A produçÃo de novidades nas agroindústrias familiares



Baixar 136.61 Kb.
Página1/3
Encontro26.07.2016
Tamanho136.61 Kb.
  1   2   3

Encontro de Economia Gaucha

27 a 28 de Maio de 2010

A PRODUÇÃO DE NOVIDADES NAS AGROINDÚSTRIAS FAMILIARES

Marcio Gazolla1

Gelson Pelegrini2

Luis Alberto Cadoná3



RESUMO
O presente artigo possui o objetivo de responder a duas questões: a) como os agricultores, donos de agroindústrias familiares geram novidades? b) quais os principais tipos de novidades que são construídas? Para isso utilizou-se a perspectiva das novidades produtivas do Grupo de Sociologia Rural, da Universidade de Wageningen – Holanda, como uma abordagem teórica e metodológica diferente do modelo linear de inovações presentes nos processos de modernização agrícola. Os resultados são frutos de dois projetos de pesquisa desenvolvidos no Médio Alto Uruguai/RS: a Pesquisa CAAF (2006): “Caracterização e Análise das Agroindústrias Familiares na Região do CODEMAU” e o projeto de pesquisa IPODE (2007): “’Sementes e Brotos’ da Transição: Inovação, Poder e Desenvolvimento em Áreas Rurais do Brasil”. A análise dos dados e informações demonstra que os agricultores são capazes de construírem novidades produtivas na agroindústria familiar, mas que não as fazem sozinhos, mas em constante interação e relação com outros atores sociais e com o ambiente institucional local. O trabalho também mostra que as principais novidades produzidas possuem como base o conhecimento tácito e contextual dos atores sociais e podem ser assim resumidas: novidades produtivas e de processo, tecnológicas, institucionais e organizacionais e de mercados. Além disso, as novidades produtivas trazem várias contribuições aos processos de desenvolvimento rural e as famílias envolvidas nestas experiências de agroindustrialização.
Palavras chaves: novidades, agroindústrias familiares e desenvolvimento rural.
Área Temática: k – Agricultura familiar e desenvolvimento rural

1. INTRODUÇÃO

Em torno de 40 anos, o mesmo tempo de uma pessoa de meia idade, possui o modelo da modernização da agricultura no Brasil. O mesmo se forjou através de uma forte intervenção do Estado, a partir de 1965, com a criação do Sistema Nacional de Crédito Rural (SNCR) que implantou uma séria de inovações na agricultura brasileira, com destaque para as tecnológicas. Este formato de desenvolvimento tecnológico para o rural ficou conhecido como modelo linear de inovação, devido à tecnologia ser produzida de forma padronizada e gerada por processos de conhecimento científico em centros de investigação e na iniciativa privada, sendo posteriormente repassados (difundidos) pelos serviços de assistência técnica e extensão rural para os agricultores via os mercados de forma única, não importando o local, as práticas dos agricultores, as características dos ecossistemas e os recursos necessários para tais investimentos. Segundo Ploeg et all (2004) este processo gerou uma desconexão da tecnologia em relação aos ecossistemas e as práticas sociais e repertórios culturais dos agricultores.

No meio acadêmico brasileiro o debate sobre o processo de geração de inovações na agricultura ainda não evoluiu destes processos descritos, havendo a necessidade de que este tome um rumo diferente, principalmente se quiser se discutir o desenvolvimento rural no país, fora de concepções do campo social do chamado “agronegócio”. A abordagem do desenvolvimento das novidades na agricultura e no rural, compilada nos trabalhos do Grupo de Sociologia Rural da Universidade de Wageningen – Holanda e outros autores associados de outros centros de pesquisa e países parece oferecer um outro enfoque teórico e metodológico na forma de pensar, compreender e investigar os processos inovativos existente nos ambientes rurais, podendo se tornar frutífero nos próximos anos. Por este, os agricultores possuem agência (agency), que é a capacidade de “saber” e de “conhecer” as estratégias a serem adotadas junto aos processos de desenvolvimento rural, mesmo em situações problemáticas. Desta compreensão mais ampla do potencial dos agricultores, formula-se que estes são capazes de construir novidades, que são maneiras novas, diferentes e melhores de executarem as suas atividades produtivas, as práticas, alocar os seus recursos e os processos de trabalho na agricultura. Neste sentido, os agricultores são capazes de inovarem.

