A prática pedagógica do professor avaliada pelo aluno: uma contribuiçÃo ao desenvolvimento profissional do docente universitário



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A PRÁTICA PEDAGÓGICA DO PROFESSOR AVALIADA PELO ALUNO: UMA CONTRIBUIÇÃO AO DESENVOLVIMENTO PROFISSIONAL DO DOCENTE UNIVERSITÁRIO.
Marina de Macedo Arruda – PUC/Campinas

1-INTRODUÇÃO
Este estudo focaliza o desenvolvimento profissional do professor, entendido como um processo contínuo e intencional de construção da identidade docente a ser buscado pelo sujeito desse processo.

Buscamos, através da pesquisa que realizamos e aqui relatamos, conhecer a contribuição trazida ao desenvolvimento profissional do docente universitário pelo olhar avaliativo do aluno, sobre o desempenho do professor.

Defendemos que a avaliação discente pode favorecer o processo reflexivo docente sobre a própria prática.


  1. O DESENVOLVIMENTO PROFISSIONAL DOCENTE

O ensino é a essência da profissionalidade docente; o aprendizado permanente do professor, uma necessidade que se mostra imperativa especialmente nos tempos atuais, considerando as mudanças aceleradas que os caracterizam.

O caráter construtivo da profissão conduz o professor a empenhar-se na qualidade de seu ensino e na busca do seu aprender constante.

Para Guimarães (2004), na extensa literatura sobre essa questão, o desenvolvimento profissional do professor surge englobado em pesquisas sobre a mudança, a aprendizagem, a socialização, o crescimento, o acréscimo de competências e, ainda, sobre a implementação de reformas e inovações.

Esses termos focalizados por Guimarães (2004) entre tantos costumeiramente utilizados, tais como formação continuada, educação permanente refletem a idéia de desenvolvimento e são significativos porque associam-se aos pressupostos inerentes à idéia de evolução, renovação, progresso, voltados a um movimento no sentido de obter melhorias que, no presente caso, referem-se à educação.

A concretização dessas mudanças relaciona-se com a dupla necessidade: a intenção do professor na busca de melhorias qualitativas no seu desempenho docente e no seu favorecimento pelas instituições - campo de atuação profissional.




  1. A DIMENSÃO REFLEXIVA DA PRÁTICA DOCENTE

John Dewey (1952), ao estabelecer a distinção entre ato humano de rotina e de reflexão, aborda a questão da formação de professores e estabelece que o modo pelo qual cada professor vê a realidade, pode bloquear o reconhecimento e a experiência de pontos de vista alternativos. A aceitação da realidade cotidiana das escolas, tida como natural, por ser habitual, os impede da abordagem questionadora, na busca de pontos de vista alternativos.

O pensamento de Dewey aponta para a questão maior do trabalho consciente do professor: aquele que pode aprender com os outros sem ser subserviente à autoridade, ao impulso, às convenções. Problematizar a prática  eis o que Dewey afirma como necessário para o início do processo de reflexão do professor.

Apoiando-se nas idéias de Dewey, Schön (2000), propõe uma formação profissional baseada na epistemologia da prática, que valoriza o conhecimento tácito (conhecimento na ação). Por epistemologia da prática entende-se a valorização da prática profissional como um momento de construção de conhecimento, através da reflexão, análise e problematização dessa prática.

Logo, “não basta que se estude o trabalho dos professores: necessitam estudá-lo eles mesmos [...] investidos do papel de pesquisadores de sua própria docência” (STENHOUSE, 1991, p.195).

Nesse sentido, Schön afirma que quando alguém reflete na ação torna-se um investigador de sua prática, gerando uma nova teoria para um caso específico, único, levando o raciocínio então desenvolvido a converter-se em mudança dessa prática. Reconhece também a influência exercida pelo contexto de trabalho na prática reflexiva dos seus profissionais.

Sendo nosso objetivo focar o desenvolvimento profissional do professor, ao ensejo da auto reflexão provocada pelo olhar do aluno sobre seu desempenho pedagógico, selecionamos como contribuição importante de Schön seu conceito de reflexão sobre a ação docente: a análise retrospectiva favorecendo a proposta prospectiva em seu fazer pedagógico.

Fiorentini (1999) aponta razões pelas quais os professores precisam refletir e pesquisar sobre seu ensino. Uma delas refere-se à aceitação da realidade cotidiana de suas aulas e a busca de soluções fáceis advindas da tradição pedagógica no enfrentamento das dificuldades surgidas.




  1. A PESQUISA REALIZADA

Apoiada nos critérios elencados por Bogdan e Biklen, citados por Lüdke e André (1986, p.11-13), enquadramos este nosso estudo numa abordagem qualitativa, pois trata-se de um estudo situado, que tem por objeto de pesquisa um grupo determinado de professores em exercício na Faculdade de Educação da PUC-Campinas, no segundo semestre de 2003.

Pretende-se analisar a percepção desses docentes acerca da necessidade de mudança pedagógica ensejada pela análise reflexiva sobre a própria prática, tendo como ponto de partida o olhar avaliativo do aluno sobre o desempenho pedagógico do seu professor.

Também é nossa intenção demonstrar que essa possibilidade de mudança está articulada à compreensão de que a avaliação do aluno sobre a atuação do docente, pode suscitar a análise da própria prática, ensejando mudanças qualitativas em seu fazer pedagógico.

Buscamos, assim, perceber na análise dos dados a seguir focalizada, a influência do olhar do aluno no processo reflexivo do professor.

Buscamos também elucidar estas questões:



  • Qual a receptividade demonstrada e a importância atribuida pelo professor ao processo avaliativo em curso na faculdade de educação da PUC- Campinas, que focaliza o olhar do aluno sobre o desempenho docente?

  • Numa proposta de mudança da própria prática, quais os entraves percebidos no seu contexto de trabalho?

  • Como o professor se vê quanto a sua atuação pedagógica?


- Instrumento de coleta de dados

Optamos pela utilização de um questionário composto por sete questões abertas, e uma questão fechada, elaborada com o objetivo de colher informações alusivas ao informante: tempo de exercício profissional, formação acadêmica, funções exercidas.



- Os sujeitos da pesquisa

Os questionários foram enviados aos professores em exercício na Faculdade de Educação da PUC-Campinas, no mês de junho de 2003, num total de 42 docentes. Recebemos o retorno de 23 questionários respondidos. O tempo de exercício desses professores mostra uma maior incidência (9 professores) na faixa entre 10 e menos de 20 anos de docência. Quanto à formação acadêmica, 19 professores são licenciados em Pedagogia, 10 têm o Mestrado como maior titulação, 9 são Doutores, 2 Especialistas. Há 2 respostas em branco.



- Da Análise de Conteúdo

Neste nosso estudo fez-se necessária a interpretação dos dados fornecidos pelos docentes, sujeitos de pesquisa, reveladores da sua profissionalidade e do contexto institucional onde exercem sua prática, a partir da avaliação processada pelo aluno.

Na análise dos dados faremos uso da Análise Categorial, que, segundo Bardin, constitui-se a mais utilizada dentre as técnicas de Análise de Conteúdo.

As categorias aqui elencadas constituem-se alguns dos possíveis resultados deste estudo. São elas: Receptividade à Avaliação Discente; Condições de Trabalho; Percepção da Necessidade de Mudança; Prática Avaliada; Articulação Docência e Formação Social.

Para podermos atender às normas deste evento, priorizamos apresentar para o debate apenas a primeira dessas categorias.

5.RECEPTIVIDADE À AVALIAÇÃO DISCENTE
A maioria dos respondentes, ou seja, 65% demonstram receptividade ao processo avaliativo da Faculdade de Educação e o interpretam como apoio à prática docente.

Selecionamos algumas falas:



Acho que o feedback do aluno é sempre muito importante para que o professor possa reorientar ou prosseguir na sua prática, independente dele ocorrer via questionário ou durante as aulas.. (questionário 5)

Percebo esse instrumento como um apoio importante à prática docente. Revejo, na voz do aluno, minhas posições, decisões tomadas. Reavalio o semestre na perspectiva dos alunos e confirmo ou modifico decisões para o próximo semestre. (questionário 9)

A partir da leitura das avaliações feitas pelos alunos passei a refletir sobre minha prática. (questionário 15)

O professor respondente do questionário.9 revela que a voz do aluno se configura como importante balisador da sua prática, favorecendo o processo de avaliação do seu desempenho, por apontar possíveis reformulações ou ratificações de sua prática. Percebe os indicadores apontados pelo aluno como instrumentos capazes de provocar sua reflexão sobre seu fazer pedagógico.

Esse entendimento também é focalizado pelo respondente do questionário15, sobre os efeitos da avaliação discente: “passei a refletir sobre minha prática”.

Essas falas reforçam nosso entendimento da avaliação docente como abjeto de reflexão, instrumento de mudança e a voz do aluno como facilitador do processo de desenvolvimento profissional visando à qualidade da docência.

Entretanto, quatro professores manifestaram-se não receptivos à avaliação processada pelo seu aluno. Embora sejam expressiva minoria, há que se considerar essas falas. Assim se expressa o respondente do questionário 3:

Como apoio à prática docente muito pouco vem acrescentar, pois a prática é um traço cultural compartilhado entre ações não apenas dos professores, mas de todos os envolvidos nesta ação. (questionário 3)

Para poder oferecer apoio à prática docente seria necessário que a avaliação se processasse numa discussão nos dois sentidos: professor-aluno; aluno-professor.(questionário 6)

Podemos inferir dessas falas que esses professores se sentem “prejudicados” no processo avaliativo, pois este não contempla a possibilidade do professor também poder expressar seus argumentos com relação à postura do aluno.

Importa considerar que, se considerarmos que para a coleta de dados foram enviados 42 questionários e 19 professores não o responderam, poderíamos interpretar esse fato como forma silenciosa de não adesão ao processo avaliativo proposto pela Faculdade de Educação.

O professor do questionário 3 ainda argumenta que é importante criar oportunidades para que o aluno tenha voz, que possa expressar-se sobre o seu desempenho, mas essa voz, no entanto, nem sempre revela o que de fato ocorre, pois:



Ora são vozes carregadas de emoção, ora de contradição, ficando prejudicado o julgamento rigoroso da relação pedagógica cujo foco não é somente o docente. (questionário 3)

A respeito desse receio quanto à forma de expressão do aluno sobre o desempenho docente os professores respondentes ainda mencionam:



O aluno precisa ser melhor preparado para exercer essa prática conscientemente (questionário.16);

É um veículo válido; entretanto, o anonimato favorece manifestações grosseiras desrespeitosas (questionário.20);

Detemos as conclusões finais desta pesquisa; entretanto, em virtude da explicitação de apenas uma Categoria, registramos estas considerações:

Os professores manifestaram aceitação à avaliação discente; mostraram-se propensos às mudanças sugeridas, à reflexão sobre a própria prática.

Reconhecem, entretanto, que o processo avaliativo adotado precisa ser repensado, incluindo a auto – avaliação discente, o preparo do aluno para a prática avaliativa e a avaliação do professor sobre o desempenho discente.


BIBLIOGRAFIA

BARDIN, L. Análise de conteúdo. Lisboa: Setenta, 1977.

DEWEY, J. Democracia e educação. São Paulo: Cia. Ed. Nacional, 1952.

FIORENTINI, D., NACARATO, M. A., PINTO, A. R. Os saberes da experiência docente em matemática e a formação continuada de Professores. Portugal: Revista teórica de investigação, 1999.

GUIMARÃES, M.F. O desenvolvimento de uma professora de matemática do ensino básico: uma história de vida. Tese de Doutorado. Universidade de Lisboa, Lisboa, 2004.

LUDKE M., ANDRÉ, M.E.D. Pesquisa em Educação: abordagens qualitativas. São Paulo: EPU, 1996.



SCHÖN, D. Educando o profissional reflexivo. Um novo design para o ensino e a aprendizagem. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000.




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