A psicanálise na clínica com bebê



Baixar 98.66 Kb.
Encontro03.08.2016
Tamanho98.66 Kb.




A psicanálise na clínica com bebês.1

Anna Costa Pinto Ribeiro Riani2



INTRODUÇÃO


Um pequeno bebê e um monte de profissionais.

Moreira; Braga; Morsch, 2003.

No fim do século XIX um médico neurologista chamado Sigmund Freud apresenta ao mundo uma nova vertente de saber sobre o homem que afirma a “existência da realidade psíquica e seu caráter genuinamente inconsciente” (Plastino,2001,p.14). Inaugura com isto um novo paradigma epistemológico de se pensar o ser humano e suas relações sociais.

Neste primeiro momento, fim do século XIX e meados do século XX, a psicanálise se estabelece como saber e prática eminentemente clínicos, sendo também a clínica o espaço de pesquisa, nesta época só se fazia psicanálise dentro do consultório.

No entanto, as mudanças recorrentes da sociedade nos avançados anos do século XX demandaram que os psicanalistas repensassem o espaço exclusivo da intervenção analítica, abrindo, assim, possibilidades de estender a intervenção de sua ética em hospitais, escolas, comunidades, enfim, nos diversos setores sociais sem que se perdesse com isso o rigor inerente ao trabalho da psicanálise.

O analista chega, então, a partir dessas mudanças de ponto de vista acerca do setting, a diversos novos locais de trabalho e pesquisa, sendo um deles ressaltado neste trabalho, a saber, a UTI Neonatal, demarcando a articulação possível entre a psicanálise e o bebê prematuro ou de risco.

A imagem de um bebê ao nascer traz consigo inúmeras sensações, algumas agradáveis e outras tantas não muito. Uma gestação é acompanhada de medos e alegrias, inseguranças e fantasias que perpassarão o universo simbólico da criança. Afinal, “a história de um indivíduo não começa com seu nascimento” (SALLES,1992,p.21), mas no imaginário daqueles que o aguardam.

É sabido que o bebê humano nasce inacabado, desamparado do ponto de vista fisiológico, necessitando de cuidados de um outro semelhante para que possa sobreviver, para que possa ter satisfeito sua fome, sede e demais demandas fisiológicas.

No entanto, não é só de fralda e leite que ele precisa, posto que está também mergulhado em um desamparo psíquico, ávido por palavras que o tirem dessa posição e por vínculos afetivos que sustentem sua constituição de sujeito.

Digamos, com isso, que todo bebê nasce prematuro do ponto de visto psíquico, desamparado, dependente, e que esta condição, chamada por Freud desamparo primordial (FREUD, 1950), é constitutiva do ser humano, pois o empurra para o amor na medida em que cria uma necessidade vital, qual seja, ser adotado afetivamente para que sobreviva.

A situação de adoção pode encontrar obstáculos quando se depara com uma prematuridade orgânica3, desfigurando dos pais suas fantasias de saúde, de primeiro banho, bochechas rosadas e redondas, pois o filho não irá imediatamente para casa, a alta hospitalar será somente da mãe.

Diante deste cenário, um parto prematuro pode colocar em risco não só a vida física do bebê, mas também suas primeiras marcas subjetivas, seus vínculos afetivos, sua capacidade de sedução frente aos pais para que estes o adotem, além de todo um descompasso, por parte dos pais, entre o que se sonhou com um filho imaginário e o que se passa com o filho do real.

A vivência da UTI Neonatal pode ser assustadora num primeiro momento, e talvez continue num segundo. Há uma incubadora que dificulta e até mesmo impossibilita o contato físico entre pais e bebê, há fios e barulhos muito íntimos à equipe e desconhecidos para a família que ingressa neste ambiente, há procedimentos de mínimo toque no bebê que nem sempre soam bem aos ouvidos daqueles que o tiveram por meses no próprio corpo, dentro do útero.

Por vezes as crianças permanecem por tão longas internações que nos momentos de alta hospitalar os pais não mais anseiam pelos filhos em casa temendo não serem capazes de cuidar de um ser tão pequenino, acreditando que o saber científico sobre o corpo prematuro possa ser capaz de suplantar o afeto parental.

O saber científico é de suma importância em casos de prematuridade, mas ainda não é exclusivo na escala de importância vital. O ser humano continua precisando de contato, de toque, de vínculo afetivo para se desenvolver física e psiquicamente.

A psicanálise encontra na clínica da prematuridade um espaço de trabalho nas possibilidades dadas pelos pais na reconstrução de um saber acerca do filho, nas possibilidades vindas da criança denunciadas pelo seu corpo, no espaço dado pela equipe em suas inquietações em torno da evolução do bebê ou da dinâmica familiar de cada paciente, enfim, há uma urgência subjetiva clamando por escuta na clínica com bebês prematuros.

Afirma Ansermet (2003):

A preeminência da clínica do olhar na medicina tem como contraponto na psicanálise o estabelecimento de uma clínica da escuta. Da medicina à psicanálise, o clínico passa do olho para o ouvido (ANSERMET,2003,p.9).


Nessa direção analítica é que se propõe o presente artigo, numa tentativa de iluminar teoricamente, a partir da revisão bibliográfica concernente à psicanálise, os passos práticos a que um analista deve seguir embasado num saber teórico. Não se trata, contudo, de um trabalho de campo por seu caráter eminentemente clínico, mas de uma compilação teórica que justifique e direcione a compreensão da postura do analista na clínica com bebês, sua aposta na emergência de um sujeito e no resgate do funcionamento pulsional da mãe outrora paralisado.

Apesar do caráter bibliográfico, faz-se importante ressaltar que há poucas obras específicas sobre o tema, sendo as existentes um tanto quanto recém-nascidas. É sabido que desde tempos anteriores o bebê desperta o olhar de teóricos da psicanálise, porém, os prematuros, as UTI’s Neonatais, os riscos psíquicos destas experiências estão ainda em fases especulatórias, sendo necessário para este relato se buscar argumentos em diferentes autores que discorrem sobre a clínica com o bebê, como Catherine Mathelin, François Ansermet, Julieta Jerusalisky, além das contribuições indispensáveis de Freud e Lacan, articulando-os no que cada um pode contribuir para sustentar dados momentos.

Mesmo não sendo um trabalho simples, qual seja, articular autores em seus mais singulares pensamentos, o desejo pela escrita de tal caso sobressai-se e surge a partir do fascínio frente a um ser tão pequeno, mas já capaz de fazer denúncia ao sintoma materno, apontando desde cedo sua intrínseca relação com um Outro4. A maneira como a psicanálise se deleita nas intervenções produzindo alternativas de posturas frente ao inesperado do nascimento prematuro aguça a vontade de tornar letra, neste escrito, uma experiência profissional de grande satisfação.

Trata-se, portanto, de um caso clínico no qual caminha-se na escuta do não dito pela mãe, mas que ganha ressonância no corpo do bebê e se apresenta como sintoma. Relata-se no caso os atendimentos a uma mãe e seu bebê prematuro em situação de pós-alta de UTI Neonatal, mas ainda em Unidade Intermediária, no Isolamento do setor da Pediatria.

