de Freud daquele que identificará como sendo o seu. Delega a Freud o campo do desejo, e a si mesmo, o campo do gozo. Há portanto um deslocamento do enfoque dado ao desejo e a subjetivação para questões relativas ao gozo e à dessubjetivação.


Nas interpretações sobre o Barroco, encontramos freqüentemente a ênfase na relação deste com a imagem de um mais-além que, surpreendendo os sentidos, provoca o fervor das multidões — o que foi muito bem aproveitado pela Igreja Católica na Contra-Reforma. É essa aspiração ou apelo à evasão, e também à abordagem do corpo na produção barroca, que não escapou às observações de Lacan, que incita que se averigue sua fecundidade para “bem-dizer” algo da complexa relação do sujeito ao gozo. Sobretudo de um gozo Outro visado, exatamente em função do caráter de insuficiência do gozo obtido, atestando uma certa defasagem em relação a uma quota de gozo que supomos nos pertencer, mas que não sabemos como agir para obtê-la.
Assim, para além da complexa relação do sujeito com seu desejo, os avanços da clínica psicanalítica, sobretudo através da contribuição de Lacan, se deram no sentido da ampliação da investigação da relação do sujeito ao gozo. Na relação do sujeito com o seu sintoma, por exemplo, trata-se de investigar não apenas a mensagem que o mesmo porta acerca da verdade do desejo inconsciente que ele veicula, mas também qual o gozo que nele opera para além de toda e qualquer relação com o saber. Obviamente, o conceito de pulsão de morte situado no texto freudiano Mais além do princípio de prazer11 é referência indispensável para o que diz respeito ao que escapa à possibilidade de ser circunscrito no universo da representação e exige uma satisfação de outra ordem, uma satisfação paradoxal. O Barroco entra nesse contexto como um instrumento que serve sobretudo à transmissão da complexidade da relação do sujeito ao gozo, tal como ela se revela na experiência comum, ganha expressão em certas manifestações da arte e atualiza-se na experiência psicanalítica.
Considerações sobre o gozo
No início do seminário Mais, ainda, no capítulo “Do gozo”, Lacan alerta para o fato de que em psicanálise a produção de saber, bem como a sua transmissão, é algo vivo, que implica os sujeitos a isso relacionados. Ele se dá conta de que em seu seminário de A Ética da psicanálise, quando teceu sua crítica a propósito do bem visado de diferentes formas pela ética filosófica, faltou levar em consideração a questão do gozo aí implicada. Lacan constata sua resistência em abordar essa questão. Percebe o seu “não quero saber nada disso”. Creio que é a isso que ele se refere quando diz ter pensado em não publicar seu trabalho sobre A ética da psicanálise. Reconhece, entretanto, que seu nível de “não quero saber nada disso” é diferente do dos seus “ouvintes”. É isso que o distingue no lugar da transmissão. Nesse lugar, ele está na posição de analisando do seu “não quero saber nada disso”, ou seja, ele não está meramente atuando o seu “não quero saber nada disso”, mas está em posição de trabalho sobre isso. Tal diferença quando extinta implica, tal como na análise, a separação. Ele vê nisso a evidência de uma curiosa afinidade entre sua posição de analista e sua posição na transmissão da psicanálise. Afirma: “Concluo daí que não há, contrariamente ao que se emite, nenhum impasse de minha posição de analista com o que faço aqui.”12
O autor reconhece que desde as propostas de Aristóteles13 até agora, “um deslizamento no curso dos tempos se fez, deslizamento que não é progresso mas contorno14, e que coloca em cena, na discussão sobre o ser e o bem, a questão do uso, que, de tão cara, veio a constituir “a essência do direitorepartir, distribuir, retribuir, o que diz respeito ao gozo.15 É nessa perspectiva que Lacan retorna ao seu trabalho sobre a ética para abordar melhor o que antes ele não quis saber. Anuncia, então, que vai trabalhar sobre a questão do gozo e inclui nessa investigação também a retomada da questão do amor.
O que será enfatizado, a partir de então, no trabalho de Lacan, é essa dimensão na qual “a realidade é abordada com os aparelhos do gozo”16 Ou seja, o princípio de prazer, proposto por Freud, como princípio elementar no funcionamento do psiquismo, revela que o gozo no ser falante é aparelhado pela linguagem. Mas Lacan alerta que, entretanto, “o gozo , em si mesmo, ele está em falta.17O que quer dizer que, ao nos ser impossibilitado o acesso à relação sexual tal como ela ocorre na conjunção perfeita do mundo natural, resta-nos copular com a linguagem, copular com os significantes. Destaca então, duas maneiras: a masculina e a feminina, de “girar em torno” disso que está em falta. Não se tem como escapar ao fato de que algo rateia na conjunção entre o artifício da linguagem e o mundo natural. É na rata mesma que a relação se realiza. Dito de outro modo, não há relação sexual porque esta, para os seres falantes, é relação a um órgão muito peculiar: o phallus. Este, por sua função significante  embora não toda significante  não é senão referência à ausência de uma presença. Vamos tentar explicar melhor isso.
