A psicanálise como atividade. Os desafios de nossos tempos



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A PSICANÁLISE COMO ATIVIDADE. OS DESAFIOS DE NOSSOS TEMPOS
(CONTRIBUIÇÃO À MESA: CONFRONTAÇÕES E RESISTÊNCIAS À PSICANÁLISE NA CONTEMPORANEIDADE)

Ney Marinho (Nov/2007)

Escrito está: ‘Era no início o Verbo!’

Começo apenas, e já me exacerbo!

Como hei de ao verbo dar tão alto apreço?

De uma interpretação careço;

Se o espírito me deixa esclarecido,

Escrito está: No início será o Sentido!

Pesa a linha inicial com calma plena,

Não se apressure a tua pena!

É o sentido então, que tudo opera e cria?

Deverá opor! No início era a Energia!

Mas, já, enquanto assim o retifico,

Diz-me algo que tampouco nisso fico.

Do espírito me vale a direção,

E escrevo em paz: Era no início a Ação!1

A que se está resistindo? À investigação? À interpretação? À experiência emocional de investigação? À possibilidade de descobrir algo? Ao despertar das emoções? Aos elementos da posição esquizo-paranóide? À junção do esquizo-paranóide com o depressivo? À irrupção da posição depressiva?

Enquanto escrevo, considerando que a resistência, provavelmente, é tudo que disse, descubro estar pensando em Z com ódio e medo: faço de mim mesmo uma imagem pictórica, levantando em um reunião e atacando Z por ser um desastre para sua profissão. E me ocorre que é dessa imagem visual que tenho medo. Não quero ter a experiência da imagem visual. Um medo desse tipo, levado muito adiante, pode inibir ou destruir α – o processo pelo qual o fato imediato é transformado em material “armazenável” em vez de ser apenas introjetado como um fato indigesto. Imagem visual de mim mesmo sendo expelido da reunião e fazendo um apelo nobre e apaixonado.

Os elementos são então fragmentos do “casal” destruído, e isso combina com o que observo em X.

Mas, e a matemática e a música? A geometria é um tipo de imagem visual; a música pode evocar imagens visuais.

O que leva então à resistência em música ou matemática? No meu modo de pensar, é esfinge, a praga (de “elementos”?), o temor de experimentar o interjogo entre posição esquizo-paranóide e depressiva. Por que os elementos são tão mortíferos? 2

Sempre poderíamos dizer de um homem que é um autômato (poderíamos aprender isto na escola, nas aulas de fisiologia) e, contudo, isto não influiria em minha atitude para com os demais. Inclusive, posso dizer de mim mesmo.

Porém, qual a diferença entre uma atitude e uma opinião?

Eu diria: a atitude vem antes da opinião.3

O título desta mesa, segundo nosso entendimento, é sugestivo e o que sugere tomaremos como um guia para a nossa contribuição. Esclarecemos: o título sugere que confrontações e resistências à psicanálise sempre ocorreram, ocorrem e ocorrerão; mas convida-nos a discutir as atuais. Nada mais justo e pertinente, embora não saibamos se é possível investigar as atuais adversidades da proposta psicanalítica sem nos referirmos às fontes desta oposição que sempre esperamos encontrar. Adiantamos que não consideramos possível meramente atualizar as vicissitudes da psicanálise e os motivos desta opinião constituem o núcleo deste trabalho, assim como a tentativa de identificar qual a resistência típica e mais importante em nossos tempos.

Partimos da suposição de que a psicanálise tem uma inerente dimensão prática. Dimensão, talvez, não seja um bom termo, pois, o que queremos dizer é que a psicanálise é uma prática, tal como podemos ver na obra de Freud e de seus continuadores, qualquer que seja a corrente e direção que tenham tomado. Em outros termos: entendemos que a psicanálise é, sobretudo, uma atividade e não nos referimos exclusivamente à clínica psicanalítica, mas à própria teoria psicanalítica. Esta é baseada em descrições de eventos ou de estórias que podem ser expostas e vividas em uma sessão de 50 minutos, assim como podem reproduzir períodos de mais de 50 anos de uma vida, ou ainda, de mais de 5.000 de uma cultura, caso levemos na devida consideração nossos mitos fundadores.

Ao tomarmos a psicanálise como uma atividade, vamos orientar nossa investigação de seus confrontos e resistências a esta característica, da mesma forma que pretendemos estudar a atualidade de suas vicissitudes sob este mesmo ponto de vista, por exemplo: quais as implicações que vemos na atual crise da prática psicanalítica.

Reservamos para nossas considerações finais algumas palavras a respeito do que entendemos ser a importância deste encontro multicultural. São apenas algumas palavras, não pela pouca relevância do tema, muito pelo contrário: devido ao mesmo pedir um novo texto, que esperamos este encontro esteja rascunhando.

1 – A PSICANÁLISE COMO UMA NOVA MANEIRA DE VER AS COISAS

Ao enfatizarmos o caráter prático, de atividade, da teoria psicanalítica já nos comprometemos com uma posição epistemológica e assim o fazemos propositalmente, visando aproveitar da melhor forma nosso pouco tempo. Estamos cientes que os debates sobre a epistemologia da psicanálise despertam, via de regra, um certo enfado e o temor de ouvirmos velhas e batidas repetições quanto à cientificidade da psicanálise ou coisas do gênero. Contudo, por mais enfadonhas e um tanto caducas que sejam tais discussões, têm elas um aspecto interessante e esclarecedor, caso tenhamos a devida paciência de acompanhá-las mais de perto. Lembremo-nos que Freud sempre alimentou a esperança de ver sua “nova ciência” validada em termos análogos às ciências naturais, embora não ignorasse que as ditas ciências naturais também sofriam contestações quanto a seus fundamentos e, principalmente, quanto aos seus métodos de validação. Apesar de todas as suas preocupações “científicas”, Freud nunca deixou de seguir seu habitual método de trabalho: formular suas hipóteses, confrontá-las com a experiência clínica e com seus estudos sobre a história da cultura; reformulá-las, criando inclusive teorias ad hoc (para escândalo de futuros críticos e gáudio de outros) e assim foi construindo sua formidável obra. Constantes foram suas reformulações teóricas, a partir do que lhe informava a experiência clínica, ou, do que lhe solicitavam inusitados eventos culturais. Recordemos o seminal texto que é Luto e Melancolia, com todas as suas implicações teóricas, surgido para dar conta deste desafio que é compreender o trajeto da tristeza à melancolia; da mesma forma, recordemo-nos do impacto da I Grande-Guerra sobre o autor, e a esteira de obras que então se sucedem até Além do Princípio do Prazer. Portanto, a clínica, a cultura, a vida cotidiana sempre forneceram à teoria psicanalítica o oxigênio necessário para sua perene vitalidade, apesar de todas as ameaças externas ou internas, estas fruto de seus insucessos e fragilidades. É este aspecto ativo, de responder aos desafios e solicitações da clínica e da cultura, o ponto que desejamos sublinhar como o que dá sentido e peculiaridade à teoria psicanalítica, distinguindo-a de uma “filosofia de vida” ou uma religião. Como veremos adiante, Freud se preocupava com tais distinções.

Importante frisar as características muito peculiares, marcadas por um grande envolvimento pessoal e mais uma vez uma intensa atividade, em que consiste a formação analítica. É a nosso ver um legítimo processo de ascese, uma vez que visa a uma formação e não a um grau mais ou menos sofisticado de instrução especializada. Ou seja, espera-se que o postulante a psicanalista com o decorrer de todo o longo processo – a última estatística que realizamos em nosso instituto indicava um tempo médio de 7 anos (além de 3 outros prévios ao início dos cursos) – desenvolva uma capacidade de ver, pensar ou sentir, sob o ponto de vista, ou vértice, psicanalítico. Ora, esta proposta tem estreitos pontos em comum com a própria terapêutica psicanalítica que, segundo alguns (entre os quais nos incluímos), propicia fundamentalmente uma nova forma de ver as coisas. Supostamente, tal desenvolvimento não se restringiria à atividade profissional, não sendo propósito de nossos institutos formar técnicos em psicanálise, nem mestres ou doutores, função da academia. Em conseqüência, a pretensão de formar psicanalistas entendemos ser outro ponto suscetível de despertar poderosas resistências, tanto internas quanto externas ao movimento psicanalítico.


2 – A QUESTÃO DE UMA WELTANSCHAUUNG, REVISITADA

Seria fácil imaginar que uma teoria tão contingente, de tal forma ligada à vida, poderia não ter muitas esperanças de tornar-se uma “nova ciência”, como desejava seu fundador. Mais provável seria erigir-se em um sistema acima da ciência: uma nova visão de mundo. Sem sombra de dúvida, algum tipo de preocupação desta ordem motivou Freud a escrever sua famosa conferência sobre A Questão de uma Weltanschauung, onde procurou deixar bem claro que a psicanálise não pretendia fornecer uma nova visão do mundo e a única que lhe convinha era a da própria ciência.

Entretanto, no correr do século XX, o desenvolvimento do estudo da historia da ciência e a própria filosofia da ciência levaram o conceito de ciência a radicais reformulações. Perdeu a ciência sua posição honorífica, acima de contaminações ideológicas, segura de sua objetividade, fruto de um conhecimento linear cada vez maior de uma realidade externa à nossa consciência e suas vicissitudes. É bom lembrar que o próprio espetacular avanço científico foi exigindo tal revisão. Como não é o momento de discutirmos detalhadamente este tema, sublinharíamos apenas que qualquer que seja a tendência epistemológica contemporânea que adotemos, a ciência será tomada fundamentalmente como uma atividade; uma atividade de resolver problemas. Simpatizamos bastante com a formulação de Larry Laudan que vê a ciência como uma atividade de resolver problemas empíricos e conceituais.4 A vantagem que vemos nesta formulação é que permite superar uma das preocupações de Freud, qual seja: a psicanálise pode ser uma atividade científica, embora não atenda a certos requisitos próprios das ciências empíricas, capaz de oferecer soluções para os problemas que a clínica e a cultura oferecem; soluções que são necessariamente empíricas e conceituais. Não precisaria assim a teoria psicanalítica macaquear as ciências naturais, pois, estas também precisam dar conta de questões não-empíricas, conceituais, para terem suas teorias aceitas. Em suma: é o caráter de uma atividade que dá força e vitalidade e até cientificidade à psicanálise. Este é o ponto que desejamos mais uma vez ressaltar, agora sob o ponto de vista epistemológico, para introduzirmos nossa compreensão das vicissitudes permanentes e atuais da psicanálise.
3 – RESISTÊNCIAS INTERNAS E EXTERNAS

Na linha do que foi até agora desenvolvido, poderíamos dizer que a proposta psicanalítica levantará inevitáveis resistências, tanto por parte de seus próprios proponentes, quanto por parte do ambiente cultural. Afinal, trata-se de um projeto de transformação pessoal – quer de analista quer de analisando – e de crítica ao estabelecido, pela tradição ou por outras perspectivas, as quais no entender de Freud não seriam científicas como, por exemplo, as perspectivas religiosas. É inevitável que se questione, neste momento, mas “a que se está resistindo?” (lembremo-nos de uma das epígrafes deste texto). Contudo, não vamos discutir este ponto mas explorar brevemente o que entendemos por resistências internas e externas.

Estamos chamando de resistências internas àquelas interiores ao próprio movimento psicanalítico. Sobre elas muito já se escreveu e, felizmente, muito se alcançou em termos de livrar-nos de pretensas tradições que ameaçavam esclerosar precocemente a “jovem ciência”, de Freud. Hoje, analisamos crianças, psicóticos, criamos instituições mais flexíveis e propícias à discussão científica, livres do jugo médico, menos hierarquizadas, mais ligadas ao ambiente social, em suma, obtivemos significativos avanços em relação às resistências que o próprio movimento psicanalítico impunha à natural expansão da psicanálise. Entretanto, resta saber se formamos melhores psicanalistas,qualquer que seja o significado desta expressão. Receamos às vezes ter lançado fora a criança com a água suja, o entusiasmo e a paixão de muitos pioneiros podem ter ido junto com o autoritarismo aristocrático que nos asfixiava. Evidentemente, não estamos sugerindo saudades de tempos obscurantistas, mas investigarmos as atuais resistências internas à psicanálise, sabendo que as mesmas sempre vão ocorrer, afinal, este é o mote de nosso texto. Neste sentido, remetemos o leitor a um trabalho a ser em breve publicado, mas já podendo ser encontrado na biblioteca da SBPRJ, da colega Fernanda Marinho: Cultura – Objeto Não Continente. Vicissitudes da Formação Psicanalítica. Neste trabalho, Fernanda Marinho propõe que a cultura forma, por um lado, com paciente/analista e, por outro, com psicanálise/instituto o terceiro vértice de um triangulo necessário para haver um espaço de reflexão sobre a experiência analítica. Não vamos expô-lo aqui, uma vez que se trata de um texto complexo que parte de uma experiência pessoal, das idéias de Bion sobre as relações do místico (ou de uma idéia messiânica, como por exemplo, a psicanálise) com o grupo e evoca trabalhos de outros psicanalistas – como Ronald Britton e Robert Caper – que também sentiram a necessidade de pensar algum tipo de triangulação que fornecesse a necessária objetividade à psicanálise. O que desejamos utilizar do trabalho da colega, neste momento, é a noção de que a cultura é parte integrante de nossa compreensão da psicanálise atual, como a de outrora e a do futuro.

Embora não separemos resistências internas e externas, estamos denominando assim estas últimas, quando as resistências provêm fundamentalmente da cultura. Sabemos que a psicanálise já foi proibida – por regimes políticos totalitários, dos mais diversos matizes –; analistas já foram cerceados em exercer sua atividade; já foi aplaudida, venerada ao mesmo tempo que banalizada; assim como foi várias vezes tentada a livrar-se de alguns conceitos pouco aceitáveis – desde a sexualidade infantil até a pulsão de morte – pelo establishment. As relações da psicanálise com a cultura são necessariamente tensas.

Gostaríamos de ressaltar que entendemos que as resistências internas e externas interagem e buscam um equilíbrio, embora sempre instável.
4 – CONFRONTOS E RESISTÊNCIAS ATUAIS AO PROJETO PSICANALÍTICO

Nossa impressão, limitada como a de qualquer psicanalista que restringe seu campo de atuação ao exercício da psicanálise, malgrado acompanhar o movimento cultural de seu tempo, é de observar um aparente paradoxo. Não ocorrem confrontos e resistências ostensivos atualmente à psicanálise embora, ao mesmo tempo, enfrenta a psicanálise uma inegável e grave crise, marcada pela diminuição da procura por formação analítica, da busca de terapêutica analítica, da redução do número de sessões na prática de todos os analistas, marcada pelo perverso subemprego de profissionais altamente qualificados5, levando muitos deles até a abandonarem seu projeto profissional.

Faz parte deste quadro paradoxal, o fato da psicanálise ter penetrado em todos os terrenos de nossa cultura ocidental, influenciando inclusive políticas sociais – tomemos as campanhas públicas de aleitamento materno, como exemplo – com êxito e ter se tornado uma referência imprescindível em qualquer discussão sociológica, antropológica ou filosófica sobre nossos tempos. Ainda neste sentido, lembraríamos que não tão antigas oposições filosóficas à psicanálise – como foi o caso da obra de Adolf Grünbaum – parecem hoje tão envelhecidas que tornaram o debate a respeito pouco interessante. Nossos grandes atuais opositores seriam mais figuras sensacionalistas do que acadêmicas que, fabricando ou explorando algum escândalo de ocasião, procuram atingir a obra de Freud, não servindo sequer de interlocutores, da mesma forma que caem em rápido descrédito.

Onde estariam então os nossos adversários? São invisíveis e segundo muitos seria a própria cultura hegemônica atual. Não entraremos nesta discussão, por já ter sido muito bem exposta por vários autores e para não nos afastarmos do ponto que desejamos frisar, em nosso breve tempo. Referimo-nos ao fato de que, a nosso ver, o fenômeno relevante é o ataque, a resistência, o confronto à prática da psicanálise. Aparentemente a teoria psicanalítica estaria preservada, mas sua prática correria o risco de entrar para o anedotário da história em companhia de outras tantas práticas que se voltaram para a compreensão e alívio, parafraseando Julia Kristeva, das velhas e novas doenças da alma.

Sem desejarmos ser catastrofistas, não podemos deixar de registrar a impossibilidade de que ocorra uma atrofia, ou, em certos contextos, deterioração da prática psicanalítica sem que isto não se reflita, profundamente, na teoria psicanalítica. Durante muito tempo pôde a psicanálise se insular, mantendo-se até certo ponto incólume a um ambiente, às vezes, declaradamente hostil, outras tantas, acintosamente sedutor. Isto, a nosso ver, explicaria formidáveis avanços na teoria psicanalítica em épocas até de grande conturbação social. Não ignoramos que tal insulamento trouxe problemas, em todas as dimensões do projeto psicanalítico, se os mais evidentes foram os institucionais, não menos importantes foram vastos campos de pesquisa que foram abandonados, ou, simplesmente ignorados. E, esta é a nossa tese central, a psicanálise vive da pesquisa clínica. Nossos grandes teóricos foram dedicados e apaixonados clínicos. A repercussão teórica do trabalho com crianças e psicóticos já é um exemplo suficiente para o ponto que estamos repisando. Pensemos o inverso: como avançar – nesses terrenos em que muito conseguimos, mas que ainda engatinhamos – com as novas gerações de psicanalistas sem a possibilidade da experiência cotidiana que muitos de nós tivemos em analisar psicóticos, por exemplo. Curiosamente, não temos conhecimento de alguma teoria rival que tenha sobrepujado a psicanálise, como costuma ocorrer na história da ciência. Por outro lado, apesar das novas doenças da alma, as tradicionais formas de loucura não perderam sua posição epidemiológica. Tampouco temos informação suficiente para acreditar que certas práticas sociais – como a proliferação de correntes místicas ou a difusão do uso de drogas – tenham se constituído em formas modernas de se lidar com a tradicional loucura. Nossa experiência pessoal sugere mais um controle sintomatológico através de psicofármacos como o principal sucedâneo a abordagens psicoterápicas, em particular, a psicanalítica. Interessante seria pesquisar que atitude (lembremo-nos da epígrafe de Wittgenstein), em relação ao paciente psiquiátrico, acompanha tal controle psicofarmacológico.
5 – DE VOLTA ÀS EPÍGRAFES. NOSSO ENCONTRO NA “BOA TERRA”.

É lugar comum se falar mal da globalização, mesmo sem se saber muito bem o que este conceito encerra. Longe de nós sermos exceção, pois, sentimo-nos sempre meio ludibriados quando ouvimos loas à globalização, à sua inevitabilidade, etc. Afinal, nunca houve tantos estados nacionais, guerras étnicas, religiosas, civis e irracionais como sempre. Afinal, nunca o poder esteve tão concentrado em um pequeno número de países que disputam o revezamento da hegemonia mundial. Afinal, só a Liga das Nações foi tão desautorizada como a nossa ONU ante os ocasionais interesses militaristas. Por outro lado, pensamos que de fato se torna cada dia mais difícil manter-se indiferente ao que se passa nas mais diversas regiões deste nosso cada vez menor mundo. Uma crise na Ásia repercute, em horas, em New York, Londres ou Frankfurt. Por motivos pouco nobres, em geral dos mais subalternos, conseguimos senão uma solidariedade pelo menos uma aproximação entre os homens. Se ideais iluministas de universalismo, comungados por Freud e pensadores da época, fracassaram, temos em compensação condições materiais de um convívio diversificado que, dependendo de nossa capacidade de usufruí-lo, poderá vir a ser extremamente criativo. É assim que vemos este nosso Encontro, o segundo entre colegas brasileiros e portugueses e o primeiro com nossos irmãos africanos. O cenário não poderia ser melhor – a “boa terra” – “a terra do branco mulato, a terra do preto doutor”.

A língua portuguesa pode ser um formidável continente para abarcar experiências tão diversas, tradições tão peculiares, como a européia, a americana e a africana, pensadas agora sob o ponto de vista psicanalítico. Temos uma ampla agenda a formular, desde pesquisas culturais, passando por nosso passado comum, até a perspectiva de levar a psicanálise a amplas e esquecidas regiões que despontam agora numa velocidade imprevisível de modo a não poderem mais ser ignoradas. Este é o lado esperançoso de nossa visão do atual momento por que passa a psicanálise. Dentro deste grande paradoxo que vivemos – um mundo de abundância e miséria, de impensáveis possibilidades de progresso e do cultivo das mais arcaicas formas de violência e destruição – vemos a psicanálise como um poderoso instrumento de crítica da cultura capaz de oferecer uma contribuição insubstituível para os impasses a que o processo civilizatório nos conduziu (lembremo-nos de Freud, in Por que a guerra?).

A psicanálise é uma atividade. Surgiu para dar conta do que a ciência tradicional fracassava em compreender, ou, afastava de seu campo de estudo. A psicanálise oferece a possibilidade de nos aproximarmos de novas e velhas questões do Homem numa outra atitude. A psicanálise sempre se defrontará com resistências, resta-nos investigar, no presente, a quê, por que, com que sentido, ironicamente, nossa cultura se opõe a este formidável instrumento capaz de ajudá-la a sobreviver à barbárie sempre anunciada? Como preservarmos a teoria psicanalítica da crise da prática psicanalítica que é a sua fonte de vida? Não temos resposta, mas julgamos que esta é a questão com que os nossos tempos nos confrontam.


Ney Marinho – SBPRJ

Rua Sérgio Porto, 153 – Gávea – Rio de Janeiro – RJ



CEP 22451-430

neymarinho@globo.com



1 Goethe. J. W. Fausto, pp. 130-131. São Paulo: Editora 34, 2004. Trad. Jenny Klabin Segal.

2 Bion, W. R.. Cogitações, p. 102. Rio: Imago Editora, 2007. Trad. Ester Hadassa Sandler e Paulo César Sandler.

3 Wittgenstein, L. Últimos escritos sobre filosofia de la psicologia. Lo Interno y lo Externo, p. 53. Madrid: Editorial Tecnos, 1996.

4 Embora julguemos mais interessante a investigação da natureza da racionalidade da teoria psicanalítica, em lugar da discussão de sua pretensa cientificidade. Por caminhos diversos concordamos com Gregório Klimovsky quanto à importância da psicanálise desenvolver seus próprios instrumentos de avaliação epistemológicas, como foi a formulação da Grade, por Bion.

5 Importante registrar que isto não é privilégio da psicanálise, sendo comum em países periféricos este tipo perverso de subemprego: profissionais altamente qualificados sem possibilidade de exercer suas atividades específicas.




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