A profissão docente representada na imprensa tijucana



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A PROFISSÃO DOCENTE REPRESENTADA NA IMPRENSA TIJUCANA (ITUIUTABA-MG: 1960-1980)
Jennifer Maria Pereira Matos - FAPEMIG/UFU

jennifermariap@yahoo.com.br
Isaura Melo Franco - CNPq/UFU

isaurafranco@hotmail.com
Prof. Dr. Sauloéber Tarsio de Souza

CNPq-FAPEMIG/UFU



sauloeber@pontal.ufu.br
Palavras-chave: Profissão docente, Imprensa, Ituiutaba-MG.
O presente trabalho se reporta ao projeto de pesquisa "Educação Escolar e Imprensa (Ituiutaba 1950-2000)" com apoio da FAPEMIG. Tem como um dos objetivos a construção de um acervo digital com o conjunto das notícias jornalísticas referentes ao universo escolar no município de Ituiutaba-MG.1 As noticias que foram catalogadas pertencem as coleções de jornais constantes no acervo da Fundação Cultural Municipal. Esse estudo, em específico, baseia-se na leitura das representações sobre a profissão docente veiculadas nas páginas da imprensa local.

O recorte temporal tem relação com a gradativa expansão das escolas públicas verificadas nesse período alterando o predomínio das instituições privadas verificado até os anos de 1950. Paralelo ao aumento das escolas, verificou-se também a elevação do número de professores no município, assim, acompanhando a expansão da profissão, a imagem difundida do professor seria alterada nas páginas dos jornais aqui estudados. Até os anos de 1960, a figura do professor veiculada era a do missionário a serviço da população, uma profissão de fé, relacionado a questões assistenciais e pouco politizadas. Já a partir dos anos de 1980, percebe-se a projeção de um novo perfil do docente: o professor trabalhador, figura que se projeta socialmente especialmente pelas lutas por melhores salários e condições de trabalho, o que tem relação com a massificação da profissão docente e a precarização da formação do professor e de suas condições de exercício da profissão.

Antes de adentrarmos ao objeto específico deste trabalho, é preciso pontuar algumas questões relativas ao surgimento e a consolidação da profissão docente, de acordo com alguns teóricos:

Historicamente, é uma profissão que passou pela regulação religiosa entre os séculos XV e XVIII, e a partir do século XIX tem sido dominantemente regulada pelo Estado. Ao longo dessa longa construção histórica, a busca por sua razão de ser, em sentido fundante, enveredou por ideologias, representações e utopias das mais diversificadas, passando, por exemplo, pelo exercício profissional docente vinculado concepcionalmente ao exercício do sacerdócio, pela defesa da educação pública como vantajosa em relação à educação doméstica, pela defesa da disciplina como central no processo da educação escolar, pela defesa da educação fundada na liberdade, pela necessidade da educação integral, pela sustentação da educação como reconstrução da experiência, como responsável por manuseio de metodologias e técnicas que garantiriam a qualidade do ensino etc. A formação do professor, embora reclamada desde os albores da Modernidade, foi somente institucionalizada, na Europa, a partir dos fins do século XVII. (ARAÚJO; LOPES; FREITAS, p.13)


No Brasil Colonial (1500–1822), predominou a educação dirigida à elite e controlada pelos jesuítas. A educação jesuíta se dirigia à formação cultural da classe dominante e ao processo de catequização nas aldeias indígenas recém-convertidas ao catolicismo. A docência, portanto, era exercida por homens e para homens, pois as mulheres permaneciam em casa, à educação das meninas nem mesmo estava contida nas leis, de forma que a população feminina ficava a margem do sistema escolar. Apenas uma pequena elite fomentava a educação de suas filhas, e essa era relacionada ao aprendizado das prendas domésticas e as orientações eram passadas de mãe para filha, de forma que se buscava formar a esposa e a mãe.