O artigo propõe uma reflexão acerca das possibilidades de intervenção psicanalítica em mais um campo de saber e pesquisa, qual seja, a UTI Neonatal, no qual circulam angústias, medos, esperanças, enfim, circulam subjetividades emergentes e urgentes, à espera de uma escuta.

CASO CLÍNICO


O caso clínico a ser trabalhado caminha na direção da construção da maternidade e conseqüente emergência de um sujeito. Trata-se de um bebê nascido prematuro, com desnutrição gestacional, histórico de UTI Neonatal com várias intercorrências e que recebe alta desta Unidade quando estabilizado organicamente. Encontra-se no Isolamento da Unidade Intermediária por seu peso ainda estar baixo (considerado Pequeno para Idade Gestacional ao nascimento) e a notícia dos médicos é de que mãe e filho estão bem.

Essas são as informações que antecedem o primeiro contato entre analista, mãe, que será citada por R., e filho, identificado por E..

A analista bate à porta e abre lentamente como que pedindo licença com seu gesto para entrar no espaço físico e na relação que se passava ali no Isolamento. Muito retraída R. diz “oi” baixo o suficiente para que fosse possível somente ouvir sua linguagem labial, como se não houvesse voz no cumprimento. É seu olhar que para a analista, lido naquele momento como dizendo mais que sua verbalização, a autoriza a entrar no quarto.

O berço está mais próximo da porta que R., o que facilita que se observe a criança dormindo, aparentemente tranqüila, mas fazendo uso de Sonda Nasogátrica (SNG)5, o que nada causou de imediato visto a freqüência com que as criança em pós-alta da UTI Neonatal ainda necessitam deste recurso para alimentação antes que aprendam a sugar.

Analista e mãe iniciam um diálogo que por alguns dias, ou melhor, por cerca de quatro semanas se desenrolou como um monólogo. Para todas as convocações da analista, questionamentos de qualquer espécie, a resposta de R. se resumia a “tá tudo bem”. Assim também se mantiveram os médicos por algum tempo.

Notava-se, a cada encontro, que E. parecia não existir não fosse pela presença física, materializada no berço, sempre dormindo, sem apresentar nenhuma manifestação de incômodo, desconforto ou satisfação. Continuava com a Sonda Nasogástrica e não mostrava alterações que justificassem iniciar uma atividade de sucção na “chuquinha” ou aleitamento materno. E. cumpria o que o determinou a ter alta da UTI Neonatal, mantinha-se estável organicamente, não melhorava nem piorava.

R., por sua vez, coloca em questão à analista sua condição de existência também, mas sua existência subjetiva, visto que somente entrava em cena quando chamada pelo nome.

Certa vez, ainda no Isolamento, a analista questiona à mãe o que sabia sobre o filho, uma vez que dela demonstra saber quase nada, ou querer saber. A aposta da analista em focar a criança foi fundamental para o desenrolar do processo.

R. diz que o filho nasceu “antes da hora”, que estava na UTI Neonatal - cujo nome do hospital ela não consegue falar, não sabe ao certo, mantém-se num lugar de pedir aprovação para o que está dizendo – e que depois tinha “ido pra lá”. Questionada sobre a Sonda Nasogástrica responde que “ele não sabe sugar”.

Pouca coisa a mais ela diz, seu olhar e sua respiração se alteram, como alguém angustiada, e R. joga para a analista algumas falas que iam para além daquela cena, e que precisavam ser denunciadas pelo SUJEITO R., mas a seu modo.

Conta que à noite quem fica com E. é sua sogra para que ela descanse:

- Minha sogra sabe cuidar de bebê porque já teve filho e acho melhor ela ficar, eu prefiro, ela sabe cuidar.

Continua sua fala dizendo que lava as roupas do filho quando está em casa, é o que ela pode fazer por ele. Sobre a dieta na sonda é de responsabilidade do setor de enfermagem, que sabe mais que ela:

- A enfermeira tá dando a dieta na sonda porque eu não sei fazer, tenho medo de jogar leite pro pulmão e sufocar6. O médico disse que pode acontecer.

Questionada sobre sua família, sua mãe, irmãos, enfim, o porquê da sogra aparecer todas as noites, R. conta que é de fora da cidade, assim como seus parentes e que, portanto, morava na casa do namorado com ele e a sogra desde a notícia da gravidez.

Ao ouvir tais colocações a analista pontua uma questão:

- Como está sendo para você ser mãe de E. ?

R. se espanta, seu olhar se perde, seu corpo responde como um momento de vácuo, de ausência. Recuperada, ou organicamente estável novamente, responde não saber, prefere deixar quem sabe cuidar.

Ainda inquieta R. volta a seu silêncio e a analista deixa o quarto com uma direção: R. precisava reconhecer-se mãe para que E. pudesse emergir enquanto sujeito.

Alguns atendimentos se passaram e R. continua passiva, capturada pelo saber da sogra no cuidar, pela enfermagem no alimentar. A analista há tempos vem percebendo que E. se mantém passivo como a mãe, sem melhora em seu quadro clínico, ou seja, não há justificativa orgânica para que a sucção de E. não progrida, seu aparato orgânico – como os médicos se referem – é suficientemente capaz de fazê-lo melhorar.

Começa, então, um movimento do resto da equipe de se inquietar frente à passividade da mãe e da criança, o olhar de que tudo está bem não faz mais sentido àquele espaço físico. Para a analista, que presenciou o desajuste de R. no dia em que pôde falar um pouco de sua experiência, não poderia funcionar de forma mais ajustada essa efervescência de inconscientes para que efetivamente algo pudesse se operar naquele Isolamento.

Por decisão da equipe R. e E. saem do Isolamento e se juntam às outras mães e bebês da Enfermaria da Unidade Intermediária. A alegação é de que não há risco ou necessidade de cuidados mais diretos provenientes de E., o que não justifica a estadia naquele quarto. Em meio a outras mães apostou-se que R. pudesse se comunicar mais e que E. reagisse, mas isso foi um equívoco.

Porém, de que vive a psicanálise e o analista se não de equívocos?

R. se retraiu mais frente a tantas outras pessoas que cuidavam de seus filhos e raramente deixavam a Enfermaria para descansar.

Percebendo o que se passava a analista investiu na direção de retomar as impressões de R. acerca do filho, como antes, convocando a mãe a falar sobre E., como o via, como o percebia, o que ela entendia das reivindicações do filho (que era quase nada, ele pouco chorava ou pouco se mostrava satisfeito).

Aliado a este movimento com a mãe a analista se volta ao bebê e estabelece com ele uma comunicação, emprestando sua voz pra que ele fale algo, traduzindo suas expressões, nomeando aquele ser.

E. começa a responder, a se colocar, franze a testa com o incômodo da voz da analista que devolve dizendo em manhês7:

- Eu tô incomodado com essa pessoa falando comigo, eu não quero ouvir, me deixa quieto aqui...

A analista adotou a postura de primeiro falar com E., perguntando-lhe como ele estava para só depois ir junto à mãe, que se espantava com a conversa presenciada entre os dois.

Certo dia R. está diferente, mais agitada, de pé na enfermaria, com o olhar pensativo, não mais perdido, e ao ver a analista na porta vai ao seu encontro e sem demora começa a falar:

- Você acredita que uma enfermeira veio me dizer que eu sou uma mãe desnaturada, que mãe de verdade não larga o filho no hospital pra outra pessoa cuidar!

A partir dessa fala R. começa a tecer sua história dizendo estar com 18 anos e que passara sua adolescência com corpo de menina, nem mesmo tinha seios. Sua primeira menstruação fora aos 16 anos e sua segunda aos 18, tendo engravidado de seu namorado logo depois, com quem estava há 8 meses. Não sabia que era possível engravidar tendo tido apenas duas menstruações e corpo de menina, sendo que este ponto, o corpo de menina, se fazia ouvir de outro lugar pela analista, qual seja, um assujeitamento, uma posição ainda infantil frente aos seus desejos, uma impossibilidade de ser mãe, visto que só poderia se manter no lugar de filha.

Enfim, uma menina precisava crescer, uma subjetividade precisava emergir, era preciso construir a marca mãe nos registros de R..

Foi aos poucos, falando de si, perguntando aos médicos e à equipe sobre o filho, conversando com as outras mães da Enfermaria, ouvindo o que E. expressava, tentando pegá-lo no colo que R. pôde recusar a ajuda da sogra e permanecer durante a noite no hospital.

E., por sua vez, foi aos poucos acordando, passando mais tempo do dia em vigília, agitando seu corpo, ficando atento às comunicações em sua direção sem franzir a testa a todas, principalmente à voz de sua mãe, enfim, tendo condições de trabalhar a sucção até sua alta, ou de ambos, mãe e filho.

Três dias após a alta a analista cruza com R. nos corredores da Pediatria do Hospital. Sem nada perguntar ouve claramente a voz da mãe, bem diferente do primeiro encontro, que justifica a presença deles ali. E. estava vomitando sangue, fato não ocorrido em quase 40 dias de internação.

Com o filho no colo, na posição de pé, com os peitos se encostando como no Método Mãe-Canguru, R. segurava confortavelmente E., que parecia extasiado com o olhar da mãe. Esta, por sua vez, não poupava em lhe dizer com os olhos o que sentia naquele momento.

Recuada, observando, a analista percebe que a maternagem estava se cumprindo, mesmo no silêncio havia comunicação entre eles, a mais íntima que pode existir entre dois cúmplices, entre mãe e filho.

Os dois são novamente internados e E. recebe o diagnóstico de um mau funcionamento do Piloro8, cuja correção é cirúrgica. Não mais na Enfermaria de Recém-nascido, a díade novamente é escutada pela analista que questiona como R. está vivendo aquela situação:

- Agora somos só nos dois e o pai dele. A minha sogra disse que ele está assim porque eu não sei ser mãe.

A analista questiona como é ouvir isso. A resposta de R. possibilita que essa etapa do trabalho analítico se encerre:

- Sabendo ou não, sou EU A MÃE DELE!

O LUGAR DO ANALISTA NA CLÍNICA COM BEBÊS
Na cena clínica tomamos o bebê como enigma e sua produção como uma apresentação do texto hieroglífico que dá a ver de modo enigmático a marca que o discurso do Outro escreveu como letra em sua carne”.

Julieta Jerusalinsky,2002 p.193.


Para começarmos a situar a clínica da psicanálise com bebês, necessário se faz uma apreciação acerca do nome que ela recebe. Muitas críticas surgem pelo fato da psicanálise trabalhar com a fala, e sendo o bebê ainda não falante esta prática seria inapropriada, ele não seria capaz de associações livres, transferência ou ser tocado por uma interpretação.

Porém, a psicanálise não é só da fala, é também da escuta e é nesse sentido que a clínica com bebês se faz possível. Na clínica com crianças escutamos, ou melhor, lemos seus desenhos e brincadeiras, com adultos estamos na captura dos escritos do inconsciente que se apresentam na fala e com o bebê trabalhamos na leitura das inscrições do Outro em seu corpo, este sendo o campo da escuta analítica nesta clínica peculiar.

François Dolto coloca que os bebês não têm “linguagem verbal para se exprimirem, mas têm uma linguagem, pois sem isso não se pode fazer psicanálise com crianças” (citada por TEPERMAN, 2005, p.39).

Admitimos, então, haver uma clínica psicanalítica com bebês, mas talvez não seja possível admitir que haja psicanalistas de bebê, com formação diferenciada e exclusiva, posto que se assim fosse os teríamos para tantos outros lugares nos quais este saber é possível.

Miriam Szejer (1999) alerta para isso:

Na verdade, existem tão-somente psicanalistas. Se somos psicanalistas é, antes de mais nada, porque alguns sujeitos na sua dor nos convocam a sê-lo, antes de qualquer referência a Freud e a seus sucessores... O que não muda é este princípio ético primeiro que é o pivô da ação de um psicanalista: todo ser humano é um ser de desejo, seja qual for sua idade (Citada por TEPPERMAN, 2005, p.47).

O caso clínico do presente artigo mostra esta posição de convocação de um sujeito que sofre, aliás, dois sujeitos, posto que o bebê também sofre e sua dor precisa ser escutada para que pudesse emergir enquanto sujeito. Trata-se, no caso, de um serviço de neonatologia, no qual os psicanalistas são chamados cada vez mais a trabalhar.

Inicialmente pode-se pensar que o psicanalista neste tipo de serviço estaria para tranqüilizar ou suprimir o sofrimento dos pais, equipe e até do bebê. Outra possibilidade seria a de que os “psis” teriam por objetivo a manutenção a todo custo do vínculo mãe-filho e a reparação dos danos causados pela internação na UTIN.

No entanto, esclarece Catherine Mathelin (1999):

... a orientação do trabalho em neonatologia mostra ser para nós diferente. A função do serviço de reanimação não seria mais apenas, ao tornar o bebê viável, restaurar o “quadro da maternidade”, mas devolver um filho vivo a uma mãe que poderia acolhê-lo como enfim separado dela. Para isso é preciso que o traumatismo do nascimento possa simbolizar-se, que possa inscrever-se (MATHELIN,1999,p.71).

A autora não parece negar a questão do vínculo em suas colocações, posto que é sabido de sua importância para a constituição do bebê, mas que, contudo, devemos considerar, a partir do corte epistemológico que a psicanálise introduz, como um trabalho analítico a ser feito na direção da possibilidade de que seja exercida uma função materna, e esta sim alicerçar as operações constitutivas do sujeito, quais sejam, o estabelecimento da demanda, a suposição do sujeito, a alternância e alteridade.9

No primeiro encontro entre analista e mãe houve uma comunicação quase inexistente, mas que precisou ser compreendida de algum lugar, afinal a postura inexpressiva de R. denunciava algo de um sujeito. “... Antes de tudo, a psicanálise é uma clínica do sujeito, de um sujeito que não pode se perceber como tal” (ANSERMET, 2003,p.9), e para se trabalhar como analista é preciso que se encarne uma posição de suposto saber acerca da existência do inconsciente.

Foi preciso, neste primeiro momento, respeitar o silêncio da mãe frente o que nos ensina novamente Ansermet (2003), que num tempo de excesso de realidade a fala não caminha para a “liberdade significante (p.67)”, isso sendo possível num depois, num reconstruir da história retomando o que outrora ficara congelado. Ou seja, não faria muito efeito pontuar o silêncio de R., ele estava sendo necessário para ela.

