A propósito do centenário de Sérgio Buarque de Holanda



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Guimarães, Lucia Maria Paschoal - UERJ

A propósito do centenário de Sérgio Buarque de Holanda

Qualquer contribuição acerca da obra de Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982) corre dois perigos: o primeiro, o mais difícil de ser evitado, é descambar para os elogios, merecidos sem sombra de dúvida, mas que acabam beirando o pieguismo, quando se trata de abordar um clássico da cultura brasileira. Afinal, pouco se pode acrescentar ao muito que já foi dito acerca da erudição e das virtudes acadêmicas de um intelectual da sua estatura.

O segundo risco a se enfrentar é o da repetição: Sérgio transitou com desenvoltura por entre o jornalismo, a crítica literária, a sociologia e a história, e sua produção já foi esquadrinhada minuciosamente1. Basta lembrar que, em 1988, foi lançada a coletânea Sérgio Buarque de Holanda: vida e obra2, na qual conceituados especialistas examinam a bibliografia por ele deixada, sob múltiplos enfoques. Para dar uma pequena amostra desse rol, começo citando um outro nome de peso no panorama das letras nacionais, o crítico e literato Antonio Candido de Mello e Sousa.

Afora a organização e o texto introdutório aos Capítulos de Literatura Colonial3, publicação póstuma, formada por um conjunto de manuscritos inéditos, Antonio Candido dedicou diversos trabalhos ao exame da obra e da personagem Sérgio Buarque de Holanda, na sua opinião (...) uma dessas grandes personalidades da geração de 1922 de um tipo que infelizmente está acabando no Brasil. Dentre tantas páginas consagradas ao amigo fraterno e colega, destaca-se o belíssimo ensaio Sérgio o radical (1988)4, uma espécie de continuação do “Prefácio”, escrito vinte e um anos antes para a edição comemorativa do jubileu de ouro de “Raízes do Brasil5. Livro pequeno, discreto e inesgotável, que trazia as sementes de um pensamento radical, onde em meio a uma reflexão aberta, revelava-se um socialista democrático, que buscava compreender como se efetuou entre nós o enraizamento de uma cultura política transplantada, moldada em meio a circunstâncias complexas, sobretudo pela longa vigência da escravidão6. O juízo de Antonio Candido, que serviu de modelo para outros estudiosos, ainda coloca em evidência o pioneirismo de Raízes do Brasil e seu autor. Eleva-os ao primeiro plano do cenário intelectual brasileiro contemporâneo, ao lado de duas outras grandes sínteses da nossa realidade político-social, a Formação do Brasil Contemporâneo de Caio Prado Júnior e Casa Grande & Senzala de Gilberto Freyre7.

Dentre os historiadores, Sérgio Buarque também desfruta de uma posição ímpar. A partir de 1956, ele ocupou a cátedra de História da Civilização Brasileira da Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo, efetivando-se por concurso dois anos mais tarde. Lecionou até 1969, quando se aposentou, em protesto contra as punições impostas pelo governo militar a diversos colegas de várias universidades brasileiras. Naquele espaço de tempo orientou inúmeras dissertações de mestrado e teses de doutoramento, concorrendo de maneira efetiva para a renovação da pesquisa histórica 8. Além disso, sua produção historiográfica, dada a riqueza de temas e enfoques, constitui não apenas citação obrigatória para professores e alunos dos cursos de história, como ainda vem sendo objeto de diversos estudos, conforme já se disse, dentre os quais se destacam os trabalhos da Professora Maria Odila Leite da Silva Dias, ex-aluna de Sérgio na USP.

Maria Odila organizou o volume Sérgio Buarque de Holanda, para a Coleção Grandes Cientistas Sociais9. A antologia vem precedida de um inventário dos títulos assinados por Sérgio, acompanhado de um rigoroso estudo crítico, em que se salienta a influência marcante do método historista da escola alemã10, sobretudo durante a primeira fase da sua obra de historiador, delimitada pela publicação de Monções (1945) e Visão do paraíso (1958) 11. Cabe aqui abrir um parêntese para esclarecer o que a Professora entende por historismo alemão: uma visão renovadora do passado, desatrelada do naturalismo a-histórico. Suas marcas características seriam a temporalidade, o processo do vir-a-ser dos fenômenos sociais e o relativismo cultural12. Uma espécie de reação não só às amarras de uma estabilidade obrigatória da natureza humana, mas também à necessidade de se estabelecer certos postulados eternos e universalmente válidos. Em síntese, trata-se de uma mentalidade 13. Concepções, aliás, advindas das idéias expostas pelo próprio Sérgio Buarque, na introdução que preparou para uma antologia de textos de Ranke, sob o título O atual e o inatual em Leopold von Ranke14. Diferente, portanto, do sentido utilizado pelo filósofo Karl Popper para identificar teorias que propõem previsões históricas e que as julgam indispensáveis em qualquer orientação da vida política 15.

De qualquer modo, Maria Odila procurou sistematizar a fecunda atividade de investigação histórica empreendida pelo antigo mestre, dispondo o material selecionado consoante quatro grandes eixos temáticos: a primeira parte, “Forma mentis e devir histórico”, compõe-se de trabalhos teóricos e artigos relacionados à “história intelectual ou das idéias”16. Na segunda, “Paisagem, cultura e sociedade”, estão reproduzidas obras cujo fio condutor é a constituição do processo de povoamento paulista. Finalmente, sob as rubricas “Formações sociais no Brasil” e “Política e sociedade” documenta-se a produção voltada para o estudo das conjunturas sociais e políticas do Brasil nos séculos XVIII e XIX.

A ex-aluna de Sérgio não se limitou, porém, a descrever e a examinar os principais campos temáticos explorados pelo autor de Visão do Paraíso. Estudou-os, em outra oportunidade, segundo os conceitos narrativistas contemporâneos, no artigo “Estilo e método na obra de Sérgio Buarque de Holanda”17. Apoiando-se nas premissas desenvolvidas por F. R. Ankersmit, retoma a questão da atração de Sérgio pelo historismo alemão18, e estabelece instigantes relações entre o seu estilo de escrita e as respectivas interpretações enunciadas, concluindo que ele viveu plenamente o que os historistas vislumbravam como consciência exorcista do seu tempo19.

Outro conceituado pesquisador da história do Brasil, o Professor Fernando Antonio Novais, também se ocupou da obra de Sérgio, oferecendo um novo encaminhamento, no “Prefácio” que integra a nova edição de Caminhos e Fronteiras20 - livro cuja publicação original é de 1957, embora formado por uma série de artigos escritos entre as décadas de 1940 e 1950. Segundo Fernando Novais, no percurso intelectual de Sérgio, a coletânea em questão representa o momento da sua passagem da sociologia para a história e do ensaísmo para a pesquisa Ao mesmo tempo, ele identifica possíveis vinculações historiográficas da obra prefaciada com a historiografia francesa, em particular com o grupo de Annales. Para Novais, (...) É gratificante ver Sérgio Buarque praticando um estudo da civilização material em estilo braudeliano avant la lettre21.

Apesar da indiscutível relevância das contribuições de Antonio Candido, Maria Odila Leite da Silva Dias e Fernando Novais, há na bibliografia de Sérgio Buarque de Holanda um aspecto que permanece pouco explorado pelos especialistas: a afinidade intelectual e, porque não dizer, a admiração que nutria por João Capistrano de Abreu. É bem verdade que Laura de Mello e Souza tangenciou esse viés, a propósito do relançamento dos livros Monções e Caminhos e Fronteiras22.

As pistas da atração de Sérgio por Capistrano aparecem num texto pouco divulgado nos meios acadêmicos, talvez por ter vindo à luz no suplemento cultural de um diário carioca. Refiro-me ao artigo “O pensamento histórico no Brasil nos últimos cinqüenta anos”, impresso no Correio da Manhã, em 15 de junho de 195123. Apesar de modestamente denominada de “resenha”, trata-se de uma verdadeira aula de historiografia - aqui concebida como o estudo dos diferentes discursos sobre a história e dos diferentes modos de escrita da história24. Peça fundamental, não apenas para quem pretende estudar o autor de “Raizes do Brasil”, mas também porque constitui excelente síntese acerca da produção historiográfica nacional entre 1900 e 1950.

Ao esboçar os percursos experimentados pela história da historiografia naquele espaço de tempo, Sérgio ultrapassa a simples enumeração de autores, o arrolamento da respectiva produção e dos métodos de trabalho mais utilizados. Arquivos e outras instituições de guarda de documentos também são vistoriados nessa passagem pontual, entremeada de minucioso exame das fontes então disponíveis. Contudo, ele estabelece uma chave-mestra capaz de introduzir nos domínios da pesquisa e da produção histórica nacional: a análise da obra de Capistrano de Abreu (1853-1927). Se por um lado Sérgio reconhece que apenas por vias indiretas era possível avaliar as dimensões do pensamento histórico ali representado, por outro, sem dificuldade, identifica o seu um papel pioneiro: (...) o primeiro passo para ampliar decisivamente suas perspectivas”. Julga que a exceção da vultosa busca documental empreendida por Varnhagen no século XIX, o historiador cearense, melhor do que ninguém, revelou, valorizou e bem aproveitou os testemunhos escritos da nossa formação nacional. Ele (...) sabia, no entanto, que esses documentos só falam verdadeiramente aos que ousam formular-lhes as perguntas precisas e bem pensadas25.

A prática do inquérito sempre representou uma operação bastante complexa: deve apoiar-se num “espírito informador”, continuava a “aula de historiografia” de Sérgio nas páginas do Correio da Manhã. A expressão, por certo, fora tomada de empréstimo ao idealismo hegeliano, mas hoje em dia poderia ser perfeitamente identificada como o referencial epistemológico da pesquisa. Consoante essa linha de raciocínio, ele nomeia as matrizes “espírito informador” de Capistrano de Abreu. A princípio, reconhece as marcas do cientificismo oitocentista. Ressalva, entretanto, que: (...) dos princípios positivistas e evolucionistas só guardaria obstinadamente o senso da medida, da precisão, do rigor dos raciocínios, que retém a imaginação dentro dos limites plausíveis,... 26.

É significativo lembrar que qualidades semelhantes, Sérgio Buarque de Holanda apontaria, anos mais tarde, em 1979, quando resenhou a obra de um outro historiador eminente, o alemão Leopold von Ranke. Empenhado em estruturar (...) os estudos históricos (...) sobre métodos rigorosamente científicos e escritor capaz de (...) aprender os fatos particulares, saber revivê-los em suas pulsações, para que se integrem, afinal, em quadros amplos, onde ganham dimensão e significado. Em outras palavras, o (...) oposto de um simples cronista27. Note-se que Capistrano também nutria forte admiração por Ranke, no seu entender, o grande responsável pela renovação da fisionomia da pesquisa histórica, conforme se lê, em carta endereçada ao Barão de Studart, datada provavelmente de 1903 28.

De qualquer modo, Sérgio Buarque aponta quais as premissas que orientam o “programa de trabalho” desenvolvido pelo autor de Capítulos da História Colonial (1907), e que no sua opinião se afigura como um divisor de águas na historiografia brasileira: (...) os aspectos políticos e os que dependem da pura ação individual, dificilmente redutíveis a qualquer determinismo, cedem passo a outros, aparentemente mais humildes e rasteiros, que mal encontravam guarida na concepção tradicional da história.29 Logo em seguida, ele procura demonstrar os resultados práticos daquela nova via de interpretação:

(...) Assim é que às guerras flamengas, por exemplo, um dos temas diletos dos antigos historiadores, consagra apenas trinta e poucas páginas, contra mais de cem devotadas ao povoamento do sertão;(...) E no povoamento do sertão distingue expressamente as expedições colonizadoras, que alcançariam influência perdurável, e outras que lhe parecem apenas despovoadoras e devastadoras: só as primeiras o interessam vivamente. (...). À própria Inconfidência, movimento político explicável pela influência de idéias adventícias, que não se entranharam em nossa tradição vinda dos primeiros tempos de colônia, reage por um silêncio sintomático e certamente deliberado.30
Essa abordagem pioneira, lamentaria Sergio, não teve ressonância imediata. Nem mesmo no círculo intelectual formado pelos companheiros de Capistrano, como Guilherme Studart, Rodolfo Garcia, ou outros confrades do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Quando muito, acrescenta mais adiante, poderia ser reconhecida em rápidos traços, na Formação Histórica do Brasil, de João Pandiá Calógeras31.

O enfoque proposto trazia em seu bojo uma reflexão individualizante e historicizante32. Concepção que permitia ao historiador voltar-se para as peculiaridades do país, apontando-lhe as sobrevivências arcaicas. Ora esta perspectiva remete outra vez ao historismo alemão, tal qual foi definido por Maurice Mandelbaum: (...) a crença de que uma compreensão adequada da natureza de qualquer fenômeno e de que o adequado julgamento do seu valor aumentam se o considerarmos em termos do lugar que ocupa e do papel que ele desempenha no processo de desenvolvimento33. Da mesma crença Sérgio também partilhava, denominando-a de mentalidade, como já se frisou anteriormente.

Na trilha aberta por Capistrano de Abreu, que por diversas vezes reafirmou a intenção de se dedicar à escrita de uma história sertaneja34, Sergio Buarque já se havia embrenhado. Ora tratando das Monções, ora das Veredas de pé posto, ou ainda das Samaritanas do Sertão, recuperando, enfim, uma parcela significativa da história dos paulistas antigos. Ao que tudo indica, tomara ao pé da letra as sugestões que Capistrano ofereceu, em diferentes oportunidades, a seu ex-aluno Afonso Taunay. (...) A grande época dos paulistas é o século XVII. (...) reserve você para si o melhor naco, deixe os miúdos para quem deles gostar, dizia o “Mestre” a Taunay, aconselhando-o a desistir do projeto de escrever sobre os capitães-generais de São Paulo35. O período lhe parecia promissor e merecia ser alvo de investigação minuciosa. (...) Há pano! Há pano imenso, para mangas..36, vislumbrava com entusiasmo Capistrano, em outra carta endereçada a Taunay.

Mas voltemos novamente ao “espírito informador” de João Capistrano de Abreu, que Sergio Buarque de Holanda tanto demonstrava apreciar. Ele observa, ainda, (...) uma sensibilidade aguçada à importância da ação dos fenômenos cósmicos - da terra, do meio e do clima - sobre as instituições humanas. Esta característica e se manifestava pela preocupação do historiador cearense de traduzir e divulgar antropólogos alemães, voltados para a problemática das relações recíprocas entre o homem e o meio. E geógrafos, tais como Wappoeus (A Terra e o Homem), ou ainda Selin, que se ocupou especificamente do estudo do nosso território (Geografia Geral do Brasil)37. O autor de Caminhos antigos e povoamento empenhou-se em articular a investigação histórica com os progressos da antropogeografia, identificando o valor da paisagem natural na formação e evolução dos grupos humanos. A antropologia constitui para Capistrano em uma via necessária para refletir sobre os processos históricos, notadamente pelo viés da análise cultural. Neste sentido, revendo-se sua correspondência, uma vez mais, encontram-se significativos testemunhos. Em 1915, ocupado em recuperar os traços remanescentes da cultura indígena, afirmava em tom irônico a Mário de Alencar: (...) viro as costas à História; não faltarão Tácitos e Suetônios: os pobres índios sumir-se-ão do mundo; quero apenas que não vão sem acompanhamento ao túmulo38. Anos mais tarde, sem a mesma mordacidade, acentuava para Paulo Prado a importância de levar em consideração aquilo que hoje se conceitua como cultura material, lembrando-o de certas peculiaridades da dieta alimentar dos paulistas de outrora: (...)Içá torrado naturalmente não dispensava carne de porco39, explicava em meio a conjunto de notas críticas. De outra feita, o advertia para prestar mais atenção aos costumes indígenas, desde cedo incorporados à vida cotidiana dos mamelucos da capitania de Martim Afonso de Sousa:



(...) Sobre as estradas de índio há qualquer cousa (...) Mas não precisa perder tempo em investigação. Basta lembrar que os animais não existiam, que as cargas iam nas cabeças e nos ombros; que os índios costumavam andar a um de fundo; que os cacarecos limitavam-se a cuias, cabaças alguma frigideira para torrar a massa de mandioca. Talvez nas migrações levassem algum doente em rede enfiada num pau, carregada por duas pessoas40.
Numa época em que poucos especialistas cogitavam sobre o valor das determinantes econômicas para os estudos históricos, Capistrano de Abreu já reconhecia para a importância da interdisciplinaridade, mais tarde presente em todas as profissões de fé da historiografia francesa da primeira fase de Annales. Para Capistrano, (...) Convém antes de tudo formar uma idéia clara do São Paulo antigo. São Paulo pertence aos chamados oikos, período de economia fechada, economia doméstica, em que o produotor identifica-se com o consumidor e nem se compra, nem se vende41.

É interessante mencionar que também Sérgio Buarque nos idos de 1940 já havia chegado ao enfoque interdisciplinar, por vias diversas, sobretudo nas obras dedicadas à temática denominada por Maria Odila Silva Dias de Paisagem, cultura e sociedade42. A cultura alemã, manifestada pelos estudos de antropologia e dos universos mentais, foi um dos atalhos percorridos por Sérgio43. Mas o outro, por certo, acompanhou as pegadas deixadas por Capistrano de Abreu.

Os livros Monções e Caminhos e Fronteiras resgatam a trajetória dos paulistas antigos, representantes daquela grande época apontada por Capistrano. Sérgio acompanhou-lhe o rastro, não apenas na rota principal, como também na variante: o foco principal não eram os fatos, mas sim compreender os homens no seu dia-a-dia. Para tanto, escolheu justamente analisar o cotidiano das populações sertanejas. Aquelas que viviam fronteiriças a duas culturas, a adventícia e a indígena. Limite tênue, definido pelas contingências históricas, onde tradições e valores de natureza diversa se intercambiavam.

Em Monções (1945), contrasta a colonização litorânea e açucareira com o processo de formação da sociedade que se formou na região de Piratininga. Atribuiu a lentidão, com que se propagaram os costumes e valores metropolitanos no planalto paulista às adversidades impostas pela paisagem natural. Em outras palavras, tratava-se das mesmas (...) asperezas do caminho (que) dificultavam o trato entre o interior e o litoral”, descritas por Capistrano de Abreu em Caminhos antigos e o povoamento do Brasil44.

Nessa linha de raciocínio, Sérgio demonstra que prevaleceram nos primeiros tempos os padrões rudes e primitivos, originários da população nativa. Lembra, ainda, que na capitania de Martim Afonso, o idioma dos metropolitanos só conseguiria suplantar inteiramente a língua geral, falada pelo gentio, no século XVIII. Conclui que a ação colonizadora por aquelas paragens realizou-se por uma adaptação contínua à paisagem geográfica, tal qual (...) a consistência do couro, não a do ferro ou a do bronze, dobrando-se, ajustando-se, amoldando-se a todas as asperezas do meio45. Veja-se, por exemplo, a questão do fabrico das canoas, o transporte utilizado tanto pelos mareantes, quanto pelos sertanistas. Sua técnica de fabricação conservava quase intacta a tradição indígena. Ao longo dos anos, o pouco que evoluiu, deve ser creditado aos percalços das viagens, que acabaram por acrescentar uma cobertura às embarcações. O mesmo aconteceu no que diz respeito à utilização dos rios como caminhos de penetração - rotina introduzida pelos paulistas e que mais tarde seria transplantada para o extremo norte. Nas longas jornadas fluviais evidenciava-se, ainda, a necessidade do uso de vestimentas simples e rústicas, da adoção de uma dieta baseada no milho, gênero de transporte fácil em qualquer bornal, e na preferência generalizada pelo toucinho, outro alimento que se mantinha conservado durante os árduos trajetos sertão adentro. Aquela predileção pelo toucinho, que segundo Capistrano, seria um indicativo da presença dos paulistas ou dos seus descendentes pelo interior da colônia46.

Caminhos e fronteiras, editado pela primeira vez em 1957, reúne um conjunto de monografias, até então dispersas em revistas nacionais e estrangeiras, que abordam a história da antiga capitania de São Vicente. A ênfase, mais uma vez, encontra-se no estudo dos elementos da vida cultural, revigorando e aprofundando, por assim dizer, a problemática contemplada em Monções. Aliás, nas palavras do próprio Sérgio, os Caminhos davam continuidade àquela obra.

A coletânea está organizada em três partes. Na primeira, denominada de Índios e mamalucos, o autor aborda algumas situações surgidas do encontro entre os reinóis e a população nativa, para evidenciar que os colonizadores acabaram incorporando diversos padrões de conduta, artefatos e até técnicas próprias dos indígenas. No texto Veredas de pé posto, por exemplo, privilegia uma dessas influências que sobreviveram à mestiçagem: a habilidade dos nativos de se orientarem na mata por meio de pegadas e de ramos de árvore quebrados47. Recursos que foram transmitidos pelas índias aos seus filhos mamelucos e (...) quase certamente aos pioneiros brancos (...) que nas terras de Piratininga tiveram de imitar seus hábitos para resistir à hostilidade do meio48. Expedientes, aliás, que não haviam passado desapercebidos aos olhos atentos de Capistrano de Abreu49.

As duas outras partes da obra, Técnicas rurais e O fio e a teia, integram ensaios que tratam do processo de diluição dessa herança cultural, ocorrido nos primeiros tempos, e a subsequente recuperação. Em Técnicas rurais a ênfase recai sobre o legado da cultura nativa, o que reflete, mais uma vez, a influência de Capistrano de Abreu. O mesmo se observa no artigo Uma civilização do milho e, sobretudo, em Monjolo, quando Sérgio praticamente recupera a noção do chamado “complexo de milho”, tal como fora definida por Capistrano nos Capítulos de história colonial50. Finalmente, na última parte do livro, abordam-se as atividades urbanas, portanto mais influenciáveis às tradições e aos costumes dos colonizadores51.

Considerada um marco inovador na história da historiografia nacional, Caminhos e Fronteiras é obra até hoje pouco divulgada, mesmo nos meios acadêmicos. Eclipsada, quem sabe, pelo brilho e o prestígio que alcançaram Raízes do Brasil e Visão do Paraíso. Seu pioneirismo, porém, é inquestionável. Sobretudo porque focaliza fenômenos de longuíssima duração, em uma época em que os historiadores franceses ainda teciam suas primeiras conjecturas acerca da autonomia das mentalidades52. Caminhos e Fronteiras, tanto quanto Monções, constitui contribuição tributária de antigas veredas, abertas pela nossa melhor tradição historiográfica – a obra de Capistrano de Abreu. Se Afonso d’Escragnolle Taunay, em razão da sua História Geral das Bandeiras, mereceu da crítica a honra de pupilo dileto do mestre Capistrano53, Sérgio Buarque de Holanda, sem dúvida, revelou-se o seu discípulo mais aplicado.



1 Ver: Laura de Mello e Souza, “Sérgio Buarque de Holanda entre a história e a sociologia”. Jornal de Resenhas/ Folha de São Paulo/Discurso Editorial/USP, São Paulo, 1:10-11, de 3 de abril de 1995.

Ver, também: Ricardo Musse, “Além da história literária”. Idem, p.11.



2 Sérgio Buarque de Holanda: vida e obra. São Paulo: Secretaria de Estado de Cultura: Arquivo do Estado: Universidade de São Paulo: Instituto de Estudos Brasileiros, 1988.

3 Sérgio Buarque de Holanda, Capítulos de literatura colonial. Organização e introdução: Antonio Candido. São Paulo: Brasiliense, 1991.

4 Antonio Candido, “Sérgio, um radical”. In: Sérgio Buarque de Holanda: vida e obra. São Paulo: Secretaria de Estado de Cultura: Arquivo do Estado: Universidade de São Paulo: Instituto de estudos Brasileiros, 1988.

5 Antonio Candido, “Prefácio”. In: HOLANDA, Sergio Buarque, Raízes do Brasil, 7ª ed., Rio de Janeiro: José Olympio, 1967.

6 _______, Sergio, um radical. Op.cit. p.63

7 Idem, p.64-65.

8 Veja-se José Roberto do Amaral Lapa, Historiografia Brasileira. A história em questão. Petrópolis: Vozes, 1976, p.79-109.

9 Maria Odila Leite da Silva Dias (org.), Sérgio Buarque de Holanda. São Paulo: Ed. Ática, 1985. Coleção Grandes Cientistas Sociais nº 51.

10 As expressões “historismo” e “historicismo” foram durante longo tempo intercambiáveis, e ainda o são. Optamos pelo uso da forma “historismo”, em consonância com o próprio pensamento de Sérgio Buarque de Holanda, que estabeleceu uma série de distinções entre ambas. Ver: Sérgio Buarque de Holanda, “O atual e o inatual em Leopold von Ranke”. In: HOLANDA, Sérgio Buarque de (org.), Ranke. São Paulo: Ática, 1979, p.8. Coleção Grandes Cientistas Sociais nº 8.

11 Idem. p.10.

12 George Iggers, apud Maria Odila Leite da Silva Dias, Op.cit. p.11.

13 Idem, p.11.

14 Sergio Buarque de Holanda, “O atual e o inatual em Leopold von Ranke”. Op. Cit. p.8.

15 Idem.

16 Maria Odila Leite da Silva Dias, “Sérgio Buarque de Holanda, historiador”, p.54.

17 ______, “Estilo e método na obra de Sérgio Buarque de Holanda”. In: Sergio Buarque de Holanda: vida e obra, Op.cit. p.72-79.

18 Cf. F. R. Ankersmit, “Historicism: an attempt at synthesis”. History and Theory, Middletown, 34 (3): 143-161, 1995.

19 Maria Odila da Silva Dias, “Estilo e método na obra de Sérgio Buarque de Holanda”, Op. cit. p. 77.

20 Fernando A. Novais, “Prefácio”. In: HOLANDA, Sérgio Buarque de, Caminhos e fronteiras. São Paulo: Companhia das Letras, 1994, p.7-8.

21 Idem.

22 Laura de Mello e Souza, Op.cit. p.11.

23 Sérgio Buarque de Holanda, “O pensamento histórico no Brasil durante os últimos cinqüenta anos”. Correio da Manhã - Suplemento Cultura Brasileira, Rio de Janeiro, 15 de junho de 1951, p. 1-3.

24 Cf. Guy Bourdé & Hervé Martin, “Avant-propos”. In: _____, Les écoles historiques. Paris: Éditions du Seuil, 1983, p.8.

25 Cf Sérgio Buarque de Holanda, “O pensamento histórico no Brasil durante os últimos cinqüenta anos”. Op, cit. p.1.

26 Idem.

27 Sérgio Buarque de Holanda, “O atual e o inatual em Leopold von Ranke”, Op.cit. p.15-17.

28 Ver Capistrano de Abreu, “Carta de (...) a Guilherme Studart de [1903?]. In: _______, Correspondência de Capistrano de Abreu, vol.1, edição organizada e prefaciada por José Honório Rodrigues, 2ª ed., Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Brasília: INL, 1977, p.165-166.

29 Idem.

30 Idem.

31 Sérgio Buarque de Holanda, “O pensamento histórico no Brasil durante os últimos cinqüenta anos”, Op.cit.p 1.

32 Sergio Buarque de Holanda, “O atual e o inatual em L.von Ranke”. In: _______ (org.) Ranke. São Paulo: Ed. Ática, 1979, p.9.

33 Maurice Mandelbaum, apud F.R.Ankersmit, “Historicism: an attempt at synthesis”. History and Theory, Middletown (USA), 34 (3): 144, 1995.

34Ver, por exemplo, Capistrano de Abreu, “Carta de (...) a João Lúcio de Azevedo de 9 de março de 1918. ______, Correspondência, vol. 2, edição organizada por José Honório Rodrigues, 2ª ed., Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Brasília: INL, 1977, p.86.

35 _____, Carta de (...) a Afonso Taunay, dia de São Bertoldo e São Columbano [1904?]. _____, Correspondência, vol. 1, Op.cit. p.276.

36 _____, Carta de (...) a Afonso Taunay [s.d.]. _____ Correspondência, vol. 1, Op.cit. p.350.

37Ver Capistrano de Abreu, “Carta de (...) a Guilherme Studart de [Junho (?), 1902]”. _____, Correspondência, vol.1, Op.cit. p.158

38 _____, “Carta de (...) a Mário de Alencar, de 6 de setembro de 1915.Idem Op.cit. p.239.

39______, Notas críticas que acompanham o final da correspondência com Paulo Prado._____, Correspondência, vol.2, Op.cit. p.483.

40 ______, “Carta de (...) a Paulo Prado”, de 28 de janeiro de 1923. ______, Correspondência, vol. 2, Op.cit. p.437.

41 ______, “Carta de (...) a Paulo Prado”, datada de 1922. Idem, Op.cit. p.425.

42 A expressão é de Maria Odila Leite da Silva Dias. Ver Maria Odila Leite da Silva Dias, “Sérgio Buarque de Holanda, historiador”, Op.cit.56-58.

43 Idem, p. 10 e 18.

44 Veja-se João Capistrano de Abreu, “Os caminhos antigos e o povoamento do Brasil”. In: ABREU, João Capistrano de, Capítulos de história colonial: 1500-1800 & Os caminhos antigos e o povoamento do Brasil. Brasília: Universidade de Brasília, 1982, p.235.

45 Sérgio Buarque de Holanda, Monções, 2ª ed., São Paulo: Alfa-Ômega, 1976.

46 João Capistrano de Abreu, “Três séculos depois”, Op. cit, 187.

47 Sérgio Buarque de Holanda, Caminhos e Fronteiras, 3ª ed., São Paulo: Companhia das Letras, 1994, p.19-35.

48 Idem, p.35.

49 Ver João Capistrano de Abreu, “Três séculos depois”, _______, Capítulos de história colonial: 1500-1800 & Os caminhos antigos e povoamento do Brasil. Brasília: Universidade de Brasília, 1982, p.190.

50 Comparar: João Capistrano de Abreu, “Três séculos depois”, Op. cit., p.187 e 190, com Sérgio Buarque de Holanda, Caminhos e fronteiras, Op.cit. p. 190-191.

51 Os textos Técnicas adventícias, O declínio da indústria caseira e Redes e redeiras examinam as técnicas utilizadas na tecelagem do pano e no artesanato de redes.

52 Ver a esse respeito Laura de Mello e Souza, Op. cit. p.11.

53 Ver José Honório Rodrigues, Teoria da história do Brasil: introdução metodológica. 5 ª ed., São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1978, p. 201.

X Encontro Regional de História – ANPUH-RJ



História e Biografias - Universidade do Estado do Rio de Janeiro - 2002



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