Contudo, estes nem sempre fazem os seus construtos sócio-técnicos de forma individualizada, mas buscam continuamente, quando necessário, os outros atores sociais (como extensionistas, centros de pesquisa, atores sociais de desenvolvimento, investigadores, consumidores, ambientalistas, etc.) e o contexto institucional (o Estado em todos os níveis, as políticas públicas, as diversas agências de desenvolvimento, etc.) para produzirem, conjuntamente, os conhecimentos necessários ao desenvolvimento das novidades. É assim que os agricultores inovam, mas sempre tendo em mente que o corpo do seu conhecimento tácito não é suficientemente completo e que possuem a necessidade de dialogar com outros atores sociais e com o contexto institucionalizado para produzirem o chamado conhecimento contextual, que é o resultado da “fusão de horizontes”, de “mundos” e de “projetos” muitas vezes em disputa entre os diferentes atores. Assim, o processo de produção de novidades nos espaços rurais é permeado por relações e interações sociais entre atores, constituindo-se em uma arena (LONG, 2001, 2006).

Tendo este enfoque teórico em mente, as perguntas que se fez no início do processo investigativo foram às seguintes: a) Como os agricultores familiares geram novidades nas suas agroindústrias familiares? b) Quais os tipos de novidades que são construídas? Assim, o objetivo deste estudo foi demonstrar que os agricultores familiares possuem a capacidade de produzirem novidades nas suas unidades agroindustriais e para isso também acionam outros atores e instituições locais. Desse modo, estes agricultores conseguem construir historicamente vários tipos de novidades que se sedimentam junto as suas práticas e processos de trabalho, possibilitando a geração de novidades produtivas, de processo, institucionais e organizacionais, de mercados, tecnológicas, agroecológicas, etc. As agroindústrias familiares, por outro lado, oferecem um campo empírico privilegiado para este tipo de investigação, pois desfrutam de características produtivas, sociais e tecnológicas ímpares em relação a outras temáticas de pesquisa.

O trabalho de pesquisa foi desenvolvido no Norte gaúcho, no Médio Alto Uruguai/RS e teve duas fases diferentes. A primeira a partir do ano de 2006 em que se desenvolveu a Pesquisa CAAF (PELEGRINI E GAZOLLA, 2006): “Caracterização e Análise das Agroindústrias Familiares na Região do CODEMAU”, que originou os dados quantitativos utilizados no presente estudo. Usou-se um questionário fechado em torno de questões de caracterização das unidades agroindustriais, atividades produtivas desenvolvidas, acesso e construção social dos mercados e perguntas relativas aos processos de administração rural e familiar na atividade. Foram investigadas 106 agroindústrias familiares, de diversas cadeias produtivas, nos 30 municípios da região4. Este foi uma parceria institucional entre a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM – Campus de Frederico Westphalen - RS) e a Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e Missões (URI – Campus de Frederico Westphalen - RS).

A segunda fase se desenvolveu no ano de 2009 e fez parte do Projeto de Pesquisa IPODE (SCHNEIDER, 2007): “’Sementes e Brotos’ da Transição: Inovação, Poder e Desenvolvimento em Áreas Rurais do Brasil”, que foi desenvolvido como a aplicação de um questionário aberto, tipo entrevista semi-estruturada, sendo aplicada a alguns donos de agroindústrias familiares, nesta mesma região e dentro da mesma população pesquisada anteriormente na Pesquisa CAAF. Deste último, geraram-se os dados qualitativos, em que alguns são apresentados neste artigo5. Este segundo projeto está sendo desenvolvido junto a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), no Programa de Pós Graduação em Desenvolvimento Rural (PGDR).

As reflexões contidas neste artigo são apresentadas em 4 seções. Na primeira se desenvolve teoricamente a abordagem das novidades, diferenciando-a da tradicional discussão sobre inovações na agricultura. Na segunda se relata, brevemente, um pouco da história das unidades agroindustriais investigadas. No terceiro discute-se a trajetória das famílias na atividade e algumas novidades que estas produziram. Por último se discute os efeitos e resultados das novidades produtivas para os processos de desenvolvimento rural e o seu papel junto às famílias rurais.