Tal qual R. o filho mantinha-se quase imóvel, passivo, sem melhora, nem piora, ou seja, sem inscrever-se. Na clínica com bebês, como já colocado, é preciso ler suas produções, pois essas apontam, ainda que de forma cifrada, o modo pelo qual o filho está situado na constituição psíquica do Outro, como “as marcas significantes efetuadas no corpo (...) inscrevem o mapeamento de seus circuitos pulsionais (JERUSALINSKY,2002.p.145)”.

A intervenção nesta clínica se faz no entremeio do estabelecimento dos circuitos pulsionais do bebê e o circuito de desejo e demanda provindo do Outro, nessa dupla fratura o analista funciona entre a fala parental, o que dela faz inscrição para o infans e o que é denunciado pelo corpo.

No entanto, R. demonstrava um assujeitamento, estando perdida em seu próprio circuito de desejo e demanda. O trabalho com ela apontava para um corte em sua alienação com Outros, como a sogra e a enfermeira, convocando-a enquanto sujeito desejante, situando-a em sua função materna.

Esbarra-se, neste trabalho com a mãe, numa questão muito específica da prematuridade, qual seja, uma impossibilidade de investimento libidinal em uma criança que em nada sequer assemelha-se ao filho imaginário, esbarra-se na dificuldade de um filho magro, pequeno, frágil e “perigoso”, visto os riscos de sua condição orgânica, ser criador de uma mãe. Função também do analista possibilitar um espaço para que algo do bebê capturasse a mãe e esta se autorizasse a estar neste lugar.

Esses apontamentos somente são possíveis quando a escuta é privilegiada, e nesta direção coloca Mathelin (1999):

... Trata-se essencialmente de abrir um espaço onde um certo tipo de fala e de escuta seja possível. O lugar do analista, cada vez diferente, deve ser recriado dia após dia. Deverá permanecer flutuante e maleável (MATHELIN,1999,p. 89).

Neste sentido alguns recortes do caso assumem especial valia, como o atendimento em que R., pela primeira vez, fala algo de si, de sua sogra que dorme com E., da enfermeira e a Sonda Nasogástrica, do corpo de menina e a intervenção pontual da analista ao questionar como era a experiência de ser mãe.

“A intervenção analítica, espécie de agulha espetada no palheiro humano, pode desfazer os projetos repetitivos de um destino imposto”(ANSERMET,2003,p.102). O desconcerto, o desconforto, a inquietude tomam conta da cena, o que propicia para R. construção e para a analista uma aposta na inscrição da maternidade e da feminilidade neste sujeito.

Mesmo supondo a existência do inconsciente foi claro que, a partir deste momento breve e fugaz de sua irrupção, os demais entraram nesta outra cena e começaram a se incomodar com a postura de R. diante da situação, até que uma enfermeira a questiona acerca de sua posição de mãe, a convocando pelo significante desnaturada.

Esta fala marca o percurso analítico de R. como um momento surpresa, cujo endereçamento se dá a partir de um lugar no qual o outro não espera, evidenciando o ponto em que o sujeito é desalojado.

Aliado a este momento surpresa havia um investimento por parte da analista em falicizar E., como se colocando no lugar da mãe para o bebê, posição esta sustentada pela transferência. Se é no corpo do bebê que a fantasia materna, ou seu sintoma, se faz representar, não há trabalho possível com a segregação mãe-bebê, ou seja, o trabalho é dinâmico, é com mãe e bebê, um interferindo no outro.

Percebendo, então, que pouco afetava a criança a analista empresta sua voz para ele, traduzindo o que no corpo é possível ser lido:

E. começa a responder, a se colocar, franze a testa com o incômodo da voz da analista que devolve dizendo em manhês10:

- Eu tô incomodado com essa pessoa falando comigo, eu não quero ouvir, me deixa quieto aqui....

Emerson Merhy (2005) aponta que “pedir emprestado o olhar do outro para o seu olhar é o método, o resto são ferramentas (MERHY,2005,p.195). Este foi o caminho analítico, pedir a E. a licença para que pudesse traduzi-lo ao mundo, numa tentativa de que a mãe, observando a maternagem realizada naqueles momentos, pudesse encarnar o Outro para o filho e fazer o papel inverso também, traduzir o mundo para o E., enchê-lo de marcas significantes, de linguagem, de palavra.

Recortando mais um pequeno trecho do caso:

A analista adotou a postura de primeiro falar com E., perguntando-lhe como ele estava para só depois ir junto à mãe, que se espantava com a conversa presenciada entre os dois.

Convocar o bebê para que ele diga o que se passa é supor nele um sujeito, é repuxar sua corda pulsional para que possa, então, enlaçá-la no campo do Outro.

R., a seu tempo, foi se envolvendo com E., olhando o filho, ensaiando algumas conversas, perguntando coisas à equipe de neonatologia, segurando o bebê no colo. Os atendimentos foram se tornando mais de escuta para a analista e de produção da mãe e filho, que muito tinham a falar, cada qual à sua maneira, reconstruindo, ou construindo suas histórias, como citação de Ansermet (2003) no início do texto. A análise tinha caminhado na direção do encontro entre sujeitos e desejos.

Quando a díade retorna para novamente ser internada, a posição da analista é a de observar a troca de olhares que acontece entre mãe e filho, como que ouvindo com os olhos a função materna operando, que constituía subjetivamente o bebê.

A observação analítica, coloca Kossmann e Lang (1997), vai além de observar a dupla mãe-bebê, o observador analista “participa intimamente do processo e está incluído dentro do campo de observação”(p.2), escuta o que lhe passa internamente e supõe um saber na ressonância que obtém disto, ou seja, estabelece relação entre inconscientes que lhe permite perceber os aspectos envolvidos na dupla.

Retomando o caso clínico, da observação surge uma demanda materna direcionada à analista, com uma fala acerca do que se passava entre R. e E. depois do percurso analítico construído, marcando seus efeitos e encerrando aquele trabalho:

- Agora somos só nos dois e o pai dele. A minha sogra disse que ele está assim porque eu não sei ser mãe.

A analista questiona como é ouvir isso. A resposta de R. possibilita que o trabalho analítico se encerre:

- Sabendo ou não, sou EU A MÃE DELE!

Neste dado momento o lugar da psicanálise na clínica com bebês vai ao encontro de todos os outros lugares em que a ética da intervenção analítica pode ser estendida, qual seja, oferecer uma escuta que permita ao sujeito colocar em palavras seu sofrimento, entrando na dimensão da significação, buscando uma representação simbólica para ele.

E como bem diz Quinet (1999):

A Psicanálise, que oferece um tratamento pela via do desejo, torna possível para o sujeito trilhar o caminho que parte da dor de existir e vai em direção à alegria de viver (citado por CATÃO,s.d., p.2).


O SINTOMA NO E DO BEBÊ: A EMERGÊNCIA DE UM SUJEITO



Sempre há uma resposta do sujeito para o real de seu organismo. Isso caracteriza a dimensão subjetiva, mais além de qualquer determinismo biológico ou patológico.

François Ansermet,2003,p.68.

Discutiremos agora, o que se passa com um bebê em sua constituição psíquica, em sua emergência enquanto sujeito desejante, tendo como norteador o caso clínico e suas implicações analíticas referentes ao sintoma no e do bebê.

Para tanto é preciso que exploremos o que venha a ser sujeito para a psicanálise, posto que não basta que uma criança nasça para que seja assim encarada por esse saber, não basta um corpo biológico nem mesmo um indivíduo nomeado. Sujeito é algo construído, constituído no campo do Outro, da linguagem, da palavra que antecede o nascimento e que é tomada pela criança, apropriada por ela pela operação da alienação.

(...) o sujeito só é sujeito por seu assujeitamento ao campo do Outro, o sujeito provém de seu assujeitamento sincrônico a esse campo do Outro (LACAN, 1964 p.178).

A alienação, esse assujeitamento, permite à criança se inserir no mundo, como se a trama de relações a que o bebê está submetido dessem a ele um lugar, dissesse a ele sua posição, ou seja, as relações permeadas de palavras, atos, gestos, inscrevem a criança na cadeia de significantes. “É a partir da linguagem – a partir da função de comunicação, como diz Freud – que se estabelecem seus circuitos pulsionais” (JERUSALINSKY,2002,p.57).

A mãe (função materna) desempenha neste primeiro momento da vida de um bebê esta posição de Outro, quando traduz o choro como vontade de mamar ou dor de barriga, quando traduz por medo de algo o Reflexo de Moro, enfim, a mãe põe sentido nas reações até então involuntárias do filho, transformando um alarido em demanda.

Outro momento de grande importância na constituição do sujeito é a inscrição do desejo que, partindo do desamparo primordial, a mãe oferece uma ação específica que satisfaça o incômodo do bebê, propiciando a primeira experiência de satisfação11 e instaurando uma condição na criança de para sempre se movimentar na busca de retornar à situação de satisfação original.

Jerusalinsky claramente sintetiza:

A mãe articula a demanda do bebê ao seu saber inconsciente, à sua rede significante, atribui à ação do bebê um sentido, a partir do qual realiza a oferta de uma ação específica. Mas, neste movimento de articulação da pulsão pela demanda, também se abre a dimensão do desejo, pois a pulsão não fica toda articulada na demanda, o desejo sempre escapa, sempre insiste na busca da realização do que ficou inscrito como satisfação (JERUSALINSKY, 2002,p. 138).

No caso clínico podemos dizer que algo não se opera nesse circuito desejo-demanda, não há por parte da mãe um investimento suficiente no filho capaz de supô-lo sujeito, não há comunicação por troca de palavras entre eles, a linguagem é silenciosa e passiva, o que faz com que E. responda de um lugar silencioso e passivo.

Não se questiona aqui a compreensão ou não por parte do bebê das palavras proferidas, não é do cognitivo que se trata quando se dá importância à linguagem, ao simbólico, á algo para além disso.

Nesse sentido coloca Mathelin:

Ë este endereçamento ao outro, capturado na linguagem, que nos parece estar, para além das palavras, operando para a criança. A questão de saber se a criança compreende o sentido dessas palavras nos parece, com efeito, menos essencial (MATHELIN,1999,p.44).

É fato que há uma fratura no circuito pulsional de E., não lhe é remetido nenhum tipo de demanda, assim como também não lhe é recepcionado demanda alguma, e aí podemos levantar duas hipóteses, quais sejam, a de que não se supõe que E. seja capaz de responder, de ser sujeito, de desejar, e outra de se supor que E. não seja capaz de realizar o que se lhe apresenta.

No entanto, é sabido, e minimamente explorado no segundo capítulo, que em bebês pequenos os sintomas precipitam-se em seus corpos apesar de se sustentarem no inconsciente materno, o que possibilita que pensemos na fratura do circuito pulsional como uma fratura da função materna, ou seja, no desarranjo pulsional de R. (Outro) se inscrevendo no mapeamento pulsional de E..

Tal colocação aponta para a necessidade de ler a passividade e o silêncio de E. a partir do discurso de R., este sendo o caminho analítico para se perceber as marcas do discurso do Outro no modo de constituição do bebê em seus aspectos de demanda, desejo e suposição de sujeito, mesmo que seja um discurso carente de palavras.

É preciso neste momento ressaltar a posição do analista frente ao diagnóstico médico de que E. e R. estavam bem, com o bebê organicamente estável. Em psicanálise, na clínica com bebês e principalmente com prematuros, “não é o diagnóstico médico que determina a direção do tratamento” (TEPERMAN,2005,p.60), mas a leitura subjetiva que se dá a partir da escuta de cada caso.

Elsa Coriat (2007) acrescenta:

... mesmo que exista um diagnóstico que situa um corpo comprometido, a estruturação subjetiva ocorre a partir do lugar simbólico que é outorgado ao orgânico (citada por TEPERMAN,2005,p.40).

Essas assertivas reforçam que para a psicanálise o corpo não é meramente uma máquina, ele é “marcado pela linguagem... é mais que um conjunto de órgãos com funções que regem a vida” (BARBOSA,2005,p.39).

Assim, ficar restrito ao que é dito por mãe e equipe frente ao que se passa com o orgânico do bebê configurara ao analista o status de negligente em seu lugar de suposto saber acerca do inconsciente, posto que “em psicanálise, trata-se de levar em conta o que permanece escondido, sem se deixar iludir pelo que é manifesto”(ANSERMET,2003,p.9). É preciso, então, intervir como dobradiça12, articulando a superfície corporal do bebê e a superfície significante do Outro, amarrar o circuito pulsional de R. ao de E..

Para isso, é preciso entender o sintoma que E. traz consigo, lê-lo para além da nosografia de patologias, escutá-lo a partir do que o bebê é capaz de dizer a respeito de si, sabendo que este pequeno ser é ainda incapaz de produzir associações livres, atos falhos, chistes ou colocar em cena o brincar simbólico.

Ciente que o sintoma no bebê ainda não é por ele produzido enquanto sujeito, enquanto alguém capaz de sustentar a representação de uma metáfora, o caminho para a saída desse mergulho no caos pulsional materno é convocar E. para a posição de sujeito, instaurar-lhe demandas, questioná-lo sobre si e dar-lhe tempo de resposta.

A postura da analista, sustentada pela transferência, de se colocar na posição de maternagem para E. ancora-se na certeza de que “uma falha no suporte simbólico da organização do circuito pulsional do bebê...perturba o funcionamento das funções orgânicas”(JERUSALINSKY,2002,p.186).

Com esta nova atitude da analista para com E., este vai aos poucos mostrando sua existência através de sinais como franzir a testa quando uma fala a ele é endereçada, agitar o corpo dando a entender que gostaria de ficar quieto, ou seja, aos poucos sai de seu lugar silencioso e carente de investimento passando à postura de suposto sujeito.

A aposta pela comunicação em “manhês”, imitando o ritmo da voz materna, ressaltando aqui que o manhês é mais que ato isolado de comunicação vocal, mas um conjunto complexo onde estão presentes o olhar, o toque, o cheiro (LAZNIK; Oliveira, 2006), configura-se como estratégia primordial para que E. saia da condição passiva que se encontra diante do rosto impassível da mãe, posto que é interessante aos bebês este tipo de entonação, carregada de afeto e investimento libidinal, possibilitando trocas entre mãe e filho.

A respeito da necessidade deste contato entre função materna e bebê para a constituição psíquica deste último coloca Mathelin (1999):

Para que a criança “seja”, parece-nos com efeito que ela deva estar presa em múltiplas redes de “atenção” a seu respeito. Um certo tipo de comunicação, um modo de tocá-la, de responder a seu olhar, de endereçar-se a ela, enquanto humano endereçando-se a outro humano, habitado por seus afetos, pensamentos, desejos. É esse endereçamento ao outro, capturado na linguagem, que nos parece estar, para além das palavras, operando para a criança (MATHELIN, 1999,p. 44).

Percebe-se no caso clínico que a analista direciona seu olhar à demanda vinda do bebê, como que endereçando a ele uma convocação, qual seja, a de que ele pudesse ser capaz de seduzir e capturar R. na posição de mãe. O caminho neste caso é o inverso do que socialmente é esperado, um filho não precisa ser adotado para se inscrever neste lugar, ele precisa estar neste lugar para que sua mãe possa assumir-se enfim.

O trabalho analítico caminha na busca de um espaço no qual R. possa tocar seu bebê, banhá-lo com sua libido e envolvê-lo em seus carinhos, elevando o corpo de E. da categoria biológica para a de corpo erógeno (VILELA,1992,p.85), posto que a catexia da mãe se mostra como a principal aquisição psíquica dessa fase da criança.

De fato o filho conquista sua mãe e a coloca neste lugar de Outro, ficando isto evidenciado no caso clínico na passagem em que E. não mais franze a testa quando ouve a voz da mãe lhe endereçando uma fala, ou quando, ao final do caso, junta-se ao peito de R. e mergulha em seu olhar, como que se alimentando do simbólico materno, da maternagem.

Alimentar-se de simbólico quer dizer alimentar-se de afetos, de toques, de aconchego e de olhares que podem ser capturados como mensagem e traduzidos por segurança, conforto e bem-querer. O olhar diz isso sem palavras.

Winnicott é pertinente ser citado neste momento ao teorizar acerca do que se passa nessa relação que alimenta o bebê simbolicamente:

O que vê o bebê quando olha para o rosto da mãe? Sugiro que, normalmente, o que se vê é ele mesmo. Em outros termos, a mãe está olhando para o bebê e aquilo com que ela se parece se acha relacionado como que ela vê ali (WINNICOTT, 1975,p.154).

Não há, portanto, mais silêncio para ser lido como sintoma, a fratura do circuito pulsional já não causa mais tanto sofrimento, haja vista que a Sonda Nasogástrica não mais é necessária, o corpo não mais denuncia um “curto-circuito” da rede de demanda e desejo. Enfim, E. pode caminhar pela alienação rumo à metáfora paterna, à separação (LACAN,1964), operação que, entretanto, não cabe ser discutida no presente trabalho.


SER MÃE: UM HIATO ENTRE MENINA E MULHER



Dissipei dos teus olhos a nuvem que os cobria, a fim de que distingas bem um deus de um homem....

Homero, A Ilíada, canto V


Abordaremos neste momento, o que foi o percurso de R. em sua construção analítica frente a um hiato, qual seja, o de ser mãe sem ainda ter se reconhecido como não mais filha, como não mais menina. Para tal é importante que pensemos na assertiva popular que “quando nasce uma criança nasce também uma mãe”, visto que o caso clínico desenvolvido neste trabalho aponta na direção oposta, na construção da maternidade e da maternagem e não em um lugar conseqüente, ou seja, determinado pela relação direta entre causa e efeito.

Socialmente, e isto pode ser reafirmado pela assertiva popular colocada, espera-se que toda mulher que acaba de ter um filho se torne uma mãe com todos os estereótipos que este nome carrega como disponível, atenciosa, meiga, carinhosa, enfim, que cumpra sua função materna.

À Psicanálise não importam muito as máscaras sociais, visto que o que está em jogo é a dimensão significante que a gravidez traz e o que disto está sendo traduzido em experiência para e pelo sujeito.

Salles (1992) coloca que “antes de uma criança nascer, existe na fantasia da mulher uma criança irreal, uma lenda que a menina elabora desde a infância” (SALLES,1992,p. 21), idéias estas que vão ao encontro dos pensamentos de Estrada (1998) de que a maternidade, momento delicado para uma mulher, é fase de atribuir um novo sentido à própria infância, aos relacionamentos parentais em especial com a mãe.

A gravidez denuncia mais que rompimento da posição de filha, mais que um refazimento de posições familiares, ela traz consigo o significante renúncia. Fisicamente a renúncia é ao corpo de menina, em primeira instância, e ao corpo de grávida num segundo tempo. Psiquicamente a renúncia é do imaginário tal como construiu o filho idealizado, onipotente, capaz de realizar tudo aquilo a que os pais não alcançaram, posto que não há consonância entre o bebê da fantasia parental e o filho nascido, principalmente quando o nascimento se dá de forma prematura, como no caso clínico.

No entanto, as imagens em torno do filho ainda na fase de gestação são importantes para que ele se inscreva na cena familiar no ponto de desejo dos pais. “Todo indivíduo faz parte de um mito familiar onde desempenha um papel que lhe é conferido pelos pais, mesmo antes do nascimento, e que o constituirá como sujeito” (SALLES,1992,p.22). Esse exercício psíquico faz investir no filho um quantum de libido narcísica de suma importância para seu desenvolvimento físico e psíquico.

Piera Aulagnier (citada por SALLES,1992) acrescenta:

... durante a gestação, temos de uma lado, no nível biológico, este lento processo que transforma a célula em ser humano, mas, paralelamente, no plano da relação de objeto, esta célula, desde o início, é representada pelo ‘corpo imaginado’ que acompanha e precede a criança. (...) é sobre esta imagem, o suporte imaginário do embrião, que se inclina a libido materna (citada por SALLES,1992,p.23).

Essa capacidade de fazer imagem do filho antecipa para ele uma mínima inscrição de sua unidade corporal, ao mesmo tempo em que reafirma para a mãe a integridade de seu próprio corpo, capaz de gerar filhos perfeitos.

Recortemos do caso clínico o momento em que R. expõe sua relação com seu corpo, dizendo da falta de saber acerca de sua possibilidade de engravidar, visto que se enxerga com corpo de menina. Soma-se a esse descompasso o fato do filho ter nascido prematuro, Pequeno para a Idade Gestacional (PIG), necessitando de intervenções médicas de urgência e de internação em UTI Neonatal.

Diante disto, a maternidade pode significar um fardo para R., além de apontar para uma “ferida narcísica diante da realidade do recém-nascido e diante de sua própria imagem como mulher e mãe”(MORAIS; BUCEK,1992,p.80), sentimentos estes traduzidos em seu silêncios, passividades e falas acerca de sua impotência e incapacidade em cuidar de E..

Às mães é esperado que se movimentem de maneira regressiva enquanto grávidas a fim de favorecer uma adaptação de seus psiquismos ao bebê logo após o nascimento, tornando-as capaz de estabelecer uma comunicação não verbal com seus filhos.

Não se espera com isso que elas voltem a ser crianças, ou se comportem de maneira dependente como um bebê o é, mas que possam endereçar aos pequenos palavras em manhês, escutar o choro como se fosse ela a sentir o incômodo, enfim, regredir a ponto de conseguirem um estado fusional que as permita momentaneamente se colocar no lugar do filho.

No entanto, essa regressão pode se dar em um psiquismo ainda carente de inscrições que flexibilize a mãe ir ao encontro do bebê e retornar à sua posição de mulher, mergulhando-a numa situação de dependência, tal qual o filho, outorgando os cuidados deste a um terceiro.

R. parece funcionar desta forma, regredida, dependente, paralisada diante da convocação do lugar de mãe, sendo preciso resgatá-la da posição de menina e possibilitar a construção de um outro registro simbólico a fim de que seu circuito pulsional a autorize à maternidade e à ruptura alienante com um Outro, personificado pela sogra e enfermeira.

Investida em si mesma, não sendo capaz de operar o esvaziamento narcísico no pós-gravidez e reinvesti-lo maciçamente no bebê, dando-lhe reconhecimento, lugar, palavras, poder-se-ia supor, como acontece na fase em que a mãe vive o enlutamento pelo filho imaginário, que em algum momento o bebê capture, ainda que por um mínimo instante, o olhar da mãe, seduzindo-a para este lugar.

No entanto, pergunta Catherine Mathelin (1999):

Como sentir-se mãe desse bebê que não dá sinal, que não mama no seio, que não olha, que, não sendo em momento algum tranqüilizante, não fabrica mãe? (MATHELIN,1999,p.67)

Ao filho prematuro é difícil vir ao socorro de sua mãe, ele mesmo está a pedir socorro e muitas vezes impedido pela equipe da UTI Neonatal, devido à sua frágil saúde, de estabelecer contato com sua genitora. “O bebê deixa sua mãe sozinha diante de sua angústia. Ele falta ao encontro da reparação” (MATHELIN, 1999,p.67).

Entretanto, há um detalhe que faz de E. um bebê diferente da colocação de Catherine Mathelin (1999), qual seja, ele não mais está na incubadora, não mais se encontra nos cuidados intensivos da UTI Neonatal, apesar de ainda internado em Unidade Intermediária devido a seu baixo peso. A notícia médica é de uma saúde estável, sem riscos, salvo sua incapacidade de sugar.

Há, então, um espaço de aposta analítica no sentido de trabalhando na convocação do sujeito bebê, este ser capaz de trabalhar na convocação do sujeito mãe.

Para trabalhar em relação com seu bebê, será preciso ajudar a mãe, num primeiro momento tempo, a se sentir valorizada por aquele filho, a pensar que ele vive graças a ela, que ela o empurrou para a vida e, num segundo tempo, a descola-se dele (...) Quase sempre os bebês sabem trazer as mães para eles (MATHELIN,1999,p.1464).

Atrelado ao movimento de fazer o bebê conduzir o enlace pulsional, tem-se que ressaltar um tempo na condução do atendimento em que a analista coloca um momento surpresa para R.:

Questionada sobre sua família, sua mãe, irmãos, enfim, o por que da sogra aparecer todas as noites R. conta que é de fora da cidade, assim como seus parentes e que, portanto, morava na casa do namorado com ele e a sogra desde a notícia da gravidez.

Ao ouvir tais colocações a analista pontua uma questão:

- Como está sendo para você ser mãe de E ?

R. se espanta, seu olhar se perde, seu corpo responde como um momento de vácuo, de ausência. Recuperada, ou organicamente estável novamente, responde não saber, prefere deixar quem sabe cuidar.

A pergunta desaloja o sujeito, convocando-a a partir de um lugar em que R. não espera, trazendo um elemento novo para ela, nomeando-a a partir de um significante falho para uma até então menina. “Trata-se então de convocar um saber que não apenas saiba sobre o futuro, mas que também se supões capaz de torná-lo mais promissor” (JERUSALINSKY,2002,p.116).

A intervenção da analista faz sentido, mesmo que a posteriori, quando a enfermeira nomeia R. como “mãe desnaturada”, posto que no entender daquela uma mãe não deixa um filho no hospital para outra pessoa cuidar.

Abre-se novamente um espaço de escuta e de fala, como encerra Ansermet (2003):

A fala, de fato, toca o real. Em oposição ao determinismo que impele o sujeito, a fala produz um efeito de corte, que pode revelar de um só golpe a evidência do real (...) uma intervenção o interrompe [o analisante]. Ele sai da repetição. Ao se dar conta de que fala, começa a escutar. Tomado de estranheza, um mal-estar o invade (ANSERMET,2003,p.103).

Esse mal-estar a que se refere Ansermet desarticula o discurso silencioso de R. e a faz produzir uma nova história de si mesma, experimentando o lugar de cuidadora, podendo, com isto, deixar de ser sintoma produzido em seu filho para encarnar-se como Outro, continuando numa “posição de mestria em relação à organização pulsional do bebê” (JERUSALINSKY,2002,p.187), mas para transbordá-lo de recursos simbólicos.

Ao retornar à Pediatria, a função materna opera e pode ser reconhecida pelo olhar da mãe para com o bebê. Mathelin (1999) diz que “a linguagem dos signos visuais é importante, como se o que interessasse o bebê fosse também o que havia a ser ‘visto’ na linguagem” (MATHELIN,1999,p.96).

As relações entre mãe e bebê estão renovadas, sendo reescritas, mas o que denuncia o lugar em que R. se encontra após o trabalho analítico é sua última fala endereçada à analista:



  • Sabendo ou não, sou EU A MÃE DELE!


CONCLUSÃO

O atendimento psicanalítico em situações de urgências físicas, como num nascimento prematuro, permite que a urgência psíquica seja também socorrida. Feita sob a técnica da escuta possibilita aos que sofrem um espaço no qual suas angústias são traduzidas em palavras.

Ao falar, e ao ouvir as intervenções analíticas, os protagonistas podem recriar algo novo em torno do vazio que sentem frente à situação inesperada, saindo do desamparo em que se encontram, tomando contato novamente com suas condições de sujeitos desejantes, podendo reencontrar seus filhos e reencontrarem-se a si mesmos nesse caos.

Escutar o silêncio de R. permitiu que um sentido fosse dado àquela história gestacional permeada de regressões e não-saberes acerca de seu lugar como mãe, hiato este que balizou a manifestação subjetiva do filho, ou seja, que fez sintoma no bebê.

O trabalho analítico resgatou uma menina de sua condição de assujeitamento, de alienação, e fez novamente circular seu circuito pulsional, alterando sua economia psíquica e trazendo, com isso, menos dor e sofrimento.

A psicanálise, entretanto, não se restringe aos que falam, aos que utilizam símbolos verbais para se comunicarem, visto que o corpo é também uma forma de expressão das inscrições inconscientes.

Sendo assim, o bebê inaugura uma outra escuta analítica, qual seja, ler no corpo o que seu circuito pulsional denuncia sobre a inscrição da demanda e do desejo provenientes do campo do Outro.

Nesse sentido, o trabalho com E. caminhou na tentativa de despertá-lo como sujeito, demandando dele algo e fazendo com que respondesse, ainda que minimamente, de um outro lugar que não o da passividade.

Frente aos incômodos que a psicanálise suscita, R. pôde finalmente assumir-se mãe de E., personificando a função materna e acolhendo o filho, inscrevendo-lhe simbolicamente em seu circuito demanda-desejo.

E. saiu da condição passiva de fazer letra ao sintoma materno e assumiu sua postura de sujeito em constituição, que chora, se incomoda, se satisfaz, que demanda atenção, cuidado e adoção afetiva.

A psicanálise entra neste caso, e em tantos outros provenientes de UTI Neonatal, no lugar do vácuo entre o filho imaginário e o filho real, entre as expectativas de uma gestação normal e a surpresa de um filho prematuro, fazendo com que as palavras, ou o corpo, ao serem escutados, alterem uma economia pulsional desencadeadora de angústia.

O analista, personificação deste saber, entra em cena nos buracos abertos entre os inconscientes materno e filial, ou seja, nas falhas em que um afeta o outro. Ao falar com o bebê em manhês a analista desempenha uma função materna que não se operava, convidando concomitantemente mãe e filho a se entenderem.



A clínica com bebês intervém no início da vida, é a psicanálise podendo intervir no nascedouro do sujeito, tempo em que se pode resgatar mais facilmente uma pessoa de um caos psíquico, como o autismo. Por produzir efeitos tão significativos, como o caso clínico mostrou, é que este espaço de trabalho cresce significativamente nos hospitais e serviços de saúde sérios, conscientes de suas funções para além da saúde orgânica.

BIBLIOGRAFIA





ANSERMET, François. Clínica da origem: a criança entre a medicina e a psicanálise. Rio de Janeiro: Contra-capa Livraria, 2003.

BARBOSA, Cristina Monteiro. O corpo para além da anatomia. Actas freudianas. Revista da Sociedade de Estudos Psicanalíticos de Juiz de Fora. Vol. I, n° 1, 35-43, 2/2005.

BUSNEL, M. C. (org.). A linguagem dos bebês: sabemos escutá-los? São Paulo: Escuta, 1997.

CATÃO, Inês. Adoção pela palavra. A mente do bebê: fascinante processo de formação do cérebro e da personalidade – interatividade e criação de vínculos sociais. Vol. 4, s.d., p. 42-47.

CATÃO, Inês. A tristeza das mães e seu risco para o bebê. Não Publicado.

ESTRADA, D. D. Vivo sem em mim viver. Anais do 1° Congresso Internacional do

Colégio de Psicanálise da Bahia, Salvador: EGBA, 1998.

FREUD, Sigmund. A experiência da satisfação (1950[1895]) Rio de Janeiro: Imago, 1996. v.1 Standart Brasileira, Obras Completas).

_______________. Projeto para uma psicologia científica. (1950[1887-1902]) Rio de Janeiro: Imago, 1997. v. 3. (Standart Brasileira, Obras Completas).




JERUSALINSKY, Julieta. Enquanto o futuro não vem. Salvador: Ágalma, 2002.

KOSSMANN, Silvia Helena; LANG, Rosa Sender. Reflexões acerca do observar na observação da relação mãe-bebê. Boletim Científico da Sociedade de Psicanálise do Rio de Janeiro. Vol. XVIII, n° 3, 1997.

LACAN, Jacques. O Seminário. Livro 11: os quatro conceitos fundamentais. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1990.

LAZNIK, Marie-Christine; PARLATO-OLIVEIRA, Erika. Quando a voz falha. A mente do bebê: fascinante processo de formação do cérebro e da personalidade – interatividade e criação de vínculos sociais. Vol 4, s.d., p.58-68. 2006.

LIGÓRIO, Maria Norma Salvador. Gravidez – aspectos emocionais. Epistemossomática. Belo Horizonte: Publicação do Departamento de Psicologia e Psicanálise do Hospital Mater Dei. Vol. II, abril/1992.

MAHLER, Margaret; PINE, Fred; BERGMAN, Anni. O nascimento psicológico da criança: simbiose e individuação. Rio de Janeiro: Zahar, 1977.

MATHELIN, Catherine. O sorriso da Gioconda: clínica psicanalítica com os bebês prematuros. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 1999.

MERHY, Emerson Elias. Engravidando Palavras: o caso da Integralidade. Construção Social da Demanda. Direito à saúde – trabalho em equipe – participação e espaços públicos. PINHEIRO, R.; MATTOS, R. Rio de Janeiro: CEPESC/UERJ: ABRASCO, 2005.

MORAIS, Maria Auxiliadora Barros.; BUCEK, Dora Maria Barbosa. Vicissitudes do puerpério. Epistemossomática. Belo Horizonte: Publicação do Departamento de Psicologia e Psicanálise do Hospital Mater Dei. Vol. II, abril/1992.

MOREIRA, Maria Elisabeth Lopes; BRAGA, Nina de Almeida; MORSCH, Denise Streit (orgs.). Quando a vida começa diferente: o bebê e sua família na UTI Neonatal. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2003.

NEVES, Luiz Antônio Tavares. Neonatologia: casos clínicos resolvidos e comentados. Juiz de Fora, s.e., 2005.

PLASTINO, Carlos Alberto. O primado da afetividade: a crítica freudiana ao paradigma moderno. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2001.

SALLES, Ana Cristina T. da Costa. A mãe e seu filho doente. Epistemossomática. Belo Horizonte: Publicação do Departamento de Psicologia e Psicanálise do Hospital Mater Dei. Vol. II, abril/1992.

SOARES, Cláudia Pedrosa. Há uma psicanálise do corpo? Psicanálise e hospital: a criança e sua dor. MOURA, Marisa Decat (org.), Rio de Janeiro: Revinter, 1999.

SOARES, Cláudia Pedrosa. Escutando a criança hospitalizada. Não publicado.

STERN, Daniel. O mundo interpessoal do bebê: Uma visão a partir da psicanálise e da psicologia do desenvolvimento. Porto Alegre: Artes Médicas, 1992.

TEPERMAN, Daniela Waldmam. Clínica psicanalítica com bebês: uma intervenção a tempo. São Paulo: Casa do Psicólogo; FAPESP, 2005.

VILELA, Maria Luisa Duarte. Aquém e além de uma sedução. Epistemossomática. Belo Horizonte: Publicação do Departamento de Psicologia e Psicanálise do Hospital Mater Dei. Vol. II, abril/1992.

WINNICOTT, Donald. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.




1 Este artigo deriva de um trabalho de conclusão de curso de Pós-Graduação em Psicanálise na UFJF.

2 SEP/JF – Sociedade de Estudos Psicanalíticos de Juiz de Fora.

    3 Prematuridade é todo parto ocorrido antes da 37ª semana de gestação.

    4 Outro: conceito introduzido por Lacan para dizer daquilo que é anterior ao sujeito e o determina em sua constituição, linguagem. Sua inscrição em maiúscula se dá para diferenciar do semelhante (outro).

    5 SNG: Sonda Nasogástrica (tubo de alimentação introduzido na narina do bebê até o estômago)

    6 Note-se que não há terceira pessoa, não há um vocativo para o filho, confundi-se quem pode sufocar, ela ou o bebê.

    7 Modo particular de falar com bebês.

    8 Piloro: orifício de comunicação do estômago com o intestino delgado.

    9 Jerusalinsky, 2002, p.63.

    10 Modo particular de falar com bebês.

    11 Idem I

    12 Metáfora da dobradiça. Jerusalinsky, 2002, p.141.


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal