A prática docente na educaçÃo profissional e a possibilidade de uma escola como espaçO PARA a práxis transformadora e libertadora : relato de uma experiência concreta



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A PRÁTICA DOCENTE NA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL E A POSSIBILIDADE DE UMA ESCOLA COMO ESPAÇO PARA A PRÁXIS TRANSFORMADORA E LIBERTADORA : RELATO DE UMA EXPERIÊNCIA CONCRETA
CPF 195.240.318.92
A fragmentação do sentido de ser do indivíduo, da própria história que todo dia termina, não permite a construção de uma sociedade que poderia se formar dentro de uma concepção integradora. Conhecer o sentido do seu trabalho e ajudar a transformar a sociedade, numa perspectiva omnilateral, permitiria sim, aos indivíduos, compreender melhor o processo da formação humana e ajudar a formar cidadãos ético-políticamente fortalecidos.

A escola de formação “desinteressada” permitirá ao jovem que nela se inicia se formar e se fortalecer segundo os avanços científico-tecnológicos assim como intelectualmente, preparando-o para entender o seu lugar na lógica do processo capitalista e, num embate coletivo, buscando a sua possível superação. Se considerarmos a dualidade existente nos sistemas educacionais vigentes, constataremos que a escola se permite e possibilita atuar tanto como espaço hegemônico quanto contrahegemônico, justificando a categoria da contradição presente no método dialético e por isso Gramsci é contra qualquer nivelamento por baixo da formação escolar e cultural adotado pelo sistema do capital. Uma visão de cultura “desinteressada”1 apontaria para uma formação ampla, universal e comum a todos os homens. Para ele, a cultura não deve ser tratada como um instrumento promotor de indivíduos acríticos, incapazes de entender o seu valor histórico, seus direitos e deveres enquanto participantes da vida em sociedade. Ele defende uma concepção de cultura que é “ (...) é organização, disciplina do próprio eu interior, é tomada de posse de sua própria personalidade, é conquistar uma consciência superior(...) e, sim pela reflexão inteligente, primeiro de alguns e em seguida de toda uma classe” (GRAMSCI apud NOSELLA, 2004,p.44).

A complementaridade entre a escola e a fábrica apontada por Gramsci nos mostra os contornos possíveis para uma formação calcada na omnilateralidade ,precedente para a conseqüente transformação da realidade de vida em sociedade. Entretanto, Gramsci entendia que formar pessoas sob essa perspectiva de visão ampla se constituía numa tarefa difícil e, portanto, defendia as atividades formativo-culturais para o proletariado. Sua preocupação e interesse eram motivados pela preparação dos quadros dirigentes que haveriam de governar o futuro Estado Proletário, para que, “(...) cada ”cidadão” possa se tornar “governante” e que a sociedade o coloque,ainda que “abstratamente” ,nas condições gerais de poder fazê-lo” (GRAMSCI,1989:p.137).

A importância da escola para Gramsci se apóia no fato de que esta seria um dos elementos de produção ideológica, dentro do seu conceito de sociedade civil, constitutivo do chamado Estado Ampliado. Gramsci, aqui, amplia e enriquece o conceito de Estado de Marx que o identifica como representante dos interesses das classes dominantes. Para Gramsci, esse Estado Ampliado se constitui da seguinte forma: a sociedade política, voltada para a manutenção do status quo num viés coercitivo, e a sociedade civil, composta pela escola, igreja, partidos etc. o que ele denomina de aparelhos privados de hegemonia, produtores ideológicos, responsáveis pela legitimação ou não daquêle, permitindo a construção de uma nova hegemonia no interior da anterior.


Entendemos que não será tão fácil superar o sistema econômico que rege a sociedade, mas pretendemos, pelo menos desenvolver e estimular nos atores envolvidos a capacidade de entender o seu significado no mundo do trabalho enquanto participantes no mundo a partir de uma escola pública de Educação Profissional .

A formação do docente foi fortemente determinada pelas relações sociais que passaram a se estabelecer a partir da discriminação do trabalho manual e à concretização do ensino profissional. No campo da educação, cada vez mais somos levados a tomar decisões que pressupõem uma reviravolta total no modo de agir que escolhemos e, principalmente, consideramos o mais “correto”. Este movimento traz implicações que certamente deverão ser analisadas e levadas a termo haja vista que impactam a renovação até mesmo do estilo de vida. O sujeito, então, é acometido por reflexões a respeito da necessária adequação ao que se instalará a partir de um processo de mudança e aí reside todo o mal-estar que, também, ajuda a desvelar a intenção do caminhar da humanidade. A partir daí começamos a dialogar com os referenciais teóricos nos quais apoiamos durante o percurso profissional e nos deparamos com a necessidade de nos ressignificarmos como autores da nossa prática cotidiana pedagógica. Romper com os paradigmas pressupõe a aceitação de um novo modo de ver e interpretar a realidade. Pressupõe também, a capacidade ampliada de perceber sutilezas. Criação e mudança são movimentos inseparáveis, que nos possibilitam refletir sobre a necessidade do desprendimento das nossas convicções, do nosso lugar seguro, da “estabilidade” adquirida e defendida até o momento no qual nos vemos impelidos a entender a inexorabilidade da mudança. O criar nos impõe responsabilidades e nos denuncia impiedosamente. A prática cotidiana pedagógica, nesse caso, passa a ser o palco para essa exibição

Entender como é que as concepções e práticas anteriores dos professores interagem com as novas propostas curriculares vigentes têm sido um grande desafio, pois, remete à formação inicial desse profissional, e, no momento em que aquelas lhe são apresentadas, ele oscila entre a apropriação e a resistência partindo, o que pode levá-lo, consequentemente para uma ressignificação.

O lugar da escola nesse momento também deve ser investigado o que certamente favoreceria o processo de significação em sala de aula. Por outro lado, as Diretrizes Curriculares Nacionais (BRASIL,1998) conferem às escolas a autonomia para a elaboração do seu projeto pedagógico e, flexibilidade, interdisciplinaridade e contextualização aliadas ao respeito aos valores estéticos, políticos e éticos.

Democracia pressupõe igualdade e socialização. Nos moldes liberais tanta democracia nas reformas educacionais beira a ironia haja vista as mediações que permeiam a legislação educacional. Se o debate engloba a educação e a democracia em tempos de globalização, a dualidade, consolida o espaço da escola como aparelho privado de hegemonia, instrumento de inculcação ideológica e precarização do sistema de ensino, fomentando a reprodução do sistema. A inexorabilidade das mudanças advindas da globalização altera as relações de produção, as relações de poder, as relações sociais e até mesmo a educação escolar. As reformas educacionais propostas nos últimos anos buscam atender às exigências do mercado e valores burgueses. O determinante da política social é a valorização do capital e a conseqüente desqualificação do Estado nas suas funções. Forma um homem coletivo, submisso e sem iniciativa autônoma. Hoje, o projeto educacional brasileiro marcadamente neoliberal vai de encontro a um projeto democrático voltado para as massas, oscilante entre a força e o consenso que oferta uma formação mínima para as classes trabalhadoras sem maiores conseqüências para a sua formação cidadã. Surge, então, um novo tipo de trabalhador pautado pelos avanços científico-tecnológicos, individualista e fragmentado socialmente.

A educação, que tem na escola um instrumento para atender a interesses específicos, está limitada à condição de reprodutivista, e ao invés de se emancipar nesse sistema, se torna manipulável como aqueles a quem ajuda desconstruir enquanto sujeitos da sua própria história

Este trabalho pretende descrever uma prática pedagógica sob a perspectiva gramsciana. O cenário é a Escola Técnica Estadual Santa Cruz, da Fundação de Apoio à Escola Técnica (FAETEC) no Estado do Rio de Janeiro. O curso Técnico em Segurança do trabalho, da subárea da Saúde, objetiva formar profissionais com a função de educar trabalhadores a partir de um processo de conscientização de ações seguras para o desempenho das suas atividades no trabalho.

Por estabelecer interfaces com todas as áreas da atividade humana, a Saúde estreita relações com as atividades produtivas. Dessa forma se indaga que papel ela poderá ter na perspectiva de melhoria das condições da vida cotidiana da sociedade. A saúde extrapola o caráter reducionista de sistema de serviços e ganha um caráter construído socialmente. Ao mesmo tempo, permitindo a autonomia do indivíduo numa visão humanizadora.

Este trabalho objetiva, sob a perspectiva da Promoção em Saúde, permitir que os alunos se apropriem objetiva e subjetivamente, da discussão de temas polêmicos, buscando a compreensão do seu significado no mundo de trabalho. Isso poderá promover um sujeito conhecedor do seu lugar na sociedade, ético , crítico e comprometido na sua prática cotidiana.

Essa prática pedagógica se constituiu a partir da disciplina Técnicas Instrumentais e Promocionais, na qual os alunos desenvolveram e implementaram o projeto da Semana Interna de Prevenção de Acidentes no Ambiente do Trabalho, atividade anteriormente desenvolvida por especialistas (professores). Enfatizamos que a proposta foi de ruptura com a idéia estabelecida e naturalizada de que o aluno é apenas o depositário do conhecimento do outro – o professor. Quando os alunos assumiram a autoria do evento a partir das atividades de divulgação e convite à comunidade da escola (alunos,professores e funcionários) o cotidiano escolar assumiu outra dimensão caracterizada pelas possibilidades de acesso a pessoas e informações reservadas a dimensão administrativa.

Inicialmente, pensávamos, apenas na participação operacional dos alunos. Contudo, à medida que o envolvimento com o evento aumentava, a sua contribuição assumiu proporções mais significativas. Os alunos passaram a sugerir atividades específicas, modificações na programação, constituindo-se, de fato, autores da sua prática. O envolvimento e o comprometimento para a realização do evento , de forma desvinculada do reducionismo do conteúdo curricular e da formatação imposta pelo processo quantitativo de avaliação regular, rompem com o alheamento e a desqualificação característicos do projeto educacional da escola moderna. Atividades como painéis de discussão, onde alunos e professores dialogaram sobre temas polêmicos sinalizaram a possibilidade de uma escola formativa-cultural , não imediatamente interessada que, segundo Gramsci, tende a perpetuar as diferenças tradicionais, ou seja, a ideologia da classe dominante.

Ao atualizarmos essa reflexão, no caso brasileiro, enfatizamos a função contrahegemônica da cultura, em busca de uma educação universal, onde Gramsci aponta os caminhos para a construção de uma sociedade mais equilibrada e justa e capaz de elaborar as “mais refinadas e decisivas armas ideológicas” para o exercício da autonomia, onde, uma nova cultura signifique a socialização de forma crítica das descobertas e a partir delas sejam construídas as possibilidades que permitirão aos homens tomarem decisões vitais, coerentes e intelectualmente fortalecidas na busca pela superação da perversidade do sistema vigente.

Esta é uma busca pela escola como espaço para a práxis transformadora e libertadora da qual nos fala Gramsci.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRASIL. Lei 9.394, de 24 de dezembro de 1996. Estabelece as Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Educação Profissional: Legislação básica. 2ª ed. Brasília, PROEP, 1998.


GRAMSCI,Antonio. Os intelectuais e a organização da cultura. Trad.Carlos Nelson Coutinho.Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1989.
_______________. Os cadernos do cárcere. Trad.Carlos Nelson Coutinho. 3ªed. -

Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004. 2v.


NOSELLA,Paolo. Gramsci e a escola. -3 ed.- revista e atualizada. São Paulo: Cortez,2004
OLIVEIRA, Luiza Rodrigues de. A Promoção de Saúde na instituição escolar: a ética do cuidado de si. Caderno de Ensino de Ciências: Promoção de Saúde. 1v. Rio de Janeiro: Papel Virtual /UNIPLI, 2004.

1 Segundo Nosella (2004) o vocábulo “desinteressada” é uma terminologia caracteristicamente italiana que Gramsci utilizará frequentemente em seus escritos até o final da sua vida e cujo sentido só pode ser compreendido correlatamente. Ao perceber que o seu entendimento provocaria equívocos, cuidou de utilizá-lo quase sempre entre aspas. “Em certo sentido, em português, se contraporia a “interesseiro, mesquinho, individualista, de curta visão, imediatista e até oportunista”(NOSELLA,2004,p.47)


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