O Nada, em torno do qual a existência gravita, não é tomado pela Psicanálise abstratamente. O conceito freudiano de castração vem indicar a configuração psíquica da perda do “natural” com a qual o sujeito paga sua inscrição no mundo simbólico. O phallus, monumento na Antiguidade de exaltação da vida, símbolo da plena turgência vital, vem indicar o que é visado pelo sujeito, exatamente por ser o que lhe falta. O sujeito não habita a plena turgência vital, embora a ela esteja referido na busca de fisgar o que lhe falta. É essa falta do pleno que opera na positividade da busca que o faz desejante. Se tentamos localizar imaginariamente o phallus no corpo, na sua relação com o pênis, isto se dá exatamente pelo fato do pênis servir para configurar um objeto que se destaca, que pode ser destacado ou faz falta, por onde adquire seu valor significante, prestando-se assim a meio de comparação, unidade de medida do valor do sujeito, de sua potência vital. Algo que, não pertencendo efetivamente a ninguém, sendo o que se situa sempre alhures, funciona como o estopim para circulação do desejo e como a marca do que rateia no gozo.
A experiência da análise se coloca pela presunção de que se possa constituir um saber sobre a verdade. Mas a verdade que interessa saber não é senão a verdade sobre o gozo, mais precisamente sobre a lei que regra o gozo.18 O gozo apresenta-se, portanto, no horizonte da experiência como um limite. Lacan diz mesmo que “o gozo é um limite19. Um limite quanto ao que se pode apreender da verdade, que tem por condição só poder ser semi-dita, não poder jamais ser levada até o fim. Essa condição destina o gozo a só poder ser evocado, interpelado, a partir de uma aparência, uma aparência de ser. Destina o gozo a só poder ser elaborado a partir de um semblante que se agarra a um objeto que funciona como causa de desejo, conceituado por Lacan como objeto a. Objeto que fundamentaria a própria constituição do sujeito enquanto sujeito desejante. A dimensão imaginária vem envolver o objeto causa de desejo, vem dar uma vestimenta a uma imagem que não é senão, em último termo, a imagem de si. Através dele, se dá a articulação da análise que coloca em cena o que se designou como relação de objeto, destacando os investimentos privilegiados aos quais se aferra o sujeito. Mas a psicanálise mostra que se deve suspeitar da afinidade do objeto a com o seu envoltório, ou seja, com suas configurações imaginárias. É nesse ponto que o real, enquanto inapreensível, se distingue demarcando a impossibilidade de qualquer objeto que seja, de responder ao que se espera do objeto a.
A evocação feita por Lacan à expressão barroca, e mais do que isso, o reconhecimento de que seu discurso, veículo fundamental de sua transmissão, participa mesmo desse modo de expressão  “meu discurso participa do barroco”20, parece fundamentar-se no fato de que basta que se entre em qualquer Igreja italiana, e para nós vale também entrar em qualquer igreja de Ouro Preto, “para verificar que tudo é exibição do corpo evocando o gozo”... “quase chegando à cópula21. Mas, se a cópula não se apresenta, é porque está ali “tão por fora quanto na realidade humana, a qual entretanto ela sustenta com as fantasias de que é constituída.”22 Parece ser isso o obsceno, a exposição dessa “hiância inscrita no estatuto mesmo do gozo”.23
Para além, portanto, do que pode ser demarcado como ponto de fisgamento do sujeito humano como sujeito desejante, via pela qual delimita-se seu estilo, erige-se a relação ao gozo. Assim, se a investigação sobre o desejo foi o ponto de partida e o motor do trabalho que opera na experiência analítica, tal experiência não se detém nos termos do desejo. A relação do sujeito ao gozo, sua maneira masculina ou feminina de lidar com a hiância radical que ele põe em cena, virá dar subsídios para que se pense acerca dos modos pelos quais o sujeito é capturado pela fantasia com a qual sustenta a sua realidade humana.
O tema do atravessamento da fantasia situa-se na obra lacaniana como a via pela qual, indo mais longe com a investigação acerca do desejo na experiência psicanalítica, toca-se um ponto limite do que se pode saber, ponto limite do gozo; ponto no qual a fantasia que ali instalou-se vem demarcar a dita realidade para o sujeito, para o seu melhor e para o seu pior, na lida com essa dita realidade. No contexto da abordagem da travessia da fantasia articulada à economia de gozo que ela põe em questão, o que está em jogo é a discussão sobre o que se pode esperar do fim da análise e dos destinos do gozo nessa experiência.

