A presença do barroco na invençÃo da psicanálise denise Maurano



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Schorske comenta:

Seu projeto de justificar os judeus como a Kulturvolk masculina, conduziu Freud, por conseqüência, a negligenciar no curso de suas segundas escavações egípcias, os tesouros conceituais que ele tinha escavado na ocasião das primeiras. Ele abandonou as pistas que ele próprio tinha aberto para um possível teoria bissexual do desenvolvimento cultural.”53

A questão do dualismo na obra de Freud é vital em razão do dinamismo que não parou de estruturar o pensamento da psicanálise e o estudo das cultura feito por Freud. Entretanto isso deixa um campo aberto para diversas possibilidades de abordagens freqüentemente contraditórias que fazem da psicanálise um campo fecundo para todo o tipo de compreensão, das mais justas às mais equivocadas. Pode-se encontrar na obra de Freud argumentos para sustentar as posições as mais opostas ao conjunto da obra, posições radicalmente afastadas do rigor da ética psicanalítica, o que coloca um grande problema para a transmissão e também para a difusão da psicanálise.

Para ajudar Freud na via que o destino impôs a psicanálise, se pode recorrer à citação de Lacan que abre este trabalho: “Esta via é a única formação que nós podemos pretender transmitir à aqueles que nos seguem. Ela se chama: um estilo.”54 E podemos acrescentar com toda a precaução que se impõe que este estilo é o barroco.
Segundo a perspectiva barroca, o dualismo não é apreendido pela via da contradição, mas no sentido do paradoxo. É o rigor do dinamismo do paradoxo que opera seja na estrutura do pensamento psicanalítico fiel às leis do inconsciente, seja na própria clínica. Este tipo de expressão na arte que toma o caráter de um modo de orientação do psiquismo, não nega o apelo à ordem e ao equilíbrio visado por todos nós, mas sustenta esta perspectiva em uma suspensão inerente à vida, que em seu dinamismo não deixa espaço para uma palavra definitiva. Nos encontramos todos em uma obra aberta que é nossa própria vida. Nós oscilamos entre a profundeza e a superfície, o claro e o escuro, o profano e o sagrado, a graça e a palavra. E o que é o mais interessante é que a graça não exclui a palavra.

Assim, mesmo que Freud tenha sido em diversos momentos fisgado por seu aspecto de homem das Luzes, mesmo que ele tenha ficado fascinado pelas obras clássicas, que ele as tenha colecionado, a atmosfera cultural vienense onde ele cresceu, e a honestidade da relação que ele construiu na investigação dele próprio, lhe permitiu se ultrapassar em uma direção que o fez transmutar este contexto contraditório em uma dimensão a qual, com sua obra, ultrapassando a ciência ele toca o campo da arte, e orienta-se nela pela amplitude do sentido do paradoxo.

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* Psicanalista, membro do Corpo Freudiano do RJ, Doutora em Filosofia pela Universidade de Paris XII e pela PUC/RJ, profa. adjunta da UFJF, autora entre outros livros de A face oculta do amor: a tragédia à luz da psicanálise,Imago ed./ Ed. UFJF, 2001.

1 LACAN, Jacques, « La Psychanalyse et son enseignement », 1957 ; Écrits, Paris, Seuil, 1966, p. 458. 

2 CAMPOS, Haroldo de, “O afreudisíaco Lacan na galáxia de lalíngua (Freud, Lacan e a escritura)”, in CESAROTTO, Oscar (org), Idéias de Lacan, SP, Iluminuras, 1995, p. 176.

3LACAN, Jacques, « Ouverture»; Ecrits, Paris, Seuil, 1966, p.15.

4 Op. Cit. p. 17.

5 CAMPOS, Haroldo de, “Barrocolúdio : Transa Chim”, in CESAROTTO, Oscar (org), Idéias de Lacan, Op. Cit., p. 164.

6LACAN, Jacques, « Situation de la psychanalyse en 1956»; Ecrits II, Paris, Seuil, 1966, p.18.

7 PORGE, Érik, “Lire, écrire, publier: le style de Lacan”, in Essaim – Revue de Psychanalyse, n.7,Paris, Érès, p.8.

8 LACAN, Jacques, « Les formations de l’inconscient»; Écrits, Paris, Seuil, 1966, p.30.

9 LACAN, Jacques, O Seminário, Mais, ainda, Op. Cit., p. 145.

10 Op. Cit., p. 154.

11 FREUD, Sigmund, Mais além do princípio do prazer, 1920, B.Aires, Amorrortu Ed.,1988.

12 LACAN, Jacques, O Seminário, Mais, ainda,Op. Cit., p. 10.

13 ARISTÓTELES, Éthique à Nicomaque, Paris, Le livre de Poche, 1992.

14 LACAN, Jacques, O Seminário, Mais, ainda, Op. Cit., p.11.

15 Op. Cit.

16 Op. Cit., p. 75.

17 Op. Cit.

18 Op. Cit., p. 124.

19 Op. Cit.

20 Op. Cit., p.154.

21 Op. Cit.

22 Op. Cit.

23 Op. Cit., p.156.

24 MAURANO, Denise, A face oculta do amor: a tragédia à luz da psicanálise, Imago ed./UFJF, 2001.

25 LACAN, livro 20, O Seminário, Mais, ainda, Op. Cit., p.156.

26 MAURANO, Denise, Nau do desejo: o percurso da ética de Freud a Lacan, RJ, Ed. Relume Dumará, 1995/1999.

27 A referência a essa imolação reporta-me a frase do psicanalista Luciano Elia, que refere-se à análise como uma moenda narcísica.

28


29ABBAGNANO, Nicola, Dicionário de Filosofia, SP., Ed. Mestre Jou, 1962, p.100.

30DUBOIS, Claude-Gilbert, Le barroque, profondeur e apparence, Bordeaux, Presses Universitaire de Bordeaux, 1993, p.19.

31D’ORS, Eugenio, Du Barroque, Paris, Gallimard, 1968, p. 83-84.

32Op. Cit., pg 18.

33BENJAMIN, Walter, Magia e Técnica, Arte e Política: Ensaio sobre Literatura e História da Cultura, SP, Ed. Brasiliense, 1985.

34 FREUD, Sigmund, Lo Inconsciente, 1915, Buenos Aires, Amorrortu Ed., »1988.

35 DASTUR, Françoise , Hölderlin, tragédia e modernidade, in HÖLDERLIN, Reflexões,RJ., Ed. Rlume Dumará, 1994, p. 199.

36 DUBOIS, Claude-Gilbert, Le baroque, profondeur et apparence, Bordeaux, Presses Universitaires de Bordeaux, 1993, p. 113.

37 JORGE, Marco Antônio C., et MAURANO, Denise, « Torsions du Modernisme au Baroque: notes sur les publications psychanalytiques au Brésil » in PORGE, Erik, Essaim – Revue de Psychanalyse, n° 7, Paris, Eres, 2000.

38 SCHORSKE, Carl E., De Vienne et d’ailleurs : figures culturelles de la modernité, Paris, Fayard, 2000. p.22

39 Idem, op.cit., p. 23/24.

40 CHIAMPI, Irlemar, Barroco e modernidade, SP, Ed. Perspectiva, 1998, p.4.

41 CARPENTIER, Alejo, “Lo barroco et lo real maravilloso”, in Razón de ser, Caracas, Universidade Central de Venezuela, 1976, p.53.

42 CHIAMPI, Irlemar, Op. Cit. , p.25.

43 SCHORSKE, Carl E., De Vienne et d’ailleurs : figures culturelles de la modernité, Paris, Fayard, 2000. p.29.

44 Idem, op.cit., p.170.

45 Idem, op.cit., p.175.

46 Idem, op.cit., p.192.

47 Idem, Vienne fin de siècle : política e cultura, SP, Ed. da UNICAMP/ Cia. das Letras, 1989, p. 177-196.

48 Idem, De Vienne et d’ailleurs : figures culturelles de la modernité, Paris, Fayard, 2000., p. 252.

49 Idem, op. cit., p.262.

50 Idem, op. cit., p. 264.

51 Idem, op; cit., p.272.

52 Idem, op. cit., p. 274.

53 Idem, op. cit., p.278.

54 LACAN, Jacques, « La Psychanalyse et son enseignement », 1957, Ecrits, Paris, Seuil, 1966, p. 458. 




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