Essa situação começou a ser modificada com a vinda da família real para o Brasil e o estabelecimento do sistema Imperial, mesmo que a maior parte das mulheres ainda vivesse em situação de dependência e inferioridade, com pequena possibilidade de instrução. Em 1827, D. Pedro I promulgou lei que determinava aulas regulares para as meninas, embora ainda se justificasse que sua educação tinha por objetivo o melhor exercício das “funções maternais” que elas haveriam um dia de exercer (ARANHA, 2006, p.229).

Ao longo de todo o período imperial as escolas normais (para formação de professores) tiveram existência instável, surgindo e desaparecendo com a mesma intensidade, em função de que a profissão docente era pouco valorizada socialmente, especialmente, os professores das primeiras letras. Assim, o magistério se abriu as mulheres de forma que a predominância do elemento feminino nas Escolas Normais estaria consolidada já nas últimas décadas do regime imperial, da mesma forma, tem início aí, o interesse em se aprimorar a prática de ensino na formação dos(as) professores(as). Via de regra, essas instituições surgiram para atender alunos do sexo masculino, especialmente as primeiras escolas criadas no século XIX, depois foram sendo ocupadas por meninas, como no caso das Escolas Normais de Niterói e da Bahia, mais a frente criariam instituições similares para a formação de professoras em regime de externato (em turnos diferentes) ou internato com sedes próprias.

Desde a criação das primeiras Escolas Normais, no final do século XIX, as mulheres começaram a ser recrutadas para o magistério das primeiras letras. Assim, a formação da professora e a prática docente eram impregnadas de representações sociais sobre a identidade da mulher-mãe-que construía, também, o imaginário social mais amplo, contribuindo para fomentar o ideário de que as mulheres eram, naturalmente, predispostas à educação de crianças. A própria escolarização de nível médio da mulher se deu pela expansão dos cursos de formação para o magistério, permeados pela representação do ofício docente como prorrogação das atividades maternas e pela naturalização da escolha feminina pela educação (Gatti & Barreto, op. cit, p. 62).

No sistema republicano, nas décadas de 1940 e 1950, o papel do professor continuava basicamente o mesmo, especialmente, no que se referia ao sistema elementar de educação. Nesse sentido, o professor primário era um sujeito sem voz ativa, disposto a enfrentar as condições de trabalho que lhe eram impostas, reduzindo o seu papel a missão de educar as massas, independentes de questões salariais. Como atividade laboral, baseava-se na renúncia e precariedade de condições de trabalho. Paciência, dedicação e renúncia eram virtudes presentes no cotidiano do professorado, não só no Império, mas também no Brasil República. Era necessário que a mestra despertasse e desenvolvesse em si e em seus alunos pensamentos e sentimentos republicanos, pois o magistério era entendido como função própria da mulher. Segundo Homem de Mello (1873, p.12):
A vida do professor de escola é vida toda de paciência, de conformidade de ânimo, de abnegação: e a soma dos sacrifícios nela despendidos só é igualada pela extensão dos benefícios, que ele assegura à sociedade, quando desempenha religiosamente os seus árduos deveres. Daí o respeito universal, em que são tidos em todas as nações cultas os educadores da mocidade que fazem os costumes públicos e particulares, e assim promovem a prosperidade ou a decadência dos estados. A sociedade mal se apercebe da existência desses obreiros modestos, que, sem a sedução de posições brilhantes, trabalham em silêncio, como o homem de bem só possuído da idéia do dever, e preparam laboriosamente o destino das gerações por vir (1873, p. 12).
Vemos acima que a imagem da professora e da prática docente eram impregnadas de representações sociais sobre a identidade da mulher-mãe-professora. Algo que construía o imaginário social mais abrangente, contribuindo para promover a ideia de que as mulheres eram, naturalmente, predispostas à educação de crianças. Desconstruindo a visão de mulher sedutora e pecadora e construindo uma imagem de mulher como ser puro. Tais representações reafirmavam a presença de professores felizes, bem recompensados e prestigiados o que nem sempre correspondeu a realidade desses profissionais.

A partir da segunda metade do século XX, a imagem do professor começou a ser modificada, de forma que os avanços e retrocessos da profissão começaram a estar presentes no cotidiano dos docentes marcado por lutas, desilusões, resistências, sofrimentos, mas que ainda assim se acreditavam prestigiados pela grande missão que desempenhavam.

Entre as décadas de 1960 e 1970 ocorreram muitas mudanças no sistema de educação, impulsionadas pelo “milagre econômico” período que o país teve grande e rápido crescimento econômico. O regime militar estabeleceu uma vinculação entre a educação e o modelo autoritário de modernização das relações capitalistas de produção. Observa-se que nessa época, o professorado já não mantinha o mesmo perfil do passado, tratado como técnico e não mais como intelectual. O arrocho salarial foi uma das marcas registradas da política econômica do regime militar. O professorado do ensino básico foi um dos mais atingidos pelas medidas econômicas que reduziram os salários dos trabalhadores brasileiros. O processo da sua proletarização teve um grande impulso no final da década de 1970 com a perda do poder aquisitivo dos salários, houve ampla mobilização da categoria, acarretando várias greves por todo o país.

Tal alteração pode ser percebida até mesmo nos municípios mais distantes dos grandes centros de poder e indústria do país, como no caso de Ituiutaba-MG. Esse município mineiro passava por expressivo movimento de modernização (reflexo do movimento nacional), com elevação das taxas de urbanização (entre 1950 e 1970 sua população citadina passou de 19% para 73% do total de habitantes), formando mercado consumidor, além de liberar terras para a expansão das empresas agrícolas na região, o que gerava empobrecimento da população migrante, em função de que nas cidades nem sempre conseguiam sustento.

Nos anos de 1950, o poder público preocupou-se com o Plano Urbanístico local, com ampliação dos serviços de abastecimento de água e de iluminação pública, arborização e calçamento de ruas, construção de prédios públicos, buscando atender às demandas da população que se avolumava. Assim, ocorreu a ampliação da rede escolar e de saúde pública, mesmo que de forma precária sem atender de forma satisfatória ao grande fluxo de pessoas que se mudavam para o meio urbano. Nos anos de 1960, a mudança urbanística acelerou-se ainda mais, com a chegada do asfalto, a construção de praças, implantação do Distrito Industrial e do primeiro Campus Universitário no município (SOUZA, 2010).

Nas primeiras décadas do século XX, os professores que atuavam na região do Triângulo Mineiro (inclusive no município de Ituiutaba) diplomavam-se nas Escolas Normais situadas em Belo Horizonte, em outras capitais como as do Rio de Janeiro e de São Paulo e de cidades de grande porte como Campanha. A Escola Normal mais próxima de Ituiutaba, instalada em Uberabinha/Uberlândia anexa ao Ginásio de Uberabinha iniciou suas atividades segundo Vieira (2003) em 1925. Também Moraes (2008) ressalta a presença importante da Escola Normal em cidade vizinha de Ituiutaba origem das primeiras professoras Ituiutabanas com formação específica para o magistério, uma vez que em Ituiutaba ainda não havia Escola Normal.

Acompanhando as mudanças na cidade, também observamos a mudança na representação do professor que era visto como sujeito de certo prestígio social, mas que deveria enfrentar as condições de trabalho que lhe eram impostas, reduzindo o seu papel a missão de educar as massas, independentes de questões salariais, por exemplo. Já nos anos de 1980, no contexto de redemocratização do país e de elevada inflação, os jornais passaram a apresentar os professores como proletários na luta por seus direitos, especialmente, vinculando-os as questões salariais, uma outra visão reducionista de seu papel.

A imprensa local dava grande destaque as greves por salários: “Professores Mineiros ameaçam entrar em greve na próxima semana” (Cidade de Ituiutaba, 07/05/1986) e: “Greve dos professores já obteve grande vitória” (idem, 11/06/1986), ainda: “Professores prometem deflagrar greve” (idem, 28/04/1987). Em período de hiperinflação, a defasagem salarial tinha força agregadora junto a categoria dos profissionais da educação, especialmente no ano de 1986 que chegou a 50.000%, uma das maiores do mundo naquele ano, perdendo apenas para Eslovênia e México. Assim, as ações sindicais, especialmente as de reivindicação salarial ganhavam destaque nos títulos das matérias jornalísticas locais:


QUADRO 01

Tombo

Data public.

Título da Matéria

Assunto

3392

11/06/86

Greve dos professores já obteve grande vitória

O governo aceitou pela 1ª vez que os diretores apontados através de eleições livres

3409

04/07/86

Professores voltam a falar em greve

Aumento Salarial

3431

05/08/86

Greve de professores porque?

E como influenciam, na formação dos estudantes entrevista feita 5 pessoas ligadas a área educacional

3432

06/08/86

Professor incompetente prejudica mais que a greve

A greve é prejudicial, porém se os professores conseguiram sensibilizar os governantes a investir na educação vale a pena.

3433

07/08/86

Greve de professores educadora denuncia problemas piores

A influência das mudanças econômicas sociais e políticas

3443

22/08/86

Professores mineiros anunciam nova greve

Querem que o governo cumpra na integra o prometido

3444

23/08/86

Greve professores decidem hoje em assembléia alunos contestam

Descontentes c/ os governos e alunos estão sendo prejudicada

3447

28/08/86

Professores param para advertir o governo

Procuram a melhor forma de conversa com o governador

3447

28/08/86

Com ameaça da greve

Alunos procuram escolas municipais e particulares alunos temem que o ano letivo seja anulado

3448

29/08/86

Alunos criticam professores

Pois não tem pulso para suportar a greve os professores furam a paralisação

3533


06/01/86

Município quer pagar pouco aos professores

não terá ajuda federal pagar pelo menos 1 salário mínimo não vão receber recursos federais.

3550

29/01/87

Nas escolas particulares diretores e que fazem greve

Ituiutaba não entra! 40 mil professores da rede particular de ensino de todo o Estado já decidiram que vão comparecer a partir dia 02/02 os diretores continuam firme na decisão de retardar o inicio das aulas

3594

03/04/87

Professores ameaçam parar

Os professores e trabalhadores da rede estadual de ensino vão cruzar os braços e ameaçam deflagrar uma nova greve

3598

09/04/87

Professores para e anunciam greve em 15 dias

Reinvidicando ainda o cumprimento da lei quanto ao piso salarial

Mesmo que as greves eram relacionadas diretamente as questões salariais pelos jornais, em algumas matérias esses veículos de comunicação buscavam apontar outros fatores que deveriam ser melhorados na educação de jovens e crianças, como vemos abaixo quando se exigia na pauta de reivindicações, eleições para diretores, contratação de mais profissionais (P1 e P5) e por fim, garantia de estabilidade de emprego:

Fonte: Cidade de Ituiutaba – 22 de agosto de 1986).

Nessa outra matéria jornalística, as greves eram diretamente associadas a formação dos estudantes, ressaltando-se aspectos negativos e positivos da ação dos “trabalhadores do ensino”. Essa expressão se consolidaria ao longo dos anos de 1980, de forma que o professor referência para a juventude, passava a ser representado como mais um indivíduo que desenvolvia atividade que se proletarizara.



Fonte: Cidade de Ituiutaba – 05 de agosto de 1986).


Fonte: Cidade de Ituiutaba – 31 de maio de 1974).


Percebe-se pelos trechos das matérias jornalísticas acima que a profissão docente nas ultimas décadas passou por intensa mudança, provocando alterações na sua significação o que pode ser evidenciado pela leitura dos jornais do período. Por algumas vezes a educação serviu para cultivar as coisas do espírito (a erudição), outras vezes alimentou os interesses da elite, e logo após foi “democratizada” para atender aos interesses do Capitalismo Industrial, e atualmente atende aos interesses de uma economia do Mercado.

A profissão docente passou por um processo de proletarização, ao longo da história da educação brasileira, visto que a expansão escolar recrutou uma massa de profissionais sem as necessárias habilitações acadêmicas e pedagógicas. Desta forma, antagonicamente assiste-se à degradação do estatuto, dos rendimentos e do poder/autonomia docentes. A tendência à diminuição da autonomia profissional do professor é reforçada pelas políticas públicas que tendem a separar os atores que planejam dos que executam; isto é, quem elabora os currículos e programas e quem os concretiza pedagogicamente. Tal fato vem desde a educação jesuítica ao transplantar uma cultura intelectual “alienada e alienante”. Junto a isso, mais recentemente, a qualidade do trabalho docente cede lugar à quantidade, devido à intensificação de tarefas administrativas que lhe são cobradas, perdendo-se assim competências coletivas importantes (Apple & Junger, 1990; in Nóvoa, 92, p. 24).

Do ponto de vista político, as greves, como expressão da democracia participativa da categoria dos professores, representaram instrumento de conquista das liberdades democráticas porque possibilitavam questionar de forma concreta o Estado ditatorial imposto em 1964. Depois, o problema a ser enfrentado passou a ser de outra natureza, uma vez que após a derrota da ditadura, em 1985, e a promulgação da Constituição de 1988, a sociedade brasileira conquistou as liberdades políticas, mas, ao mesmo tempo, não foi capaz de compatibiliza-las com uma política macroeconômica pautada na distribuição de renda. Com o agravamento da crise econômica nacional, que se arrastou ao longo da década de 1980, as greves dos professores não conseguiram obter dos governos estaduais e municipais uma política salarial condizente com o seu exercício profissional. A propósito, na segunda metade da década, o movimento associativista reivindicava dos governos pós-regime militar o estabelecimento do piso salarial nacional para a categoria baseado em três salários mínimos. Mas esta foi uma batalha perdida, porque a maioria dos governos estaduais era composta pelas forças retrógradas que haviam apoiado a ditadura militar durante vinte anos e que havia trocado de lado na última hora, não tendo como princípio, portanto, o comprometimento com a democracia e com as políticas públicas. Data daí o início do esgotamento das greves, que se repetiam e se alongavam, mas não alcançavam o seu objetivo salarial. As reivindicações salariais e de condições de trabalho do professorado de ensino secundário constituíram o espaço das associações e sindicatos de professores que procuraram através da mobilização do professorado e de sua organização influenciar nos rumos da política educacional do estado.

Neste trabalho, elegemos as matérias jornalísticas inserindo-as no contexto de extensas mudanças sociais com o objetivo de identificar nas representações da profissão docente os seus novos significados. Por isso, é preciso entender os jornais como instrumentos que contribuem para o desvendamento do universo escolar local, permitindo abordagens mais amplas em relação ao fenômeno educacional, possibilitando o estudo de concepções pedagógicas que circulavam pelo imaginário da população local, veiculando ideais de educação, de professor, de aluno, etc.

Segundo Araújo (2005), a imprensa revela-se fonte impar, pois sua peculiaridade é apresentar o movimento da história (educacional, social, comercial, industrial, político, literário, econômico, cultural etc.) em sua dinâmica cotidiana, exatamente como visto por aqueles que controlam o que se veicula diariamente. Se o jornalismo vive das circunstâncias, e por isso mesmo, seja encarado como uma fonte suspeita, na verdade é um rico manancial para a investigação em História da Educação.

Dessa forma, a importância do jornal como fonte nessa pesquisa está no fato de que sua atividade não consiste apenas em transmitir, mas, igualmente, em gerar acontecimentos, compondo-os com elementos de uma visão bastante particular do mundo, somatória de subjetividade e de interesses aos quais o jornal está vinculado (CAPELATO, 1988).2 Diante dessa perspectiva:

O trabalho do historiador, portanto, pode e deve estar bem próximo daquele exercido pelo jornalista. Ambos utilizam os fatos e voltam-se para a análise do real. A perspectiva do jornalista, contudo, é conjuntural, construindo mais uma memória coletiva, enquanto o historiador busca a observação de longa duração, esperando encontrar as explicações para toda a estrutura, numa análise mais profunda e ampliada. Mas a atitude de curiosidade, de busca dos fatos e da explicação está presente em ambos (GONÇALVES NETO, 1997).

O historiador deve estar atento a quem está por detrás das noticias, pois o jornal sempre foi espaço de defesa das forças políticas e de interesses dos proprietários, de forma que as matérias são lançadas de forma estratégica, assim, há a interferência não apenas dos elementos subjetivos de quem produz, mas também dos interesses aos quais o jornal está vinculado. Os que duvidam do valor dos jornais de época como fonte de pesquisa historiográfica alegam a interferência das ideologias no ato de noticiar. De fato, as ideologias perpassam todas as páginas de qualquer jornal. Não há como ignorá-las ou fugir delas. Contudo, as ideologias não interferem apenas na veiculação de notícias jornalísticas, já que integram todo processo de produção e divulgação de idéias, em todos os tempos e lugares. O estranho seria, justamente, se os jornais fossem isentos ou neutros (CAPELATO, 1988).

A utilização dos jornais nas pesquisas em história da educação tem relação com o novo fazer histórico que decorreu das mudanças na dinâmica social, com a imersão de sujeitos até então, pouco presentes na história oficial. Historiar passou a ter uma amplitude maior do que se fazia tradicionalmente, de forma que o uso de documentação oficial, de dados quantitativos, levantamento de datas e personagens ganhou a contribuição de outros testemunhos do passado, enriquecendo-se o ofício do historiador que passou a melhor recuperar as relações que os homens estabeleceram entre eles em épocas passadas.

Nesse sentido, buscou-se documentação que se aproximasse mais do corpus teórico utilizado, enriquecendo a análise através da utilização de descrições das medidas governamentais na área da educação, os atores principais deste processo, em nível local e estadual, a ação da elite política local e as relações de poder existentes, a ideologia vigente e o discurso que a justifica, o cotidiano da escola, dos alunos, dos profissionais da educação, o ideal de sociedade projetado, as funções explicitadas para a educação, os temas malditos ou "esquecidos", a posição dos veículos de comunicação, etc.

Para este tipo de preocupação o jornal é uma fonte que não pode ser descurada. Sua grande vantagem - e ao mesmo tempo desvantagem - é a grande quantidade de informações que concentra num mesmo espaço. A importância do historiador e da perspectiva teórica impõem-se exatamente por esta falta de organicidade na tematização dos periódicos. Jornal é notícia, é momento, é mercadoria e não pode ser direcionado apenas a um tipo de público, o que reduziria sua área de influência, seu mercado - consequentemente o lucro do editor (GONÇALVES NETO, 1997).

Por fim, entendemos que a importância desse projeto consiste na ampliação das fontes para a pesquisa histórico-educativa local, especialmente, em função de que a preservação da documentação escolar oficial é ainda bastante precária em todas as regiões do país o que faz com que a pesquisa histórico-educativa se utilize de outras fontes tais como a oral e a jornalística. Acreditamos que as iniciativas de salvaguarda de diversificadas fontes de informação sobre a cultura das escolas ocorrem pela constatação da escassez dos acervos escolares, não existindo no interior das escolas o hábito da guarda da documentação produzida no seu cotidiano, de forma que anualmente, cadernos/relatórios de planos de aula são descartados, e em muitos casos queimam-se papéis antigos com a justificativa de que são “velhos” não tendo validade como documento.