Se em um trabalho que desenvolvi anteriormente24, a relação à arte trágica me ofereceu meios para explicitar a lógica da ação psicanalítica e as implicações radicais do ato desejante, a relação ao barroco prima pela oferta de visualização do que é ainda mais invisível, do que se situa para além de toda e qualquer delimitação, mesmo aquela referida ao desejo que vem delimitar a noção de sujeito. Por isso, a ênfase será dada agora à tragédia da própria subjetividade, o que conduz à dimensão mesma da dessubjetivação e suas implicações quanto ao gozo e ao fim da análise.


É nesse sentido que no barroco encontro meios de situar a relação do sujeito não propriamente ao desejo, mas ao gozo. É a economia de gozo que nele opera para além do que a linguagem pode distinguir. Reporto-me, nesse ponto, sobretudo ao gozo que se encontra mais além da representação, conforme explicitarei adiante.
Para a tragédia, o barroco, a psicanálise, e certamente alguns outros produtos da cultura, o valor da vida não se afirma pela glória da imortalidade, se há uma afirmação da vida é pelo valor intrínseco à ela mesma, valor esse que não recalca a relação, e mesmo fascinação, pela morte, relação em último termo ao irrepresentável. Nelas, age a transfiguração do terrível que aí se encontra e não seu encobrimento.

Isso revela que não há Outro que possa resolver a questão da morte, ou seja, isso traz por conseqüência a queda do Outro, e, ao mesmo tempo, uma infinitização do ser em sua impossibilidade de delimitação. Mais do que queda, o que se expressa é mesmo um ultrapassamento do Outro. É a perspectiva do movimento, da dinâmica, que ganha a cena. A figura negativa do horror é explorada naquilo que pode conter de beleza. O que aí opera é a possibilidade de uma positividade no saber sobre a morte.


Revela-se a íntima comunicação entre planos supostamente antagônicos como o divino e o humano, o bem e o mal, a vida e a morte, o sagrado e o profano, a essência e a aparência, a profundidade e a superfície, o dentro e o fora, o sofrimento e a alegria e assim por diante num movimento de torção intensamente explorado nas obras barrocas que bem encontram afinidade com os objetos topológicos estudados por Lacan. A resultante implica o reconhecimento nessas obras de traços como a sutileza, a obliqüidade, a ambigüidade, a tensão entre sensualidade e espiritualidade, a busca do extraordinário e do bizarro, a intensificação dos efeitos, e apuração da elaboração que evoca sempre a possibilidade de reversão do que é contrário. Nada mais próximo do funcionamento do inconsciente aproximado por Freud à estrutura dos pares antitéticos.
A abordagem da psicanálise como uma expressão da perspectiva trágica desenvolvida em A face oculta do amor: a tragédia à luz da psicanálise, vem sustentar que é pela afinidade no plano ético que aí se encontra, que me deparei nesse encaminhamento, com a relação à expressão barroca, corroborando a alusão de Lacan no seminário Mais ainda25 de que ele alinha-se do lado do barroco. Estendo isto para a idéia de que não apenas Lacan alinha-se do lado do barroco, mas também a psicanálise. Resta-nos interrogar se, por referência ao que Lacan afirmou em A psicanálise e o seu ensino, essa via que é a única formação que podemos pretender transmitir e que se chama um estilo, pode encontrar no barroco a referência necessária a indicação não propriamente do estilo de um sujeito, mas do estilo paradoxalmente decorrente da dessubjetivação. Assim, Tragédia e barroco podem ser pensados como campos de profunda afinidade, se contextualizados não como produções datadas, mas como indicadores estruturais, éticos da abordagem da condição humana, tal como esta é acolhida pela psicanálise e opera em seu ensino e transmissão.
Creio, por essa via, encontrar meios de contribuir para dar alguma visibilidade às difíceis e obscuras formulações que giram em torno da ética da psicanálise e da particularidade de seu ensino e transmissão. Inclusive o presente projeto representa um estágio avançado de uma pesquisa que teve seu ponto de partida em minha investigação sobre a ética da psicanálise, publicada em meu livro Nau do desejo: o percurso da ética de Freud a Lacan.26 Penso que é pela via da explicitação dessa ética que encontraremos meios de melhor situar não apenas a especificidade do campo psicanalítico em relação aos demais, sobretudo no que diz respeito à sua complexa relação com a psicologia, mas também de encontrar um termo comum para a diversidade de propostas que a psicanálise veio abrigar. A ética da psicanálise é o campo fecundo de acolhimento do heterogêneo, onde o rigor do reconhecimento da diferença não cede ao apelo da síntese.
Assim, se num primeiro momento de meus estudos em Nau do desejo trabalhei com este termo visando delimitar o ponto de partida da investigação psicanalítica, e se, num segundo momento, em A face oculta do amor, abordando a temática do amor, pretendi explicitá-lo em sua contingência de mecanismo operador do trabalho analítico, e mesmo nas circunstâncias da própria invenção da psicanálise, agora, tematizando a questão do gozo, pretendo aportar aspectos que possam contribuir na discussão acerca do fim da análise. E dado que a questão do fim da análise interessa efetivamente aos que desejam ser analistas, toca-se por esse viés a questão do ensino e da transmissão da psicanálise.
  1   2   3


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal