A prática de uma educação dialógica e a luta por uma sociedade igualitária Autor: Eliabe G. de Souza



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A prática de uma educação dialógica e a luta por uma sociedade igualitária
Autor: Eliabe G. de Souza

“Uma das questões centrais com que temos que lidar é a promoção de posturas rebeldes em posturas revolucionárias que nos engajam no processo radical de transformação do mundo” (FREIRE, 1979, p. 37).



Resumo:
Com base numa máxima freireana, que ninguém inclui ninguém; ninguém se inclui sozinho; a inclusão decorre da união de todos na luta por uma sociedade mais justa e mais solidária. O seguinte trabalho aborda a questão das práticas dialógicas em uma perspectiva freriana e dialoga sobre o que Paulo Freire chamava de discurso ingênuo, ou discurso sem ação, muitas vezes feitos por neoliberais que não buscam em sua fala ou mesmo em suas práticas a mudança da realidade entre opressores e oprimidos. Apoiado ainda no materialismo dialético o artigo trata de concepções entre discursos, ideologias e do sujeito que ao se apropriar do discurso apropria-se também da história tornando-se parte dela para aprender e ensinar neste contexto em que está inserido ou para alienar-se condicionado por discursos reacionários.
Resumen:

Basado en una máxima de Freire, en que nadie incluye al otro, nadie se incluye solo, la inclusión se deriva de la unión de todos en la lucha por una sociedad más justa y más inclusiva. El siguiente trabajo discute las prácticas en una perspectiva dialógica freriana y habla de lo que Paulo Freire llamaba de discurso ingenuo, palabras o acciones hecha por los neoliberales que no buscan en su discurso la inclusión en sus prácticas para una realidad cambiante entre opresores y oprimidos. Todavía utilizamos del materialismo dialéctico e sus concepciones entre los discursos, las ideologías y el sujeto que mediante la apropiación del discurso se apropia de la historia y también se convirtió en parte de ella para la enseñanza y el aprendizaje en este contexto o en otra situación alienándose a la habla reaccionária.



Introdução
Historicamente nossa sociedade como um todo foi dividida entre aqueles que exploram e os que são explorados, passado mais de um milhão de anos como afirma a ciência ou mesmo dois mil anos depois de Cristo como afirma a religião, não conseguimos ainda superar a relação social entre opressores e oprimidos. É impossível dizer que sociedades como as que desenvolveram a democracia ocidental como a Grécia, por exemplo, não tenham avançado em suas estruturas de difusão de conhecimento político, artístico e cultural. Por outro lado, muitos esquecem, ou pelo menos omitem em muitas citações sobre estudos de política e democracia, que a sociedade grega, essa dos tempos de Platão e Aristóteles, foi adepta da escravidão, e sua sociedade estava dividida entre os que produziam o “conhecimento” e os que “trabalhavam” de maneira exploratória para manterem essa sociedade.

Tomamos deste exemplo não para uma critica direta a esse momento histórico, até por que as produções de conhecimento desta época atravessaram o tempo e hoje se mantêm em plena utilização, por milhares de pesquisadores pelo mundo, do conceito de ética à estética, ou da República de Platão em seu livro VII ao qual esta o texto do mito da caverna, tem-se ainda uma gama de conhecimentos que são e continuarão sendo utilizados pela humanidade.

Para tanto na sociedade contemporânea deveríamos ter superado toda irresponsabilidade histórica entre opressores e oprimidos. Passamos pela I e II guerra mundial, escravidão da população africana, guerras no Oriente Médio, ditaduras na América Latina, mas por fim, foram construídos pactos e acordos sociais como a Declaração Universal dos Direitos Humanos, as constituições de vários países democráticos e um novo olhar quanto às reais necessidades humanas em suas relações como sujeito, e também, em suas constituições no tempo e espaço em que vivem.

Superamos crises e conflitos através de uma ação simples do ser humano, ação essa que se dá na palavra, no discurso, ou na prática dialógica. Maquiavel afirmou em sua obra “O Príncipe” que só se superava a força ou a violência com outra força ou violência maior. O que de fato Maquiavel não afirmou, é que ao superar violência com violência, estaríamos apenas reproduzindo a violência praticadas contra outros. Não se trata aqui de uma questão de “Perdão” ou “Caridade” com aqueles que violam ou violaram a outros seres humanos É é a verdadeira superação de conseguirmos libertar o opressor da sua condição e não de colocá-lo na situação de oprimido, é o que relatava Paulo Freire em sua Pedagogia do Oprimido ao dizer que: “somenteo oprimido seria capaz de libertar o opressor” de sua situação, e que se nos colocássemos na situação de devolver ao opressor a mesma relação ao qual atinge o oprimido esse não seria de fato um ato revolucionário e sim de violência através de outro ato violento.


Para essa superação o diálogo torna-se fator de integração entre a sociedade, não apenas na troca mais no ouvir e ser ouvido, na troca de experiência e diálogos ou nas palavras de Freire:
[. . .] não é o diálogo romântico entre oprimidos e opressores, mas o diálogo entre os oprimidos para a superação de sua condição de oprimidos. Esse diálogo supõe e se completa, ao mesmo tempo, na organização de classe, na luta comum contra o opressor, portanto, no conflito”. (FREIRE, 1979, p. 6).

O conflito é e será constante em uma sociedade de desigualdade, e não é no diálogo sem conflitos que iremos transformar nossas relações. Ao contrário, é na superação e desafio dos conflitos através do diálogo que se desenvolve uma sociedade de e entre iguais.

Atualmente nota-se um montante de educadores ou mesmo discussões que se utilizam do “termo” educação dialógica e diálogo, afirma-se o termo por que não se aplica o conceito, em slogans de educação com uma perspectiva freiriana. Mas, o que é diálogo na práxis freiriana?

Segundo Freire: “É uma relação de A com B. Nasce de uma matriz critica e gera criticidade”. Ou ainda, acontece “[. . .] quando os dois polos do diálogo se ligam assim, com amor, com esperança, com fé no próximo, se fazem críticos na procura de algo e se reproduz uma relação de ‘empatia’ entre ambos. Só ali há comunicação.” (FREIRE, 1979, p. 39). Para Freire, essa fé trata-se da existência da esperança pela mudança, das possibilidades de homens e mulheres se unirem em prol de uma sociedade capaz de se indignar frente às mazelas e desigualdades provocadas pela falta de uma consciência social e humana. A capacidade do diálogo não está somente nas trocas de discussões, mas também no expor de sua indignação e no ato da fala que provoca o sentido de se opor a aqueles que causam desigualdades por questões de gênero, opção religiosa, ou política, orientação sexual, pelo racismo ou mesmo pela desproporção econômica antagônica onde uma maioria vive em exposição e sem condições de sobreviver com dignidade.

O diálogo e o discurso não podem ser limitados ou desprovidos de lutas e oposições às desigualdades para não ser como afirma Freire:
Os discursos neoliberais, cheios de ‘modernidade’, não têm a força suficiente para acabar com as classes sociais e decretar a inexistência de interesses antagônicos entre elas, como não têm forças para acabar com os conflitos e a luta entre elas. O que acontece é que a luta é uma categoria histórica. Tem, por isso, historicidade. Muda de espaço-tempo a espaço-tempo. A luta não nega a possibilidade de acordos, de acertos entre as partes antagônicas. Os acordos fazem parte igualmente da luta. (FREIRE, 2003, p. 93).

Como sujeito no mundo vive-se a história e dela faz parte, deve-se ter a capacidade e necessidade de intervir para que esse mundo seja um local e casa para todos que nele vivem, devemos lutar e incomodar aqueles que agem de maneira reacionária e que não dão ao diálogo a devida função social, ou segundo Freire:

“Tenho o direito de ter raiva, de manifestá-la, de tê-la como motivação para minha briga tal qual tenho o direito de amar, de expressar meu amor ao mundo, de tê-lo como motivação de minha briga porque, histórico, vivo a História como tempo de possibilidades não de determinações” (FREIRE,1979, p. 26).
O diàlogo deve ser o da ação-reflexção-ação e não o da prática dialógica ingênua dotada de uma intencionalidade vazia um pseudodiálogo, pelo contrário o diálogo deve denunciar as disparidades evidenciando-as. Ou seja, é dialeticamente na relação entre classes que os oprimidos desenvolvem sua força coesitiva, quando buscam a união entre eles. .

A prática dialética na busca por uma sociedade de igualdade
O calcanhar de Aquiles do pobre é a educação, imagina o mendigo entendendo a constituição. Música Espada no Dragão, Facção Central.
Segundo Marx (2004) é indispensável compreender a realidade e a história em suas contradições para criar o esforço de superá-las dialeticamente. A questão que temos é que os discursos são influenciados pela consciência e pela ideologia, mas em uma ordem autoritária e de ordem classista os discursos são submetidos a pressões particulares de interesses de classes sociais. Dessa forma, as representações ideológicas são determinadas pelas estruturas das relações sociais, ao qual em sua maioria está por ordem de opressores.

Para situarmos na questão da dialética e na continuidade desta leitura tomemos do trecho do texto de Leandro Konder em que o autor diz que:


"Aos poucos, passou a ser a arte de, no diálogo, demonstrar uma tese por meio de uma argumentação capaz de definir e distinguir claramente os conceitos envolvidos na discussão. Aristóteles considerava Zenão de Eleia (aprox. 490-430 a.C.) o fundador da dialética. Outros consideraram Sócrates (469-399 AEC)". (Konder, 1987, p. 7).
Konder (1987) discorre sobre essa contextualização histórica sobre o conceito de dialética, porém busca-se neste artigo o materialismo dialético marxista, por tanto o que nos situa no texto e nos questionamentos da prática dialógica, trata-se da realidade, que vai do concreto ao abstrato e que oferece um papel fundamental para o processo de abstração através do diálogo, conceito este muito utilizado nos estudos e reflexões de Paulo Freire.

Para o educador que busca no diálogo sua prática diária seja na sala de aula ou fora dela, em locais de formações de jovens e adultos ou mesmo em espaços como associações, sindicatos ou outros de organização em prol da luta social, a ação da palavra é fundamental para se chegar ao entendimento de suas reais necessidades. A tomada de consciência se dá no processo de libertação e alcançamos a transformação ao agir sobre a realidade e agindo com o conhecimento coletivo das necessidades dos oprimidos. O estar no mundo significa realizar lutas e reflexões, pois desta maneira homens e mulheres poderão sair da condição a-histórica e se integrar a um mundo criado por suas participação e integração ao conhecimento histórico e humano.

Focando na contextualização de uma palavra dotada de pensamento e influência social Vygotsky (1991) conclui que:
A relação entre o pensamento e a palavra é um processo vivo: o pensamento nasce através das palavras. Uma palavra desprovida de pensamento é uma coisa morta, e um pensamento não expresso por palavras permanece uma sombra. A relação entre eles não é, no entanto, algo já formado e constante; surge ao longo do desenvolvimento e também se modifica. (...) As palavras desempenham um papel central não só no desenvolvimento do pensamento, mas também na evolução histórica da consciência como um todo. Uma palavra é um microcosmo da consciência humana. Vygotsky (1991, p. 131-132).

Estudos e ações pautadas na prática do diálogo mostram o resultado de conquista através da troca da palavra e da interação entre discursos para a composição histórico-cultural de homens e mulheres. A palavra se conclui no ato de troca, portanto somos capazes de aprender e de ensinar na ação da fala constituindo, assim, a minha história individual para compor uma história coletiva. Imaginamos um professor que ao iniciar sua aula, abre um círculo e pede para que o grupo relate suas experiências da semana. O grupo provavelmente falará sobre suas experiências em família e da comunidade onde vivem contribuindo para que o professor possa conhecer particularidades e também o que esses sujeitos partilham em suas vidas.

Se pudéssemos realizar ações de trocas dialógicas constantemente poderíamos compreender o papel do sujeito e do coletivo, um conselho de escola pode trocar seu diálogo entre professores, educandos, familiares para um compreender a necessidade do outros. Essa prática pode estar não só no espaço dito escolar, mas na associação do bairro para que ela se mantenha em sua causa comunitária, ou mesmo em uma reunião de condomínio para a integração de todos os moradores de um mesmo prédio.

Ao compartilhar com o outro nossa história, ideais, ou mesmo expressão da consciência através do diálogo, estamos compondo a nossa e a aprendizagem do outro. Quando ouço sobre a história do racismo, machismo, quando dialogamos e questionamos sobre o antagonismo ou as diferenças entre sociedades e culturas, podemos compreender e também intervir nessas realidades para a busca de uma sociedade de diversidade de saberes e igualdade de direitos.


Considerações
Entendemos, com base numa máxima freiriana, que ninguém inclui ninguém; ninguém se inclui sozinho; a inclusão decorre da união de todos na luta por uma sociedade mais justa e mais solidária. Ainda segundo Freire: Da educação que, não podendo jamais ser neutra, tanto pode estar a serviço da decisão, da transformação do mundo, da inserção crítica nele, quanto a serviço da imobilização, da permanência possível das estruturas injustas...”. (FREIRE, 2000, p. 27). Portanto a ação do diálogo e da luta pela igualdade se dá no ato de contarmos nossa história e também na maturidade de ouvir a história do outro. Dessa maneira conheço outras experiências e posso ensinar com minhas próprias experiências. Conseguimos estar no coletivo e representarmos de maneiras distintas e sempre respeitando os diversos acúmulos culturais de homens, mulheres, crianças entre outros que queiram estar à visão social e não a margem.

Em um mundo constituído por culturas e sociedades diversificadas, se faz necessário a relação do diálogo para que possamos conhecer e entender, compreender e mesmo respeitar o acumulo de cada espaço e tempo geográfico e social, ou seja, de nações indígenas as populações da Europa ou Oriente médio, do continente Africano a o Ásia, há toda a história de nossa humanidade e que em suas relações deve ser compartilhadas para a compreensão de nossas diferenças e do que nos torna iguais, o fato de sermos todos humanos e de nossa história e conhecimento não ser algo “acabado”. Temos a necessidade de vivermos em um mundo de liberdade e respeito pleno pelos sujeitos para que esse seja um local de construção e acúmulo de todos.



Referências Bibliográficas:
FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 17. ed. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1987.
_______. Educação e Mudança. 12. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.
_______. Pedagogia da Esperança: um reencontro com a pedagogia do oprimido. 11. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2003.
______. Pedagogia da Indignação: cartas pedagógicas e outros escritos. São Paulo: UNESP, 2000.
FREIRE, Paulo; GADOTTI, Moacir; GUIMARÃES, Sérgio (Org.). Pedagogia: diálogo e

conflito. 4. ed. São Paulo: Cortez, 1995. Disponível em: livros-downloads/pedagogia-diálogo-e-conflito.html>. Acesso em: 08 Outubro. 2011.


MARX, K. ENGELS, F. A Ideologia Alemã. São Paulo: Martin Claret, 2004.
KONDER, Leandro. O que é Dialética. 17. ed. São Paulo: Brasiliense, 1987. (Col. primeiros passos; 23).
VYGOTSKY, L.S. A formação social da mente. 4.ed. São Paulo: Martins Fontes, 1991.
___________. Pensamento e linguagem. 3.ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998.


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