Dessa maneira, muito pouco dos registros oficiais das escolas e praticamente nada das produções escolares de professores e alunos foi preservado. Essa prática tem prejudicado em grande medida o acesso a memória escolar, uma vez que muitas práticas das gerações passadas acabam por desaparecerem com o descarte desses arquivos. Assim, cremos que a digitalização das matérias jornalísticas ao longo dessas cinco décadas de grandes mudanças no campo da educação contribuirá para o resgate de elementos fundamentais para a história da educação local, constituindo-se em banco de dados disponível a toda a comunidade. A opção por disponibilizar as notícias sobre o universo escolar local na internet é importante também no sentido de se estabelecer interlocução com outros pesquisadores da área, contribuindo para se construir análises comparativas entre contextos diversificados que envolvem as questões histórico-educativas, tais como as mudanças na representação da profissão docente ao longo dos anos.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALMEIDA, Jane Soares. Mulher e educação: a paixão pelo possível. São Paulo: editora da UNESP, 1998.


ARAÚJO, J.C.S., GATTI JR, D. (orgs.). Novos Temas em História da Educação Brasileira: Instituições Escolares e Educação na Imprensa. Campinas, SP: Autores Associados; Uberlândia, MG: EDUFU, 2002.
ARAUJO, José Carlos S.; GONÇALVES NETO, Wenceslau; INÁCIO FILHO, Geraldo & GATTI JUNIOR, Décio. “Educação, Imprensa e Sociedade no Triângulo Mineiro: A Revista A Escola, 1920-1921”. História da Educação, Pelotas (RS), 2 (3): 59-93, abr. 1998.
CAPELATTO, Maria H.R. Imprensa e História do Brasil. São Paulo: Contexto-EDUSP, 1988.
CAPELATO, Maria Helena, Imprensa, uma mercadoria política. História e Perspectiva.

Uberlândia: nº 4, jan/jun, 1991.


CATANI, Denice Barbara & BASTOS, Maria Helena Camara (Org.). Educação em Revista: A Imprensa Periódica e a História da Educação. São Paulo: Escrituras, 1997.
CONTIER, Arnaldo D. Imprensa e Ideologia em São Paulo: 1822-1842. Petrópolis (RJ): Vozes, 1979.
CÔRTES, Carmen D.C. Ituiutaba Conta a sua História. 2ª ed. Ituiutaba, EGIL, 2001.
DINES, Alberto. O Papel do Jornal: uma releitura. São Paulo: Summus, 1986.
GONÇALVES NETO, Wenceslau et alii. Educação e Imprensa: análise de jornais de Uberlândia, MG, nas primeiras décadas do século XX. Revista de Educação Pública, 1997, Cuiabá, nº 6.
http://www.meuartigo.brasilescola.com/educacao/a-profissionalizacao-docente.htm
SOUZA, Sauloéber T. “O Universo Escolar nas Páginas da Imprensa Tijucana (Ituiutaba-MG – Anos de 1950 e 1960)” in Revista Cadernos de História da Educação. Vol. 9, n.2, jul-dez/2010.
VILELA, Heloisa. “O Mestre-Escola e a Professora” In: Lopes, Eliane M. & FARIA FILHO, Luciano. (Orgs). 500 anos de educação no Brasil. Autêntica Editoria, 2000.

FONTES:



  • Coleções dos Jornais:




  • “Gazeta de Ituiutaba” (1949 a 1952);

  • “Folha de Ituiutaba” (1952 a 1964);

  • “Correio do Pontal” (1956 a 1959);

  • “Correio do Triângulo” (1959 a 1965);

  • “Cidade de Ituiutaba” (1966 a 1987);

  • “Município de Ituiutaba” (1967 a 1970);

  • “Gazeta do Pontal” (1999)

  • “Diário Regional” (1995 a 2000) (foram apenas esses 4 jornais consultados por vc?)




1


2 Lembremos que, até o início da década de 70, os jornais, sobretudo os do interior, ainda eram um dos principais veiculadores de discursos e imagens, ficando atrás do rádio que ultrapassava a barreira do analfabetismo, por meio da difusão oral. A televisão só passaria a dominar o mercado da informação mais tarde (MILANESI, 1978).



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