A queda de chantal prym



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A QUEDA DE CHANTAL PRYM


Jefferson Luiz Franco - Mestrando em Estudos Literários / UFPR


“A existência é aleatória. Sem padrão a não ser o que imaginamos

depois de contemplar tudo por muito tempo. Sem sentido a não ser o que

escolhemos impor. O mundo desgovernado não é moldado por vagas forças

metafísicas. Não é deus quem mata as crianças. Não é o acaso que as trucida

nem é o destino que as dá de comer aos cães. Somos nós, só nós.”

Alan Moore, Watchmen.
Um dos mais famosos painéis de Hieronymous Bosch é chamado de Morte do avarento e mostra um homem em seu leito final que se inclina para receber das mãos de um pequeno demônio um saco de ouro. Às suas costas um anjo tenta, em vão, chamar-lhe a atenção para um crucifixo estampado em uma alta janela, pela qual adentra um facho de luz. Introduzindo-se na cena está a morte, cuja figura apavorante de um esqueleto envolto em um manto branco abre a porta do recinto tendo nas mãos uma única flecha que aponta na direção do condenado. Ao redor, outras presenças diabólicas de aspecto réptil esperam o momento de oferecer suas torturas mentais e físicas.

A persistência no pecado era um tema comum em Bosch e sua recorrência tinha, além da função de alertar para nossa falta de arrependimento, toques eminentemente sarcásticos, de altos níveis de acidez contra a sociedade que o cercava. Suas representações infernais, ricas em pormenores bizarros e monstros oníricos impingindo toda uma sorte de castigos cruéis aos condenados deviam funcionar como um permanente lembrete do pecado original e de para onde as tentações terrenas poderiam nos levar.

Comparando a composição da criação de Eva realizada por Bosch em sua representação do Juízo Final com o mesmo tema trabalhado por Michelangelo, o crítico inglês Trewin Copplestone destacou o fato de que, apesar de praticamente ser contemporâneo do mestre italiano, Bosch “tinha um senso profundo da realidade do inferno” (p. 27) enquanto o autor de Davi destacaria, na Capela Sistina, os valores humanos inerentes àquela história.

Esta materialidade do inferno como região e como tormento literal está, ao mesmo tempo, presente e ausente naquela que talvez seja a maior obra a tratar de suas paragens desoladas: a Comédia de Dante Allighieri. Enquanto o poeta acompanha Virgílio por uma infindável coleção de almas torturadas começa a se destacar, contrastando com a crueza e realidade das aflições que presencia a dupla (todas elaboradas ao melhor estilo medieval de Bosch), uma verdade indissolúvel e que destaca a Comédia como muito distante das figurações do pintor holandês: nas suas representações infernais, Bosch mostra pecadores em agonia, estertorando e muitas vezes demonstrando um arrependimento tardio, mãos postas em sinal de redenção. Dante, entretanto, ao acompanhar Virgílio, várias vezes conversa com condenados que demonstram uma grandeza humana capaz de brilhar além das chamas que os cercam.

Assim é com Farinata, que no Canto X do Inferno levanta de sua tumba ígnea para questionar o poeta a respeito dos destinos dados à sua pátria, “altivo, empinava o peito e a cabeça, como ao próprio Inferno demonstrando votar desprezo” (DANTE, 1979, p. 54). O velho líder político continua a se importar apenas com Florença e o mundo que o cerca é apenas o preço a pagar por ter feito o que acreditava (e prossegue acreditando) ser o correto.

Da mesma maneira, Capaneu, um dos sete reis sitiantes de Tebas, no Canto XIV, questionado por Dante acerca de sua identidade, responde: “Continuo, morto, a ser o que fui em vida. Pode Júpiter cansar no trabalho o seu forjador de raios, com os quais, no último dia, saciou em mim o seu furor vingativo; pode ativar os seus ciclopes na forja de Mongibello, a negra oficina, incitando-os aos gritos de ‘Acode, bom Vulcano, ou serei vencido!’, como gritou na batalha de Flegra, nem assim conhecerá da vingança o gozo inteiro” (DANTE, 1979, p. 165).

Não há nada mais radicalmente diferente dos condenados de Bosch do que essa surpreendente declaração de Capaneu, sua determinação em resistir aos mais atrozes castigos com o único intuito de permanecer exatamente aquilo que era vivo é a demonstração clara da transformação que se iniciava com Dante e não atingira ainda, quase duzentos anos depois, a cidade holandesa de s’Hertogenbosch, na qual Hieronymous Bosch criou seus tormentos medievais. Na realidade, podemos afirmar que quase setecentos anos após o Inferno de Dante acender seus lumes sob nossos olhos, o bem e o mal ainda aparecem retratados como anjos a nossas costas e capetinhas que nos tentam com sacas de ouro, sem nenhuma grandiosidade humana.

É sobre o desaparecimento dessa mínima marca de humanismo em alguns textos da contemporaneidade que falaremos agora.



O demônio e o sr. Coelho

O objeto de análise deste texto pode causar estranheza e até mesmo graves casos de torções nasais nos mais diversos críticos e a mim mesmo espanta essa inesperada escolha por uma obra que absolutamente não contém nenhuma grande revelação estética e tampouco conta com a simpatia do estabelishment.

No entanto, acredito que O demônio e a srta. Prym tem a nos dizer muito mais do que as lições de filosofia pragmática incrustadas em suas entrelinhas. Profundamente entranhado no mercado editorial e sensível às suas leis de produção, seu autor, de maneira consciente ou não, impregnou sua obra com um espírito muito mais universal e dominar que a pobre meia dúzia de anjos caídos que se empenham nessa inglória batalha de disputar com suas contrapartes celestiais as milimétricas vantagens advindas da conquista de cada alma em uma custosa operação varejista.

O verdadeiro demônio que expõe sua caratonha nas margens do texto é muito mais astucioso e há muito deixou de perder tempo convidando-nos a pactos assinados com o sangue que pinga de um dedo perfurado. Ele já nos domina - seu olhar maligno segue-nos nas ruas por trás de cada modelo de outdoor, ouve nossas bobagens transmitidas através das ondas radiofônicas e espia dentro de nossas casas esticando sua cabeça corneada para fora de nossos receptores de vídeo. Sua língua bifurcada dita aos redatores de jornais e revistas e, no final, descobrimos que os sete círculos do reino subterrâneo foram loteados de acordo com o plano de pagamento com o qual você pode arcar.

A introdução d’O demônio e a srta. Prym conta com uma interessante preleção acerca dos mitos de divisão e da complementaridade do bem e do mal, em sua eterna luta para conquistar almas humanas. Questionando o sentido das palavras, Coelho cita o Genesis 3:22: “Então disse o Senhor Deus: Eis que o homem se tem tornado como um de nós, conhecendo o bem e o mal”. E conclui: “desde suas origens a raça humana está condenada a mover-se na eterna divisão entre os dois opostos” (COELHO, 2000, p. 3).

Esta visão do ser humano como títere sujeito às influências malévolas (ou benévolas) que transcendem sua capacidade de compreensão e, principalmente, seu livre-arbítrio é, provavelmente, o cerne medieval que permanece intocado e que se liga através de uma linha direta à idéia platônica da diferenciação clara e natural de um bem e um mal absolutos, ou, pelo menos, distingüíveis à primeira vista por aquele que está preparado para reconhecê-los. Esta visão é mais explícita no Livro X da República, no qual, no fragmento imediatamente anterior ao 609 a-e, Sócrates questiona Glauco:



- Há uma coisa que chamas bem, e outra mal?

- Há.

- Porventura pensas sobre isso o mesmo que eu?

- O quê?

- Que tudo que destrói e corrompe é mau, ao passo que o que salva e preserva é bom.

- É o que penso.
(op. Cit., p. 308)
É bastante mais impressionante apreendermos neste trecho, além de seu maniqueísmo, a clara orientação em favor da conservação, do congelamento perpétuo de todos os valores considerados relevantes socialmente por Platão. Em sua República filosoficamente concebida, além das funções estreitamente monitoradas, cada habitante teria um repertório moral idêntico ao de seus antepassados. A República não admite que o passar do tempo a afete.

No entanto, a diferença primordial de Platão a Paulo Coelho está, se não no conceito de bem e mal, no seu portador: para o filósofo grego, o homem injusto não poderia fazer um homem bom esquecer a justiça, assim como o músico não pode fazer com que outrem “desaprenda” a música (Livro I, 334 a-e). Já para o autor de “O demônio e a srta. Prym” um estrangeiro, um “outro”, da mesma maneira que um único fragmento de gelo pode causar a cristalização de centenas de litros de água supergelada, pode agir como a maçã podre capaz de tirar dos eixos uma comunidade.

Sejamos claros em admitir, no entanto, que tal fato não está apenas no livro de Paulo Coelho que, ao contrário, dialoga com uma extensa tradição do estranho portador da peste, seja ela moral ou física. Apesar de não ser nosso objetivo trabalhar estas obras, poderíamos destacar, por sua semelhança de tratamento, “A pérola”, de John Steinbeck e “O homem que corrompeu Hadleyburg”, de Mark Twain, texto o qual, segundo a análise de Ítalo Calvino em “Por que ler os clássicos”, se trata de “uma versão simplificada e elementar da moral puritana, com uma doutrina da queda e da graça não menos radical mas transformada numa regra de higiene clara e racional como o uso da escova de dentes” (p. 170).

Obviamente, e isso é válido tanto para o Twain que Calvino identifica como um folk-writer quanto para o mega-best-seller Coelho, uma regra clara e racional é muito mais simples de colocar em pauta do que a dubiedade que reina no Inferno de Dante, onde o bem, o mal, o orgulho e a honra, se transformam em um borrão indistinto de cinza, em lugar de um salutar branco e preto com limites bem definidos.

Aliás a sociedade de consumo e mass media norte-americana pode ser considerada notável por sua constante necessidade de reafirmar os limites exatos do bem (com a qual ela própria se identifica) e com o mal (geralmente personificado pelo outro, o estrangeiro). Essa necessidade está presente desde os desenhos animados em que, de maneira muito paralela ao que Paulo Coelho faz em seu romance, o produtor Walt Disney submetia o irascível Pato Donald a tentações malévolas provindas de uma pequena e flutuante figura diabólica constantemente combatida, sempre com sucesso final, por sua contraparte angelical, retratada de branco, portando uma auréola e harpa.

Essa visão social WASP, white anglo saxon protestant, além de católica, eu acrescentaria está se tornando, em escala crescente, mundial e pode ser encarada como uma representação em gigantesca escala da experiência de Milgram citada por Zygmunt Baumman em Modernidade e holocausto: uma vez apartado da responsabilidade de seus atos por uma autoridade (divina ou terrena) disposta a arcar com suas conseqüências o sujeito está livre para exercer suas mais cruentas fantasias, pois neste momento não passa de um heterônimo de outrem (BAUMANN, 1998, p. 190).

Seja qual for a definição: heteronomia ou títere animado por forças além da compreensão, o caráter social do mal, identificado por Baumann através das subseqüentes experiências de Philip Zimbardo nos leva a refletir sobre o grande sucesso comercial dos livros de Paulo Coelho: além da vitória de um bem com o qual nos identificamos no final, quanto da atenção destes leitores não é despertada pelo fato de encontrarem no retrato de uma personagem como Chantal Prym a absolvição de seus próprios pecados, como a ganância e a inveja? Será a confirmação da existência de um “Eichmann latente” (BAUMANN, 1998, p. 195) no interior de todo o homem comum definitiva para a pacificação da consciência destes leitores? O mal cometido pelo personagem me redime do mal que cometi? O fato de a srta. Prym agir corretamente no final e ser regiamente recompensada monetariamente me dá esperanças de que minhas ações desagradáveis ou de moral questionável façam parte, enfim, de um grande plano divino de salvação da minha ou de outra alma qualquer e que, mesmo sem saber exatamente por que, eu serei merecedor, ao final de uma grande quantidade de ouro?

Curiosamente, apesar de utilizar-se da mitologia judaico-cristã de anjos e demônios que disputam a alma humana, Paulo Coelho, parece não levar muito a sério a infalibilidade divina, pois o texto tem seu mote na falha de um suposto anjo protetor, que, permitindo a morte de uma criança durante um seqüestro, lança o personagem não-nomeado do estrangeiro, pai da vítima, em busca de uma solução que lhe permita enxergar a verdadeira essência da natureza humana: se boa ou má.

Obviamente esta busca - que inclui sua ida à minúscula e decadente vila de Viscos, com a proposta de oferecer dez barras de ouro aos seus habitantes se todos se unissem para cometer (e encobrir, claro) um único crime: um assassinato - leva à conclusão absurdamente óbvia de que, segundo o autor, tudo é uma questão de controle e de escolha (COELHO, 2000, p. 101).

O questionamento que se impõe é claro: controle de quem (ou que)? Quem é responsável e quem orienta nossas escolhas. Afinal, há dentro de cada um de nós um Eichmann esperando a oportunidade de mostrar suas garras? Bauman afirma que a crueldade é social em suas mais profundas raízes: mais que um traço de caráter, uma marca da estrutura social vigente e que a maioria das pessoas se encaixa no papel de agressor contanto que este papel seja legitimado por uma autoridade superior (BAUMAN, 1998, p. 196).

Em O demônio e a srta. Prym o crime é legitimado pelos mandatários do povoado que, vêem no sacrifício de uma única pessoa, a oportunidade de salvar do caos econômico a vila que está desaparecendo pela evasão de seus jovens em busca de trabalho e estrutura. No entanto é emblemático notar que o principal defensor desta ação é o padre da cidade, que, através de um raciocínio tortuoso, busca recuperar a freqüência de seu rebanho à paróquia quase abandonada. Trava-se, portanto, o questionamento entre o “falso profeta” - de um deus que autoriza o uso da máxima vulcaniana de que as necessidades de muitos se sobrepõem às necessidades de alguns - e a disputada e tentada por anjos e demônios Chantal Prym, que acaba por impedir o crime através de um ardil.

Sua intervenção final, no entanto, não é movida apenas pelo horror, pois através da mesma artimanha nossa heroína consegue se apoderar de todo o ouro destinado à cidade, em lugar da única barra que lhe foi anteriormente oferecida pelo misterioso estrangeiro. O livro termina com o abandono do vilarejo por sua última jovem, Prym, condenando, ao que parece, Viscos ao desaparecimento inevitável.

Muito além da obviedade redundante da dicotomia humana, o que Paulo Coelho expõe, nas entrelinhas de seu romance diz muito mais sobre nossa sociedade do que ele mesmo gostaria de admitir. Se há uma natureza social do mal exposta por Bauman em Modernidade e holocausto ela só pode ter como objetivo impor uma separação excludente entre a sociedade que a gerou e o outro, o estranho, o invasor. O mal aí se identifica com a violência, o preconceito, a negação. O mal assume, portanto, a função protetora do muro eletrificado, dos cacos de vidro e grades de aço: não apenas atuar de forma repressora contra aqueles que desejam ingressar sem o convite, como, também, servir como aviso e meio de intimidação prévio dos que alimentam esta aspiração.

Isto está especialmente destacado nas sucessivas referências feitas pelos personagens, a um semi-mitológico reformador árabe de Viscos, coincidentemente (ou não?) denominado Ahab. Anteriormente destacando-se apenas como o mais cruel dos saqueadores que dominavam o posto fronteiriço gérmen da futura vila, o árabe é tocado pela pregação e atos de São Savin, ermitão da cristandade que habitava a região. Passou, pois a organizar, moralizar e sanear as relações da cidade, erigindo, como lembrete aos que desrespeitassem a nova ordem estabelecida, uma forca na praça central.

Quase se torna irrelevante exibir ainda mais o ciclo de violência implícita perpetuado e apregoado neste trecho. Ao fundo, a moral da história (de que os homens só são bons quando coagidos a sê-lo) é um elemento insignificante para a apologia da repressão e do aparelhamento estatal que passa a atuar como um primitivo “grande irmão”, vigilante e admoestador, sempre mostrando que as conseqüências do desafio e da independência recairão sobre o pescoço de seus perpetradores.

O nome Ahab é, portanto, esclarecedor, mesmo que tenha sido adotado com outro objetivo, da futilidade da busca da justiça provinda de uma intervenção externa, divina ou não: quer sob a ordem caótica do posto fronteiriço, quer sob a rigidez moral da Viscos cristã, o instrumental de dominação se perpetua na violência explícita ou nas ameaças de violência sancionadas pelo estado. Mudam-se os interesses, mas não seu modo de atuação. O árabe Ahab persegue a baleia branca da justiça apontada a ele por um santo cristão, até as últimas conseqüências, sem nunca perceber que corria de encontro ao esquife no qual seriam sepultadas sua cultura e seu modo de vida, trocados por uma vida eterna de autocontrole vigiada por uma divindade onipresente, afinal, como diz o padre Mapple na obra de Melville, “se obedecermos a Deus, devemos nos desobedecer. E é nesta desobediência que reside a árdua tarefa de obedecer a Deus”.

Voltando à questão da função protetora assumida pelo mal, podemos pensar sobre quem serão aqueles indicados ao papel de excluídos na pós-modernidade? O próprio Bauman aponta-os em seu livro posterior, O mal-estar da pós-modernidade: são os consumidores falhos, aqueles que, por razões econômicas não podem pagar por suas entradas na festa consumista da moderna economia globalizada - são a sujeira, aquilo que se recusa a entrar em ordem (BAUMAN, 1997, p. 25).

Sob este foco, podemos encarar O demônio e a srta. Prym não como uma luta entre forças opostas, mas como o esforço de uma das partes para conseguir sua integração à outra. Chantal não busca, ao longo da obra, sua redenção a não ser financeira. A srta. Prym é a sujeira em seu povoado, o ponto discordante da ordem local; mas o sucesso de sua empreitada em busca da fortuna abre-lhe as portas de uma condição suficientemente elevada para reverter o quadro, passando a considerar todo o restante de Viscos como descartável e condenada diante da nova organização possibilitada pela sua ascensão econômica, reforçando e realimentando o ciclo contínuo de exclusão. Não há nenhum questionamento quanto a este desenrolar e ele é colocado como parte de uma ordem natural: Chantal Prym, enfim, cede ao demônio insidioso que espia pelas margens livro de Paulo Coelho e coloca à mostra o fato de que o best-seller não está realmente acenando com orientação e sim com a absolvição e a proposta de conformidade a um sistema maior e indiferente ao fato de seu dinheiro provir do comércio de armas ou de um gesto de heroísmo.

Neste sentido, e de maneira certamente um tanto irônica, Coelho realmente colabora para que progridamos no sentido do auto-conhecimento. Infelizmente, no entanto, não há nenhuma magia no retrato com o qual nos deparamos. Assim, em um pastiche do conto William Wilson, de Edgar Alan Poe, acabamos por nos deparar com nosso duplo malévolo e o atacamos apenas para descobrir que era apenas nossa imagem no espelho.

Talvez mais adequado fosse citar outro conto, desta vez de Borges, chamado O tema do traidor e do herói. Nele, Fergus Kilpatrick, patriota irlandês é descoberto tanto como traidor da causa, mas seu bisneto, que traz a história a lume, abafa-a com medo das conseqüências. Borges, ironicamente, termina o texto afirmando: “também isso, talvez, estivesse previsto”. Certamente a inclusão de Chantal Prym em um dos círculos do mal, como sua profeta, também, mesmo que seus leitores e seu criador não conseguissem enxergar este fato. Mas a perspectiva não lhes ajudava, pois olhavam de dentro do abismo de uma sociedade cuja a maior virtude pode ser figurada pela carantonha feroz da ganância de Bosch.


REFERÊNCIAS

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BATTAILE, Georges. A literatura e o mal. Porto Alegre : L&PM, 1989.

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e holocausto. Rio de Janeiro : Jorge Zahar, 1998.

BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro : Jorge Zahar, 1998.

BÍBLIA Sagrada: nova tradução na linguagem de hoje. Barueri : Sociedade Bíblica do Brasil, 2000.

BORGES, Jorge Luís. Ficções. São Paulo : Abril, 1972.

CALVINO, Ítalo. Por que ler os clássicos. São Paulo : Companhia das Letras, 2000.

COELHO, Paulo. O demônio e a srta. Prym. S.l. : Edição eletrônica de www.paulocoelho.com.br, s.d.

COPPLESTONE, Trewin. Vida e obra de Hieronymus Bosch. Rio de Janeiro : Ediouro, 1997.

GINZBURG, Carlo. Olhos de madeira, nove reflexões sobre a distância. São Paulo : Companhia das Letras, 2001.

MANGUEL, Alberto. Uma história da leitura. São Paulo : Companhia das Letras, 1997

MELVILLE, Herman. Moby Dick. São Paulo : Abril, 1990.

PLATÃO. A república. São Paulo : Martin Claret, 2000.



STEINBECK, John. A pérola. Rio de Janeiro : Record, s.d.


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