2. TEORIA SOCIAL E ECONÔMICA: o que são as novidades? E, por que diferem das inovações?
O enfoque teórico perseguido neste artigo passa pela Perspectiva Orientada aos Atores (POA), presente nos trabalhos de Norman Long e Ploeg (1994) e Long (2001, 2006) e pela abordagem da produção de novidades na agricultura, presente nos trabalhos de Ploeg (2004, 2008a e 2008b), dentre outros autores que a complementam. Por esta perspectiva os agricultores possuem agência nos processos de produção de novidades e são considerados “capazes” e “possuem conhecimentos” necessários para construir as suas estratégias e tomar decisões, mesmo sob coações diversas, sejam elas políticas, econômicas, sociais, ambientais, etc. Contudo, a capacidade de agência destes, não se embasa sob o signo do invididualismo metodológico, como em outras teorias6. Estes possuem agência para construírem novidades somente quando desenvolvem relações e interações sociais com outros atores e com o contexto institucional em que estão inseridos.

A abordagem da produção de novidades possui como principal característica diferenciar-se totalmente da idéia de inovação (tecnológica), presente durante os anos de 1970 no Brasil, em função do “modelo” de modernização agrícola e de contribuir com novos insights neste debate, que ainda é incipiente no país. No processo de modernização da agricultura as inovações se definiam quase que exclusivamente como sinônimo de tecnologia e foram difundidas por um “modelo” linear de inovações, em que estas eram geradas pelo conhecimento científico ou codificado em centros de pesquisa e investigação → posteriormente difundidas pelos serviços de assistência técnica e extensão rural → chegando até os agricultores que as absorviam sob a forma de “pacotes tecnológicos”7. Esse processo é organizado via mercado e se caracteriza ainda pela produção de inovações padronizadas, externalizadas e globais ao local, aos ecossistemas e aos modos de vida e práticas dos agricultores (PLOEG et all, 2004; BRUNORI et all, 2009; STUIVER et all, 2004; ROEP e WISKERKE, 2004)8.

A história da agricultura sempre foi uma história de produção de novidades, pois através dos tempos os agricultores têm introduzido de modo propositado ou não intencionalmente, pequenas mudanças no processo de produção que resultou num estável e contínuo incremento (melhoramentos) dos seus campos. Estas novidades introduzidas pelos agricultores geraram um crescimento dos fatores que não foi constante através do tempo, mas com avanços e recuos, com evoluções e retrocessos, com retrabalhos nas práticas, nos artefatos, tecnologias e experimentações através do conhecimento tácito dos próprios agricultores. Estes fatores foram constantemente modificados, pois eles foram regulados e coordenados através do processo de trabalho na agricultura (PLOEG et all, 2004; PLOEG, 2008b).

Segundo Ploeg et all (2004, p. 1; tradução livre), uma definição do que seriam as novidades pode ser assim expressada:


Uma novidade é uma modificação, e algumas vezes uma ruptura, com as rotinas existentes. Ela é, desse modo, um desvio. A novidade pode emergir e funcionar como um novo conhecimento dentro das práticas existentes ou pode consistir em uma nova prática. Principalmente, uma novidade é um novo jeito de fazer e pensar - um novo modo que carrega consigo o potencial de fazer melhor, de forma superior as rotinas já existentes. Por isso, elas são consideradas as sementes da transição, mesmo que algumas vezes as novidades são definidas como “monstruosidades” pelo regime sócio técnico reinante.
Os agricultores constroem as novidades olhando os seus fatores e recursos, principalmente os limitantes, através de um complexo ciclo de observação – interpretação – reorganização (com a realização de “experimentos” muitas vezes) - e avaliações. Assim, as novidades são criadas e as rotinas transformadas, como forma de superar o fator limitante (STUIVER et all, 2004). Este processo é cíclico, pois quando um fator limitante é corrigido, outro poderá emergir e novamente outra solução (novidade), possivelmente será criada e desenvolvida e o processo é retroalimentado. Nesse sentido, Ploeg (2008a), afirma que a criação de uma novidade pode levar ao surgimento de outras, sucessivamente, podendo este processo formar as chamadas teias de novidades (webs novelties) (PLOEG et all, 2008; VENTURA et all, 2008).

O processo de surgimento das novidades é altamente localizado. Ele é dependente do tempo, dos ecossistemas locais e dos repertórios culturais em que o processo de trabalho está inserido (embedded). Isso implica que o que emerge em um lugar e em um determinado tempo como uma interessante novidade, provavelmente não irá emergir em outro lugar devido a efeitos adversos, pequeno apoio recebido ou uma nova prática que não se mostrou promissora para os agricultores. As novidades emergem do processo de trabalho dos agricultores agindo no sentido de resolver os seus problemas. Além disso, elas se caracterizam por serem ligadas as particularidades do local e ao conhecimento local/contextual (PLOEG et all, 2004, p. 9).

No mesmo sentido de definir as novidades, autores como Oostindie e Broekhuizen (2008) vão afirmar que as novidades podem ser entendidas como novos conhecimentos, práticas, artefatos e combinações (de recursos, de procedimentos tecnológicos, de diferentes corpos de conhecimento, etc.), que conduz a promissores constelações (um novo processo de produção, uma rede, a integração de duas diferentes atividades, etc.) funcionando de forma melhor. Os autores vão defini-la da seguinte forma. As novidades
(...) localizam-se nas fronteiras que separam o conhecido do desconhecido. Uma novidade é alguma coisa nova, podendo ser uma nova prática, um novo conhecimento, um resultado inesperado, mas interessante. Ao mesmo tempo as novidades são, ainda, não completamente compreendidas. Elas são desvios da regra. Elas correspondem ao conhecimento acumulado do agricultor – elas desafiam a compreensão convencional. As novidades vão além das regularidades existentes e explicadas (Oostindie e Broekhuizen, 2008, p. 68 apud PLOEG et all, 2006; tradução livre).
Outra característica das novidades é que estas se diferenciam drasticamente das inovações. Como formulou Ploeg et all (2004), as novidades e inovações possuem “histórias de vida” diferentes. Segundo Oostindie e Broekhuizen (2008), Ploeg et all (2004) e Brunori (2009) as inovações se diferenciam por três características principais. As inovações seriam definidas como: padronizadas, externalizadas e globalizadas, como mostra a Figura 1. São padronizadas devido a serem inovações produzidas dentro de padrões, regras e normas definidas pelo regime sócio técnico reinante, para que pudessem possuir a capacidade de serem reprodutíveis independentes do local, espaço ou tempo em que fossem empregadas9. No caso da agricultura, estas poderiam ser utilizadas em qualquer ecossistema, formação social e institucional, sem as mediações necessárias as características do contexto.
Figura 1: Diferenças entre as inovações e as novidades



Fonte: Oostindie e Broekhuizen (2008)
A padronização esta associada à homogeneidade e a globalização destas inovações, já que sendo desenvolvidas dentro de uma mesma lógica de produção, estas poderiam ser mais facilmente difundidas e aplicadas em vários locais e até países ao mesmo tempo (esta tarefa ficou a cargo de um pujante setor industrial a montante da agricultura). Já a externalização está ligada ao modelo linear de inovação, em que estas são produzidas fora da agricultura (como por exemplo, os insumos, o conhecimento, a tecnologia, a ciência, etc.) e transportadas para o uso dos agricultores através dos serviços de assistência técnica e extensão rural, fechando a linearidade do processo inovativo. Nesse modelo, a capacidade de agência dos agricultores fica enormemente comprometida e “borrada”.

Já as novidades se caracterizariam pelo seu caráter de contextualização, de internalização e de territorialização, conforme a Figura 1. A contextualização se refere à forma como os agricultores obtém o conhecimento para gerar e construir as suas novidades. Estes se utilizam do conhecimento contextual, que é um conhecimento que resulta do contexto socioeconômico e institucional em que estes estão inseridos, sendo na maioria das vezes o resultado da “fusão de horizontes” entre o “mundo” dos agricultores (o chamado conhecimento tácito) com os outros “mundos” e “projetos” (às vezes em disputa) de outros atores sociais como os pesquisadores, os extensionistas, as agências do Estado, os consumidores, os ambientalistas, etc., que os transmitem conhecimentos codificados ou científicos (STUIVER et all, 2004).

A internalização das novidades é o processo pelas qual elas são criadas, na maioria das vezes com recursos internos ao local ou até a unidade de produção agrícola - a chamada endogenidade das práticas. È, por exemplo, o que acontece na chamada agricultura econômica. Isso faz com que estas novidades sejam mais rentáveis, pois elas conseguem, com rearranjos e melhoramentos de recursos, de uma fina sintonia (do crescimento de fatores) e uma remodelação do uso dos recursos (OOSTENDIE e BROEKHUIZEN, 2008), baixarem os custos de produção e de transação da agricultura (MILONE, 2009; VENTURA e MILONE, 2004). Já a territorialização envolve a idéia de que as novidades nascem embeddedness em um local, território ou espaço (rural ou não). Como se formulou antes, o processo de surgimento das novidades é localizado e dependente do tempo, dos ecossistemas locais e dos repertórios culturais em que o processo de trabalho na agricultura está inserido. Além disso, as novidades produtivas são o resultado do processo de co-produção, que é a interação e transformação do social e do natural e, que se desenvolve no local ou no territorial (CARVALHO, OLIVEIRA e GAZOLLA, 2009)10.
3. UM POUCO DE HISTÓRIA DAS EXPERIÊNCIAS E DAS NOVIDADES
O território do Médio Alto Uruguai do RS é tipicamente um local de colonização por imigrantes europeus, principalmente italianos, alemães, poloneses, dentre outras etnias. É um local de colonização recente, se comparado aos demais do RS, pois as colônias foram constituídas a partir dos anos de 1925, a partir da constituição da Comissão de Terras, em Palmeira das Missões, em 1917, que era responsável pela demarcação dos lotes. Esta característica fez com que o Norte do RS desenvolvesse sistemas produtivos com a predominância da lógica da agricultura familiar, como forma social de produção e trabalho nos espaços rurais11.

Outras características que são importantes regionalmente para a compreensão do contexto sócio econômico e institucional são: a) a média das propriedades rurais é de 13,0 ha, o que demonstra as pequenas áreas que esta agricultura familiar cultiva e possui; b) os indicadores sócio-econômicos e humanos estão entre os mais baixos do RS12; c) a população é predominantemente rural na maioria dos municípios, ficando, na média, em 56,8% para a Região do Médio Alto Uruguai; d) na maioria dos municípios o Valor Adicionado Bruto (VAB) é predominantemente agropecuário, se comparado aos outros setores econômicos, ficando acima de 50% da riqueza gerada regionalmente13; e) o processo de desenvolvimento histórico se deu em torno da produção agrícola e pecuária, possuindo pouca diversificação rural e intersetorial. Estas são algumas características e dados centrais para a compreensão do Norte do RS e da sua agricultura familiar.

Já a agroindústria familiar possui como marco de surgimento o próprio processo de modernização da agricultura e o conseqüente squeeze dos agricultores a que se refere Ploeg (2006; 2008a). Este processo modificou a base técnica e produtiva da região, inserindo a agricultura familiar em relações extremamente mercantilizadas, que a levaram a uma crescente fragilização social e econômica, sem mencionar os problemas ambientais. Desse processo mais amplo de transformações que esta agricultura passou nos últimos 40 anos, emergem várias iniciativas produtivas, econômicas, institucionais, algumas incitadas por políticas públicas, etc., que possuem um caráter “alternativo” ao padrão de desenvolvimento historicamente hegemônico na região – o padrão agrícola de desenvolvimento – calcado na produção de grãos, commodities e na integração agroindustrial com os impérios agroalimentares, como se referiu Ploeg (2008a), de suínos, fumo e aves14.

Nas agroindústrias familiares estudadas há uma grande relevância na experiência das famílias, principalmente com relação a sua história com o trabalho agrícola, saberes e conhecimentos tácitos relacionados ao preparo, produção e processamentos dos alimentos. No início da colonização na Região Norte do RS, as práticas de produção agropecuária e de transformação dos alimentos estão unidas dentro das unidades de produção e utilizam-se do trabalho familiar. Assim, tanto a produção agropecuária de produtos para os mercados como para o autoprovisionamento familiar e a chamada “agroindústria caseira” (PELEGRINI e GAZOLLA, 2007; 2008) fazem parte do mesmo processo de reprodução social dos colonos, que possuem suas origens no processo de imigração européia, iniciado no final do século XIX no RS.

Nas experiências investigadas a agroindustrialização surge das pequenas atividades diversificadas de produção para o autoconsumo familiar. Os gêneros alimentícios e produtos que eram inicialmente produzidos pela família para a alimentação do grupo doméstico é que vão ser a base inicial da estratégia de agroindustrialização familiar. Em algumas famílias investigadas a produção destes alimentos para consumo próprio era uma tradição de mais de 30 anos e, inclusive, eventualmente exercia-se a venda de alguns destes produtos nos espaços urbanos como forma de manutenção familiar. É apartir da venda de muitos produtos que eram consumidos pela família que o grupo familiar inova, no sentido de construir a maior de todas as novidades – a agregação de valor aos produtos que antes nenhum valor possuíam nos mercados tradicionais, como o trecho da entrevista demonstra.
Há uns trinta e poucos anos, eu já levava nos mercados alguma coisa, por exemplo, batata doce, moranga, cenoura, isso aí nos plantava e levava. Então a gente já tinha um pouquinho de noção das coisas. Era uma época bastante difícil, batata doce, abobora, era bastante volume, mas pouco dinheiro (Entrevista 2: Pesquisa de campo Projeto IPODE, Abril de 2009).
Porém, uma das principais características que marca o nascimento das experiências de agroindustrialização é o conhecimento tácito e contextual dos agricultores aplicado aos produtos elaborados. Como formulou Stuvier et all (2004, p. 102):
O conhecimento dos agricultores é implícito à prática produtiva, ou seja, é ancorado na ação. No curso do tempo os agricultores monitoram, avaliam e ajustam a eficiência de suas práticas e decisões. O ajustamento é constante e leva a novos ajustamentos nos diferentes domínios da produção. Este ajustamento é uma espiral: agricultores constantemente ajustam, monitoram, avaliam e ajustam novamente. Neste caminho eles aprendem fazendo e fazem através da aprendizagem.
A agroindústria familiar emerge assim como uma prática experimental e alicerçada no conhecimento histórico dos agricultores, que vão melhorando as suas maneiras de fazer e de produzir, ajustando e culminando com a agroindústria familiar - uma novidade produtiva criada e recriada por eles mesmos no afã de solucionar os seus problemas diários e corriqueiros, como a falta de alternativas sociais, o squeeze econômico da unidade de produção, as baixas rendas agrícolas, a migração dos filhos, etc. Na região Norte do RS, por exemplo, 61, 32% das agroindústrias surgiram da experiência histórica das famílias e devido ao interesse dos proprietários dos estabelecimentos rurais, demonstrando o papel do conhecimento tácito dos agricultores como propulsor do surgimento da atividade (PELEGRINI e GAZOLLA, 2008).

O trecho da entrevista com um dos donos da Agroindústria Vitalli é um pouco longa, mas demonstra bem como é este processo se desenvolve. Nele os agricultores vão construindo novidades, fazendo, aprendendo e melhorando as práticas e conhecimentos tácitos e contextuais do processo de agroindustrialização:


Foi por nossa conta. Fizemos a rapadura e colocamos nas formas de pão, então era uma grande outra menor, mas fazia o que a gente tinha. Depois começamos a fazer em uma mesa de tábua que nós tínhamos, mas não deu certo por que saía das caixinhas. Daí saímos vender aquelas que ficaram mais bem e vendeu tudo. Depois mandamos fazer as forminhas e daí nós enrolava no papel colocava dentro de uma caixa de papelão e botava atrás da moto, amarava lá e saía; uns quantos anos saímos de moto (vender). Depois teve uma nora que disse em vez de colocar no papel, porque quem quer uma rapadura tem que desenrolar de novo (para vê-la). Daí uma (das noras) começou a guardar os saquinhos que vinham as mercadorias dos supermercados para nós, mas aí umas tinham umas escritas e nós vendíamos assim. Aí um sobrinho nosso ofereceu o filme, aquele que é para colocar os alimentos, daí compramos e nunca mais paramos de usar (Entrevista 1: Pesquisa de campo Projeto IPODE, Abril de 2009).
  1   2   3


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal